Sempre ao seu Lado

56 𝟐𝟔 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶


Sempre ao Seu Lado

Capítulo 52

Caminhar de volta até a mansão foi estranho e delicioso ao mesmo tempo. O frio da tarde húmida ainda nos rodeava, entretanto o calor entre nós parecia um escudo invisível, uma bolha que nos isolava do resto do mundo. Nossos dedos ainda se entrelaçavam naturalmente, leves, como se aquele toque fosse o suficiente para comunicar tudo o que palavras não poderiam.

Eu sentia cada passo dele junto ao meu, o compasso exato do corpo dele, a respiração compartilhada, e ele com aquele ar pensativo de sempre, que me deixa querendo saber o que se passa dentro dele e cada instante parecia se alongar, se tornar eterno. A química não diminuíra, a atração estava mais intensa, mais palpável, quase elétrica.

A mansão começava a aparecer entre as árvores, com as luzes refletindo através das janelas grandes.

Por um instante, senti um calor no peito ao ver aquele lugar, inconscientemente apertei meus dedos entre os de Cole, juntando ainda mais meu corpo ao lado dele. Ergui meu rosto para olhá-lo brevemente, seria algo rápido, desapercebido, porém antes que eu pudesse desviar, ele olhou para baixo, encontrando meus olhos queimando sobre si. Um sorriso fechado puxou os cantos dos lábios dele e só desviei meu olhar pelo receio de tropeçar entre os musgos e raízes húmidas.

Continuamos a avançar ali no limite entre a floresta e a borda lateral do gramado dos fundos, parecia que o mundo se resumia a nós dois e ao ar frio que misturava nossas respirações. Quando o início do jardim da mansão apareceu por completo, as janelas pareciam brilhar com uma luz dourada suave que faz a casa parecer bem frequentada. Eu sentia o coração leve, como se cada passo naquela grama húmida fosse um sinal silencioso de que, talvez, eu começasse a pertencer ali. A certeza se firmava aos poucos, mas ainda assim, eu sei que levaria um tempo para ser concreta.

Cole ao meu lado permanecia em silêncio, mas aquele tipo de silêncio que não oprime. As mãos dele estavam em mim, o olhar tranquilo, porém atento, como se cada detalhe ao redor importasse. Avançamos pela lateral indo direto para a varanda da frente, Renesmee estava sentada no degrau mais alto, com uma caneca nas mãos e o cabelo cacheado preso de qualquer jeito. Jacob, recostado no parapeito, a observava com um meio sorriso preguiçoso.

Assim que nos viram, o olhar de Renesmee mudou, não por surpresa, mas por entendimento. Ela entendeu antes mesmo de dizermos qualquer coisa.

— Vocês demoraram, hein? — disse ela, a voz leve, mas com um brilho curioso.

Cole deu de ombros, rindo baixinho.

— Foram vocês que se ofereceram para ficar com as meninas, e fomos andar um pouco. E obrigado. Eu precisava esticar as pernas depois daquela maratona de peru e sobremesas.

Jacob soltou uma risada curta.

— Ou talvez precisasse mesmo bater um papo. — provocou, arqueando uma sobrancelha.

Cole não respondeu. Apenas cruzou o olhar com ele e balançou a cabeça, sorrindo de canto. Era como se não precisasse explicar nada e isso, por si só, já dizia tudo. Eu parei alguns degraus antes da porta, ajeitando uma mecha de cabelo para trás. Renesmee se levantou, se aproximando com aquele olhar gritante em doçura, mas perspicaz demais para ser inocente.

— Tá com uma expressão diferente... — sondou ela, baixinho, quase como se fosse uma constatação e não uma dúvida.

— Diferente? — perguntei, sem conseguir disfarçar o sorriso involuntário.

— É. — ela inclinou a cabeça, avaliando — Mais leve, genuinamente feliz. Não que você estava triste antes, mas...

Jacob deu uma risada breve.

— Acontece quando começam a se acostumar com a chuva daqui, Ness. Ou quando as raízes quileutes se aprofundam em outras terras. — disse, em tom neutro, mas com um olhar rápido para Cole.

Cole ignorou o comentário, focando em mim.

— Eu disse que Forks tinha esse efeito. — falou com simplicidade, mas com algo escondido na voz.

O olhar dele ficou em mim por tempo demais. Tempo suficiente para que Renesmee notasse. Ela desviou, disfarçando com um sorriso, mas Jacob, que percebia o que os outros tentavam esconder, apenas ergueu uma sobrancelha de modo sugestivo e segurou a língua. Renesmee foi a primeira a quebrar o clima.

— Vem, Amberli! — ela tocou meu braço de leve — Esme separou uma torta pra você. Disse que queria garantir que você ainda comesse alguma coisa de ceia antes que o Jake e o tio Emm acabassem com o resto.

— Ei! — protestou Jacob, rindo — Eu nem toquei na torta dela.

Cole riu baixo, me acompanhando até a porta. O calor da casa me envolveu no instante que eu entrei, e por um segundo, o contraste entre o vento frio húmido da floresta lá de fora e o aconchego do interior me fez suspirar. Renesmee me puxou levemente pelo braço, sorrindo com cumplicidade.

Jacob observava em silêncio, o olhar calmo, mas cheio de compreensão, o mesmo olhar de quem já viveu o que estava começando ali. E antes de me afastar, percebi que Cole ainda me acompanhava com os olhos, como se cada movimento meu fosse importante. Era sutil, quase imperceptível, mas ainda assim eu flagrei. Traguei uma respiração longa e calma; para mim, nosso retorno não era apenas físico, era o começo de algo novo, mesmo que nenhum dos dois tivesse nomeado o que era, ainda. Mas algo entre nós havia mudado e todos naquele espaço pareciam ter percebido, mesmo sem ninguém dizer uma palavra.

Os degraus sob meus pés rangiam de leve, como se também absorvessem a humidade fria que vinha da floresta, misturado ao cheiro sutil de madeira encerada e lavanda. Renesmee subia à frente, leve, algumas mechas do cabelo castanho-avermelhado oscilando sobre os ombros, com um brilho travesso gritante nos olhos que anunciava alguma ideia inesperada. Jacob vinha logo atrás, as mãos nos bolsos e o olhar paciente de quem já se acostumou a ser arrastado pelas vontades dela.

Eu e Cole vínhamos por último. O som dos passos dele era firme, ritmado, quase compassado ao meu. Havia algo estranho, ou talvez, inevitável naquela sincronia entre nós, como se cada passo ecoasse um pouco do que havia ficado na floresta: o beijo, o toque leve, o olhar dele preso em mim.

Renesmee virou-se no topo da escada, sorrindo com um ar provocador.

— Vocês dois estão sérios demais! — disse, cruzando os braços — Acho que a gente devia resolver isso com um desafio justo.

— Que tipo de desafio? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

— Videogame! — ela respondeu, como se fosse óbvio — Temos um novo. Tio Emm trouxe de Seattle na semana passada!

Jacob soltou um riso abafado. Cole apertou minha mão na solene troca de passos, e eu respondi com um sorriso que misturava bom-humor e abertura. Jacob rosnou um “é claro” divertido, e Emmett, em algum canto, bateu palmas e assobiou alto sem nem precisar entender direito.

— Você só quer se exibir, Renesmee! — replicou Jacob.

— Ou talvez eu só queira ver vocês tentando! — ela rebateu, sorrindo — Vamos, vamos! — disse ela, dando um gritinho animado sabendo que convenceu — Reunião de família: partida de videogame. Todos!

Cole deu uma risada baixa, o som me atravessou sem pedir permissão.

— Isso soa como provocação. — disse ele.

— É exatamente isso! — respondeu ela, piscando.

Quando entramos na sala, o ambiente ainda vibrava com os últimos ecos de risada, o céu lá fora já deixava passar um brilho prateado através das grandes janelas numa luz fria e suave, refletida nos móveis. As paredes pareciam evocar aquela penumbra elegante da mansão. Foi então que percebi Rosalie no sofá, um pouco afastada do centro da sala, a postura elegante de sempre, mas o semblante suave, quase maternal. Hilary dormia encolhida em seu colo, o rostinho apoiado no braço dela, completamente rendida ao sono. Ao lado, Helena estava deitada, o corpinho imóvel, a pele pálida refletindo o brilho fraco de projeções. Rosalie mantinha uma das mãos sobre a perna da bebê, num gesto instintivo de proteção.

A cena me atingiu como um retrato emoldurado em quietude.

Naquele instante, tudo ao redor se dissolveu, as risadas de Renesmee, o humor levemente ácido de Jacob, até o toque quente da presença de Cole perto de mim. Só existiam elas na minha vista. As três.

Cole cruzou o olhar comigo, e percebi que ele também havia notado. Renesmee se aproximou devagar, sorrindo para Rosalie, que apenas levou um dedo aos lábios, pedindo silêncio. No canto da parede estava a lareira ainda acesa, a mesa baixa com decorações e no centro, uma estrutura moderna ocupava o espaço, um tabuleiro translúcido com hologramas flutuantes e visores transparentes ultraleves repousavam ao lado como máscaras transparentes prontas para ganhar vida; pareciam coisas que minha mãe surtaria para postar nas suas redes sociais e gravar um unboxing exclusivo.

Renesmee caminhou até o painel e tocou nele com a ponta dos dedos. As luzes se acenderam, mudando de tom conforme ela ajustava as configurações. Suas mãos se moveram sobre algumas coisas ao redor, até agrupar os consoles, não um aparelho tradicional, mas um núcleo compacto em vidro e metal fosco, do qual saía uma tela volumétrica de baixa opacidade. Renesmee já estava com os olhos brilhando quando começou a explicar, com um entusiasmo que transformava a tecnologia em festa.

— É novo. Chama-se Aetherbound: Cartografias de Tethys. É mais que um jogo, é um ecossistema compartilhado. Querem ver o que ele faz?

Me aproximei só um tantinho à mais, trazendo Cole junto comigo. Ela tocou uma superfície sensível na beirada do núcleo e a sala se encheu de uma luz que parecia scanear o ambiente e se adequar. Um campo volumétrico projetou uma cena em miniatura acima do console: uma ilha flutuante coberta por florestas bioluminescentes, rios que brilhavam como veias de âmbar e criaturas translúcidas que nadavam no ar como peixes em água suspensa. Mesmo em miniatura, era impossível não sentir a escala. “Minha mãe iria surtar com um desses”, pensei olhando detalhadamente.

— Aetherbound usa renderização volumétrica fotorrealista com física de partículas em tempo real! — ela começou a detalhar, e eu deixei que a descrição viesse na minha mente conforme ela apontava — Em vez de telas planas, usa campos holográficos que se moldam ao espaço da sala. Você enxerga o mundo do jogo integrado ao ambiente físico, sem óculos grossos, com lentes de contato opticamente acopladas se quiser nada intrusivo. A interface é sensorial: não é só ver, é sentir, com um sistema de feedback tátil que usa um conjunto de “micro-camadas” na roupa, não exoesqueleto pesado, algo parecido com uma luva e uma faixa de torso feitas de tecido inteligente que reproduz pressão, vibração e mudanças térmicas de forma localizada.

Ela me estendeu uma luva de tecido leve cortado à laser e circulou a projeção com a mão e o mapa respondeu, dobrando-se como se fosse água. Minha sobrancelha se arqueou. Fascinante!

— A jogabilidade é cooperativa e narrativa, — continuou — cada sessão altera o ecossistema persistente do servidor compartilhado. Os integrantes dos grupos são “Cartógrafos”: plantam espécies, restauram habitats, resgatam memórias climáticas. As escolhas têm consequência real: espécies adaptam-se às ações dos jogadores, arquiteturas naturais mutam e comunidades de NPCs, geridas por Inteligências Artificiais com memória longa reagirão ao histórico do seu clã. Não é só salvar coisas, é conviver com o que você salva.

Renesmee apontou para uma pequena criatura que desabrochou como uma flor e flutuou para perto de Helena, visível na projeção.

— As IAs dos NPCs usam aprendizado contínuo e modelos de personalidade que mantêm coerência narrativa. — completou com um entusiasmo esmagador que só minha mãe teria como combater — Elas lembram das suas decisões. Além disso, há um módulo emocional: o jogo lê sinais biométricos, que é os batimentos, micropausas na fala, padrões de respiração. Sempre com consentimento e limite seguro para ajustar a intensidade das cenas. Se alguém estiver emocionalmente carregado, o jogo suaviza as sequências. E pasmem, tem segurança emocional embutida!

Jacob, com o jeito prático, cutucou Renesmee.

— E dá pra jogar sem essa parafernália toda? Tipo, sentar no sofá e apertar um botão?

— Dá, Jake! — Renesmee respondeu — O núcleo tem modos. Do “imersivo total” à “mesa familiar”. Hoje a gente faz no modo híbrido: projeção volumétrica, feedback tátil leve e trilha espacial. Tem também difusores ambientais que simulam temperatura, humidade e aromas de forma sutil; acreditam que ele consegue elaborar um suspiro de pinho ou o sal marinho quando alguém vai pra costa?! — apontou — Tudo calibrado para não sobrecarregar os sentidos. Principalmente humanos, é claro!

Cole olhou para mim, os olhos brilhando com curiosidade.

— E a história? — ele perguntou, baixinho, o olhar pedindo para que eu aprovasse junto.

Renesmee sorriu, mesmo que animada para destrinchar os detalhes a pedido de Cole, acredito que ela os revelaria mesmo assim.

— A narrativa é gerada em camadas. — ela continuou — Há um arco central que é sobre a restauração de Tethys, uma megaplataforma oceânica que falhou e centenas de micro-histórias emergentes. Missões são cooperativas e pensadas para vários ritmos: vamos pegar que a Amberli pode ser uma Cartógrafa cuidadosa que planta florestas inteiras, ou uma guardiã que negocia com tribos digitais. E há modos para crianças e ajudas automáticas para integração intergeracional, por isso é ótimo pra família.

Ela repassou, feliz, como se descrevesse algo ao mesmo tempo técnico e profundamente poético:

— Visualmente, usam a “tesselação de luz”, os polígonos são substituídos por camadas de luz que reconstroem volumes com emissões diretas; sombras são físicas e interativas. Isso possibilita uma sensação de profundidade tátil quando as coisas tocam a projeção. O som é espacial, com áudio passivo-reativo: o ambiente responde à proximidade dos jogadores, e há uma orquestra procedural que muda conforme as decisões morais do grupo.

Alice, que entrou na sala nesse momento, com uma expressão feliz, se manifestou:

— E os avatares? — perguntou ela, como se já estivesse escolhendo uma skin — São só humanos?

— Não! — disse Renesmee, rindo — Você pode escolher corpo humano, híbrido, o mais interessante: "Eco-Forma", uma versão de si que se adapta ao ambiente, pode ter asas para florestas aéreas, nadadeiras para zonas subaquáticas. O jogo incentiva empatia: para interagir com certas espécies você precisa assumir perspectivas diferentes.

Renesmee tocou outra vez a projeção, se voltou na direção do painel e tocou nele com a ponta dos dedos. As luzes se acenderam, mudando de tom conforme ela ajustava as configurações e um outro menu sutil se abriu, exibindo “Sessão: Família Cullen + Amigos — Modo Híbrido”. Ela selecionou com um gesto fluido e a cena expandiu, mostrando objetivos cooperativos: restaurar um estuário, negociar com uma colônia de seres luminescentes, proteger um ninho de “safira-marinha”.

— Tem também um módulo ético. — disse ela, com seriedade que contrastava com sua empolgação — Decisões comprometidas por votação do grupo, assessoria botânica automática para evitar intervenções prejudiciais, e um “tempo de reflexão” que impede ações impulsivas que rasgam ecossistemas. E tudo é auditável, cada mudança tem registro para que futuras gerações virtuais entendam por que aquilo aconteceu.

Eu fiquei olhando, absorvendo a imagem do mundo projetado, a promessa de jogar algo que ao mesmo tempo entretém e provoca cuidado. Cole apertou minha mão com um leve sorriso no canto do lábio, os olhos claros atentos à minha reação.

— Quer jogar? — ele perguntou.

Eu respirei fundo e respondi:

— Quero.

Renesmee deu um pulo de vitória, enquanto Alice já procurava o controle adaptativo. Senti Nessie me olhar com aquele brilho cúmplice. Helena riu, batendo palminhas num reflexo de luz, Jacob soltou um “vamos ver do que você é capaz, Amberli” com o tom de quem provoca por carinho e resmungou algo entre uma risada e um suspiro.

— Você só quer mostrar que é imbatível nesse troço, não é, Ness?

Renesmee deu de ombros, divertida.

— Ou talvez eu só queira mesmo ver vocês tentando. Vamos lá. Times mistos, pra ficar interessante... — disse, olhando de relance para mim, com um sorriso quase conspiratório — Duplas! Eu e o Jake de um lado. Vocês dois do outro. — anunciou, com um sorriso de quem já sabia exatamente o que estava fazendo.

Olhei para Cole. Ele me devolveu o olhar, um simples segundo que pareceu muito mais longo do que deveria. Um acordo silencioso. Uma faísca de cumplicidade que não precisava de palavras.

— Está bem, Nessie! — ri, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha — Mas não reclame quando eu te derrotar!

Ela gargalhou, já posicionando o visor no rosto.

— Quero ver você tentar!

Quando o jogo começou, a sala inteira se transformou diante dos meus olhos, a projeção expandiu-se e as luzes da sala se ajustaram para a cena de abertura. O ar da sala se dissolveu devagar.

Um campo de luz azulada envolveu nossos corpos e, de repente, a textura do sofá, o calor da lareira e o cheiro leve de pinho se fundiram em uma transição quase imperceptível. O chão se transformou em areia prateada, e o teto, em um céu coberto por nuvens transparentes como véus que deixavam a claridade atravessar, lembrando o céu de Forks, só que com uma angulação própria. O mundo de Aetherbound parecia vivo, pulsando com cada movimento, e o som parecia vir de todos os lados, como se o próprio mundo digital respirasse junto conosco.

As folhas nasciam diante dos nossos olhos, crescendo em tempo real, obedecendo à física do vento e da luz.

As cores não eram cores comuns, tinham profundidade, textura, uma espécie de pulsação que eu sentia na pele, como se cada partícula do ar estivesse alinhada com os batimentos do meu coração.

Ao meu redor, entre rostos amados e vozes conhecidas, o universo de Aetherbound enchia o ar, convidando-nos a entrar, a tocar, a cuidar. Os hologramas projetavam florestas suspensas e cidades futuristas que pareciam reais demais. A sensação era quase física, eu podia sentir a vibração do ar, o calor do sistema ao redor de nós. No começo, eu me atrapalhei, rindo de mim mesma enquanto tentava entender as dinâmicas do jogo. Mas Cole, ao meu lado, parecia prever cada erro meu antes mesmo que eu o cometesse. Era quase como dançar, ele guiava com precisão, eu seguia instintivamente aprimorando os detalhes, e juntos formávamos uma sintonia inesperada. Enquanto a disputa se desenrolava, entre risadas e provocações, percebi algo que não tinha sentido fazia muito tempo: leveza em conjunto. A sensação de estar exatamente onde eu devia estar.

E, por um instante, olhando de relance para Cole, concentrado, mas com aquele sorriso pequeno que se formava no canto da boca, eu soube que não importava quem vencesse o jogo. Estar ali, rindo, vivendo, era a maior vitória que eu já tinha tido em meses.

Renesmee era rápida, os reflexos dela beiravam o impossível, o que não era surpresa nenhuma. Jacob só ria, fingindo que ajudava, enquanto ela praticamente fazia tudo sozinha. Cole, por outro lado, jogava com uma calma calculada, aquela paciência estratégica de quem entende o ritmo do adversário antes de atacar. Eu tentava acompanhá-lo, mas o sistema reagia com tanta precisão às emoções que, às vezes, eu me via travando os comandos por pura distração. Cole puxou-me um pouco para mais perto, e era quase impossível manter a mente focada quando ele se inclinava ligeiramente para me orientar, a voz rouca roçando perto do meu ouvido.

— Então, cartógrafa, — murmurou Cole, com um sorriso — como você vai pintar seu primeiro pedaço de Tethys?

Sorri de volta, sentindo a certeza de que, por hoje, pertencer era também experimentar o novo e que, lá fora, naquelas ilhas de luz, nós criaríamos algo que perduraria.

Cole caminhava um passo à frente. Seu avatar era uma versão dele mesmo, mas havia algo diferente, uma camada de energia âmbar contornava suas mãos, como se o jogo tivesse reconhecido sua força real e moldado isso em luz. Jacob, ao lado, já estava transformado em uma espécie de guardião de cristais, com marcas prateadas nas têmporas e nas mãos, e Renesmee, com olhos translúcidos, parecia a própria guardiã do mundo.

— Isso é inacreditável… — murmurei, a voz saindo mais leve, quase soprada, porque mesmo dentro do jogo parecia ecoar de um lugar mais profundo.

Renesmee sorriu, girando sobre si.

— Viu? Aqui você consegue sentir! Não só ver!

E era verdade: o vento virtual trazia o cheiro salgado do mar distante, e quando passei os dedos por uma planta azulada, senti um leve calor percorrer o braço como um cumprimento do próprio ambiente. Jacob, sempre competitivo, já corria para o alto de uma duna holográfica, tentando capturar uma criatura feita de cristal líquido. Nessie, com elegância impossível, fazia as flores desabrocharem só de passar a mão por elas.

Carlisle e Esme surgiram ali e observavam de perto, como pais assistindo filhos brincarem com a própria criação, e havia algo tão humano, tão sereno naquele gesto deles, que meu peito se apertou.

Cole virou-se para mim, os olhos agora refletindo aquele azul profundo do mundo digital.

— Está tudo bem? — perguntou.

Assenti, mas ele não acreditou de imediato. Deu um passo mais perto. A proximidade dele, mesmo aqui, nesse espaço entre real e imersivo me desestabilizava. O jogo traduzia pequenas emoções em pequenas reações físicas, e percebi a luz âmbar em torno dele vibrar quando nossos olhares se encontraram.

Renesmee, percebendo sem olhar, disse animada:

— Vamos começar pelo estuário! A primeira missão definitiva é restaurar o equilíbrio das águas!

O chão diante de nós se abriu em um rio largo e translúcido. Havia organismos luminosos sob a superfície, e a correnteza reagia às nossas presenças, quando toquei a água, ela respondeu, as ondas desenharam formas que pareciam letras, só que indecifráveis. Cole se ajoelhou ao meu lado, também tocando o rio.

— O jogo reconhece o padrão energético dos jogadores. — explicou Renesmee, a voz ecoando suavemente — Ele combina afinidades. Vocês dois criaram harmonia de fluxo!

— Afinidades… — murmurei, um pouco sem saber como reagir.

— Viu só? O jogo é inteligente. — Cole riu baixo.

Mas quando ele disse isso, o sorriso foi outro, não de brincadeira, havia algo de real, de íntimo, por trás daquela palavra, como se o sistema apenas tivesse revelado o que nós já sabíamos sem dizer. Sinistro.

As águas começaram a clarear, como se nossas mãos tivessem dissolvido impurezas invisíveis. O reflexo das nuvens sobre a superfície formou um brilho dourado. O som das marés era tão verossímil que eu quase esqueci estar sentada numa sala em Forks. Renesmee vibrou, girando com entusiasmo:

— Funcionou! Vocês estabilizaram o primeiro ponto da rede fluvial!

O ambiente reagiu em festa: pássaros de luz cruzaram o céu e flores se abriram sob nossos pés. O riso de Helena se misturou com o som da brisa virtual, e por um segundo, tudo pareceu conectado. Um retrato impossível, mas verdadeiro. Cole se virou lentamente, a luz do jogo desenhando seu rosto de modo que era impossível distingui-lo do real.

— Sabe, — disse ele, com voz baixa — eu acho que esse mundo aqui tá entendendo a gente melhor do que o mundo de fora.

Eu o encarei, o peito apertando de um jeito doce e dolorido.

— Talvez… porque aqui nossa energia não consegue fingir.

Ele sorriu, e por um instante, as linhas entre o holograma e o humano desapareceram. Não havia mais fronteiras, nem entre o real e o digital, nem entre o que eu sentia e o que ainda tinha medo de sentir. O vento irreal soprou, leve, e percebi que o rio refletia não só o céu, mas também o brilho âmbar das nossas mãos entrelaçadas.

— Respira, Lee… — murmurou ele, em um tom baixo, quase íntimo, tocando a luva envolta na minha mão — Esse negócio do jogo lê seus batimentos. Se seu coração disparar, ele desacelera sua resposta.

Sorri, nervosa.

— Então acho que já perdi.

Ele soltou um riso breve.

— Ainda não. — e, sem tirar os olhos do visor, acrescentou — Mas está perto.

Renesmee bufou, rindo.

— Vocês estão conspirando aí ou só se distraindo um com o outro?

Jacob gargalhou logo após exclamar algo em outra língua.

— Estratégia, é? — ele riu ainda mais alto — Porque parece mais um time em clima de lua de mel.

Senti o calor subir pelo pescoço, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, o sistema projetou uma rajada de luz, o sinal de que a partida estava quase no fim. Continuamos frenéticos, as cores dançavam ao redor de nós em tons de dourado, azul, vermelho. As projeções reagiam aos movimentos dos nossos corpos, às expressões, aos impulsos involuntários. Era quase como estar dentro de um sonho controlado, uma guerra de mundos flutuantes onde as emoções moldavam a realidade.

Renesmee ria alto, debochada, enquanto Jacob fingia indignação a cada jogada perfeita nossa. Em poucos minutos, a disputa virou pura diversão, cheia de provocações leves, pequenas vitórias e olhares cúmplices que pareciam durar um segundo a mais do que deviam. Quando o jogo terminou, uma onda luminosa atravessou a sala, e o placar holográfico piscou diante de nós, vibrando em tons dourados:

Vitória — Equipe Lee/Cole”.

Por um segundo, fiquei parada, piscando sem reação, tentando processar o que tinha acabado de acontecer e então ouvi a risada de Cole, tão genuína e contagiante que não consegui conter a minha.

— A gente ganhou! — exclamei, mais alto do que pretendia, virando para ele com um misto de surpresa e empolgação, o riso escapando — Você viu isso?!

— Eu te disse que dava pra virar o jogo! — respondeu, com aquele sorriso que parece entender mais do que mostra.

— Você me disse pra pensar antes de atacar!... — retruquei, rindo — Eu pensei. E quase destruí a gente junto!

— Quase, Lee. — ele corrigiu, ainda sorrindo — Mas eu estava ali pra te cobrir. Eu disse que dava pra virar! — ele soltou uma risada curta, incrédula, quase orgulhosa.

O jeito que ele disse “ali pra te cobrir” fez meu coração dar um salto. E, por um instante, a linha entre jogo e realidade ficou confusa demais. Antes que eu pensasse em qualquer resposta, a euforia me dominou. E, sem planejar, simplesmente fui até ele, os pés se movendo sozinhos e o abracei. Senti o peito dele contra o meu corpo, o calor absurdo atravessando as camadas de roupa, o som abafado do riso dele próximo ao meu ouvido. Ele retribuiu o abraço de imediato, forte, seguro, como se aquele gesto fosse algo natural entre nós.

— Isso foi incrível! — comemorei, ainda sem soltar — Eu achei que ia errar tudo na última jogada!

— Eu sabia que não. — ele respondeu, num tom calmo demais pra um coração disparado dentro do peito.

O jeito que ele falou… não era sobre o jogo. E eu senti isso. Quando me afastei, minhas mãos ainda estavam presas ao tecido da blusa dele, percebi tarde demais. Ele olhou para mim com aquele sorriso de canto que faz o tempo desacelerar.

Renesmee tossiu de propósito, e Jacob soltou um “ihh…” debochado. Eu ri, nervosa, mas não desgrudei o olhar de Cole. Jacob soltou um som fingindo rendição, as mãos levantadas.

— Ok, vocês dois. Vitória merecida. Mas não se acostumem!

— Boa partida, parceira. — Cole disse, levantando a mão num gesto rápido de comemoração, e eu bati a minha contra a dele, mas ele acabou segurando, sem soltar.

O toque foi firme e quente demais para o tanto de luz que ainda piscava ao redor e o choque leve que percorreu meus dedos me fez prender o fôlego. Jacob resmungou algo sobre trapaça neural e “sincronia suspeita”, o que fez Cole rir e soltar minha mão, devagar. Olhei pra Cole, e ele me devolveu o olhar com aquela calma que não precisa de palavras. Tive a estranha sensação de que algo mais forte do que o holograma estava nos conectando, algo invisível, mas real o bastante para me deixar sem ar.

E por mais que eu tentasse disfarçar, o sorriso que escapou de mim denunciou tudo.

— Ok, ok… vocês ganharam! — rendeu-se Renesmee, rindo, enquanto o cenário se desfazia em partículas de luz.

Tirei o visor translúcido, sentindo o coração ainda acelerado, não apenas pela partida, mas por causa da presença dele ao meu lado. Cole também retirou o dele, e quando nossos olhos se encontraram, havia algo vibrando ali, silencioso, mas intenso.

Jacob pigarreou, divertido.

— Então… quem quer revanche?

Sorri, tentando disfarçar o turbilhão que ainda me percorria. Porque, no fundo, eu sei que o verdadeiro jogo estava acontecendo por dentro. E esse, nenhum placar seria capaz de medir.

Topamos, e nos lançamos no mundo impossível mais outra vez.

Por fim, Renesmee lançou o golpe final. A sala inteira brilhou em tons dourados, e o placar flutuante piscou no ar:

Vitória — Equipe Cullen/Black.

— E é assim que se faz, senhoras e senhores! — ela levantou os braços, triunfante.

Jacob fez uma reverência exagerada.

— O mérito é todo meu, claro.

— Ah, claro! — ela respondeu, rindo, empurrando-o de leve.

— Eu diria que foi justo. — Cole balançou a cabeça, divertido.

— Justo?! — retruquei, ainda rindo — Eu só perdi porque você ficava perto demais!

Ele arqueou uma sobrancelha, o sorriso discreto retornando.

— Então, da próxima vez, posso ficar mais longe.

— Nem pense nisso! — saiu da minha boca antes que eu pudesse controlar.

Renesmee soltou uma risadinha cúmplice, trocando um olhar rápido com Jacob, como se tivesse acabado de assistir a algo inevitável. O jogo voltou à tela inicial lentamente, e o holograma se dissipava aos poucos como poeira de luz no ar. Aos poucos, o cenário digital se apagou, deixando a sala da mansão no mesmo tom ameno e acolhedor de antes, luzes quentes, sombras macias. Mas dentro de mim, tudo ainda vibrava como se o jogo não tivesse terminado. O silêncio que ficou era suave, acolhedor. A lareira da sala, lançava reflexos quentes nas paredes e nos rostos ao meu redor. Jacob se espreguiçou, rindo baixinho e desligou o sistema, fazendo as últimas partículas holográficas sumirem.

— Ai, ai... Eu vou ver se tem mais sobremesas lá em cima.

Renesmee o seguiu com um sorriso malicioso, mas antes de sair, olhou para mim e piscou, um gesto breve, carregado de uma mensagem silenciosa: eu deixo o resto com vocês. Quando o som dos passos deles se perderam no andar superior, restamos apenas eu e Cole. A luz suave da lareira tremulava entre nós, e eu podia ouvir o vento do lado de fora, empurrando as árvores, fazendo a casa respirar junto com o mundo. Por um instante, não dissemos nada. Só havia aquele silêncio cheio de significados, o mesmo tipo de silêncio que antecede algo inevitável.

— Sabe… — comecei, com a voz baixa, quase hesitante — Eu poderia me acostumar com isso.

— Com o quê? — ele desviou o olhar para a janela, depois de volta para mim.

— Com você bem mais perto... — confessei. Meu coração tropeçou no peito e eu soube, mais uma vez, que a linha entre segurança e entrega nunca tinha sido tão tênue.

Sorri, tentando disfarçar o turbilhão que ainda me percorria. Foi então que meu olhar, ainda preso na sensação do jogo, se desviou para o canto da sala, Rosalie continuava ali com minhas filhas; Hilary nem se abalou com a movimentação barulhenta pelo cômodo, continuava dormindo, respirando em um ritmo que me lembrava o bater calmo da chuva lá fora, Helena apesar de estar acordada, permanecia deitada com os olhos sonolentos atentos em Rosalie, levei um segundo à mais para admirar a cor de seus olhos azuis, um azul que não existia em nenhuma paleta do mundo, só nos olhos da minha filha. Cole cruzou o olhar comigo, e percebi que ele também havia notado. Nenhum de nós disse nada, mas havia algo de sagrado naquele silêncio, um contraste bonito entre o caos luminoso do jogo e a paz que agora se instalava ali.

Cole se aproximou mais de mim, perguntando baixo o bastante para que apenas eu o ouvisse.

— Elas dormem bem com a Rosalie? — perguntou.

— Sim. — assenti, com um sorriso discreto — Rosalie tem um jeito… natural com elas.

— Parece ter mesmo. — ele murmurou, olhando a cena também.

Rosalie ergueu o olhar quando me aproximei com Cole logo atrás, um leve sorriso sereno sombreava seus lábios enquanto ela ajeitava uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha. A luz suave da sala desenhava reflexos dourados em seus olhos, e por um instante pensei em como ela parecia a personificação de uma deusa. Engoli em seco, um pouco baqueada com a percepção da sua beleza.

— Vocês pareciam estar se divertindo pra valer. — ela comentou, a voz baixa, para não acordar a Hilary.

Assenti, ainda um pouco ofegante.

— Mais do que eu esperava. Acho que estou pegando o jeito desses jogos futuristas.

Rosalie soltou um leve riso.

— Você se saiu muito bem. — seus olhos desceram para Hilary, dormindo profundamente.

Helena virou o rostinho na minha direção.

— Mamãe estava jogando sério. — disse, direta com a voz sossegada e arrastada, lutando contra o sono — No começo parecia confusa, mas depois ficou boa.

Não consegui evitar um riso breve.

— Ah, obrigada pela confiança, estrelinha.

— Eu sabia que você ia ganhar. — ela deu um meio sorriso — O moço só ajudou um pouco.

— O moço tem nome, sabia? — murmurei, tentando conter o riso sem graça.

Rosalie conteve o riso, levando a mão aos lábios, senti o rubor subir ao rosto. Acredito que essa tenha sido a primeira vez que a Helena tenha me deixado encabulada.

— Acho que você acabou de ferir o orgulho do parceiro de time da sua mãe, Helena. — Rosalie comentou, olhando de um para o outro.

— Só um pouco?! — Cole ergueu as sobrancelhas em fingida indignação.

Helena o olhou por um instante, quase divertida, e respondeu sem hesitar:

— Foi a mamãe que pensou primeiro nas jogadas certas.

— É mesmo? — ele perguntou, cruzando os braços, teatral — Então ela é o cérebro da dupla?

— E você é o braço forte, o apoio garantido, sabe? — ela o respondeu, antes de bocejar e recostar a cabeça de novo — Os dois juntos funcionam, uma boa dupla.

— Essa menina não poupa ninguém. — Rosalie riu baixinho — Parece alguém que eu conheço... — acrescentou, com um olhar cúmplice e eu balancei a cabeça, tentando esconder o sorriso.

— Você devia estar dormindo, mocinha.

— Eu tentei mamãe, mas vocês faziam muito barulho de guerra. — ela soltou um bocejo preguiçoso.

— Acho que ela ficou de olho em vocês, só para ver quem ganhava. — Rosalie riu baixinho, ajeitando Hilary com cuidado.

Helena assentiu.

— Eu sabia que a mamãe ia ganhar... — ela voltou a afirmar, os olhos já semicerrados de novo, sem foco — Ela sempre ganha… Porque ela não desiste. E foi bonito ver vocês rindo juntos, mamãe.

Fiquei em silêncio por um instante, sentindo aquele comentário se encaixar em algum lugar mais fundo do que eu esperava. Toquei suavemente o cabelo dela, sentindo aquele tipo de honestidade que só uma criança é capaz de dizer, simples, direta, e impossível de ignorar; e ela sorriu, já se entregando ao sono e o silêncio da sala foi se restabelecendo. Me inclinei, observando Hilary completamente entregue ao sono no colo de Rosalie, sequer se mexia.

— Vou levá-las para o quarto. — murmurei, passando os braços em volta da Hilary.

— Quer que eu a leve? — Cole perguntou baixinho, aproximando-se do sofá com calma.

— Está tudo bem, eu consigo. — balancei a cabeça, sorrindo.

Ele hesitou, me pareceu desconfortável, mas ficou ao meu lado; meu olhar se desviou para Helena, ponderando se eu devia ou não, pedir para subíssemos as meninas juntos.

— Deixa que eu levo. — a voz de Cole soou, grave e suave, misturada ao som distante da chuva lá fora.

Eu assenti, sem contestar, e ele se abaixou com cuidado para pegar Helena. A naturalidade do movimento me surpreendeu, o modo como ele a sustentava, com uma firmeza delicada, como se tivesse feito aquilo muitas vezes. Assim que seus braços a envolveram, ela abriu os olhos devagar, as írises azuis-claras refletindo o brilho da lareira.

— Mamãe?! — Helena murmurou, a voz sonolenta.

— Shh… — respondi, ajeitando o peso da Hilary em um braço, estendendo a outra mão para tocar o cabelo da Helena — Tá tudo bem, meu amor. O Cole vai te levar pro quarto junto com a mamãe.

Ela piscou algumas vezes, tentando entender o que acontecia. Olhou para ele, o rosto se iluminando num meio sorriso curioso. Absorvi o sorriso de dentes na minha bebê.

— Você também é sempre quente… — ela comentou, encostando a mãozinha no braço dele.

— Ah, pois é... Acho que sim. É o calor do sangue quileute. — Cole riu baixinho, surpreso.

Ela bocejou, deitada em seu colo, e completou num sussurro sonolento:

— Então quero ficar pertinho…, só até o sono voltar.

— Claro. — respondeu ele, quase num tom de promessa — Pronta para ir pro quarto? — ele perguntou em voz baixa.

— Eu estou. — respondeu ela, simples, sem abrir totalmente os olhos — Mas não fala muito, por favor, se não a Hili acorda.

— Pode deixar, sargento. Missão em silêncio. — ele deu um meio sorriso.

Rosalie esboçou um riso contido, balançando a cabeça, o olhar suave.

— Boa noite, para vocês dois. — disse, antes de se recostar no sofá, voltando o olhar para o fogo que ainda crepitava na lareira.

— Boa noite, Rose. — respondi junto com a despedida de Cole.

Acomodei melhor os meus braços embaixo dos quadris da Hilary, e seguimos juntos em silêncio até as escadas. Meus passos eram lentos para não acordar Hilary, e os dele, compassados, acompanhando o ritmo sem pressa. Seu olhar acompanhava cada passo que eu dava, quase como se quisesse se certificar de que eu realmente estava bem. Subimos as escadas devagar, e o som da madeira rangendo sob nossos pés se misturou as nossas respirações e às tranquilas das minhas filhas. As janelas altas filtravam a luz do exterior, uma mistura de prata e cinza, refletindo os relâmpagos distantes que piscavam por trás das árvores de Forks. Eu levava Hilary, com a cabeça dela repousando contra meu ombro, enquanto no degrau abaixo, Cole subia com Helena apoiada nele, o rostinho encostado em seu peito. Por um momento, olhei para trás e o vi sorrindo, distraído, embalando minha filha quase sem perceber. E, talvez sem querer, me veio a sensação de que aquela imagem, de nós quatro, subindo uma escadaria em silêncio, era algo que eu gostaria de guardar na memória. Não por ser perfeita, ou sonhada, mas por ser leve… e real.

Ao chegarmos ao topo, trocamos um olhar rápido, já estávamos no corredor dos nossos quartos, então apenas indiquei com o queixo em qual entraríamos primeiro. Ele empurrou a porta com o ombro, revelando o interior iluminado apenas pelo abajur de vidro opalino sobre a cômoda. e quando entramos no quarto, a sensação foi de entrar num outro mundo, um refúgio morno e sereno em contraste com a tempestade que rugia do lado de fora. A luz difusa criava um halo suave que mal alcançava os cantos do quarto, o suficiente para dar forma ao berço, aos brinquedos alinhados e à pequena pilha de livros infantis.

Cole seguia à minha frente, a cada lampejo de relâmpago que atravessava o vidro das janelas, a sombra dele se projetava contra as paredes, longa, quase protetora. As lâmpadas embutidas no teto emanavam uma luz amarelada e suave, e o piso de madeira refletia o brilho em tons de âmbar.

O som da chuva se tornava um fundo constante, abafado pelas paredes, mas ainda presente, como se o mundo lá fora respirasse em um ritmo lento. Ele se aproximou do berço de ferro retorcido com Helena e se inclinou com cuidado, seguindo exatamente a mesma instrução que dei à primeira vez, quando foi com Hilary; deitando-a sobre os lençóis do colchãozinho. Ela abriu os olhos por um instante, só o suficiente para murmurar:

— Está chovendo forte…

— Está, sim. — respondi com carinho — Mas aqui dentro está quentinho.

Ela assentiu, o olhar sonolento fitou por um instante a janela.

— O barulho me faz sonhar mais rápido...

— Então é um bom sinal. — Cole sorriu de leve.

Helena se virou de lado, os cílios roçando o travesseiro.

— Boa noite, mamãe. Boa noite, Cole.

— Boa noite, minha estrelinha. — respondi, pedindo para Cole pegar o lençol que estava na ponta, e cobri-la até no queixo dela. Eu ainda não me sentia confortável em deixá-la descoberta, mesmo já sabendo que ela não sentia quase nada de frio mesmo que sua pele reagisse à baixa temperatura.

— Durma bem, Helena. — ele disse em seguida, sorrindo.

As pálpebras de Helena tremeram quando ela piscou devagar e fechou os olhos, rendida ao sono. Ficamos alguns segundos em silêncio, observando o ritmo tranquilo da respiração dela.

— Ela confia em você. — comentei, em voz baixa.

— Acho que ela confia mais em você. — respondeu, com um olhar de canto — Eu só estou tentando não atrapalhar.

Seus olhos claros pareceram reluzir quando olhou diretamente para mim. Sorri.

— Você não está. — ele nunca atrapalhou.

Ao meu pedido, Cole encostou a porta devagar, deixando apenas uma fresta para que a luz escapasse. Voltamos ao corredor, e o ar parecia ainda mais silencioso agora. O som da chuva se misturava ao farfalhar distante das árvores.

Quando entrei no quarto da Hilary, a iluminação era ainda mais suave. As cortinas translúcidas deixavam entrar reflexos prateados do lado de fora, e o abajur de mesa lançava círculos de luz amarela sobre o berço. O contraste entre o frio da janela e o calor que vinha da lâmpada do abajur criava uma atmosfera quase etérea, como se o tempo tivesse desacelerado ali dentro. Ajeitei Hilary nos braços e deitei-a com cuidado. Ela se remexeu, soltando um som baixo, antes de se acomodar novamente. Estendi seu cobertorzinho até o queixo, e fiquei um momento observando seu rosto tranquilo. Ela se virou de lado, abraçando o cobertor, e soltou um suspiro tão doce que me fez sorrir involuntariamente. Minha mão, que ainda continuava a segurar a ponta do cobertor deslizou suave para a bochecha macia, percorrendo a lateral delicada do seu rostinho até chegar aos primeiros fios de cabelo que delimitavam a testinha dela, passei os dedos no cabelo dela sentindo a maciez e o calor de sua cabeça. Quando ergui o rosto novamente, Cole estava bem ali, observando como se aquele instante também o pertencesse.

Passeei meu olhar ao redor por alguns segundos, observando o reflexo das gotas escorrendo pela janela, o murmúrio distante da casa viva ao redor. Atrás de mim, Cole permanecia quieto, com as mãos nos bolsos, os olhos percorrendo o ambiente em respeito, como se tivesse medo de quebrar o equilíbrio.

Cole se inclinou um pouco, a voz baixa, rouca de cansaço e contenção.

— Somos uma boa dupla, hein? — disse, com um meio sorriso, referindo a observação de Helena sobre o nosso desempenho juntos.

— Nos jogos… — olhei pra ele, sorrindo de volta — e talvez fora deles também.

Ele riu de leve, mas o olhar ficou preso em mim por tempo demais. E ali, entre o brilho que ainda cintilava no ar e o silêncio que embalava minha filha, percebi que a noite não precisava de mais nada, já estava tão completa.

— Ela tem o seu jeito. — murmurou Cole, encostando-se à porta, com as mãos nos bolsos.

— E parte do temperamento também. — respondi, ajeitando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha, me lembrando da manhã em que Hilary não reagiu tão parecida comigo assim. Soltei um suspiro, encolhendo os ombros, tentando afastar dos pensamentos da cena dela gritando e batendo na bandeja — Só que minha parte nela… tudo é mais bonito.

Ele sorriu de canto, aquele sorriso silencioso que sempre me desarma. Ficamos ali por um tempo, sem precisar dizer nada. O som da chuva batendo contra a janela parecia preencher o espaço entre nós. Quando encostei a porta do quarto, ele ainda estava ali, observando.

— Faz tempo que eu não via você sorrir e rir tanto desse jeito. — disse ele, baixo, quase num sussurro.

— Acho que eu também não via. E pretendo não deixar de parar. — respondi sentindo um calor de esperança renovada dentro de mim.

Ele assentiu, discreto, e me fez um gesto para que descêssemos. Dos degraus eu já ouvia o som distante de risadas que vinha da cozinha, onde Renesmee e Jacob ainda discutiam quem havia ganhado mais rodadas do jogo. Entre as bancadas, Esme recolhia as últimas taças límpidas e Alice arrumava os arranjos habituais da semana sobre a mesa. Tudo tinha aquele ar de “pós festa” o aconchego que fica quando a euforia se esvai e o que resta é só a tranquilidade e a gratidão. Seguimos mais um lance de escada abaixo, a sala se encontrava vazia, com apenas algumas luzes acesas. O fogo da lareira já queimava baixo, e a luz alaranjada dançava nas tábuas polidas, deixando tudo mais íntimo, mais quieto.

Por um instante, ninguém falou. Apenas o barulho da chuva, o som distante do vento contra as árvores quase invisíveis na escuridão e estalo da lenha preencheu o espaço entre nós. Eu me aproximei um pouco mais da poltrona, minhas mãos ficaram ainda mais frias, mesmo com o calor da casa, uma reação refletida de me ver sem saber se o convidava a sentar de novo ou se o deixava ir. Ele pareceu entender a confusão que passava em mim, seu olhar queria me perguntar “Está tudo bem?”, mas sem invadir.

Minha mente fez questão de me lembrar há quantos dias eu criava uma frase ensaiada, a frase sempre surgia pronta nos meus pensamentos, mas quando eu olhava para o rosto dele, firme e sereno, eu desistia. Talvez porque falar em voz alta tornasse tudo mais real do que eu queria. Dessa vez, não consegui segurar. Eu parei na frente dele, respirei fundo, e a voz saindo antes que eu conseguisse filtrar:

— Teve uma coisa que aconteceu comigo e a Hilary… faz uns dias já. Eu queria te contar antes, mas… — hesitei, abaixando os olhos, como se fosse possível esconder o que eu sentia.

Ele não me interrompeu. Nem se mexeu, nem piscou demais. Só ficou ali, esperando por tudo que eu precisar pôr para fora.

— Foi uma birra… — comecei, a voz saindo falhada — Por causa de um copo azul que já tinha ido pra lava-louças. Uma coisa boba, tão boba… Eu me irritei mais do que devia. — confessei, a vergonha queimando o rosto — Mas eu perdi a paciência. De verdade. Senti uma raiva tão grande que… — pressionei os lábios, tentando segurar o tremor na voz — Por um segundo, eu vi nela algo que me lembrava o Augustus.

Falar o nome do meu ex-marido ainda me causava um incômodo, mesmo que tivesse se passado tanto tempo. Mas precisei dizer. Porque parte de mim carregava essa culpa desde então, estava amenizada, mas ainda a sentia.

— E isso me assustou, Cole... me senti horrível por isso. — completei, deixando as palavras saírem num sopro — Sentir raiva dela mesmo sabendo que ela é só uma criança, que estava contrariada, confusa… eu me vi ficando brava do mesmo jeito que eu ficava com ele. — a vergonha me queimava por dentro, como se eu tivesse exposto a parte mais feia de mim — Só que depois… — continuei, apertando mais minha blusa contra mim — a Bella falou comigo. Ela falou coisas que… que ajudaram, disse que sentir raiva não faz de mim uma mãe ruim, só mostra que sou humana. E foi tão… — parei, procurando a palavra certa — tão simples, mas tão importante de ouvir, sabe?

Cole assentiu, um “sei” mudo no gesto. O silêncio dele nunca me pressionava a seguir, mas sempre me dava coragem de continuar.

— A Rose também estava lá. — soltei um riso quase abafado — Ela foi bem Rosalie, disse que: se eu não colocasse limite agora, ia ser pior depois. Parecia dura… mas foi como se dissesse: “você precisa ser firme, porque é isso que protege ela”. Ela falou bem seca… mas sabe quando parece que… ela estava cuidando, mesmo sendo, dura?

Cole soltou um riso baixo, quase sem som.

— Rosalie sempre parece me dura… mas ela cuida, sim. Principalmente de você e da Nessie.

— É… — assenti, lembrando do jeito que ela explicou a lava-louças, sem paciência, mas querendo que eu aprendesse, e todas as vezes que ela chega para me abraçar sem tantos motivos.

Parei por um instante, respirei mais fundo, puxando o cheiro dele misturando com o cheiro da madeira húmida da casa.

— E depois a Esme apareceu, ela não presenciou nada porque estava cuidando do jardim dela. Ela não disse nada tão bem elaborado… só… ficou perto, sabe? — procurei pela palavra certa — Me amparou. Colocou a mão nas minhas costas... Foi como se dissesse “você não precisa falar mais, eu já entendi”. — minha voz embargou um pouco, mas não tanto que me fizesse chorar.

Cole se inclinou levemente para frente, sem me tocar, mas deixando o corpo expressar que estava ali.

— Mesmo assim, eu fiquei dias remoendo … — confessei, mais baixo — Porque foi só um copo. Mas quando ela começou a jogar a comida no chão, se espernear no cadeirote e gritou, me lembrou do Augustus. Da teimosia dele, do jeito mimado. Eu me vi ficando com raiva dela… por algo que era dele, não dela. Não conseguia parar de pensar que eu podia ter feito diferente. Que, se ela puxasse essa parte do pai… talvez fosse culpa minha também. — minha voz saiu mais baixa no fim, quase falhando, ali, na pausa, percebi que estava dizendo mais do que queria. Mas já era tarde, tinha saído.

As palavras pesaram no ar. Por um momento, eu achei que ele fosse dizer algo para me confortar, mas ele não tentou me limpar da culpa, só ficou ali, firme, respirando devagar, e isso foi melhor do que qualquer frase pronta.

— É estranho… — continuei, a voz saindo quase num fio, mas sem hesitação — Mesmo depois de tudo, eu tenho medo de errar, medo de que ela vire alguém que eu mesma não vou reconhecer. E ouvir da Bella, da Rose… até da Esme… foi como se dissessem que não sou a pior mãe do mundo por sentir raiva. Que elas já viram isso, e ainda assim ficaram ali.

Fiquei quieta por uns segundos, as mãos enfiadas na manga da blusa, sentindo o tecido contra os dedos frios. Cole respirou fundo, a mão dele descansando no móvel de madeira ao lado, os ombros largos relaxando. Ele falou baixo, a voz um pouco rouca:

— Você não está sozinha, Lee. E sentir raiva não apaga todo o resto que você sente pelas suas filhas.

Eu olhei para ele, sentindo os olhos arderem, mas não deixei as lágrimas caírem.

— Eu sei… mas às vezes, só de dizer isso para alguém que tá de fora… parece que fica mais leve aqui dentro. — toquei de leve o peito, onde o peso estava — Acho que é isso que faz diferença, Cole. — falei, virando o rosto para ele, encontrando o olhar dele de novo — Não é que eu não vou errar. Mas agora eu sei que tenho pra quem contar. E que mesmo quando erro, ainda tenho quem fique. — respirei mais fundo, sentindo o peito doer, mas de um jeito mais brando — Eu queria ter te contado antes… mas não consegui. A vergonha me travava. Porquê… parece tão pequeno agora. Mas, no momento, eu me senti a pior mãe do mundo.

Fiquei quieta, esperando que ele dissesse algo, talvez até algo que doesse. Mas ele só respirou devagar, e naqueles olhos havia um tipo de ternura que parecia quase impossível de caber num homem do tamanho dele. Ele fez que sim, com um movimento quase imperceptível. O olhar dele parecia dizer: Pode me contar sempre. Até as partes feias.

— Sabe… — começou, a voz mais baixa do que o normal — não tem nada de pequeno nisso, Lee.

As palavras me pegaram de surpresa. Eu ergui o olhar, esperando que ele completasse.

— Pode parecer besteira pra quem olha de fora. — continuou, passando a mão devagar na nuca, o gesto distraído — Mas para quem sente… é muito grande. Porque não foi só sobre esse tal copo azul. É sobre tudo o que você já viveu, tudo que tem medo de repetir… e tudo que ama demais para suportar a ideia de estragar com as próprias mãos.

Fiquei quieta, engolindo seco, as palavras dele batendo fundo, como pedras jogadas num lago escuro.

— E… — disse ele, dando um passo mais perto, a voz quase rouca — o fato de você se preocupar assim, até dias depois… é exatamente o que mostra que você não é como ele. Assim como sua filha.

A respiração ficou presa no peito. Porque era isso que eu temia mais do que tudo: que tornássemos a pior versão de Augustus. Ser cega, mimada, ou pior… injusta. Cole percebeu minha hesitação, o canto da boca dele se moveu, quase um sorriso, mas contido.

— Quer saber? Eu preferiria mil vezes alguém que explode de vez em quando, mas depois repensa, volta e tenta melhorar… do que alguém que acha que nunca erra. — os olhos dele brilharam, não com dó, mas com algo mais firme, quase orgulho — Você errou? Errou. — disse, simples, sem suavizar — Mas está aqui, dias depois, contando, remoendo, aprendendo. E é isso que faz a diferença, Lee. Não o que aconteceu, mas o que você tem feito depois. Eu não vejo culpa nisso. Vejo o seu cuidado.

As palavras dele ficaram no ar, densas, mas quentes. O olhar dele não tinha sombra de julgamento. Era tão direto que quase doía, mas doía como quem estanca um sangramento. Eu passei a mão no braço, tentando esconder o arrepio que senti no momento.

— Eu sei… mas dói igual. Doeu achar que fui injusta, naquele dia.

Cole fez um gesto quase imperceptível com o queixo.

— Mas lembra: você parou, pensou, voltou, pediu desculpa… É isso que importa, Lee. Criança não precisa de mãe perfeita. Precisa de mãe que fica com elas e ensina acima dos erros.

Abaixei a cabeça, fechei os olhos por um instante, deixando a respiração sair mais longa. O peso daquele causo passado ainda estava lá… mas não do mesmo jeito. Abri os olhos de novo, e vi que ele me olhava, sério, mas sem tensão.

— Sabe… — começou, a voz saindo rouca, como quem escolhe bem cada palavra — não acho que seja só as Cullen que estão te ajudando a ser melhor. Você mesma já está diferente.

Engoli seco, sem saber como responder, porque soava mais verdadeiro do que eu me permitia pensar.

— E… — acrescentou, quase num meio sorriso — não subestima o que faz diferença para elas. Elas veem mais do que você pensa.

— Até a Helena? — perguntei, sem pensar, a voz meio rouca.

— Principalmente a Helena. — disse ele, sem hesitar — Essa pequena parece enxergar a gente até por dentro.

As palavras bateram forte, como se alguém colocasse a mão fria bem no meio do meu peito quente. Eu respirei fundo, ainda segurando o ar por um segundo.

— Às vezes eu queria ser menos… intensa. Sentir menos raiva. Ter menos medo.

— E perder o que faz de você… ser você? Não. — Cole arqueou uma sobrancelha, quase sorrindo — Você sente tudo demais… mas é isso que faz de você uma mãe que vê com o coração, que pede desculpas sinceras, que tenta de novo. E que nunca desiste. — a voz dele não era de consolo vazio. Era uma constatação, quase bruta, mas tão verdadeira que fez minha respiração falhar — Até hoje. — ele acrescentou, olhando bem dentro de mim — Você não fugiu, mesmo quando até sua voz nos mostrava o quanto estava deprimida. Isso vale mais do que qualquer calma que você acha que deveria ter. E outra coisa…, — disse, deixando o tom mudar, ficando mais leve — se fosse tão fácil criar uma criança, não teria tanta gente quebrada no mundo.

Soltei um riso curto, meio rouco, meio surpresa comigo mesma.

— Você fala como se soubesse muito sobre criança…

Ele deu de ombros, o canto dos lábios quase querendo subir.

— O pouco de tempo que que consigo ter com a Kay me proporcionou o bastante para saber que até quando elas choram, estão tendo que aprender alguma coisa. E que quem está por perto também acaba por aprender.

Soltei um riso fraco, mas verdadeiro. Cole passou o braço por trás de mim, sem me puxar para si, só deixando o calor dele ali, ao alcance. Permiti sua aproximação sem reservas, seu calor me acolhendo junto à temperatura acolhedora que a lareira intensificava ao nosso redor, ouvi o som da chuva pingando do beiral lá fora, o cheiro húmido da madeira, e o som quieto do peito dele subindo e descendo devagar. Ficamos ali, abraçados por um instante, o cheiro de chuva, madeira queimada e lavanda ainda pesado no ar. Então senti: o braço que estava atrás de mim não ficou só ali, ele deslizou devagar até tocar minha cintura, primeiro como quem pergunta, depois como quem responde à própria pergunta. O calor daquela mão grande me atravessou a pele, os ossos, chegando a um lugar que fazia tempo que eu não lembrava existir, não me defendi disso. Virei o rosto devagar, encontrando os olhos dele tão perto que consegui ver um traço castanho-dourado no verde, e ver também que ele me olhava inteira, sem medo do que visse, não cobrava nada, não esperava perfeição; só me queria como eu era, até com as partes que eu mesma não gostava de mostrar.

— Você não está sozinha, Lee. — falou baixo, a voz rouca, mais grave — Nem quando erra, nem quando tem medo.

Meu coração bateu tão forte que tive medo de que ele ouvisse. O polegar dele roçou de leve na lateral da minha costela, num toque calculado. O ar entre nós ficou tão denso que doía para respirar. Eu senti o rosto queimar, a garganta fechar e, ainda assim, não me afastei.

— Muito obrigada… — consegui dizer, quase num sussurro.

Ele abaixou um pouco a cabeça, a testa quase encostando na minha têmpora, tão perto que senti o calor da pele dele quase arder contra a minha. Fechei os olhos, deixando o cheiro dele de sal, madeira e algo que era só dele, preencher tudo: não tinha culpa, nem lembrança, nem voz do passado. Só aquele toque firme, quente, que dizia mais que qualquer palavra. Ele não me apertou, como achei que faria; sua mão ficou ali, firme, me sustentando. E foi exatamente isso que me fez sentir segura. Não era força. Era presença. Sua presença. Abri os olhos devagar, encontrando de novo os dele, fogo refletia nos olhos dele e fazia o contorno do rosto parecer ainda mais próximo, mais humano, mais vivo. E vi ali algo cru, bonito, que fez minha respiração falhar: ele também estava sentindo. E não fugia disso.

— Eu tô aqui. — repetiu, mais baixo, quase roçando os lábios perto da minha têmpora.

O peito apertou de um calor tão grande que parecia queimar de dentro. Um suspiro fraco escapou por entre meus lábios. Ser vista por inteiro não me fazia mais fraca, me fazia existir de verdade. Ele ergueu a mão e afastou uma mecha do meu cabelo. O toque foi breve, mas incendiou o ar ao redor. O olhar dele desceu até minha boca, e quando voltou aos meus olhos, não havia mais dúvida, nem minha, e muito menos dele. O beijo aconteceu natural, inevitável, fácil. Macio, morno no quente, um encontro de silêncios. Não houve pressa, só a certeza de que aquele instante já não poderia ser mais evitado. Quando ele se afastou, ficou com a testa encostada na minha, o fôlego dele misturado ao meu. Olhei para ele, e o cansaço no meu corpo se misturou a uma calma interior que há muito tempo eu não sentia. Me encostei ainda mais contra seu corpo forte que emana calor constantemente.

— É… — respondi, quase num sussurro — Acho que foi um bom fim de noite.

— Foi bom te ouvir hoje.

Virei o rosto para ele, o coração batendo num ritmo irregular.

— Foi bom… conversar. — respondi, sem conseguir disfarçar o tom mais suave — Você ajudou mesmo com tudo isso, não foi? — perguntei, sobre sua ausência dos últimos dias em prol da comemoração do feriado de hoje.

O canto de sua boca cedeu num meio sorriso que parecia calar qualquer resposta.

— Esme me fez prometer segredo. Foi difícil. — a voz dele era rouca, um rastro quente no ar frio — Mas… eu queria que você se sentisse acolhida. Foi ideia de todos, na verdade.

— E funcionou. — confessei, cruzando os braços atrás de seus ombros, sem perceber o quanto minhas mãos tremiam — Eu nunca… tive algo assim. Uma surpresa. Um jantar feito por tanta gente só para me ver sorrir.

— Então valeu a pena ter ficado longe por esses dias. — disse ele — Você sorriu de verdade hoje. Às vezes é disso que você precisa com frequência... Reunir todos que você gosta hoje, te trouxe leveza.

Assenti devagar.

— Você tem esse efeito nas pessoas?

— Não. — ele respondeu, sorrindo de canto — Só em você, pelo visto. — ele soltou um riso contido, aquele som rouco e baixo que parecia sempre sair de um lugar sincero — Não é difícil te fazer rir, mesmo quando você não está tão feliz.

Meu coração tropeçou. E, por alguns segundos, o silêncio voltou a nos envolver. Um silêncio confortável, mas cheio de coisas não ditas, só o estalo da lenha preencheu o espaço entre nós. Engoli em seco. A naturalidade dele me desarmava, como se sempre soubesse o que dizer.

— Eu devia te agradecer. — falei, baixinho, encarando as chamas — Por ter participado disso tudo hoje.

— Do jogo? — ele ergueu o olhar, curioso.

— Não só do jogo. — corrigi, sorrindo — Da surpresa. Do jantar. De... tudo.

Cole inclinou a cabeça de leve, como se tentasse decifrar o que eu realmente queria dizer.

— Amberli… — ele disse meu nome com uma ternura que me fez esquecer qualquer resposta — Você já faz parte de tudo, só ainda não percebeu.

Aquela frase me atravessou com o mesmo peso de uma confissão. Um riso nervoso escapou dos meus lábios.

— Você fala como se me conhecesse há anos.

— Talvez eu só esteja aprendendo rápido demais. Ou talvez eu só... sinta que devia estar aqui.

Me senti sem ar por um instante. A verdade é que, lá no fundo, eu também sentia uma presença que parecia ter existido desde sempre, silenciosa, aguardando o momento certo de ser percebida. Ficamos ali por mais alguns minutos, até que o relógio da sala marcou o fim de mais uma hora da noite com um som discreto. Cole ajeitou o casaco, e a sensação de despedida pesou antes mesmo de ele se mover.

— Já vai? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.

— Está ficando tarde. — ele disse, com um tom brando, quase um pedido de desculpa.

Caminhamos juntos até a escada. As luzes do ambiente estavam mais fracas, e a mansão parecia ter mergulhado num estado de repouso. O som dos nossos passos era quase o único ruído ecoando naquele espaço.

— Obrigada de novo. — repeti, quando chegamos ao hall — Pelo esforço, pela paciência, por... ficar até mais tarde. — murmurei, só para quebrar o silêncio que me deixava vulnerável demais.

Ele virou o rosto para mim, e por um instante, o olhar dele me segurou no lugar.

— Não foi um sacrifício. — ele respondeu, com aquele sorriso discreto que faz o chão parecer ceder um pouco sob os meus pés — Eu não vim por esforço, Amberli. Vim porque quis.

O modo como ele disse isso, direto, sem rodeios, fez meu peito se apertar. Eu senti a verdade ali. Senti a entrega silenciosa que eu ainda não sabia nomear.

No último degrau, ele diminuiu o passo.

— Eu gosto de te ver assim. — murmurou — Quando você sorri sem se proteger.

O coração acelerou. Eu não havia percebido que sorria.

— E como é que eu faço pra manter isso?

Ele sorriu.

— Me deixe tentar mais vezes.

Aquela frase ficou pairando no ar entre nós. Simples. Honesta. Real.

Cole deu um passo. E depois outro. Não havia pressa, mas também não havia hesitação. Quando a mão dele tocou meu braço, senti o contraste entre o frio do tecido e o calor que vinha dele. Foi um toque simples, mas o suficiente para que meu coração se descompassasse. O olhar dele encontrou o meu, direto, firme, sem pedir licença. Os dedos dele subiram até o meu rosto, traçando o contorno da mandíbula com tanta precisão que me fez prender o ar. A pele dele tinha cheiro tão único misturado ao de chuva e sal, o tipo de aroma que parece prender a alma num instante e não devolver.

E então, o beijo.

Primeiro suave, quase um convite.

Depois, um aprofundar inevitável como se o próprio tempo tivesse se inclinado para nos assistir. A mão dele encontrou a base das minhas costas, puxando-me com firmeza, e por reflexo minhas mãos se apoiaram em seu peito, subindo aos seus ombros fortes, entrelaçando-se em sua nuca com fervor. O calor. A textura dos tecidos em seu corpo. O som abafado da respiração dele contra a minha boca. Tudo misturado num caos delicioso e certeiro. Meu coração batia alto demais, e eu juro que podia ouvir o dele também.

Quando o beijo cessou, fiquei ali, com os olhos ainda fechados, tentando entender se o mundo tinha realmente voltado a girar. Cole passou o polegar direito pelo canto da minha boca, num gesto que me desmontou mais do que o próprio beijo.

Quando ele se afastou, ficou com a testa encostada na minha, o fôlego dele misturado ao meu.

Ergui meu olhar encontrando o verde dos olhos dele refletindo a iluminação amarelada do hall, espelhando meu próprio reflexo, Cole moveu a mão pelo meu rosto, os dedos quentes deslizando um rastro de fogo até a linha do maxilar, num toque que é ao mesmo tempo firme e cuidadoso, carinhoso. Nenhuma pressa, nenhuma dúvida. Eu o encarei, ainda sem conseguir falar, apenas sentindo o eco daquilo que ficaria na casa mesmo depois que ele partisse.

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Ele deu um passo para trás, e a corrente de ar invadiu entre nós. Eu respirei forte, expandindo o tórax dando mais espaço entre a gente também; pressionei os lábios passando a ponta da língua entre eles e me virei em direção a saída.

Abri a porta, e o vento frio da noite entrou pela fresta, a chuva cintilava na entrada, trazendo o cheiro da chuva a cair. Ele ficou ali, imóvel por um instante, e antes de dar o primeiro passo para fora, ele se inclinou, depositando um beijo demorado na minha testa. Meu corpo inteiro reagiu, um arrepio percorreu minha espinha, e meu coração pareceu tropeçar nas costelas.

— Promete que você vai descansar hoje? — perguntou ele, baixo, com um tom que misturava cuidado e preocupação.

— Prometo. — murmurei, e senti um conforto inesperado só de ouvi-lo me dizer aquilo.

— Boa noite, Amberli. — disse, com a voz baixa e cheia de algo que eu não conseguia disfarçar que queria ouvir de novo.

— Boa noite, Cole. — por um instante tudo pareceu desacelerar, como se o tempo esperasse eu decidir entre chamá-lo de volta ou deixá-lo ir.

Quando ele se afastou, fiquei parada, ouvindo o som dos seus passos alcançarem o exterior, o cheiro da chuva invadindo o ambiente. E por mais que eu tentasse disfarçar, sabia que aquele tipo de despedida nunca mais me deixaria ser a mesma. Até porque, eu já não podia mais ser.

Continuei ali, parada, com a porta ainda entreaberta.

O som da chuva engrossava a cada segundo avançado, e o vento carregava o cheiro húmido das árvores. Cole desceu os últimos degraus sem pressa, as mãos no bolso, o capuz escuro cobrindo parte do rosto. A silhueta dele desapareceu sob o aguaceiro, até que o som dos passos se misturou completamente ao da tempestade.

As luzes da varanda agora só refletiam no chão encharcado. Fechei a porta devagar, até ouvir o clique suave do trinco. A casa parecia suspensa no tempo como se tivesse se recolhido depois da despedida dele.

Encostei a testa no batente frio da porta. O contraste me despertou, mas também me fez lembrar da sensação da mão dele sobre o mim. O calor. A segurança.

Era estranho como o toque dele parecia mais do que físico, como se meu corpo reconhecesse algo que o pensamento ainda não sabia traduzir. Passeei os olhos pelo ambiente, as luzes do hall refletiam um brilho ameno sobre o piso de madeira, e meu corpo pulsava o calor do toque dele, como se tivesse ficado preso sob a pele. Não era só o beijo… era o que veio junto, aquela sensação inexplicável de que o mundo, de repente, tinha encontrado uma linha secreta entre nós dois.

Fechei os olhos.

Tudo ainda estava ali: o som da voz dele, o riso, o jeito como me olhou antes de sair, e a simplicidade com que disse que quis estar aqui. Por tanto tempo, eu havia me acostumado a agradecer por presenças passageiras, por gentilezas que terminavam no mesmo instante em que começavam. Mas com Cole… havia algo diferente. Algo que insistia em ficar mesmo depois que ele partia, que envolve meu coração e se aloja entre o emaranhado do meu cérebro gerando satisfação genuína. Suspirei, sentindo o peso e o conforto dessa constatação ao mesmo tempo.

Me pus em movimento, atravessando a virada do patamar da escada, alcancei a janela, as gotas quase invisíveis batiam contra o vidro, e, por um instante, eu só fiquei ali, observando. Daqui, pude vê-lo abrir a porta da caminhonete, as luzes do carro dele acenderam, o farol rasgando a neblina que cobria o terreno.

Antes de entrar no carro, ele olhou para trás.

Foi rápido, quase um gesto involuntário, mas os olhos dele me encontraram precisamente pela vidraça. Não houve sorriso, nem tchau com as mãos. Apenas aquele olhar penetrante, seguro, como se dissesse eu sei que você sentiu também.

O motor roncou baixo, e o som fez meu coração reagir, um aperto quente, que subia do peito à garganta. Quando ele se foi pela estrada que cortava a mata, o som do motor desapareceu entre a chuva, aquela linha de faróis foi se dissolvendo entre as árvores até restar apenas o escuro, e o silêncio voltou a se espalhar pela casa.

E foi nesse escuro que vi meu reflexo e percebi: eu ainda sorria.

Encostei o ombro na parede, tentando estabilizar o fôlego. Senti o batimento do meu coração nos pulsos, no pescoço, até na ponta dos dedos. Era absurdo. E ainda assim… impossível de resistir. Era curioso como algo tão simples, uma comemoração, uma conversa, um toque, uma quietude doce, uma sensação de pertencimento que eu não sentia há muito tempo, podia alterar a forma como a noite terminava.

Senti-me viva de um jeito novo.

Confusa, mas viva. Bem viva.

Olhei para o alto da escada, onde o abajur da sala lançava uma luz morna sobre os degraus. Tudo parecia igual, mas eu sabia: não era.

Subi devagar, em silêncio, ouvindo apenas o som distante da chuva e o eco suave do meu próprio coração, que ainda batia no mesmo compasso em que ele me olhara pela última vez.

A cozinha estava silenciosa, apenas o som distante da chuva batendo nas janelas e o leve estalar de louças que Esme retirava de uma caixa muito bem-feita e guardava com o mesmo cuidado de sempre. As luzes do ambiente eram suaves, lançando um brilho acolhedor sobre o mármore e o vapor que ainda escapava da única travessa ali disposta.

O cheiro da torta de abóbora ainda dominava o ar, adocicado, quente, com aquele toque de tempero que parecia abraçar por dentro. Esme estava terminando de organizar as coisas dentro do armário quando me viu parada na entrada.

— Quer um último pedaço antes que eu guarde tudo? — perguntou, sorrindo de leve, num gesto de carinho maternal que lhe era natural.

Eu quase recusei. Estava satisfeita, cansada… mas o aroma era irresistível, como se me puxasse de volta.

— Só um pedacinho. — murmurei, sorrindo de volta.

Ela serviu um pedaço quadrado pequeno, com todo aquele cuidado que só ela tinha, como se até o modo de colocar uma fatia no prato fosse uma demonstração de afeto. O recheio estava morno, a crosta dourada, o prato foi posto diante de mim com um toque quase cerimonial. Peguei o garfo, parti o primeiro pedaço e eu me peguei observando o vapor subir antes de levar a primeira garfada à boca.

O sabor me atingiu de forma inesperada.

Era idêntico.

Fechei os olhos. O doce da abóbora, o orégano, o toque de noz moscada, a textura húmida e a crosta leve, tudo se misturava exatamente como eu lembrava, tudo igual. Idêntico. O mesmo sabor da torta que minha mãe fazia todos os anos, em casa, desde quando eu ainda era pequena demais para entender o valor real de um feriado em que comíamos numa tarde. Por um segundo, não havia mansão Cullen, nem o presente, nem a dor que veio depois. Só a cozinha da minha infância… o som das nossas músicas no ambiente, o riso dela, o cheiro de torta recém-assada unindo-se às fragrâncias do peru e das pequenas sobremesas dispostas na nossa mesa branca manchada pelo tempo.

Minha garganta apertou. Levei as mãos à boca sem pensar, tentando conter o que veio de dentro. O garfo ainda tremia entre meus dedos.

— Amberli? — Esme chamou, baixinho — Está tudo bem? — a voz de Esme soou suave, cuidadosa.

Assenti, respirando fundo, meus olhos marejando antes que pudesse conter.

— Está tudo bem. — mas minha voz saiu fina e trêmula. Engoli o pedaço dentro da boca em seco, e as palavras escaparam quase num sussurro — É igual à torta da minha mãe. — ergui meus olhos inundados na direção dela.

Esme me olhou em silêncio por um instante. Depois se aproximou devagar e com um gesto instintivo, estendeu a mão e a pousou sobre meu ombro. O toque gelado dela era cálido, firme, gentil.

— Então… talvez, de algum modo, ela ainda esteja aqui com você. — disse, com aquela serenidade que só ela conseguia ter.

Olhei para o prato mais uma vez. Uma lágrima desceu antes que eu pudesse impedir, e ainda assim, sorri.

— Acho que sim. Eu sou grata por ter tido ela como minha mãe. — respondi, num fio de voz.

O relógio do visor do celular marcava quase uma hora da manhã quando o sono simplesmente me abandonou. Eu nem me deixei ficar em cima da cama, me revirando de um lado para o outro e ouvindo o som da chuva indo e voltando em intervalos curtos, intercalado com o farfalhar das árvores; peguei meu casaco e desci descalça, tentando não fazer barulho. O chão frio despertou ainda mais meus sentidos. Peguei uma caneca no balcão e a enchi com o restinho de café frio. O gosto amargo me prendeu por um segundo. Era curioso... eu tentava lembrar do cheiro do mar de La Push, do toque do vento, da voz dele. Mas as lembranças vinham como imagens molhadas, borradas, e escorriam antes que eu pudesse segurá-las. A cozinha parecia menor de repente e o ar húmido que vinha da varanda me puxou como um convite. Abri a porta dos fundos devagar.

O frio me envolveu primeiro, depois o som das gotas caindo das folhas. O céu estava baixo, denso, com nuvens que escondiam a lua, mas ainda havia uma claridade azulada que escapava por entre elas e a neblina engolia os contornos das árvores ao redor.

Sentei-me no banco de madeira sob o alpendre. A madeira estava fria, mas o cheiro da chuva era tão familiar que parecia me abraçar. Passei os próximos minutos só olhando a floresta, ouvindo o som distante de um carro passando na estrada.

Meu olhar se perdeu nas poças formadas no jardim. As gotas criavam pequenos círculos, um dentro do outro, e por um instante pensei que talvez fosse isso o que estava acontecendo comigo, círculos dentro de círculos, tudo se expandindo e se misturando até perder o centro.

A neblina corria rente ao chão, se dissolvendo entre os troncos. Cada som, o gotejar, o farfalhar leve das árvores, parecia me lembrar que eu estava viva. E por algum motivo, essa simples constatação me emocionou. Talvez o plano daquele vampiro fosse que eu nunca voltasse à vida. À minha vida.

Fechei os olhos e respirei fundo.

Pensei em hoje de dia, na surpresa, nas risadas, no calor da cozinha cheia de vozes. Nos rostos que, de alguma forma, haviam me acolhido como se eu sempre tivesse pertencido ali.

E nele.

Em Cole.

Não era só o toque, ou sequer os recentes beijos.

Era o que vinha sendo gerado bem antes; sua proximidade, o modo como ele me olhava, como parecia entender o que eu ainda tentava traduzir em mim mesma. Aquela calma consciente, segura, que ele trazia, contrastando com a confusão que eu fingia dominar. Quando ele falava, eu acreditava, e quando ele se calava… eu sentia. Talvez fosse isso que me assustava, mesmo quando eu tento me convencer de que não.

Depois de tanto tempo me protegendo, era estranho perceber um homem podia chegar assim tão perto sem quebrar o que restou de mim, mas sim, sem querer, reconstruir. Não sei o que há entre nós, mas há.

O tempo passou devagar.

A chuva já havia se transformado em uma garoa tão leve que mal fazia som ao tocar o telhado, e a floresta parecia adormecida sob o véu da neblina.

Enfiei as mãos nas mangas do casaco, tentando conservar o pouco de calor que ainda me restava, mas o frio começou a me alcançar pelos pés, subindo pelas pernas, e só então percebi o quanto a madrugada havia avançado. A brisa mais fria me arrancou um arrepio, os dedos dos pés nus se encolheram.

— Você vai acabar ficando doente. — a voz doce veio de repente, cortando o silêncio.

Foi então que ouvi passos leves se aproximando de mim, tão sutis que quase se confundiam com o som da chuva. Quando me virei, Renesmee estava ali, com uma manta creme envolta nos ombros, os cabelos soltos e um sorriso gentil. O olhar dela tinha aquele brilho constante, entre o humano e o impossível.

— Eu sabia que te encontraria aqui. — disse ela, baixinho, como quem não quer perturbar a noite — Está muito frio pra você ficar aqui fora. — deu um pequeno sorriso — Humanos não foram feitos pra enfrentar o clima de Forks por tanto tempo, lembra?

— Eu… não conseguia dormir. — sorri, meio sem jeito — Eu só… precisava de mais um pouco de ar.

— Então já teve o suficiente. — ela se aproximou e se sentou ao meu lado, estendendo metade da manta sobre mim. O tecido ainda tinha o calor do corpo dela, e o gesto simples me fez sentir acolhida. — Eu sei... O primeiro Dia de Ação de Graças com a gente foi intenso. — comentou, olhando para a chuva — Teve muita emoção envolvida… e deve ter te sobrado um pouquinho nos pensamentos para serem despejados de madrugada. Você pensa demais quando o mundo desacelera, não é?

— Acho que os pensamentos estão se despejando em dobro. — assenti, rindo de leve — Acho que é o único momento em que meus pensamentos me escutam de volta.

Renesmee virou o rosto para mim, os olhos castanhos refletindo a luz suave do jardim.

— Dobro… ou talvez quadruplicado por um certo homem que não disfarça tão bem assim o que sente?

Fiquei em silêncio. Não por constrangimento, mas porque ela tinha acertado em cheio. Respirei fundo antes de responder:

— Eu não sei o que é isso, Ness. Só sei que parece… certo. Mesmo sem explicação.

— Às vezes, é assim mesmo. As conexões certas não pedem nossa permissão, só acabam acontecendo. — ela sorriu, com uma calma sábia que parecia vir de outro tempo.

Ficamos em silêncio depois disso, apenas ouvindo o vento se arrastar entre as folhas.

Apenas duas mulheres, sentadas sob a chuva de Forks, observando o mundo se recolher, a quietude da noite não me pesava, ela apenas… me abraçava. Renesmee manteve o olhar no horizonte por um tempo, a chuva até havia diminuído, e só restavam os pingos esparsos caindo das telhas, mas acredito que logo iriam se intensificar.

— Sabe… — ela começou, com a voz quase sussurrada — eu costumava achar que sentimentos só faziam sentido quando vinham com lógica. Que era preciso tempo, contexto, história. Mas um dia, algo me mostrou que existem ligações que não obedecem a nenhuma dessas regras.

Olhei para ela, e o semblante tranquilo contrastava com a profundidade do que dizia.

— E o que você fez? — perguntei, curiosa, mas também com um nó discreto na garganta.

Ela riu de leve, um som doce, quase nostálgico.

— Eu lutei contra, no começo. Achei que precisava entender antes de sentir. Mas… entender e sentir raramente andam de mãos dadas.

Fiquei em silêncio. Aquilo me atingiu de um jeito estranho, como se ela tivesse traduzido o que eu vinha tentando nomear desde a primeira vez que olhei pra Cole sendo segurado pelos meninos, e senti o mundo mudar de ritmo desde então.

— No fim, percebi que o mais bonito é quando o sentimento não pede nada. — ela continuou — Ele só existe. Cresce no espaço que você dá para ele existir.

Assenti devagar.

O vento soprou uma rajada mais fria, e a manta escorregou um pouco do meu ombro. Renesmee ajeitou o tecido novamente, o olhar sereno voltando a se perder na escuridão.

— Você parece enxergar muito além do que as pessoas dizem. — comentei, com um sorriso pequeno. As pessoas no caso, sou eu mesma — É como se conseguisse ler o que a outra sente antes mesmo que ela descubra.

Ela olhou para mim com ternura.

— Às vezes, é só porque já estive nesse lugar. E sei o quanto é assustador quando o coração se adianta.

Aquela frase ficou em mim. É assustador quando o coração se adianta. Era exatamente isso.

— Eu ainda não sei o que fazer com tudo isso. — confessei, num tom baixo, quase num sopro — É tão… novo. E ao mesmo tempo parece que sempre esteve aqui.

Renesmee apenas sorriu.

— Então não faça nada. Sei que está conseguindo, só permita. Às vezes, é o bastante.

A chuva voltou a cair, intensa e constante. Ficamos ali, em silêncio, ouvindo o som dela contra o telhado, deixei o som da floresta se misturar com meus pensamentos. Dois mundos diferentes: o meu, tão humano e quebrado, e o dela, que parecia feito de uma calma que o tempo não tocava. E, de alguma forma, essa diferença não nos separava; apenas tornava a conversa mais verdadeira. Depois de um tempo, Renesmee se levantou, apertando a manta ao redor do seu corpo com uma mão, me encolhi pela súbita exposição ao frio e a vi me estender a outra mão, um gesto simples, quase infantil. Olhei para a mão dela, depois para a neblina se fechando ao redor.

— Vem. Vamos pra dentro. O frio de Forks não tem piedade nem dos fortes.

Aceitei a mão estendida. Recolhendo meus dedos frios contra sua pele tão quente.

O contraste entre os ambientes foi imediato, o ar quente e suave da casa me envolveu como um cobertor invisível, com o cheiro de madeira molhada e algo adocicado vindo da cozinha. A iluminação era baixa, vinda de alguns abajures que Esme deixava acesos à noite, lançando tons dourados sobre o chão de madeira. A mansão tinha um silêncio diferente naquele horário, acolhedor.

Renesmee me guiou até a cozinha, deixou a manta sobre a cadeira e foi direto acender a luz sob o balcão e abriu uma das gavetas. O som delicado de duas canecas sendo colocadas sobre a bancada quebrou o silêncio. Eu permaneci perto da janela, observando as gotas de chuva deslizarem pelo vidro. Cada uma parecia refletir um fragmento do que eu não conseguia nomear. Ela se moveu com uma naturalidade silenciosa, acendendo a chama do fogão como quem reacende uma lembrança.

— Quer um chocolate quente? — perguntou, já se virando para pegar o leite na geladeira.

— Você sabe fazer isso? — sorri, um tanto surpresa.

Ela deu uma risadinha, separando alguns paus de canela.

— Herança da minha mãe. Ela sempre diz que certas coisas simples mantêm o coração humano mais forte. Senta um pouquinho. — disse, apontando para uma das banquetas — Vai demorar só alguns minutos.

Me acomodei em uma das banquetas, e fiquei observando-a se mover com naturalidade. Renesmee abriu o armário superior e pegou uma barra de chocolate bem concentrada em cacau, cuidadosamente embalada. Quebrou alguns pedaços, e o som seco do chocolate se partindo ecoou suave pela cozinha. Depois, colocou-os numa panela pequena junto com a canela e o leite, e o aroma começou a mudar o ar.

Ela mexia devagar com uma colher de pau, cada gesto leve, os olhos concentrados, o vapor subindo da panela enquanto o aroma doce se espalhava aos poucos pela cozinha. Era curioso como, mesmo sem precisar comer sempre, Renesmee fazia tudo com carinho, como se cozinhar fosse uma forma de permanecer ligada a esse lado do mundo.

— Minha mãe faz desse jeito. — disse, com um meio sorriso — Sempre em fogo baixo. Dizia que o segredo era deixar o chocolate derreter no próprio tempo, sem apressar.

O modo como ela falou “minha mãe” tinha um peso bonito, cheio de ternura. Continuei em silêncio, só ouvindo a colher riscar o fundo da panela num compasso quase hipnótico.

— As primeiras vezes que ela fez esse chocolate, — continuou Renesmee, sem tirar os olhos do vapor — foi na casa do meu avô, Charlie. Ele ainda era xerife de Forks naquela época. — fez uma pausa leve e riu baixinho — E naquelas noites frias, o cheiro de chocolate tomava a cozinha inteira e ele fingia reclamar do barulho, mas sempre acabava pegando uma caneca também.

O riso dela soou como uma lembrança viva. Havia tanto afeto nas palavras que, por um momento, parecia que Bella e Charlie estavam ali, ecoando entre o som da chuva e o estalar brando da chama.

Renesmee desligou o fogo, pegou as canecas brancas, com filetes dourados nas bordas e despejou o líquido espesso com cuidado, o som do líquido sendo despejado na caneca foi reconfortante. O vapor subiu em fumaças finas, e o cheiro do chocolate derretido com leite fresco encheu o ambiente.

Ela me entregou uma delas e se sentou na banqueta, cruzando as pernas com naturalidade. Toquei a caneca com as duas mãos; o calor da cerâmica atravessou meus dedos, reconfortante, aquecendo o que o frio havia roubado.

— Acho que é por isso que gosto tanto de fazer isso até hoje. — disse — Não é tanto pelo sabor. É pela memória.

— Ela deve ter sido uma mãe incrível. — falei, num tom baixo, quase respeitoso.

— Ela ainda é. — sorriu — Só que… agora ensina o mundo de outras formas.

Dei um pequeno gole e fechei os olhos, sentindo o sabor rico e familiar do chocolate. Ficamos em silêncio por alguns segundos, e eu sorvi um pouco mais do chocolate. O sabor era intenso, cremoso.

— Acho que entendo o que você quis dizer. — murmurei — Às vezes, certas coisas simples fazem a gente lembrar o que é estar viva.

— Exato. É como se o amor tivesse gosto também. — Renesmee assentiu, olhando para o vapor que subia entre nós.

— Muito obrigada, Nessie. — murmurei — Pelo chocolate… e por hoje.

— Foi um bom dia. — respondeu, apoiando-se no balcão — Você trouxe uma energia bonita pra casa, sabia?

— Eu? Acho que foi o contrário. — baixei o olhar, rindo baixinho.

— Não. — insistiu ela, gentil — Às vezes, quando chega alguém que ainda sente tudo de forma tão viva…, isso lembra a gente do que é essencial.

O silêncio que se seguiu foi doce, confortável, apenas o som do vento lá fora e o tilintar leve da colher que ela usava para mexer a própria bebida. Olhei para o vapor que subia da minha caneca e, por um instante, imaginei o rosto de Cole, o jeito como ele me olhara antes de partir. Havia uma paz naquela lembrança e um calor que não vinha do chocolate.

Renesmee percebeu meu breve desvio de olhar, mas não disse nada. Apenas sorriu, girava devagar a colher dentro da caneca, observando o redemoinho de chocolate até ele se desfazer. A expressão dela era tranquila, mas havia algo de distante nos olhos gritantes.

— Sabe... às vezes parece que o mundo inteiro fica diferente, e a gente continua tentando acompanhar. — disse, olhando para o chocolate quente dentro da caneca — E tem dias que esse esforço esgota mais do que o próprio cansaço.

— Foi o que pareceu acontecer hoje? — perguntei, tentando desviar o foco de mim.

Renesmee deu um leve sorriso, como quem entende mais do que demonstra.

— Não. Foi o que pareceu acontecer em você.

O som do vento lá fora se intensificou. Eu encarei o vapor subindo da minha caneca, deixando a respiração se misturar a ele.

— Não sei explicar. — minha voz soou menor do que eu pretendia — É como se algo tivesse se aberto... mas sem forma. Não é tristeza, nem alegria. Só... um espaço.

Ela apoiou o queixo na mão, pensativa.

— Às vezes, quando algo desperta dentro da gente, acontece de vir primeiro o vazio. É o espaço se fazendo pra caber o que vem depois.

Olhei para ela por um instante. O olhar de Renesmee era calmo, mas intenso, gritante, como se enxergasse por dentro da névoa que eu mesma não conseguia atravessar.

— Você fala como se soubesse o que vem. — murmurei.

— Não. — ela respondeu, sorrindo de canto — Mas eu aprendi que o caos não é o fim de nada. É só um novo ponto de partida.

Me ajeitei um pouco sobre o assento firme da banqueta. A frase ficou girando na minha cabeça “o caos não é o fim de nada”. Soava estranhamente parecida com algo que eu sentia, mas ainda não teria coragem de dizer em voz alta. Ficamos em silêncio de novo.

Do lado de fora, a chuva engrossava, batendo nas telhas num ritmo compassado, quase hipnótico. Virei o olhar em direção à janela, apreciando o movimento e som da tempestade, e o calor do sabor do chocolate. Traguei uma respiração lenta. Talvez o vazio não fosse ausência. Talvez fosse o começo de um espaço novo o mesmo que Cole, sem saber, havia aberto dentro de mim.

— Sabe… meu avô, Charlie, era um homem de poucas palavras. — começou ela, com um sorriso nostálgico — Mas cada gesto dele falava mais do que qualquer conversa longa poderia.

Fiquei quieta, atenta. Ela parecia ter voltado a outro tempo.

— Ele tinha aquele jeito meio rabugento, sabe? — prosseguiu, rindo baixo — Sempre com um bigode que era sua marca registrada, o café sempre pronto antes do nascer do sol, e uma mania de deixar a televisão ligada só para ouvir o barulho, mesmo quando não estava assistindo nada.

— Parece aquele tipo de pessoa que preenche o silêncio só por estar ali. — comentei, sorrindo.

— Exatamente. — ela disse, animada — Ele era o silêncio que aquecia aquela casa. — deu uma pausa, e os olhos brilharam suavemente — Minha mãe costumava dizer que, quando era criança, aquele silêncio às vezes a deixava maluca. Mas depois… quando cresceu, percebeu o quanto era bom. — as palavras dela ganharam um tom mais baixo, quase reverente — Eu acho que entendo o que ela quis dizer. — Renesmee pousou a caneca na bancada e apoiou o queixo nas mãos, olhando para o nada com um pequeno sorriso — Lembro de uma noite em especial. Chovia muito, como hoje. Eu devia ter uns cinco anos fisicamente. Minha mãe e eu fomos visitar o vovô. Ela preparou esse mesmo chocolate quente na cozinha pequena dele, e o cheiro tomou a casa toda. Ele reclamou “vocês vão fazer eu sonhar com doceria!” mas acabou bebendo duas canecas. E olha que a caneca dele era enorme! — ela deu uma risadinha curta — E depois, ficou sentado na poltrona de couro velha, vendo um jogo de beisebol que nem parecia estar assistindo de verdade. — suspirou, com ternura — Eu me sentei no colo dele, e ele ficou mexendo no meu cabelo até eu adormecer. Acho que nunca me senti tão segura quanto naquele instante...

Fiquei em silêncio. A voz dela tinha mudado de tom, havia ali uma mistura de saudade e gratidão que me apertou o peito.

— Você sente falta dele? — perguntei, baixinho.

— Todos nós sentimos. Mas é uma falta boa. — ela me olhou, sorrindo — Ele deixou pedaços de si em tudo o que amava. No café da manhã, nas botas encostadas na porta, nos encontros de pesca, nas risadas que minha mãe solta quando fala dele. Essas coisas… nunca se apagam.

Por um momento, só o som da chuva respondeu. E eu, ali, sentada ao lado de uma jovem adulta, sem idade definida, que tinha o brilho de duas gerações nos olhos: Bella e Charlie; senti que algo daquela família também me acolhia. Renesmee esticou a mão e tocou levemente meu braço.

— Você deve estar com sono. Vamos subir?

Assenti.

Ela pegou as canecas vazias e colocou-as na lava-louça, o gesto simples e cuidadoso, e juntas caminhamos pelo corredor iluminado pelas luzes amareladas, o som suave da madeira sob nossos passos, o eco distante da chuva lá fora. Subimos as escadas devagar, e antes que eu entrasse no quarto, Renesmee me olhou com um carinho sereno.

— Sabe, Amberli… meu avô sempre dizia que as pessoas boas acabam se encontrando. Mesmo quando vêm de lugares diferentes. — ela sorriu — Acho que ele teria gostado de você.

Aquilo me pegou de surpresa, de um jeito doce, profundo. Sorri, tentando conter o nó na garganta.

— Espero que sim.

Ela apertou meu ombro de leve num abraço rápido e se despediu. Fechei a porta atrás de mim. Quando entrei no quarto, o calor do chocolate ainda me aquecia por dentro, mas era outra coisa que fazia o peito latejar: a sensação inesperada de estar sendo parte de algo maior do que eu. O cômodo estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pela luz fria da lua que atravessava as cortinas translúcidas. Acendi a luz do abajur. O som da chuva havia diminuído, mas o ar ainda trazia aquele perfume molhado de floresta, um cheiro vivo, que parecia entrar pelas emendas da janela e me tocar a alma.

Aproximei-me do vidro, sentindo a leve diferença de temperatura no ar. Lá fora, a neblina dançava entre as copas das árvores, dissolvendo-se sob a claridade pálida. Por um instante, só respirei. E então, como se o pensamento tivesse esperado o silêncio certo para nascer, ele veio.

Cole.

O nome dele soou dentro de mim sem aviso, sem esforço, como se sempre tivesse estado ali, à espreita entre uma lembrança e outra. A sensação era estranha, doce e inquieta ao mesmo tempo. Não era apenas a lembrança do rosto dele… era o que vinha junto: a segurança muda quando ele me olhava, o modo como a presença dele fazia tudo parecer mais simples.

Fechei os olhos, e por um segundo pude sentir o calor das mãos dele na minha pele coberta, mesmo ele nunca ter me tocado daquela forma. Era como se meu corpo o reconhecesse antes da minha razão permitir. Abri os olhos. A lua refletia no vidro, e por um instante, vi meu próprio reflexo se misturar ao céu. Senti o coração bater lento, uma batida firme, como se respondesse a algo invisível.

E então, veio o som. Um uivo distante, profundo, rasgando o ar húmido da noite. Depois outro, e mais um. Não era apenas um chamado. Era uma conversa antiga, que o vento carregava entre as árvores. Meu peito se apertou, mas não de medo, havia algo reconfortante naquele som, como se, de algum modo, eu estivesse sendo lembrada de que ele estava lá fora. Que mesmo quando o mundo dormia, alguém vigiava. Encostei a testa no vidro gelado e deixei o som me atravessar.

Por um momento, desejei poder responder, não com palavras, mas com o mesmo instinto. Quase pude imaginar o reflexo de Cole entre as sombras da floresta, de olhar erguido, sentindo o vento, como uma vez o vi. Um arrepio suave percorreu minha pele. Aquele era o tipo de sentimento que não pedia explicação. E ali, com o coração leve e a mente enevoada, percebi: não era apenas gratidão. Nem curiosidade. Era um começo.

Afastei-me da janela, apaguei o abajur e me deitei.

A chuva recomeçava lá fora, e entre o som dos pingos e o bater calmo do meu coração, pensei em Cole… e naquele sentimento silencioso que se expandia dentro de mim, como o vapor quente de uma caneca nas mãos de alguém que, finalmente, encontrou abrigo. O som dos uivos ainda ecoava distante, misturado à chuva fina. Fechei os olhos e deixei o sono me levar, levando comigo o calor invisível de alguém que, mesmo longe, parecia estar mais perto do que nunca. Não havia muitas respostas, mas também não havia medo. Só uma sensação calma e intensa de que algo em mim começava, finalmente, a florescer.