Sempre em movimento.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Acordei num sobressalto estranhando o lugar onde dormia. Já era comum, acordar e não saber onde estava, ter aqueles primeiros segundos do dia para se lembrar do lugar onde se havia dormido.
Olhei para o lado e vi Sammy, toda encolhida do meu lado. Parecia serena. Há alguns dias os pesadelos dela haviam parado. Graças a Deus. Eu não sabia como consola-la, e cada vez que ela tinha um pesadelo e acordava chorando, a culpa quase me matava. As lembranças daquela noite voltavam perfeitamente em minha mente.
A mãe dela pegando as armas. Cristina gritando. O tiro que eu levei no ombro. A mordida na mãe dela. E Sammy, correndo.
Não, eu não sabia lidar com a dor da Sammy, principalmente, porque me sentia a causadora de toda essa dor.
Ela se mexeu, abriu os olhos devagar, me deu um sorriso leve de criança e perguntou “está melhor?”.
Tive que sorrir aquela pergunta. Sammy era um anjo. Apesar de ter perdido a mãe e a irmã, de ter pesadelos e ter que fugir com uma pessoa que ela conhecia há pouco tempo, a preocupação dela era se minha febre tinha passado, e se eu ainda estava sentindo dor.
Assenti com a cabeça para ela. Ela me olhou semicerrando os olhos, um olhar desconfiado, então colocou a mão na minha testa.
- Não está melhor nada, continua quente.
- Ah, me desculpe Dr. Samantha, quando foi que a senhora se formou em medicina?
Sammy riu, e depois fez aquela cara de criança de doze anos preocupada.
- Tay, é sério. E se você piorar? Devíamos ficar por aqui, só hoje.
Sentei-me, e Sammy se sentou ainda me olhando com seus olhos suplicantes. Sabia que ela estava cansada de tanto andar, e preocupada também. Mas eu não queria arriscar, ficar parada era perigoso, andar também... Na verdade, tudo era perigoso naqueles dias, mas eu tinha pressa. Tinha pressa de chegar em qualquer lugar, qualquer lugar que oferecesse segurança para ela. Eu havia prometido a Cristina que protegeria Sammy, essa promessa eu tinha que cumprir.
- Sammy, temos uma regra, lembra?
Sammy revirou os olhos.
- Sempre em movimento, eu sei. Mas você está doente, estava com tanta febre de noite que estava delirando, estava falando varias coisas.
A olhei espantada.
- O que eu falei?
- Nada demais – respondeu ela despreocupada – na verdade, não dava para entender o que você falava.
- Ah, — respondi mais calma – vá se arrumar Sammy, temos que andar.
Ela me olhou mais uma vez, os olhos suplicando para que ficássemos. Balancei a cabeça em negativa, então ela se levantou indo pegar a sua mochila que por algum motivo estava um pouco longe da nossa cama improvisada.
Depois de prontas, descemos as escadas daquele galpão. Estávamos em uma área um pouco rural, era como um centro da cidade só que daquelas cidades minúsculas.
Abri a porta do galpão com a pistola em uma mão e a faca em outra. Sammy vinha atrás de mim, agarrando as alças da mochila.
Olhei em volta e não havia nada, apenas os carros abandonados, e as lojas saqueadas. Nada demais. Um ou outro zumbi espalhado por aí. Acenei para Sammy, a mandando ficar atrás de mim, ela acenou de volta. Começamos a caminhada para lugar nenhum, como eu costumava chamar.
Depois de algumas horas andando, estávamos sozinhas na floresta.
Sammy estava sentada no chão, com uma garrafa de água que devia estar quente.
Eu estava em pé, olhando em volta na esperança de que magicamente aparecesse algum lugar para que eu me abrigasse.
Minha febre tinha piorado, eu percebi isso sozinha. O Sol estava alto, o dia estava quente, mas eu estava de jaqueta, e ainda sentia uns calafrios.
De vez em quando, mandava Sammy descansar e parava para tentar me recompor, minha visão estava ficando turva. Precisava de antibióticos, estava com algum tipo de infecção, mas não tinha nem água para beber, imagine remédios.
- Você está bem, Tay? – perguntou Sammy.
- Estou ótima. – Respondi com um sorriso forçado.
Continuamos nossa caminhada, até que a mata foi se abrindo. E parecia haver uma fazenda ao longe. Mas fiquei com medo de acreditar naquilo e ser apenas uma miragem dos meus olhos. Aquela altura, eu já estava tendo calafrios constantes, e mal conseguia segurar a pistola.
Então vi um homem, correndo em nossa direção. Segurei a pistola o mais firme que consegui e apontei na direção dele.
Sammy hesitou.
- Não atira. Ele pode ajudar a gente.
- Sammy, lembra do combinado? – perguntei respirando fundo. Meu corpo todo tremia, meu estomago estava tão embrulhado que o fato de andar me dava vontade de vomitar – Fica atrás de mim, e não fala nada. Se eu mandar correr o que você faz?
- Eu corro. – Respondeu ela com a voz assustada – Pego a faca e a pistola e corro.
- Você sabe onde é a trava, não sabe? – Nessa hora, o homem já estava mais perto, já conseguia distinguir alguns traços. Ele era alto, os cabelos loiros. Estava segurando uma arma, mas não parecia preocupado. Acho que estava vendo meu estado de impotência de longe. Um pouco mais longe, vinha outro homem, tão alto quanto o primeiro, o cabelo mais liso. Carregava uma besta nas costas. Lembro-me de pensar na inveja que senti dele quando vi aquela besta.
- Sei, você me mostrou. – Respondeu Sammy.
- Ótimo.
Sammy se escondeu atrás de mim e então os homens chegaram. Os dois apontando as armas para mim.
Ergui a cabeça e fingi que esse movimento não me deixou mais enjoada.
- Moça, você está com uma criança, não precisamos disso. – disse ele apontando com a mão livre para as armas.
- Disse o homem que veio me ver trazendo um capanga com uma besta. – respondi erguendo a voz.
Ele levantou a arma como símbolo de rendição.
- Sou policial.
- O que isso importa hoje? – Respondi cortando-o.
- Nada, não importa nada. Mas quero te ajudar, moça, você não está bem. Da para ver. Está machucada? Foi mordida.
Vi o homem da besta apertar mais essa em suas mãos, ficando mais tenso.
- Não fui mordida. Tomei um tiro. Fiz um curativo improvisado, acho que infeccionou.
- Nós vamos te ajudar.
Eu não devia confiar naquele estranho, mas por algum motivo sabia que ele cuidaria da Sammy. Ou talvez fosse só o cansaço e a febre tomando conta do meu corpo.
Cheguei mais perto dele, o homem da besta se aproximou de mim, mirando na minha cabeça.
Sammy se retraiu, agarrou as alças da mochila e chegou mais perto de mim.
Parei, olhei nos olhos dos dois.
- Eu ensinei ela a correr se alguma coisa acontecesse comigo, mas ela vai se perder na floresta, não a deixem correr, mas não a assustem. – os homens me olharam confusos.
- Rick, ela tá delirando. – Disse o homem da besta.
- Só cuidem dela, por favor.
A última coisa que pensei foi que estava quebrando a promessa que havia feito a Cristina. Olhei para Sammy e consegui sussurrar “esse Rick parece ser legal né?”. E apaguei.
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