Sempre foi Você
2 Quando chega sem aviso
Notas iniciais
"Então você está confusa com seus sentimentos. Ele apareceu tão de repente na sua vida, com aquele brilho manso no olhar, com aquela meiguice na voz, sem pedir coisa alguma, meio como um Pequeno Príncipe caído de um asteroide. A princípio você nada percebeu de diferente. O susto veio quando você se lembrou das palavras da raposa, explicando ao Pequeno Príncipe o que era ficar cativo: É assim. A princípio você senta lá e eu aqui. Depois a gente vai ficando cada vez mais perto. Os passos de todos os homens me fazem entrar dentro da minha toca. Mas os seus passos me fazem sair…"
— Antoine de Saint-Exupéry
Nenhum dos dois conseguiu ter um dia produtivo depois das horas que passaram conversando no parque. Uma conversa que nenhum dos dois desejava que tivesse fim. Por eles, continuariam ali, sem se importarem com o quão longe eles teriam ido, na companhia um do outro. Por eles, contar o tempo não se fazia necessário naquele momento. O avançar das horas não era o inimigo ali. Juntos naquela manhã, se sentiram completos. Admitir isso, para si mesmos, no entanto, estava fora de cogitação. Por achar que estava tudo indo rápido demais ou simplesmente por medo, um medo que, desde o inicio, era compartilhado pelos dois.
REGINA POV
Em nenhuma hipótese do meu dia, sonharia com tudo que aconteceu. Claro que fui ao parque na esperança de encontrá-lo de novo, mas meu lado racional estava ciente que isso poderia não acontecer. Não só o encontrei como conversamos. Sim! Tivemos uma conversa maravilhosa. Eu realmente poderia ficar ali, naquele banco, por horas e horas. Foi tão inexplicável nossa conexão, nossos olhos se completavam como quebra-cabeças perdidos. Eu não saberia dizer se estava preparada para tudo isso, mas diante da loucura dos sentimentos, não importava muito.
Quando ele tocou meu braço, eu quis fazer morada ali para sempre. Meu corpo inteiro pediu por isso. Corpo, alma e coração estavam em completo acordo ali. Virar as costas e seguir meu caminho, um caminho que ele não compartilhava, foi demasiado difícil.
Deitada no meu grande e espaçoso sofá preto, esses pensamentos inundavam minha mente sem ao menos pedir permissão. Chegavam para me lembrar do quanto fui idiota em não ter trocado nenhum contato com Robin. Mas, também pudera, eu estava realmente fora dos eixos. Só estou me dando conta agora. Malditos sejam aqueles olhos azuis que me fazem perder o foco. Malditos e maravilhosos, diga-se de passagem.
Perdida em meus devaneios, que agora eram constantes, sou trazida para a realidade com o soar da companhia. Meu coração deu leves saltos com o susto. Só poderia ser alguém conhecido, já que o Sr. Thomas, o porteiro do prédio, não interfonou para avisar. Fui andando com a maior calma até a porta, que pela insistência, já imaginava quem seria. Dito e feito. Quando abri a porta, era ela. Meu furacão ruivo.
— Você já foi mais rápida, Sis! – Zelena e sua típica gracinha que costumam deixar qualquer um de cabelo em pé.
— Boa tarde para você também, Zel. – Me afastei, dando passagem para ela adentrar ao apartamento.
— Ah! Boa tarde, Babe. – Já disse o quanto ela gostava de fazer gracinhas? Essa é ela. Mas, não me importo com isso. Aprendi a lidar com essa maluca.
— Você nasceu palhaça assim ou fez curso nas horas vagas? – Falei, fechando a porta e indo ao encontro dela.
— Acho que, provavelmente, nasci assim.
— É eu também acho. – Sorri sem mostrar os dentes. Quando voltei para sala, ela já estava toda esparramada no sofá. Eu acho incrível toda essa intimidade que nós temos, coisas de irmãs, sabe. – Aconteceu alguma coisa? – Perguntei, já a afastando e sentando ao seu lado.
— Não aconteceu nada. Só senti que precisa vir e estou aqui. Está tudo bem? – Ela me olhava com uma feição repleta de curiosidade.
— Sim, tá tudo bem! — Eu não estava mentindo pra ela, estava? Afinal, não tinha nada de errado.
— Você pode mentir para você mesma, mas não esqueça que sou sua sis, sei mais de você do que pensa. — Ela fitou meus olhos, como se estivesse à procura de algo. Mas, não eram eles que estavam em guerra, e sim meu coração. — Mas, já que você diz que está tudo bem, está tudo bem. Só não me esconda nada, okay? Eu me preocupo com você!
Zel era a pessoa que eu mais confiava em toda vida. Era minha irmã, não de sangue é verdade, mas sangue não importa quando laços de alma são colocados no jogo. E bem, nossos laços eram de alma.
— Okay! Eu sei que sim. — Dou um sorriso de lado, a fim que ela acreditasse no que estava falando.
— Como foi seu dia? — Eu queria dizer o quanto foi maravilhoso, dizer o quanto me senti bem ali, com ele naquele parque. Mas, talvez, ela me achasse uma louca, não é?
— Hm... Foi normal. Fui ler um pouco no parque.
Falar sobre o parque me fez reviver tudo o que aconteceu mais cedo, passando como um filme bem diante dos meus olhos. Eu pude me perder em meus devaneios. Perdi-me diante da lembrança daqueles olhos. Estava sendo fácil demais me manter alheia ao mundo. Eu permaneci naquela imensidão tempo demais. Tempo que não poderia ter passado despercebido para minha ruivinha. Se eu queria esconder esse assunto, o caminho que trilhei era o errado a se percorrer.
— Você ainda tem aquele macaco que comprou? — Eu não fazia ideia do que ela estava falando, só me restava confirmar.
— Regina? Regina!
— Ah, Oi. Sim, tudo que você quiser. — Ela me olhava incrédula, como se eu tivesse falado a maior besteira de todo o universo.
— Não adianta mais mentir, você não está bem. O que aconteceu? — E como eu disse, o caminho estava errado.
— Por que você tem que me conhecer tão bem?- Perguntei, já baixando a guarda. Sabia que não tinha como fugir disso.
— Porque sim! Porque sou sua irmã! Porque você mente muito mal. Quer mais alguns porquês ?
— Não, obrigada! Estou satisfeita com esses. — Mostrei a língua pra ela.
Respirei fundo e a encarei, eu só queria que ela me dissesse que eu não estava ficando louca. Que poderia haver uma chance naquilo. Uma chance em nós.
— Estou esperando, desembucha! Você está com algum problema? — Ela me perguntou com as sobrancelhas arqueadas. — É grave? Aí meu deus! Você tá doente? — Ela já estava surtando. Típico jeito Zelena de ser.
— Ei! Calma! — A chamei, tentando manter ela sob controle, antes que chamasse algum serviço de emergência. -Não, não estou doente. Você anda assistindo muito Grey’s Anatomy, babe. Eu só preciso que você se acalme, okay? Não é grave, não tem nada a ver com saúde. Só se for a minha mental. – Soltei a respiração que nem tinha conhecimento que estava presa.
— Não posso fazer nada se grey’s me ensina a manter as coisas em ordem. Tá! Se não é doença, o que é?
— Eu conheci um cara. — Falei de uma vez, se enrolasse mais um pouco, capaz dela me jogar pela janela.
— E daí que você conheceu um cara? Não deveria ser algo bom? — Queria ter essa simplicidade de Zelena. Como se estivesse tendo um lampejo, ela começou a ficar eufórica. -Pera! Você conheceu um cara!? Regina Mills conheceu um cara!? Aí meu deus!
— Do jeito que você tá falando parece que não conheço ninguém. — Falei, revirando os olhos.
— Tá! Eu exagerei um pouco, mas você às vezes parece a madre Tereza, só é movida pelo trabalho. – Ela disse segurando o riso. Adorava me deixar irritada.
— Há-há-há. Você, exagero e pouco são palavras que não devem ser usadas na mesma frase. – Isso realmente é verdade!
— Me conte o que aconteceu, conte tudo! – Ela me olhava com aqueles olhos protetores e eu sabia que ali teria um colo se preciso.
— Eu estava no parque, lendo. Ele apareceu e ficou de longe me observando... – Comecei a contá-la sobre como foi meu encontro com Robin.
— Ele ficou te observando e você não achou que poderia ser algum tipo de psicopata? – Ela me olhava como se estivesse com duas cabeças.
— Vai me deixar continuar? Não, em nenhum momento achei que ele me faria algum mal, pelo contrário. – Ela fez sinal que sim com a cabeça, afirmando que me deixaria concluir o que estava dizendo. – No primeiro dia não nos falamos. Sim! Nos encontramos mais de uma vez. Ele ficou me olhando de longe e depois eu fui embora, mas o engraçado é que não consegui parar de pensar nele um só minuto, mesmo sem saber quem era. Eu senti uma coisa inexplicável. Então, hoje resolvi voltar no parque, no mesmo lugar que nos vimos e o encontrei novamente.
— Eu diria que seria um pouco de loucura tudo isso, mas o que seria desse mundo sem um pouco dela, hm? Continue, quero saber tudo!
— Bem! Eu passei um tempo para ver se ele tomaria alguma atitude e quando vi que a resposta seria não, tomei meu rumo pra vir embora. – Continuei contando. – Mas, algo me fez voltar, era como se eu tivesse que estar ali, como se precisássemos ter nos conhecido, então voltei e fui falar com ele.
Continuei contando para Zelena tudo que aconteceu nessa manhã. A conversa que tive com Robin, a forma que me senti ao lado dele, todo esse sentimento que não conseguia lidar. Dividir tudo isso com ela estava me fazendo um bem enorme.
— Pode parecer estranho, mas, quando estávamos juntos ali, tudo parecia tão certo. Ele confessou que estava me observando, falou coisas que deram a entender que ele também estava sentindo, sabe. Quando nos despedimos e ele tocou meu braço queria ter ficado ali. Isso só me deixou mais confusa. Mas, essas coisas não acontecem, Zelena! Ninguém sente isso por um estranho. Eu nem o conheço direito, isso tudo é tão Ahhhh...
— Venha cá! – ela me chamou e me aninhei em seus braços. Era tudo o que eu precisava e minha ruivinha sabia disso. – Essa história que você acabou de me contar parece absurdo? Parece. Mas, meu anjo, coisas absurdas acontecem o tempo todo, e se isso acontecer vai ser o melhor de todos. As coisas sempre acontecem por algum motivo, sejam por aprendizado ou qualquer outra coisa. E sobre você não o conhece-lo o suficiente, ainda, conversas costumam resolver.
— Eu só não sei lidar com tudo isso. É grande demais. Isso me assusta. – Ela continuava acariciando meus cabelos.
— Claro que você sabe. Eu sei que você tá assustada com tudo isso, eu também estaria, e você sabe que não sou nada romântica. – Ela me fez olhá-la. – Mas, se tiver outra oportunidade de viver isso, apenas siga seu coração. E você faz isso como ninguém, Regina!
Joguei-me em seus braços e fiquei ali, naquele abraço que sempre se fazia meu cais. Contar tudo para Zelena foi a melhor coisa que poderia ter feito. Como pude imaginar que não seria uma boa ideia? Eu só poderia estar louca. Conversar com ela sempre era a melhor das ideias. Minha ruiva é apenas um ano mais velha que eu, mas o jeito protetor dela comigo é de uma mãe que cuida do seu mais precioso bem.
Afastei-me e olhei em seus olhos a agradecendo, mesmo sem palavras, por ser quem ela é na minha vida. Ela sabia exatamente o que queria dizer ali. São vantagens de sermos melhores amigas. Poderia não ter usado agradecimentos verbais, mas quis fazê-los mesmo assim.
— Obrigada! Obrigada por isso, por sempre segurar a barra nessas crises loucas. – Agradeci, deixando um carinho em seu rosto. – Você está certa! Ouvir o coração é sempre a melhor resposta, e se tivermos outra oportunidade devemos segui-lo. É só assustador e louco, sabe? É louco todo esse sobressalto de sentimentos por um cara que conheci do nada.
— A vida é louca, babe! Todos somos, na verdade. Os sentimentos são o de mais real que se pode existir. Se você sente, é real.
— Sim, eu sinto! E se tudo que pude ver em seus olhos forem verdade, ele também sentiu. –Suspirei. O destino e suas surpresas.
— Então, se permita meu anjo. Se for pra ser, vai ser! E te darei todo apoio. Deixe que o destino se encarregue de tudo. Você só tem que se permitir. – Ela me olhava com todo o amor que poderia existir ali. Zelena e seus conselhos. Sempre eles.
— Okay! Me permitir! – Falei dando um sorriso sem mostrar os dentes.
— Vamos preparar algo para comermos? Estou faminta! – A zel voltou pessoal.
— Claro! Vamos lá. – nos levantamos, indo em direção a cozinha.
POV OFF
♡♡♡
ROBIN POV
Eu ainda poderia sentir o aroma daqueles cabelos negros em minhas narinas, poderia sentir a pele macia de seu braço em meus dedos. O quanto foi prazeroso tocá-la, abraçá-la. O que essa mulher fez comigo? Eu não sei dizer. O que eu sei é que nunca, em toda essa minha vida de conquistas, me senti um terço de como estou me sentindo agora. De como me senti ao lado dela. Regina está sendo o verdadeiro desconhecido. O desconhecido te assusta, te faz recuar, porque você não está acostumado a lidar com ele e a comodidade é o mais fácil dos caminhos. mas, o desconhecido dela me instigava, me fazia querer desvendá-la a todo custo.
Concentrar-me no trabalho depois de uma manhã como a de hoje foi quase impossível. A minha cabeça constantemente era invadida por pensamentos, frases, imagens. Tudo relacionado a ela. O seu sorriso se passava em minha mente como se estivesse no modo repeat e sem interrupções. Como eu desejava que não tivesse.
Cheguei em casa completamente alheio ao mundo. A única pergunta que as engrenagens da minha cabeça vaziam era quando a veria novamente. Larguei as chaves na mesinha que ficava perto da porta, retirei meus sapatos e fui para o quarto, precisava de um banho... Um longo e relaxante banho.
Cada gota de água que caia, era um questionamento diferente. Lidar com sentimentos é demasiado complicado. Ainda mais um, que surgira do nada. Só agora a ficha caiu que não tinha meios de encontrá-la novamente, estava tão fascinado com sua presença que me esqueci do principal, como iriamos nos reencontrar. Quis me amaldiçoar na mesma hora. Teria que apelar para uma coisa que só passei a acreditar com total convicção no momento que minha mirada foi de encontro com aquelas orbes chocolates. Teria que me agarrar a ele e torcer para que também quisesse outro reencontro.
Coloquei minha calça de moletom e fui ate a cozinha. Caminhei até a geladeira e peguei uma das poucas coisas que tinha ali. Precisava ir ao supermercado urgente. Abri a longnec e me dirigi ate o sofá, ligando a TV em algum canal qualquer de esportes. Meus pensamentos estavam longe, como sempre ultimamente.
O som estridente de meu celular tocando me desperta dos pensamentos, e abaixo o volume da TV para conseguir me concentrar na conversa.
LIGAÇÃO ON
— Alô? – atendi já sabendo quem era.
— Hey, Rob! Já está em nova York?
— Hey, furacão! Sim, já estou. Cheguei há poucos dias.
— Precisamos nos encontrar, estou morrendo de saudades suas. Já faz um bom tempo. E pare de me chamar assim, okay?
— Okay ! – Dou uma gargalhada. – Também estou morrendo de saudades suas, fedelha. Vamos nos encontrar o quanto antes.
— Me fale, como foi de viagem? O novo emprego? Já andou arrumando alguma namorada por ai?
Quando a última frase passou pelos meus ouvidos e foram processadas por minha mente, imediatamente lembrei-me dela. Tudo me remetia a ela ou alguma coisa que acontecerá em nossa conversa. Estava complicado manter a racionalidade desse jeito.
— Rob? Robin!
— O-oi, desculpe! Meus pensamentos foram longe agora.
— Parece que todo mundo resolveu tirar o dia para deixar os pensamentos longe.
— O que você disse? Quem deixou os pensamentos longe?
— Nada, esquece! Você vai me falar sobre como estão as coisas ou não?
— Está tudo em ordem, Babe. A viagem foi tranquila e o emprego, bem... Estou me virando. Logo, logo tudo se ajeita.
— Fico feliz por você, querido. E as namoradas?
— Não tem nenhuma. – Revirei meus olhos e escutei-a gargalhar, como se soubesse o que estava fazendo.
— Robin Lockesley sem namorada, sei!
— Estou falando a verdade. Não quero relacionamento, pelo menos, não com qualquer mulher.
— Opa! Então temos alguém na jogada.
— Eu não disse nada!
Conversamos por alguns longos minutos e desliguei a chamada.
LIGAÇÃO OFF
Como estava com saudades de conversar com essa pentelha. Voltei minha concentração ao jogo de futebol. Ou quase.
POV OFF
♡♡♡
Zelena foi embora depois de várias horas na companhia da morena. Regina se sentia um pouco mais leve depois da conversa que tivera com a ruiva. Foi ate seu quarto, seguindo até o banheiro para tomar seu banho. Vestiu seu pijama e voltou para a sala.
Com uma taça de vinho em mãos, ela se permitiu mergulhar em seus pensamentos. Em outro lugar, não muito distante dali, um loiro de olhos intensos como um mar atordoado, se permitiu fazer a mesma coisa. Os ambientes estavam na mais pura calmaria, mas em seus corações a tormenta estava mais feroz que as águas de um oceano agitado. Precisavam pensar e repensar em tudo que acontecera nesse dia. Em tudo de novo que eles sentiram.
Seria fácil lidar com o novo? Provavelmente não, mas com toda certeza buscariam a oportunidade de descobrir.
O dia fora longo pra eles, a noite seria ainda mais.
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