Sempre ao seu Lado
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Sempre ao Seu Lado
Capítulo 60
parte 2
Meu corpo se alinhou contra o assento do sofá quase que inconsciente enquanto meus olhos procuravam as esferas azuis do olhar da minha filha mais nova. Sendo uma híbrida com o metabolismo acelerado e uma percepção sensorial profundamente apurada, os presentes destinados a ela foram pensados com uma sensibilidade cirúrgica, focando em responder às suas necessidades biológicas e ao seu desenvolvimento único.
Carlisle foi o primeiro a se aproximar, trazendo uma caixa longa, sem embrulho, de madeira escura com entalhes feitos à mão. Ao abri-la para Helena, revelou-se um conjunto de frascos de cristal lapidado, hermeticamente fechados.
O presente me intrigou, fazendo me aproximar para entender o que estava ali.
De acordo com Carlisle, trata-se de uma seleção exclusiva de elixires e extratos nutritivos concentrados, desenvolvidos por ele em seu laboratório após meses de estudo.
Anos trás ele criou formulações ricas em ferro e nutrientes essenciais adaptadas para a fisiologia híbrida, o que garante que Helena receba a suplementação adequada para o seu crescimento acelerado sem sobrecarregar seu organismo, tudo com aromas sutis e paladares suaves, pensados para não agredir seu olfato e paladar refinados.
Quando minha filha foi incentivada a tocar em um dos cristais, Renesmee se espreitou toda enérgica para perto dela, mostrando que tinha um também, idêntico ao dela.
Em seguida, Edward colocou sobre a mesa de centro um estojo verde-marinho, dentro dele havia um par de abafadores acústicos de última geração, desenvolvidos com tecnologia de cancelamento de ruído passivo e ativo, moldados sob medida para o tamanho de Helena. Edward sabia em primeira mão como a audição apurada de uma mente híbrida pode ser avassaladora em ambientes barulhentos ou em momentos de sobrecarga sensorial.
Pasma, eu assistia sua explicação perfeitamente compreendida por Helena de que peça foi projetada com um design anatômico e leve, permitindo que ela filtre os sons do ambiente e encontre momentos de absoluto silêncio e descanso quando a sua sensibilidade auditiva exigir.
Bella e Renesmee se juntaram para entregar o presente seguinte: um tabuleiro de xadrez com uma plaquinha banhada a ouro com seu nome e uma coleção de diários e livros em branco com folhas de gramatura altíssima, tecidas a partir de fibras vegetais densas e resistentes a rasgos. Como Helena possui uma força física em desenvolvimento que supera em muito a de uma criança humana de dois anos, livros comuns de papel frequentemente se rasgam sob a pressão de seus pequenos dedos.
O material reforçado permite que ela folheie, desenhe e futuramente escreva sem o risco de danificar as páginas, dando a ela total autonomia sem a limitação da fragilidade do papel convencional.
Na vez de Jasper, porém, havia escolhido algo que me pareceu completamente diferente.
Ele trouxe uma pequena caixa revestida de tecido escuro e a colocou nas mãos dela, esperando que fosse a própria Helena a abri-la. Dentro havia um pingente delicado, antigo, feito de ouro envelhecido, com uma pequena pedra azul-claro no centro.
A peça é pequena, apropriada para ela, mas havia uma singularidade trabalhada que me fez perceber imediatamente que não era uma joia comum comprada em alguma loja. As bordas traziam detalhes minúsculos, quase imperceptíveis à distância, e, quando Jasper virou o pingente, pude ver uma marca gravada na parte posterior: duas formas distintas, uma lembrando uma figura humana e outra algo semelhante a uma criatura alada, separadas por uma árvore cujos galhos pareciam unir as duas partes.
Helena segurou a peça entre os dedos e ficou alguns segundos observando o desenho, enquanto eu tentava entender de onde a joia tinha vindo.
Jasper passou a me explicar que ele e Alice haviam encontrado a peça muitos anos antes, durante uma das viagens que fizeram enquanto procuravam relatos e referências sobre híbridos.
Segundo ele, havia menções a objetos semelhantes em registros antigos, mas nunca conseguiram descobrir exatamente quem havia produzido aquela peça, tampouco para quem ela havia sido feita. Eles a mantiveram guardada durante décadas, mais por curiosidade e pelo valor histórico do que por qualquer certeza sobre sua origem.
O loiro fez questão de deixar claro que não sabiam se aquilo realmente tinha alguma relação com um híbrido, e talvez tenha sido justamente essa honestidade que tornou a explicação ainda mais intrigante para mim. Não havia uma revelação extraordinária escondida naquela caixa, pelo menos não naquele momento; havia apenas uma história incompleta, uma relíquia que sobrevivera ao tempo e uma pergunta que ninguém na família havia conseguido responder.
Olhei para Helena enquanto ela continuava segurando o pingente e depois para Jasper, tentando entender por que, dentre tantas coisas que alguém poderia escolher para uma criança, ele havia decidido entregar justamente aquela.
Ele apenas olhou para ela por alguns instantes antes de dizer que, depois de tudo o que haviam aprendido sobre híbridos, parecia certo que finalmente existisse uma criaturinha para quem aquela peça pudesse fazer sentido.
Não soube exatamente o que pensar daquilo.
A parte racional de mim queria tratar o colar como uma curiosidade antiga, uma coincidência interessante encontrada por um casal que passou décadas viajando e acumulando histórias que ninguém mais poderia conhecer. Ainda assim, um desconfortável me pegava na ideia de que aquela pequena peça existisse muito antes de eu e Helena nascer e tivesse surgido justamente durante uma busca por relatos de crianças que, como ela, não pertenciam inteiramente a um único mundo.
Helena ergueu os olhos para Jasper, ainda segurando o pingente com cuidado.
— É tão lindo, vai ser mesmo meu?
Jasper respondeu apenas que, a partir daquele momento, era. Eu me aproximei para ajudá-la a colocar a peça de volta na caixa, porque não queria que ela a perdesse no meio de tantos presentes, e fiquei alguns segundos admirando para o pequeno símbolo antes de fechar a tampa. Não sabia o que aquela marca significava. Não sabia quem havia feito aquela joia, quem a carregara antes ou por que histórias tão antigas haviam associado aquele desenho a seres que os Cullen passaram tanto tempo tentando compreender.
Porém, isso parece mais uma das muitas coisas que eu ainda estava aprendendo sobre a família em que minhas filhas haviam encontrado um lugar.
Fechei a caixa e a entreguei novamente a Helena, permitindo que ela continuasse a ser presenteada.
Cada um usou sua própria experiência e conhecimento para entregar a Helena ferramentas de proteção, conforto e desenvolvimento, acolhendo a sua natureza com o amor e o respeito que ela merece. Meus olhos arderam em felicidade me fazendo sentir um apertinho no peito, transbordando de gratidão por isso.
Diante disso, a atenção do grupo se voltou para a troca de presentes entre os adultos. Do meu lugar no tapete, continuei observando cada detalhe, absorvendo a atmosfera única daquela sala antes que a minha própria pilha de embrulhos começasse a ser revelada.
Alguns presentes eram entregues pelos próprios donos. Outros simplesmente apareciam nas mãos de quem deveria recebê-los, acompanhados por um olhar cúmplice ou por um sorriso que dizia mais do que qualquer explicação.
Eu me acostumei a observar.
Carlisle recebeu coisas que pareciam escolhidas com a mesma serenidade que ele carregava para tudo. Livros, objetos relacionados às suas pesquisas e algumas peças que, mesmo sem serem particularmente extravagantes, tinham uma utilidade que combinava com ele. Esme recebeu presentes que pareciam ter sido escolhidos pensando na casa, na música, na decoração e nas pequenas coisas que ela gostava de transformar em lembranças.
Jasper ganhou algumas coisas que imediatamente despertaram nele aquela atenção silenciosa que eu já conhecia. Edward recebeu seus presentes com um sorriso discreto, mais interessado nas intenções por trás deles do que nos objetos propriamente ditos, foi bonito de ver quando seu olhar encontrou os da esposa quando as partituras chegaram às suas mãos.
Alice, naturalmente, recebeu coisas bonitas, era quase inevitável, algumas eram relacionadas à moda, outras à fotografia, outras simplesmente tinham sido escolhidas porque alguém sabia que ela encontraria beleza nelas.
Rosalie recebeu presentes que combinavam com ela de maneira quase irritantemente precisa, coisas elegantes, cuidadosas, escolhidas sem excesso. Emmett ganhou objetos que pareciam ter sido selecionados especificamente para alimentar seu senso de humor ou sua tendência a transformar qualquer ocasião em uma competição.
Esme foi a primeira a me entregar seu presente. Com um sorriso acolhedor, ela me passou uma caixa. Foi impossível não sorrir antes mesmo de abrir. Havia alguma coisa na maneira como Esme oferecia presentes que sempre me fazia sentir que estava recebendo mais do que um objeto. Parecia que ela entregava uma parte do tempo que havia passado escolhendo aquilo. Ao abri-la, deparei-me com uma caixa de madeira de reflorestamento impecavelmente polida, quando retirei o papel, encontrei dentro uma coletânea especial de chás.
Fiquei alguns segundos olhando com emoção, sentindo minha respiração apertar na garganta.
Havia diferentes tipos, alguns que eu reconhecia e outros que nunca tinha experimentado, de diversas partes do mundo, misturas artesanais com flores, especiarias e ervas raras acondicionadas em compartimentos próprios. As embalagens eram bonitas, dispostas em pequenos potes de vidro herméticos e pequenas latas, cada uma etiquetada com zelo, algumas com descrições dos ingredientes e outras com sugestões para diferentes momentos do dia que eu jamais teria pensado em procurar sozinha.
Passei a ponta dos dedos pelas bordas das embalagens e imediatamente imaginei as noites em que poderia escolher uma delas, preparar uma xícara e simplesmente me sentar perto de uma janela sem precisar fazer mais nada.
Esme conhecia aquela parte de mim que gostava dos pequenos rituais, das coisas simples que podiam transformar uma noite comum em alguma coisa especial, e eu não precisava perguntar como ela havia descoberto isso, a matriarca tinha pensado em algo tão simples, nada extravagante como pensei em receber dela.
Foi justamente por isso que me tocou tanto.
Passei os dedos pela lateral da caixa e guardei o presente junto de mim. Agradeci a ela com um abraço apertado, desses que não precisam de muitas palavras, e percebi pelo modo como ela me recebeu que o gesto significava tanto para ela quanto para mim.
Logo em seguida, Emmett passou um pacote retangular para Jasper, que se aproximou e me entregou, é surpreendentemente pesado. Dentro, encontrei consoles e acessórios de videogame de última geração, títulos e edições especiais que pertenciam àquela época, alguns acompanhados de conteúdos digitais e acessos exclusivos que eu não teria conseguido adquirir facilmente por conta própria, uma seleção cuidadosamente escolhida dos mais atuais, com versões e edições que eu conhecia apenas de nome e outros que ainda nem conhecia. Junto havia um cartão com credenciais de acesso exclusivas para recuperar os servidores e contas parceiras que minha mãe, teve a oportunidade de manter.
Fiquei olhando para as caixas durante alguns segundos. Depois compreendi.
O presente não era apenas pelo detalhe cotidiano do quanto eu gostava dos jogos, Jasper havia pensado muito mais além, muito mais simbólico. Aquelas contas parceiras, os acessos exclusivos que haviam ficado presos a um pedaço da minha vida que eu não sabia muito bem como recuperar. Algumas estavam ligadas a serviços e plataformas que eu havia usado antes de tudo mudar, e outras tinham se tornado praticamente lembranças digitais de uma época em que minha mãe ainda estava aqui.
Segurei um dos videogames nas mãos.
A intenção de Jasper era muito maior do que me oferecer algum entretenimento para jogar. Era me dar uma porta, uma possibilidade de recuperar partes de algo que eu havia perdido, talvez alguns daqueles acessos ainda funcionassem, talvez não, mas agora eu poderia descobrir.
Ele sabia sobre minha mãe. Sabia que Anna tinha trabalhado com empresas de tecnologia, jogos e equipamentos e que, ao longo dos anos, havia acumulado contas, parcerias e acessos exclusivos para influenciadores e desenvolvedores.
E sabia que eu havia perdido acesso a uma parte da minha vida digital quando deixei Casper, e também sabia da importância que os antigos vínculos de Anna tinham mantido comigo durante tantos anos. Algumas das contas que ela utilizava em parceria com empresas de jogos e entretenimento ainda possuíam acessos exclusivos, benefícios e conteúdos vinculados a determinados títulos, mas eu nunca tinha conseguido recuperar tudo depois que minha vida virou de cabeça para baixo. Jasper havia encontrado uma maneira de me devolver uma pequena parte daquela história sem transformar aquilo em uma lembrança triste. Ele tinha escolhido justamente jogos que poderiam me permitir recuperar alguns desses acessos e reencontrar coisas que pertenciam à época em que Anna ainda estava presente.
Fiquei olhando para as embalagens por mais tempo do que pretendia, meus dedos se apertaram na estrutura de papel fosco e engoli seco, diante de mim estavam novos itens de uma parte da minha vida que eu ainda não sabia se queria tocar novamente, mas que, pela primeira vez, parecia estar ao alcance das minhas mãos. Alguns daqueles jogos permitiam justamente que eu retomasse acessos vinculados às antigas contas parceiras dela. Ter de volta essa conexão com o legado digital dela resgatou memórias preciosas, um gesto silenciosamente empático que apenas Jasper saberia articular tão bem.
Passei o polegar sobre uma das caixas, talvez fosse estranho receber videogames no Natal e sentir vontade de chorar, mas eu senti.
Olhei para Jasper. Fiquei olhando para ele com um sorriso que demorou a aparecer completamente, e agradeci, sentindo uma gratidão diferente daquela que havia sentido com o chá. Esme tinha me dado uma forma de desacelerar; Jasper, de certa maneira, tinha me dado uma forma de voltar. Ele não precisou explicar, apenas fez aquele leve movimento de cabeça, como se soubesse exatamente o que eu havia entendido. Guardei o presente com cuidado, coloquei-o ao meu lado.
O presente de Bella me deixou verdadeiramente curiosa pois mesmo enquanto eu abria o pacote ela ainda sorria. Quando abri, tirando os encaixes de segurança, demorei alguns segundos para compreender por que ela estava sorrindo daquele jeito.
Até que fiquei extasiada com o que via. Canecas de louça. Não uma, nem duas, uma coleção inteira! E não eram canecas comuns.
Meu coração praticamente parou.
Algumas tinham personagens estampados; outras possuíam formatos completamente diferentes de qualquer caneca comum. Meus olhos brilharam ao desembrulhar uma coleção inteira de canecas de louça trabalhadas. Cada uma tinha um design único e divertido: formatos de casinhas de vila, bonecos de biscoito e de biscoito de gengibre, e personagens com relevos detalhados, e várias com pequenas particularidades que faziam cada uma parecer ter sido escolhida individualmente. Fiquei completamente encantada. Durante alguns segundos, esqueci até que todos estavam olhando para mim. Eu não conseguia decidir qual olhar primeiro. A variedade de formas e a delicadeza do acabamento resgataram na hora a minha paixão por coleções.
E agora eu estava sentada dentro de uma mansão cheia de vampiros, segurando uma caneca em formato de casinha como se tivesse acabado de receber uma relíquia. Minha reação foi espontânea e imediata.
Eu ri sozinha. Não consegui evitar.
Toquei uma por uma, examinando os detalhes, virando algumas para procurar marcas, desenhos ou pequenas particularidades, incapaz de decidir qual eu gostava mais.
Eu sou uma antiga colecionadora de canecas temáticas antes de vir para Forks, era uma das pequenas manias que pertenciam à mulher que eu tinha sido antes de tudo aquilo. Sempre gostei de encontrar modelos diferentes, guardar algumas que tinham significado especial e escolher outras simplesmente porque eram bonitas ou engraçadas. Não foi uma coleção particularmente valiosa, mas era minha e eu a amei demais. E eu não lembrava de ter contado aquilo para Bella.
Ergui meu olhar para ela. Ela sorria abertamente, o olhar brilhante entre as pálpebras apertadas.
— Eu sabia.
— Você sabia?! — fiquei surpresa.
Ela sorriu.
— Alice me contou.
Olhei imediatamente para Alice, só que ela estava ocupada com Hilary e fingiu não perceber, claro.
Eu voltei a olhar para as canecas.
Bom, não importava. O fato era que, naquele momento, eu estava novamente diante de algo que parecia pertencer à minha antiga vida. Só que encarar essa perspectiva não doía, pelo contrário, eu estava feliz, muito mais feliz do que deveria estar diante de uma coleção de canecas. Havia algo quase infantil na minha felicidade, mas nem me importei, peguei outra que tinha formato de casinha. Depois a de biscoito. Segurei uma delas contra o peito.
— Eu amei! — declarei, quase cantarolando de alegria.
E era verdade.
Depois agarrei uma terceira caneca que tinha um personagem estampado a encarando de uma maneira que provavelmente ninguém naquela sala conseguiria imaginar completamente. Alice fotografava tudo, naturalmente, e eu já havia perdido a conta de quantas vezes tinha ouvido o clique de sua câmera só hoje de manhã.
Hilary se aproximou curiosa, ela parecia tão fascinada quanto eu, tentou segurar uma das canecas com as duas mãos e ficou olhando, eu precisei explicar que não era um brinquedo, que era exclusivo da mamãe; ela não pareceu convencida. Bella riu, atraindo sua atenção.
E eu me dei conta de que, em algum momento, uma coisa que antes havia sido apenas uma coleção minha começaria provavelmente a ser uma das muitas coisas que minhas filhas associariam à minha presença.
Talvez, um dia, Hilary lembrasse das manhãs em que me via escolher uma caneca diferente, talvez Helena também. E isso me pareceu bonito de visualizar pro meu futuro, como se uma pequena parte de quem eu tinha sido pudesse continuar existindo sem precisar permanecer presa ao passado. Era apenas algo que eu gostava. Algo que era meu. E eu estava extasiada.
Passei boa parte dos minutos seguintes imaginando onde colocaria cada uma delas, quais usaria e quais provavelmente deixaria apenas para admirar, porque algumas eram bonitas demais para correrem o risco de cair da minha mão na minha futura casa. Minha casa. Ainda parecia estranho pensar assim, mas parecia bom. Muito bom.
Eu as coloquei cuidadosamente ao meu lado, aguardando o que mais havia por vir.
Emmett, sem perder o tom brincalhão, estendeu-me um envelope dourado, belamente embrulhado. Ele tinha aquela expressão satisfeita de quem estava esperando exatamente a reação que viria.
Abri com cuidado, analisando o cartão de alta gramatura com um design elegante que estava ali dentro. Eu deveria ter desconfiado... Emmett? Com apenas um envelope? Inocentemente pensei que talvez ele tivesse finalmente escolhido alguma coisa razoável. Mas isso em minhas mãos trata-se de um voucher, válido em qualquer concessionária, para que eu pudesse escolher e trocar de carro quando quisesse.
Fiquei olhando para do cartão para ele, tentando decidir se deveria rir ou devolver imediatamente. Eu não precisava de outro carro. O meu ainda estava funcionando, e, naquele momento, a ideia de trocar de veículo parecia muito mais extravagante do que necessária.
— Emmett, você ficou maluco? — protestei baixinho, encarando o cartão de relevo dourado nas minhas mãos antes de tentar empurrá-lo de volta para a mão dele — Eu não posso aceitar isso. É um exagero absurdo! Já é incrível demais passar o Natal aqui com vocês, não preciso de um carro novo.
Emmett soltou uma gargalhada grave que fez as luzes da árvore parecerem tremer, cruzando os braços enormes por cima da barriga de Papai Noel e negando com a cabeça.
— Pode guardar isso aí, Amberlizinha. — disse ele, dando um passo para trás com um sorriso largo e vitorioso — Primeiro de tudo: não aceito devoluções na manhã de Natal. Segundo: esse voucher é universal e não tem prazo de validade. Se você não quiser trocar de carro agora, o problema é seu. Fica guardado.
— Emmett, por favor... — tentei insistir, olhando para Rosalie em busca de socorro, mas ela apenas deu um sorriso divertido, cruzando os braços ao lado do marido.
— Sem "por favor". — ele rebateu, piscando para mim com uma piscadela conspiratória — Se você bater o pé e se recusar a usar, eu simplesmente mudo o nome no contrato e deixo de presente de aniversário de dezoito anos para a Hilary... Ah!, quer saber? Se for para a minha afilhada, aí eu não te dou só um voucher... eu te dou dois carros de uma vez só. Você que sabe.
Olhei para o papel na minha mão e depois para a cara de pau dele, sem conseguir segurar um riso resignado diante da sua lógica imbatível.
Essa era a forma de Emmett demonstrar carinho, um exagero gigantesco, como ele mesmo., praticamente impossível de argumentar contra, mas havia alguma coisa muito dócil por trás de toda extravagância: ele não estava tentando comprar meu afeto, nem esperava que eu aceitasse imediatamente. Apenas queria me dar uma possibilidade, uma escolha e, acima de tudo, fazendo aquilo do jeito que ele sabia fazer: exagerando o suficiente para que eu não tivesse como levar a recusa a sério.
Talvez fosse justamente por isso que eu acabei guardando o voucher, ainda dizendo que não pretendia utilizá-lo tão cedo. Emmett apenas transparecia sua satisfação por ter conseguido me fazer aceitá-lo.
Realmente não pretendo trocar de carro naquele momento, mas agora sabendo que, se algum dia precisasse, o voucher estaria ali. E porque conhecia Emmett o suficiente para saber que, se eu devolvesse o presente, ele realmente apareceria com dois carros na garagem só para provar que estava falando sério. Sorri sozinha diante dessa possibilidade me emocionando muito mais do que eu conseguia demonstrar.
Eu havia passado tanto tempo cuidando para que minhas filhas tivessem o necessário que, às vezes, esquecia que eu também podia receber alguma coisa, até mesmo a sensação de ser lembrada.
Ao meu redor, a troca de presentes continuava, Rosalie mantinha Hilary próxima, ajudando-a a abrir alguns embrulhos sem tomar dela a sensação de ter conseguido sozinha. Edward, vez ou outra, trocava um olhar comigo que me fazia perceber que ele entendia mais do que eu dizia. E Jasper permanecia atento, embora não precisasse estar no centro de nada para fazer parte de tudo.
Os presentes continuavam surgindo.
Hilary voltou para o meu colo trazendo uma fita presa ao pulso, Helena apareceu logo depois com a pequena estrela que havia recebido de Esme, as duas estavam cercadas por seus presentes, e eu percebi que nenhuma delas parecia mais interessada em saber qual seria o próximo. Estavam simplesmente aproveitando e eu não estava contando o tempo. Não estava calculando despesas. Não estava pensando no que precisaria resolver quando o feriado terminasse. Estava sentada no chão da sala, com duas crianças encostadas em mim, cercada por uma família que não havia sido minha no começo, mas que lentamente estava se tornando parte da minha vida, que havia escolhido nos incluir em suas tradições.
Olhei novamente para a árvore quando Alice começou a organizar os próximos embrulhos, enquanto Emmett tentava convencer Rosalie de que Papai Noel precisava de um intervalo para “recuperar a dignidade”, percebi que ainda estávamos apenas na metade daquela manhã.
Por fim, Alice tomou a frente para entregar o presente que encerraria nossa manhã.
Eu me lembro perfeitamente do dia que ela havia incluído eu e minhas filhas para uma sessão de fotos natalina. Sabia que tinha passado uma parte considerável daquele dia atrás da câmera, pedindo que eu me aproximasse das meninas, ajeitando um detalhe invisível, mudando de posição, esperando uma expressão específica da Hilary ou tentando capturar Helena no instante em que ela esquecia que estava sendo observada. O que eu não sabia era o quanto ela havia feito com aquelas imagens.
Até agora.
Ela organizou todo o material da nossa sessão de fotos natalina em um álbum físico encadernado em couro com fotografias impressas em sequência, e meu coração apertou de imediato. Havia imagens das meninas juntas, imagens individuais, fotografias minhas com cada uma delas e registros espontâneos que eu sequer lembrava de Alice ter conseguido capturar. Depois vieram dezenas de fotografias avulsas impressas no tamanho padrão e outras maiores, menores, horizontais, verticais, algumas destinadas a porta-retratos e outras que pareciam simplesmente existir porque Alice havia gostado daquela imagem o suficiente para querer tê-la impressa.
Eu comecei a rir quando percebi a quantidade. Alice parecia satisfeita. Eu não sabia se deveria agradecer ou perguntar onde ela pretendia colocar tudo aquilo, porque já havia fotografias suficientes para preencher uma parede inteira de uma casa.
Alice não disse nada. Apenas me observou.
Pois o que realmente paralisou a sala e prendeu a atenção de todos foram os três quadros de moldura nobre, que de acordo com Alice, o menor deles no tamanho de noventa centímetros por setenta e cinco.
Arquejei, ficando alguns segundos sem dizer nada.
O primeiro quadro trazia um retrato emocionante meu com minhas duas meninas. Hilary estava próxima de mim, sorrindo, enquanto Helena permanecia entre nós, e havia alguma coisa naquela imagem que eu não conseguia explicar. Não era uma pose perfeita. Não parecia uma fotografia construída para mostrar uma família impecável. Era apenas nós três. Eu conseguia reconhecer meu próprio rosto naquele instante, a maneira como olhava para minhas filhas e o modo como as duas se apoiavam em mim. Era uma imagem simples, mas talvez justamente por isso fosse tão arrebatador de olhar.
Alice se aproximou mais e pude tocar levemente os dedos pela moldura.
O segundo capturava apenas Hilary e Helena. As duas estavam juntas em um momento de pura cumplicidade, próximas o suficiente para que seus rostos quase se tocassem. Hilary parecia mais espontânea, como sempre, enquanto Helena mantinha aquela expressão curiosa que eu já conhecia tão bem. Olhei para a fotografia e depois para as duas meninas, que naquele momento estavam sentadas no tapete cercadas por seus novos presentes. A imagem parecia pertencer a elas. Não era apenas um retrato de duas crianças; era o registro de um vínculo que cresce diante dos meus olhos.
Foi o terceiro quadro que fez todos prestarem atenção, eu soube antes mesmo de vê-lo completamente.
Cole.
Ele estava na fotografia conosco. Eu não tinha percebido que Alice havia capturado aquele momento daquela maneira... marcante. Cole estava entre nós, próximo o suficiente para que a fotografia não deixasse dúvidas sobre a intimidade que começava a existir entre nós quatro. Hilary parecia confortável ao lado dele, Helena estava próxima de mim, e eu reconheci no meu próprio rosto uma expressão que talvez ainda não soubesse nomear quando aquela fotografia foi tirada.
Olhei para Alice, depois para o quadro, depois novamente para Alice. Ela não havia fotografado apenas nós na temática do Natal e sim fotografado o começo de alguma coisa, o começo de uma família que eu ainda estava aprendendo a reconhecer como minha.
Olhei para minhas filhas com o coração saltando dentro de mim.
Hilary estava sentada no chão, brincando com uma das coisas que havia recebido, enquanto Helena segurava sua pequena estrela de Natal e observando a maneira como Hilary erguia um brinquedo para cima com os olhos atentos. Depois olhei novamente para as fotografias. Minha vida inteira parecia estar espalhada naquela sala: havia coisas que eu tinha perdido; coisas que tinham voltado; coisas que eu ainda estava descobrindo e havia pessoas que, de alguma maneira, tinham escolhido permanecer.
Eu não sabia o que dizer.
Então simplesmente me desvencilhei das minhas coisas e dei um jeito de abraçar a Alice. Ela me apertou de volta, e eu senti sua mão gelada repousar por alguns segundos nas minhas costas. Ao me afastar, olhei novamente para os três quadros. O menor tinha noventa centímetros por setenta e cinco, mas parecia ocupar muito mais espaço dentro de mim.
Porque ali estavam minhas filhas, Cole e eu. E, acredito que pela primeira vez, aquela imagem não me pareceu uma fotografia de algo que poderia desaparecer. Pareceu uma fotografia de algo que estava começando a permanecer, durar pra toda vida.
Olhei ao redor da sala mais uma vez.
Os presentes continuavam espalhados pelo chão. As crianças continuavam brincando. Os Cullen continuavam trocando seus próprios presentes, e a árvore ainda estava iluminada como se aquela manhã já não tivesse nenhuma intenção de terminar tão cedo. Mas eu sei que, quando a mansão ficasse silenciosa novamente, os papéis fossem recolhidos e os presentes encontrassem seus lugares, aquelas imagens continuariam comigo.
Todos os meus presentes, dados e recebidos.
Não eram apenas coisas que eu havia recebido naquela manhã, cada um deles carregava uma pequena parte da maneira como aquelas pessoas me enxergavam. E talvez fosse isso que eu esteja aprendendo nesse Natal: que ser lembrada também era uma forma de ser amada.
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Eu já não sabia exatamente quantas vezes havia agradecido naquela manhã.
Os presentes continuavam chegando, os papéis coloridos se acumulavam ao redor da árvore e, de vez em quando, alguém precisava se abaixar para retirar uma fita que havia ficado presa embaixo do tapete e dos pés da poltrona. Hilary parecia ter energia suficiente para passar o dia inteiro descobrindo novas maneiras de brincar com cada coisa que recebia, enquanto Helena permanecia mais concentrada, que é tão própria dela.
Eu havia começado a acreditar que o momento dos presentes estava chegando ao fim quando percebi que Helena havia parado de olhar para os próprios presentes.
Ela estava alguns passos afastada da árvore, olhando para mim. Não era um olhar de dúvida, nem de insegurança. Era como se estivesse esperando que eu percebesse alguma coisa. Foi exatamente nesse instante de calmaria, enquanto os murmúrios satisfeitos da família preenchiam a sala, que Helena deu dois passos à frente. Ela olhou para a toda a família e, com um brilho misterioso nos olhos, sua voz miúda cortou o ambiente.
— Agora pode ser a minha vez?
Todos os olhares se voltaram para Helena. Minha pequena, com os olhinhos azuis-claros brilhando em uma mistura de ansiedade e um segredo formidável, estava de pé no centro do tapete.
— Por favor, venham comigo. — sem esperar por uma resposta, ela fez um gesto suave com a mãozinha.
Movida por uma curiosidade instantânea, levantei-me indo até ela. Quando nossos olhos se encontraram, ela segurou minha mão e puxou suavemente, fazendo um gesto para que eu a acompanhasse. Eu me inclinei para ficar na altura dela e perguntei o que havia acontecido, mas Helena apenas olhou para a porta que levava ao anexo ao lado e tornou a me puxar.
Bastou eu olhar por cima do ombro para os outros para que começassem a nos acompanhar. Chamei por Hilary, Esme veio em seguida, Alice logo atrás, e os demais se juntaram à pequena procissão com aquela curiosidade silenciosa que se instalou na casa assim que perceberam que Helena tinha alguma coisa preparada.
A cada passo adentrávamos no cômodo ladeado por janelas que deixavam a luz prateada da manhã de inverno banhar o piso de madeira, no centro da sala, repousava o imponente piano de cauda. Hilary saltitava alegre entre a gente, porque qualquer coisa que envolvesse a irmã parecia imediatamente interessante para ela.
Edward caminhava um pouco à frente, observando Helena com uma expressão que eu não consegui interpretar completamente, enquanto Rosalie e Esme trocavam um olhar rápido que me fez parar por um instante. Havia alguma coisa naquele comportamento que eu não conseguia identificar. Não era exatamente a surpresa por estarmos juntos aqui, me parecia mais expectativa, como se soubessem o que aconteceria quando chegássemos lá, embora nenhuma das duas tivesse dito uma palavra. Helena continuou segurando minha mão até atravessarmos a passagem que levava ao interior da salinha. O piano de cauda estava ali, exatamente como eu já o havia visto outras vezes, ocupando uma parte significativa do espaço, fora os retratos. Eu não sabia por que ela havia nos levado até ali. Muito menos porque Edward se aproximou do instrumento com um sorriso que ele lutava para conter e puxou o pequeno banco estofado para frente, ajustando sua posição antes de se virar para Helena.
Ela soltou nossas mãos indo até ele, que com uma delicadeza reverente, ele ergueu Helena e a ajudou a se acomodar no banco estofado, ajustando a distância exata para que os pezinhos ficassem confortáveis.
Edward esperou que ela lhe conformasse uma pergunta silenciosa antes de se afastar.
O ar pareceu ficar mais rarefeito quando vi minha filha ali, Helena balançou os pés sem alcançar o chão e olhou para as próprias mãos durante alguns segundos. Então seus dedinhos se esticaram sobre as teclas de marfim e ela testou timidamente, o primeiro tom foi tão baixo que quase se perdeu dentro do silêncio que havia se formado ao nosso redor. Depois veio outro, e mais um. Notas aleatórias, tímidas, escolhidas sem qualquer preocupação com uma melodia. Helena testava o instrumento como se estivesse confirmando que ele ainda estava ali, que responderia ao toque dela exatamente como havia aprendido.
Meu coração deu um salto incerto; eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, mas ainda assim eu permaneci atrás dela, sem compreender completamente, mas sentindo uma expectativa crescer dentro do meu peito. Edward não se moveu. Rosalie estava parada perto de uma das laterais do piano, com os braços cruzados, mas havia uma suavidade incomum em seu rosto. Esme observava Helena com uma expressão que eu reconhecia muito bem: aquela mesma ternura silenciosa que aparecia sempre que ela acreditava estar diante de alguma coisa que deveria ser protegida.
Comecei a juntar pequenas coisas na minha cabeça. Os olhares trocados entre eles, a maneira como Edward havia preparado o banco; a tranquilidade de Rosalie; o cuidado de Esme... Não sabia exatamente o que estavam escondendo de mim, mas tive a certeza de que havia algo ali.
Helena retirou os dedos das teclas, respirou fundo, girou o pequeno corpo no banco, ela olhou primeiro para todos nós, e depois encontrou o meu olhar. A sala inteira mergulhou em um silêncio absoluto.
— Mamãe, eu fiz uma coisa para você. — a voz dela soou limpa, firme e perfeitamente compreensível. Não havia hesitação, nem aquela construção infantil que às vezes fazia parte das palavras de Hilary — Eu queria te dar um presente que fosse só meu..., e aí você me falou sobre a declaração...
Ninguém se mexeu.
Helena olhou para as próprias mãos por um instante antes de continuar, e eu percebi que ela estava nervosa. Não era um nervosismo que ameaçasse fazê-la desistir. Era apenas o esforço de alguém que queria muito acertar.
— Você é a minha mãe. E eu sei que ser mãe não é só me pegar no colo ou cuidar de mim quando eu estou com medo. Você cuida de mim quando eu não sei o que fazer. Você me ensina as coisas. Você fica comigo quando eu estou triste. Você me olha no fundo dos olhos quando eu não consigo explicar o que estou sentindo e, mesmo assim, parece entender. E você faz isso com a Hilary também.
Senti meus olhos se encherem antes mesmo de conseguir impedir. Helena continuou me olhando, e havia tanta convicção em sua expressão que eu não consegui desviar.
— Você é a pessoa que me ensinou que eu posso confiar. Que eu posso perguntar. Que eu posso aprender. Que eu posso ser quem eu sou sem precisar ter medo por você. E eu acho que isso é uma das coisas mais bonitas que alguém pode fazer por outra pessoa. — pausou e respirou fundo — Eu gosto quando você me chama de sua menina. Gosto quando você arruma meu cabelo. Gosto quando você segura minha mão. Gosto quando você fica perto de mim mesmo sem falar nada. E eu gosto de ver você fazendo essas mesmas coisas com a Hilary, porque eu sei que ela também sabe que é amada. Você faz a mansão parecer nosso lar, mamãe. Mesmo quando as coisas estão difíceis.
Eu não consegui mais conter as lágrimas. Foi como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos meus pés. Um espasmo amoroso, denso e visceral, atingiu meu peito com a força de um furacão. Levei uma das mãos à boca, tentando esconder a emoção, mas Helena percebeu. Seus olhos acompanharam o movimento e, pela primeira vez desde que havia começado, um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Você é forte, e reaprendeu que não precisa ser forte o tempo inteiro. Você é gentil. Você é corajosa. Você é bonita por dentro e por fora. E, para mim, você é a melhor mãe que eu poderia ter. Para a Hilary também. Eu sei que ela ainda é pequena para dizer tudo isso, mas eu sei que ela sente.
Hilary, como se tivesse entendido que estava sendo incluída, aproximou-se de mim e segurou minha perna. Eu me abaixei para tocá-la, mas não consegui dizer nada. Helena então ergueu os olhos translúcidos diretamente para os meus.
— E mesmo quando você não se lembrava, eu te ouvia, sentia tudo aquilo que ficava escondido em você. Mamãe, você não precisa mais ficar brava com você por aqueles dias que eu chorei muito. Já passou. Eu sei que você vai estar aqui comigo agora se eu chorar. — havia uma solenidade linda e serena na forma como me encarava, a firmeza de quem compreendia exatamente o peso do amor que carregava, expressa com a candura impecável da sua pouca idade — Eu te amo porque você é minha mãe. Mas também te amo porque você é você. E eu espero que você nunca se esqueça disso.
Sua última frase me desmontou por completo. Eu não sabia quando havia começado a chorar de verdade, só percebi quando o ar travou na minha garganta e uma lágrima grossa caiu sobre minha mão e outra veio logo depois, pingando do meu queixo.
Sua declaração foi tão carinhosa, de uma magnitude tão sagrada, tão profunda, que eu mal conseguia processar que vinha da minha garotinha.
Minha filha tinha poucos meses de vida e, ainda assim, havia encontrado uma forma de me devolver afirmações que eu nem sabia que precisava ouvir.
Eu me aproximei dela e me ajoelhei diante do piano. Helena abriu os braços e se inclinou para mim, e eu a abracei com cuidado, sentindo seu pequeno corpo se acomodar contra o meu. Tirei seu gorro para poder beijar seus cabelos, fechei os olhos por alguns segundos e tentei respirar sem deixar que o choro me vencesse completamente. Ao redor de nós, a casa permanecia silenciosa. Nenhum adulto tentou quebrar aquele momento. Quando me afastei um pouco, vi que Esme estava chorando sem lágrimas discretamente. Alice tinha levado uma das mãos ao peito. Rosalie mantinha o rosto controlado, mas seus olhos denunciavam a emoção que tentava esconder. Jasper observava tudo em silêncio, com aquela serenidade profunda que parecia acompanhar cada mudança de sentimento dentro daquela casa. Edward, por sua vez, apenas olhava para Helena.
Foi então que Helena tocou meu braço.
— Ainda falta uma parte.
Olhei para ela, confusa.
— Mamãe... — a voz dela ecoou, aveludada e límpida, preenchendo o anexo com uma clareza que fez meu peito estremecer — O tio Edward me explicou que os presentes de Natal servem para dizer às pessoas o quanto a presença delas transforma a nossa vida. Mas nada do que estava sob a árvore hoje parecia grande o bastante para caber tudo do que você é.
Ela deu um pequeno sorriso, a luz do inverno refletindo em suas pupilas, onde a profundidade da sua natureza híbrida reluzia em pura devoção. Helena voltou a se alinhar no banco, Edward se aproximou novamente, mas não tomou o lugar dela, apenas reajustou discretamente o banco, colocou uma das partituras que eu não tinha visto antes sobre o suporte e recuou. Ela olhou para aquele papel por um segundo, depois para o teclado. Eu reconheci imediatamente a maneira como ela respirou fundo. Sua postura não era improvisada, havia alguma coisa preparada.
E, de repente, comecei a perceber outros detalhes que antes tinham passado despercebidos. Esme tinha escolhido aquele momento para ficar ao lado do piano. Rosalie estava posicionada perto o suficiente para intervir caso Helena precisasse de alguma coisa, mas distante o bastante para não interferir. Edward parecia saber exatamente quando deveria ajudá-la e quando deveria deixá-la sozinha. Não havia nenhuma explicação sendo dada, e eu não queria perguntar, senti que talvez houvesse uma parte daquela surpresa que deveria permanecer desconhecida para mim. Eu poderia descobrir depois. Ou talvez nunca descobrisse completamente. A maneira como eles olhavam para Helena, porém, começou a me fazer suspeitar que aquela pequena apresentação não havia nascido apenas de uma ideia espontânea da minha filha.
Helena colocou as mãozinhas sobre as teclas.
A primeira nota foi delicada, depois veio outra e outra. u conhecesse sobre o tempo e sobre a infância, seus pequenos dedos começaram a dedilhar. Não eram notas aleatórias. Era uma melodia complexa, inédita, de uma beleza melancólica e esperançosa, como o primeiro raio de sol derretendo a neve.
Eu paralisei. Minha filha, tocando piano?
Não reconheci a música. Essa foi a primeira coisa que percebi.
Não era uma melodia que eu tivesse ouvido no rádio, em algum filme ou em qualquer outro lugar. Não havia familiaridade alguma naquele conjunto de sons. O que significa que é uma composição nova, construída a partir de movimentos pequenos que pouco a pouco começaram a se transformar em uma música, uma introdução. Helena tocava com concentração, mas não parecia assustada. Seus dedos percorriam as teclas com uma segurança que não combinava com a timidez de alguns minutos antes, e eu fiquei olhando para ela sem conseguir desviar os olhos. Meu coração saltava de amor.
Enquanto a melodia preenchia cada centímetro da salinha, observei de relance as bordas do meu campo de visão. Alice já tinha o celular preparado nas mãos pálidas, Edward mantinha a postura reta ao lado da Helena, os olhos fixos nas mãos da menina, como um maestro zelando por sua pupila; Rosalie tinha os braços cruzados e o rosto banhado em um orgulho feroz e maternal; Esme segurava as próprias mãos contra os lábios, os olhos dourados brilhando de emoção. Aquele segredo monumental, aquelas horas incontáveis de ensino e prática... eles haviam feito isso por ela. Por nós.
E então, quebrando a última barreira da minha sanidade emocional, Helena abriu os lábios e começou a cantar. A voz dela era um veludo afinado e doce, reverberando pelas paredes:
— A neve cai tão fina lá fora,
Mas aqui dentro o sol não quer dormir.
Eu sigo a luz que vem dos seus olhos,
Onde você estiver, eu quero ir.
Você é meu pensamento
Quando o dia amanhece, E
A minha certeza de segurança quando
A noite cai...
Ela tocou um acorde mais alto, a melodia crescente parecia quase delicada demais para o tamanho daquele piano, preenchendo as rachaduras da minha alma.
— No seu abraço o tempo congela,
Todo o meu medo vira pó e luz.
A minha vida é um presente seu,
É o seu amor que me conduz.
Mamãe, se o inverno tentar esfriar,
Essa canção é pra te aquecer.
Eu sou a nota que você criou,
Eu nasci só pra amar você.
Eu não conseguia respirar direito. Cada sílaba, cada nota perfeita tirada daquele piano, cada palavra endereçada a mim parecia ter sido lapidada com um carinho quase palpável provava que o amor assumia formas que a nossa mente sequer era capaz de prever. Eu jamais, nem em meus sonhos mais distantes, poderia conceber que ela guardava aquele talento, que sabia cantar daquela forma, que havia orquestrado algo tão grandioso apenas para me ver sorrir.
Ela continuou dedilhando sobre as teclas de marfim, algumas notas mais firmes surgiam e davam à música uma força inesperada. Ela não era triste, embora carregasse uma profundidade que eu não sabia explicar. Também não era exatamente alegre. Parecia uma mistura das duas coisas, como se alguém tivesse conseguido transformar carinho, saudade, segurança e esperança em sons.
E eu pensei em nós. Nos momentos difíceis, nos dias em que eu precisei continuar mesmo sem saber como, as noites em que não segurei minha filha nos braços tentando convencer a mim mesma de que conseguiríamos chegar ao dia seguinte. As notas também me lembraram do jeito como Hilary ri. O primeiro sorriso de Helena. As pequenas descobertas. A casa cheia. Os braços de Esme. As brincadeiras de Alice. A presença silenciosa de Jasper. A segurança de Carlisle. A família que eu não havia planejado encontrar.
E, agora, Helena estava sentada diante de um piano de cauda tocando uma música que eu nunca tinha ouvido antes, que, de alguma maneira, parecia ter sido feita para mim.
Não precisava nem perguntar quem havia ajudado, eu tinha minhas suspeitas; Edward conhecia o instrumento e tinha aquela capacidade quase assustadora de perceber o que Helena precisava antes mesmo que ela pedisse. Rosalie tinha uma sensibilidade musical que eu já havia percebido em outras ocasiões e, naquela manhã, seu olhar para o piano entregava mais do que suas palavras. Esme tinha o cuidado de quem provavelmente havia ajudado Helena a transformar sua ideia em alguma coisa concreta, sem tirar dela o direito de chamar aquilo de seu.
Suspirei entre uma melodia e outra. Talvez eu estivesse completamente errada e cada um tivesse participado apenas de uma pequena parte. Talvez Helena tivesse feito muito mais sozinha do que eu imaginava e eu preferi não descobrir naquele instante. Porque, para mim, aquela música continuava sendo dela.
Quando as últimas notas se dissipavam no silêncio emocionado da salinha, ninguém se moveu. Helena manteve os dedos sobre as teclas por alguns segundos antes de levantá-los lentamente e se virar para mim com os olhinhos brilhantes, buscando minha reação. E eu sorri entre as lágrimas.
— Esse foi o meu presente para você. — disse ela.
Eu balancei a cabeça, incapaz de encontrar palavras imediatamente.
Aproximei-me mais uma vez do piano e estendi as mãos para ela. Helena veio até mim, e eu a abracei com toda a força do meu ser, trazendo seu pequeno corpo para junto do meu peito, onde meu coração batia descontrolado, para que ela entendesse tudo aquilo que eu não conseguia transformar em palavras.
— Helena... meu amor, minha estrelinha... — murmurei contra os cabelos dela, a voz embargada pelas lágrimas que finalmente transbordavam, quentes e incontroláveis — Não existe no mundo um presente mais lindo do que este. Nada no universo se compara ao privilégio de ser sua mãe.
Helena aninhou o rosto quente no meu pescoço, abraçando meu ombro com a força surpreendente de suas mãozinhas.
— Você gostou de verdade, mamãe? — ela sussurrou ao meu ouvido, a voz inocente buscando a confirmação final — O tio Edward me ajudou a ajustar os tons para que parecessem com sua essência, e a tia Rose e a tia Esme disseram que você saberia que era para você assim que ouvisse a primeira nota.
Afastei-me apenas o suficiente para emoldurar seu rosto com as minhas mãos, olhando nos olhos da minha pequena nota por nota, sentimento por sentimento.
— Eu reconheceria a sua alma nessa música mesmo se estivesse de olhos fechados no meio de uma tempestade. — declarei, beijando-lhe a testa com devoção maternal — Ela é perfeita. Você é perfeita, minha filha. Obrigada por me dar o Natal mais inesquecível da minha vida.
— Ser sua filha é a coisa mais bonita que existe em mim, é o meu maior orgulho...
— Ah, minha menina... — meus lábios tremeram enquanto as lágrimas quentes desciam pelo meu rosto — Você vai sempre tocar para mim quando eu pedir?
— Vou sim, mamãe! Para que, toda vez que você ouvir, saiba que a minha alma está te abraçando. Feliz Natal, mamãe.
— Então vem cá meu amor. — a puxei para meu abraço, impactada — Feliz Natal, minha estrelinha.
Nessa manhã, eu havia recebido chá, canecas, fotografias, objetos escolhidos com carinho e presentes que me fizeram rir. Todos eles tinham encontrado um lugar dentro da minha vida. Mas Helena havia me dado alguma coisa que não poderia ser guardada em uma caixa, colocada sobre uma prateleira ou pendurada em uma parede. Ela havia me dado sua própria maneira de me enxergar. Tinha colocado em palavras aquilo que eu muitas vezes esquecia sobre mim mesma e, depois, transformado seus sentimentos em uma música que jamais existira antes daquele instante.
Eu sabia que algum dia aquela melodia poderia ser esquecida, modificada, tocada de outra maneira. Talvez Helena crescesse e criasse músicas muito mais complexas. Talvez nem se lembrasse exatamente de todas as notas daquela primeira composição. Mas eu sabia que jamais esqueceria o momento em que minha filha se sentou diante daquele piano, olhou para mim e decidiu que queria me mostrar, do jeito dela, o quanto eu era amada.
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Quando a maior parte dos papéis já havia sido recolhida e todos pareciam satisfeitos após uma manhã cheia de emoção, Emmett sem nenhum traço de Papai Noel, se agachou perto do tronco da árvore e puxou de lá um embrulho completamente desengonçado. O papel de presente estava visivelmente amassado, com dobras tortas e pedaços de fita adesiva colados de qualquer jeito um trabalho de embrulho que claramente não teve a intervenção de Alice ou Rosalie, do qual eu já havia visto dias antes.
Com um sorriso de orelha a orelha, ele caminhou até mim e jogou o pacote no meu colo.
— Este aqui é 100% autoral. Fui eu quem embrulhou e tudo! — orgulhou-se ele, estufando o peito enquanto Rosalie cobria o rosto com a mão, rindo em silêncio do desastre estético da embalagem.
Desfiz as fitas tortas com curiosidade e abri a caixa. Para o meu absoluto espanto, tudo o que havia lá dentro era um laço de presente gigante, feito de uma fita de cetim vermelho vivo e brilhante, daqueles com um nó enorme e cauda longa.
Puxei aquele trambolho vermelho da caixa, segurando-o pelas pontas e franzindo o cenho enquanto olhava alternadamente para o laço e para a cara de pau do Emmett.
— Emmett... o que é que você imagina que eu possa fazer com uma coisa esquisita dessas? — perguntei, sem segurar a risada perplexa — É para colocar na cabeça? Na porta do meu quarto?
Emmett deu uma gargalhada alta, cruzando os braços e dando uma piscadela maliciosa.
— Não seja ingênua, Amberlizinha! O conceito é simples: você se embrulha com ele e pronto. Você vira o presente de Natal do Cole. De nada!
O resto da sala caiu na gargalhada na hora. Senti minhas bochechas queimarem instantaneamente enquanto jogava o laço gigante de volta na cara dele, sem conseguir segurar o riso diante de mais uma das palhaçadas sem filtro.
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Depois da agitação da manhã, os papéis de presente já tinham sido recolhidos, embora algumas fitas ainda insistissem em aparecer debaixo do tapete e dos móveis, a tarde chegou sem que eu percebesse exatamente quando a manhã havia terminado.
Depois do almoço, o ambiente havia se assentado numa espécie de calma, conforto e tranquilidade que só existia quando todos já estavam satisfeitos e ninguém tinha pressa de ir embora. Eu estava na sala de novo encostada no braço do sofá, a presença majestosa da árvore piscando colorido refletindo no vidro, a lareira crepitando, Hilary havia passado boa parte do seu tempo indo de um lado para o outro com seus brinquedos e acessórios, enquanto Helena parecia preferir permanecer próxima dos presentes que havia recebido, reorganizando-os de tempos em tempos como se ainda estivesse se acostumando à ideia de que realmente eram seus.
Eu havia levado minhas coisas para o quarto, mas não conseguira me afastar completamente daquela sensação de estar vivendo uma espécie de sonho. As canecas estavam cuidadosamente reunidas de volta na caixa, o conjunto de chás havia encontrado um lugar seguro e eu ainda não conseguia decidir onde colocaria os quadros.
Volta e meia eu me pegava pensando neles.
Foi no meio dessa divagação que ouvi o som de um veículo se aproximando pela estrada. O ritmo do meu coração acelerou no mesmo instante.
Minha audição reconheceu o barulho antes mesmo de meus olhos se voltarem para a parede de vidro, porque já havia aprendido a identificar a caminhonete de Cole entre tantos outros sons que cercavam a propriedade. Eu sabia que Cole viria, mas a minha mente ainda estava tentando processar a surpresa que se aproximava pela neve. Ele havia mencionado a possibilidade de trazer a Kaylee, mas nada estava garantido.
Aproximei-me da janela e olhei para fora. O Dodge RAM de Cole foi estacionado diante da mansão, e, alguns segundos depois, a porta do motorista se abriu e o corpo monumental do homem surgiu no meu campo de visão, seus passos o levaram dar a volta pela frente do veículo parando na cabine, abrindo a porta traseira.
Um sorriso surgiu nos meus lábios. Ela realmente tinha vindo. Kaylee desceu com o apoio de sua mão, usando roupas de inverno e carregando alguma coisa nos braços. Eles ficaram alguns instantes conversando antes da menina caminhar para os primeiros degraus da entrada da varanda e Cole ficou para atrás, se inclinando para dentro da cabine. Meu olhar seguiu o corpinho da Kaylee subir os degraus pulando com os pés juntinhos antes de voltar a procurar por Cole, que estava fechando a porta do veículo com uma das mãos enquanto segurava alguma coisa enorme nos braços. Meus olhos se arregalaram custando alguns segundos para entender o que era aquela grandiosidade.
São rosas. Muitas rosas.
Ele segurava um buquê de rosas vermelhas tão denso e volumoso que praticamente escondia metade do corpo dele. Eram dezenas e dezenas de botões de diferentes tamanhos, folhas verdes cuidadosamente distribuídas e um laço escuro envolvendo os caules e as pétalas de um vermelho aveludado e profundo. Um lindo tom de rubi intenso.
Fiquei parada diante da janela, sem saber se ria ou se ficava encabulada com o tamanho daquilo, enquanto Alice, que também havia percebido a chegada, se aproximava por trás de mim e soltava uma risada baixa. Não precisei perguntar o que ela estava pensando. A expressão no rosto dela dizia que, pelo menos naquele momento, Cole havia conseguido surpreender até mesmo alguém acostumada a enxergar muito antes dos outros.
— Ele veio preparado. — ela sorriu.
Eu simplesmente ainda estava tentando entender como aquele homem conseguia a proeza de fazer com que uma coisa tão simples quanto chegar à porta da mansão, se transformasse em um momento indescritível capaz de me tirar o fôlego e acelerar meu coração.
Cole levantou os olhos na direção da janela, nossos olhares se encontraram, ele sorriu, eu sorri de volta e então a campainha tocou. meu peito deu um salto que nem mesmo a compostura dos Cullen ao meu redor conseguiu disfarçar.
Foi Edward quem desceu para abrir a porta e minha visão se afinou completamente no homem que alcançou os últimos degraus.
Cole estava impecável. Com uma camisa que valorizava toda a sua estrutura muscular dos ombros de uma maneira que me fez engolir seco toda a saliva que se acumulou na minha boca.
Quando ele entrou na sala, Kaylee veio logo à frente, encolhida timidamente no casaco e sorrindo com um brilho curioso nos olhinhos puxados, recebendo a atenção de Hilary quase imediatamente. Minha filha correu até ela sem qualquer hesitação, e as duas se abraçaram como se não tivessem se visto há meses, embora tivesse passado pouco tempo desde o último encontro. Helena permaneceu perto de mim por alguns segundos, observando a movimentação antes de se aproximar, como sempre fazia quando algo novo acontecia ao redor dela, mas não demorou muito para as duas começassem a conversar com aquela intimidade espontânea que só crianças conseguiam construir em pouco tempo.
Cole, entretanto, veio diretamente na minha direção. As rosas ainda estavam nos braços dele, e quanto mais perto ele chegava, maior parecia o buquê.
— Cole... — minha evidenciava o quanto seu gesto me deixou sensível.
Ele caminhou na minha direção, ignorando por um segundo a presença de todos os Cullen, como se a sala imensa tivesse se reduzido apenas ao espaço entre nós dois, inclinando o mundo de flores levemente na minha direção.
— Feliz Natal, Lee. — Cole apenas sorriu, aproximou-se o suficiente para se inclinar sobre mim, deixando um rastro de calor para beijar minha testa — Eu disse que daríamos um jeito de chegar a tempo. — a voz do Cole soou grave e aveludada, reverberando diretamente onde a minha sensibilidade romântica mais se vulnerabilizava.
Meus olhos baixaram para o buquê por alguns segundos antes de finalmente recebê-lo. Quando ele me estendeu o buquê gigante, precisei de ambas as mãos para segurá-lo e ajustar os braços para conseguir sustentá-lo direito. É pesado. Muito mais pesado do que eu esperava. O perfume tomou conta do espaço quase imediatamente, intenso sem ser desagradável, sobrepondo-se ao cheiro de pinho e canela e por alguns instantes eu só consegui olhar para aquelas flores, tentando encontrar alguma reação adequada, mas tudo o que consegui fazer foi sorrir.
Eu não estava acostumada a receber coisas daquela proporção.
Eu agradeci, ainda tentando decidir onde colocar um buquê daquele tamanho, e ele pareceu satisfeito com a minha reação, principalmente quando percebeu que eu não estava tentando devolvê-lo.
— São tão lindas! Meu Deus!...
— Eu queria trazer alguma coisa que você não pudesse fingir que não gostou.
Soltei uma risada.
— Você acha que eu faria isso? — fingi uma expressão ofendida.
— Acho que você tentaria. — ele brincou.
Olhei para ele.
— Talvez; só pra ver se conseguiria te irritar. — dei de ombros, brincando também.
Ele sorriu me deixando com um turbilhão de bons sentimentos rodopiando dentro de mim.
— Cole... meu Deus. — murmurei, mergulhando o rosto por um segundo entre as pétalas macias para absorver o perfume antes de apenas erguer meu olhar para encarar aqueles olhos que eu conhecia tão bem — Elas são absolutamente maravilhosas. Você é louco... Obrigada mesmo. — tive que agradecer mais uma vez, com um sorriso bobo nos lábios.
— Você gostou?
Afastei meu rosto das rosas para que ele pudesse olhar abertamente para mim.
— Tá brincando? Eu amei!
Senti todos os olhares ao redor, não me importei, não senti vontade de esconder o que aquele gesto significava.
— Não é loucura quando é para você, Amberli. — ele respondeu baixinho, a voz carregada de uma intenção tão íntima que fez minhas bochechas esquentarem mais do que a lareira acesa.
Ele se inclinou, selando nossos lábios em um beijo calmo e demorado, dando aquela deliciosa impressão de que o tempo desacelera e o resto do mundo virar borrão.
Ao se afastar, ele passou o polegar de leve pela minha bochecha.
— Kay, venha cá.
Kaylee deu um passo à frente, a timidez inicial já desfeita pela recepção calorosa da família.
— Eu não tinha certeza se você conseguiria vir, Kaylee! — falei, ajeitando o buquê nos braços, recebendo o abraço da menina com carinho — Que surpresa incrível ter você aqui no nosso primeiro Natal.
— O tio Cole não aceitaria um 'não' como resposta, Amberli. — Kaylee riu, ajeitando o gorro de tricô — E planejamos essa viagem como se fosse uma missão secreta.
— E com razões muito claras. — Cole interveio, a postura confiante marcando sua presença de forma definitiva naquela casa. Algo que meses atrás, em julho, eu jamais imaginaria ver.
Coloquei o ramalhete de rosas temporariamente sobre uma mesa, porque não havia nenhum vaso disponível grande o bastante para acomodá-las. Alice imediatamente se adiantou em ajudar, comentando que encontraria alguma coisa adequada, enquanto eu permanecia diante delas olhando para as flores como se ainda não acreditasse que alguém realmente tivesse pensado em me dar um buquê daquela proporção.
As rosas se tornaram um centro visual na sala, impossíveis de ignorar, e eu tive a sensação estranha de que Cole havia chegado trazendo consigo uma presença que ia muito além do próprio corpo.
Foi só depois de me deixar devidamente cercada pelas flores que ele se voltou para as meninas e já não estava perto de mim quando me dei conta.
Procurei-o com o olhar, encontrando-o do outro lado entre os homens, mas seus passos já trilhavam outro destino.
— E vocês duas?
Hilary imediatamente ergueu os braços com as mãozinhas sujas de biscoito e Cole a pegou no colo. Helena se aproximou dele com mais cautela o encarava com aquela serenidade analítica que lhe era própria, e ele estendeu o outro braço para ela, esperando que fosse sua decisão, ela acabou se aproximando. Quando as duas estavam em seus braços, Cole olhou para mim.
— Agora, se vocês me dão licença, — disse Cole, olhando de relance para Emmett e Carlisle com um sorriso de quem guardava o melhor truque na manga — eu tenho obrigações sérias com as minhas garotas. Eu trouxe algumas coisas.
— Algumas? — a afilhada soou cética. A expressão dele foi suficiente para me deixar desconfiada. Kaylee começou dar risinhos — Ele exageroou! — ela voltou seu olhar escuro para mim.
— Eu não exagerei, Kay.
— Mamãe diz que você sempre exagera, Padrinho.
— É Natal.
Ele se virou com as meninas para a escadaria inferior e foi então que eu percebi o tamanho das caixas de presentes que simplesmente surgiram naquele local. Eu o acompanhei até ali e fiquei olhando enquanto ele retirava o embrulho junto com as meninas. Os presentes dele tinham tamanho, peso e um exagero deliberado que não parecia acidental. Para Hilary foram separados duas das maiores caixas e bastou que Cole colocasse a caixa diante dela para que minha filha se esquecesse de tudo ao redor. Ela olhou para o pacote, depois para mim, e eu reconheci imediatamente aquela expressão que significava que precisava da minha autorização antes de destruir o embrulho. Dei apenas um aceno, e o papel começou a desaparecer debaixo das mãozinhas dela.
Cole trouxe nada menos do que um miniveículo elétrico claramente feito sob encomenda: uma réplica perfeita e funcional de um carro clássico em miniatura, pintado em tom rosa-quartzo com acabamento impecável em couro legítimo nos bancos, painel com marcadores em luzes reais e um sistema de som embutido. Era um presente extravagante que fez os olhos da Hilary brilharem de imediato, e até Emmett soltou um assobio de aprovação ao ver o pequeno bólido.
— Cole! — exclamei, dando um passo à frente com as mãos na boca — Um carro elétrico de verdade para uma criança de dois anos?!
— Ela precisa aprender a dirigir com estilo desde cedo, Lee. — Cole rebateu com uma calma aristocrática e um brilho provocativo nos olhos — E o controle remoto está aqui comigo. Ela só vai para onde eu deixar.
Hilary soltou um grito estridente de pura alegria, engatinhando até o pequeno bólido e batendo as mãos no couro macio do banco. Emmett soltou um assobio longo e alto de aprovação, cruzando os braços e encarando Cole com um novo nível de respeito.
— Ora, ora... parece que o Papai Noel ganhou um concorrente à altura! — provocou Emmett, rindo.
O segundo foi revelado com a mesma ansiedade que o primeiro. Cole simplesmente havia mandado fazer uma casa de madeira em tamanho infantil, grande o suficiente para que ela pudesse entrar, ficar de pé e brincar confortavelmente dentro dela.
Pela embalagem pude ver as peças de uma pequena porta, janelas que podiam ser abertas, uma mesinha com duas cadeiras, uma cozinha de brinquedo completa com prateleiras, pequenos armários e utensílios de madeira, além de uma cama minúscula para bonecas e uma pequena caixa de correio presa do lado de fora.
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Mesmo desmontada, o presente me fez ficar encantada e a leve percepção infantil da minha filha também, ela correu na direção dos braços dele com gritinhos e pulinhos. Esse homem tinha conseguido fazer minha menininha esquecer completamente todos os presentes que havia recebido naquela manhã. Mas o que mais me tocava não era tanto o tamanho da casinha, era a maneira como ele havia pensado nela, os pequenos detalhes até mesmo além dela. Uma mesinha, duas cadeirinhas... tudo cuidadosamente pensado.
Hilary não se desgrudou dele, e ele a pegou no colo circulando as caixas de cada peça enquanto ela apontava para cada detalhe como se precisasse conferir cada item que pertencia a ela. Eu não conseguia parar de sorrir. Era exagerado, sem dúvida, mas também havia uma atenção quase comovente na escolha. Cole olhava para ela com o olhar iluminado, era perceptível que ele estava tão feliz quanto ela.
Quando vi as peças sendo levadas por Alice e Rosalie para uma área da sala onde pudesse ser visualizada montada, precisei rir, porque não conseguia imaginar de onde Cole havia tirado a ideia de que uma criança que nem chegou aos dois anos precisava de uma casa particular.
Hilary, entretanto, não parecia compartilhar da minha dúvida.
Eu conheço a expressão no rostinho da minha filha. Era a mesma que aparecia quando ela descobria alguma coisa completamente nova, mas havia algo diferente essa tarde: ela parecia enxergar um espaço que poderia ser só dela, um lugar construído para que sua imaginação tivesse liberdade.
Mas o momento que realmente paralisou a sala foi o presente da Helena.
Cole se aproximou dela, ajoelhando-se na altura dos seus olhos, lhe dizendo que havia escolhido algo completamente diferente sabendo bem de sua natureza e percepção únicas. Cole foi além dos brinquedos convencionais, por trás do embrulho brilhante estava uma caixa de veludo estruturada que, ao ser aberta, revelou uma harpa de pedestal infantil.
Feita sob encomenda por um luthier europeu em madeira de acácia nobre, a peça tinha detalhes entalhados à mão e cordas especiais ajustadas para ressoar em frequências puras e detalhes esculpidos à mão e cordas ajustadas para uma ressonância suave. Junto do instrumento, ele entregou uma partitura original encadernada em couro.
Helena, que costuma manter sua reserva elegante, aproximou-se do instrumento quase em transe. Quando suas mãozinhas tocaram a primeira corda, um som cristalino, profundo e perfeitamente equilibrado ecoou pela sala de vidro. Os olhos de Edward se arregalaram levemente, impressionado com a acústica, provando o quanto Cole havia sido preciso na sua escolha.
— Eu sei que ela percebe o mundo em uma frequência diferente. — Cole disse suavemente, olhando para Helena com uma afeição genuína antes de encarar a mim — Ela merecia algo que falasse a mesma língua dela.
Senti uma lágrima quente escorrer pela minha bochecha.
Não era apenas pela ostentação ou pela beleza dos itens; era pela forma como ele enxergava as minhas filhas, respeitando a humanidade caótica da Hilary e a natureza singular de Helena. Ao meu lado, Kaylee sorria ao ver a cena, e juntas esperamos pelo que ainda estava por vir.
Cole colocou o segundo pacote diante dela e se agachou, esperando que Helena abrisse por conta própria. Ela passou os dedos pela fita antes de puxá-la devagar, retirando o papel sem a pressa de Hilary.
É um pequeno móvel infantil, com acabamento artesanal e proporções delicadas, mas suficientemente resistente para acompanhá-la durante anos. Tinha uma pequena penteadeira com espelho, gavetas e um banco estofado, tudo feito em madeira clara, com detalhes entalhados à mão e pequenos puxadores dourados. Não era simplesmente uma peça de decoração. As gavetas tinham tamanhos diferentes, algumas pequenas o suficiente para guardar acessórios, outras maiores e o espelho podia ser ajustado à altura dela conforme crescesse. Cole havia pensado até nisso. Não era um presente para a Helena do próximo mês ou desse Natal. Era um móvel que poderia continuar um bom tempo no quarto dela conforme ela crescesse.
Helena ficou parada diante da penteadeira por alguns segundos. Depois tocou a borda o espelho com a ponta dos dedos e olhou para Cole. Ele apenas sorriu. Ela se aproximou do banco, passou a mão pelo tecido e então abriu uma das pequenas gavetas, dentro havia alguns acessórios clássicos para cabelo, presilhas, fitas e enfeites delicados, tudo escolhido em tamanhos que ela poderia usar. Não havia nada excessivamente infantil, mas também não havia nada que parecesse adulto demais para ela. Fiquei observando em silêncio a perceber um padrão na maneira como Cole escolhia as coisas para minhas filhas. Para Hilary, ele havia criado um espaço onde ela pudesse brincar e imaginar. Para Helena, havia criado um espaço que reconhecia a menina que ela era, mas também a criança que continuaria crescendo. Era uma diferença pequena, mas importante. Ele parecia enxergar as duas separadamente, sem tentar transformar uma na extensão da outra.
Pensando sobre isso, quase perdi o momento quando ele disse que ainda havia outra coisa para Helena dentro de uma das gavetas. Meus olhos focaram nele, vendo uma pequena caixa escura em suas mãos. Não era grande. Cole a estendeu diretamente para ela abrindo com cuidado.
Quando a tampa foi levantada, duas pequenas cartelas estavam acomodadas ali, cada uma contendo um par de brincos.
Helena ficou olhando para o interior, depois para Cole, e só então estendeu a mão para tocar a madeira. Eu já sabia que ela não reagiria como Hilary. Helena precisava entender primeiro. Precisava observar, sentir e decidir se aquilo era seguro antes de demonstrar qualquer entusiasmo.
Quando finalmente pegou uma das pequenas peças e a examinou, percebi um sorriso discreto surgindo em seu rosto.
Eu me aproximei instintivamente. O primeiro par tinha a letra H delicadamente desenhada e cravejada de pequenas safiras azuis, as pedras refletindo a luz sempre que Helena inclinava a caixinha. O segundo era diferente: um pequeno ponto de luz, discreto, acompanhado por uma pedra lapidada em formato de gota que pendia logo abaixo que criaria um brilho delicado conforme seu rosto se movimentasse.
Fiquei olhando para aquelas joias sem entender imediatamente como ele havia conseguido algo daquela natureza. Eu sei que Carlisle desenvolveu brincos especialmente seguros para híbridos, justamente por causa das particularidades físicas de Helena e Renesmee, mas aqueles não eram os pares que eu já conhecia. Eram novos. Feitos especialmente para ela.
Elevei os olhos para Cole, ele pareceu compreender minha pergunta antes mesmo que eu a fizesse.
— Eu encomendei. — explicou simplesmente — Carlisle ajudou com a parte que precisava ser diferente. Eu escolhi os modelos.
Voltei os olhos para Helena. Ela segurava a caixinha com as duas mãos, olhando com toda atenção para a letra H cravejada e depois para as pedras em forma de gota. Não parecia preocupada com o valor daquilo. Para ela, eram simplesmente dois pares de brincos que alguém havia escolhido pensando nela.
Aproximei-me mais e toquei de leve uma das pequenas peças, ainda impressionada com o cuidado envolvido. A letra H me pareceu particularmente bonita. Era uma coisa simples, mas carregava a identidade dela de uma maneira quase íntima, como se Cole tivesse procurado uma forma de dizer que aquele presente pertencia especificamente àquela menina e a ninguém mais.
A segunda peça era mais delicada, e imaginei Helena usando os dois modelos em ocasiões diferentes conforme crescesse. Meu coração doeu dentro do peito, Cole simplesmente parecia ter desenvolvido um carinho muito particular por minhas filhas. Bem mais do que eu já sabia que ele nutria por elas.
Helena ergueu os olhos azuis para ele e sorriu.
— São mesmo meus?
— São seus. — ele lhe garantiu.
Ela fechou a caixinha por um instante, segurou-a contra o peito e depois tornou a abri-la, como se ainda precisasse confirmar que os dois pares continuavam ali.
Eu sorri diante daquele gesto ingênuo e me abaixei para ajudá-la a observar melhor as peças. Cole permaneceu próximo, mas não tentou tocar nos brincos, nem explicar novamente o presente. Havia uma espécie de paciência nele que eu vinha percebendo cada vez mais quando se tratava das meninas. Ele não exigia suas reações, não esperava que elas corressem para abraçá-lo sempre ou agradecessem de uma maneira específica. Apenas entregava aquilo que havia escolhido e esperava que elas decidissem o que aquilo significava para elas. Talvez fosse justamente por isso que Helena agora parecia tão confortável em sua presença.
Pouco depois, ela desapareceu da sala e apareceu com a pequena estrela que havia recebido de Esme naquela manhã e colocou dentro da menor gaveta com uma delicadeza que me fez prender a respiração por um instante. Cole viu. Não comentou nada, mas o sorriso que apareceu em seu rosto foi suficiente para que eu entendesse que aquele gesto tinha significado para ele. Talvez porque o presente que havia escolhido não estivesse sendo apenas aceito, mas incorporado às poucas coisas que Helena já começava a considerar verdadeiramente suas.
Kaylee, com seu jeito doce, aproximou-se em seguida ao lado das meninas para entregar seus próprios presentes que ela mesma havia preparado para as minhas filhas, muito mais simples e cheios daquela espontaneidade típica de uma criança escolhendo alguma coisa para outras crianças.
Ela entregou com uma empolgação quase tão grande quanto a delas, ajudando a abrir alguns e tentando explicar antecipadamente o que havia dentro, integrando-se rapidamente à nova bagunça calorosa da sala junto com Renesmee e Rosalie, e foi bonito perceber a diferença entre seus mimos e os presentes de Cole. Os dela tinham o entusiasmo de uma criança, enquanto os dele carregavam aquela generosidade quase absurda que parecia ser parte natural de sua personalidade.
Hilary ficou encantada com tudo assim como Helena e Kaylee parecia satisfeita simplesmente por vê-las felizes.
Eu também tinha preparado alguns presentes, embora, perto de tudo o que estava sendo colocado diante de nós desde manhã, os meus parecessem muito mais modestos. Ainda assim, eu havia escolhido cada um pensando em quem iria recebê-lo, e isso fazia com que não me importasse tanto com o tamanho dos singelos pacotes.
Para Kaylee, eu tinha escolhido uma pequena bolsa infantil de tecido estruturado, delicada sem parecer infantil demais para uma menina de sete anos, com uma alça que poderia ser ajustada para que ela a carregasse atravessada no corpo. Alice tinha me ajudado a decidir o modelo depois que eu admiti que não fazia ideia do que uma menina daquela idade acharia bonito, e, como sempre, ela havia conseguido encontrar exatamente o meio-termo entre alguma coisa bonita e alguma coisa que ainda parecesse pertencer a uma criança.
Dentro dela, coloquei pequenos cadernos de desenhos, lápis de cor, canetas acrílicas, adesivos, livros e alguns acessórios.
Hilary e Helena também participaram, cada uma à sua maneira, da preparação. Hilary escolheu alguns dos adesivos com a seriedade de quem estava tomando uma decisão importante, enquanto Helena observou tudo antes de escolher uma pequena presilha que, segundo ela, deveria acompanhar o restante do presente. Não era exatamente um presente que uma criança daquela idade teria comprado sozinha, mas eu gostava da ideia da Kay saber que minhas meninas também tinham pensado nela.
Para Cole, eu havia demorado um pouco mais para decidir. Queria alguma coisa que fosse dele, não relacionada ao trabalho, ao porto, à família ou a qualquer coisa que eu imaginasse que alguém esperaria que ele recebesse por ser quem era.
No fim, Alice deu um empurrãozinho; me ajudou a escolher um relógio de pulso clássico, de aparência discreta, com uma pulseira de couro e um mostrador simples, elegante o bastante para combinar com as roupas que ele costumava usar quando estava trabalhando, mas sem parecer formal demais para o restante do cotidiano. Eu teria escolhido outro modelo mais simples se dependesse apenas de mim, mas Alice insistiu que aquele também era a minha escolha e tinha a cara dele e, depois de algumas insistências, percebi que ela estava certa.
Embalei a caixa em ambas as mãos, tentando não pensar demais sobre o fato de que aquela era a primeira vez que eu escolhia um presente para Cole como o homem que realmente fazia parte da minha vida. Eu só queria que, quando ele olhasse, soubesse que eu havia parado em algum momento do meu dia para pensar nele.
Um motivo a mais para o que de fato costuma acontecer com frequência.
Entre os presentes que chegaram de La Push, também havia dois pacotes menores enviados por Franchesca. Cole explicou que ela mesma havia feito os dois, e foi impossível não sorrir quando vi o que havia dentro deles.
Quando abri o primeiro, encontrei uma bolsinha de crochê feita em pontos delicados e com uma flor costurada na parte da frente especialmente para Hilary, pequena o suficiente para que minha filha pudesse carregá-la sozinha. Para Helena, havia um gorrinho igualmente feito à mão, com duas pequenas pontas arredondadas no alto que deixavam a peça quase engraçada de tão delicada.
Passei os dedos pelo trabalho dos pontos por alguns segundos antes de entregá-los às meninas, imaginando Franchesca fazendo-os em algum momento, escolhendo os fios e dando forma com as próprias mãos enquanto pensava nas minhas filhas. Essa demonstração de apreço me tocou de uma maneira diferente dos presentes comprados, porque é especialmente precioso receber um presente que carregava o tempo de outra pessoa.
Havia escolha, paciência e uma espécie de carinho que não precisava ser anunciado para existir.
Não são apenas uma peça de roupa ou uma bolsinha; era a prova de que, mesmo estando longe, ela havia encontrado uma maneira de participar do nosso Natal.
Quando finalmente chegou a vez de Cole abrir o meu presente, percebi que fiquei muito mais nervosa do que esperava. Ele retirou o papel sem pressa, encontrou a caixa e levantou os olhos para mim antes de abri-la.
— Alice ajudou. — admiti, porque parecia impossível esconder.
Cole olhou rapidamente para Alice, que estava perto de Jasper, e depois voltou os olhos para mim.
— Então eu já sei que vou gostar.
Eu não sabia exatamente o que esperava daquela reação, mas gostei quando ele ficou alguns segundos apenas olhando para o relógio, passando o polegar pela pulseira de couro antes de tirá-lo da caixa. Não houve mil e uma expressões exageradas, nem uma reação ensaiada para me agradar. Apenas aquele sorriso discreto que eu já conseguia reconhecer como uma das expressões que ele reservava para as coisas que realmente importavam.
Ele colocou o relógio no pulso ali mesmo, ajustando a pulseira enquanto eu observava com a sensação estranha e agradável de que aquele presente não terminaria guardado em alguma gaveta. Ele o usaria. E, talvez, em algum momento qualquer de um dia comum, olharia para o próprio pulso e se lembraria de que eu havia escolhido aquilo para ele.
Acho que é exatamente o que eu queria.
Durante a manhã, eu havia recebido presentes que pareciam dizer muito sobre a maneira como os Cullen me enxergavam: Esme havia escolhido conforto, Jasper havia lembrado de uma parte da minha vida que eu precisava recuperar, Bella tinha encontrado uma maneira de alimentar um antigo hábito meu, Emmett havia insistido em me dar algo que eu jamais compraria para mim mesma e Alice havia transformado o Natal em uma coleção de imagens que eu provavelmente guardaria pelo resto da vida.
Cole, porém, havia chegado de outra maneira.
Ele tinha trazido flores suficientes para transformar a sala, uma casa inteira para uma criança que ainda mal sabia o que fazer com uma casa, uma penteadeira feita para acompanhar seu futuro e, ainda assim, parecia agir como se tudo aquilo fosse apenas uma forma simples de dizer que havia pensado nelas.
Vê-lo ali, assumindo essa presença forte, generosa e totalmente à vontade sem medo de ocupar espaço, mudou a dinâmica da tarde. A forma como ele presenteou as meninas com itens tão marcantes e impressionantes não apenas encantou a todos na sala, mas deixou claro o tamanho do seu compromisso com a nossa família e o lugar central que ele agora ocupava nas nossas vidas.
Eu sabia que meu semblante estava iluminado pela maneira que Jasper estava mais adepto a sorrir e a maneira de como todos pareciam tão envolvidos quanto eu com a sensação da magia do Natal. Hilary se dividia entre Kaylee, Alice e a própria casinha, enquanto Helena continuava voltando os olhos para o baú de madeira como se ainda estivesse tentando entender por que alguém havia pensado nela daquela maneira. Eu observava tudo ao redor com uma sensação difícil de organizar e gostosa de sentir.
Cole se levantou, caminhou até mim e envolveu minha cintura com um braço firme, puxando-me para perto de seu corpo aquecido. Olhei para o buquê de rosas vermelhas sobre a mesa, para os presentes inacreditáveis no chão e para o olhar atento dele sobre mim. Quando achei que os presentes haviam terminado, Cole ainda tinha uma pequena caixa para mim. Dessa vez, o tamanho era completamente diferente.
— Ainda tem mais? — arquejei.
Ele sorriu e tirou do bolso uma caixinha de veludo negro, depositando-a delicadamente sobre a palma.
— Um complemento. Para lembrar desse primeiro Natal. — sussurrou, piscando para mim — Para você.
— Cole... — eu balancei a cabeça antes mesmo de receber.
— Nem começa. — me cortou com gentileza.
— Eu já ganhei o cordão, lindíssimo, feito por você — ergui o pulso — e meu próprio mundo de flores.
— Elas não contam.
— Como não? — ergui as sobrancelhas.
— Por agora? Não contando, Lee. E flores são flores. — suas palavras foram tranquilas.
— Um buquê desse tamanho não parece exatamente pouca coisa.
— Ainda não é o presente. — ele sorriu.
— Você sabe que não precisava. — eu suspirei e estendi as mãos.
— Eu sei.
Ele colocou a caixa em minhas mãos. Abri devagar e fiquei alguns segundos olhando para o objeto antes de passar os dedos sobre ele. Não havia nada ostensivo nela, e talvez por isso tenha me atingido de uma forma diferente. Ele havia escolhido uma peça simples, feita à mão, porque, segundo ele, havia visto aquilo e lembrado de mim. Não era algo que eu pudesse imaginar comprando para mim mesma, mas também não podia negar que a peça é de impressionar. Eu segurei o presente por alguns segundos antes de agradecer, e quando o abracei, não foi apenas por isso.
Acho que naquele momento eu estava agradecendo por algo muito maior: por ele ter vindo, por ter trazido Kaylee, por ter pensado nas meninas separadamente e por ter encontrado uma maneira de estar na celebração sem tentar ocupar o espaço de ninguém. Cole estava construindo o próprio lugar dentro da nossa vida sem medo.
Enquanto as meninas voltavam a brincar e os outros se espalhavam pela sala para acompanhar a movimentação, eu olhei para as rosas sobre a mesa quando vi uma movimentação acontecer ao redor dela, apertei os olhos naquela direção quando não vi nada no lugar além daquela redoma vermelha maravilhosa e ao piscar Alice simplesmente estava ali, acolhendo toda a estrutura do buquê que é quase do seu tamanho, acomodando os caules dentro de um vaso enorme, cumprido.
Olhei para as minhas filhas espalhadas pela sala, a casinha que começava a ser organizada para Hilary, para Helena perto da penteadeira ainda segurando cuidadosamente a pequena caixa de brincos e para Bella conversando com Kaylee enquanto Emmett fazia algum comentário atravessado que a fez rir.
Pela manhã, eu havia pensado que ser amada também significava ser lembrada; agora à tarde, começo a entender outra parte disso. Às vezes, ser lembrada significava alguém prestar atenção suficiente para saber que uma filha precisava de um espaço para brincar, que outra precisava de alguma coisa onde pudesse guardar aquilo que considerasse importante e que eu, apesar de não pedir nada, talvez também merecesse receber alguma coisa bonita simplesmente porque alguém havia pensado em mim. Ainda estava aprendendo a aceitar isso. Mas, naquele Natal, pela primeira vez, eu não senti que precisava encontrar uma razão para devolver tudo. Eu podia apenas receber, olhar para minhas filhas cercadas de pessoas que as amavam e permitir que aquele momento existisse exatamente como era.
Mais uma parte em mim mudou. Reconheço isso apesar de eu ainda não saber me explicar o que havia mudado dentro de mim desde que ele entrara. Talvez fosse apenas a sensação de vê-lo convivendo com as meninas de maneira tão saudável, ou fosse a forma como ele havia escolhido presentes diferentes para cada uma, prestando atenção ao que tornava Hilary e Helena únicas. Ou talvez fosse perceber que, sem que eu tivesse pedido, ele já começava a criar pequenas lembranças ao redor delas.
Só sei que, ao olhar para minhas filhas tão felizes e para ele no meio daquela bagunça, alguma coisa dentro de mim já não aceitaria que ele permanecesse apenas na porta... Eu não queria que ele fosse embora quando o Natal terminasse.
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Depois que a movimentação dos presentes diminuiu um pouco, eu me sentei no sofá com Cole ao meu lado, ainda observando as três meninas brincarem. Hilary havia transformado a casinha nova em seu próprio universo particular e entrava e saía dela acompanhada por Kaylee, que parecia tão entretida quanto ela. Helena permanecia mais próxima do instrumento dedilhando timidamente com leves instruções de Edward e em alguns momentos eu a flagrava próxima da penteadeira, abrindo uma das gavetas para abrir e fechar cuidadosamente a pequena caixinha dos brincos, como se ainda estivesse tentando compreender que aqueles dois pares realmente eram seus.
Ao redor de nós, os outros continuavam envolvidos nas próprias atividades. Alice estava ocupada com Hilary sempre que conseguia uma brecha, Esme ajudava a organizar algumas das coisas que haviam ficado espalhadas pela sala, e Emmett havia encontrado algum motivo para fazer Rosalie rir. Não havia silêncio suficiente para que eu e Cole tivéssemos uma conversa completamente reservada, mas, de alguma maneira, isso não parecia importar. Bastava o espaço pequeno que havia entre nós, a maneira como nossas vozes naturalmente diminuía quando falávamos um com o outro e aquela sensação de que, mesmo cercados por tantas pessoas, conseguíamos estabelecer uma espécie de conversa só nossa.
Cole apoiou um dos braços sobre o encosto do sofá e ficou alguns segundos observando a sala antes de voltar os olhos para mim. Havia uma expressão diferente nele. Não era cansaço exatamente, mas a satisfação de passar o dia entre pessoas importantes e finalmente conseguir respirar um pouco. Perguntei como havia sido o Natal na reserva, e imediatamente surgiu um sorriso no rosto dele.
Começou contando que, na casa da avó Nimue, a manhã havia sido tão movimentada quanto aquela, embora por razões completamente diferentes. A família tinha se espalhado pelos cômodos, as crianças corriam de um lado para o outro e sua mãe, Franchesca, parecia ter assumido a responsabilidade informal de conferir absolutamente tudo o que acontecia ao redor. Segundo Cole, ela havia passado boa parte da manhã andando de um canto ao outro da casa, entrando na cozinha, voltando para a sala, verificando os preparativos, conversando com alguém no corredor e desaparecendo novamente, sempre usando a mesma botina de crochê que, para minha surpresa, era idêntica à minha.
Pisquei algumas vezes.
— Idêntica?
Cole riu.
— Idêntica. Eu achei que fosse alguma coincidência até ver você usando a sua.
Olhei para baixo, lembrando imediatamente da minha própria botina. A ideia de Franchesca andando pela casa da avó dele com um par exatamente igual ao meu me pareceu tão inesperadamente engraçada que comecei a rir. Cole também riu, balançando a cabeça enquanto continuava contando que, segundo ele, a mãe não havia parado quieta nem por cinco minutos. Em determinado momento, alguém teria comentado sobre as duas botinas e Franchesca teria ficado tão satisfeita com a coincidência que passou a apontar para os próprios pés sempre que alguém mencionava meu nome.
Eu conseguia imaginá-la fazendo exatamente aquilo. Havia alguma coisa muito calorosa na imagem, principalmente porque eu ainda estava descobrindo aos poucos aquela família e suas pequenas particularidades. Cole percebeu meu sorriso e comentou que talvez aquilo fosse mais uma prova de que eu já estava começando a aparecer em lugares onde ainda nem tinha estado.
A conversa então chegou a Kaylee, e o sorriso dele mudou novamente. Cole explicou que trazê-la até a mansão tinha exigido uma pequena negociação com Rebecca. Segundo ele, a prima não havia simplesmente aceitado a ideia de entregar a afilhada para que ele a levasse até a casa dos Cullen. Ele precisou explicar para onde estavam indo, quem estaria lá e, principalmente, garantir que a menina estaria sob os cuidados dele durante todo o tempo. A parte mais divertida, porém, foi a maneira como Cole contou a conversa. Ele imitou a expressão séria de Rebecca e disse que ela havia feito uma pausa antes de perguntar, com toda a tranquilidade do mundo, se ele realmente pretendia levar uma criança para o covil dos vampiros no dia de Natal.
Eu não consegui segurar a risada sincera que reverberou entre a cacofonia do cômodo.
Cole continuou, dizendo que tentou argumentar que não era exatamente um covil, que o marido dela já tinha vindo pra cá, mas Rebecca teria respondido que ele poderia chamar como quisesse, porque ainda era uma casa cheia de vampiros. Segundo ele, a discussão só terminou quando prometeu que não deixaria Kaylee sozinha nem por um segundo e que a menina voltaria para casa inteira, alimentada e sem ter sido transformada em absolutamente nada. A última parte me fez rir ainda mais, principalmente porque eu conseguia imaginar o tom sério que ele provavelmente havia usado para convencer a prima de que tudo ficaria bem.
Kaylee, que estava perto o suficiente para ouvir a própria história, protestou dizendo que Rebecca tinha exagerado, e Cole respondeu que ela deveria agradecer, porque ele havia precisado apresentar praticamente um relatório completo sobre a segurança da visita. A menina revirou os olhos e voltou para Hilary, deixando-nos rindo.
Conforme a cadência dos nossos risos foi caindo, o tom da conversa se esvaiu, Cole ficou alguns segundos em silêncio, olhando para as meninas.
Eu acompanhei seu olhar.
A Hilary estava tentando convencer Kaylee de que a pequena cozinha da casinha precisava de alguém para preparar comida, enquanto Helena permanecia mais distante. A expressão de Cole ficou mais tranquila quando voltou para mim.
Ele disse que tinha gostado muito do Natal na reserva, que havia sido bom estar com a família, mas que havia uma coisa que tornava aquele dia diferente de todos os outros. Disse isso sem fazer nenhuma grande declaração, como se estivesse falando de algo que para ele era simplesmente uma verdade. Estar ali comigo era o que realmente o havia deixado realizado. Depois de passar a manhã com sua família, ele queria terminar o dia ao lado da única pessoa que, naquele momento, estava em primeiro lugar na vida dele.
Eu fiquei olhando para ele, ainda era estranho ouvir alguém me colocar em um lugar tão importante.
Cole percebeu minha expressão e sorriu.
— É você, Lee.
Eu abaixei os olhos por um instante, tentando esconder o sorriso que apareceu antes que eu pudesse controlar. Não havia muito o que responder porque algumas palavras perdem força quando tentamos devolvê-las imediatamente. Então apenas disse que estava feliz por ele ter vindo.
Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, mas Cole pareceu entender exatamente o que eu queria dizer. Ele respondeu que também estava feliz por ter vindo, principalmente porque queria conhecer como seria passar um Natal comigo e com as meninas. Depois olhou para as rosas e brincou que, considerando o tamanho do buquê, seria difícil esquecer aquele Natal tão cedo. Eu ri e disse que talvez ele tivesse estabelecido um padrão impossível para os próximos anos. Ele respondeu que esse era exatamente o objetivo, e eu balancei a cabeça, chamando-o de exagerado enquanto sorria.
Contei a ele, então, como havia sido minha manhã. Não precisei narrar tudo em detalhes, porque Cole parecia mais interessado nas minhas reações do que na sequência exata dos acontecimentos. Falei sobre o café da manhã, sobre Hilary completamente encantada com Alice, sobre Emmett aparecendo vestido de Papai Noel e sobre Rosalie entrando no papel de Mamãe Noel com uma seriedade que me fazia rir sempre que eu lembrava.
Contei dos presentes que havia recebido e de como cada um parecia ter sido escolhido pensando em alguma parte específica de mim. Falei das canecas de Bella, do chá de Esme, dos jogos que Jasper havia escolhido para me ajudar a recuperar alguns acessos ligados ao passado da minha mãe, do presente absurdo de Emmett e, principalmente, das fotografias de Alice.
Quando mencionei os três quadros grandes, minha voz diminuiu um pouco. Expliquei que ainda não sabia onde colocaria cada um, mas que havia ficado especialmente mexida com a fotografia em que aparecíamos eu, as meninas e Cole. Ele olhou para mim por alguns segundos depois de ouvir isso, mas não fez nenhum comentário que pudesse me deixar constrangida. Apenas disse que Alice tinha um jeito muito particular de guardar momentos antes mesmo de percebermos que eles eram importantes.
Conforme eu contava, percebi que estava sorrindo quase o tempo inteiro. A manhã havia superado tudo o que eu esperava. Eu tinha imaginado um Natal belo para minhas filhas, mas não havia imaginado que seria possível me sentir tão incluída em alguma coisa. Não havia imaginado que receberia presentes escolhidos com tanta atenção, nem que Hilary se sentiria tão à vontade para procurar Alice, muito menos que Helena encontraria maneiras tão próprias de demonstrar o que sentia.
E foi justamente quando comecei a falar dela que meus olhos se encheram de novo. O que não passou despercebido por Cole.
— O que foi?
Eu respirei fundo, mas não consegui esconder o sorriso.
— A cereja da torta de Natal foi a Helena. — minha voz saiu baixa e carregada de emoção.
Ele esperou por mais. Eu olhei para minha filha, que agora conversava baixinho com Esme perto da penteadeira, e senti o peito apertar outra vez.
— Ela me levou para o piano.
Cole sorriu, interessado.
Contei que Helena havia pedido que todos a acompanhassem até a salinha e que, depois de se sentar diante do piano de cauda, havia feito uma declaração para mim. Não precisei repetir cada palavra. Algumas coisas pareciam pertencer somente àquele instante, e eu queria guardá-las assim. Mas contei a Cole que ela havia falado sobre mim como mãe, sobre o modo como eu cuidava dela e de Hilary, sobre como eu tentava ser forte mesmo quando não precisava e sobre o quanto ela se sentia amada. Minha voz falhou um pouco quando cheguei à parte seguinte.
— ...E depois ela tocou uma música para mim. — Cole permaneceu em silêncio. Meus olhos brilhavam quando voltei a olhar para ele — Uma música que ela mesma criou. Nunca tinha ouvido antes. É só dela. Ela tocou e cantou exclusivamente para mim.
Cole olhou para Helena por alguns segundos. Depois voltou para mim, e a expressão dele havia mudado completamente. Não havia brincadeira, nem aquela leveza que aparecia quando falava das coisas absurdas que havia acontecido com Rebecca. Havia apenas uma ternura profunda.
— Então você ganhou um presente que ninguém mais poderia ter comprado.
— Foi exatamente isso. — sorri.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Ao nosso redor, a casa continuava em alegria. Hilary ria, Kaylee respondia alguma coisa, Emmett fazia um comentário que provocou uma reação em Edward e Alice tentava convencer Helena a experimentar algum dos acessórios que havia recebido. Mas eu já não sentia necessidade de prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. Cole estava ao meu lado, e eu ainda conseguia sentir a emoção daquela manhã como se ela estivesse acontecendo novamente.
Ele aproximou um pouco o rosto do meu, sem ultrapassar a delicadeza que aquela presença familiar exigia.
— Feliz Natal, Lee.
Eu sorri, me aconchegando em sua temperatura, mas não deixei de subir meu rosto para olhar dentro dos seus olhos.
— Feliz Natal, Cole.
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos e então acrescentou, em uma voz baixa que só nós dois precisávamos ouvir:
— Eu gostei muito de ter você na minha vida.
Meu sorriso aumentou, não precisei procurar uma resposta.
— Eu também gostei de ter você na minha.
Algum tempo passou depois daquela conversa, e a euforia dos presentes finalmente começou a diminuir, percebi que as meninas precisavam de um banho antes da ceia, e isso acabou ocupando uma boa parte do fim da tarde. Hilary já estava com os cabelos despenteados, algumas mechas grudadas na testa e uma quantidade considerável de vestígios do Natal espalhados pela roupa, enquanto Helena ainda carregava consigo a pequena caixa dos brincos como se tivesse medo de deixá-la em algum lugar.
Hilary protestou quando Nessie tentou convencê-la a deixar a nova casinha por alguns minutos, enquanto Helena foi muito mais cooperativa e aceitou o banho sem grandes dificuldades, embora tivesse passado boa parte do tempo perguntando se poderia voltar para perto da própria penteadeira depois. Recolhi as duas e subi com elas, deixando para trás a movimentação da sala. O banho acabou se transformando em outra pequena celebração, como quase tudo que envolvia minhas filhas.
Hilary brincava com a água, reclamava quando eu tentava lavar seus cabelos e insistia em mostrar para Helena alguma coisa que havia encontrado dentro da banheira, enquanto Helena parecia muito mais tranquila, observando a irmã com aquele sorriso discreto que aparecia sempre que Hilary fazia alguma coisa particularmente engraçada. Tomei um banho rápido enquanto elas se divertiam dentro da banheira.
Depois, vesti as duas com roupas mais apropriadas para a ceia, as duas pareciam diferentes. Hilary usava uma roupa confortável e bonita escolhida para a noite, enquanto Helena estava com um vestido claro que destacava ainda mais os olhos azuis; ajeitei os cabelos de cada uma e, antes de descermos novamente, guardei cuidadosamente os brincos que Cole havia dado para Helena. Ela insistiu em saber quando poderia usá-los, e eu prometi que Carlisle ajudaria a colocar um dos pares quando fosse seguro e apropriado. Minha menina pareceu satisfeita com a resposta, mas continuou olhando para a pequena caixa enquanto eu a guardava.
Quando descemos a primeira escadaria para a sala, a casa já havia adquirido outra aparência. As luzes dos piscas-piscas estavam acesas, a iluminação do ambiente havia ficado mais baixa e algumas velas haviam sido colocadas sobre a mesa que seria usada para a ceia. Os adultos estavam espalhados pela sala conjunta, conversando enquanto aguardavam o momento de se reunirem para a refeição. Cole estava perto de uma das janelas, conversando com Emmett, mas moveu o rosto assim que me viu entrar com as meninas.
Hilary correu até ele e foi recebida com um sorriso. Helena acompanhou meu andar devagar, segurando minha mão, e eu olhei para ela por alguns segundos antes de tomar uma decisão.
Eu estive pensando na música desde que ouvira as últimas notas. Sabia o quanto aquele momento tinha significado para mim, mas também sabia que Cole não havia tido a oportunidade de ouvi-la. Ele só conhecia a história porque eu havia contado. E, de repente, pareceu-me errado que ele tivesse estado tão perto de um momento tão importante e ainda assim tivesse perdido a única coisa que poderia escutar.
Aproximei-me de Helena e me abaixei um pouco para falar com ela.
— Você tocaria sua música mais uma vez?
— Agora? — ela me olhou com atenção.
— Se você puder, meu amorzinho. O Cole ainda não ouviu.
Helena olhou imediatamente para ele, que estava conversando com Carlisle do outro lado da sala, e depois voltou a me olhar.
Cole percebeu que estávamos falando dele e se aproximou alguns passos, mas eu levantei a mão, pedindo que esperasse. Não queria que ele transformasse meu pedido em uma obrigação para ela. Helena ficou alguns segundos em silêncio, aparentemente pensando, e então assentiu enquanto eu chamava Cole com um pequeno gesto.
Conforme ele foi se aproximando, sua expressão mudava gradativamente; ele olhou de Helena para mim, e a agradeceu antes de nos acompanhar. Os outros também perceberam o que estava acontecendo, pouco a pouco, os olhares foram se voltando para a escadaria. Descemos as escadas, caminhando direto para a salinha com passos tranquilos e meu coração trovejando, saltando alegre por estar levando Cole para ouvir o presente que eu queria compartilhar com ele.
Edward ajudou Helena a se acomodar no banco novamente, mas não fez mais nada além disso. Ela já sabia o que fazer. Alinhou-se diante do piano, ajeitou o vestido, respirou fundo e posicionou os dedos sobre as teclas.
Helena tocou novamente a composição que havia criado para mim com a mesma beleza vocal como na primeira vez. Eu fiquei ao lado de Cole, nossas mãos entrelaçadas, mas meu corpo um pouco atrás, observando o rosto dele enquanto a primeira nota surgia.
Acredito que tenha sido isso que me emocionou mais ainda nessa segunda apresentação. Na primeira vez, eu estava tão tomada pelo que Helena havia dito que fazia sentido em prestar atenção na reação de qualquer outra pessoa. Agora eu podia olhar para Cole. Vi quando ele reconheceu que aquela não era uma música conhecida; vi sua atenção se concentrar completamente na minha filha e a maneira como seus olhos acompanharam os movimentos das mãozinhas sobre o teclado e como, aos poucos, sua expressão foi ficando mais séria à medida que a melodia avançava e até mesmo essa foi desaparecendo, substituída por uma admiração silenciosa.
A melodia continuava sendo estranha e familiar ao mesmo tempo, porque eu já a associava ao modo como minha filha havia me olhado naquele primeiro momento. Eu não conhecia a música antes daquela manhã e ainda não sabia exatamente de onde ela havia tirado cada palavra, mas agora, ouvindo-a pela segunda vez, percebi que havia coisas que eu não tinha conseguido captar na primeira apresentação, talvez porque eu estivesse emocionada demais e mais preocupada em guardar a lembrança do que em realmente escutá-la. Ainda me amolecia de orgulho de vê-la se tornando tão talentosa, a voz limpa, bem colocada e surpreendentemente segura para uma criança tão pequena. Não havia esforço para parecer mais velha. Era simplesmente a voz dela, cantando algo que havia nascido dentro dela, segura, ocupando o espaço sem esforço.
Cole não desviou seus olhos uma única vez.
Quando a última nota findou no ambiente, Helena deixou as mãos descansarem sobre os joelhos e olhou primeiro para mim e depois para ele, que demorou alguns segundos para reagir. Helena levantou o rosto, esperando. Cole então se aproximou um pouco mais do piano e sorriu para ela.
— É uma canção linda, Helena. Estou sem palavras.
— É para a mamãe. — ela sorriu.
— Eu sei. Agora eu entendi. — ele deu uma olhadela para mim.
— O quê? — Helena inclinou a cabeça, curiosa.
— Porque sua mãe ficou tão emocionada. — ele sorriu.
Foi tudo o que disse, mas bastou, pois, Helena sorriu também, satisfeita com a resposta.
Eu senti meus olhos arderem novamente com a força da emoção e precisei respirar fundo para não começar a chorar outra vez no mesmo dia.
Eu olhei para Cole e percebi que seu olhar estava diferente, havia emoção ali, embora ele tentasse manter a mesma tranquilidade séria de sempre. Ele agradeceu a Helena por ter tocado novamente e disse que aquela era uma das canções mais bonitas que havia ouvido no Natal. Ela aceitou o elogio com uma serenidade quase engraçada, como se tivesse apenas cumprido uma tarefa que considerava importante. Ela desceu do banco e veio até nós, e Cole se abaixou para recebê-la em um abraço breve, cuidadoso, sem transformar o gesto em algo maior do que precisava ser.
Quando ela voltou para perto de mim, eu passei um braço ao redor dela, beijei seus cachos e agradeci baixinho por ter tocado novamente. Dando um leve sorriso, ela simplesmente segurou minha mão, nos direcionando para o andar superior novamente.
A ceia aconteceu pouco depois, e a mesa estava novamente cheia de movimento. Como sempre, apenas os humanos comeriam, enquanto os Cullen permaneciam conosco pela companhia como nos meus dias habituais.
As meninas estavam limpas, alimentadas e muito mais cansadas do que haviam admitido durante a tarde, mas ainda encontravam energia para conversar, brincar e pedir alguma coisa a cada poucos minutos.
Helena permaneceu mais próxima de mim, acompanhando as conversas ao redor da mesa.
Eu observei Cole durante boa parte da refeição. Ele parecia completamente à vontade na mansão, mesmo sendo um espaço que pertence aos Cullen e que, não muito tempo atrás, foi desconfortável para alguém como ele. A presença de Kaylee também ajudava. Ela estava entretida com as meninas e parecia ter esquecido completamente qualquer receio que pudesse ter existido antes de atravessar o hall até a sala.
Depois da ceia, enquanto alguns começavam a recolher as coisas, a conversa foi se espalhando novamente e as meninas pediram para voltarmos para a sala principal.
Foi então que me lembrei de Franchesca. Eu sabia que Cole havia passado parte do dia com ela e com a família na reserva. Também sabia que, naquele momento, ela provavelmente estaria reunida com os parentes e talvez ainda estivesse usando a famosa botina de crochê que, por alguma razão, continuava me fazendo sorrir. Olhei para Cole.
— Você pode fazer uma chamada para sua mãe? — pedi.
— Agora? — ele pareceu surpreso por um instante, mas não deixou de pegar o celular.
— Se ela estiver acordada..., queria desejar feliz Natal, e que queria que as meninas também pudessem falar com ela.
Ele ativou o visor e verificou o horário. Depois sorriu.
— Ela provavelmente ainda está na casa da minha avó.
— Então melhor ainda.
Chamei as meninas para perto de mim e esperei. Cole iniciou a chamada, que demorou alguns segundos para ser atendida. Quando o rosto de Franchesca apareceu na tela, ela estava exatamente como eu havia imaginado: sorrindo, com os cabelos um pouco mais soltos do que ontem e a expressão alegre de quem parecia não ter diminuído o ritmo nem por um instante durante todo o dia. Cole mal teve tempo de desejar feliz Natal antes que eu aparecesse ao lado dele, quando percebeu que não estava falando apenas com o filho, abriu um sorriso enorme.
— Feliz Natal, Franchesca! — felicitei, acenando com fervor.
Ela respondeu imediatamente, com uma alegria que parecia atravessar a tela e eu percebi que seu olhar procurou as meninas na mesma hora. Hilary se aproximou primeiro, acenando para a tela sem timidez. Helena veio logo depois, mais reservada, mas suficientemente próxima para que Franchesca pudesse vê-la. Kaylee também apareceu ao lado, Cole ficou segurando o celular enquanto eu ajudava as meninas a desejarem feliz Natal para ela. Franchesca parecia emocionada.
E eu também, porque esse simples gesto está criando uma ponte entre duas famílias que, até pouco tempo antes, existiam completamente separadas na minha vida.
De um lado estavam os Cullen, a casa onde minhas filhas haviam encontrado proteção e onde eu descobri um tipo de pertencimento que jamais imaginara. Do outro estava a família de Cole, ainda desconhecida para mim em muitos aspectos, mas que já começava a se tornar importante justamente porque fazia parte dele.
Em determinado momento, quando eu tinha total posse do celular do homem ao meu lado, Franchesca perguntou pelas rosas, e eu mostrei o imenso buquê que ainda ocupava boa parte da mesa. Ela começou a rir imediatamente, dizendo alguma coisa para Cole que o fez balançar a cabeça com uma expressão resignada. Eu não precisei entender o idioma para supor que provavelmente havia alguma história por trás daquilo. Quando ele respondeu que tinha sido ideia dele, Franchesca olhou para mim e sorriu de uma maneira que me deixou um pouco sem graça, mas não consegui evitar o sorriso de volta.
Depois, ela viu Helena usando um pequeno enfeite no cabelo e perguntou sobre os presentes. Helena a cumprimentou com educação e mostrou para a câmera seu primeiro instrumento e falou com detalhes sobre os brincos com um orgulho discreto, e Franchesca pareceu encantada.
Cole olhou para mim quando ela fez isso, e eu não consegui evitar um sorriso.
Ele explicou brevemente que havia escolhido os pares especialmente para ela, e a expressão da mãe dele mudou por um instante. Foi algo muito rápido, quase imperceptível, mas eu notei. Ela olhou para o filho, depois para Helena, e então expandiu mais o sorriso. Não perguntou mais nada, apenas disse que Helena estava cada dia mais linda e que esperava vê-la usando os brincos em breve. Hilary teve sua vez também, mostrando de maneira desorganizada, algumas das pecinhas que havia recebido. Franchesca ria do outro lado, fazendo perguntas que Hilary respondia apenas pela metade.
Franchesca inquiriu mais alguma coisa para Cole que eu não consegui entender, ainda assim, pela expressão dele, imaginei que tivesse sido alguma provocação carinhosa.
Quando chegou minha vez de falar novamente, Franchesca me desejou feliz Natal e disse que esperava que aquele fosse apenas o primeiro de muitos. E senti o coração apertar um pouco com as palavras.
Olhei para Cole, que sorria condizente e eu sorri também aceitando suas palavras como uma profecia.
— Ah, com certeza vai ser! — afirmei.
Ela respondeu com carinho, e permanecemos mais alguns minutos conversando antes de encerrar a chamada. Quando a tela finalmente escureceu, Cole guardou o celular e ficou alguns segundos olhando para mim. Eu não precisei dizer nada, ele apenas aproximou-se um pouco e agradeceu.
— Pelo quê? — minhas sobrancelhas franziram.
— Por ter feito isso.
Eu sorri.
— Ela é sua mãe. Eu queria desejar feliz Natal para ela.
— Eu sei. — ele balançou a cabeça.
— E elas também queriam. — olhei para as meninas novamente. Cole acompanhou meu olhar.
— Acho que ela gostou.
— Sim, eu também acho.
Ele ficou em silêncio por um instante antes de dizer que talvez sua mãe tivesse gostado mais do que demonstrara. Eu ri, lembrando da expressão animada de Franchesca na tela, e respondi que, se ela realmente fosse parecida com ele, provavelmente tinha demonstrado bastante. Cole soltou uma risada baixa e negou com a cabeça.
Kaylee as agitou mais uma vez para uma nova brincadeira, porém com carinho, Helena permaneceu encostada em mim por mais alguns instantes antes de beijar a costa da minha mão e segui-las. Por sorte essa seja uma das maiores formas de amor que eu poderia oferecer às minhas filhas: não tentar ser tudo ao mesmo tempo, mas estar com elas em tudo o que vier. Sobre a certeza absoluta de que elas nunca estariam sós, cercadas pela família mais extraordinária que o mundo já viu.
Me aconcheguei mais contra o corpo quente ao meu lado enquanto meus pensamentos se consolidavam em como esse Natal está sendo gravado para sempre na minha memória.
Meus olhos foram atraídos para as meninas, depois para Cole, e senti um nível à mais da felicidade se acomodar dentro de mim.
Eu havia conseguido dividir com Cole uma música que Helena tinha criado para mim. Depois, tinha colocado minhas filhas diante da câmera para desejar feliz Natal à mãe dele. Eram pequenos feitos, talvez insignificantes para qualquer pessoa que observasse de fora. Para mim, porém, significavam muito mais. Eram pequenas partes das nossas vidas começando a se misturar sem que eu precisasse forçar nada.
E talvez fosse assim que uma família começasse a se formar pra valer. Não em um rompante, de uma vez. Mas através de pequenos momentos que, quando olhados separadamente, pareciam simples e, quando reunidos, começavam a contar uma história.
Era o primeiro Natal em que eu realmente sentia que não estava apenas sobrevivendo a uma data. Eu estava vivendo-a.
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