Sempre ao seu Lado
53 𝟏𝟗 𝐞 𝟐𝟑 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶
Notas iniciais

Sempre ao Seu Lado
Capítulo 49
Estávamos no deck dos fundos. A chuva pingava ritmada nas folhas, os trovões soavam distantes e o cheiro da floresta molhada deixava o ar mais denso. Helena dormia. Hilary brincava no tapete da sala com Esme. Eu estava em silêncio. Ele também. Eu não sabia há quanto tempo ele estava ali, de pé, próximo à pilastra, olhando a névoa que se erguia entre árvores sem realmente vê-las. O céu começara a pesar de nuvens de chuva mais cedo naquele dia, e minha cabeça já latejava antes mesmo do fim daquela manhã.
Meus ombros doíam. O maxilar, travado. A respiração, rasa.
— Está tudo contraído. — ouvi a voz calma de Jasper — Até seus pensamentos. Se Edward estivesse por perto, diria que você está pensando… Muito alto. — ele disse, à minha frente, sem me encarar.
Virei o rosto lentamente, já esperando uma intervenção dele e suspirei, sem saber como responder.
— Eu nem sabia que dava para pensar “alto” sem falar. Eu só... queria silêncio. — murmurei.
Ele se virou, sem pressa.
— Com você, dá. — virou levemente a cabeça, para me ver de relance — E conseguiu? O silêncio?
— Não. — desviei meus olhos para o verde atrás de si, abaixei o olhar — Nem dentro de mim.
Ele observou meu perfil por um momento. Ele não riu. Não rebateu. Eu sabia que ele sentia cada tensão, cada autojulgamento. Era como se minhas emoções fossem ondas vibrando contra a pele dele. Bom... Ele me disse que era algo assim.
— Seus sentimentos mudam o ar em volta. Quase como eletricidade. E agora... tem, muito medo.
Fechei os olhos.
— Às vezes eu me pergunto se realmente fui feita pra isso.
— Ser mãe?
— Ser mãe de alguém como ela. — me referi à Helena — E da Hilary também. Parece que eu estou sempre… desequilibrando alguma coisa. Sempre um pouco errada.
Ele não respondeu de imediato. Caminhou até o banco ao meu lado e sentou. A madeira fez um ruído discreto.
— Quando você pensa essas coisas… Você se questiona ou apenas aceita como verdade?
— Como assim? — franzi a testa, sem compreender.
— Você diz que “parece que está errada”. Mas já tentou se perguntar: o que estou sentindo exatamente? Que pensamento gerou isso? Às vezes o sentimento não é o problema, é o que você acredita sobre si mesma.
Fiquei em silêncio. Jasper prosseguiu, com calma:
— Talvez você esteja se cobrando perfeição, porque alguém te fez acreditar que errar significava fracassar. Ou abandono.
Meu estômago se revirou. Minhas vértebras ficaram eretas.
— Eu não consigo desligar o que sinto. — ele abaixou o olhar, como se pedisse desculpas pela invasão sutil — Sabe que não estou aqui para te expor. Só pra te lembrar que você pode observar esses pensamentos…, sem precisar ser eles.
— E se eu estiver com raiva? — lancei de forma direta.
— Então sinta. Não finja calma, não minimize seus sentimentos. Sentir raiva não te faz pior. Só humana. — ele disse — Posso te propor algo? Algo simples. Mas que talvez comece a desatar esse nó que você não está conseguindo afrouxar.
Assenti com um leve movimento da cabeça.
— Tem um espaço mais reservado no andar de baixo. Calmo, com um colchonete no chão, janelas no alto, poucas luzes, nenhuma obrigação. A intenção é uma só: dar permissão ao corpo de sentir o que a mente tenta calar.
Fiquei em silêncio, prestando atenção nas suas palavras. Colhendo-as, absorvendo. Soltei um riso anasalado, balançando de leve a cabeça.
— Agora você é exclusivamente meu terapeuta?
— Sou alguém que aprendeu o que acontece quando a gente ignora demais o que sente. — ele disse com a voz baixa — Você está tentando funcionar enquanto carrega coisas pesadas demais.
Fiquei em silêncio. A garganta queimava com aquele tipo de cansaço que eu não sabia como explicar.
— Você já reparou, — ele continuou — como o corpo humano mostra antes o que está guardado? — ele fez uma pausa, depois acrescentou com aquela voz grave, sem pressa — Dores que não curam. Fadiga que não tem nome. Tensão no peito. Insônia.
Senti como se ele estivesse descrevendo exatamente meu reflexo.
— E o que eu faço com isso?! — perguntei, tentando esconder o sarcasmo cansado.
— A gente observa. — disse. Simples.
— Como? — ergui uma sobrancelha.
— Através de movimentos simples. Respiração. Alongamento. — ele me encarou com mais firmeza — E enquanto o corpo se solta, você faz uma pequena tarefa emocional. Um exercício. Se quiser.
— Que tipo de exercício?
— Uma pergunta. Uma só. Você não precisa respondê-la agora. Só se permitir que a resposta venha quando estiver pronta.
— Que pergunta? — cruzei os braços.
— “O que ainda me prende?” — minha expressão mudou, ele sorriu, suave — Se você conseguir um pensamento convicto, escrever uma frase, ou sentir uma imagem... Já é um começo.
Fiquei pensativa. Algo dentro de mim relutava, quase sem perceber. Parte de mim queria sair correndo, como se ainda quisesse manter os portões fechados. Mas, eu confiava nos métodos dele.
— Eu vou estar por perto. Sem invadir. Só... sustentando o espaço, caso você precise. Sem pressão.
Demorei a aceitar. Mas, quando Jasper me ofereceu a mão aberta e coloquei minha mão na dele, apesar de sua frieza morta, foi como se meu corpo inteiro tivesse exalado na certeza de que era a decisão certa. Jasper esperou todos os minutos necessários para que eu trocasse minhas roupas sujas do café da manhã, para outras peças mais confortáveis, e assim, fomos juntos para um espaço onde as palavras não seriam necessárias, até que a dor decidisse falar por si.
➶
As janelas daquele novo ambiente estavam embaçadas pelo frio externo, porém o chão aquecido do salão de meditação era quente o suficiente para que meus pés descalços não sentissem o frio de Forks. A madeira, escurecida pelo tempo, refletia a luz suave que entrava pelas janelas horizontalmente estreitas postas mais para cima. A chuva caía ritmada do lado de fora. Me ajoelhei no colchonete cinza-claro. Prendi o cabelo atrás da orelha. Senti Jasper se aproximar, sua presença era discreta, mas intensa, como quem sabe que há partes de mim que não se dizem em voz alta. Ele sentou-se no chão, a uma distância respeitosa, não disse nada, como se o ar entre nós também estivesse meditando. Deixou o silêncio crescer ao redor de mim.
Fechei os olhos.
Tentei respirar bem lento. Inspirei. Expirei.
Me pus em pé.
Puxei o joelho até o peito, devagar.
Girei os ombros.
Alonguei a coluna.
Após alguns minutos de silêncio, sua voz baixa preencheu o ambiente:
— Amberli… — me chamou. Foi tão baixo e hesitante, que sua falta de mais palavras quase me fez acreditar que não era nada demais — Quando o corpo começa a soltar… a mente, às vezes, tenta se agarrar a algo. — ele deixou a frase flutuar, depois completou — Quando isso acontecer, se desprenda, tente deixar vir. Só… observe.
Abri os olhos, encarando o teto.
— Observar o quê? A bagunça? — mirei em sua direção. Ele sorriu, quase imperceptivelmente.
— O que ainda dói. O que ainda arde.
— E aí, eu faço o quê com isso?
— Escreva. Diga em voz alta. Ou pense. — deu-me opções — Uma frase só. “O que eu não pude dizer quando aquilo aconteceu.”
Engoli seco. Foquei em alongar o corpo para aliviar o que a mente não consegue carregar.
O corpo ainda tentava relaxar. Minhas mãos começaram a formigar.
Mas quando me percebi relaxar e soltei o corpo… sem aviso, algo veio. Ela veio.
Rápido. Cortante.
Wendy.
O hospital. O olhar gélido. A voz envenenada.
A cadeira desconfortável. O cheiro de produtos de limpeza, álcool, analgésicos e soro fisiológico misturado ao de recém-nascido. A desesperança. O medo. A exclusão. E o desprezo. Sempre o desprezo.
“— Se tivesse se cuidado, a Angie não teria nascido tão fraca!”
“— Sempre tão dramática. Sempre fazendo cena.”
“— Você estragou os sonhos do meu filho! Como acha que será a carreira dele com você sendo um peso morto?!”
“— Agora quer fingir que é mãe exemplar? De uma bebê morta?”
“— Não vê que você matou sua própria filha?! Você é uma assassina! Uma vadia assassina!”
O chão pareceu sumir por um instante. Meu peito travou.
Os ombros que antes se soltavam, endureceram. Tentei voltar ao alongamento. Mas meu corpo endureceu.
A respiração falhou.
— Jasper… — sussurrei sem abrir os olhos, como quem pede socorro sem entender do que precisa ser salva. Ele não pareceu se mexer.
— Eu senti. A lembrança veio?
Assenti com a cabeça, os olhos ainda fechados.
— O que você sente agora?
— Raiva. — a palavra saiu fraca — E vergonha. Por ter sentido raiva da situação e não dela.
— Sente raiva agora?
— Sim. — a boca seca, o estômago revirando.
— O que você diria pra ela agora? — ele perguntou, com a voz firme, mas acolhedora.
Hesitei. Franzi os lábios como se a dor daquelas palavras gélidas revividas na minha mente doessem mais uma vez. Continuei a mover meu corpo, me alongando. Demorei. Mas respondi.
— Que ela não teve o direito de me culpar. — respondi soltando a respiração — Que mesmo destroçada, eu fui mãe. Mesmo na dor.
Um silêncio imenso caiu sobre nós. Só a presença dele sustentava aquele momento como se dissesse: “Você pode desmoronar, eu seguro o chão”. E ali, naquele chão quente, com o frio da memória ainda latejando, abri meus olhos e percebi que estava tremendo, e a luz do lado de fora parecia um pouco diferente; menos cinza, ou talvez, eu tivesse mudado um pouco mais por dentro. Jasper se aproximou só o suficiente para que sua presença me envolvesse como um manto invisível.
— Você não precisa se justificar pra ninguém, Amberli. — minhas lágrimas vieram. Lentamente. Mas dessa vez… sem culpa, sem humilhações, sem impotência — E você não está mais naquele hospital. Nem com ela.
Assenti, soltando o ar em arfadas curtas. Meus olhos pareciam tremer entre o leve acúmulo d’água. Engoli a saliva, tentando me concentrar no ambiente.
— Tá. — foi o que respondi. Foi o que consegui naquele momento — Posso fazer esse exercício todos os dias?
— Sempre que precisar. — assentiu, unindo as mãos atrás de si — São bons exercícios para unir aos que você já faz durante as sessões de fisioterapia.
— Certo. E-eu vou fazer.
➶
Desde então, meus dias tiveram mais alguns minutos preenchidos de coisas úteis a se fazer. Ainda continuava com alguns exercícios guiados por Edward, e em horário contrário o método da extensão da terapia guiada por Jasper, que na maioria das vezes eu podia fazer tranquilamente, sozinha. Se eu sussurrasse seu nome o mais baixo possível, ainda assim, ele me ouviria e me guiaria para controlar a situação.
Tenho gostado desses momentos, mesmo quando o resultado é adverso.
Em geral, tenho estado contemplativa.
Esse era o meu momento. Quieta, sentindo e percebendo.
Rosalie e Esme se ofereciam com carinho para cuidar das meninas, e eu me recolhia para algum lugar distante, não me prendi apenas àquele cômodo. O som das teclas que ganhavam vida através dos dedos de Edward ainda soava dentro de mim, um som mais fraco, já se desvanecia um pouco na minha memória, me fazendo querer ouvi-lo tocar mais uma vez. Meus olhos estavam parados sem foco, a cabeça pendia um pouco para a direita, e o que eu via era apenas o meu busto coberto pelas linhas trançadas de maneira impecável que formavam o meu novo suéter de lacinhos de cetim costurados, um presente singelo dado por Alice.
O chão de madeira ainda estava frio sob o colchonete quando apoiei as palmas das mãos e empurrei levemente o quadril para trás, sentindo a tensão se alongar pelas costas e braços. O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo som ritmado da minha respiração. Cada alongamento era uma tentativa de abrir espaço no corpo, e conforme os dias eu realmente tive fé em Jasper que me assegurava de que esses movimentos ajudavam a soltar as tensões emocionais, e talvez ajudassem mesmo… só que havia muitas dores que meu corpo ainda não conseguia traduzir.
Me deitei devagar com as costas sobre o colchonete, pernas flexionadas, os braços estendidos ao lado. Fechei os olhos. Puxei os joelhos ao peito, abraçando as pernas. Senti uma pontada no quadril e uma sensação de fisgada no coração. Havia dias em que as dores físicas pareciam ecoar as outras, aquelas que não nomeio com facilidade.
Hoje era um desses dias. E aqui, na pausa entre o movimento e o repouso, as lembranças vinham. Às vezes em sussurros, às vezes em gritos. E hoje… era o rosto da minha mãe que me visitava.
Anna.
Só pensar no nome já dava um nó pequeno, mas firme, bem no centro da garganta. Não sabia exatamente o que despertava essa saudade mais funda, essa espécie de silêncio que me preenchia por dentro. Talvez fosse a forma como o sol da manhã filtrava pelas janelas, misturado à névoa persistente de Forks. Ou talvez fosse a forma como Hilary havia me olhado no café da manhã...
Às vezes ainda penso que vou ouvir a voz dela me chamando, ou me dizendo para colocar uma blusa porque “o tempo vai virar”. Às vezes sonho com ela, e no sonho ela não fala, só me olha, como se soubesse de tudo o que não consigo contar a ninguém. Senti vontade de chamá-la em voz alta, como quando eu era pequena e não conseguia dormir. Quando as cobertas não bastavam e eu esperava que o som da voz dela preenchesse o quarto inteiro. Mas agora, por mais que eu chamasse, em pensamento, em prece, em silêncio, não havia resposta. Nenhuma porta se abria. Nenhum passo apressado no corredor. Só eu e essa ausência que não tem volume, nem forma, mas ocupa tudo. A saudade dela é uma coisa silenciosa, que se instala como poeira nos cantos do peito. Não dá para limpar. Não dá para acalmar. Não dá para matar. A gente só aprende a conviver. Mas há dias em que a ausência dela pesa. E então, o simples gesto de me alongar, de me sustentar com os próprios braços, torna-se também um esforço para continuar.
Continuei de olhos fechados e deixei que a respiração encontrasse um ritmo mais lento. Era como se eu estivesse tentando lembrar da sensação exata de seu abraço. Do cheiro que ela carregava no pescoço que dificilmente encobria o do cigarro. Do som do riso dela quando eu dizia alguma bobagem. De tudo o que ela foi e do que nunca mais será.
Minha garganta apertou. "Por que ainda dói desse jeito, mãe?", pensei.
A resposta não veio. Não precisava vir. A falta que ela me faz não é uma dor aguda, dessas que rasgam. É mais como uma saudade crônica, que caminha comigo todos os dias. A falta dela está nas coisas que só eu vejo, nos momentos em que eu me pego rindo e bem no fundo há o pensamento: “Ela ia adorar ouvir isso.” E logo em seguida, lembro que ela nunca vai ouvir. Nunca mais. Anna fazia falta nos dias comuns, mas era nos dias difíceis que a ausência dela doía.
Senti falta de poder contar a ela sobre os últimos dias. Eu queria contar pra ela sobre a Hilary. Sobre o novo dentinho da Helena. Sobre como o cheiro da pele das minhas filhas, depois do banho, às vezes me dava vontade chorar de forma inexplicável. Sobre a febre repentina da Hilary. Sobre as visitas de Cole, que me desestabilizam mais do que eu gostaria de admitir. Eu queria dizer a ela que eu sobrevivi, mas que às vezes me sinto como uma casa erguida sobre areia. Eu queria ouvir a risada dela de novo. Aquela que estremecia a sala. Que fazia tudo parecer mais leve.
Senti falta de ser filha. Só filha.
Sem precisar ser forte. Sem precisar ter todas as respostas. Sem carregar o mundo nas costas em silêncio. Senti falta dela como se meu corpo soubesse que algo essencial havia sumido e que não importa quantas terapias, quantas conversas, quantas manhãs cinzentas eu enfrente, nada jamais ocupará aquele espaço. Respirei fundo, tentando conter a humidade crescente nos olhos fechados. Porque eu sabia que, se deixasse uma lágrima cair, todas as outras viriam atrás. E hoje não. Não agora. Hoje era só o alongamento. Só isso. Só mais um dia tentando fazer as pazes com meu próprio corpo.
Mudei a posição. Os movimentos eram lentos, como se meu corpo precisasse ser convencido de que merecia algum alívio. Inclinava-me devagar, mantendo os braços esticados à frente, as palmas apoiadas no colchonete macio. Meus quadris tentavam alcançar os calcanhares, e nessa tentativa de encontro entre partes distantes de mim mesma, alguma coisa dentro de mim também se curvava.
Inspirei.
Expirei.
Me sentei sobre os joelhos, as mãos apoiadas nas coxas, o queixo levemente erguido como se buscasse o olhar dela num ponto invisível à frente. A luz suave da manhã atravessava a cortina translúcida, tingindo o quarto com uma nostalgia, húmida. A lembrança veio com uma nitidez brutal. O cabelo preso num coque frouxo e o som do “tap tap tap” dos dedos dela no chão quando se aproximava para me acordar antes de ir para a escola.
"Eu trouxe morangos. Estão doces como você gosta."
Minha garganta apertou. Era esse tipo de detalhe que me quebrava: os morangos no pote de vidro, o barulho do café sendo passado na cozinha, os chinelos dela arrastando no piso frio. O cuidado banal. O amor nos gestos pequenos. Nada disso volta. Nada disso se substitui. Tantas coisas que eu só percebi depois que ela foi embora...
Mas saudade é isso, né? Um braço estendido no escuro, que nunca encontra e que no fundo, ainda espera ser abraçada.
Deixei meus pensamentos se alongar. E ele foi e estava muito, muito longe. Estava numa tarde, de algum verão já vivido, quando minha mãe me ensinava a pular amarelinha desenhada com giz na calçada da frente de casa. Lembro da caligrafia dela no chão, redonda, com números contornados por pequenos corações. Ela dizia que era para dar sorte. E eu, pequena demais para entender o que era sorte de verdade, apenas ria, pulando de um pé só até o céu desenhado no quadrado final.
“Você está trapaceando, mocinha”, ela dizia rindo, com aquele tom que era só dela, sério de brincadeira. O mesmo tom que usava quando me deixava ganhar nos jogos de memória, só para depois fingir surpresa com meu "dom natural para vencer adultos".
Abri os olhos, um movimento novo. Estiquei minhas pernas e deitei-me devagar sobre o colchonete, deixando os braços para o alto da cabeça. Era a parte do alongamento que mais me fazia sentir exposta. Estendida assim, com o peito aberto, eu era quase uma criança de novo, pedindo abrigo em silêncio. Fechei os olhos. O quarto, silencioso, parecia ouvir tudo junto comigo. A dor da saudade não era como uma faca. Era mais como uma gota persistente, escavando aos poucos o peito por dentro.
Como se sente saudade de alguém que não vai voltar?
Por vezes já pensei que, se eu pudesse ouvir só uma vez aquele “filha” do jeito que ela dizia, com carinho, com paciência, com aquele amor calmo que só mãe tem, talvez parte de mim se juntasse de novo. Mas não dá pra matar essa saudade. Não se mata o que não morre. E essa falta… ela respira comigo. Ela está nas roupas que não aprendi a fazer exatamente como ela. Sempre achava que ela estava me exigindo demais… só agora entendo que era o modo dela de me ensinar a cuidar de mim. Ou até mesmo nas receitas que tento refazer e nunca ficam iguais.
A dor da perda da minha mãe não é algo que aparece todos os dias com força, mas hoje ela veio. E tudo bem. Ela ainda me habita, de tantos jeitos. Está na forma como embalo Hilary para dormir, no modo como converso com Helena, nas frases que escapo sem pensar...
Minha mãe. A mulher que me ensinou a ser muitas coisas antes mesmo que eu entendesse o que era o mundo. A mulher que continua sendo minha casa, mesmo depois de partir.
A dor veio. Ficou. Mas saiu.
Respirei fundo e mais tranquila, enchendo meus pulmões de ar novo e gelado.
Abri os olhos e ergui meu olhar, meus olhos percorreram os detalhes das árvores mais próximas, alcançando as folhas das árvores, cada uma delas dançando suavemente com a brisa quase imperceptível. Fiquei ali, acompanhando o balançar suave, consegui até notar os tons de verde, do mais escuro ao mais vibrante.
Movi minhas pernas, cruzando-as na posição de lótus.
Hoje em especial, acordei nostálgica, pensando no doutor Anderson. Em como ele havia salvado minha vida, indo além da sua profissão e enquanto eu fazia meu desjejum na companhia das minhas meninas, junto de Esme, tendo Carlisle fazendo a troca de atualizações dos pequenos grandes avanços de Helena, eu pedi para ele que se fosse possível contatar o dr. Rodham, atualizasse sobre mim. Apenas o necessário, nada que pudesse comprometer a segurança dele.
Carlisle me pareceu surpreso, mas não menos satisfeito com meu pedido, e gentil como sempre, deu-me garantias de que meu pedido seria realizado.
Estendi meus braços para o alto, unindo os dedos bem acima da cabeça e me espreguicei, bem devagar, com calma. Fechei os olhos e respirei fundo mais uma vez. Na quietude meus pensamentos surgiam sem violência e pude comparar como os dias se seguiram melhores do que eu imaginava. Minha mente, outrora inundada em dor, não conseguiria formular dias tão bons e suportáveis quanto os que eu tenho vivido. É gratificante, há alívio, há leveza até mesmo em respirar.
Abaixei os braços, movi os ombros em círculos. Abri os olhos, vendo o céu imenso acima das árvores altas e antigas, está do mesmo tom de sempre, cinza opaco e ainda assim, propõe tranquilidade.
É bom perceber que não tenho acordado mais com a vontade de não acordar, de não respirar, não viver a vida. Porém, eu tenho entendido que essa convicção não anulava totalmente meus sentimentos. Sou humana e é saudável senti-los. Às vezes eu passava a maior parte do dia um pouco triste e precisando das palavras de Jasper, ele me ouvia e me sentia, realmente me ajudava a nomear minhas emoções e separá-las em duas situações: aquelas que eu posso lidar, e as que não estão totalmente ao meu alcance de resolução. A presença inesperada de Cole também trazia aconchego e alívio. Não porque ele tenha feito algo grandioso; ele não faz. Ele simplesmente... é.
E isso, às vezes, é o que mais sobressai. Ele me traz uma paz que eu não sei se mereço; porque eu ainda me assusto com o que é calmo demais, ainda fico esperando a outra parte cair, como sempre caiu.
Mas com ele...
O silêncio não me pressiona; não me cobra; não quer me consertar, só existe e traz calor. É estranho sentir que alguém além de Jasper e Edward percebe quando eu preciso de espaço, ou quando o peso fica demais e eu começo a ceder por dentro. E ele percebe. Mesmo quando eu não dou nenhum sinal. Mesmo quando eu não quero ser percebida. Tem dias em que só de lembrar do som da voz dele já muda o ritmo da minha respiração. É sutil, mas meu corpo nota, como se soubesse que perto dele, qualquer perigo não tem espaço.
Abaixo meus olhos, tento enxergar a ponta dos meus cabelos.
Não sei o que ele quer exatamente de mim, e agora eu posso entender que isso me assusta mais do que se ele quisesse algo. Porque talvez ele não queira nada, talvez só queira me ver bem, e isso... Isso é difícil de aceitar.
Eu já fui ludibriada por gestos doces, já me perdi em vozes suaves que só serviam para esconder os espinhos. Mas Cole não insiste em me tocar, nem com as mãos, nem com palavras forçadas, ele só..., permanece. Como quem espera uma estação passar.
Passei a mão pelo pescoço, massageando a nuca, a imagem de um sorriso de Hilary vibrou por trás dos meus olhos.
Às vezes, quando Hilary sorri para ele, daquele jeitinho espontâneo, eu penso que ela sabe mais do que eu. Criança sente o que é verdadeiro, e ela gosta dele, como se já o conhecesse a muito mais tempo, e eu, eu também. Mas em silêncio. Com cuidado.
Suspiro, apertando a ponta dos meus dedos contra a pele quente da minha nuca.
Cole exala um tipo de presença que faz tudo parecer possível. Até mesmo coisas mais fortes do que tudo que eu já tinha enterrado.
Desentrelaço as pernas. Alongo-as e me curvo, estendendo minhas mãos em direção às pontas dos pés. Mantenho o ritmo da minha respiração calma, tudo sob controle.
Também tenho passado um momento na companhia de uma das minhas filhas por vez. Quando tenho estado com a Hilary, o tempo muda. Não é que ele desacelere, ele se suaviza, eu a observo em silêncio, e é como se o tempo respirasse mais devagar só para me permitir vê-la com mais nitidez, como se o mundo inteiro soubesse que ela precisa de calma para existir. E eu também. Hilary me olha com aqueles olhos castanhos que carregam tanto de mim, como se tivesse herdado só o que há de bom. O riso fácil, o afeto sem medida. Eu sei que ela não compreende tudo o que eu carrego, que me habita; mas sente e sabe quando preciso que ela fique quietinha comigo, bem pertinho, com cochichos e carinhos. É nessas horas, com ela aninhada em mim, ou fazendo traços tortos num papel dado pela Nessie, é que me dou conta do quanto tenho me recuperado. Não de uma vez, mas todos os dias um pouquinho, só por ter minha companheira por perto.
Hilary exige muito, como toda criança. Mas me dá mais do que qualquer adulto jamais me ofereceu. Ela é meu maior incentivo para sair da espiral, me levantar da cama, a estar aqui, a responder, a comer, a rir, a andar mais devagar. Isso vêm antes mesmo de morarmos deste lado do país. Ela é o que ancora.
Já Helena...
Helena é outra coisa. Há tanto nela que escapa à lógica…, tanto que transborda do que se espera de um bebê. Com ela, é encarar o desconhecido com os pés ainda feridos desde o primeiro instante, houve nela algo que não permitiu distância. Não é só o olhar, ainda que ele me desarme toda vez que cruza o meu... Um tipo de presença que não se vê, mas se sente por dentro, como se meu corpo inteiro tivesse sido moldado para reconhecê-la. Nenhuma barreira em mim se manteve intacta. Onde antes havia silêncio, ela acendeu sentidos que eu nem sabia que faltavam. Não houve preparação, nem defesa, tudo que era silêncio dentro de mim pareceu se curvar ao som da sua respiração, riso e voz. E eu senti, ali, que nenhuma parte minha sairia intacta dessa presença tão pequena e tão absoluta, como se, de alguma forma impossível, ela sempre tivesse existido em mim, mesmo antes de ser.
Passeei meus olhos pelo meu corpo. Já não estava mais tão magra, meu corpo tomava proporções saudáveis novamente e, bom..., me observando com olhos positivos, pelo menos a pochete que sobrava no pé da barriga tinha ficado para trás...
Ergui meu olhar, os olhos percorrendo o cômodo ao redor.
Encolhi as pernas. Descansei o queixo sobre os joelhos. Alguns fios do meu cabelo roçaram nas minhas bochechas, ocasionando leves cócegas.
O rostinho leitoso da minha filha mais nova estava bem ali, vívida na minha mente, uma imagem brilhante, bem-vinda. De uma maneira que jamais acreditei poder ficar.
Tem horas que sinto medo de amá-la tanto, porque amar algo raro, tão frágil aos meus olhos e imensuravelmente forte ao mesmo tempo, me trouxe à uma nova versão. E ela carrega um silêncio diferente da irmã; um silêncio que parece ouvir meus pensamentos antes que eu os organize. E há algo em sua calma que não é inocência, é consciência. Uma consciência suave, antiga. E seus olhos... Ah, seus olhos... Há algo nos olhos da Helena que me escapa toda vez que tento definir. São azuis, sim. Mas não de um azul só. É como se tivessem sido pintados por mãos que conhecem todas as nuances do céu e da água, e ainda assim decidiram inventar mais uma ou duas só para ela.
Algo arrebatador.
Às vezes, sob a luz fria da manhã, eles são de um azul gelo, como a superfície fina de um lago prestes a se quebrar, nítidos, frágeis e ao mesmo tempo impossíveis de alcançar. Quando ela sorri, viram azul pastel, suaves e delicados, como se alguém tivesse misturado tinta com leite e silêncio; se isso fosse lógico e possível.
E ainda assim, eu não tinha um nome exato para os detalhar. Principalmente quando seus olhos claros, e brilhantes como vidro me observam como se soubessem mais do que deveriam com uma frequência curiosa, e mesmo assim, quando a seguro nos braços, quando ela se aninha no meu peito e respira como se eu fosse o mundo... Eu me derreto.
É como ter em minha responsabilidade algo sagrado, mas com a sensação constante de que posso perder. O leite que dou para ela não é só alimento; é pedido de paz e o fato de que ela foi ensinada a me proteger dos próprios dentes dela, me lembra que, por mais que ela seja minha, há algo nela que o meu mundo jamais poderá tentar entender. Ela é algo que eu mesma ainda tento.
Porém quando seus dedinhos me chamam e ela me toca com aquelas mãozinhas, às vezes penso que sou eu quem está sendo amparada. Como se ela soubesse mais da vida do que eu mesma. Quando ela murmura novas palavras, para dizer o que sente, quando sorri… não é só alegria. É revelação. É como se dissesse: “Você ainda pode.” Ela não exige muito de mim. Só presença. Só que eu a veja. E ver Helena é como ver a mim mesma com ternura, sem pressa, sem culpa. Quando me olha com anseio e confiança ao mesmo tempo... Cada gesto dela é um convite. Pra ficar. Pra sentir. Pra recomeçar... Eu sei.
Sua evolução trabalha pesado na minha mente. Todos os períodos de um dia completo me trazem algo novo para eu perceber nela. É estranho. Belamente estranho. Ela ainda não anda, mas já tenta. Quando nos juntamos na sala para brincar, ela tem se apoiado em perfeito equilíbrio nas bordas do sofá, nas minhas pernas, na parede. Testa o mundo com os pés calçados ou descalços e uma coragem que não aprendeu comigo, ou talvez tenha vindo do que eu precisei para sobreviver. Cada tentativa dela é um tropeço e uma dança, e eu fico ali, quieta, com as mãos próximas, mas sem interferir. É bonito de ver. Assustador também. Porque percebo, nesses pequenos movimentos, que chegaram assombrosamente rápidos, que isso me quebra e me cura ao mesmo tempo.
Ela observava Hilary. Sua irmã era seu espelho e a cada tentativa desajeitada que ela copiava, seu rosto expressava a alegria. Um orgulho que cabe inteiro em um sorriso de leite. E eu me pergunto como algo tão frágil pode ser tão seguro de si. Na primeira tentativa após minutos observando a irmã, ela ficou de pé sozinha por três segundos. Três segundos que me pararam o fôlego. Que me mostraram como o tempo passa depressa dentro de um corpo tão pequeno. Meus olhos piscaram, ainda surpresa, e ela continuou, suas tentativas de coragem a levaram para mais descobertas.
Ela se soltou.
Não mais do sofá, nem mais nas bordas da mesinha. Ela se soltou do medo. Eu vi, não foi a primeira vez que tentou, mas foi a primeira vez que deu certo; ela soltou as mãos da borda da mesinha e se lançou no vazio entre ela e eu. Não houve música. Não houve câmera. Só os seus pés tocando com firmeza o chão e o bater do meu coração tentando acompanhar.
Deu dois passinhos, os bracinhos esticados no ar como se o equilíbrio fosse sustentado ali e que precisava de coragem mais do que de apoio. E caiu de joelhos.
Mas caiu rindo, como se tropeçar também fosse brincadeira. Não chorei. Não ali, pelo menos. Mas senti algo dentro de mim ceder. E eu me deixei rir também, com o coração nos olhos, tentando não deixar transparecer a emoção que me inundava.
Hilary estava sentada mais a frente, no tapete, balançando uma bonequinha pela perna, completamente alheia à intensidade do que estava acontecendo. Às vezes olhava, batia palmas também, mas para ela tudo era festa. Tudo era leveza. E ainda bem!
Renesmee, por outro lado, estava encostada contra a poltrona. Calada. Os braços ocupados de brinquedos, o olhar atento e nostálgico, talvez. Ela via. Ela entendia. Não só o que Helena fazia, mas o que aquilo significava. Havia algo no modo como seus olhos castanhos gritantes acompanhavam cada passo vacilante da minha filha que me fez entender que ela reconhecia aquele percurso. Eu fiquei ali, ajoelhada, imóvel, segurando o ar nos pulmões, tentando guardar cada detalhe..., e então, sem pressa, Helena estendeu suas mãozinhas para frente, uma depois da outra e engatinhou até mim, meio risonha, chegando cada vez mais perto do meu corpo. As mãos brancas tocando-me com propriedade. Ela me olhou como quem diz "Viu o que eu fiz?", e bateu palminhas, orgulhosa de si. E eu sorri também. Mas por dentro, uma parte de mim sussurrava: “está começando”. Ela encostou a cabeça no meu peito, como sempre faz quando parecia querer me lembrar que éramos uma só.
Helena está crescendo, e não houve aviso antes disso acontecer. Só a constatação muda: ela está indo, aos poucos, para longe da necessidade constante do colo… e eu estou aprendendo a não impedir.
E foi ali, com a voz ainda de bebê, que ela sussurrou:
— Aqui.
Uma palavrinha perfeita. Pequena, solta, bem menor do que tantas outras que ela já tinha a inteligência de falar. Mas tão cheia de sentido que eu quase desmoronei. Renesmee reagiu com um leve sorriso. Quase imperceptível, mas verdadeiro. Como quem testemunha um milagre que já viveu, mas que nunca deixou de ser sagrado. Eu não disse nada. Apenas fechei os olhos e segurei Helena um pouco mais firme, enquanto sentia o calor pequeno do seu corpo sobre o meu. Não era só sobre o lugar. Era sobre mim. Sobre ela. Sobre esse espaço entre nós que, mesmo quando se alarga, nunca se desfaz. Hilary veio até nós, rindo, andando em passinhos rápidos, trazia a bonequinha pela cintura, os cabelos meio bagunçados, cheio de laços e um sorriso aberto, desses que não pedem razão como se pressentisse que algo bonito tinha acontecido, mesmo sem entender o quê; ela não entendia o momento, e tudo bem. Estar ali já era o suficiente. Porque, de algum modo que eu não sei explicar, tudo estava no lugar certo: Helena começando a andar. Hilary feliz por perto. Renesmee vendo mais do que eu mesma conseguia nomear.
Hilary se aproximou de mim e da Helena e, sem dizer palavras, se abaixou ao nosso lado. Tocou a mão da irmã com a pontinha dos dedos, suave, como quem oferece companhia.
— Hiwawy também, mamãe. — murmurou, com orgulho no tom, mesmo sem saber do quê exatamente participava.
Eu sorri, mesmo com a garganta apertada. Porque era tão típico dela, tentar entrar em cada momento por inteiro, mesmo sem compreender o cenário. Então se levantou e tentou imitar os passos que tinha visto. Um, dois… tropeçou. Caiu de bumbum, fez careta, e antes que eu pudesse reagir, riu. Aquela risada solta que só ela tem.
— Igual a Nena! — minha pequena falara, apontando para a irmã e caiu na gargalhada.
Helena também riu. Nessie logo em seguida. E naquele instante, como num segredo só delas, as duas compartilharam algo que escapava a mim. Hilary não sabia que Helena era diferente. Que tinha um corpo híbrido, um passado sem explicação, uma história que nascera da dor. Pra Hilary, ela era só sua irmãzinha. Aquela que tentava andar, falava palavras perfeitas e que logo estaria maior que ela. E ainda assim, irmãs.
“Aqui”. Onde ela quer estar. Onde nos encontra. Onde me lembra que sou o abrigo de duas almas que, por razões diferentes, me acolheram como casa. E eu, mesmo cheia de rachaduras, me esforço para ser o lar. Em cada momento a sós com elas, sinto uma parte de mim que não foi destruída, uma parte que insiste, que permanece e por elas, eu me levanto. E por elas, eu não desisto.
Firmei meus pés no chão. Me impulsionei para cima. Estava de pé. As gotas de chuva começaram a aparecer, partes do vidro da janela começava a embaçar.
Hilary a amava com naturalidade. Sem medo. Sem perguntas. Como se não houvesse nada que precisasse ser entendido antes de ser sentido. E eu… Eu queria guardar esse amor com as duas mãos. Proteger esse espaço entre elas, de tudo que viria. Porque o tempo viria. As perguntas e explicações também. Mas havia algo tão puro que doía... E eu só agradeço, em silêncio. Pela presença das duas na minha vida. Pela infância viva entre meus braços. Pela chance de assistir tudo isso acontecer diante de mim e dentro de mim também.
Enrolei o colchonete cinza-claro e o pus no canto mais próximo. O exercício de hoje estava terminado.
➶
Depois dos alongamentos, não voltei para o quarto. O silêncio da casa era preenchido por sons suaves, como o tilintar de xícaras, o farfalhar distante de páginas viradas, os passos leves que pareciam dançar entre os cômodos. Hilary estava sentada ao lado de Rosalie no sofá do canto da extensão da sala com a cozinha, encantada com uma escova dourada que deslizava sobre seus fios castanhos. Rosalie fazia aquilo com uma delicadeza quase solene, como se minha filha fosse uma boneca de porcelana clássica, que merecia reverência. Esme passou por mim com uma caneca fumegante entre as mãos, e ofereceu um chá com um sorriso gentil que dizia mais do que qualquer palavra.
— ... Ajuda a manter os pensamentos no lugar. — sussurrou ela.
Peguei a caneca e me sentei em silêncio, observando Helena deitada de bruços sobre um tapete felpudo, concentrada num cubo de madeira que Alice havia trazido no dia anterior.
Foi então que ouvi.
Um ruído tênue, primeiro como um sopro na chuva, depois mais definido: pneus rolando devagar sobre a trilha de cascalho. O som abafado por galhos molhados. Um motor alto se cala. Olhei para a janela mais próxima, atenta, os carros da família não emitem um ronco assim, muito menos consigo ouvi-los chegar com frequência. Meu coração acelerou, como se o ar se modificasse com a possibilidade da presença, o som da porta do automóvel... Meu corpo reagiu antes da mente. Um arrepio atravessou minha nuca e desceu pelas costas. Só podia ser Cole. Rosalie levantou o olhar para a janela, arqueou uma sobrancelha, quase como se também pudesse sentir a mudança no ambiente.
Levantei-me com calma. Hilary olhou para mim com um brilho nos olhos, Rosalie prendeu o último lacinho nas repartições ao redor da cabecinha dela. Minha filha esticou sua mãozinha na minha direção.
— Vai passear, mamãe? — Hilary perguntou.
Não confirmei, nem neguei. Apenas estendi a mão para ela, que veio correndo, tropeçando no próprio entusiasmo. Helena levantou os olhos, um azul que não existia na paleta do mundo, só nos olhos da minha filha. Um instante breve e parecia saber. Engatinhou para fora do tapete, se aproximando de mim, emitindo um som baixinho, entre um grunhido e um som articulado.
— Cole! — disse ela, sem esforço.
Fiquei estática. A pequena voz dela cortou o som da chuva como uma linha fina de luz na penumbra da manhã. Foi a primeira vez que Helena disse o nome dele, e como todas as suas palavras, com clareza. E ela havia escolhido o nome dele. Me inclinei devagar, engolindo a emoção que subia. Beijei o alto da cabeça dela e sussurrei para mim mesma: Por que é sempre tão fácil... pra ele?
O som de passos subindo a escada me trouxe de volta ao mundo externo, e logo ouvi a voz dele abafada, quente, inevitável. Parecia responder à Alice, não consegui entender. Logo a silhueta dele surgiu na entrada, a jaqueta escura escorria gotas de chuva, e o cabelo trazia frescor da manhã húmida, misturado com o cheiro da floresta e algo que era só dele; amadeirado, real. Um homem sempre muito bem perfumado.
Cole me viu primeiro. Depois seus olhos buscaram, quase instintivamente, as meninas.
— Bom dia. — disse, com a voz mais baixa do que o habitual, como se respeitasse o santuário silencioso em que a casa parecia se transformar quando ele entrava.
— Bom dia, Cole! — sorri, acolhendo sua presença — Está chovendo mais lá fora do que parece daqui de dentro... — comentei, tentando equilibrar a emoção que ainda pulsava por dentro do peito.
— Forks sendo Forks. — ele respondeu, dando alguns passos mais para perto.
Meu olhar desceu para o seu corpo. Ele estava descalço, possivelmente havia tirado os sapatos na entrada, o que não deixava de me surpreender. Não era só respeito pela casa dos Cullen, era por onde eu estava também. Hilary correu até ele e se lançou nos braços que ele abriu com naturalidade. Era como se ela soubesse que aquele colo estaria sempre ali.
— Cól, a tia Rose penteou meu cabelo! — disse, orgulhosa, apontando para os laços.
— E ficou linda, como sempre. — ele sorriu, ajeitando uma das fitas com dedos largos, mas gentis. Depois olhou para Helena.
A mais nova o encarava com um olhar curioso, quase encantado. Estava sentada agora, ereta, com as mãozinhas ainda apoiadas no tapete. Seus olhos claros, cristalinos, refletiam a luz cinzenta da manhã como espelhos d’água. Cole se agachou devagar, sem falar nada de imediato. Apenas se aproximou o suficiente para que ela não se assustasse.
— Oi, pequena. — murmurou, e sorriu elevando os lábios no canto da boca que quase sempre me desarmava.
Helena olhou para ele como se quisesse responder. Seus lábios se moveram, e a mesma palavra de antes, mais firme e completa, saiu:
— Oi, Cole. — ela sorriu, parecia querer ter falado isso a algum tempo. Eu não duvidava.
Ele congelou por um segundo. Me olhou, sem disfarçar o espanto. E, depois, riu baixo; aquele riso que vibra no peito e espalha calor mesmo na manhã mais fria de novembro.
— Acho que ela me conhece mesmo. E falou meu nome... — ele disse aquilo como se não estivesse completamente certo. Ainda assimilava.
— Ela treinou algumas palavras. Mas não costuma arriscar na frente de muita gente. — murmurei, quase sem ar.
Cole a olhou de novo, depois estendeu o dedo indicador. Helena, como se soubesse exatamente o que fazer, segurou com a mãozinha pequena, apertando firme. Foi quando entendi. Ela não tinha apenas repetido um som. Ela tinha escolhido aquele momento para dizer. Para que ele soubesse o que ela já conseguia fazer.
Cole ainda estava agachado diante de Helena quando estendi a caneca que Esme havia me dado momentos antes.
— Chá de lavanda e camomila. Calma e ordem líquida, segundo Esme. — comentei, oferecendo com um gesto discreto.
Ele ergueu os olhos esverdeados para mim e aceitou com cuidado. Seus dedos roçaram os meus num breve instante, apenas um segundo a mais do que o necessário. Mas foi o suficiente para que meu corpo registrasse o toque com uma estranha nitidez e calor.
— Esme sempre acerta. — disse, levando a caneca aos lábios. A fumaça subiu em espirais lentas, como se carregasse consigo algo mais do que apenas aroma.
Hilary, agora estava entretida com Alice em algum projeto de costura, brilho e cores, já não nos observava com tanta atenção. Helena ainda segurava o dedo de Cole, mas começava a balbuciar sons desconexos que me pareciam apenas sons, ou ela apenas estivesse ensaiando suas próximas falas.
— Como estava lá fora? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Cole deixou de segurar a mãozinha de Helena, que não hesitou em se apoiar no cômodo mais próximo, ele ajeitou-se de pé com a caneca nas mãos e se aproximou da janela. Acompanhei seus passos, até ficar ao lado dele, deixando que o silêncio entre nós dissesse o que ainda era difícil nomear.
— A trilha atrás da casa está limpa. — disse ele, após um tempo — A chuva ainda é leve, só uma garoa espessa. Aquelas árvores..., — fez um gesto com o queixo, apontando para a borda da floresta — estão começando a perder as folhas. O chão está coberto. Parece outono tentando ser inverno.
Assenti, sentindo o peso tranquilo da imagem que ele criava.
— Quer ver? — perguntou de repente — Posso te mostrar. São só alguns metros. Fica tudo mais... real ali fora.
Meus olhos alcançaram Helena.
— Elas ficam bem com Alice. E Esme já me disse que quer um tempo com a Hilary. — completou ele, como se já soubesse dos argumentos que eu ainda não havia usado. Ergui uma sobrancelha.
— Tá legal, espertinho. Eu quero sair. — sorri balançando a cabeça, não queria hesitar — Só vou pegar as botas.
➶
Caminhamos até o limite do gramado, onde a floresta começava a erguer suas árvores altas e quase adormecidas. Os galhos finos balançavam com o vento húmido e frio de novembro, e, aos poucos, fui percebendo a quietude particular daquele pedaço da propriedade. Era um recanto discreto, talvez ignorado por quem não estivesse prestando atenção. A floresta ao redor da casa parecia engolir o mundo. A neblina dançava entre os galhos altos e o som da chuva era mais um sussurro do que uma ameaça. E adentramos ali lado a lado, em silêncio, os passos marcando o chão encharcado de uma trilha fina, ladeada de musgo e folhas. O cheiro era de terra viva e madeira molhada, mal notei as árvores decíduas que ele havia visto de dentro da mansão de tão bem camufladas entre as demais árvores ao nosso redor. Cole carregava uma garrafa térmica na mão e eu sabia que Esme devia ter colocado o chá. Era o tipo de cuidado silencioso que cercava tudo ali e ele era parte disso agora. Cole parou ao meu lado, os ombros relaxados, o olhar voltado para um ponto específico. Ele ergueu o queixo em direção à borda da floresta. Segui a direção que ele apontava com os olhos, e só então percebi. O chão estava mesmo coberto de tons ocres, dourados e avermelhados, como se o outono tivesse derramado ali seus últimos suspiros. Algumas folhas ainda dançavam no ar, desprendendo-se com leveza.
Eu não teria reparado sozinha.
O lugar era bonito. Mas nos olhos dele, havia mais do que beleza. Havia significado. Uma pausa. Uma sensibilidade que tornava visível o que eu normalmente passaria por alto, porque minha cabeça ainda estava costumada correr à frente, preocupada demais, exausta demais.
— Você enxerga as coisas de um jeito diferente. — comentei, mais para mim do que para ele.
Ele olhou de lado, como se não soubesse exatamente o que havia feito de especial.
— Só aprendi a parar. E a olhar. — respondeu.
Ficamos ali, lado a lado, observando as folhas caídas como se aquele pedaço do jardim fosse um mundo à parte. Um lugar onde a natureza anunciava, em silêncio, que o tempo está sempre mudando…, mas sem pressa.
E pela primeira vez em muito tempo, eu também parei. E olhei.
Fiquei olhando as folhas no chão por mais tempo do que planejei. Algumas estavam tão secas que o vento as fazia rodopiar como pequenos redemoinhos dourados. Outras, ainda frescas, colavam-se ao solo húmido, rendidas. E por alguma razão, aquilo me comoveu, o leve som das teclas do piano soaram leves dentro da minha mente. Senti Cole ao meu lado, não de forma invasiva, mas como uma presença firme, constante. Seu silêncio não me cobrava nada. Pelo contrário. Me oferecia espaço para simplesmente estar ali, inteira, sem ter que justificar nada. A brisa gelada passava por nós com dedos finos, brincando com meus cabelos soltos. E mesmo assim, eu não senti frio.
Depois de alguns minutos, ele falou.
— Eu gosto desse lugar. — se referiu a região, e não ao terreno dos Cullen em si — Me lembra quem eu era antes de tudo isso aqui virar rotina. — ele disse, com a voz baixa, quase como se estivesse dividindo um segredo.
— Antes de estar à frente da empresa? — perguntei procurando pelos seus olhos.
— Antes de eu me tornar o homem que precisa parecer estável o tempo todo. — respondeu, sem olhar para mim.
Franzi o semblante, não entendendo tão bem o que ele queria dizer. Assenti, mesmo que ele não visse e olhei ao redor.
— Tenho a impressão de que o tempo passa diferente... Aqui parece que o tempo não cobra. — completei, sem pensar.
Ele me olhou. E quando nossos olhos se encontraram, percebi que a distância entre nós estava menor. Não apenas física, mas emocional. Ele me via. E, mais ainda, me sentia.
O peso das palavras dele pairava entre nós com suavidade, mas não sem impacto. Como se estivéssemos ambos confessando sem confessar. Paramos diante na clareira estreita, onde um tronco caído serviria de banco improvisado. Cole se sentou primeiro, depois indicou o espaço ao lado com um gesto sutil. Sentamos lado a lado no tronco coberto de musgo. Ele destampou a garrafa térmica, usando a tampa como um copo rechonchudo, enchendo-o de chá, e estendeu para mim. Aceitei de bom grado, aspirando o cheiro quente do líquido. Ele apoiou os antebraços nos joelhos, o corpo inclinado levemente para frente, olhando para o chão molhado da clareira. Respirei fundo, fechando os olhos por um instante. E me permiti escutar tudo: o farfalhar das folhas, o leve cantar de um pássaro escondido, o ritmo constante da respiração dele ao meu lado. Um silêncio vivo. Aquele tipo de silêncio que acolhe, em vez de pesar.
— Acho que nunca parei para ver essa parte do terreno com calma. Mesmo lá de dentro... — confessei, abrindo os olhos — Eu passaria por aqui sem notar. Com pressa demais... medo demais, talvez.
— E agora? — ele perguntou, com delicadeza.
Olhei ao redor mais uma vez. As árvores, as folhas no chão, o céu opaco sobre nossas cabeças. Cole. Tudo parecia mais nítido agora.
— Agora, me parece convidativo.
Ele sorriu, pequeno, mas com uma luz nos olhos que me aqueceu por dentro. Não era um sorriso de quem conquista. Era o sorriso de quem espera. De quem respeita. Por impulso, ou coragem, movi meu corpo mais perto. Nossos ombros se tocaram, leves. Ele não se afastou. Eu também não quis.
— Você tem esse dom. — falei, sem encará-lo — De tornar os lugares mais vivos só com a forma como os olha.
Ele ficou quieto por um momento, e quando respondeu, sua voz era mais baixa ainda:
— Talvez eu só esteja aprendendo a ver melhor porquê... estou com os olhos certos ao meu lado.
Meus olhos arderam, como se aquela frase tivesse acertado um lugar em mim que andava esquecido, mas não chorei, não havia lágrimas o suficiente para isso. Foi apenas uma reação ante o sentimento. Só respirei fundo e fechei os olhos mais uma vez. Ali, no silêncio que nos rodeava, entre árvores que deixavam suas folhas caírem sem culpa, senti que eu também podia me permitir soltar o que já não me servia. E talvez... abrir espaço para algo que estivesse começando.
— Você tem se saído bem. — disse ele, depois de um tempo — Eu sei que nem sempre você sente isso. Mas eu vejo.
Fiquei em silêncio, tomando pequenos goles do chá. A respiração era visível entre nós, uma névoa que saía da boca e das narinas e sumia no ar frio. Meu ombro ainda toca levemente no dele, eu sentia meu corpo quieto por dentro, o tipo de quietude que não é ausência de emoção, mas a presença inteira de algo que ainda está se formando.
— Antes eu sentia que tudo o que eu fazia era pra sobreviver. — murmurei. — Como se estivesse fingindo, sabe?
Cole virou um pouco o rosto, me olhando de perto, com os olhos claros atentos como se procurassem por algo.
— Sobreviver era o começo. Mas não poderia ser tudo. — ele respondeu. E então, mais direto — Você precisa respirar fora dessas paredes também, Lee. Sentir outra coisa que não seja a dor disfarçada de rotina.
Não consegui desviar meu olhar dos seus olhos. Meu coração pulsou mais forte, e por um instante quase me perdi no raciocínio do que estávamos a falar.
— Eu não sei se consigo ir tão longe daqui. — sussurrei.
— Eu sei que consegue. E se não conseguir sozinha, então venha comigo. Você devia ir comigo ao porto. — disse-me com aquela voz rouca, calma, mas dessa vez havia um peso de verdade mais forte ali — Vai fazer bem. Ir até o porto, digo. Ver como é meu mundo. É perto, é seguro. E... é seu ritmo. Sem obrigações. — era como um desejo declarado, sem ornamentos. Uma vontade simples, mas carregada.
Houve um silêncio entre nós. O tipo de silêncio que é quase uma resposta. Continuei a tomar o chá, estendendo o momento. Movi o rosto devagar, encarei os olhos dele, todo o conjunto de sua face. Havia ali algo que não me intimidava, mas que me puxava. A certeza. O cuidado. Tentei decifrar o que vinha por trás daquela frase. O convite, sim, mas com raízes.
— Agora? — perguntei.
Ele assentiu, os olhos ainda presos nos meus.
— Sim. Agora. Só você e eu.
Eu hesitei por um segundo, não porque tivesse medo, mas porque fazia muito tempo que alguém me queria por perto de um jeito tão... direto. Tão inteiro. Não por obrigação, não por piedade. Mas por escolha.
— Você tem tentado entrar no meu mundo devagar. E eu tenho percebido. — eu disse, finalmente.
Ele não respondeu. Apenas assentiu, com os olhos presos nos meus por um instante longo, olhos que pareciam lascas de âmbar afundadas num musgo antigo, como se a floresta tivesse se recolhido ali, em silêncio. Depois, baixou o olhar para as próprias mãos e murmurou:
— Só quero que você saiba que pode ter um lugar ali também. Se quiser.
Meu coração acelerou dentro do peito.
— Por que quer tanto que eu vá? — minha pergunta saiu como um sopro, quase sem ar — Por que você insiste? — perguntei — Todos os outros falam com tanta cautela. Você fala como se... como se já soubesse o que vai encontrar.
Ele sorriu com um canto da boca, quase sem alegria. Seu corpo se inclinou um pouco mais para o meu lado, a distância que já era pouca, deixou-nos mais próximos ainda; o gesto foi significativo. Os olhos dele não vacilaram.
— Porque eu conheço essa sombra, Lee. Eu estive nela. Sei como ela afunda a gente quando menos esperamos, sem aviso. E também, sei o que me puxou de volta: um lugar que era meu. Mesmo que pequeno. Mesmo que simples. Eu quero te mostrar isso. Não como promessa, mas como âncora.
Respirei fundo. O ar era frio demais para o que eu sentia dentro do peito. Ele continuou a falar:
— Porque quando estou com você, tudo silencia. — disse ele, com aquela firmeza mansa — Porque você me escuta até quando não falo. Porque eu não quero mais olhar o mar e pensar que deveria ter te levado até ele.
Meu peito se apertou com uma mistura de surpresa e acolhimento. Ele não falava muito, mas quando dizia... tudo dentro de mim ouvia.
— E se eu não souber como estar nesse “lá fora” com você? — perguntei, mas já sem armadura.
Ele sorriu com ternura. Um sorriso exato. Não exigia, só oferecia.
— Então a gente descobre junto.
Houve uma pausa. Longa. Intensa. Ainda havia um quê de floresta nos olhos dele. Não era um verde óbvio, desses de gramado recém-regado ou vidro de garrafa. Era mais contido, um tom de folha sombreada no interior da mata, com pequenas inclusões castanhas, como veios de madeira antiga ou pontos de âmbar bruto esquecidos no miolo de uma árvore que cresceu solitária por tempo demais. O vento voltou a soprar entre as árvores, como se o tempo esperasse minha resposta.
— Você quer mesmo que eu vá com você ao porto?... — repeti, tentando entender o real peso disso.
— Eu quero que você veja que ainda pode ir. — ele respondeu — E que, quando quiser, pode voltar. Mas dessa vez, diferente.
O silêncio que se acomodou entre nós era profundo, mas não desconfortável. O tipo de silêncio que separa dois pontos de uma linha prestes a ser traçada, longo o suficiente para que eu terminasse de tomar o chá sem pressa. Cole apoiava os antebraços nos joelhos, olhando a floresta diante da clareira como se estivesse à espera de um sinal.
— Não vou insistir... — começou ele.
— Mas vai. — completei, com um meio sorriso.
Ele riu. Olhou para o chão e depois para mim.
— Você devia ir comigo até o porto de La Push. — disse ele, com a voz firme. Não era um convite delicado. Era uma direção.
Eu o encarei, dessa vez sem hesitar, um leve sorriso puxava o canto dos meus lábios.
— Por quê?
— Porque eu vejo você olhando para o mundo como se ele estivesse longe demais. Mas ele não está. Você está aqui. Já está. — respondeu, sem rodeios.
Sorri de leve mais abertamente, cruzando os braços.
— E se eu não gostar do que encontrar lá?
Ele devolveu o sorriso, com os olhos fixos nos meus.
— Então você volta. Mas pelo menos não vai se perguntar como teria sido.
Fiquei um tempo em silêncio, não por incerteza, mas por decisão. Ele esperava que eu recuasse, como talvez tivesse feito antes. Mas eu não era mais aquela mulher.
— Você fala como se tivesse certeza de mim. — comentei, me levantando.
— Eu tenho. — respondeu sem hesitação. Sua mão alcançou a tampa que ainda estava em minhas mãos.
Levantei o rosto. E disse o que vinha de um lugar que nem eu sabia que já existia em mim.
— Então me leva! — declarei, ajustando o capuz do casaco — Antes que eu mude de ideia. — brinquei.
Ele se levantou também, contido, talvez estivesse surpreso por dentro. O sorriso dele não foi largo, nem exibido. Mas era tão real que me aqueceu inteira. Cole me olhava como quem sabia que eu diria ‘sim’, mesmo que os meus lábios dissessem ‘não’. Ele estendeu a mão, como se selasse ali um acordo silencioso entre dois que, sem saber, já estavam lado a lado há muito tempo.
— Vamos. — disse ele.
E eu fui. Porque, pela primeira vez, não era o mundo que me chamava. Era alguém que me enxergava por inteira. E isso... era mais do que suficiente. Caminhamos juntos de volta à casa. Voltamos pela trilha em silêncio. A cada passo, o barulho da casa se aproximava, as vozes suaves distantes, os sons de um lar cheio de presenças imortais e gentis. Mas dentro de mim ainda ecoava o convite.
"Vai fazer bem. É seu ritmo. Sem obrigações."
Fui até o quarto, vesti um casaco mais grosso, alinhei os cabelos e desci sem fazer alarde. Passei pela sala onde Hilary empilhava livrinhos com Esme, e Alice me lançou um olhar breve, como se já soubesse.
— Vai com ele. — Alice disse, como quem comenta o tempo — Não é uma decisão que muda tudo. Mas pode mudar o agora. E isso já é muito.
— Não estou pronta para... — comecei, mas não terminei.
— Eu sei. Mas talvez esteja pronta para algo pequeno. Como uma vista diferente da chuva. — ela piscou.
Esme me ofereceu uma manta para me aquecer melhor dentro do carro. Alice se ofereceu para observar Helena. Ninguém me pressionou. Apenas me acompanharam, cada uma segurando uma filha minha.
— Eu volto antes do almoço.
Ninguém me perguntou para onde. Ninguém precisou. Não precisei pedir permissão a ninguém. Apenas dei instruções breves à Esme sobre o que Hilary poderia aceitar comer antes do almoço e deixei Helena entretida com Alice. Não houve cena. Não houve dúvida. Apenas apoio.
Na entrada, Cole já me esperava. Encostado na lateral da caminhonete, robusta e ainda assim parecia discreta entre a névoa espessa e as folhas húmidas. Pisquei, aproveitando os segundos para o olhar, o capuz do casaco caído, os braços fortes cruzados, os olhos postos na trilha como quem não tinha dúvidas de que eu viria. Ao me ver, descruzou os braços e subiu os degraus, se despediu das meninas com leveza e devolveu a garrafa para Esme. Hilary lhe mostrou um desenho amassado com traços coloridos e desorganizados; Helena sorriu para nós, abanando a mãozinha e balbuciou um “tchau”. Ele sorriu, tocou de leve o cabelo de cada uma e se afastou com passos firmes e leves, como se deixasse ali algo invisível que ainda me envolvia.
Ele abriu a porta do passageiro com um gesto que não era performático, era habitual, cuidadoso, como tudo nele. Nada disse. Apenas me ajudou a entrar.
E eu entrei. Entrei sem dizer nada. Não porque eu não tivesse o que dizer. Mas porque já havia falado o que importava.
Não porque me sentia pronta.
Mas porque, pela primeira vez havia tantas pessoas que acreditavam tanto em mim, que recusar seria quase uma mentira.
E Cole acreditava tanto em mim que um simples ‘não’ não era suficiente para convencê-lo.
Quando entrei e puxei a fivela do cinto de segurança, senti o cheiro dele impregnado nos bancos, no couro aquecido pela manhã fria, no volante; era um aroma amadeirado, limpo, misturado com algo que eu não sabia nomear, mas que agora reconheceria em qualquer lugar.
O som da porta da caminhonete se fechando ecoou como uma espécie de batida inicial para algo novo.
Estaríamos só nós dois.
O som do mundo lá fora ficou mais distante, abafado, o ar lá fora estava frio, húmido, carregado com o cheiro da chuva que começava a enfraquecer. E meu coração, que antes dispararia em situações assim, dessa vez apenas... notava.
Cole deu a volta e entrou pelo lado do motorista.
Eu olhei para os painéis de madeira e metal do painel do carro, a luz amarelada iluminando de leve o interior. Nunca tinha estado dentro de um carro assim, ainda mais tão perto dele, só nós dois, longe do olhar atento da casa, da rotina, da segurança aparente. Cole sentou-se, puxou o capuz do casaco para trás, ajeitou o banco com um gesto natural, e com um sorriso discreto, acionou a partida na Dodge RAM para sair do terreno dos Cullen. O ronco grave do motor preenchendo o silêncio que existia entre nós até então. Por um instante, ele ficou ali, as mãos no volante, o olhar à frente. Depois virou o rosto devagar, os olhos encontrando os meus com uma suavidade que me desarmou.
— Tá tudo bem aí? — perguntou, a voz mais baixa, como se fosse só para mim.
Assenti. Não havia nada em mim que quisesse fugir dali. Pelo contrário. Era como se meu corpo, meu olhar e minha presença, pertencessem àquele momento mesmo sem ter vivido nada parecido antes.
— Eu gosto do som do motor. — comentei, e minha voz me surpreendeu. Soava tranquila. Satisfeita.
Ele sorriu.
— A gente pode ficar em silêncio ou conversar o caminho inteiro. Qualquer uma das duas opções tá certa. — disse, com um tom que me fez relaxar ainda mais.
Enquanto ele dirigia em direção a um novo desconhecido, meu olhar se perdia pela janela. A estrada de entrada era cercada por árvores altas, suas folhas molhadas brilhando com o pouco de luz que o céu cinza deixava passar. A neblina subia das raízes das árvores, e o céu pesado parecia repousar sobre as copas como um teto de aço cinzento. Mas dentro da caminhonete, havia um calor que nada disso conseguia apagar. O carro avançava devagar pelo cascalho, cada pedra fazendo um som abafado sob as rodas. Enquanto passávamos para um asfalto mais liso e negro, que marcava o fim do terreno, senti o peso daquela saída. Eu não me lembrava de como tinha chegado, mas agora estava bem consciente da minha saída. Era como se, por um instante, deixasse para trás um mundo conhecido, uma rede de proteção invisível.
Me peguei olhando para as mãos dele no volante, firmes, marcadas, tranquilas. A forma como controlava a direção me transmitia algo difícil de traduzir... como se ele soubesse exatamente aonde estava indo, e como me levar até lá, sem me apressar. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava em movimento com alguém... e não me sentia sendo levada, mas acompanhada.
— Sabe, — Cole quebrou o silêncio com uma voz baixa, quase um convite — eu sempre acho que sair daqui é como começar a respirar de novo.
Eu virei o rosto para ele, pensando em como responder sua comparação incomum.
— É estranho, mas deve ser verdade. — respondi — Como se o ar fosse diferente aqui fora.
A Dodge avançava pela rodovia que nos levava à cidade. A chuva agora caía só em gotas finas, esparsas, deslizando pelo para-brisa. Pude sentir a tensão dos meus ombros diminuindo a cada curva que deixávamos para trás. Do lado de fora, a floresta parecia se mover, quase viva. Galhos pareciam quase tocar a janela, e o cheiro da terra molhada invadia o carro a cada vez que ele abria a pequena fresta da janela.
— Você mora aqui perto? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Mais ou menos. A casa da minha mãe é mais perto, fica a uns quinze minutos. A minha é mais longe. — ele respondeu, os olhos atentos à estrada.
— Sinto falta da sua mãe. Faz tempo que não a vejo...
— Sim, ela também sente... Mas ainda não é o momento. — deu uma olhada para mim — Palavras dela.
— As meninas ficam lindas com as peças que ela faz. Eu deveria ter tirado algumas fotos... Acha que ela gostaria de ver?
— Acredito que sim. Cada uma daquelas foi feita pensando nas meninas. — comentou.
O motor da Dodge RAM ronronava baixo, preenchendo o silêncio confortável entre nós. A chuva diminuía, e o vidro do para-brisa revelava a floresta húmida deslizando para trás, como uma pintura em movimento. Cole manteve os olhos na estrada, mas seu perfil iluminado pelo painel me parecia mais próximo, mais acessível. A ausência dos olhares vigilantes da casa fazia minha respiração tomar uma nova proporção de leveza, quase como se eu pudesse soltar uma parte da armadura que me vestia.
— Você está bem? — ele perguntou, desviando os olhos da estrada só por um instante para me encarar.
Eu sorri, meio envergonhada.
— Estou melhor do que pensei que estaria. — confessei.
— Acho que é o ar do lado de fora. — ele deu uma risadinha.
— Ou talvez a companhia. — respondi, deixando a voz mais baixa, mais íntima.
O carro balançou suavemente numa curva, e por um instante nossos olhares se encontraram de lado. Um calor estranho e doce subiu pelo meu peito. Quase como se o mundo tivesse diminuído até ser só aquele espaço quente e fechado, cheio do cheiro de couro, chuva e um perfume amadeirado que era só dele. Cole ajeitou o espelho retrovisor, mas não desviou o olhar.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Esse lugar pra onde vamos... — comecei, meus olhos passeando pela vista do para-brisa — é calmo assim também?
Ele soltou um leve sorriso.
— Hoje, mais ainda. Mas com cheiro de sal e redes penduradas no vento.
Meus lábios se curvaram num sorriso discreto. Aquilo não era só uma descrição. Era um convite para deixar seu mundo entrar de outras formas. A estrada se abria diante de nós, bordada por árvores que já começavam a se despir de suas folhas. E pela primeira vez, o que estava à frente não me dava medo. Me dava vontade.
— Sabe, isso aqui, — ele tocou a parte do encosto de braço ao meu lado esquerdo — é um dos poucos lugares onde eu me sinto inteiro. Onde não preciso fingir.
Eu encostei a mão naquele mesmo espaço, sentindo o calor que ele deixava.
— Eu entendo. Às vezes sinto que meu corpo e minha cabeça estão em lugares diferentes. Que parte de mim quer correr, e outra parte quer ficar.
Ele sorriu, quase triste.
— Talvez por isso a gente se entenda.
A mão dele se moveu sem que eu percebesse, um toque rápido, quase um roçar na minha, que estava apoiada no encosto. Meu corpo reagiu sem controle, e a sensação me surpreendeu pela força e delicadeza ao mesmo tempo.
— Cole... — comecei, mas ele me olhou, como se já tivesse ouvido o que eu não disse.
Ele apertou minha mão, firme, mas suave.
— Não precisamos falar. Só sentir.
A cada milha que deixávamos a mansão para trás, algo em mim se soltava. A tensão que eu mal conseguia nomear começou a se traduzir em pequenos arrepios, uma vontade silenciosa de estar mais perto dele, um puxão invisível, insistente, que eu ainda não sabia explicar. A estrada parecia se estender como um corredor entre as árvores altas e silenciosas que ladeavam apenas um lado. Mas dentro da caminhonete, o tempo havia se curvado de um jeito estranho, como se o trajeto fosse mais sobre o que acontecia entre nós do que sobre chegar a algum lugar. Cole dirigia com uma tranquilidade que me fazia esquecer que eu costumava ter medo de não estar no controle. Não era ausência de movimento. Era confiança. Era ele. Enquanto os minutos passavam, meus olhos escapavam para ele de tempos em tempos. Não era consciente, era inevitável. As mãos dele no volante, os olhos atentos à estrada, o jeito como o maxilar se contraía levemente quando o vento batia forte nas laterais do carro. Havia algo ali... que chamava. Não era só atração. Era mais fundo. Um desejo quase irracional de conhecê-lo além da superfície, saber o que ele pensa quando está em silêncio, o que o faz rir de verdade, o que ele teme. E mais que isso... eu quis tocar. Não de forma impetuosa. Mas com delicadeza. Como quem se aproxima de um altar.
Minhas mãos estavam sobre meu colo, imóveis, mas havia uma inquietação em mim que vibrava embaixo da pele. O impulso de esticar os dedos e tocar o antebraço dele, traçar as linhas visíveis sob a manga dobrada da jaqueta. Quis saber se aquele calor que ele passava mesmo à distância, também morava sob sua pele. Virei o rosto para a janela, tentando conter o pensamento; mas não o negando.
Eu sentia meu corpo desperto de um jeito que não sentia há muito tempo. Não era apenas físico. Era um calor que subia devagar, do estômago até a garganta, como quem redescobre a vida pela presença de alguém. Por estar perto, simplesmente.
— Em que você tá pensando? — ele perguntou de repente, sem desviar os olhos da estrada, mas com um sorriso quase perceptível na voz.
Fiquei em silêncio por um segundo a mais do que o necessário. Meu rosto se aqueceu. Ele notou.
— Em como você consegue ser tão quieto... e mesmo assim dizer tanto. — respondi, a voz baixa.
Cole soltou uma leve risada, daquela que parece escapar mais por carinho do que por graça.
— É que nem tudo no mundo precisa gritar para ser ouvido.
Eu me virei, observando seu perfil. A firmeza da mandíbula, a pintinha quase imperceptível perto do queixo, o olhar que mesmo focado à frente carregava uma suavidade que me fazia querer ouvir tudo o que ele nunca dizia.
— E você... o que quer que eu ouça agora? — perguntei, sem saber de onde veio tanta coragem.
Ele finalmente virou o rosto, só um pouco. O suficiente para me encontrar com os olhos. E naquele segundo, eu soube que ele sentia o mesmo calor que me atravessava.
— Só isso. — respondeu — Que eu tô aqui. Com você.
E aquele olhar tão inteiro, tão firme, me fez sentir como se o tempo parasse por alguns segundos. Não precisei dizer mais nada. Apenas permaneci ali, respirando o mesmo ar que ele, com o corpo inteiro atento a cada centímetro que ainda nos separava. E o mais surpreendente... foi que eu não quis fugir.
A caminhonete finalmente saiu da sombra das árvores e entrou numa estrada mais larga, ladeada por casas baixas de madeira e placas desbotadas de restaurantes à beira-mar. As árvores restantes foram dando lugar a mais casas simples, postes com luzes amareladas piscando na neblina, e sinais de comércio modesto. O ar ficou salgado e pesado, misturado ao cheiro de óleo, peixe fresco e maresia.
Cole reduziu a velocidade quando entramos por uma via secundária, onde as tábuas do cais começavam a surgir no horizonte, salpicadas de gaivotas e trabalhadores de casaco grosso e botas encharcadas.
Quando chegamos, a Dodge passou por entre as passagens que abriam caminho para as primeiras luzes do porto, Cole manobrou e o carro foi estacionado com um leve rangido no cascalho húmido, perto de um dos galpões, onde algumas pranchas de madeira empilhadas se apoiavam em cavaletes, e uma empilhadeira fazia movimentos lentos entre os corredores estreitos. Num ponto onde a vista do mar era aberta e tranquila. Cole desligou o motor, mas permaneceu sentado, olhando para mim.
Por um instante, nada precisou ser dito.
Estávamos ali, em um espaço entre mundos, o seguro e conhecido, o vasto e incerto. Eu respirei fundo destravando o cinto de segurança, e pela primeira vez em muito tempo, senti que podia escolher onde colocar os pés, me senti pronta para qualquer coisa, ou para nada, desde que fosse ao lado dele.
— Chegamos. — disse, com suavidade.
O porto de La Push era diferente do que eu imaginava. Não era bonito da maneira tradicional. Não tinha aquele charme turístico. Era rústico, com sua pintura gasta, seus barcos alinhados como soldados de madeira e aço. Mas havia ali um tipo de beleza silenciosa, feita de uso, de história, de permanência. Era uma paisagem em tons de cinza, branco e marrom, madeira molhada, cordas esticadas, alguns barcos imóveis. O ar era salgado, cortante, limpo. E tudo ali tinha um som próprio, uma cadência que eu ainda não conhecia. Não havia agitação. Só vozes distantes de trabalhadores, o som de cordas sendo puxadas, e a ondulação leve da água batendo contra os cascos dos barcos.
— Então, é esse o seu mundo? — perguntei, descendo da caminhonete ao lado dele.
O cheiro de sal, peixe e madeira molhada me envolveu no segundo em que desci do carro. O vento do mar era mais forte ali, cortava as bochechas e trazia a névoa com gosto de sal. Fechei o casaco até o fim, mas não recuei. Queria ver. Queria entender por que esse lugar era o refúgio dele.
— Parte dele... — respondeu — A parte que me ensinou a ser constante. Mesmo quando todo o resto muda.
Olhei em volta. Havia homens conversando ao longe, o som de uma grua trabalhando, um motor roncando baixo em algum ponto oculto pela neblina. A brisa era fria, e eu ainda não sabia por que ele insistia tanto que eu viesse conhecer esse lado da vida dele, mas agora que estava ali, não conseguia dizer que me arrependia.
O mar parecia infinito.
— E por que queria me trazer aqui?
Cole olhou em volta e depois para mim. Seus olhos estavam mais suaves agora, sem tensão.
— Porque você precisa de lugares onde ninguém te veja só pelo que te aconteceu, mesmo que respeitem. Aqui ninguém sabe. Ninguém espera nada. É só você, o cheiro de peixe fresco e o vento tentando arrancar seu casaco. — disse, com um meio sorriso.
Olhei o mar mais uma vez. Respirava com lentidão sob o céu carregado. A vida estava ali, impassível, sem saber da minha história. E, de repente, isso era libertador.
— Obrigada por me insistir. — falei, olhando diretamente para ele. Seus olhos verdes encontraram os meus e algo dentro de mim se tornou diferente — Às vezes é disso que a gente precisa. De alguém que enxergue o passo antes da gente dar.
Cole não respondeu de imediato. Apenas assentiu com um ar respeitoso. Como se estivesse lidando com alguém que finalmente se reconhecia inteira, e não mais em pedaços.
— Aqui não é bonito. — disse ele, enquanto caminhávamos entre os galpões. Ele já havia feito meu reconhecimento aos vigilantes desse setor — Mas é verdadeiro. Nada aqui finge ser mais do que é.
Havia algo de reconfortante naquela sinceridade.
— Gosto disso. — murmurei — Parece... honesto. Você vive isso todo dia? — perguntei, observando os barcos atracados, com gaivotas sobrevoando.
— Todo santo dia! É minha bagunça favorita. — ele respondeu, sorrindo de lado — Eu queria te mostrar. Porque é o lugar onde eu me ouço melhor. E pensei que talvez, mesmo que só por um momento, você também pudesse se ouvir aqui. — respondeu, sem me encarar.
Caminhamos lado a lado sobre as tábuas gastas do deque. O rangido da madeira sob os pés parecia marcar o compasso dos nossos passos. O cheiro forte do mar misturava-se ao aroma de óleo e madeira húmida, criando uma sensação estranha e ao mesmo tempo rústica e familiar. A vista dali era ampla: o mar aberto, a neblina baixando sobre a linha do horizonte, gaivotas voando baixo como se temessem o céu.
— Você tem falado pouco... — comentei.
— E você pensa demais. — ele respondeu, sem hesitar.
Olhei para ele. Cole ainda encarava o mar, mas havia algo em sua postura, um cuidado, uma atenção que não pedia nada de mim. Apenas oferecia espaço. Fiquei ali em silêncio. Respirando. Sentindo o frio na pele, a humidade nas roupas, e um fio quente no peito, não de paixão, ainda, mas de presença.
A sensação de estar viva, sem pressa.
— Sempre achei curioso como algo tão rude pode ser também tão tranquilo. — comentei, observando um barco velho, suas cordas enroladas com cuidado.
Cole sorriu, com um brilho nos olhos.
— O porto é como a vida. Às vezes a gente acha que está tudo caindo aos pedaços, mas se prestar atenção, vê que tem um método ali, um equilíbrio.
— Você sempre fala assim. — provoquei, meio sorrindo.
E era verdade. Ele sempre dizia as coisas assim: com um peso bonito, como se cada frase carregasse mais do que parecia. Como se estivesse me mostrando algo sem apontar diretamente. Parte de mim ainda não sabia nomear aquilo... mas sabia que não era só conversa. Ele estava falando de mim. Da forma como eu vinha me sentindo. Do que talvez ele enxergasse em mim antes mesmo de eu enxergar. Era o jeito dele de me alcançar, sem invadir.
Ele deu uma risada baixa, aquele que mal move os lábios, quase um ronronar.
— Pode ser. Talvez eu tenha passado tempo demais entre os barcos. O suficiente para saber que falar simples dá margem para fugir. Falar do jeito certo... às vezes faz alguém parar.
Ele olhou rapidamente para mim ao dizer isso, só um segundo, mas o efeito já estava feito. Eu senti como se ele tivesse dito aquilo diretamente ao que ainda estava escondido em mim. Quis perguntar se ele sempre foi assim. Se sempre usou as palavras como forma de tocar onde a mão não podia. Mas guardei a pergunta comigo. Porque, pela primeira vez, eu não precisava entender tudo para sentir.
Eu só precisava estar ali.
Paramos diante de um galpão aberto, onde alguns homens carregavam caixas com peixes enormes e frescos.
— Eu costumava ajudar meu pai aqui. — disse ele, olhando para eles com um misto de saudade e respeito — Foi onde aprendi que trabalho duro e paciência andam juntos.
— Então não é só o homem de negócios que eu conheço? — perguntei, com um sorriso diferente.
Ele levantou as sobrancelhas, fingindo ofendido.
— Claro que não! Também sou o homem que consegue se perder tentando achar o próprio carro no estacionamento. — disse, e rimos juntos.
A risada pareceu quebrar uma pequena barreira invisível entre nós, e senti a tensão diminuir. Depois, Cole ficou sério por um momento.
— Sabe, Lee, eu admiro o que você está fazendo. Criar suas filhas assim, com tanta coragem. Não é fácil.
Olhei para ele, tocada, mas firme.
— Não é fácil, mesmo. Mas eu não pretendo desistir.
— E não deveria! — ele respondeu, olhando para o horizonte — Você merece mais do que apenas sobreviver.
Ficamos em silêncio, absorvendo o ar frio e salgado. Então, ele virou-se para mim com um olhar mais suave.
— Obrigado por vir comigo. Por confiar.
— Obrigada por insistir.
Ele sorriu, aquele sorriso tranquilo que parecia prometer um recomeço. E eu soube, naquele momento, que o passo que eu estava dando era só o começo.
— Você sempre vem aqui? Caminhar entre as caixas de peixes e redes? Longe da parte burocrática? — perguntei, tentando não parecer nervosa com o silêncio confortável que nos envolvia.
— Quase sempre. — ele chutou uma pedra para o lado, distraído — Quando preciso pensar, ou... quando o mundo pesa demais. — falou, apontando com o queixo para uma área mais afastada, onde redes coloridas secavam em varais de ferro e gaivotas bicavam caixas vazias — Aqui ninguém pergunta muito. E tudo que precisa ser dito, o mar leva.
Eu respirei fundo, deixando o ar salgado invadir os pulmões. Não era um lugar calmo no sentido tradicional. Era vivo, quase rude. Mas me surpreendeu o quanto não me senti ameaçada.
— É diferente do que imaginei. — murmurei — Achei que fosse mais barulhento... mais cheio de caos.
Cole sorriu.
— O caos tá sempre ali. Mas o que muda é o lugar de onde você observa.
Olhei para ele e assenti, compreendendo sem que ele precisasse explicar. O caos tá sempre ali. Eu sei disso. Ele mora nas lembranças que insistem em voltar quando o dia escurece, no medo que aparece disfarçado de cuidado exagerado, na culpa muda que me olha de canto quando Hilary chora ou quando Helena sorri. Mas o que muda… é o lugar de onde eu observo. Antes, eu vivia dentro dele, afundada, sufocando, como se fosse parte daquela desordem. Agora, mesmo quando tudo tenta parecer à beira do colapso, eu consigo respirar. Consigo ver. É como se eu tivesse dado alguns passos para fora e conseguisse enxergar que ainda existe chão sob meus pés. Não é fácil. Nunca vai ser. Mas talvez essa seja a coragem: continuar vivendo, mesmo com o caos por perto.
O vento bagunçava seu cabelo escuro e deixava a ponta da camisa tremular por baixo do casaco aberto. Seus olhos estavam fixos no horizonte, mas de vez em quando escorregavam discretos na minha direção.
— Eu costumava fugir pra lugares assim também lá em Casper. — falei — Eu ia em alguns píeres no Alcova Reservoir, mas nunca com alguém junto.
— E agora?
Parei. Olhei o mar à distância, a névoa dançando sobre as águas.
— Agora... ainda é estranho. Mas não ruim.
Ele sorriu, algo discreto e satisfeito. Sorri também.
Ficamos ali por alguns instantes. Eu escutei as ondas quebrando, as folhas chacoalhando com o vento. Escutei meu próprio coração batendo em um ritmo mais lento. Mais vivo.
— Sabe o que me assusta mais? — soltei, sem pensar — Não é mais o que eu perdi. É o que eu posso perder se deixar isso aqui crescer. — virei o rosto pra ele — Você. Isso... Helena. Tudo isso que parece bom demais pra mim.
Cole ficou em silêncio, mas não havia choque em seus olhos. Havia calma.
— Você não precisa se apressar, Lee. — ele disse, baixo — Mas também não precisa se impedir de viver por medo do que pode acontecer.
— Você não me trouxe aqui só por trazer, né? — perguntei, com sinceridade — Tinha mais do que só o mar.
Ele virou o rosto, e por um segundo não respondeu. Depois disse, com aquela voz que parecia vir de dentro:
— Quis que você visse esse lugar... porque ele é o mais real que eu conheço. E porque queria você aqui, nesse real. Comigo.
Meus olhos baixaram por um instante. O chão sob meus pés era áspero, irregular, mas o que eu sentia dentro de mim era uma firmeza nova. Não era só ele me convidando. Era eu aceitando, por inteiro.
— Então me mostra. Tudo isso. — falei, erguendo os olhos de novo — Mostra o seu mundo.
Ele assentiu, um pouco sério, um pouco emocionado e então estendeu a mão. Dessa vez, eu a peguei sem hesitação. Quente. Convidativo. Irresistível.
E juntos, começamos a andar pelo porto, como quem abre uma nova página.
Caminhamos por entre caixas empilhadas, redes grossas e cordas amarradas como serpentes adormecidas. Alguns pescadores acenavam para Cole com a cabeça, uma saudação silenciosa, respeitosa. Ninguém perguntou quem eu era. Ninguém precisou.
Havia o barulho das gaivotas, o rangido leve de madeira molhada e o som das ondas batendo no costado dos barcos, como um tambor cardíaco de água. Eu sentia tudo, como se estivesse escutando o mundo pela primeira vez. E havia algo reconfortante naquele cenário sem filtro, sem aparências.
Cole parou perto de uma velha bancada de madeira. Encostou os dedos no tampo, como quem já sabia de cór todas as marcas daquilo.
— Essa mesa tem mais história que muitos livros. — comentou, com um sorriso discreto — Meu avô limpava peixe nela. Depois meu pai. Agora, de vez em quando, sou eu.
Passei a mão sobre a superfície gasta. O cheiro de sal e madeira encharcada subia do material como uma memória viva. Eu não disse nada. Apenas observei. E então olhei para ele. Com o sol filtrado por entre nuvens cinzentas, Cole parecia parte da paisagem, como se o porto fosse uma extensão dele, e ele, uma extensão daquela firmeza que me mantinha de pé mesmo quando eu mesma duvidava.
— Você fica diferente aqui. — murmurei.
— Diferente como?
— Mais... completo. Como se tivesse raízes no chão.
Ele assentiu lentamente, como quem entende o que não precisa ser explicado.
— É aqui que eu paro de me proteger, estou entre meu povo. Talvez seja ainda mais nítido quando estou dentro da reserva.
Minha respiração falhou por um instante. Havia algo no modo como ele dizia isso que me atravessava como se, com aquela frase simples, me dissesse que ali, comigo, ele não precisava fingir. E, de alguma forma, me dava permissão para fazer o mesmo.
— Eu não sabia que sentia falta disso... — confessei, olhando o mar mais adiante.
— Do quê?
— De ver alguém pertencer a um lugar. De ver algo verdadeiro, firme e não sentir medo.
Cole não disse nada. Apenas chegou um pouco mais perto, e por um instante, nossos braços se tocaram levemente. Não foi um gesto planejado. Foi natural, como se o espaço entre nós já não quisesse existir. Ficamos ali, lado a lado, observando o mar agitado e os barcos que balançavam com o vento. E nesse silêncio entre redes e gaivotas, me dei conta de que não era só sobre ele me mostrar aquele mundo. Era sobre ele me convidar a me enxergar ali dentro também.
O vento soprou mais forte, me fazendo encolher em reflexo, e ele abriu o casaco, como se fosse um gesto automático. Eu hesitei, meu coração disparou com o convite, mas dei um passo. Depois outro. Até estar ali, no abrigo improvisado dos braços dele. Não completamente colada. Mas próxima o bastante para sentir o calor que irradia do seu corpo como se fosse natural emanar toda essa temperatura. O peito batendo contra meu ombro. A respiração dele se ajustando à minha.
— Eu tô tentando... — sussurrei.
— E já está indo muito longe só por isso. — ele respondeu. Seu braço quente me cobrindo as costas, protegendo-me da brisa gelada que soprava.
Fechei os olhos.
Não era um beijo.
Não era uma declaração.
Era um encontro.
E, por agora, era exatamente o que eu precisava.
Antes que eu pudesse dizer algo mínimo que fosse, uma criança gritou, chamando por alguém. Ou parecia ser um chamado. Eu não reconheci a língua. Abri os olhos, procurando pelo som emergente e desconhecido.
Atrás de nós surgia uma menininha de cabelos longos e sorriso escancarado correndo na nossa direção. Seus bracinhos se agitaram e ela exclamou de novo. Cole afrouxou seus braços ao redor de mim, dando atenção para a menina que chegava. Ela pulou nos braços de Cole, que a ergueu no ar com facilidade. A menina exclamou cheia de felicidade, abraçando-o com sua força; ele riu, seus olhos verdes brilharam e a respondeu na mesma língua, muito afável. Eles trocaram algumas palavras, ela pareceu negar algo que ele estava falando, mas suas mãozinhas cobriram sua cabeça; havia areia grudada em seu cabelo. Um riso espontâneo me quis sair, e acabei por usar minha mão para que ele pudesse escapar dos meus lábios abafado, para não chamar tanta atenção. Foi só então que ela me notou. Me olhou com olhos curiosos e nenhum medo. Seus olhinhos puxados deu uma olhada para ele, murmurando algo.
— Essa aqui é a Amberli. — disse Cole num idioma que eu pudesse entender, colocando-a no chão — Uma amiga muito especial.
— Ela é bonita. Parece triste, mas bonita. — ela soltou, sem nenhum filtro.
Sorri sem jeito. Crianças tinham o dom de acertar onde mais doía.
— Eu só tô cansada. — respondi sem deixar de sorrir, ajoelhando para ficar na altura dela — Qual é o seu nome?
— Kaylee. E eu tenho sete anos. E você parece o tipo de pessoa que precisa de um abraço!
Fui pega de surpresa quando ela me envolveu com os bracinhos finos, apertando forte. E, contra toda lógica, aquele abraço me desarmou. Não era só um gesto infantil. Era afeto puro. Quando ela se afastou, foi impossível deixar de procurá-lo em suas feições infantis e senti Cole observando. Não havia cobrança no olhar dele, só... esperança. Fiquei observando em silêncio. O contraste entre a delicadeza dela e a força do ambiente ao redor era tão marcante quanto familiar. E então algo me atravessou, uma sensação estranha, quente, difícil de nomear.
Vi nela traços que não sabia se eram dele… ou se apenas desejava que fossem. Os olhos atentos, a curiosidade sem pressa, o jeito de pertencer ao lugar sem esforço. Tudo aquilo tinha a mesma calma firme que eu reconhecia em Cole. Por um segundo, me perguntei: será que é filha dele?
Não era ciúme. Nem desconfiança. Era só... uma tentativa de entender como alguém como ele se conectava assim tão naturalmente, tão profundamente com uma criança. A maneira como a olhava de longe, com uma ternura quase protetora, me tocou. Talvez ele fosse o tipo de homem que sabia cuidar. Que não recuava diante da fragilidade, mas se aproximava com presença e respeito. Eu e Cole permanecemos lado a lado, sem dizer nada. Mas naquele silêncio, comecei a entender que existiam gestos que diziam mais do que qualquer confissão. E talvez... talvez eu quisesse fazer parte disso também.
Demorei alguns segundos antes de perguntar. O silêncio entre nós ainda era leve, como uma brisa que passava sem pressa. Mas havia algo em mim que precisava saber.
— Ela é sua filha? — minha voz saiu mais baixa do que o esperado, sem tensão, sem intenção de invadir. Apenas… real.
Cole virou o rosto devagar, os olhos ainda acompanhando Kaylee, como se demorasse um instante para sair do pensamento e vir até a minha pergunta.
— Não. Ela é minha afilhada. — respondeu com simplicidade — Sou só o padrinho dela. É a filha do Embry.
“Só.” Mas o jeito como ele disse aquilo, a firmeza tranquila das palavras, me fez entender que não havia nada de “só” nisso. Olhei para Kaylee de novo. Ela agora sorria para um pescador que passava, sem medo, como se conhecesse aquele lugar desde sempre.
— Você me parece cuidar dela como se fosse. — comentei, deixando o pensamento sair em voz alta.
— Mas se o mundo deixasse, eu a adotava também. — Cole encolheu os ombros, mas sem desviar o olhar da menina — Prometi à mãe dela que estaria por perto. E quando você faz esse tipo de promessa… você cumpre. Mesmo quando a vida muda. — ele fez uma pausa breve — Principalmente quando a vida muda.
Aquilo me tocou mais do que eu gostaria de admitir. Porque ele não falava só da Kaylee. Falava de compromisso. De permanência. De ser abrigo mesmo quando tudo em volta desmorona. Fiquei em silêncio por um momento, deixando que a ideia se assentasse. E percebi que talvez o que me comovia não era o que ele fazia por Kaylee, mas o tipo de homem que ele precisava ser para fazer isso. E o tipo de vínculo que ele parecia capaz de construir… até mesmo comigo.
Kaylee correu ao nosso redor, se equilibrando nas tábuas de madeira como se fosse dona do lugar. Cole se aproximou de mim.
— Quis te trazer aqui porque é o único lugar onde o mundo desacelera pra mim. Onde as coisas fazem sentido. E onde eu queria que você visse que…, eu não fujo de cuidar. De amar.
Me peguei olhando pra Kaylee e imaginando Hilary ali. Helena. Talvez, um dia.
— Ela é linda. E você…, é bom com crianças.
— Não é difícil quando se ama sem querer nada em troca.
Fiquei em silêncio. Mas algo dentro de mim amoleceu.
Kaylee se distraiu com um barquinho de madeira atracado logo à frente. Seus dedos pequenos tocavam o casco como se aquilo fosse mágico, e não apenas um pedaço de madeira velha. O vento fazia os cabelos dela dançarem como bandeiras vivas, leves, livres. Cole e eu permanecemos lado a lado, observando em silêncio. O som do mar preenchia as pausas que as palavras ainda não conseguiam alcançar.
— Você realmente a criaria como filha? — perguntei, de repente, sem saber por que aquela pergunta escapou.
— Sim. — ele não hesitou — Desde o momento que peguei ela no colo pela primeira vez. A mãe dela é minha prima e melhor amiga. Lá na reserva, a gente aprende que filho não é só dado à magia do nosso sangue. É de vínculo, de presença afetiva. Então, eles me tornaram o que a Kay precisava que eu fosse. Às vezes pai, às vezes padrinho, às vezes um super-herói de borracha, ou até mesmo alguém que corre com ela como se tivesse nascido com patas no lugar dos pés. — ele sorriu, quase envergonhado, como quem revela algo íntimo por metáfora, mas sem entregar tudo — Ela diz que eu tenho “ouvidos de lobo” e “olhos de floresta”. Eu só deixo. — completou, com uma expressão que misturava ternura e um orgulho contido.
Soltei um riso fraco, mas verdadeiro.
— Ela tem sorte.
— Eu que tenho. Ela me ensinou a amar sem garantias. E me mostrou que realmente, o vínculo não vem só do sangue. Vem da escolha.
As palavras dele ficaram pairando entre nós. Escolha. Vínculo. Tempo.
— Você acha mesmo que... alguém como eu ainda pode ser suficiente pra alguém?
Ele se virou para mim, sério, sem desviar.
— Amberli, você carrega feridas que eu nunca vou entender por completo. Mas também carrega coragem. Você criou uma filha sozinha. Trouxe outra ao mundo mesmo quando tudo gritava pra desistir. E ainda tá aqui. Inteira, mesmo que rachada. Isso não é só suficiente. É raro.
Engoli em seco. O peso do elogio me quebrou de leve.
— E se eu falhar? E se eu nunca conseguir ser o bastante pra Helena? Ou pra Hilary?
— Todos falham. Eu também. Mas o que importa é que você vai estar lá quando isso acontecer. Você não vai fugir. Você não costuma voltar atrás.
O silêncio voltou, mas agora era diferente. Quente. Reconfortante.
— E você? Já pensou em ser pai? De verdade?
Ele olhou pra Kaylee e depois voltou o olhar para mim.
— Não tem um dia em que eu não pense nisso. Mas não com qualquer pessoa. — a voz dele suavizou — Tem que ser com alguém que me faça querer ficar. Com todas as versões dela. Mesmo as quebradas.
Senti a garganta apertar. Porque parte de mim queria ter a ousadia de dizer ‘fica’. E outra, ainda cheia de medo, dizia ‘foge’. Mas no fundo… talvez eu só precisasse de tempo. E ele parecia disposto a esperar.
Kaylee se virou de repente, como se sentisse que estávamos falando dela, embora não estivéssemos em voz alta. Seus olhos escuros encontraram os de Cole primeiro, e depois os meus. Ela correu na nossa direção com passinhos ágeis, o barquinho de madeira agora preso entre os braços.
— Cole! Olha, ele tem um nome! — anunciou, com um sorriso largo, os cabelos ainda dançando ao redor do rosto.
Cole se abaixou para ela, com aquela paciência silenciosa que parecia brotar dele sem esforço.
— Teka! — ela disse, convicta — Que quer dizer “luz na água”. Eu que inventei, mas também é de verdade. Vovó me ensinou uma palavra parecida.
Eu sorri, tocada pela espontaneidade dela e pela reverência gentil que ele tinha com tudo que ela trazia, até mesmo com a imaginação.
— É um nome bonito. — falei, e ela se virou para mim com um olhar curioso.
— Obrigada! — ela sorriu, por uns segundos me senti examinada —Você é a moça da casa grande? — perguntou, sem timidez.
Assenti, tentando disfarçar a surpresa.
— Sou, sim.
— Você tem filhas?
— Tenho duas, são menorzinhas; bebês. — respondi, com um leve sorriso.
Kaylee se aproximou um pouco mais, como se aquilo bastasse para que eu fosse alguém digna da sua confiança.
— Eu gosto de bebês! — disse — Mas eles choram muito.
Eu ri baixinho. Cole também.
— Às vezes. — concordei — Mas também sorriem muito, quando estão bem.
Kaylee olhou para mim por mais um instante, depois segurou minha mão com a naturalidade.
— Quando eu crescer, vou ensinar nomes para suas filhas também! — prometeu, antes de voltar a correr em direção à beira do píer, com o barquinho nas mãos.
Fiquei olhando seus passos desaparecerem entre cordas e tábuas, ainda sentindo o calor fugaz da pequena mão dela que por um instante se entrelaçou na minha. Era curioso como as crianças sabiam tocar onde a gente mais escondia, não com força, mas com uma simplicidade que desarmava.
— Ela confiou em mim rápido demais. — comentei, olhando ainda na direção em que a menina corria.
— Crianças não medem como os adultos. — disse Cole, com a voz baixa — Elas sentem. E o que ela sentiu em você... foi o que eu também senti.
Minha respiração pausou por um instante, quase imperceptivelmente. Eu não desviei o olhar do horizonte. O mar estava quieto, e os barcos balançavam levemente, como se respirassem junto com a água.
— E o que foi que você sentiu?! — perguntei, tentando manter a leveza, mas a pergunta saiu mais sincera do que planejado.
Ele demorou uns segundos para responder.
— Que você carrega muita coisa. Mas ainda assim... dá abertura. Nos concede espaço.
Virei o rosto para ele, surpresa pela precisão daquilo. Cole não falava muito. Mas quando falava, me acertava em cheio.
— E você... Carrega o bastante para saber respeitar o tempo das coisas.
Ele sorriu de leve, os olhos se apertando de um jeito quase cúmplice.
— Só espero que esse tempo não demore demais.
O peso da frase ficou entre nós, mas era um peso bom. Uma espécie de esperança viva. A brisa ficou mais fria e eu encolhi os ombros levemente. Cole notou. Sem dizer nada, ele tornou a me cobrir, eu me assustei com sua aproximação por um segundo, mas aceitei. Deixei que ele fosse meu manto vivo, o tecido estava aquecido com o cheiro dele, que me é tão familiar agora...
— Obrigada. — murmurei.
— De nada.
Cole permaneceu comigo, em silêncio. E de alguma forma, aquela menina, com suas palavras inventadas, com sua leveza ancestral, tinha costurado um fio invisível entre nós três. Não havia mais nada a ser dito. Mas tudo estava sendo dito.
Os minutos correram, meu corpo era aquecido pelo calor do seu, minhas pernas já tinham intercalado meu peso de uma para outra e continuávamos na mesma posição, no mesmo lugar. Alguns barcos partiam, outros até já estavam ativos no horizonte, quando Kaylee voltou correndo, com o rosto corado e o cabelo bagunçado pelo vento, ela estava correndo com um grupo de outras crianças que começava a surgir distante das embarcações.
— Padrinho! — ela se aproximava.
Cole pareceu hesitar em dar-nos espaço e me adiantei em fazê-lo mover os braços para eu ficar ao seu lado para que a menina se aproximasse. Olhei-o de relance. A falta do seu calor foi quase imediata.
— Padrinho! Vamos com o papai pegar picolé? — perguntou, agarrando a mão de Cole.
— Claro, Indiazinha! — ele respondeu, deixando-se ser puxado alguns centímetros mais para frente pela força dela e então virou-se para mim com cuidado — Quer vir com a gente? — ele perguntou, sem pressa.
Eu sorri com ternura, mas balancei a cabeça, negando.
— Acho que preciso voltar. As meninas... e eu também, na verdade.
— Tudo bem. — ele assentiu, e seus olhos disseram mais do que qualquer palavra conseguiria.
Ele se agachou na frente da afilhada, conversando com ela numa língua íntima. De começo, seu entusiasmo infantil murchou, mas a conversa terminara com um aceno agitado de sua cabeça e um sorriso leve.
— Tchau, Padrinho! — ela pulou em seu colo, agarrando o pescoço dele. Seus olhos escuros me fitaram por um momento, o sorriso ainda ali, um dente permanente crescendo — Tchau, Amberli.
— Tchau, Kaylee. — sorri levemente.
Ela se afastou, acenando para nós entusiasmada, correndo pelo mesmo caminho de onde veio. Eu a observei se afastar, seu corpinho sumindo na distância. Talvez, pela primeira vez em muito tempo, eu quisesse que alguém voltasse. Cole virou para mim e me pegou sorrindo.
— Me avise quando quiser conversar de novo. Ou só... respirar. — aproximou-se de mim, e eu permiti que seu braço me circunde, trazendo seu calor contínuo e aquecendo as minhas costas.
— Tá bom. — assenti deixando-me encostar contra ele. Apertei meus lábios num sorriso fechado, sentindo meu rosto se aquecer.
Olhei para o horizonte cinza, e mesmo que eu não chegasse a lhe dizer, eu sabia: eu não estava voltando a mesma mulher que chegou ali naquela manhã.
➶
Já voltávamos pelo caminho de tábuas molhadas, com o vento mais cortante e as sombras do fim de tarde escorrendo por entre os barcos. O céu parecia mais pesado agora, com nuvens que prometiam chuva a qualquer momento. Cole caminhou ao meu lado em silêncio, com os passos calmos e firmes como o mar que havíamos deixado para trás. Kaylee, que estava com uma casquinha de sorvete em uma das mãos, ao lado de Embry, deu um último aceno de longe, o barquinho “Teka” agora seguro sob o outro braço, e sorria como se soubesse exatamente o que aquela manhã significara para nós dois.
A porta da caminhonete se fechou com um estalo baixo e oco. Desta vez, o banco ao lado de Cole não parecia o mesmo. O silêncio que se formou entre nós no interior do carro era pacífico. O motor da Dodge RAM voltou a roncar como antes, mas havia algo diferente no ar entre nós. Cole manteve as duas mãos no volante, os olhos voltados para a estrada, mas seu corpo estava menos tenso, mais à vontade. Não precisava olhar para mim para saber que eu estava em paz. Eu me acomodei no banco, segurando a manta dobrada que Esme havia me oferecido. Ainda sentia o cheiro do porto nos cabelos, maresia, óleo, madeira molhada. Mas agora, ao lado desse cheiro, havia outro: o dele. Aquele calor amadeirado que ficava na gola do casaco, nos bancos do carro, nos pequenos espaços onde ele existia sem esforço.
A estrada de volta parecia mais curta.
A paisagem deslizou pelas laterais do para-brisa em tons de verde e cinza, e eu me deixei levar por ela, passamos por uma clareira onde a neblina se adensava entre as árvores, criando uma dança fantasmagórica de luz e sombra. Eu virei o rosto para a janela, observando a cena como se fosse uma pintura em movimento. Em alguns trechos, o carro passou por clareiras onde o sol começava a rarear por entre raras aberturas nas nuvens, refletindo finos feixes dourados nas folhas molhadas. Tudo parecia quieto, até minha mente, não havia culpa em me sentir bem.
— É estranho... — murmurei, deixando meus pensamentos vazarem por meus lábios — Como tudo pode continuar o mesmo depois que a gente muda por dentro.
Cole não respondeu de imediato. Quando o fez, sua voz era tranquila, firme, como se estivesse me dizendo algo que ele já sabia há muito tempo.
— Porque o mundo não sabe que você mudou. Mas você sabe.
Fiquei em silêncio por um instante. A frase me acertou com uma delicadeza que doía.
— E o que a gente faz com isso? Com essa sensação de estar em outro lugar, mesmo sem ter saído de lugar nenhum?
Ele respirou fundo antes de responder.
— A gente aprende a navegar mesmo sem aviso. — seus dedos giraram o volante com leveza enquanto ele continuava — O mar não espera ninguém, Lee. Ele segue o próprio ritmo. Quem não se move, afunda. Mas quem encara, mesmo com medo… acaba encontrando paz. Não porque o mar se acalma. Mas porque a gente aprende a flutuar.
Eu o encarei de lado, e por um segundo, não vi só Cole, vi o homem que já tinha enfrentado muita coisa. E que não precisava gritar para ser ouvido.
— Parece que você está falando de mim... — murmurei.
Ele sorriu de leve, ainda com os olhos na estrada.
— Talvez eu esteja.
Fechei os olhos por um breve instante. A resposta caiu como algo que eu já pressentia. O carro fez uma curva suave, e por um momento meus dedos tocaram os dele, quando fui me apoiar. Ele não afastou. Nem eu.
— Obrigada por hoje. — murmurei, sem tirar a mão.
— Obrigado por ter vindo. — ele respondeu.
E dessa vez, seus olhos se viraram para mim, demorando um pouco mais do que o necessário antes de voltarem à estrada. A luz que vinha da janela fazia esses olhos oscilarem de intensidade. Às vezes mais musgo molhado. Às vezes mais jaspe com traços terrosos, como se dentro deles houvesse a sedimentação de tudo o que ele já suportou calado.
Contive um suspiro.
— Obrigada por ter me levado. — respondi, minha voz mais firme do que antes, como quem finalmente se ouve por dentro.
Não dissemos mais nada. Não era preciso.
Quando a mansão surgiu entre as árvores, envolta na mesma névoa que havíamos deixado para trás, com suas janelas acesas como olhos amáveis na penumbra, senti que havia voltado diferente, não porque algo externo havia mudado, mas porque agora havia um lugar dentro de mim que começava a querer mais do que apenas se proteger. Começava a se permitir caminhar.
Cole desligou o motor, mas não se apressou em abrir a porta, apenas me olhou de soslaio, sem urgência. Olhei para frente, depois para ele. Havia uma calma ali. Uma paciência que me fazia sentir que eu podia existir do meu jeito.
Saímos do carro com movimentos calmos, com o coração carregando algo novo, algo que ainda não tinha nome, mas já começava a ocupar mais espaço.
— Se quiser ir ao porto de novo… por sua conta, da próxima vez, é só me dizer. Não precisa de desculpa.
Eu o encarei por um momento. E então, sorri sem medo.
— Vou lembrar disso.
Nós caminhamos lado a lado, o passo calmo, as mãos ainda separadas, mas os ombros às vezes se tocando quando o caminho estreitava. O silêncio não era incômodo. Era outro tipo de conversa. Uma que acontecia entre respirações e olhares curtos, como se já estivéssemos dizendo tudo sem precisar falar.
Quando subimos os degraus da varanda, a madeira rangeu levemente sob minhas botas ainda húmidas da bruma do porto, a porta da frente se abriu antes que Cole pudesse alcançá-la.
Rosalie.
Ela estava ali, absurdamente impecável, como sempre. Estava de braços cruzados, encostada de leve no batente, o cabelo dourado brilhando sob a luz interna. Olhos afiados, atentos em mim como se me analisasse centímetro por centímetro. Não de forma dura. Apenas como alguém que compara o antes e o depois. Mas não hostis.
Ela se desencostou do batente. Nos fitou por mais uns segundos longos demais. Primeiro Cole, depois eu. Depois nós dois juntos.
Eu senti meu corpo enrijecer um pouco, como se ainda esperasse ser julgada por cada gesto que eu não conseguia controlar direito. Mas Rosalie apenas arqueou uma sobrancelha. E então… o inesperado.
Um sorriso curto, discreto. Bem perceptível. Real.
— A chuva vai apertar. — ela disse, num tom neutro — Ainda bem que voltaram antes.
Foi só isso.
Ela se virou e entrou, os cabelos esvoaçando atrás de si. Nenhum comentário mordaz. Nenhum alerta disfarçado de preocupação.
Só uma constatação. E aquele pequeno, quase imperceptível, sorriso.
Cole soltou um riso baixo, ao meu lado.
— Isso foi... muito educado, vindo da Rosalie.
Assenti, ainda olhando para onde ela desaparecera.
— Acho que foi mais do que isso. — respirei fundo — Acho que foi uma aprovação.
— Não sei o que é mais raro. — ele murmurou — A Rosalie aprovar algo, ou você aceitar que está sendo aprovada por ela.
Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorriso. Entramos juntos. A casa nos recebeu com seu calor e cheiro de madeira e lavanda. Lá no alto, eu conseguia ouvir os passos suaves.
Mas agora, naquele instante, era outra coisa que pesava no ar.
Uma aceitação silenciosa.
Da casa.
Da família.
Da Rosalie.
E talvez, principalmente… de mim mesma.
Ergui meu olhar para Cole, encontrando suas írises verdes me encarando como se visse o mundo mais do que era mostrado.
— Eu só entrei para te deixar. Precisava saber se entraria em segurança. — disse ele, a voz baixa, firme.
Aquela frase, tão simples, me atravessou com uma força quieta. Não era sobre entrar em casa, atravessar a porta. Era sobre algo maior. Sobre ele se recusar a me deixar sozinha no limiar de qualquer coisa, mesmo que eu dissesse que podia. Era sobre mim. Sobre o lugar que ele fazia questão de proteger, mesmo quando eu fingia não precisar.
Assenti devagar, com um nó discreto na garganta.
— Muito obrigada por hoje. — falei, com a voz baixa — Não só pelo passeio no porto... E por me deixar ver esse lado seu.
Ele me olhou, atento.
— Então pelo quê?
Respirei fundo, sem desviar.
— Por me deixar ser eu. Sem que eu precise explicar tanto.
Um sorriso pequeno surgiu nos lábios dele. Mas os olhos, esses diziam mais do que qualquer sorriso.
— Isso não devia ser raro, Amberli.
Meu nome soou diferente na voz dele. Como uma palavra que carrega cuidado em cada sílaba.
— Esse lado é só o que eu sou. — ele respondeu, com um pequeno levantar de ombros, como se não achasse grande coisa. Mas era — Não mostrei nada que não fosse seu também. — ele disse, sem hesitar — Você é o tipo de mulher que me faz querer ser abrigo. E até mesmo lar. — completou.
Meu coração pareceu perder um compasso. Por um segundo, eu quis tocar sua mão. Dizer que algo em mim tinha mudado um pouco mais ali, naquele dia. Que talvez eu começasse a sentir saudade antes mesmo de sair do carro.
Mas só assenti, devagar. Coloquei a mão na maçaneta, relutante.
— Realmente vai chover. — ele disse, observando o céu.
— Sempre chove aqui.
— Nem sempre. Às vezes só parece chuva. Às vezes é só o céu querendo lembrar que sente. — disse ele, os olhos ainda fixos no horizonte.
— Você vai voltar lá amanhã? — perguntei, sem pensar muito.
Ele hesitou só um segundo e assentiu.
— Sim. Mas preferia voltar com você.
Meus olhos se prenderam aos dele. O castanho que surgia dentro do verde me lembrava terra molhada após a chuva, discreto, mas perceptível, como se dissesse: “aqui é seguro.” E por um instante, não foi mais só despedida. Foi promessa.
Ele não tentou se aproximar mais. Não insistiu. Apenas me olhou daquele jeito que dizia: quando você estiver pronta, eu vou estar aqui. Quando dei um leve passo para trás, pronta para ir... Cole se aproximou. Com lentidão. Com certeza. Como quem não queria assustar, mas também não podia mais evitar. Sua mão tocou a minha com gentileza, os dedos quentes, firmes, envolventes. Meu coração vacilou por um instante, não de medo, mas de reconhecimento. Ele levantou minha mão até a altura dos lábios e a segurou ali por um segundo que pareceu suspenso no ar. Depois, beijou com suavidade o dorso dos meus dedos, como se aquilo fosse um voto silencioso de cuidado. Não havia urgência. Só verdade.
Fechei os olhos brevemente.
Quando abri, ele ainda me olhava, mas dessa vez com uma ternura profunda, como se dissesse: você não está sozinha. Nem aqui, nem depois. O silêncio entre nós ficou mais cheio que antes. Então, sem largar minha mão, ele a apertou uma última vez firme, mas delicado, e só então soltou.
Dei um passo para trás, mais para dentro. A porta ainda aberta. A luz da entrada banhava os ombros dele como se o mundo lá fora ainda tentasse segurá-lo um pouco mais.
Mas antes de selar a porta completamente na soleira, falei por trás de seus ombros.
— Então talvez eu vá com você. — sussurrei.
Cole se virou, o sorriso dele foi pequeno, contido... mas seus olhos, os olhos de floresta, havia um brilho cálido e cheio de esperança.
E sem mais palavras, ele se virou e caminhou de volta até a caminhonete, sem pressa. Não olhou para trás. E, curiosamente, não precisou. Fiquei ali por mais um segundo. Sabia que, se olhasse de novo para ele, talvez pedisse para que ficasse. E não era hora. Ainda não.
E mesmo depois que o motor arrancou e sumiu pela neblina da estrada, eu permaneci parada por alguns segundos, sentindo o ar frio contra o rosto... e a pele da minha mão ainda quente, a sensação da sua mão ainda envolvia a minha.
Era estranho, e ao mesmo tempo profundamente familiar, como se a memória do toque dele tivesse deixado uma marca que não se via, mas que se sentia como uma brasa calma sob a pele. Os lábios dele tinham uma textura firme e contida. Quente, numa temperatura exata entre o mundo de fora e o abrigo. Não foi um beijo qualquer. Não foi social, nem teatral. Foi quase um rito. Um gesto ancestral, daqueles que a gente reconhece com o corpo antes da mente entender.
E o que mais me assustou... foi que eu queria lembrar. Queria guardar aquela sensação como quem recolhe uma folha seca entre as páginas de um livro sabendo que ela vai se desmanchar um dia, mas mesmo assim precisa estar ali.
Meus dedos roçaram levemente o dorso da outra mão, como se tentassem tocar de novo aquilo que só o coração ainda podia sentir. Era só a pele.
Mas parecia que ele tinha encostado em algo muito mais fundo.
Fechei a porta, abafando o som externo. O som suave da casa continuava. Vozes baixas no andar de cima. Um riso breve de bebê. O aroma de chá vindo da cozinha. E eu... Eu estava aqui. Ainda de casaco, ainda com areia salgada nos pensamentos, ainda com o calor do banco do passageiro embaixo da pele.
Mas mais minha. Mais dona dos meus próprios passos.
Subi os lances da escadaria. Hilary brincava com Helena na pequena sala, supervisionadas por Alice. Esme estava no canto da cozinha, secando algumas louças que provavelmente ela lavou mesmo sem precisar. Era o jeito dela de cuidar: silencioso, presente, afetuoso.
— Chegou no tempo certo. — ela disse, com aquele tom acolhedor — Fiz chá de camomila com lavanda para você tomar antes do almoço.
Me sentei na banqueta próxima à bancada central na ilha da cozinha, os cotovelos apoiados e as mãos entrelaçadas na pedra.
— Fui até o porto de La Push com o Cole. Conheci a afilhada dele. Kaylee.
Esme me ofereceu a xícara e sentou ao meu lado, interessada, mas paciente.
— E como foi?
— Ela é... diferente... me abraçou sem me conhecer. Como se soubesse que eu precisava.
— Crianças têm esse instinto. Principalmente as que foram amadas. Elas sentem quando alguém precisa de ternura.
Fiquei mexendo o chá por um momento, antes de confessar:
— Sabe... Parte de mim ainda briga para me convencer de que eu não mereço isso. Que eu não tenho direito de ser feliz depois de tudo.
Esme colocou a mão sobre a minha com delicadeza.
— Não existe merecimento quando se trata de amor. Só entrega. E coragem. Você tem muito mais das duas coisas do que imagina.
Meus olhos encheram d'água. Não chorei. Mas também não sorri.
— Eu tô cansada de ainda ter a sensação de viver em pedaços.
— Então comece a acreditar que está colando um por um. E aceite ajuda no caminho. Cole já começou a te mostrar que está disposto a fazer isso com você. E nós também.
Assenti em silêncio. O vapor do chá subia entre nós como uma névoa suave. Esme se levantou, pediu licença e se afastou com gentileza. A casa estava mais quieta agora. Esme havia subido com Helena, e os outros pareciam dispersos em suas próprias rotinas.
E, por um instante, deixei-me sentir o ambiente, o calor da mão de Cole, a textura de seus lábios contra minha pele. O beijo de Cole não tinha sumido, apenas se recolhido em silêncio sob minha pele. A textura dos lábios dele ainda estava lá, como uma lembrança sensorial que não queria se desfazer, seus lábios eram secos na medida certa, firmes, estruturados e ao mesmo tempo macios, como se ele soubesse exatamente com que força tocar para não me assustar, mas também não me deixar dúvidas de que era real.
Havia um contraste entre a pele sensível do dorso da minha mão e aquela pressão suave, quase reverente. Como se ele tivesse me beijado não como uma despedida, mas como um reconhecimento. Não havia sido só um gesto, era um traço. Um selo. Um vestígio que agora fazia parte de mim. Às vezes, sem perceber, meu polegar deslizava devagar sobre o dorso da mão, tentando traduzir com a pele o que a mente ainda não sabia nomear, como um código que ficou marcado ali.
Fiquei assim por minutos. Em silêncio. Olhando o nada, sentindo tudo.
Foi quando ouvi os passos leves de Rosalie se aproximando. Ela não disse nada de imediato, só entrou no ambiente como quem respeita um momento íntimo, mas com olhos atentos o suficiente para ler o que não era pronunciado. Abriu uma das portas superiores do armário, pegou algo, talvez só por ocupar o tempo, e só então falou, com voz suave, quase cúmplice:
— A cozinha raramente te atrai quando está assim, quieta. Algo bom aconteceu?
Virei o rosto na direção dela, mas não respondi de imediato. Rosalie não insistiu. Apenas se virou, encostando-se de leve à bancada oposta, os braços cruzados com aquele ar de quem não julga, apenas enxerga.
— Você foi. Duas vezes. — Rosalie disse, simplesmente direto ao ponto, como sempre.
Assenti, não precisava responder com mais do que isso. Estava estampado em mim. Ela descruzou os braços, se aproximou devagar. Os saltos suaves de suas botas soaram como gotas contra o chão.
— Ele te trouxe de volta. — completou, como se estivesse falando de algo trivial — E voltou diferente.
— Talvez. — assenti. Um gesto curto, contido — Talvez só mais completa.
E foi só isso. Mas ela pareceu entender mais do que minha cabeça ainda conseguia colocar em palavras. Ela inclinou levemente a cabeça, avaliando o que via. Seus olhos dourados calmos e sem julgamentos pousaram discretamente nas minhas mãos, entrelaçadas na bancada. E então voltaram para o meu rosto, com um leve levantar de sobrancelha, nada acusatório. Só... perceptivo.
— Ah... — murmurou — Entendi.
Senti meu rosto esquentar, mas não desviei os olhos. Pela primeira vez, não me senti envergonhada por estar sentindo algo. Rosalie se afastou um pouco, indo até o bule de chá sobre o fogão.
— Esme sempre faz a bebida certa na hora certa. — ela comentou, por fim. A voz soou distante, mas sem frieza — Quer mais um pouco de camomila com lavanda? — ofereceu, com um tom neutro, mas gentil.
— Quero. — respondi, a voz baixa. E antes que ela se virasse de novo, acrescentei — Só não quero esquecer a sensação.
Ela me olhou de lado, séria por um instante. Depois, servindo a xícara, disse:
— Então não esqueça. Às vezes, é exatamente disso que a gente precisa pra lembrar quem somos.
Pousei a xícara no balcão, tentando não reagir como antes. Com receio. Com justificativas. Mas não precisei. Ela estudou meu rosto por um momento. O olhar de alguém que enxerga além das palavras, das intenções. Que reconhece quando alguém está tentando ser forte sem fingir que não sente.
— As meninas ficaram bem. Alice levou Hilary para desenhar com Jasper e Renesmee, que já saiu... Esme embalou Helena duas vezes. — ela sorriu com ternura — Disse que ela suspirou no sono, como se sentisse sua ausência.
Meu peito se apertou de leve, mas não de culpa e sim de pertencimento.
— Foi só uma manhã... — sussurrei, como se me justificasse.
— Foi o suficiente para abrir uma janela. — rebateu Rosalie — Às vezes, um passo fora das paredes que nos protegem muda tudo.
O silêncio entre nós parecia denso, mas não pesado. Era... estável.
— Ele é paciente. — disse, por fim — Mas não é cego. Só... pense bem antes de puxar ou empurrar alguém como ele.
As palavras vieram firmes, mas sem agressividade. Ainda assim, ecoaram como quem abre uma porta que eu não tinha certeza se queria atravessar.
— Eu sei. — murmurei, mas era quase uma defesa automática, tentando encerrar o assunto antes que ele me atravessasse de verdade.
Rosalie se afastou da bancada e caminhou até a janela. O silêncio entre nós não era desconfortável, mas havia nele um peso… como se ela estivesse me medindo sem pressa.
— Ele perdeu pessoas. Como todos nós. — a voz dela era baixa, mas afiada — Mas o Cole... ele escolheu continuar acreditando. E isso o torna perigoso, às vezes. Porque ele não sabe desistir.
“Perigoso.” A palavra ficou suspensa no ar, vibrando como um aviso e um elogio ao mesmo tempo. Eu não sabia se devia me sentir mais protegida ou mais… responsável. Eu desci da banqueta e me aproximei devagar, ficando ao lado dela. O vidro da janela refletia só um pedaço do rosto dela, mas era suficiente para ver que falava sério.
— Você acha que eu sou um risco pra ele? — a pergunta escapou antes que eu pudesse pensar. Talvez fosse mais sobre mim do que sobre ele.
Ela virou a cabeça um pouco, os olhos dourados me observando com intensidade.
— Não. — pausou — Acho que você é como ele. Só esqueceu disso por um tempo.
Fiquei parada, sentindo a frase como quem recebe um presente sem saber como segurá-lo. O tipo de coisa que só se entende por inteiro depois. Mas, naquele instante, tudo o que consegui fazer foi manter o olhar firme… e, silenciosamente, tentar me lembrar de quem eu tinha sido antes de esquecer. O silêncio que seguiu foi diferente do anterior. Tinha outra textura. Quase... afeto.
— Obrigada. — sussurrei.
Por um instante, ficamos em silêncio. E eu soube que ela entendia mais do que deixava transparecer. Rosalie me observou com atenção uma última vez, depois soltou uma frase quase sussurrada:
— Há algo em você que voltou olhando o mundo com olhos mais vivos. Se ele se machucar... nós vamos proteger ele. Assim como protegemos você. — seus olhos passearam pelo ambiente e então me olhou de novo — Mas seria bom se vocês dois não precisassem ser salvos dessa vez.
E com isso, ela se virou e saiu da cozinha, deixando o eco das palavras pairando no ar. Fiquei ali por um tempo, sentindo o peso e a leveza daquela conversa coexistirem dentro de mim.
Fale com o autor