Sempre ao seu Lado

46 𝟏𝟐, 𝟏𝟑 𝐞 𝟏𝟒 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶


Notas iniciais
Aproveite com todo o carinho! Obrigada pela presença! É imensamente gratificante e especial! <3

Sempre ao Seu Lado

Capítulo 42

A mansão estava quieta.

Do andar de cima vinham apenas sons suaves, o ranger ocasional do assoalho que sinalizou o momento em que Emmett passara, o sopro do vento contra as janelas. Helena dormia no berço de ferro ao lado da cama, respirando com aquele ritmo calmo que só os bebês conheciam.

A tempestade lá fora não parecia querer cessar. A chuva engrossara ao cair da noite, batendo contra os vidros como dedos impacientes. Eu podia ver as gotas escorrendo pelas janelas, iluminadas brevemente pelos relâmpagos distantes.

Eu me sentei no tapete, de costas para a cama, as pernas cruzadas, uma manta envolvendo meus ombros. Ainda estava tentando entender o que tinha sentido hoje, ou melhor, o que aquela pequena expressão da Helena tinha despertado em mim.

Um sorriso.

Algo tão simples. Mas que desmoronou algo dentro de mim que eu nem sabia que estava ali. Uma muralha antiga, silenciosa. Eu a havia construído aos poucos, desde aquela noite terrível… desde antes, talvez. Desde a primeira perda. Desde Angie. Passei as mãos no rosto. Ainda sentia o calor do momento, mesmo horas depois. O toque dos olhos dela nos meus. Como se tivesse me visto inteira pela primeira vez de novo, não como a mulher ferida, ou uma mãe sendo inexperiente, mas simplesmente…, como a mãe dela.

A memória de Esme sentada ao meu lado no jardim veio como uma onda mansa “Esse sorriso é a sua música.”

Eu nunca compus nada. Nunca soube tocar instrumentos. Mas se eu pudesse guardar aquele sorriso em algum lugar, faria dele uma canção. Uma daquelas que se ouve quando tudo parece perdido, e de repente o mundo se abre só um pouquinho, o bastante para respirar de novo. Tantas vezes eu duvidei de mim. Do que eu poderia oferecer à Helena. Sempre com medo de falhar com ela como senti que falhei com Angie. Mas hoje… mesmo que fosse só por hoje…, algo dentro de mim acreditava que talvez eu conseguisse.

Não porque sou forte. Mas porque a amo. E porque ela sorriu.

Me levantei devagar e fui até o berço. Helena estava ali, uma bebê tão crescida, tão vulnerável… E ainda assim, tão cheia de poder sobre mim.

Ajoelhei ao lado do móvel, passei minha mão entre as barras de ferro retorcidas e acariciei sua barriguinha com o dorso dos dedos. Ela não acordou, mas suspirou em resposta, virando o corpinho em direção à minha mão.

— Obrigada por me escolher. — sussurrei sentindo a emoção me tomar, embaçando meus olhos — Eu vou aprender a ser o que você precisa... Nem que eu leve a vida inteira.

Uma lágrima escorreu, silenciosa. E, pela primeira vez, não parecia pesar. Parecia purificar. O som da chuva seguia lá fora. Constante. Antigo. E, de algum modo, agora… Acolhedor.

A claridade cinza de uma nova manhã invadia o quarto de maneira suave como se também respeitasse o clima de reconciliação que pairava no ar. O cheiro do chá de camomila vindo do corredor contrastava com o cheiro do meu leite dentro da mamadeira de metal. Eu estava sentada na poltrona com Helena enrolada num cobertor lilás que pertence à Hilary. Helena mamava. Eu a amamentava com os olhos fixos nela, e dessa vez, algo dentro de mim… não rejeitou. Os olhinhos dela estavam abertos, e me encaravam como se eu fosse o centro do universo. Um laço invisível começou a se formar entre nós essa manhã. Um reconhecimento. Ela era metade dele, sim. Mas também era metade minha. E essa parte... Era pura. Era nova. Era só dela.

— Oi, pequena... — sussurrei, passando os dedos com cuidado pelos fios enrolados do cabelo dela — Eu tô tentando, tá?

Ela fechou os olhos outra vez, satisfeita, e se aconchegou contra meu peito. Foi nesse instante que eu senti. Algo que fazia meu coração pulsar e dobrar em tamanhos infinitos da mesma forma que me sinto quando vejo Hilary. Cru, inesperado, assustador. Mas ali. Real. Meu.

— Você não é culpa. — murmurei, com a voz embargada — Você é o que me resta de luz. Mesmo que eu ainda esteja aprendendo a olhar pra ela.

E pela primeira vez, não me senti uma fraude ao dizê-lo. Ali, entre olhar, silêncio e calor, nascia um vínculo. Frágil. Mas vivo.

Um punho suave bateu contra a madeira da porta. Concedi a entrada. A porta se abriu com o cuidado de sempre, e ali estava Esme. Como uma brisa gelada entrando num cômodo morno. Ela sorriu ao me ver com a bebê nos braços, mas não disse nada de imediato. Apenas se aproximou devagar, como se não quisesse interromper o momento.

— Posso ficar um pouco? — perguntou.

Permito com um aceno da cabeça. Esme sentou-se na cadeira vazia ao lado da penteadeira.

— Ela está em paz. — comentou, olhando Helena com aquele carinho que só quem já foi mãe entende — E você também parece…, um pouco mais leve.

Suspirei, ajeitando melhor a cabeça da Helena no meu braço.

— Não sei se é paz, Esme. Mas... pela primeira vez, não senti medo. Não tanto. Nem nojo. Nem raiva. Só... Ela.

Esme assentiu com ternura.

— Às vezes, o amor vem como um vendaval. — ela disse, com os olhos sobre Helena — Mas às devagar vezes ele chega assim... como um fio de água que escorre, silencioso, mas constante. E ainda assim, é amor.

— Eu tive medo de não conseguir. De nunca conseguir. De ser uma mãe ruim. — minha voz falhou — Eu ainda tenho medo.

— É assim mesmo. — ela respondeu, tive a sensação de ver seus olhos marejados — Mas o fato de você se importar tanto já mostra que está fazendo o melhor que pode. E às vezes, isso é tudo que um filho precisa: alguém disposto a continuar tentando.

Fiquei em silêncio por um momento, vendo Helena parar para respirar e colocar o bico metálico de volta para dentro da boca. A lateral do rostinho contra meu peito.

— Eu nunca quis ser mãe assim, sabe? — confessei — Por obrigação. Por trauma. Por consequência de algo que eu mal consigo nomear em voz alta.

— Eu sei. — disse Esme, sua voz suave carregava certezas — E você não precisa amar a forma como ela chegou ao mundo. Só precisa amar o que ela é. O que ela vai ser com você por perto.

Meus olhos se encheram de lágrimas pela primeira vez hoje, mas dessa vez elas não ardiam. Só transbordavam para fora dos meus olhos e escorriam.

— Eu estou começando a ver ela como minha. De verdade. Pela primeira vez. — ergui meu olhar para ela.

— E isso é o começo de tudo minha querida. — Esme tocou meu braço com delicadeza.

Já haviam se passado algumas horas desde que minhas filhas haviam acordado, e algo começou a me incomodar. Helena não era mais tão pequena. É perceptível. As feições estavam mais definidas. As expressões mais conscientes. O olhar, muito mais atento do eu já achava que era.

E hoje, quando eu aproveitei nossos momentos sozinhas para trocar a roupinha dela, percebi que o macacão grande que escolhi, que seria usado pela primeira vez, já apertava nas perninhas.

Meu estômago virou.

Peguei a última peça de roupa usada, comparando as medidas. A diferença era vista até de longe.

Talvez esse fosse um dos motivos de nunca terem me deixado trocá-la antes? O porque eu nunca vi repetirem um body sequer? Nem terminei de vesti-la, apressei meus passos para a escadaria e desci correndo os degraus com ela no colo, me senti muito mal-educada quando apenas pensei em abrir a porta, mas não me contive, apenas estendi a mão para o trinco.

Refreei meus movimentos com tudo quando a porta do escritório foi aberta antes que a ponta dos meus dedos sequer encostasse no trinco. Minha mão fechou no vácuo e olhei para cima, encontrando Carlisle dentro de seu escritório.

— Ela está crescendo rápido, não está?! — minha voz tremia esganiçada, eu nem conseguia formular a frase para fora da minha cabeça com coerência — Assim como Renesmee?

Carlisle nos olhou com doçura, mas seu semblante era sério.

— Pode entrar, Amberli. — ele disse, com a voz gentil de sempre.

Assenti com um leve movimento e dei alguns passos para dentro ajustando o corpo de Helena em meus braços. Carlisle caminhou até a sua mesa de madeira nobre. Um laptop fino e discreto repousa ao lado de uma caneta tinteiro e um abajur de bronze. Carlisle se sentou em sua poltrona estofada de couro marrom escuro com encosto alto, fechando um livro médico, ele parecia estar concentrado em anotações médicas antes de eu chegar, e me olhou com gentileza, indicando as poltronas em frente à sua mesa e me sentei em uma das estofadas. Vi sua mão gelada pegar a caneta e fazê-la dançar em sua mão.

Aos poucos o ambiente foi retornando a ser o seu escritório como antes. A maca, e algumas máquinas ainda tinham um espaço reservado ao fundo, mas a decoração ganhava grande parte do cômodo novamente como o enorme globo antigo com acabamento de latão, os instrumentos médicos de épocas passadas e uma escultura discreta estavam dispostos no ambiente mais uma vez.

— Tenho te observado, Amberli. Sei que tem sido difícil.

— Não vim por mim. — digo colocando Helena sentada sobre minhas coxas — É sobre a Helena. Sobre o que ela é...

Ele respirou fundo. Não foi surpresa pra ele, talvez já esperasse por esse momento.

— É natural você se preocupar. Quer me dizer exatamente o que está te incomodando? — Carlisle largou a caneta de volta no tinteiro com cuidado.

— Tudo, na verdade. — suspirei, e comecei a pontuar — Ela cresce rápido. Ela entende demais. Às vezes, me olha como se soubesse de coisas que eu ainda não sei. E... eu não sei até onde vai isso. — continuei a pontuar — Quanto tempo ela vai ser criança. Se ela vai parar de crescer. Eu preciso saber. Preciso da verdade. Quanto tempo eu tenho com ela…, como ela vai crescer. Tudo.

Houve um breve silêncio, mas não desconfortável. Carlisle se recostou na cadeira, os olhos atentos aos meus.

— Quando Renesmee nasceu, nós também não tínhamos essas respostas. — ele começou a falar como um mestre — Eu estudei o que pude sobre o DNA híbrido. Metade humano, metade vampiro. Eles são raros, Amberli. Extremamente raros. — frisou — Mas... até onde sabemos, são estáveis. Com um desenvolvimento acelerado na infância, sim, mas que desacelera com o tempo.

— Então... Helena também vai parar de crescer? — minha voz soou mais esperançosa do que eu esperava.

— Estamos monitorando o desenvolvimento da Helena desde o nascimento. E, de fato, ela se encaixa nos padrões híbridos que conheço. O que significa que seu crescimento físico e mental está nos padrões naturais de híbridos: acelerado. Provavelmente, em questão de meses, ela alcançará um ano de desenvolvimento físico. E em menos de um ano ela terá a aparência e cognição de uma criança de vários anos.

— Meses... — repeti, com a garganta apertada — Isso significa que… eu vou perdê-la mais rápido? — senti meu corpo gelar. Era como se alguém tivesse apertado meu peito de dentro pra fora — Ela vai morrer cedo?!

— Não. Significa que o tempo com ela será diferente. Mas não menor. E cada segundo conta. — continuou — Renesmee, por exemplo, parou de crescer fisicamente dentro de um ciclo de sete anos, e desde então, permanece a mesma. A expectativa é que, depois dessa fase acelerada, o corpo dela entre em um estado de estagnação. Como aconteceu com a Ness. Mas cada híbrido pode apresentar particularidades. A linhagem do pai, a carga genética humana... Há variáveis. — ele fez uma pausa antes de acrescentar, com mais suavidade — Mas até agora, ela está saudável. Inteligente. Forte. Amorosa. Tudo o que uma mãe poderia querer.

Eu baixei os olhos, apertando os dedos um contra o outro a frente do corpinho dela.

— Às vezes, eu me pergunto se sou suficiente pra ela... sendo só humana. Ela mal nasceu e já está escorrendo pelas minhas mãos. Eu nem consigo aprender a ser mãe dela e ela já está ultrapassando tudo que conheço.

Carlisle se aproximou devagar, com aquele olhar acolhedor que sempre parece enxergar o que ninguém vê.

— Amberli, — ele disse, com um tom firme, mas terno — ser mãe não é sobre ser suficiente biologicamente. É sobre estar presente, oferecer amor, proteção, paciência. E nisso, você é extraordinária. Ela sente. Nós todos sentimos. Você está tentando. Isso é mais do que muita gente faria. E, Amberli, acredite em mim: o amor que você der a ela, seja em um mês ou em cem anos, vai moldar quem ela será.

Senti a garganta apertar. Respirei fundo e assenti.

— Eu tenho medo… Medo de não conseguir acompanhar. De não conseguir amá-la como ela merece. Ela veio de uma maneira tão escura…

— Mas está crescendo à luz. — ele tocou meu ombro — E isso é por sua causa.

— Obrigada, Carlisle. Por sempre me ouvir... e por não me deixar sozinha nisso.

Carlisle sorriu e permaneceu em silêncio por um instante, como se estivesse escolhendo as palavras certas. Seus olhos, sempre calmos, pareciam avaliar o quanto eu aguentaria ouvir, não com crueldade, mas com aquele tipo de compaixão que só ele sabia ter.

— Você nunca esteve sozinha. — ele respondeu, se aproximando ainda mais para colocar uma mão fria e reconfortante sobre meu ombro — Somos sua família também. — ele abaixou o olhar, sorrindo com aquela gentileza constante que nunca me falhava — Eu sei que você quer entender tudo. — me surpreendi quando Carlisle foi até uma das estantes, puxando uma pasta de couro escuro dali e retirando um fichário grosso com etiquetas coloridas ao longo das folhas — E tem todo o direito. Como mãe, você merece cada informação que possa ajudá-la a cuidar da Helena. E como mulher... precisa de respostas que ninguém jamais teve a coragem de te dar.

Ele os colocou sobre a mesa com todo cuidado, como se guardasse ali uma vida inteira de descobertas e, de certa forma, era exatamente isso. Me ajeitei na poltrona, sentindo o frio na nuca, como se o cômodo tivesse ficado mais húmido, mais silencioso. Ele abriu a pasta e puxou algumas folhas, gráficos, imagens que eu não soube decifrar de imediato, mas me deu tempo para poder analisar.

— Isso aqui é o que eu costumo chamar de Projeto Híbrido. Não é oficial, claro. Mas... é minha tentativa de entender essas crianças. — ele abriu a primeira aba, revelando imagens microscópicas que eu não soube interpretar — Desde o nascimento da Renesmee, eu comecei a documentar tudo. A anatomia, o comportamento, o desenvolvimento celular. O DNA híbrido é fascinante, Amberli. — seus olhos brilhavam — Ele não é apenas uma fusão dos genes humanos e vampiros, ele é algo novo. Singular. Adaptativo.

— O que isso significa exatamente? — perguntei, tentando acompanhar, agradecida por ele me mostrar de forma completamente justa e verdadeira.

— Posso te mostrar alguns dos pontos principais?

Assenti com um aceno que sim, embora meu estômago já estivesse começando a revirar.

— Significa que o corpo de um híbrido responde ao ambiente. Por exemplo: a Renesmee desenvolveu uma necessidade exclusiva de sangue nos primeiros meses, mas fui misturando com alimentos humanos a partir de um período. O metabolismo dela era diferente, rápido demais. O crescimento celular... exponencial. Helena parece seguir esse mesmo padrão, um crescimento acelerado, tanto físico quanto neurológico.

Ele me mostrou um gráfico com curvas que eu não entendi, mas fingi que sim.

— Veja minhas primeiras anotações consistentes sobre o metabolismo. — ele disse, com aquele tom didático e tranquilo que me fazia lembrar de um professor de ciências da escola, só que muito mais gentil — Híbridos possuem um metabolismo hiperdinâmico. Isso significa que o corpo deles processa nutrientes em uma velocidade muito maior que a humana. É por isso que eles crescem tão rápido nos primeiros anos. Mas isso também explica a necessidade energética constante.

— Energia... Tipo comida? — perguntei.

— Exatamente. — assentiu — Mas não só comida comum. Eles podem se alimentar normalmente, mas precisam de sangue para estabilizar certas funções. É como se o sangue fornecesse elementos que o corpo híbrido não consegue sintetizar sozinho, ferro, plasma, hemoglobina, e algo que ainda não consegui isolar: uma proteína específica ligada à linhagem vampírica. — ele virou a página e apontou para um gráfico de curvas sobrepostas — Eu coletei amostras de sangue, saliva, até fios de cabelo. Comparei com o material genético da Renesmee. Há semelhanças, claro. Mas Helena possui uma cadeia extra de nucleotídeos que me chamou atenção. Um padrão que não apareceu na Renesmee.

— O que isso quer dizer? — sussurrei, o coração acelerado.

— Ainda não sei. Pode significar que ela será mais resistente... ou que envelhecerá de forma diferente. Talvez o fator paterno tenha inserido variações genéticas que tornam a fisiologia dela ainda mais única.

Engoli em seco.

— E... o coração dela? Os órgãos? Eles são como os nossos?

Carlisle sorriu, o canto dos lábios se elevando de leve, havia bom-humor no ato. Ele puxou outro conjunto de folhas, desta vez com imagens térmicas e o que pareciam ser resultados de exames, talvez ressonâncias, talvez algo mais avançado.

— Quase. O coração de um híbrido bate mais forte, mais rápido, como se o corpo inteiro estivesse em constante estado de alerta. O sangue é mais espesso, mais denso. A temperatura do corpo é mais quente que a humana, mas sem ser febril..., mas isso você já percebeu. O cérebro... — ele me lançou um olhar curioso — é altamente ativo. Híbridos têm uma capacidade cognitiva muito acima da média. Helena pode se desenvolver intelectualmente antes mesmo de dominar a linguagem; talvez seja por isso que ela ainda não fale.

Respirei fundo, tentando processar tudo aquilo. Meu corpo mexeu os braços ao redor do corpinho de Helena, parecia me lembrar de que ela ainda estava ali comigo ouvindo tudo aquilo sobre ela mesma.

E agora havia a possibilidade dela estar entendendo tudo o que ele está falando.

— Você descobriu tudo isso sozinho? — tive curiosidade em saber.

— Eu tive ajuda da minha família e um amigo meu, um antigo médico, me mandou registros sobre híbridos encontrados na Amazônia. — reportou, o que me deixava cada vez mais surpresa — A maioria foi criada em segredo, escondida, muitas vezes rejeitada por ambos os lados, humanos e vampiros. Eu fui catalogando cada caso. Mas, infelizmente..., não há muitos. E nem todos sobreviveram.

— E você acha que a Helena corre perigo? — eu realmente temia.

Carlisle me olhou com um olhar protetor.

— Não enquanto ela estiver com a gente. Comigo. Com você. Com a minha família. E agora que sei mais sobre ela, posso monitorar tudo. Se houver qualquer alteração, em comportamento, aparência, saúde; eu estarei pronto. Estamos aprendendo com ela. E ao mesmo tempo, a protegendo.

Eu queria acreditar. Parte de mim acreditava. Mas outra parte... ainda temia o desconhecido.

— Obrigada por me contar tudo isso, Carlisle. Eu... precisava ouvir. Mesmo que assuste.

— O conhecimento pode assustar, Amberli. Mas ele também liberta. E você não estará mais sozinha com suas perguntas.

Fiquei em silêncio. O medo ainda estava lá, mas havia espaço para coragem também. Me levantei da cadeira, acomodei ela melhor em meus braços e de modo automático agradeci Carlisle mais uma vez. Subi de volta tremendo. Me sentia como se o chão estivesse se desfazendo sob meus pés. Não bastava todo o trauma… agora isso? O que mais me perturbava era ser mãe de alguém que cresceria rápido demais. Eu mal havia começado a conhecê-la.

Quando eu alcancei a bela porta do quarto e entrei, vi Rosalie sentada na cadeira de frente a sua penteadeira, sua postura impecável, um belo vestido realçando as curvas de seu corpo, suas mãos trabalhavam com calma torcendo uma mecha de seus fios dourados no topo da cabeça e prendendo-os com um grampo discreto. Quando permitiu que eu notasse que ela já sabia da minha presença, ela se virou na nossa direção, se olhou mais uma vez no espelho, ajustando algo invisível aos meus olhos e caminhou até mim.

— Bom dia, Amberli! — ela deu um pequeno sorriso, seus passos precisos cada vez mais próximos. Murmurei um bom dia para ela — Alguém está atrasada para a refeição!... — ela quase cantou, seus olhos dourados pareciam ouro líquido ao olhar para Helena — Deixa que eu termino de trocá-la, já está passando do horário de alimentá-la. — disse, passando suas mãos por debaixo das áxilas de Helena, tirando-a dos meus braços, que penderam quando ficaram sem o peso do corpinho dela. Oh, é claro; o sangue.

Observei em silêncio Rosalie caminhar até a cama, para deixar Helena ali antes de ir até a cômoda selecionar novas peças de roupas para a pequena. Me aproximei e passei acompanhar com o olhar os seus movimentos. O quarto tornou-se silencioso, exceto pelo som suave do tecido deslizando entre os dedos de Rosalie. Ela ajeitava com uma ternura quase sagrada a roupinha de Helena, um body branco e uma calça de algodão macio, enquanto eu observava sentada na beirada da cama, com os joelhos juntos e as mãos inquietas no colo. Eu observava Rosalie com um calor silencioso no peito enquanto ela vestia a pequena calça de algodão no corpinho de Helena com todo o cuidado do mundo, como se cada movimento fosse uma declaração silenciosa de amor. Minha filha agitava suas mãos em tudo ao seu redor, os olhinhos atentos, absorvendo cada sensação de ter o tecido macio tocando sua pele.

— Podem ficar à vontade no quarto com a gente. — Rosalie me disse sem desviar os olhos da bebê, o tom de voz firme, mas gentil — Jasper está subindo para vocês conversarem. — me avisou.

Senti meu coração acelerar, um pequeno frio na barriga, mas era diferente de antes, não de medo ou receio. Era quase uma ansiedade boa, uma expectativa tranquila, uma vontade genuína de ouvir o que ele tinha a dizer, como se eu soubesse que algo importante estava prestes a acontecer, algo que talvez me ajudasse a entender melhor tudo o que eu senti quando estava conversando com Carlisle. Assenti em silêncio, com um leve sorriso, ajeitando o cabelo atrás da orelha. Eu confiava neles, em Rosalie, em Jasper, em toda a família e, de alguma forma, no fundo do meu peito, eu sabia que Jasper estava subindo porque queria me ajudar e ele podia entender coisas em mim que nem eu sabia explicar.

Meus olhos voltaram para Helena, ela balbuciou algo sem sentido, as perninhas chutando no ar, e eu ri baixinho, sentindo uma leveza que há muito tempo não sentia. Rosalie sorriu de leve para mim, um sorriso que eu ainda aprendia a decifrar, meio protetor, meio desafiador. Eu sabia que ela queria me mostrar que eu não precisava ter medo. Não mais.

Era por ela que eu precisava ser corajosa, ser forte, mesmo que minhas mãos continuassem trêmulas no colo. Era por nós duas, porque por Hilary eu já estava sendo a algum tempo.

O som de passos firmes ecoou suavemente no corredor, aproximando-se e desta vez, eu respirei fundo sem hesitação, sentindo mais calma do que nervosismo; estava pronta para ouvir; estava pronta para ser ajudada por mais um dia.

O som dos passos se aproximou até parar diante da porta.

Rosalie ergueu o olhar para mim por um breve instante, como quem passava confiança sem precisar de palavras. Depois, voltou sua atenção para Helena, que agora puxava com a mãozinha esquerda a manga do próprio body.

A porta se abriu devagar.

Jasper entrou, o semblante tranquilo, a postura relaxada. Seus olhos dourados pousaram em mim, e, por um segundo, senti como se ele estivesse lendo cada pequena emoção que eu tentava esconder, mas ao invés de me sentir exposta, me senti segura e compreendida.

Ele fechou a porta com cuidado atrás de si, como se o mundo lá fora pudesse esperar.

— Oi, Amberli. — disse com uma voz suave, quase como um convite.

— Oi, Jasper. — respondi com um sorriso hesitante, mas sincero.

Ele deu alguns passos para dentro, sem pressa, respeitando o espaço ao meu redor.

Sua presença parecia alterar o ambiente, não de forma opressora, mas como uma brisa que dispersava as nuvens carregadas dentro de mim.

Rosalie pegou Helena no colo, passou por mim e parou na frente do berço, depositou um beijo no alto da cabeça de Helena, depois me lançou um olhar breve e colocou-a dentro do móvel e saiu discretamente, deixando-nos a sós.

A porta se fechou com um leve clique. Por um momento, ficamos apenas eu, Jasper e Helena, que agora fazia pequenos sons curiosos, como se sentisse a mudança no ar. Jasper inclinou a cabeça, estudando-me com a paciência de quem esperaria o tempo que fosse necessário.

— Eu não vim aqui para te pressionar. — ele disse, com uma calma que parecia se derramar sobre meus ombros — Só queria conversar... e, se você quiser, te ajudar a se sentir melhor.

Minhas mãos, que antes se entrelaçavam nervosas no colo, agora descansavam sobre a coxa, mais soltas. Eu queria essa ajuda. Mais do que isso: eu sabia que precisava dela.

— Eu quero. — respondi baixinho, mas convicta.

O sorriso que Jasper me deu em resposta não foi grande ou chamativo. Foi pequeno, sereno e verdadeiro, como se respeitasse a coragem que aquelas poucas palavras carregavam.

Ele caminhou com passos calmos até uma poltrona próxima, posicionada num ângulo que o deixava na minha altura, sem impor distância demais, nem invadir meu espaço. Sentou-se, apoiando os antebraços sobre os joelhos de maneira relaxada, as mãos entrelaçadas. Por um momento, ele apenas ficou ali, permitindo que o silêncio entre nós fosse confortável e não pesado.

— Eu consigo sentir, — começou, a voz baixa, quase como um murmúrio — o peso que você carrega.

Suas palavras não vinham com pena, nem com compaixão excessiva.

Eram só... verdadeiras. Simples. Helena resmungou um pouquinho dentro do berço. Me inclinei um pouco para o lado para olhá-la por entre as grades de ferro. Não me contentei em apenas vigiá-la distante. Me levantei e me aproximei do berço, desci meu braço para o interior do móvel, minha mão acariciou o bracinho de Helena, sentindo seu calor debaixo dos meus dedos. Vi quando Jasper sorriu ao observar o gesto, os olhos se suavizando ainda mais.

— Você é mais forte do que imagina, Amberli. — disse ele, com uma convicção tão tranquila que parecia uma âncora em meio ao que eu sentia — Eu não estou aqui para te forçar a lembrar de nada. Nem para te pedir que seja diferente do que você é agora. Só queria que você soubesse..., que já não carrega tudo sozinha.

Um nó se formou na minha garganta, mas era diferente desta vez não era dor, era alívio. Jasper recostou um pouco na poltrona, ainda me olhando com aquela paciência serena.

— Se quiser falar, estou aqui. Se só quiser ficar em silêncio, também estou. — deu-me opções — O que você precisar, no seu tempo.

Aquela simples oferta sem cobranças, sem expectativas, era como uma porta aberta num quarto onde eu achava que estava presa. Respirei fundo, sentindo a tensão dos meus ombros dissolver um pouco. Passeei meus olhos ao longo do quarto, minhas vistas alcançando a visão privilegiada daquelas enormes janelas, a neblina se misturava à chuva fina que escorria pelas amplas janelas de vidro.

A chuva não para. O vidro embaçado. O mundo borrado. Eu também.

Borrada. Desbotada.

O som da água batendo no telhado ecoava suave, quase como um sussurro constante. Jasper está ali, quieto, observando. Eu sei que ele sente. Sente o que nem eu consigo nomear, a calma estampada nos olhos dourados que me observavam sem julgar enquanto eu permanecia em pé, braços cruzados, como se abraçasse a mim mesma, perto do berço, Helena está sentada sobre o colchão macio.

— Você parece presa dentro de si. — comentou ele, a voz tranquila, arrastada pelo sotaque sulista.

Eu continuo em silêncio. Não nego. Como negar? Talvez eu estivesse. Presa em alguma parte que eu não sabia mais como alcançar. Demorei para responder. Meus olhos estavam grudados na minha filha, no corpinho que dobrava de tamanho a cada dia, nos traços delicados que carregavam algum pedaço de mim. E, mesmo assim, eu me sentia tão distante dela...

Meu rosto estava impassível, mas meus ombros traíam a tensão que eu tentava esconder.

— Eu não sei se consigo..., ser o que ela precisa. — murmurei, por fim, minha voz saindo mais fraca do que eu gostaria — Às vezes, é como se eu estivesse apenas... Tentando sobreviver.

"Sobreviver." Que palavra odiosa para alguém que deveria ensinar outra pessoa a viver.

Jasper assentiu devagar, um gesto tão silencioso quanto tudo ao redor.

— Você está. E isso não é fraqueza, Amberli. É humano. — ele se levantou, caminhando até mim com passos lentos, parando a uma distância respeitosa — Mas há uma diferença entre sobreviver e viver. E você ainda está decidindo se vai viver com ela..., ou apesar dela.

Senti um nó apertar minha garganta. Minhas emoções oscilaram dentro de mim, arrepiando feridas que eu fingia ter esquecido; tão confusas que eu não sabia ao certo onde começava o medo e terminava a culpa. Meus olhos começaram a arder, e eu pensei em desviar o olhar, mas então..., ouvi. Helena começou a resmungar. Prestei a atenção. Era uma sucessão de sons curtos, não era choro, não era reclamação... Era como se ela estivesse tentando formar palavras, pequenos sons que escapavam de seus lábios, tropeçando nas sílabas que ainda não sabia formar. Mas havia um esforço ali, uma vontade.

Meus olhos buscaram os dela, e encontro aqueles olhos azuis. Azuis de doer. Atentos, me observando com uma intensidade que parecia muito maior do que seus meses de vida deveria permitir. Olhos que pareciam entender mais do que deveriam, que pareciam me enxergar além da pele, além da tristeza, além do medo. Olhos que, de algum modo, me reconheciam. Como se, de algum modo, ela enxergasse o que até eu tentava esconder.

Era como se ela soubesse.

Como se dissesse, sem palavras: "Eu estou aqui. Você está?"

— Ela sente quando você hesita. — murmurou Jasper, quase como se estivesse lendo meus pensamentos — Ela tem uma vaga percepção sobre o que você sente, nada tão exclusivo que possamos considerar como uma habilidade incomum como a minha. Mas ainda assim faz com que ela possa, de maneira limitada, sentir o que você sente.

As palavras dele me acertaram como uma lâmina fina, silenciosa. Sim. Ela sente. Como poderia não sentir? Ela nasceu de mim. Ela é parte de mim. Helena continuava resmungando baixinho, os bracinhos se movendo de leve, como se me chamasse. Não era um simples pedido de cuidado físico. Era algo mais.

Desviei os olhos, tentando barrar o pânico que latejava sob minha pele. Mas, mesmo de olhos fechados, eu ainda sentia Helena me chamando, não com palavras, nem com gritos. Mas com uma necessidade pura e simples. Um pedido mudo. Meus braços se moveram antes que minha mente compreendesse. Peguei Helena nos braços, senti seu calor. O resmungo cessou, mas ela continuou a me encarar, seus olhos brilhando, claríssimos, como se esperasse por algo que eu ainda não sabia se podia dar. Apertei minha filha contra o peito, com as mãos trêmulas, sentindo o calor do seu corpinho se encaixar no meu, meus olhos arregalados, sentindo algo dentro de mim se destravar.

— Ela precisa de mim. — sussurrei, quase sem acreditar — De mim. — minha voz embargara, como se fosse a primeira vez que eu me permitisse acreditar.

Ela precisa de mim.

Não de outra.

Não de uma versão melhor de mim. Não de quem eu fui antes da dor; de mim, agora, inteira ou quebrada.

E é aí que entendo. Que não importa o quanto eu tenha me despedaçado, para ela, eu ainda sou o suficiente. Eu ainda sou seu mundo.

Jasper assentiu, mas eu mal o vi. Só conseguia sentir. E percebi que ele sentia a onda de emoção que crescia dentro de mim, uma onda nova, diferente de tudo o que eu já tinha experimentado, me invadia, o medo se desfazendo, dando lugar ao instinto primal e poderoso, e o instinto começando a se transformar, ainda que timidamente, um pouco mais forte que antes; em amor. Uma centelha tímida de amor brotando no vazio onde antes só existia dor.

Choro.

Deixo o choro vir, sem tentar esconder, com Helena aninhada nos meus braços.

Mas, dessa vez, não pela ferida que o passado me deixou.

Não pelo que me roubaram.

Não pela dor que me moldou.

Mas pelo que ainda podia ser construído.

Chorei por ela.

Por nós.

Pela vida que me chama.

Pelo futuro que, pela primeira vez, eu queria, não apesar dela, mas com ela. Por ela. Com ela.

Helena suspira contra meu peito, satisfeita. Como se soubesse que, dessa vez, eu a ouvi. E pela primeira vez, eu também me escuto.

Jasper ainda estava ali, sentado à minha frente, com aquele olhar calmo que eu aprendi a reconhecer. Ele não dizia muito, mas quando falava... era como se arrancasse as coisas direto da minha alma. Ele foi no meu tempo e esperou.

— Você não é só a mãe dela, Amberli. Você é o mundo dela. E agora... você sentiu isso. — ele disse, com uma certeza serena que fez meu peito apertar.

Respirei fundo, abraçando Helena com mais força. Eu queria dizer algo, mas não sabia por onde começar. Então ele continuou.

— Quando Renesmee nasceu… Bella também teve medo. Mas o medo dela era de não conseguir protegê-la. O seu... é de não conseguir amá-la.

Engoli em seco. Aquilo doeu. Mas doeu porque era verdade.

— Eu me sinto horrível só de ouvir isso. — admiti, o olhar preso à parede — Mas é verdade. Eu passei tanto tempo tentando sobreviver ao que aconteceu..., que às vezes esqueço que ela não é o monstro que me feriu. E isso me assusta.

— Eu entendo melhor do que imagina. — Jasper assentiu com a cabeça. Sem espanto, sem julgamento. Só..., empatia.

Ergui os olhos, curiosa. Ele não costumava falar de si.

— Quando fui transformado... Eu me tornei algo que odiava. Um soldado. Um assassino. Uma besta. Passei anos acreditando que aquilo era tudo o que eu era. Até encontrar Alice e essa família.

Ele fez uma pausa, o olhar perdido por um instante. Eu segurei Helena um pouco mais forte.

— Mesmo depois de tudo, eu ainda carrego as cicatrizes do que fui. Sinto as emoções dos outros com tanta intensidade..., que às vezes me perco nelas. A dor, o medo, a raiva... tudo isso grita dentro de mim. Mas foi com Alice, e com Esme…, que eu aprendi algo importante: os sentimentos não definem quem você é. Suas escolhas, sim.

As palavras dele me atravessaram. Era como se ele estivesse me entregando um pedaço da própria dor para que eu entendesse a minha. Helena suspirou baixinho, quieta nos meus braços. E pela primeira vez… eu me senti parte dela.

— E se eu escolher errado? — perguntei, baixinho.

— Você já escolheu certo. — ele respondeu, os olhos pousando em mim com suavidade — Você está aqui. Está lutando. Está olhando para ela… e vendo a filha, não a lembrança.

Fechei os olhos, respirando fundo. O peito ainda doía, mas havia espaço para algo novo. Um recomeço.

— Obrigada, Jasper. Eu… acho que precisava ouvir isso mais do que imaginava.

Ele sorriu. Um daqueles sorrisos raros que suavizam a rigidez dele.

— Estou sempre por perto. E ela tem sorte de ter você. Mais do que você consegue enxergar agora.

Já fazia algum tempo que havíamos almoçado. Eu estava sentada no sofá da sala com Helena em meu colo, olhando para Hilary brincando no chão, rindo e se divertindo com a interação de Renesmee, mas eu não conseguia acompanhar a mesma alegria. Eu me sentia incomodada, presa em um lugar que não era meu.

Passeei meus olhos pelo ambiente, havia me desacostumado, esquecido de como a sala desta casa, assim como todos os outros cômodos em que já estive, eram um verdadeiro santuário de elegância e sofisticação. Decorada com móveis de alta qualidade e objetos de arte. As paredes eram pintadas de um branco cremoso, que parecia brilhar suavemente às raras luzes do sol que entrava pelas janelas altas e esguias. O chão era feito de madeira polida, que refletia a luz do ambiente e dava um brilho quase mágico ao local. O sofá onde estou sentada com a bebê é um verdadeiro trabalho de arte, feito de um tecido em algum tom de branco e macio, com detalhes de madeira que se encaixavam perfeitamente no resto do ambiente, as almofadas são grandes e confortáveis, e eu me sentia como se estivesse quase flutuando em uma nuvem enquanto sustentava o peso do corpinho da Helena nos meus braços.

A sala estava decorada com móveis clássicos e sofisticados, que com certeza foram escolhidos com cuidado para criar um ambiente aconchegante de luxo e elegância. E um detalhe que jamais imaginei ter deixado passar, foi a grande lareira de pedra no canto da sala, agora que nos aproximávamos de novembro ela parecia estar esperando para ser acesa em uma noite fria de inverno. Era uma casa muito linda, mas não era minha.

Apesar de toda a gratidão que eu podia oferecer a cada integrante da família, eu já estava cansada de me sentir como uma visita constante, sem autonomia para tomar decisões ou fazer escolhas. Eu já dependi de cada um para tudo, desde minha alimentação até o transporte de um cômodo ao outro. E isso me fazia sentir falta de ser a dona de uma casa, a mãe da minha filha; mãe das minhas filhas. Eu sentia falta de poder cuidar pelo menos da Hilary sozinha, sem precisar de constante ajuda. Mas agora, comigo me recuperando de tantas formas, eu não conseguia fazer quase nada sozinha.

Eu desci meus olhos para a minha filha mais nova, minha pequena híbrida sugava ávida o meu leite dentro da mamadeira prateada. Sua mãozinha esquerda estava erguida, com os dedinhos segurando firme o babado da gola baixa da blusa que uso. Eu fiquei feliz comigo mesma quando percebi o momento certo de que Helena já estava ficando faminta desse alimento em específico, mas eu mesma nem podia aquecer o leite para ela, eu precisava pedir ajuda para Nessie, ou a uma das outras mulheres da casa.

Isso me fazia sentir tão mais inútil. Eu não conseguia nem mesmo cuidar das minhas próprias filhas. Eu estava dependente de outras pessoas para tudo, duplicando a sensação de me sentir como uma carga para elas, uma pessoa que precisava ser cuidada em vez de também cuidar.

Eu suspirei e senti vontade de me levantar do sofá, pensando se realmente não encontraria algo para fazer.

Mas sequer fiz, tudo o que vinha à mente me lembrava da minha falta de independência: a cozinha onde eu não podia cozinhar; o jardim que não me pertence onde eu não poderia sair sozinha para levar minhas filhas para brincar, e a casa que não era minha, e que não sinto que será o lugar perfeito para eu me estabilizar e criar minha família. Não havia muito o que eu pudesse fazer, eu tinha muito o que melhorar para conseguir uma direção de vida desse lado do país, e teria que continuar de coração aberto aceitando toda a ajuda possível, pois eles me oferecem de bom coração.

Não é que eu esteja reclamando da disposição deles, nunca poderia fazê-lo; mas era impossível não pensar que em alguns momentos eu me sinta assim.

— Você está quieta hoje. — o som da voz de Nessie, me chamou a atenção, possivelmente percebeu meu olhar distante — Quero dizer, mais do que de costume... — pisquei algumas vezes, voltando à realidade.

— Ah..., desculpa. Só estava pensando. — fixei meu olhar em si.

— Algo me diz que não era um pensamento feliz. — Renesmee comenta. Fiz uma careta.

— Você já olhou para alguém e sentiu que estava olhando para um fantasma do passado?... — falei por baixo do suspiro longo que soltei.

— Você sente algo diferente quando Helena te toca? — perguntou-me, instigando-me a focar na sua dúvida.

— Como assim? — franzi a sobrancelha, estranhando sua pergunta, que desfez totalmente meus ânimos e pensamentos anteriores.

Ela ficou em silêncio, e pensei nesse momento “Talvez a maneira que estou aos poucos reconhecendo minha filha e moldando minha nova maneira de viver ao entorno dela, pudesse ter gerado essa dúvida incomum na Renesmee?”

— Você acha que ela pode estar te influenciando em alguma coisa? — ela me perguntou, entregando o brinquedo favorito de Hilary às suas mãozinhas.

— Não que eu saiba. Não me sinto diferente quando ela me toca... — refleti um pouco. Havia um sentimento ali, era algo bom; mas não devia ser algo que a Helena possa ter implantado em mim — Você acha que ela me acalma, quando me toca?

— Eu não sei te dizer... — pausou, respondendo algo alegre para Hilary, pois continuava a entretendo — Mas é notável que você esteja bem melhor.

— Às vezes, eu olho para ela e sinto um medo absurdo. Não sei como vou dar conta... Ela não é como as outras crianças e eu ainda tenho medo de que ela chore. — me senti confortável de lhe falar. Olhei para a pequena, ela está tranquila olhando para mim. Ergui meus olhos para Renesmee — Não posso evitar de começar a sentir um pouco de ansiedade só de imaginar que se Helena começar a chorar perto de mim, eu posso ter uma crise. Eu não sei como lidaria com o choro dela, não sei se conseguiria reagir para tentar acalmá-la. E isso me assusta, Nessie. — olho para Helena, que ainda está quietinha.

Seu corpinho pequeno e quente se ajustava perfeitamente ao meu peito, como se aquele fosse o único lugar no mundo onde ela deveria estar. Sinto um arrepio percorrer meu corpo. Eu sei que preciso estar preparada para qualquer coisa. Preciso estar pronta para lidar com o choro dela, mas, ao mesmo tempo, eu não sei se estou preparada para isso.

— Eu sei exatamente como você se sente. — ela sorri com compreensão — Mas a verdade é que não importa o que ela seja..., ela é sua filha.

— Mas e se eu errar? Se eu não conseguir entender as necessidades dela? — minha feição decaiu em tristeza.

— Você vai errar. Meus pais erraram comigo algumas vezes também. Mas sabe o que sempre fez a diferença? O amor. Eles nunca me trataram como um monstro ou como algo estranho. Eles me ensinaram a ser quem eu sou, sem medo.

— E, — suspiro — como você lidou com o fato de ser diferente? — Renesmee dá de ombros.

— No começo, foi difícil. Eu sabia que não pertencia totalmente a nenhum dos dois mundos; mas o que minha família fez foi mostrar que eu não precisava pertencer à um rótulo..., só precisava ser eu mesma. — disse-me com calma — Sua filha vai sentir o mesmo. Se você mostrar que aceita quem ela é, Amberli, ela vai aprender a se aceitar também. — assenti, me sentindo um pouco melhor.

— Eu queria ter essa confiança que você tem... — lamentei. Num instante, Renesmee já não estava perto de Hilary, e sim pegando na minha mão. Me consolando.

— Você vai ter. E eu vou estar aqui para te ajudar, sempre. Você sabia que a minha mãe também teve muito medo de mim?

— É sério? — fiquei surpresa, apesar de Bella ter me contado o quanto temeu durante a gestação, e Jasper contou-me sobre o real medo dela; não contava que Renesmee soubesse tanto de sua própria história.

— Ela me amava, claro. Mas, eu crescia bem rápido. Cada batida do meu coração parecia colocá-la em perigo e havia tantas incertezas naquela época... Ninguém sabia se eu sobreviveria ao parto. Ou se ela sobreviveria ao parto. Meu pai pensava em me tirar dela antes da hora. Todos estavam em pânico.

— E ela? — quis saber sobre sua perspectiva.

— Ela me defendeu até o fim, mesmo com medo. Mesmo sem saber quem eu seria. Ela escolheu confiar. Amar antes de entender.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Isso me doía e me curava ao mesmo tempo.

— Eu ainda não consigo sentir isso o tempo todo, Nessie. — admiti — O amor.

— Isso não faz de você uma mãe ruim. Faz de você uma mãe real. Ferida. Mas presente. E isso já é mais do que muitas crianças têm. E irei te ajudar no que precisar.

— Há coisas que você não pode me ajudar, Nessie. — minha expressão se fechou, minha mente rapidamente se prendia aos pensamentos obscuros e traiçoeiros — Eu ainda olho para ela e... Às vezes procuro por ele.

— Ele quem? — a vejo franzir a sobrancelha, confusa.

— O monstro que me machucou. — segredei — Ela tem os olhos dele, a pele dele. Nada de mim.

— Mas ela não é ele, Amberli. — soou cuidadosa, olhando para a Helena e voltando seus olhos para mim.

— Eu sei. — pausei, soltando um suspiro longo — Eu sei que ela não tem culpa, e eu não lembro do rosto dele Nessie. O que mais me assusta é que, se ele passasse por mim na rua, eu não saberia. Mas às vezes..., quando olho para ela..., eu não me vejo e isso faz com que eu invente fragmentos dele. — engoli em seco. Renesmee ficou em silêncio por um momento, absorvendo o peso das minhas palavras — Os olhos dela..., são de alguém que nunca vi. A pele dela..., é de alguém que vive escondido na minha mente. É como se uma parte dele estivesse sempre aqui e isso me assusta muito, porque eu não sei o que mais dela veio dele.

— Mas ela também veio de você. — sua voz demostrava sua compreensão, mas não deixava de soar resoluta — Você está nela, mais do que imagina. — engoli seco, apertando a mão quente dela, que ainda estava unida à minha — Você não precisa carregar isso sozinha; eu sei que é doloroso, mas sua filha não é a sombra dele. Ela é luz. Ela é sua também.

— E se um dia ele voltar?! — era inegável o medo no meu inquirir — E se ele olhar para ela e souber exatamente o que fez? Ele ainda está por aí, vivendo a vida dele, como se nada tivesse acontecido; enquanto eu... — o aperto no peito parecia me esmagar — Eu mal consigo respirar quando penso nisso, Nessie!

— Mas não está. Ele não está aqui. — pontuou — Só ela. Só você. — afagou minha mão.

— Mas ele está em algum lugar. — hiperventilei, sentindo-me gelada — E eu não sei se algum dia ele vai voltar para assombrar minha família.

— Me ouça, Amberli. — pediu por minha atenção com firmeza, me fazendo encarar seus olhos castanhos que expressavam o quanto suas palavras eram sérias — Ele pode estar em qualquer lugar do mundo, mas não aqui. Aqui você tem a gente. E ninguém, nem ele, vai tocar um fio de cabelo seu e da sua filha. — fechei meus olhos, tentando conter as lágrimas. Seus dedos quentes apertaram minha mão.

— Eu queria ter essa certeza. — respondi frágil, me sentindo minúscula.

— Então deixe que eu tenha por você. Até que você consiga ter por si mesma. — me reconfortou.

— Você acha que um dia eu vou conseguir amá-la sem medo?

Renesmee sorriu.

— Eu acho que você já está amando. E um dia, o medo vai perceber que ele não tem mais espaço.

As lágrimas vieram de novo, mas não as contive. Nem senti vergonha delas.

— Obrigada, Nessie.

— Eu só estou te dando o que recebi. Amor em cadeia. É assim que os Cullen vivem. — ela se levantou, deitando-se sobre o tapete novamente, dando a atenção exclusiva para Hilary mais uma vez.

Eu respiro fundo e tento manter a calma estabilizada. As palavras de Nessie me deram a segurança e conforto que eu precisava no momento. Eu sei que preciso ser forte para Helena, da mesma forma que fui forte para Hilary em todas as suas crises de choro e necessidades; preciso ser o conforto de Helena também.

Propositalmente, ignorei completamente a presença de Renesmee ali comigo e comecei a cantarolar uma canção de ninar suave para a bebê, no intuito de manter-me serena como ela.

Helena continuava a olhar para mim, o chiado da mamadeira deixava claro que só havia ar dentro dela agora. Tirei o bico de metal da sua boca e vejo um sorriso pequeno no rostinho dela, o que me fez sorrir para ela. E ela está calma, alimentada e bem, e eu sinto a apreensão sair de meus ombros, “Está tudo bem, por enquanto está tudo bem. Ela está feliz e gosta bastante de quando eu falo diretamente com ela...”, pensei, sentindo-me mais segura e mais confiante a cada momento que passo com ela.

— Agora, vamos sentar... — eu ditei com a voz suave quando comecei a mover Helena, posicionando-a sentada entre minhas pernas, dando-lhe a oportunidade de poder ver Hilary deitada sobre o tapete, rindo das leves cócegas que Nessie fazia em seus pézinhos.

Helena, com seus cabelos cacheados e olhos brilhantes, deixou de prestar a atenção na irmã para olhar para cima, o sorriso meigo e inocente em seus lábios deixava claro a maneira fascinada que ela olhava para o meu rosto. Eu sorri para ela, o que a fez se agitar; passei minhas mãos pelo seu corpo, sentindo a maciez da roupinha que ela usava. Como não havia sido eu a terminar de vesti-la, tive interesse de analisar de perto as novas peças colocadas. Não ficava mais tão surpresa em perceber que mais uma vez, ela era envolvida em tons de branco. Eu gostava até; isso era uma tela em branco e me deixava à vontade para imaginar como ela ficaria em outras cores mais vivas.

— Olhe Helena, você está usando um conjuntinho branco tão lindo! — subi minha mão direita até seu ombrinho, meus dedos roçando em seus cachos — Veja como ele é bem macio e confortável, perfeito para uma bebê como você.

Com graça, pude ver quando ela olhou para baixo, como se estivesse examinando sua própria roupa, e depois voltou seu olhar para mim. Eu continuei a descrever o conjuntinho, destacando os detalhes delicados e a textura suave do tecido.

— Ele tem um botãozinho pequeno na parte de trás, — toquei o local, abaixo da sua nuca, desprendendo uma mecha enrolada ali — e isso é uma faixa de renda branca na gola. — contornei suavemente a borda envolvida ao redor de seu pescocinho — É um conjuntinho perfeito para uma bebê linda como você. — lhe disse, inclinando-me sobre ela, beijando o topo da cabeça encaracolada. Pude ver suas bochechas redondas se elevarem num sorriso, suas mãozinhas se ergueram para tocar as minhas e puxá-las para si, e começou a brincar com minhas mãos.

Não podia deixar de notar como sua desenvoltura de dias em meses estavam passando rapidamente. Com sua fisionomia mudando, eu podia ver traços de sua personalidade emergir. Mesmo assim, ela continuava sem vestígios meus, seu olhar, o desenho de seu nariz pequeno e a boca de lábios sorridentes são todas características próprias, e mesmo que eu não me achasse nos seus traços, eu podia ver como ela estava se tornando uma pessoa única, com sua própria personalidade e características. E isso era incrivelmente emocionante de imensas formas para mim, como sua mãe. Eu me inclinei sobre ela mais uma vez, beijando a lateral da testa dela, sentindo gratidão e amor.

— Você está crescendo tão rápido... — disse eu, sussurrando em seu ouvido — E você está se tornando uma menina tão linda e especial. — afirmei para nós duas.

Helena tirou a atenção das minhas mãos por um momento, para olhar para cima e sorrir para mim, e eu soube que ela estava me ouvindo, entendendo minhas palavras. E foi como se eu tivesse encaixado mais uma peça entre nós, eu senti que estávamos um pouco mais conectadas. De repente, ergui meu olhar para frente, ouvindo os passinhos de Hilary na minha direção. Sua mãozinha chacoalhava seu brinquedo reluzente acima da sua cabeça, e um sorriso alegre se escondia por de trás da chupeta rosa, que agora usava.

Mã-mã-mã!... — suas palavras saiam emboladas por ela tentar falar segurando o bico da chupeta entre os poucos dentes que tinha.

Seus passinhos acelerados chegaram mais próximos, e ela estendeu os braços para frente, como se me pedisse por colo. As palavras emboladas continuavam a sair, cada vez mais incompreensíveis.

Suas mãozinhas estendidas tocaram meus joelhos para apoiar seu corpinho contra o meu, o brinquedo que outrora estava em suas mãos, foi abandonado ao chão para que ela pudesse envolver-me, o toque delicado das suas mãos afagava meus joelhos e percebi sua curiosidade e interesse de tocar Helena.

Oi mamãe! — ela exclamou, olhando para cima e me abraçando com sua força. Eu sorri para ela.

— Oi minha alegria! O que você estava fazendo? — estendi minha mão para afagar seu rostinho, e aproveitei para tirar a chupeta da sua boca e escondê-la na lateral do estofado do sofá. Hilary olhou para cima, seus olhos brilhantes mostrando o quanto estava entusiasmada e feliz.

Eu corri, mamãe! — ela disse, orgulhosa — Eu sou rápida! — eu ri e acariciei seu rostinho novamente.

— Eu vi, você é muito rápida! — observei o quanto ela e Helena se encaravam — Chegou perto da gente rapidinho! E você é também muito amorosa.

Nesse momento, Helena se remexeu, atraindo nossa atenção, e Hilary olhou para ela do mesmo jeito que fazia desde o dia em que as tive junto de mim. Mas hoje, havia algo diferente em seus olhos, a curiosidade brilhava através do seu olhar.

A bebê! — ela disse, estendendo a mão para tocar a mão da bebê.

— Sim, é a bebê. — eu sorri, sentindo amor por essas duas meninas incríveis que compartilham minha vida. Helena piscou os olhinhos, abaixando seu olhar para a mão de Hilary sobre a sua — E ela adora você. — Hilary olhou para mim com um sorrisinho, como se dissesse "eu sei, mamãe".

Por alguns instantes, ela hesitou, então ela se virou para a Helena e começou a falar com ela em uma linguagem que só elas entendiam. A bebê olhou para cima, fascinada pela irmã mais velha, e começou a responder com sons e gestos. Eu observei, maravilhada, enquanto as duas irmãs se comunicavam de uma maneira que era única delas, o que para mim, foi uma surpresa, mas mantive-me em silêncio, olhando admirada a interação.

— Relaxa. — Nessie chamou minha atenção, enquanto recolhia alguns brinquedos ao seu redor — Parece seguro e saudável essa comunicação entre elas, e já conversei com a Helena também.

— Conversou? E sobre o que? — franzi a sobrancelha, curiosa para saber. Com destreza, ela se levantou do chão, pegou o brinquedo abandonado aos meus pés e se sentou ao meu lado, puxando Hilary para seus braços entregando o brinquedo de luzes amarelas em suas mãozinhas.

— Sobre ela não morder e sugar o sangue de vocês. — falou como se isso fosse a condição mais comum da vida dela, me deixando chocada — Não se preocupe, relaxa. — soltou uma risada — Suas filhas, apesar de serem de naturezas parcialmente diferentes tem algo em comum: a inteligência. Você sabe, Hilary é inteligente como uma criança humana, e Helena como uma híbrida... E não é nada do que eu já não tenha ouvido quando bebê. — deu-me garantias tranquilizadoras.

— Você é uma pessoa muito especial para ter conseguido ensinar uma lição tão importante. — expus a observação, vendo Hilary estender o brinquedo na direção da Helena.

— Obrigada! — Renesmee sorriu e me abraçou pelos ombros.

Nessie continuou ali comigo, brincando com Hilary e Helena. Depois de alguns minutos a Hilary se agitou entre o espaço do meu corpo e o de Nessie, esticando suas pernas na minha direção, tentando alcançar-me. Renesmee a deteve com precisão e logo ela começou a resmungar insatisfeita e a chamar por mim.

Mamãe, a bebê... — ela choramingou. Dei atenção a ela, pedindo que falasse mais calma. Foi tão fofo quando vi Hilary se calar, respirar e falar — Mamãe, eu quero a bebê! — Hilary apontou para Helena, que estendeu sua mãozinha na direção dela — Assim também, mamãe... Posso segurar a bebê? — deu palmadinhas na sua própria coxa, balançando suas perninhas.

Meu coração parou por um segundo. Olhei para Hilary, surpresa. Ela nunca havia pedido isso antes. Soube que desde a devida apresentação de Helena para ela, ela mantinha uma certa distância, como se ainda não soubesse bem o que pensar sobre a irmãzinha. Mas agora..., agora ela queria segurá-la.

Seu pedido me deixou sem respostas, sem autonomia para poder responder; encontrei o olhar de Renesmee, esperando que ela pudesse me ajudar a direcionar uma posição segura para ela. Renesmee correspondeu meu olhar com uma piscadinha e sorriso, me incentivando a continuar, um aval para prosseguir com o pedido de Hilary. Respirei fundo e voltei minha atenção para Hilary, sorri e olhei nos olhinhos castanhos da minha filha.

— Tudo bem. — consenti, sentindo um frio na barriga — Quer segurar sua irmã? — perguntei suavemente.

Por favor, mamãe? — sua voz infantil e doce pediu mais uma vez.

Meus olhos brilharam. Quando foi que a minha amada filha, minha alegria, aprendeu a falar tão bem assim?

— Vamos ver se você consegue segurá-la...

Hilary assentiu, os olhinhos castanhos brilhando de expectativa. Por um breve instante, um receio cresceu em meu peito e hesitei. Helena era pequena, mas já era mais forte do que uma criança humana. Eu não sabia o perigo real, mas ver minhas filhas tão próximas me fazia sentir algo que eu não conseguia explicar. Nessie deu-lhe espaço para que pudesse se sentar no sofá, tomando para si o brinquedo que definitivamente fora esquecido e num gesto silencioso garantiu-me que o que estávamos prestes a fazer era seguro.

Ajustei Helena cuidadosamente nos meus braços antes de me virar para Hilary.

— Você tem que segurar com muito cuidado, como um abraço de borboleta, está bem? — avisei olhando fundo em seus olhos.

Ela balançou a cabeça rapidamente, ansiosa. Com delicadeza, guiei suas pequenas mãos e a ajudei a aninhar Helena no colo. Hilary ficou imóvel por um segundo, percebi que ela segurou a respiração em reflexo, como se estivesse diante de algo precioso demais para se mover.

E então, ela sorriu.

Ela é quentinha... — sussurrou, maravilhada.

O nó na minha garganta apertou. O contraste entre elas era evidente. Hilary, com sua pele e olhos castanhos, tão parecida comigo. Helena, pálida como a neve, com olhos de um azul claríssimo que me assombravam.

Os olhos de um homem cujo rosto minha mente se recusava a lembrar.

Mas, naquele momento, nada disso teve forças para me perturbar, porque Hilary não via as diferenças. Ela só via a bebê, sua irmã.

Ela ajeitou os bracinhos em volta de Helena, instintivamente embalando-a, e eu senti o ar preso nos meus pulmões. Helena, entendendo o momento, suspirou suavemente e aninhou o corpinho contra o tórax da irmã. Deixei escapar uma risada leve, sentindo meus olhos arderem.

— Sim, meu amorzinho. — sussurrei, respondendo a constatação de Hilary — Ela é.

Renesmee me olhou de novo, e dessa vez, não havia apenas o sorriso incentivador; havia compreensão, apoio.

E, por um instante, eu permiti que aquele momento me envolvesse, porque não havia medo em mim.

E então, senti.

O arrepio discreto subindo pela minha nuca, um calor diferente que não vinha do corpo de nenhuma das minhas filhas. Uma presença. Me virei institivamente para a escadaria atrás de mim, Alice apareceu, vinda do cômodo abaixo, com um sorrisinho enigmático.

— Visita especial. — ela disse, como se soubesse exatamente o que aquilo causava em mim, e sumiu pelo corredor.

E lá estava ele.

Encostado casualmente contra a moldura do guarda-corpo de vidro, alto, moreno, braços cruzados, naquele jeito calmo que escondia a força contida sob a pele vermelha, com aqueles ombros largos e a presença silenciosa de alguém que carrega muito sem nunca falar sobre isso. Sempre que ele surgia, parecia que o ambiente mudava. Como se a temperatura subisse alguns graus. Como se o mundo ficasse em pausa. Mas o que mais me desconcertava eram os seus olhos. Mesclados em verdes. Intensos. Completamente fora de lugar em um rosto de traços fortes, pálpebras puxadas e pele avermelhada como a dele. Era como se a floresta tivesse dado a ele o olhar das suas partes mais secretas; eram lindos, e fixados em mim de um jeito que fazia meu coração tropeçar no próprio ritmo.

Nada menos inconfundível que Cole Uley.

Havia algo bom nele que sempre me desestabilizava. Algo que fazia meu corpo reconhecer sua presença antes mesmo que meu cérebro assimilasse, um calor que parecia se intensificar sempre que ele estava por perto. E ali estava ele, me observando como se soubesse exatamente o que eu estava sentindo. O coração bateu um pouco mais rápido, não de medo, mas daquela ansiedade estranha que sempre sinto quando Cole está por perto.

Engoli em seco, sentindo meu rosto esquentar e por um instante, tudo ao redor pareceu ficar mais quieto.

— Espero não estar interrompendo nada. — sua voz soou carregada de algo que eu não soube identificar, baixa, como quem pede licença.

— Oi, Cole. — respondi, e percebi que estava sorrindo sem querer. Virei para frente e movi minha mão, indicando a poltrona disponível mais próxima — Por favor, sente-se.

Envolvi meus braços por debaixo do corpinho de Helena, para que ela voltasse para o meu colo, deixando Hilary livre. Ele se aproximou com o andar despreocupado, cumprimentou Nessie e seus olhos mais uma vez buscaram imediatamente os meus, e depois suavemente, os de Hilary.

Cóu!! — Hilary disse, como se o nome fosse um gritinho de alegria disfarçado de palavra.

Ele sorriu para ela. Não um sorriso grande, mas um daqueles que aquecem o ar ao redor. Ele passou por mim, sentando-se na poltrona ao lado, não muito perto. Ele sempre fazia isso agora, mantinha uma distância respeitosa. Mas algo nos olhos dele dizia que era só uma escolha, como se soubesse que eu ainda me sentia quebrada por dentro e não quisesse pressionar nenhuma rachadura.

— Oi pequena. — a cumprimentou. Ela se endireitou no sofá, as mãos pressionando o estofado abaixo de si. Um brilho nasceu em seus olhinhos escuros e ela sorriu para ele — Estava me esperando?

Hilary assentiu com força e abriu os bracinhos, pedindo sem palavras que ele a pegasse. Eu assistia tudo em silêncio, com Helena aninhada no meu colo, e senti meu peito se aquecer de um jeito que não vinha de dor ou lembrança. Vinha do agora.

Cole se levantou da poltrona, ajoelhando-se diante de Hilary, abrindo os braços; ela não hesitou nem por um segundo, se jogou contra ele com uma confiança absoluta. Ele a pegou com cuidado, como se ela fosse feita do material mais belo e frágil, e a ergueu no colo com total facilidade.

— Tá mais pesada!... — brincou ele, fazendo cócegas nela.

Ela riu alto, encostando a cabeça no ombro dele como se já tivesse feito aquilo umas mil vezes, pude ouvir ela murmurar algo contra o pescoço dele. Meu coração deu um salto estranho, deixando minhas costas arrepiadas, embora não houvesse frio algum na sala. Cole olhou para mim nesse momento. Só por um segundo apenas, e aquele olhar..., me atravessou. Não havia como negar a ternura ali, mas também tinha outra coisa, um tipo de intensidade que eu não tinha como nomear.

— Ela gosta muito de você. — falei, mais para preencher o silêncio do que por necessidade e nem consegui esconder a surpresa na minha voz — Ela parece ter esperado o dia todo por você.

Ele me olhou então, sorriu de novo, dessa vez com os olhos e por um instante, apenas um instante, o mundo pareceu parar para mim. Seus olhos tingidos de verdes me prenderam como se tentassem me dizer algo que as palavras não alcançavam.

— Eu gosto muito dela também. E esperei o dia inteiro por isso. — respondeu com uma seriedade que não combinava com o tom leve da frase.

Cole voltou a se sentar na poltrona, com Hilary aninhada no colo dele como se aquele lugar sempre tivesse sido dela. Suas mãozinhas pequenas agarraram o cordão de couro que ele usava no pulso e resmungava sons e palavras meio desconexas que, ao que parecia, só ela entendia.

Hiwawy! Hil! — ela disse de repente, tocando o próprio peito e depois apontando para ele com um sorriso lindo — Cóu!

— Isso mesmo. — ele disse, a voz baixa e firme, mas carregada de um carinho difícil de ignorar — Hilary e Cole. Time forte, né?

Ela bateu palminhas desajeitadas e encostou a cabeça no peito dele completamente confortável. Eu assistia à cena com um misto de espanto e ternura. Hilary, apesar da pouca idade, sempre fora reservada com estranhos, assim como se manteve com os demais quileutes. Mas com ele..., havia algo diferente; talvez fosse o jeito dele. O calor que emanava do corpo dele, quase como um forno natural. Ou talvez fosse o silêncio confortável, a ausência de qualquer pressão. Cole não exigia nada, só estava presente para nós.

— Você sempre foi bom com crianças? — perguntei para abafar qualquer pensamento estranho que viesse na minha cabeça do que por real curiosidade. Mas parte de mim queria muito saber.

— Acho que elas só sabem quando a gente não quer machucar ninguém. — ele deu de ombros, um sorriso leve surgindo nos lábios.

Hilary olhou para mim, com seus olhos brilhantes, e apontou o dedo contra o peitoral dele com sua força.

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Mamãe, Cóu é meu amiguinho!

Meu coração apertou.

— É mesmo?! — perguntei, tentando não deixar a emoção subir.

Ela assentiu com tanta convicção que rimos os três. Hilary nos acompanhou no riso, enquanto ela brincava com a tira de couro no pulso de Cole. O calor do ambiente contrastava com o frio que costumava habitar minha memória. Ali, por um momento raro, havia uma paz que eu não sabia que podia existir, não era uma paz perfeita, mas era real. Um pedaço de algo que parecia quase familiar, quase certo para a minha vida.

Helena se mexeu levemente no meu colo e eu olhei para ela, depois, de volta para Hilary e Cole. Helena se espreguiçou como um gatinho, os bracinhos minúsculos se estendendo no ar. Seu olhar curioso vagava pelo ambiente até se fixar em Cole. Um segundo de pausa. Depois, um som suave escapou de sua boca: algo entre um murmúrio e um encantamento.

Ela o conhecia.

Ele não se mexeu. Apenas olhou para ela com uma suavidade incomum em alguém do tamanho dele, e então, quase imperceptivelmente, estendeu uma das mãos na direção dela, sem tocá-la. Apenas a presença, o gesto gentil, o convite.

Helena ergueu o rostinho na minha direção, depois de volta para ele. Os olhinhos claros pareciam acesos, e surpreendentemente, ela sorriu. Um sorriso inteiro, pequeno, mas com propósito.

Meu coração saltou no peito.

— Isso..., isso é novo. — murmurei emocionada — Ela raramente sorri para alguém daqui de primeira; nem pra mim foi assim.

Cole não disse nada, mas seu olhar, lindo e vibrante, estava preso nela como se o mundo inteiro coubesse ali. Hilary olhou para a irmã, depois para Cole.

A Bebê gosta do Cóu também. — disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Ela está crescendo rápido, parece mais forte desde a última vez que a vi. — Cole observou Helena por um momento, encantado.

— Está. — assenti, fazendo um leve carinho nos cabelos dela — Forte demais para alguém tão pequena, e crescendo mais rápido do que eu consigo entender. — sorri.

Cole riu baixinho, o som aqueceu a sala como um raio de sol atravessando as nuvens pesadas de Forks.

— E você parece melhor. — comentou. Elevei meus olhos, surpresa pela percepção — Mais... Você mesma. — ele desviou o olhar, como se lutasse contra um impulso de se aproximar mais, aprofundar mais.

Eu pensei antes de responder. A verdade era difícil de medir, mas...

— Um pouco. Tem dias... — respirei fundo, tomando coragem — Eu tenho tentado. É mais fácil aqui, com eles... Com você por perto. — confessei, sentindo-me envergonhada das vezes que neguei sua presença.

— Fico feliz por isso. —Cole assentiu, como se entendesse exatamente do que isso significava e abaixou o olhar, apertando levemente os dedos sobre os joelhos.

O observei por um momento. Seus cabelos escuros, desalinhados como se tivesse enfrentado uma ventania lá fora, os olhos verdes refletiam uma preocupação genuína...

Eu engoli em seco, sentindo as palavras se perderem na garganta. Algo que ultrapassava minha lógica, ou até mesmo explicações. Eu o encarei por uns segundos à mais do que deveria. A presença dele é tão diferente de tudo. Forte, mas tranquila. Intensa, mas sem me sufocar. Era como se minhas filhas, em sua pureza instintiva, enxergassem nele algo que eu ainda não conseguia nomear. E pior, ou melhor; era que, lá no fundo, uma parte de mim também enxergava e se perguntava: por que? Por que esse laço tão rápido, tão forte? Comigo..., com elas?

E o olhar de Cole, mesmo silencioso, parecia conter a resposta. Uma resposta que eu ainda não estava pronta pra entender.

Não ainda.

Mas naquele momento, quando ele se sentou no chão da sala com Hilary ainda em seus braços, enquanto eu ajeitava Helena no meu colo, com ela estendendo a mãozinha em direção a ele, algo dentro de mim se ajeitou também. Como se estivéssemos todos nos nossos devidos lugares, ainda que eu não soubesse explicar por que, pela primeira vez em muito tempo, eu senti que talvez..., não estivesse tão sozinha quanto pensava. E sentindo um impulso vindo de dentro, como uma necessidade, lembrei-me do dia em que estivemos sozinhos, de mãos dadas olhando a força gloriosa das águas do rio atrás da mansão. Desejei estar naquele mesmo lugar com ele. Pela primeira vez, em muito tempo, eu quis sair de dentro da mansão mais uma vez. Queria ir mais longe. Queria fazer isso ao lado dele. Sozinhos. Apenas nós dois.

— Cole... Eu posso te pedir uma coisa? — algo dentro de mim deu-me coragem para falar.

— Qualquer coisa. — concedeu.

— Pode me levar até o rio?

— O rio no fundo do terreno? — franziu o cenho, surpreso. Assenti.

— Eu o ouço da janela do quarto, mas... Quero estar lá, sentir o cheiro da água, o som, o vento... Preciso disso.

— Agora? — perguntou ele, olhando pela enorme parede de vidro, o céu nublado, típico de Forks.

— Agora. Eu sinto que..., preciso disso. — reforcei — Só por alguns minutos. Pode ser?

— É claro, eu te prometi. — ele se levantou de imediato, firme e calmo, os olhos atentos ao redor — Mas vai precisar pelo menos de um casaco. E... — olhou de Hilary, para Helena e falou com suavidade — Melhor deixá-las aqui com a Ness. — lembrou-me da existência dela quieta, bem ao meu lado — Muito frio para elas.

— Eu não iria deixar vocês a levarem, mesmo se quisessem. — ela emendou abaixo das palavras dele, estendendo suas mãos, ofertando seu colo para Helena.

— Certo... — dei minha filha para ela, e me pus em pé, ansiosa — Me espera? Só vou pedir ajuda para Esme rapidinho.

— Sempre. — disse ele, dando-me um olhar protetor.

E havia algo naquela palavra que ficou comigo mesmo quando eu saí. Subi as escadas sentindo uma leveza dentro do peito, contente por querer tocar a vida lá de fora e sorri. Um pequeno avanço de cada vez.

O caminho até o rio foi mais fácil do que eu imaginava. Não porque o chão estava mais leve ou o ar mais quente, o que com certeza não era. Mas porque ele estava ao meu lado. Eu caminhava ao lado de Cole envolta num casaco grosso emprestado por Esme. O som das folhas molhadas sob nossos pés, o cheiro húmido da floresta, o murmúrio constante do rio mais à frente. Tudo me parecia mais vivo do que eu me lembrava.

Cole andava devagar, respeitando o meu ritmo, atento a cada passo que eu dava; às vezes estendia a mão para afastar um galho do nosso caminho, em outras apenas me olhava de esguelha, como se certificasse se eu continuava ao seu lado. Ele não disse muito, mas o silêncio dele falava.

Quando chegamos, parei no limite seguro, que não era tão distante da margem. A água corria com força, um som hipnótico e calmante, clara e fria, contornando as pedras cobertas de musgo, a brisa gelada roçando meu rosto. Fechei os olhos por um momento e respirei fundo.

— Sinto como se o tempo voltasse a correr... Bem aqui. — digo em voz baixa. Cole permaneceu em silêncio, apenas ouvindo — Eu passei tanto tempo..., com um certo medo de sair da casa. Mas aqui, com você, eu não sinto medo.

Abri os olhos. Ele estava me olhando. Os olhos esverdeados mais intensos com a luz filtrada pelas árvores, me encaravam com algo à mais ali, uma tensão contida, um querer silencioso.

— Você não precisa ter medo, Lee. Nunca mais. Não enquanto eu estiver por perto. — ele se virou para mim, devagar. Os olhos verdes, me encararam com determinação e suavidade.

— Por que você faz isso? — perguntei com sinceridade — Porque está sempre aqui?

Ele ficou em silêncio. Parecia travado. Uma luta interna dançava nos olhos dele, como se houvesse uma resposta enorme querendo sair, mas ele a segurasse com todas as forças. E então, em vez de responder com palavras, ele simplesmente estendeu a mão, deixando-a aberta, esperando. Olhei para a sua mão: forte, quente, humana, e ainda assim, com uma energia que parecia antiga demais para um simples homem. E então olhei para ele, os olhos brilhavam, dizendo tudo o que a boca dele não dizia.

Devagar eu encostei meus dedos nos dele, até que se entrelaçassem. O toque foi como eletricidade... Não dolorosa, mas desperta... Quente. Viva. Como se algo dentro de mim despertasse, mas não de forma assustadora; era mais como familiaridade. Como se minha pele já o conhecesse.

Ali, à margem do rio com o barulho da água correndo com força moderada, todo o som restante do mundo ficou no mais mudo silêncio. As árvores e o restante pareciam conter a respiração, o movimento.

Cole não disse nada, não precisava, e mesmo que eu não conseguisse compreender claramente o que era aquilo, eu soube que era o começo de algo. Algo que eu não achava palavras para nomear, mas queria descobrir.

Com ele.

Eu não soltei a mão dele, e ele não tentou soltar a minha. O calor da pele dele era febril, estável e constante, não era o tipo de calor que queima.

Meu coração batia mais rápido, não como quando sinto medo, mas sim como quando estou prestes a fazer algo importante; como quando se pula de um lugar bem alto e ainda não se sabe se vai voar ou cair.

A minha mente dizia que era cedo demais para confiar em alguém, que eu ainda estava aprendendo a me reconhecer no espelho, a ser mãe de outra criança, a dormir sem pesadelos... Mas meu corpo, meu instinto, algo mais antigo dentro de mim, confiava plenamente nele.

E não era só pelo que ele faz, era por quem ele é quando está comigo. A paciência, a delicadeza, o jeito como ele não me tratava como frágil, e sim como alguém que está se reerguendo e não precisa ser apressada.

Senti meus olhos arderem, mas não ao ponto de me fazer chorar.

Eu olhei para ele, para aqueles olhos claros que me fitavam com mais verdade do que qualquer palavra, e percebi que, mesmo sem saber exatamente o que estava nascendo entre nós..., eu tinha a certeza de que não queria mesmo fugir disso. Talvez não fosse amor ainda. Mas era o início de alguma coisa; e era real.

— Você parece alguém em quem dá pra confiar. — comentei, meio sem pensar. Me senti estúpida, pois confio nele já faz um tempo — E eu não digo isso com facilidade, você realmente conseguiu conquistar minha confiança.

— Então, não confia com facilidade? — ele ergueu a sobrancelha, curioso.

— Não. — Balancei a cabeça — Depois de tudo o que me aconteceu... Depois do que eu perdi... — procurei por uma comparação — Eu aprendi que confiar é abrir uma porta. E... às vezes, quando você abre essa porta, alguém atravessa com uma faca escondida nas costas.

Cole ficou quieto por um momento, seus olhos de pálpebras puxadas estavam fixos em mim, intensos, mas sem pressão; como se ele estivesse realmente ouvindo, absorvendo cada palavra minha.

— Eu entendo isso, Lee. — disse, por fim — Às vezes a gente se fecha tanto para evitar a dor, que esquece como era viver antes dela. — ele mirou os olhos para frente, olhando o movimento ininterrupto das águas bravas que desciam majestosamente. A maneira como estava... me fez suspirar por dentro. Ele é um homem tão lindo. O admirei discretamente, e concordei com ele.

— Eu me fechei. Fechei por mim... e pela Hilary. Agora não tenho apenas uma, e sim duas filhas e não posso errar com elas. Não posso deixar alguém se aproximar se não tenho certeza de que é seguro. — meus olhos continuavam atentos à sua pessoa. Eu lhe falara a verdade. Pela primeira vez, sem armaduras, sem distrações.

— Isso é justo. — voz dele era firme, mas suave — Mas também... ninguém pode viver o tempo todo na trincheira, Lee. Uma hora ou outra, é preciso sair, nem que seja só para sentir o sol de novo.

Meus olhos se alarmaram, surpresa com a metáfora. Ela me atingiu de um jeito inesperado e familiar. Uma comparação íntima e familiar.

— Você fala como quem sabe o que é viver no escuro. — franzi as sobrancelhas, as pálpebras pesando sobre meus olhos.

— E sei. — sua resposta veio rápida, honesta — Vivi tempo demais tentando ser o que esperavam de mim. E no processo, deixei de ser quem eu era. De confiar no que eu queria de verdade.

Fiquei em silêncio por alguns segundos e passeei meus olhos na direção do rio, digerindo aquelas palavras. Não era fácil encontrar alguém que falasse sobre si sem máscaras. Que encarasse os próprios fantasmas de frente. Aquilo... mexia comigo.

— E agora? — perguntei com cautela — Quem você quer ser?

Ele virou o rosto na minha direção e, por um instante, achei que ele fosse dizer algo direto, intenso. Mas ele apenas elevou seus lábios num sorriso leve.

— Alguém em quem você possa confiar. Mesmo que leve tempo.

Meu peito apertou. Era tão simples... e tão difícil ao mesmo tempo. Continuei em silêncio por mais alguns segundos, o suficiente para pensar antes de falar qualquer besteira e estragar algo que mal havia começado a crescer dentro de mim. Eu não queria perdê-lo.

— Eu não prometo abrir a porta toda de uma vez. — minha voz saiu baixa, quase um sussurro — Mas talvez... eu possa deixar uma fresta.

— A fresta é tudo que eu preciso. — respondeu ele, com uma certeza tão serena que me deu arrepios. Pressionei meus lábios um no outro para impedir os indícios de um sorriso que queria aparecer.

Ficamos ali por mais um tempo, sem dizer nada, apenas apreciando o som das águas e dos pequenos animais à nossa volta. Minha mente não estava tão turbulenta mais, algo em mim começava a se rearrumar. Talvez confiança fosse mesmo assim: silenciosa, lenta, e nascida nos espaços entre as palavras.

Cole continuou ao meu lado, perto o bastante para que eu sentisse o calor constante que emanava dele. Havia algo reconfortante naquele silêncio compartilhado. Um tipo de presença que não exigia palavras à toa soltas ao vento. Minha mente vagava pelas cenas que vi; a interação dele com minhas filhas; se aquilo tivesse acontecido nas semanas passadas minha mente fragilizada me convenceria de que era impossível. Vinda dos meus sonhos. Irreal. Como se eu estivesse espiando uma vida que não era minha, pois era o meu maior desejo...

— Hilary... Ela nunca teve isso... — murmurei, sem realmente planejar dizer em voz alta.

— Isso o quê? — ele perguntou, a voz baixa, sem quebrar o clima calmo.

— Um pai. Uma figura..., masculina por perto. — olhei para ele. Eu engoli em seco — Eu me divorciei quando estava grávida, ainda não sabia. Ele nunca soube que ela existia. Nunca mais me procurou... e eu também não quis procurar por ele.

Cole não respondeu de imediato. E eu agradeci por isso. A maioria das pessoas apressaria uma resposta pronta, do tipo “sinto muito” ou “você acha que fez o certo?”. Mas ele apenas esperou.

— Às vezes eu me pergunto se fiz bem. — continuei, com meus olhos sobre ele — Mas no fundo, eu sabia que ela estaria melhor assim. Ele é um homem bom, mas não é alguém que veria nela o que eu vejo todos os dias.

— Ela tem você. E, honestamente..., ela tá muito bem. — Cole virou o rosto para mim. A maneira como ele mencionou minha filha, era como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo. Mas não era aquele olhar forçado, condescendente, era real. Profundo. Quase... paterno demais.

— Você tem um jeito com ela. Com as duas. — me corrigi. Suspirei. — Como se as conhecesse desde sempre.

Ele desviou o olhar por um segundo, um leve sorriso nos lábios.

— Talvez eu só tenha reconhecido algo nelas que... também existe em mim, Lee.

Aquilo me arrepiou. Não pela frase em si, mas pelo que parecia estar nas entrelinhas. Como se ele carregasse um tipo de dor, ou ausência, que ressoava com a nossa.

— Tem a ver com a sua família? — perguntei, mesmo sem saber se estava pronta para ouvir.

Ele hesitou. Quase imperceptível. Mas respondeu:

— Tenho a minha tribo. Tenho todo o amor e apoio da minha mãe. Mas meu pai... se foi há algum tempo.

A conversa desvaneceu num silêncio calmo outra vez. As palavras já ditas pairavam entre nós, como folhas flutuando num rio tranquilo. Eu senti algo dentro de mim se soltar um pouco.

— Obrigada por vir hoje. — falei, virando novamente o olhar para o rio, sentindo-me verdadeiramente grata pela presença dele. Me peguei sorrindo. Um sorriso involuntário, tímido, mas verdadeiro.

— Eu viria todos os dias, se você deixasse.

A mansão Cullen era absurdamente silenciosa à noite. Sem os barulhos típicos de uma casa comum como passos apressados, portas rangendo, vozes no corredor; o silêncio parecia mais vivo, mais presente. O silêncio ali era confortável, preenchido apenas pelo leve som das folhas ao vento do lado de fora.

Eu estava em outro quarto, Hilary dormia no meu colo, tranquila, o rosto sereno contra meu peito, iluminada pela penumbra suave do abajur. Eu me sentei com as pernas cruzadas na posição de lótus sobre o colchão macio, sentindo o tecido da colcha entre os dedos. Ainda conseguia sentir o cheiro das árvores do rio na pele.

E dele.

Cole.

Fechei os olhos por um instante, e me vi de novo sentada naquela pedra à beira do rio, com ele ao meu lado. Quieto. Presente. Um calor que não vinha do sol, mas da proximidade dele. Era como se o mundo se calasse quando ele estava por perto, mas de uma forma diferente do silêncio dos Cullen. O dele era... terreno. Quente. Palpável. E o jeito como ele me olhava, era como se me conhecesse. Como se esperasse por mim. Ele não me olhava com pena, nem com quaisquer resquícios de medo que pudesse ter.

Me levantei da cama com cuidado para colocar minha menina em seu berço, eu havia pedido para Esme me permitir ficar com os últimos minutos de sonolência da Hilary, apenas evitei de dizer-lhe que queria que eu fosse a última mulher que ela visse, antes de cair num sono profundo; meu coração se apertava a cada noite que eu tenho que me despedir dela. Era como se eu nunca tivesse a deixado por mais de um ano em seu próprio quarto quando morávamos em Casper; eu me acostumara rápido com a presença dela a dormir no mesmo quarto que eu aqui na mansão. Talvez essa mudança me doesse ainda mais se ela tivesse chegado a dormir na cama comigo.

Velei seu sono por um momento. Pela primeira vez em dias, ela parecia em paz. E eu também. E quando tive certezas de que ela não despertaria com minha ausência, eu saí do quarto deixando-a num sono profundo ali, e caminhei até o outro cômodo, onde Helena dormia tranquila num berço pesado de ferro bem adornado que ficava no quarto de Rosalie, encolhida como um botão de flor recém-aberto. Eu passei os dedos devagar por sua testa lisa, sentindo a respiração leve e ritmada que só os bebês conseguem manter, bater contra meu pulso. Eu a observava há algum tempo, com o coração ainda aquecido por aquela tranquilidade.

Helena dormia profundamente quando bateram à porta com um leve toque ritmado. Eu soube que era ela antes mesmo de responder.

— Entra, Ness. — permiti.

A porta se abriu devagar, e Renesmee apareceu com uma manta sobre os ombros e um sorriso suave, compreensivo demais para alguém tão jovem. Ela entrou devagar, com aquele andar silencioso que parecia herdado de todos os Cullen. O olhar dela foi direto para o berço, onde no exato segundo, Helena se mexera, só o bastante para soltar um resmungo sonolento. Ela caminhou até a cama e sentou-se na beirada sem dizer nada. Ela não precisava.

— Passei no quarto onde Hilary está. Pensei que ainda estivesse por lá... Ela está tão linda. — ela murmurou. — Cada vez mais parecida com você.

Sorri, mas minha mente ainda estava lá fora, à beira do rio. Ou talvez... nos olhos esverdeados de alguém que não saía da minha cabeça.

— Você quer falar sobre ele? — Nessie perguntou de repente, me surpreendendo com a pergunta certeira.

Assenti, com um sorriso pequeno.

— Você sabe, ele me levou até o rio hoje. — suspirei — Eu senti um desejo muito forte de pedir para ele me levar. — confessei, quase com culpa.

Renesmee esperou, sem apressar. Era isso que eu mais gostava nela. Ela ouvia de verdade.

— Não sei por quê. Só... parecia que eu precisava sair. Ver o mundo fora dessas janelas. E ele simplesmente disse “sempre”.

— Sim... E como foi lá? — ela me olhava com gentileza.

— Foi... bonito. — respirei fundo, tentando colocar em palavras o que ainda se acomodava no meu peito — Silencioso. Eu me senti viva de novo, Nessie. Pela primeira vez em muito tempo, não estava lembrando do passado. Nem me perguntando como vai ser o amanhã. Só existindo ali. Ao lado dele.

— Ele te faz sentir segura? — ela perguntou com cuidado.

— Sim. — respondi sem hesitar — É estranho, porque ele quase não tem falado. Mas é como se ele... me entendesse mais do que nunca. Como se não precisasse que eu explicasse nada. Eu não preciso me proteger perto dele. Isso... assusta.

— Isso parece coisa do Cole. — ela sorriu de canto — Não acho estranho. Acho que você reconheceu algo nele. — Renesmee sorriu, de um jeito calmo.

— O quê? — me inclinei, interessada na sua observação.

— Alguém que te vê pelo que você é, e não pelo que aconteceu com você, Amberli.

As palavras dela me acertaram em cheio. Desviei meus olhos, quando os senti lacrimejarem, mas eu segurei. Não queria chorar na frente dela de novo. Ela já tinha me visto em pedaços demais.

— Tem razão, ele não me olha como os outros. — confessei — Não tem pena. Nem tenta me consertar. Só... me vê. Nessie..., você acha que é errado eu sentir isso? Essa coisa que nem sei nomear?

— Claro que não. — ela respondeu, balançando a cabeça e pegando minha mão. A encarei — Isso é raro, Amberli. — disse ela com firmeza gentil — E poderoso. Depois de tudo que você passou, qualquer emoção pode parecer grande demais. Mas isso não quer dizer que seja errado. Só quer dizer que você está viva. E voltando a sentir.

— Você acha que ele sente alguma coisa por mim?

Ela hesitou. Não por falta de resposta, mas como se escolhesse cuidadosamente o que me falar.

— Eu acho que o Cole sente por você o que poucas pessoas nesse mundo já sentiram por alguém. — seus olhos me encararam profundamente — E não falo só de paixão. Tem algo mais antigo... mais profundo. Ele te respeita. E te admira. Isso, para alguém como ele, é muito mais forte do que qualquer impulso.

— E se eu estiver começando a sentir também? — minha voz saiu quase num sussurro.

Renesmee apertou minha mão suavemente.

— Então deixa acontecer. No seu tempo. Ele vai esperar. Ele é o tipo que espera.

Eu acreditei nela. Porque, no fundo, eu também sabia disso.

— Nessie...

— Sim?

— E se eu estiver com medo? — meus olhos arderam. Engoli em seco.

— Então ele vai caminhar ao seu lado. — ela sorriu com ternura — Um passo de cada vez. Até o medo virar amor. E o amor virar lar.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, minha mente fervilhando com tudo e nada ao mesmo tempo. Então eu disse, bem baixinho:

— Acho que... pela primeira vez..., eu quero isso. — suspirei, olhando para o berço onde Helena estava. Ela dormia como se nada no mundo pudesse atingi-la — Eu só não sei se estou pronta para sentir algo assim. — tentei soar convincente para mim mesma.

— Não precisa estar. — Renesmee disse com ternura — Mas também não precisa fugir. Você tem o direito de ter coisas boas, Amberli. O direito de ser feliz. De ser amada. De amar.

— Ele me olhou de um jeito... — engoli em seco, sentindo meu coração pulsar forte no peito — Nessie, era como se o mundo parasse de girar. E não foi só uma vez...

— Então você já está no caminho certo. É assim que começa. — ela sussurrou, e não explicou mais nada.

Eu não entendi exatamente o que ela quis dizer. Mas algo me dizia que ela sabia muito mais do que estava dizendo.

Eu ainda segurava a mão de Renesmee quando ouvi os passos ecoando no corredor. Eu me sentia mais leve, mas também mais vulnerável. Admitir que algo estava florescendo dentro de mim... me deixava exposta. E, de alguma forma, viva.

Um novo toque à porta interrompeu nosso silêncio. Dessa vez, mais firme, três batidas rápidas. Renesmee se levantou antes que eu respondesse.

— É a tia Rose. — ela disse em voz baixa, como se isso explicasse tudo.

A porta se abriu e com a elegância habitual ali estava ela: impecável, linda como uma escultura gloriosa, com sua presença marcante e beleza que quase doía de tão perfeita e com aquele ar que misturava nobreza e desconfiança. Os olhos dourados passaram rapidamente por mim, por Renesmee e, por fim, repousaram em Helena. Suavizaram-se ali.

— Só passei para ver como vocês estavam. — disse, sem rodeios, entrando no quarto com passos decididos, os saltos ecoando levemente no chão polido. Rosalie nunca enrolava muito para falar, cada palavra parecia calculada com precisão.

— Estávamos conversando. — respondeu Renesmee, como quem tentava suavizar a atmosfera.

— Estamos bem, Rose. — disse logo em seguida — Helena dormiu cedo hoje e isso me deu alguns minutinhos com Hilary.

Ela se aproximou do berço e se inclinou ligeiramente, observando Helena dormir com uma expressão que eu via com frequência vinda dela quando olhava para as meninas: ternura. Havia algo no jeito que ela olhava minha filha... um cuidado contido, quase reverente. Mas havia tensão em seus ombros. Como se estivesse medindo o ambiente... ou a mim.

Por um instante, o silêncio pareceu cheio de significados. Renesmee e eu trocamos um olhar apreensivo e confuso sobre a maneira que Rosalie estava se comportando, talvez para Nessie, isso fosse corriqueiro, mas para mim, não.

Rosalie virou o rosto devagar, voltando os olhos para mim. Algo em seu olhar mudara, a doçura que havia ali se dissolveu em seriedade e rigidez, mas havia também um brilho de... orgulho?

— Fiquei sabendo que você saiu hoje à tarde, Amberli. — disse. Não era uma pergunta.

Assenti, sentindo uma pontada de insegurança. Ela sabia.

— Fui até o rio. — respondi com calma — Cole me levou. Eu pedi pra ele me levar.

O nome dele ficou suspenso no ar por um instante. Rosalie ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada imediatamente. Apenas apertou levemente os lábios, como se engolisse algo que queria dizer em voz alta, mas se segurava por respeito, ou por causa de Renesmee, que a observava com atenção silenciosa. Ela moveu seu olhar para Renesmee, depois para mim. A tensão ficou mais nítida, mas não houve julgamento direto. Era algo mais... protetor.

— Você se sente segura com ele? — perguntou, direta como sempre, porém percebi sua voz suavizar em preocupação, como se não tivesse ouvido minha explicação — Você acha que ele é alguém com quem se pode respirar tranquila?

A pergunta me pegou de surpresa. Demorei um segundo para responder. Mas a verdade era clara para mim, respirei com tranquilidade e respondi com firmeza:

— Sim. Ele foi cuidadoso. Atencioso. Respeitou meus limites..., o tempo todo. E eu precisava sair. Respirar... Por que essa pergunta?

Rosalie desviou o olhar por um segundo, como se estivesse tentando conter algo. Quando voltou a me encarar, havia algo mais por trás dos olhos dourados.

Rosalie cruzou os braços, pareceu processar minhas palavras com cuidado. Seus olhos dourados tinham aquela intensidade que às vezes me fazia querer desviar o olhar. Mas eu sustentei. Rosalie me observou mais um momento. Então se aproximou, passando a mão levemente sobre meu cabelo.

— Só quero que você tenha cuidado. — disse, escolhendo cada palavra — Algumas pessoas... carregam dentro de si algo que você ainda não entende. Nem todo mundo aqui é o que parece ser.

Meu corpo gelou por dentro com a maneira como ela disse aquilo.

— Você está dizendo que ele é perigoso? Que ele fez algo de errado? — minhas sobrancelhas franziram.

— Não. Mas às vezes... certos laços se formam rápido demais. E isso pode ser confuso. Especialmente depois do que você passou.

— Tia Rose. — Renesmee advertiu com um leve tom de reprovação, mas ela nem piscou.

— Eu não estou dizendo que ele vai machucar você, Amberli. — continuou Rosalie, com seu o olhar dourado vidrado em mim — Ele nunca será capaz. O que eu estou dizendo é que você ainda está se curando. E esse processo te deixa..., vulnerável. É fácil se confundir quando se está vulnerável. Sensível. E você ainda está. Por mais forte que pareça agora. E às vezes, quando estamos assim, achamos que entendemos o outro. Mas nem sempre é verdade. Eu só não quero que tudo aconteça no momento errado.

— Ela é mais forte do que você pensa, tia Rose. — Renesmee se pronunciou com firmeza.

Rosalie manteve os olhos em mim, ignorando a sobrinha por um instante.

— Eu não estou duvidando disso. Só estou dizendo: vá com calma. Não entregue o seu coração antes de saber onde está pisando.

As palavras dela entraram como farpas. Mas havia algo por trás delas... não era desprezo. Era medo. Um tipo duro de preocupação.

— Eu sei disso, Rose. — respondi com calma — Não estou idealizando ninguém. Nem esperando que alguém me salve. Só estou tentando aprender a respirar de novo. E ele... me ajudou a fazer isso, hoje.

Rosalie pareceu surpresa com a firmeza contida na minha voz. Seus olhos me analisaram por um instante, como se me visse de um jeito novo. Ela não sorriu, mas seu semblante se suavizou um pouco.

— Eu só quero que você pense com a cabeça antes do coração, Amberli. — disse ela por fim — Porque seu coração... já foi machucado demais.

Eu respirei fundo e fiquei em silêncio, digerindo suas palavras. Havia algo mais ali. Algo que ela não estava dizendo. Não sabia o que ela estava tentando me dizer ao certo, parecia falar de algo maior, algo que eu ainda não via. Mas havia uma sinceridade ali que eu não podia ignorar. Mas eu apenas assenti, não querendo estragar o momento com minhas desconfianças.

— Eu sei que está tudo acontecendo muito depressa. — murmurei — Mas eu não estou me jogando de cabeça. Estou só..., sentindo. No meu tempo.

— Só lembre que tem gente aqui que se importa com você. Com vocês. Se ele... — ela parou, como se reconsiderasse o que diria — Se as coisas se tornarem difíceis, você não precisa lidar com isso sozinha. Não estou aqui pra julgar. Só pra proteger. Você é família. E elas também.

Um nó se formou na minha garganta. Rosalie não demonstrava tanto afeto com palavras, mas os gestos falavam por si. Ela era fogo contido. Mas que queimava por quem amava. Renesmee se aproximou um pouco mais dela, lentamente, pousando uma mão no ombro da tia.

— Ela não está sozinha, tia Rose. E ela sabe disso. — Rosalie assentiu, trocando olhares com a sobrinha, o que foi quase o equivalente a um abraço vindo dela.

— Obrigada, Rose. — sussurrei tocada por sua forma de demonstrar carinho.

Rosalie me olhou por mais um segundo, ela assentiu, como se isso bastasse. Seus olhos dourados pareciam conter chamas líquidas dentro das írises.

— Se precisar de mim, qualquer hora, estou por perto.

Ela se virou para sair com a mesma elegância com que entrou, deixando um rastro de silêncio pesado para trás. Da soleira da porta ela olhou para Renesmee e disse:

— Edward vai tocar piano daqui a pouco. Avise Esme, ela gosta de ouvir. — seus olhos dourados encontraram os castanhos dos meus — Se quiser descer, Esme vai gostar de ter companhia.

— Vou pensar. — respondi com um meio sorriso. E então saiu, tão silenciosa quanto entrou, mas deixando uma vibração densa no ar.

— Isso foi... suave, para os padrões da minha tia. — Renesmee soltou o ar lentamente.

— É... Ela me assusta às vezes. — confessei — Ainda bem que ela gosta de mim. — eu ri, um riso pequeno e cansado, mas sincero.

— Se ela não gostasse, não teria vindo. Ela realmente quer te proteger. —Renesmee sorriu. Se despediu de mim com um olhar cheio de carinho e saiu.

A porta se fechou devagar atrás dela e fiquei sozinha com minha filha novamente. O quarto estava calmo, mas minha mente não. Algo estava se formando, algo maior do que eu ainda entendia.

E todo mundo parecia saber disso, menos eu.

Fiquei ali, sentada, com o som suave da respiração de Helena adormecida me envolvendo. Seu corpinho virado de lado, com os cílios colados e o polegar encostado nos lábios. Mesmo em meio às diferenças, havia uma verdade inegável: naquela casa, apesar de tudo, eu era protegida. E isso incluía, agora, até mesmo meu coração.

Fiquei ali por um tempo, a observando. O som distante do piano aos poucos alcançava meus ouvidos como um eco sonhado. Aquele tipo de música que parece continuar mesmo depois que termina.

Deixei o quarto com cuidado, o som dos meus passos abafados pelo tapete espesso colocado no corredor. Desci as escadas devagar, os dedos escorregando pela madeira do corrimão frio e liso. Meus passos eram hesitantes sobre os degraus, e por um instante, me perguntei se eu mesma fazia parte daquele lugar ou se era só uma visitante tentando se encaixar numa rotina que nunca foi feita pra mim. Foi a música que me chamou. As notas do piano desciam como uma névoa pelas escadas, guiando meus passos até a sala que reservava o piano e fluía a música. A luz era morna ali dentro, escapando pela fresta do arco de entrada, mesmo tímida, adentrei. Esme estava sentada perto da janela, com uma manta de tricô repousando no colo, mais um gesto de carinho do que uma real necessidade. Quando me viu, sorriu com aquele jeito de quem sempre sabe acolher, e me convidou com um aceno de cabeça.

— Ela dormiu? — ela perguntou baixinho.

Assenti, me sentando ao lado dela no sofá verde escuro. A lareira próxima soltava um calor aconchegante, aquecendo minhas mãos frias. Por um instante, tudo o que fiz foi ouvir. Edward estava ao piano, os dedos dançando sobre as teclas com uma delicadeza que eu nunca conseguiria descrever em palavras. A melodia era conhecida..., eu já tinha ouvido antes. Era uma composição dele, cheia de saudade e beleza, como se ele estivesse contando uma história antiga, sem precisar dizer nada.

Bella estava sentada no chão ao lado dele, observando-o com um olhar que dizia mais do que qualquer declaração de amor. Como se quisesse guardar cada traço, cada som, cada gesto daquele momento.

— Ele sempre toca quando eu peço, antes dele partir. — Esme murmurou — Como se deixasse um pedaço dele aqui com a gente.

Só consegui assentir. Eu não queria falar. Tinha medo de quebrar a magia que pairava no ar, como uma névoa dourada. Tudo, as paredes, os móveis, o próprio chão, parecia ouvir Edward também. Tudo parecia respirar junto com a música. A canção ainda ia viver em mim por muitos dias, talvez até mais do que eu gostaria.

A melodia cessara, mas o silêncio que ficou era ainda mais cheio do que o som. Esme pôs-se em pé e caminhou para a entrada, Carlisle surgira ao lado dela, uma expressão serena, orgulhosa. Havia uma suavidade nos gestos dele, como se compreendesse que momentos assim precisavam ser sentidos, não apressados.

Me levantei do sofá vendo Edward fechando o tampo do piano. Seus olhos se voltaram para mim por um breve instante, e havia algo ali, um tipo de entendimento silencioso, como se ele soubesse que aquela noite tinha sido mais do que música para mim. Bella veio até mim com um sorriso gentil. Os olhos dourados dela refletiam uma paz que sempre me deixava com uma pontinha de inveja; não a inveja amarga, mas aquela que dói de leve, como um frio no peito. Acompanhei os passos dela para fora, parando próxima a uma das enormes janelas que Esme abria.

— Foi bom te ver aqui. — ela disse, num tom baixo, como quem respeita a presença de crianças dormindo no andar de cima — A casa parece mais viva com você e as meninas nela.

Assenti, sem saber exatamente o que dizer. As palavras vinham, mas todas pareciam pequenas demais. Então eu só disse:

— A música dele... foi bonita. Como sempre.

— Foi pra todos nós. Mas especialmente pra você. — ela respondeu sorrindo e tocou levemente meu braço.

Edward se aproximou com aquele andar silencioso de quem parece flutuar em vez de caminhar.

— Cuide bem dela. — disse, e não precisei perguntar se ele falava de Helena ou de mim.

— Eu vou. — prometi, mesmo sem saber se estava pronta pra isso.

Nos despedimos com abraços leves, como se o ar frio de Forks envolvesse a todos. Esme segurava a mão de Carlisle, e por um segundo, desejei ter aquilo. Aquela firmeza tranquila de um amor que não precisava ser dito. Depois que eles saíram por aquela fresta da enorme janela, a casa ficou estranhamente mais vazia. A música ainda parecia pairar nos cantos, mas agora havia só o crepitar discreto da lareira naquele cômodo. Voltei para a sala de música sozinha. Sentei no mesmo sofá onde estivera com Esme. Olhei para o piano, fechado, solene. O espaço parecia diferente. Ou talvez fosse só eu que tivesse mudado, um pouco mais cheia de silêncios, um pouco mais acordada para a ausência. Ajeitei as pernas no sofá, abracei meus joelhos. Lá fora, a chuva ainda caía. E no meu peito, a sensação de que algo havia se despedido de mim também, não apenas Edward e Bella. Algo meu. Algo que talvez eu estivesse, aos poucos, pronta para deixar ir.

Fiquei ali por longos minutos, talvez mais. O tempo parecia se diluir no silêncio. A casa tinha esse jeito estranho de me acolher e, ao mesmo tempo, de me lembrar que eu não era exatamente dali. Observei o piano. A tampa fechada. A madeira polida refletia os contornos trêmulos da luz da lareira, como se ainda guardasse o movimento dos dedos de Edward. Fechei os olhos por um momento e deixei que a melodia voltasse. Consegui ouvi-la de novo, como se ela estivesse dentro de mim agora, e não mais nos ecos da casa.

Lembrei da primeira vez que o vi tocar.

Foi pouco depois de eu praticamente renascer. Eu ainda estava quebrada demais para entender tudo ao meu redor. A música naquela noite me atingiu como um sussurro gentil, me tocou onde ninguém conseguia alcançar. Não era uma cura, não de verdade. Mas foi o primeiro momento em que eu me senti viva depois do trauma. Como se, por um segundo, algo dentro de mim tivesse voltado a respirar. Agora, sentada aqui, depois daquela despedida tão sutil, percebi que havia algo diferente. A tristeza ainda estava ali, mas ela tinha mudado de forma. Não era mais uma dor crua, cortante. Era uma ausência doce, carregada de saudade e reconhecimento. Algo como... um espaço vazio onde a esperança começa a crescer. Respirei fundo. O cheiro de madeira, chuva e lareira me envolveu. Eu estava criando raízes naquele lugar, mesmo sem perceber. Na rotina silenciosa, nos conselhos cuidadosos de Esme, na forma como Carlisle olhava Helena como se ela fosse uma dádiva. No jeito como Alice sempre aparecia com alguma roupinha fofa para Hilary, mesmo quando eu dizia que ela já tinha o suficiente. E até no olhar intenso de Cole, que às vezes me fazia esquecer onde eu estava. A verdade é que, mesmo sem querer... eu estava começando a me permitir.

Não só a amar a minha nova filha com tudo o que eu tinha. Mas a me perdoar também. A aceitar que a dor fez parte da minha história, mas que ela não precisava ser o fim dela.

A chuva engrossou lá fora. Vi os pingos escorrendo pelo vidro da janela, traçando caminhos aleatórios, como pensamentos que não se deixam controlar.

Helena estava lá em cima, dormindo. Eu ainda sentia a presença dela como uma extensão da minha. Um cordão invisível que me mantinha firme, mesmo quando tudo ao redor parecia escuro demais. Abracei meus joelhos com mais força e fechei os olhos de novo. Talvez a música de Edward tivesse mesmo sido um presente. Um lembrete de que até as dores mais profundas podem se transformar em beleza, se a gente tiver coragem de escutá-las até o fim.

Eu retornei para o quarto que abriga Helena. Não vi Rosalie e Emmett retornarem para cá e me senti confortável de ficar. A meia-luz do abajur dourava os contornos do quarto. Eu voltei para a cama, me enrolei melhor na minha manta e encostei a cabeça na cabeceira da cama, deixando os pensamentos voltarem..., para o rio. Para Cole.

Fechei os olhos.

Eu ainda sentia o toque da mão dele. O calor firme, os dedos entrelaçados com os meus. Tão natural. Como se estivéssemos nos reconhecendo, não nos conhecendo. Como se algo dentro de mim já soubesse quem ele era.

Suspirei. Longo. Profundo.

Ele não me forçou. Nunca forçou. Não falou sobre o que sentia, mas os olhos dele... aqueles olhos verdes falavam por ele. Eu via. Eu sentia. E mesmo que eu tentasse negar, não podia mais fugir da verdade simples: estar perto de Cole me fazia sentir segura. Inteira. Como uma nova vontade de viver.

Não era amor ainda, disso eu tinha certeza. Eu mal conseguia amar minha filha direito às vezes..., como amaria alguém? Mas havia algo crescendo. Um broto em meio à terra devastada que eu achava que nunca mais daria nada.

Coloquei a mão sobre o peito. O coração ainda batia rápido.

Me perguntei quando iria vê-lo de novo. Se ele também pensava em mim agora. Se estava deitado na sua cama, olhando o teto como eu, lembrando da margem do rio e do toque das nossas mãos.

Isso era loucura, não era?

Talvez eu estivesse carente. Carregando ainda os estilhaços do que fui. Talvez fosse o conforto de ter alguém que não me olhava com pena, nem com medo.

Mas por que Rosalie ficou tão tensa? O que ela quis dizer com “algumas pessoas carregam coisas que você ainda não entende”?

Ele esconde alguma coisa?

Ou todos aqui escondem?

Eu mordi o lábio, encarando o teto alto acima de mim. Essa casa era linda, gentil... e cercada por segredos. Não precisava de provas, eu sentia. Nos olhares trocados em silêncio, nas pausas longas nas conversas, nas coisas não ditas.

Mas não era só isso que me confundia.

Era o que eu sentia.

A forma como meu corpo respondeu à presença dele. Como meu peito apertava quando ele se afastava, e como tudo parecia certo quando ele estava ao alcance da minha respiração.

Eu não estava pronta para amar. Não de novo. Talvez nunca mais.

Mas alguma coisa dentro de mim, algo pequeno, tímido, mas insistente; estava florescendo.

Talvez ainda fosse cedo para dar nome.

Mas não era cedo demais pra sentir.

E naquele início da madrugada, com Helena dormindo no berço ao lado e os ecos da floresta abraçando a casa lá fora, eu finalmente admiti: Cole Uley mexia comigo de um jeito que ninguém mais conseguia.

E eu queria entender por quê.

Me deixei ficar ali, de olhos fechados, enquanto a chuva tamborilava contra as janelas. Sentia a humidade distante que parecia sempre envolver Forks como uma presença invisível. A casa toda respirava quietude. Pela primeira vez em muito tempo, eu também.

Até que veio o som.

Baixo. Quase tímido.

Mas, ainda assim, inconfundível.

Um choro.

Minha cabeça se ergueu num segundo. O coração disparou sem permissão. Não era um som qualquer, não um resmungo de sono, não era um resfriado engasgado. Era um choro de verdade. Agudo. Estranho. Vivo.

Helena.

Me levantei antes mesmo de perceber que estava de pé. O som da madeira sob meus pés ecoou no silêncio do cômodo, as mãos tremendo levemente e nem sabia por quê. Ela já tinha se mexido antes. Já havia resmungado, reclamado de fome ou do cobertor. Mas aquilo... aquilo era diferente. Me aproximei, a luz fraca do abajur banhava o berço em tons suaves, e ali estava ela, deitada de lado, as bochechas coradas, o rostinho franzido. E o choro. Tão pequeno e insistente que partia meu peito em duas metades.

Era a primeira vez que eu ouvia a voz da minha filha daquele jeito.

Não era só um som. Era um chamado.

Um chamado que eu não sabia se conseguiria responder.

Meus passos retrocederam, eu não consegui me aproximar mais, a escuridão amena do quarto pareceu pesar mais. Helena chorava dentro do berço, e eu..., eu não conseguia avançar, não conseguia me mover para lá.

Dei um passo para trás, depois outro, e outro. Retrocedi o suficiente para eu estar deitada na cama, mas não para dormir. Sentia o corpo quente de febre emocional, mas o coração frio. O choro da minha filha me cortava, mas ao mesmo tempo…, eu queria sumir. Queria desaparecer naquela cama e deixar de existir por alguns segundos. Só pra descansar de mim mesma, da minha fraqueza. Minhas lágrimas escorriam sem som. Eu queria me levantar. Queria pegá-la. Mas tudo dentro de mim gritava “Você não consegue!”.

A porta abriu com um rangido sutil.

— Amberli?

Era Esme.

— Eu ouvi o choro dela… — ela parou ao me ver — Ei…

Ela veio até mim sem esperar convite. Helena ainda chorava, cada vez mais alto, mas eu não tinha forças. Eu retrocedi.

— Eu não consigo, Esme… Eu… — minha voz saiu trêmula, embargada — Eu não consigo ser a mãe dela. Eu sou um erro ambulante. Ela merece mais...

Ela não disse nada de imediato. Foi até o berço, pegou Helena com delicadeza, a embalou contra o peito. O choro dela começou a diminuir quase instantaneamente. Voltou até mim e, com cuidado, se sentou ao meu lado na cama.

— Você não precisa ser perfeita, querida. Só precisa existir para ela, e para si mesma.

— Mas eu retrocedi, estou tão quebrada...

— Então deixa que eu te ajudo a colar os pedaços, minha querida. — ela sussurrou, os olhos dourados nos meus — Uma crise não apaga o quanto você tem tentado. Isso aqui... é só mais um capítulo. Não é o final.

Ela me estendeu Helena. Minha primeira reação foi recuar, mas quando olhei nos olhos da minha filha, vendo as lágrimas escorrerem de seus olhos, algo em mim cedeu, o medo e o amor, misturados.

Sentei na cama e me aproximei, com um cuidado quase reverente. Peguei-a dos braços de Esme para os meus. A pele dela estava quente, trêmula, tão viva. O choro cessou um pouco ao sentir meu colo, mas ainda vinha em soluços curtos, como se ela tentasse entender o mundo que a rodeava, e não gostasse muito do que via.

— Shhh..., mamãe está aqui... — murmurei, sentindo meu coração apertar mais do que eu podia suportar.

Ela encostou o rostinho no meu ombro.

E foi aí que entendi.

Eu a tinha gerado, a tinha alimentado, tinha assistido ela dormir e sorrir e se espreguiçar. Mas só agora, ouvindo seu choro, era como se algo se completasse dentro de mim. Como se fosse a primeira vez em que ela realmente falava comigo.

Não com palavras. Mas com tudo o que importava.

Abracei-a com mais força, balançando devagar. O choro foi ficando mais suave, até virar só um resmungo, depois silêncio de novo.

Eu encostei o rosto no topo da cabeça dela e fechei os olhos. Helena ainda cheirava a leite e algodão. A vida dela era um milagre que eu quase não conseguia compreender. Um milagre que chorava, que me chamava e que agora me tinha inteira. A música de Edward ainda estava em mim. Mas agora era o som do choro dela que ecoava no meu peito. Um som novo. Um som nosso. E ali, naquele quarto aquecido pela luz suave e pelo calor do meu corpo junto ao dela, percebi que não importava o que tivesse me trazido até aqui. Importava que agora, eu estava aqui. E ela também.

Juntas. No recomeço de tudo.

E eu… chorei por inteiro, com ela ali, sem me conter.

Esme não disse nada. Só ficou ali, ao meu lado, com uma das mãos nas minhas costas, como se dissesse: “Eu estou aqui para vocês.”.