Lígia acordou mais cedo. Ao seu lado, Miguel ainda dormia. Ela levantou devagar, evitando acordá-lo e depois de checar Joaquim (que também dormia) e arrumar-se, ela foi encontrar os donos da casa na cozinha.
Adela já estava acordada fazendo o café.

– Hmmm.. que delícia. – ela comentou, dando bom dia para a senhora.

– Bom dia! Estou terminando de passar o café.

Lígia sorriu e ofereceu ajuda, mas foi recusada. – Sente e tome seu café sem se preocupar... aqui vocês são nossos hospedes e fazemos questão de trata-los com mordomia, ainda que nossa casa seja simples. Alfonso já saiu para a pesca do dia... logo mais ele chega com algo bom para o almoço.

– Vocês são ótimos anfitriões. Obrigada. – sorriu Lígia. – Mas, se isso não for parecer estranho... – ela hesitou. – eu preciso de um favor.

– Diga, se eu puder ajudar.

– A senhora sabe quem é uma moça, cabelos compridos... tem um filhinho... estava ontem por aqui... – Lígia fez uma descrição mais detalhada da garota e Adela prontamente a identificou.

– É Nora!

– Nora... A senhora sabe onde posso encontra-la?

– Sim. Ela é filha do dono do armazen que temos aqui na Vila.

– E a criança? Como se chama?

– Renan. – Adela baixou a voz como se contasse um segredo e confidenciou – ninguém sabe quem é o pai da criança. Na época, quando soube da gravidez, o pai de Nora a expulsou de casa, mas quando o menino nasceu ele a aceitou de volta. Miguel estava conosco nessa época... talvez ele lembre... Nora vinha algumas vezes trazer mantimentos e eles conversavam.

Lígia terminou de tomar o café e pediu licença para caminhar um pouco pela região.

...

Algum tempo depois, Miguel acordou.

– Bom dia Adela! – disse Miguel.

– Olá Miguel! Está com fome?

– Obrigado. – ele disse pegando a xícara de café.

Joaquim sentou ao seu lado, bebeu um copo de leite mas foi só Ruanito aparecer para ele se distrair e correr para junto dele querendo brincar com sua bola.

– A Lígia... você sabe onde ela tá?

– Ela disse que ia sair para dar uma volta.

Miguel olhou hesitante para Joaquim e Ruanito que brincavam em frente à casa.

– Pode ir. – disse Adela sorrindo – eu fico de olho nele. – piscou.

...

Lígia estava no vilarejo. Não foi difícil encontrar o tal armazém. Também não foi difícil encontrar o pequeno Renan brincando com outras crianças alí perto. Ela não viu sinal de sua mãe, por isso decidiu chegar mais perto. Ajoelhou-se perto dele.

– Oi.

– Oi. – o menino respondeu tímido.

– Sua mãe ta por aí?

– Não. Minha mãe tá com meu avô na outra cidade.

– Hm... E você tá sozinho aqui? Tá com seu pai?

O menino não respondeu.

– Renanzito!! – chamou uma senhora de dentro do Armazem. Venha para dentro.

O garoto prontamente obedeceu e saiu correndo para o estabelecimento. Lígia levantou-se e sorriu sem jeito.

No caminho de volta seus pensamentos ficaram confusos. Por que Miguel mentira dizendo não saber quem era a garota? Será que ele realmente não lembrava? Ou talvez tivesse algo para esconder... Traumas do passado não se apagam facilmente e sempre voltam quando despertados.

Os dela haviam estado adormecidos por muito tempo...

– Aii... – ela gemeu colocando a mão na boca. Estava enjoada novamente. Não podia ser da bebida – pensou. Parou para descansar e sentou na grama. Abaixou a cabeça e respirou fundo tentando controlar o mal estar. – não pode ser o que eu tô pensando. – ela olhou para cima e lágrimas se formaram em seus olhos. Alegria e confusão misturados.

Ela passou a mão na barriga e disse baixinho:

– Será?

...

– Lígia!! Onde você tava meu amor? – Miguel a encontrou quando ela chegava nas proximidades da casa de Adela e Alfonso.

– Eu estava dando uma volta. – ele chegou perto para um beijo, mas ela não correspondeu com tanta vontade.

– O que houve? Está tudo bem?

Lígia não queria contar de suas desconfianças... nem de sua suposta gravidez, e nem da relação que Miguel tinha com Nora e o pequeno Renan.

– Tudo. Cade o Joaquim?

– Brincando. — Ele se meteu na frente dela, fazendo-a parar a caminhada apressada. — O que aconteceu? Você tá diferente.

– Diferente como?

– Está... – ele pensou, analisando-a da cabeça aos pés – mais bonita. E ao mesmo tempo com um certo ar de preocupação.

Ela sorriu por um momento, pensando em como Miguel era observador.

– Nada. Só cansada... Andei demais.

Olharam-se nos olhos por algum tempo, em silêncio. Ele tentando compreender o que ela lhe omitia, e ela tentando esconder o que era evidente.

– E então Lígia, encontrou Nora? – gritou Adela ao avistá-la. E Miguel finalmente compreendeu o que via no olhar de Lígia.

...