Sempre foi Você
3 Será o destino meu amigo?
Notas iniciais
"O destino, como os dramaturgos,
não anuncia as peripécias nem o desfecho."
— Machado de Assis.
A noite fora difícil para ambos. Cabeça e coração trabalhando juntos, incansavelmente, para lembrá-los do quanto o dia que passara mudou a vida e os sentimentos de cada um. E o que eles não faziam ideia, era do quanto ainda iria mudar.
A conversa entre Regina e Zelena fizera com que a morena lidasse melhor com tudo que estava sentindo. Ou ao menos tentasse. Não é de uma hora para outra que coisas dessa complexidade são resolvidas, certo? Pelo menos é o mais compreensível. Lidar com sentimentos que nenhum dos lados esperava é demasiadamente complicado. Lidar com sentimentos, por se só já é bem complicado.
Regina dormia em um sono recém-adquirido, de quem passara a noite em claro. Um sono que chegou para sessar toda a batalha que seu âmago estava vivenciando. Era tudo que sua mente barulhenta pedia, silêncio! Mas, ao que parecia, o tempo não compartilhava do mesmo desejo da morena. O tempo ou qualquer força maior não estava de acordo com aquele sessar de pensamentos. Com a calmaria.
Regina foi desperta pelo barulho estridente e extremamente irritante de seu despertador, e naquela mesma hora desejou ter poderes mágicos e fazê-lo sumir com um simples estalar de dedos. Mas, infelizmente, no mundo real esse desejo não poderia ser atendido, para que o barulho pare as pessoas precisam fazê-los parar. A morena levou alguns travesseiros ate seu rosto afim que o barulho diminuísse, coisa que não adiantou muito. Ela se aproximou do aparelho, desligando-o, fazendo com que o silêncio da manhã voltasse a reinar. Tudo que ela queria era dormir para não pensar, mas nem isso conseguiria. Regina permaneceu um bom tempo debaixo das cobertas e sua mente voou diretamente para certo loiro de olhos azuis intensos. Bateu os dois braços na cama em sinal de irritação. Resolveu levantar-se, abrindo as cortinas e pode se deparar com um céu tão azul quanto às orbes que estavam rondando seus pensamentos há um instante atrás. "por que tudo tem que ser azul? Droga!’’
Com a animação de quem não queria estar de pé, dirigiu-se ao banheiro para se arrumar, afinal, o dia tinha que começar alguma hora. Permitiu-se relaxar com a água quente que caia sobre seu corpo, torcendo para que limpasse também seus pensamentos. Foi ate seu closet, vestindo uma roupa leve e logo em seguida seus pés se direcionaram para a cozinha, atrás de um bom café da manhã.
Sua cozinha seguia a mesma linha de decoração de sua sala, amava como tudo tinha sido decorado, como tudo ali tinha sua cara. É uma cozinha espaçosa, com uma grande janela de vidro que dava pra ver toda a plenitude de Nova York, os eletrodomésticos eram de um cinza metálico e o restante dos moveis são pretos, sua cor preferida, além de um balcão no meio coberto por mármore na cor cinza chumbo. Ela realmente amava preto.
Preparou sua comida e sentou-se ali mesmo no balcão, não era de usar muito a mesa de jantar, preferia as coisas mais praticas. Lembrou-se que no dia anterior, naquela mesma hora, estava indo ao encontro do desconhecido. Questionou-se se não poderia fazer isso de novo, se não poderia apressar o destino, se não poderia ela mesma ser a escritora daquela cena. Tudo que ela queria era poder encontrá-lo outra vez, mesmo que aquilo fosse quase impossível. Decidiu por fim se agarrar a aquela possibilidade.
Se quisesse encontrá-lo teria que sair naquele mesmo instante. Colocou o prato e a xícara na pia e foi até a sala pegar sua bolsa e as chaves do carro que deixara no dia anterior na mesinha de canto. Ela sentia seu coração dar leves sobressaltos, como se aquilo fosse à atitude que ele mais estava esperando. Como se a cada batida desregulada viesse junto à confirmação que o caminho que ela escolhera fora o certo.
Mas, essa certeza não durou muito tempo. O som de seu celular veio como um banho de água fria. Um puxão para a realidade.
Ela atendeu como se sentisse que seus planos escorrendo pelo ralo.
LIGAÇÃO ON
— Alô? – Atendeu com a voz desanimada.
— Bom dia! Acordei você? – A voz do outro lado a pergunta, com uma animação que fora capaz de fazer Regina revirar os olhos.
— Bom dia! Não, já estava acordada. Algum problema? – Perguntou-a, com um fio de esperança que não fosse nada e ela pudesse seguir caminho.
— Eu sei que você não costuma vir pra cá há essa hora, mas preciso que venha ate aqui.
— Agora? – e realmente iriam.
— Sim!
— Não tem como esperar mais um pouco? Tenho que resolver umas coisas antes.
— Você sabe como essas coisas funcionam. Não te ligaria se não precisasse mesmo, desculpe!
— Não, tudo bem! Vou me trocar e já estou indo.
— Okay, ate mais!
— Ate!
LIGAÇÃO OFF
Regina jogou o celular no sofá com um semblante de decepção. Se ela fosse perderia a oportunidade de vê-lo, mas eram responsabilidades de uma vida adulta e não poderia escapar, mesmo que tudo que quisesse naquele momento fosse isso.
Foi ate seu quarto para trocar de roupa. Fez uma maquiagem leve, deu uma leve escovada em seus cabelos negros e já estava pronta. Pegou seu celular, que desde cedo a estava irritando, bolsa e as chaves do seu carro. Saindo para um caminho oposto ao qual ela realmente queria ir.
Dentro de seu carro, Regina poderia afirmar com toda certeza que o começo daquele dia não estava saindo do jeito que ela imaginara. Tudo a estava irritando, tudo estava fora do controle. E ela odiava se sentir perdida. O trânsito estava maior que o normal, parecia mais uma das N coisas que estavam programadas para deixá-la irritada.
Tudo estava errado.
E o que ela achava certo, no momento não poderia ter.
♡♡♡
Não muito longe dali, o loiro também não estava tendo um começo de dia muito fácil.
Robin também não tivera uma de suas melhores noites. Não tivera pesadelos, muito pelo contrário, para ele seria mais considerado como sonho. Um sonho com nome e com um sobrenome que ainda não tinha conhecimento. Não porque não quisera, estava longe de ser isso, mas por pura falta de oportunidade. Se tudo dependesse dele, já estaria até com o endereço dela. A morena divagou em seus pensamentos a noite toda. Tudo vinha em sua mente como se estivesse vendo-a em sua frente. Todos os traços, os gestos, as gargalhadas que a deixavam ainda mais apaixonante. Tudo. Robin não sabia como lidar com tudo o que sentira, com tudo que surgiu em seu peito quando a viu. Mas, de uma coisa ele tinha certeza, alias, a única que ele tinha no momento, não queria deixar de sentir.
Ele tinha total convicção disso. Da mesma forma que na matemática convencional dois e dois são quatro.
Os raios do sol já se faziam presentes em seu quarto, passando pelas brechas da cortina. Um aviso para ele que outro dia começara. Um dia que ele não faz ideia como termina. Só mais um dia.
Tudo estava fora de seu prumo. Dava pra contar nos dedos todas as vezes que se sentiu assim. Sem rumo, sem norte.
Resolveu levantar e repetir seu ritual de todas as manhãs. Caminhou ate o banheiro, fez suas necessidades matinais, em seguida entrou no box e tomou um bom banho. Quem sabe a água corrente não o ajudava a sanar alguns de seus questionamentos? Quem sabe ela não levaria consigo tudo que estava o deixando inquieto? Chegava ate ser ingênuo esse pensamento. Ledo engano se ele achara que o que ele sentira poderia se esvair com as gotas de água. Pobre loiro.
Foi ate seu armário, pegou um de seus ternos e se trocou. Logo após, foi ate a cozinha para fazer seu dejejum.
Entre um gole de café e outro, sua mente divagava entre todas as coisas que estavam acontecendo em sua vida naquele momento. Mudou de cidade, deixando todo mundo para trás, agora com uma nova casa e um novo emprego. E ainda tinha todo aquele caos interno que se instalara dentro dele. Definitivamente Nova York possuía um agito incomum.
Bebericou mais um gole de seu café, como se esse ato o trouxesse de volta para a realidade, levantou, pegou suas coisas e saiu para mais um dia de trabalho.
No caminho para o trabalho Robin estava mais uma vez alheio a tudo. Essa mania estava se tornando cada vez mais constante. Vendo aquelas pessoas ali, com a típica pressa Nova-iorquina, àquela hora da manhã, só fazia com que a mente do loiro o levasse a lembrar de que há um dia estava indo ao encontro dela. Que há um dia decidiu esperar o destino agir novamente. Que no dia que passara tudo se tornou denso demais em seu âmago. E se ele não tivesse que esperar para que o destino juntasse os dois outra vez? Essa pergunta rodava em sua cabeça como um bumerangue. Ele poderia ir ate lá, não poderia? Ele poderia por essa vez tomar controle da situação. Ele poderia ser o dono de seu próprio destino.
Era tudo o que ele mais queria.
Na verdade, era tudo o que seu coração gritava.
ROBIN POV
Ver todas aquelas pessoas na rua me fez pensar no que eu deveria fazer diante de toda aquela situação. A imagem de Regina atormentava minha mente, como se isso fosse uma maneira que meu corpo escolhera para que não pudesse esquecê-la. Como se quisesse. Como se fosse possível. Nesse momento seria uma tarefa a qual não seria capaz de executar. Esquecer aquela morena estava fora dos meus planos. O que eu poderia fazer? Sentar e esperar ate que o tal destino resolva me presentear com outra visão sua ou ir eu mesma buscá-la?
A minha resposta veio na mesma hora que mudei de rota. Não estava mais indo em direção ao trabalho. Estava indo para o lugar em que meu coração não queria ter saído, ou melhor, estava indo para onde ele ficou.
O caminho até o Central Park estava caótico, como se todas as pessoas tivessem escolhido sair no mesmo horário. Parecia que hoje o destino não queria brincar de ser meu amigo. Tudo que queria é que isso fosse apenas um mal entendido. Um mal entendido com o tempo. Ainda queria estar na lista de amigos do destino.
Fiz o restante do trajeto com uma dose extra de ansiedade, provavelmente estava apostando no escuro indo ate lá, mas não poderia continuar desse jeito. Sem conseguir um mínimo de foco possível. E o único jeito era indo ate o único lugar que sabia que poderia encontrá-la. Eu poderia estar sendo muito ingênuo? Certamente. Mas, era tudo o que eu tinha.
Fora quase impossível achar um lugar para estacionar, definitivamente tudo estava contra. Apressei-me ao máximo para que pudesse chegar ao mesmo horário dos outros dias, assim não correria o risco que nossos horários não batessem.
Enquanto ia me dirigindo para o interior do parque, recebia olhares curiosos, não seria para menos, o que uma pessoa de terno vem fazer em um parque? Encontrar a mulher mais maravilhosa que meus olhos já flagraram, com certeza seria minha resposta.
Cheguei ao mesmo banco já tão conhecido pelos meus olhos, e me veio um súbito aperto. Talvez, porque ele estivesse vazio. Ela não estava lá. Aquele enfeite de madeira posicionado perfeitamente no meio do parque estava mais comum que o normal. Só era mais um banco. Hoje não tinha nada de especial nele. Ou melhor, ninguém.
Hoje diferente dos outros dias, estava marcando as horas. Minutos e segundos. Já estava ali há um tempo considerável e nada dela aparecer. Minha esperança recém-adquirida e a fé em um destino, estavam sendo aniquiladas a cada segundo que o ponteiro do meu relógio adiantava.
Qualquer pessoa poderia ver o que os meus olhos demonstravam agora... Frustração. Era tudo que restara. Fui um tolo ao pensar que as coisas chegariam ate mim de mão beijada. Que eu poderia encontrá-la mais uma vez. Eu realmente achei.
Fui embora com um sentimento bem diferente do qual cheguei aqui. A esperança que brotou desapareceu quase que como se alguém arrancara, como se arranca uma planta pela raiz. Não existia mais nada. Só um vazio.
Só o que me restava a fazer era seguir meu caminho de volta ao trabalho. Tinha a absoluta certeza que o dia não se encaminharia do jeito que esperava. Do jeito que eu desejava.
Antes de chegar à empresa, avisto um café que ficava nas proximidades e resolvo parar. É a primeira vez que venho aqui. Alias, não visitei muitos lugares desde que cheguei. Provavelmente nenhum. Minha rotina era casa, parque, trabalho. O parque já estava riscado da minha lista.
Quem sabe um café quente pudesse devolver a harmonia para o meu dia. Era tudo o que precisava. Um café para curar uma noite mal dormida e um dia que começara decepcionante demais. Só um café.
O lugar era muito aconchegante, poderia dizer ate familiar. A decoração bem planejada dava uma cara moderna ao ambiente. Era como se ali estivesse em casa.
— Bom dia, senhor! O que deseja? – uma moça de cabelos castanhos que iam ate a metade das costas, muito simpática, me perguntou.
— Bom dia! Um café expresso duplo e sem açúcar, por favor! – Estava apoiado no balcão me mantendo alheio a tudo.
— Certo! Só um minuto.
Tomei um gole generoso do café, como se isso fosse resolver todos os problemas do mundo. Como se a cada gole no meu café pudesse aliviar toda a frustração que me envolvia. Odiava me sentir como uma criança que perdeu seu bicho de pelúcia preferido. Não que estivesse a comparando com um bicho ou um brinquedo, pelo amor de deus! Não pensem mal de mim a esse ponto. Só é frustrante não ter aquilo que se deseja. Sai dos meus devaneios, indo ate o caixa fazer o pagamento. Senti uma súbita vontade de olhar mais adentro do café. Meus olhos vasculhavam ao redor como se buscasse algo.
Quando minha mirada foi de encontro a aquela imagem tão conhecida e aclamada, estagnei no mesmo minuto. Ficou difícil respirar, meu coração perdera algumas batidas. Para falar a verdade nem saberia dizer se continuaria batendo.
Talvez o destino voltara a ser meu amigo, afinal.
POV OFF
Bem na sua frente, sentada em uma das mesas daquele café, estava à morena que Robin passara a manha quase toda a espera. Estava linda como sempre, ele nunca cansaria de repetir. Ele nem poderia acreditar em tamanho acaso. Não conseguia pensar em muita coisa para ser bem justo. Tudo que ele sentia era o fio de esperança se impregnando entre seus poros. Ali, no meio da cafeteria, estava tendo uma espécie de djavu, de quando ficara parado no meio do parque alheio a ela.
Em um passe de magica tudo voltara ao seu prumo.
Como se ela passasse a ser seu norte.
Seu eixo.
Eles eram apenas os bispos em meio a um jogo de xadrez que tinha como rainha o próprio e irrefutável destino.
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