Sempre ao seu Lado

55 𝟐𝟔 𝐝𝐞 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➶


Sempre ao Seu Lado

Capítulo 51

Acordei antes do leve indício de sol, sem entender bem o motivo.

A casa estava mergulhada naquele silêncio espesso que só existe entre as quatro da manhã. O quarto ainda estava com um toque frio na minha pele mesmo que eu saiba que há aquecedor em todos os cômodos, e o ar tinha aquele cheiro de chuva que antecede o amanhecer. Fiquei alguns minutos deitada, tentando lembrar o que me tirara do sono.

Nada. Nenhuma lembrança, nenhum sonho nítido.

Só a sensação de ter vivido algo intenso, como se meu corpo ainda carregasse ecos de uma emoção que a mente não fez questão de trazer. Me espreguicei sobre o colchão macio por um momento e fiquei imóvel, só ouvindo o som do vento contra as janelas da parede de vidro e sentindo o bater ritmado do meu coração. Senti o canto dos lábios se curvarem num leve indício de um sorriso, “o calor ainda não tinha ido embora” pensei, tentando distrair a mente com o que tinha pela frente, mas o pensamento voltava sempre pro mesmo lugar diante da lucidez.

Cole.

Me remexi debaixo do cobertor, indo cada vez mais para a borda da cama. Me sentei pondo meus pés para fora a procurar pelos chinelos e fiquei ali, respirando devagar. Passei as mãos pelo rosto, tentando espantar o torpor, a inquietação mansa, sem forma, sem urgência, mas impossível de ignorar.

O céu ainda guardava aquele cinza sereno de Forks quando empurrei as bordas das cortinas, a penumbra cortada apenas pelo brilho distante da lua refletindo na janela. Meus dedos moveram a trava discreta entre o linear das junções dos vidros e o ar frio escapou pela fresta da janela e trouxe consigo o cheiro húmido das árvores, um lembrete de que o dia estava quase começando.

Por um instante, permaneci ali, apenas observando a névoa entre os galhos altos das árvores se perdendo de vista, o vapor da minha respiração desaparecer no ar. A brisa fria ainda parecia diferente, mesmo dias depois e a chuva em Forks parece ter o mesmo ritmo que aquela respiração entre nós na sua sala. A cada respiração, uma lembrança se misturava ao presente, aquele abraço, a presença dele, o modo como meu coração pareceu não caber, por um instante, dentro de algo tão simples.

Dois dias.

Foi o tempo que levei para conseguir respirar sem lembrar com nitidez a sensação do calor febril do toque dele. Ou tentar, pelo menos. Dois dias desde o cais, que senti o sal nos lábios, e a lembrança ainda vinha em lampejos, o calor das mãos dele, o toque dele nos dedos, o som do mar atrás de nós, o instante em que tudo parou antes de recomeçar. Parece que o mundo inteiro se moveu meio centímetro, só o suficiente para que nada voltasse exatamente pro lugar e eu fosse a única a perceber.

As manhãs voltaram a ser as mesmas: o café-da-manhã que esfria antes da metade, Hilary espalhando os brinquedos pelo tapete, Helena mudando e articulando frases mais longas e perfeitas perto da janela, o som distante da chuva contra o vidro. Mas dentro de mim, tudo anda em silêncio. Um silêncio que não pesa, só... me faz relembrar. Cole vinha à minha cabeça até nos momentos mais banais de quando eu enxaguava a louça, quando dobrava as roupas das meninas junto de Esme, quando o vapor do banho embaçava o vidro e o reflexo me confundia. Era como se houvesse uma presença pairando, não física, mas constante, e não era sufocante. Era... real demais.

Eu não podia conter a intensidade dos meus pensamentos. O pulsar do coração soava alto e constante. Cole havia sido sincero, mais sincero do que ele já costuma ser. Sua revelação naquela manhã abriu algum caminho na minha mente que me mostrava que nada seria como antes. E para mim, o antes já havia muitos significados a serem descobertos, agora a realidade estava se remoldando e não dependia de eu querer suas predestinações para que acontecesse.

O vento parecia diferente quando voltamos para o carro naquele dia. Não era mais só o frio cortante cheio de humidade e salgado de La Push, havia algo entre as rajadas, como o resquício de um perfume impossível de nomear, algo que fazia o ar vibrar de um jeito estranho. Eu senti o gosto do sal impregnado nos meus lábios, mas não sabia mais se vinha do mar ou do que restou do meu toque sobre os lábios dele.

Cole abrira a porta para mim, o gesto simples, quase automático, e mesmo assim algo nele me fez prender a respiração, e durante o trajeto de volta, o silêncio preencheu tudo. Não um silêncio pesado e inquietante, era um daquele que apenas dizia mais do que qualquer palavra que um de nós poderia proferir para o preencher. Lembro-me bem de ter me pegado olhando a linha do horizonte, e outras paisagens borradas pela neblina enquanto pensava que talvez fosse assim também dentro de mim: tudo encoberto, mas se movendo lá no fundo.

Cole não apareceu. Nem por mensagem, ou sequer por ligação.

E, por algum motivo, isso não doía. Só deixava o ar mais denso, como se ele ainda estivesse por perto de algum modo invisível, de uma maneira que eu ainda não aprendi a entender.

Rosalie me olhou diferente naquela noite, quando percebeu o quanto eu me distraía. Não disse nada, não perguntou nada. Talvez porque já soubesse, do jeito que ela sempre sabe. E o restante da família são discretos o suficiente para evitar quaisquer olhares que me constrangesse.

Fechei as cortinas.

Caminhei para o banheiro, para reordenar meu aspecto, diante do espelho eu apenas me permiti realinhar os fios de cabelo com os dedos, deixando-os livres de qualquer acessório que me desse suporte para contê-los de cair sobre meu rosto.

No closet, procurei as peças confortáveis de ginástica que Alice havia me presenteado. Tecidos fleece térmicos de alta qualidade que se adequavam perfeitamente às minhas necessidades e calcei as botinas de tricô. Não demorei muito para sorver o resto da água que deixei no copo sobre a mesa de cabeceira na noite anterior, puxar o colchonete e iniciar a sequência de exercícios do dia. Deixei o celular por perto para temporizar corretamente cada sessão.

Ainda era cedo o suficiente para que Helena e Hilary estivessem dormindo quando saí do quarto, mas ainda assim chequei cada uma pela fresta das portas. Caminhei em silêncio pelo corredor que ainda estava mergulhado naquela penumbra que antecede o amanhecer. O silêncio era quase total, quebrado apenas pelo sussurro do impacto dos meus próprios passos, abafados pelas solas da minha botina de tricô vermelho.

A casa tinha um jeito curioso de dissipar à noite. As paredes pareciam guardar o som da chuva que cessara há pouco, e o ar trazia um perfume frio, de madeira antiga e lavanda. Segui sem nenhum destino em mente, passando por degraus e corredores, sem acender as luzes, guiada apenas pelas frestas azuladas que vinham das janelas altas. Passei pela porta entreaberta da biblioteca, pelas cortinas imóveis das salas discretas aos cantos, tudo banhado pela luz que vinha das longas janelas de vidro num reflexo de que tudo ainda dormia.

Segui o novo corredor até o fim, guiada mais pelo tédio do que por um propósito. As janelas altas mostravam o jardim encharcado, e por um instante, senti que eu era só mais uma sombra se movendo entre tantas outras. Por um instante, pensei ter ouvido o estalar do aquecimento, mas era só o rangido discreto de um móvel e um som distante da floresta lá fora.

Quando alcancei uma porta que eu não sabia para onde dava, hesitei. O metal frio da maçaneta me fez estremecer, como se aquela parte da casa fosse bem mais isolada do restante. Abri devagar.

O som suave de algo metálico ecoou antes que eu pudesse entrar. O cheiro de graxa, borracha nova e couro perfumava o ar. O chão, de concreto liso, refletia as luzes do teto como se fosse uma placa de vidro. A iluminação era distribuída em linhas retas, sem sombras, deixando tudo visível e com uma clareza quase incômoda. As lâmpadas não piscavam, nem vibravam. As paredes, pintadas em um tom acinzentado, sustentavam prateleiras com ferramentas, panos e produtos de limpeza perfeitamente alinhados e toda a extensão da parede à minha direita era composta de armários, limpo e impessoal.

O primeiro carro próximo de mim era um Volvo prateado, parado à minha esquerda. As linhas da lataria pareciam cortadas a laser, e o brilho do metal se espalhava pelo chão em reflexos frios. Ao lado dele, o Jeep vermelho impunha presença com sua altura e robustez, como se estivesse sempre pronto para sair em disparada. Um pouco mais adiante, um BMW preto conversível reluzia sob a luz, o interior de couro vermelho visível através do para-brisa limpo demais para parecer real.

Havia mais, numa fileira de veículos, cada um com personalidade própria, mas unidos por uma mesma aura de elegância silenciosa. Nenhum apresentava arranhões, poeira ou marcas de uso. Até os pneus pareciam novos, o tipo de perfeição que só se encontra em vitrines ou vídeos pela internet.

Entre eles, estava o meu carro, discreto, modesto, um contraste evidente entre tantos modelos luxuosos. A pintura já sem brilho denunciava os anos de uso, ou a falta dele; e o reflexo opaco na lataria parecia destoar do restante. Mesmo assim, havia algo reconfortante em vê-lo ali, alinhado aos outros como se tivesse direito ao mesmo espaço. Por um momento, senti como se ele representasse exatamente o que eu era naquele cenário: fora do padrão, mas ainda assim, presente.

Fiquei alguns segundos imóvel, observando tudo. O reflexo das luzes criava linhas que cortavam o chão, e quando me aproximei de um dos carros, vi minha própria imagem no capô prateado que estava levantado, minha imagem num contorno difuso, frágil, cercado de brilho. Foi impossível não pensar em como aquele lugar parecia o oposto da minha vida: ordenado, intocado, previsível. E ainda assim, havia algo de reconfortante em estar aqui. Talvez fosse a calmaria momentânea, ou a sensação de controle que o ambiente transmitia. Por um breve instante, senti que poderia me encaixar, mesmo que fosse só por um reflexo.

Rosalie estava ali, debruçada sobre o capô do carro prateado de um modelo antigo, o rosto voltado para o motor, os cabelos dourados como ouro estava reluzindo sob a luz, presos em um coque firme, uma chave inglesa na mão e a concentração de quem encontrava paz na mecânica.

Ela não parecia surpresa ao me ver; apenas levantou o olhar, e por um instante, a beleza dela pareceu quase cortante no silêncio.

— Não consegue dormir? — perguntou, a voz baixa, sem julgamento.

Eu apenas balancei a cabeça. Eu estava ali só para observar, ou assim pensei. Ficamos em silêncio por alguns instantes. Rosalie não era de muitas palavras superficiais, mas havia algo nela que me fazia querer conversar, estar próxima. Talvez porque, apesar da frieza inicial, ela nunca me tratou com pena. Sempre direta, às vezes dura, mas honesta. Eu tenho um carinho enorme por ela, assim como eu sei que ela tem comigo.

— Esse modelo é lindo. — comentei — Você tá restaurando ele?

— Cadillac, 1957. — respondeu, orgulhosa — Vai ficar impecável.

Rosalie apoiou as mãos no capô do carro e desviou o olhar por um instante, como se ponderasse se devia ou não dizer algo. A expressão dela era serena, mas havia uma atenção profunda nos olhos, a atenção de quem vê além do que é dito.

— Você acordada a essa hora... Está muito cedo até pra pensar. — murmurou — Mas você parece estar fazendo exatamente isso.

Soltei um riso curto, quase inaudível.

— Acho que é o contrário. Não estou pensando em nada nesse momento... e isso é o que mais me assusta. — comentei fazendo piada.

Ela inclinou um pouco a cabeça, alguns fios dourados caindo sobre o rosto, a luz desenhava reflexos metálicos nos fios dourados do cabelo dela.

— Às vezes, o silêncio faz barulho. E quando o corpo desacelera, a mente tenta preencher o silêncio. Nem sempre o que aparece é fácil de olhar.

— É..., Jasper já comentou algo parecido...

Fiquei quieta, o olhar perdido em algum ponto da parede cheia de armários. O ar da garagem era frio, húmido, carregado de um perfume distante de metal e chuva.

— Desde aquele dia com o Cole... tudo parece mais... intenso, sabe?... As coisas, as pessoas, o som do vento. ... tudo parece mais vivo pra mim. Mais nítido. Como se eu tivesse esquecido como era sentir e, de repente, lembrado. E isso... me confunde. — deixei que soubesse — É como se eu tivesse voltado a sentir de um jeito que não sei controlar. — admiti.

Rosalie me observou em silêncio por alguns segundos. Depois deu um meio sorriso, delicado e preciso.

— Confunde porque você achou que não voltaria a sentir. — ela se afastou do carro e veio um pouco mais perto, as botas de salto leve tocando o chão de concreto quase sem som — Isso não é fraqueza, Amberli. É o corpo lembrando que ainda está vivo.

As palavras tocaram em algo que eu não esperava. Engoli em seco, desviando o olhar.

— E se eu estragar o que está começando a dar certo? — respirei fundo, tentando processar — Se eu não souber lidar com o que vem depois?

Ela caminhou até ficar diante de mim. Havia uma firmeza contida em sua postura, algo maternal, protetor. Rosalie inclinou a cabeça, observando-me em silêncio. Havia uma vulnerabilidade tão discreta em seu rosto que, por um instante, parecia que ela também estava falando de si mesma.

— Todos nós já estragamos alguma coisa que amávamos. — disse, baixinho — O erro é tentar não amar de novo por causa disso. — ela respirou fundo e olhou para a janela estreita no alto da garagem, onde o céu ainda estava escuro, apenas o contorno das árvores se destacando na névoa — Eu demorei muito pra entender isso. E perdi mais tempo do que gostaria.

Quando seus olhos voltaram para mim, o brilho neles não era de advertência, era de empatia.

— Então você aprende. E tenta de novo. — os olhos dela, dourados estavam calmos — Mas não deixe o medo decidir antes de você sentir o que é real, Amberli. — havia algo no tom dela, talvez a serenidade de quem já se quebrou demais e aprendeu a se recompor, que aquecia.

Fiquei ali, quieta, digerindo cada palavra. E estas começaram a se entrelaçar em tantas outras das quais ela já vinha conversando comigo, e agora percebo que demorou dias para eu entender. Não porque as palavras da Rosalie fossem complicadas, mas porque elas carregavam mais camadas do que eu estava disposta a encarar no momento.

Na hora, eu só ouvi o alerta. Só senti a responsabilidade de que Cole não era invulnerável e de que eu carregava peso suficiente para machucar. Mas não percebi que ela também tinha me dado algo, um espelho. Quando ela disse que eu era como ele, não estava falando de paciência ou de fé cega. Ela falava daquela teimosia de continuar, mesmo depois de perder. Da recusa em desistir, ainda que o chão esteja rachado sob os pés.

E eu… eu tinha esquecido disso em mim.

Talvez porque a vida, nos últimos anos, tivesse sido mais sobre sobreviver do que sobre acreditar. Perder a Angie, perder a Anna, perder quem eu era, foi uma erosão lenta, tão silenciosa que nem percebi.

Agora, lembrando do jeito que Cole me olhou naquele dia em La Push, entendo o que ela quis dizer com “perigoso”. Não era um perigo para mim.

Cole… ele acredita. Não importa o que já perdeu. E isso, como ela disse, o torna perigoso. Não porque machuca, mas porque não sabe soltar.

O perigo de alguém que não se cansa de remar, mesmo quando a correnteza ameaça virar o barco. Era o perigo de alguém que se recusa a soltar a mão de quem ama, mesmo quando a correnteza parece invencível. E se eu não tomasse cuidado, se eu não soubesse reconhecer, poderia ser arrastada com ele.

Ou… ou me salvar. Poderia descobrir que ainda sei nadar.

E talvez, só talvez, Rosalie tivesse visto que eu ainda tinha isso. Que por mais que eu tivesse me esquecido, havia um pedaço meu que também não sabia desistir.

O que me surpreendia era perceber que ela tinha razão.

— Rose... — sondei-a quando meus pensamentos me puxaram para outra questão.

— Hum?

— Você já ouviu a palavra imprinting?

Ela paralisou por meio segundo. Um segundo inteiro. Foi quase imperceptível, mas eu notei.

— Onde ouviu isso? — perguntou sem olhar pra mim.

— Em uma conversa. — foi a única coisa que quis responder, tentando parecer desinteressada — Achei... curioso. É algum tipo de saudação quileute?

Rosalie largou a chave devagar e limpou as mãos num pano. Depois me olhou, séria.

— Isso não é uma coisa nossa.

— Nossa...? — falei devagar esperando ela ser mais clara.

— Nossa, como em nossa espécie. — ela cruzou os braços, especificando — E também não é algo que eu tenha muita paciência pra explicar. Ou pra aceitar.

Aquilo me intrigou mais ainda.

— Mas você sabe o que é?

— Eu sei. — respondeu tranquila — E você vai saber também. Quando for inevitável. Mas se você for inteligente, Amberli... não corra atrás desse tipo de resposta. Nem toda curiosidade vale o preço.

E voltou ao carro como se o assunto estivesse encerrado. Passou os dedos pela lateral metálica, limpando com o polegar algo invisível aos meus olhos, como se aquele gesto exigisse toda a atenção do mundo.

Nada além disso.

O som da chuva leve começando lá fora se misturava ao ruído distante do vento contra as árvores. Por um instante, fiquei ali parada, observando-a. O foco com que ela olhava o motor aberto, o jeito contido de respirar, a quietude que, mesmo sem dizer nada, parecia gritar verdades que não cabiam em voz alta, verdades essas que me pareciam estar em outra língua. Eu não conseguia entender.

Suspirei, deixando que o assunto se aquietasse na minha mente. Olhei para o belo automóvel sendo bem cuidado por suas mãos.

— Está quase pronto? — perguntei, apenas para quebrar o ar denso que se formava.

Rosalie demorou um pouco para responder.

— Sempre parece que está. — disse, num tom calmo, quase melancólico — Mas toda vez que acho que terminei, encontro algo que ainda precisa de cuidado.

O comentário ficou suspenso no ar entre nós, carregando um significado que ia muito além do carro, que parecia ter sido dito para mim mesmo que ela ainda olhasse para o motor aberto, com o mesmo foco cirúrgico de antes. Rosalie voltou a ajustar uma peça, inclinando-se sobre o motor com a mesma paciência meticulosa de antes. O silêncio era interrompido pelo som metálico das ferramentas e um constante, vindo da ventilação, um zumbido grave que preenchia o espaço como se o lugar respirasse por conta própria, e eu fiquei apenas olhando o contorno dela sob a luz pálida da garagem, observando suas mãos, os gestos precisos, o cuidado com que ela tocava cada parte, como se tivesse medo de quebrar o que ainda podia ser salvo.

A força, a precisão, o controle. Tudo nela parecia milimetricamente calculado e, ainda assim, havia algo vulnerável ali. Algo que eu reconhecia, ela não estava falando apenas do carro. Talvez nunca estivesse.

A frase ecoou em mim de um jeito estranho. “Sempre parece que está.” Tive vontade de rir ante os direcionamentos do meu pensamento, era exatamente assim que eu me sentia ultimamente, como se cada pedaço consertado da minha vida ainda escondesse uma fenda, uma rachadura minúscula pronta para se abrir de novo ao menor toque errado. Rosalie parecia entender isso, talvez porque conhecesse bem demais a sensação. Aquela calma rígida dela, aquela firmeza que beirava o orgulho, era só outra forma de manter as próprias peças no lugar. Por um instante, tive vontade de dizer algo, mas que palavras poderiam traduzir o que era viver se refazendo?

Então fiquei quieta também. O silêncio voltou, denso, mas menos desconfortável dessa vez. Era quase... um acordo não dito.

O silêncio se estendeu por minutos inteiros, preenchido apenas pelo som ritmado das ferramentas contra o metal e pelo leve tilintar metálico das ferramentas sendo recolocadas no lugar tornando-se o único ruído na garagem, misturado ao farfalhar suave das árvores lá fora. O cheiro de graxa e óleo tomava o ar, misturado ao frio húmido que vinha da floresta através do vidro estreito da janela entreaberta da garagem. A manhã ainda não tinha nascido completamente, e a luz acinzentada que entrava daquela fresta fazia tudo parecer suspenso quando Rosalie se endireitou, largou a chave inglesa sobre a bancada e limpou as mãos num pano escuro, soltou um suspiro leve, fechando o capô do carro com um toque firme. Ela finalmente se virou, os olhos dourados pousando em mim outra vez.

— Quer vir comigo até a cozinha? — perguntou, num tom mais brando do que eu esperava, um meio sorriso contido nos lábios. Assenti, quase grata por aquele convite simples — Esme já está na cozinha faz poucos minutos. — se virou em direção à saída.

Fui seguindo atrás. A luz refletiu em seus cabelos quando ela caminhou até o interruptor e desligou a luz da garagem. O som do clique ecoou baixo, e a penumbra nos envolveu antes que ela abrisse a porta de volta para o corredor.

— O café dela é uma das poucas certezas para você nesse mundo. — completou, olhando por cima do ombro.

O som das nossas passadas ecoou suave pelo corredor, misturado ao ranger antigo da madeira enquanto a seguia pelo corredor até a cozinha, notei que o som da chuva lá fora havia recomeçado, gotas finas e constantes contra o telhado, como se o clima acompanhasse a cadência de nossos pensamentos. Rosalie andava à frente, a postura ereta, mas havia algo no modo contido de seus passos que denunciava o mesmo peso que eu sentia: aquele tipo de inquietude que não confessa, apenas tenta entender no silêncio.

Já das escadas dava para sentir que a cozinha estava tomada por um aroma que misturava café fresco, manteiga derretendo na frigideira e o perfume doce de mirtilos. A janela, ligeiramente embaçada pela diferença de temperatura, deixava ver o gramado como se estivesse coberto de névoa, nada muito diferente de um quadro típico de Forks antes do amanhecer. Esme movia-se com leveza, como se cada gesto tivesse sido ensaiado mil vezes: quebrava ovos, virava panquecas, verificava o ponto do bacon enquanto o café passava lentamente na cafeteira de vidro. Havia algo quase terapêutico em observá-la e por um instante me senti fora de tudo o que me inquietava.

— Trouxe companhia. — disse Rosalie, tirando o pano do bolso de trás e deixando-o sobre a bancada da ilha.

Esme se virou, o sorriso acolhedor de sempre iluminando o rosto. Rosalie se encostou na bancada, assistindo em silêncio. Ainda havia um vestígio de graxa em seus dedos, mas agora o olhar dela estava tranquilo, repousando entre mim e Esme, como se monitorasse o equilíbrio invisível da cena.

— Bom dia, queridas! — disse Esme, sem perder a cadência suave da voz — Achei que o cheiro do café pudesse te atrair até aqui.

— Acho que funcionou! — respondi com um meio sorriso, ainda um pouco envergonhada pela minha insônia disfarçada de passeio. Dei uma olhada para Rosalie, que antes do aroma de café tivesse a chance de se espalhar, ela me direcionara até aqui.

— Café? — Esme já se adiantava, servindo uma caneca fumegante e empurrando-a até mim. O aroma era forte e acolhedor.

— Aceito, obrigada. — Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.

— Está um dia pesado, não está? — comentou, com aquela doçura que sempre parecia encontrar a temperatura certa das emoções alheias.

Assenti.

— Um pouco. — assoprei o líquido antes de dar um gole, sentindo o calor se espalhar pela garganta e o sabor amargo quebrar a névoa da mente — Acho que só... ando tentando entender algumas coisas.

Rosalie desviou o olhar, fixando-se no vapor que subia da minha caneca.

— Entender é um trabalho sem fim. — Esme disse, com simplicidade — Às vezes a gente só precisa deixar que as coisas se revelem sozinhas. — ela pousou a mão sobre a minha, num gesto leve, maternal — E, quando elas se revelam, geralmente estamos mais prontas do que pensávamos.

Houve um breve silêncio depois disso, mas não era desconfortável. O som da chuva contra as janelas, o tilintar dos itens de cozinha e o aroma doce no ar preenchiam tudo o que não precisávamos dizer. Esme e Rosalie se moviam juntas, como se partilhassem uma coreografia, uma mexia a massa enquanto a outra aquecia a frigideira, e entre um gesto e outro havia um tipo de leveza, um sorriso breve, um olhar cúmplice, um riso contido. Nenhuma palavra era realmente necessária entre elas. Continuei a degustar do café, pensando em quando havia sido a última vez que consegui terminar uma caneca com o líquido ainda quente. Não deixaria a oportunidade passar.

Rosalie virou-se um pouco, seus olhos dourados encontraram os meus, e ela me ofereceu um sorriso pequeno, sincero. Esme fez o mesmo logo depois, aquele sorriso de mãe que parecia enxergar o que eu não dizia.

— Panquecas com mirtilos? — ofereceu Esme, já servindo um prato.

— Eu adoraria. — respondi, aceitando o prato com uma mão, e pegando os talheres com a outra.

Rosalie observou em silêncio, dispensando alguns utensílios na pia, o olhar dela pousou em mim outra vez com uma serenidade quase fraterna. Era como se dissesse sem palavras que estava tudo bem em não saber ao certo o que fazer. Enquanto Esme voltava ao fogão e o som suave do café pingando preenchia o espaço eu continuei a tomar meu café-da-manhã quente, assoprando alguns pedaços da panqueca, e fisgando alguns pedaços do mirtilo para saboreá-lo à parte. Num certo momento, Rosalie foi se apoiar perto da janela, observando o nevoeiro que ainda se espalhava pelo gramado. A luz cinzenta do amanhecer filtrava-se por entre as árvores, tingindo o vidro de um tom perolado.

Esme sentou-se à mesa comigo, com aquele sorriso sereno que nunca parecia forçado, em sua mão estava uma nova caneca de café.

— Dormiu bem? — perguntou, com um toque de cuidado na voz, oferecendo o café.

Demorei uns segundos para responder, trocando as canecas.

— O suficiente. Acho que precisava só... respirar um pouco.

Ela assentiu, como quem entende mais do que eu fui capaz de dizer.

— Às vezes, é só isso mesmo, meu bem. — comentou — Respirar. Sem pressa de consertar o que parece desalinhado.

Rosalie se virou, cruzando os braços.

— E mesmo quando parece que está tudo consertado, sempre tem algo que precisa de mais tempo. — completou, olhando de leve para mim antes de voltar a encarar lá fora.

A observação soou simples, mas carregava uma densidade que me fez abaixar o olhar para o café. O vapor subia em espirais lentas, como se também respirasse comigo. Quando o relógio da parede marcou seis horas, Esme se levantou para verificar algo no forno. O som do estalar da manteiga se misturou ao chiado suave da chuva que continuava a cair lá fora. Pisquei meus olhos deixando que os sons a minha volta me embalassem, e meus pensamentos surgissem. Tenho sonhado muito, acho. Ou pelo menos acordo com a sensação de que sim.

Mas nunca lembro o que sonhei. Só fico com uma impressão estranha, numa mistura de calma e exaustão, como se tivesse vivido algo intenso e apagado logo depois. Às vezes acordo no meio da madrugada, sem motivo, com o coração batendo rápido. E quando o silêncio volta, fico ali tentando lembrar, mas tudo o que sobra é o pressentimento de que algo importante escapou.

O salto das botas de Rosalie fizeram barulho contra o chão, chamando minha atenção, ela olhava para o vidro embaçado, depois, sentindo-se observada, olhou para mim.

— Quer dar uma volta depois do café? — perguntou indicando a porta que levava ao deck — Nada longe. Só pra respirar o ar frio antes que as meninas acordem.

Pensei por um instante. O convite era simples, mas o tom dela trazia algo diferente, quase como se dissesse “não volte para dentro de si agora”.

Assenti devagar.

— Quero, sim.

Ela apenas curvou os lábios num leve sorriso e se afastou, enquanto Esme se virava, ainda concentrada em seus preparos. Terminei meu café devagar, sentindo o calor se espalhar pelas mãos enquanto o vapor se desfazia em finas linhas no ar. Esme passou por mim e colocou um prato com torradas e geleia de amora sobre a mesa, o perfume doce contrastando com o cheiro do restinho de café no fundo da minha caneca.

— Se quiser levar alguma coisa pra fora, fique à vontade. — disse, gentil como sempre. Havia muito mais para ser posto à mesa — O frio de Forks é menos cruel quando se tem algo quente por perto.

Agradeci com um sorriso pequeno. Rosalie já estava perto da porta que levava aos fundos da casa, com o casaco claro nos ombros e o cabelo ainda preso num coque firme. Aquele tipo de postura que parecia conter uma força silenciosa, não arrogante, mas moldada pelo tempo. Isso me lembrava qual era sua verdadeira natureza.

Quando me aproximei, ela esperou eu calçar as botas, estendeu o casaco para eu vestir e abriu a porta.

O ar frio me atingiu de leve, carregado de humidade com aquele aroma de terra molhada que agora sempre me lembrava dos meus recomeços diários; não porque eram fáceis, mas porque não havia outra opção senão seguir. Caminhamos em silêncio pelo deck coberto. O som da chuva caindo sobre as árvores era constante, quase ritmado, e por um momento o mundo pareceu se resumir àquilo: o som, o frio, a chuva e a presença dela ao meu lado. Rosalie se apoiou no corrimão já perto da escada, o olhar perdido entre o bosque e a névoa que engolia as copas das árvores.

— Aah... É por isso que gosto de vir aqui cedo... — disse, enfim — Nessa hora, a floresta parece guardar segredos, mas não esconde nada.

Assenti, puxando o casaco um pouco mais para cima.

— É bonito. — murmurei — Quase... mágico, como nos contos de fadas.

— Às vezes, a gente só percebe quando se vê cercada por silêncio... Ou no mínimo, os sons da natureza.

Ficamos assim por um tempo. Sem mais palavras, apenas respirando o ar frio, deixando o vento tocar o rosto. Eu percebia que algo nela também se aquietava, talvez a mesma coisa que em mim tentava entender o que estava mudando. Por um instante, pensei no porto, no toque breve de Cole segurando minha mão, no jeito como o olhar dele parecia me atravessar e acalmar ao mesmo tempo. Mas aquela lembrança veio e foi, como o vento que mexia as folhas e logo sumia. O som da chuva engrossou um pouco, batendo nas tábuas do deck. Rosalie enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans olhando para frente como se estivesse pensando em algo que preferia não dizer. Eu a imitei, colocando minhas mãos nos bolsos do casaco, tentando encontrar alguma palavra que coubesse naquele silêncio. Ela manteve o olhar dourado voltado para a floresta por um tempo, o maxilar firme, o corpo imóvel. A chuva parecia não incomodá-la, como se o frio simplesmente não existisse para ela. Eu a observava de canto, tentando entender como alguém podia parecer tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante.

— Você acorda sempre tão cedo assim? — perguntei, apenas para recomeçar de algum ponto.

Ela deu um meio sorriso.

— Já faz um bom tempo que estou acordada...O suficiente pra não precisar correr com os afazeres no resto do dia. — respondeu, simples, com aquele tom que lembrava o gelo da floresta. Mas havia gentileza no jeito como disse.

— Faz sentido. — murmurei.

— Você está acordada desde bem cedo hoje. — disse ela, por fim, sem me olhar. A voz soou neutra, mas não fria.

— Não consegui dormir. — respondi, sincera — Às vezes parece que minha cabeça não desliga.

Ela assentiu, como se soubesse exatamente o que eu queria dizer.

— É comum, até... — murmurou — Quando algo começa a mudar na gente, o corpo sente antes da mente cair em si.

Fiquei quieta, processando aquilo. Rosalie não falava muito, mas quando falava, cada palavra parecia medida, e parecia que eu ainda não tinha me acostumado com isso.

— Eu não sei bem o que está mudando, Rose. — confessei.

Dessa vez, ela virou o rosto para mim. Os olhos dourados eram diretos, atentos, mas não intimidadores.

— Sabe, sim. Só não quer nomear.

Engoli em seco. Aquilo me atingiu de um jeito estranho, como se ela tivesse atravessado todas as camadas que eu vinha tentando manter.

— Às vezes é mais fácil não pensar. — tentei justificar, balançando os ombros.

Rosalie cruzou os braços, ainda me olhando.

— Não pensar nunca resolve. Só adia. E quando tudo isso volta; volta pior.

O silêncio voltou a crescer entre nós. Eu olhei para o chão húmido do deck, ouvindo a chuva bater na madeira.

— Você fala como se soubesse exatamente o que estou sentindo... — digo, quase num tom de desafio, mas sem querer soar rude.

Um pequeno sorriso apareceu no canto dos lábios dela, sem traço de ironia.

— Pode não parecer, mas eu sei o que é se sentir presa entre o que quer e o que acha que deve querer. — ela desviou o olhar outra vez, como se aquilo fosse o máximo que diria sobre si.

— E o que você fez? — perguntei, baixando o tom.

Rosalie demorou um pouco antes de responder.

— Aprendi a parar de esperar que tudo fizesse sentido. Às vezes, o que a gente sente não se encaixa. A gente só... vive com isso.

Assenti devagar, sem saber o que dizer. Havia algo cru naquela sinceridade. E, de algum modo, reconfortante.

— Eu ainda não consegui criar uma rotina aqui. Tudo ainda me parece... novo demais.

— É normal. — Rosalie assentiu lentamente — Quando se muda muito por dentro, até o chão debaixo dos pés parece diferente.

Aquela frase me fez voltar a encarar o piso húmido do deck. A madeira escura, os pingos se acumulando entre as frestas. Eu não sabia se ela falava de mim ou dela.

— Às vezes eu sinto que ainda não pertenço aqui. — confessei, com a voz mais baixa — Sei lá... Mesmo com todos sendo tão extremamente gentis... é como se eu ainda estivesse de passagem.

Rosalie virou-se um pouco, me observando.

— Isso não muda de um dia pro outro. — me disse — A sensação de não caber em lugar nenhum... demora a ceder. — ela respirou fundo antes de continuar — Mas chega uma hora em que você para de procurar onde se encaixar e só... permanece. Aí, de repente, você vai perceber que o lugar já era seu.

Eu absorvi as palavras em silêncio. Havia algo de firmeza e consolo misturados ali.

— E como é pra você? — perguntei, curiosa — Já se sentiu assim?

Rosalie demorou a responder. O vento frio e húmido congelava um pouco as minhas bochechas.

— Em alguns anos sim. Outros, nem tanto. — respondeu, com um encolher de ombros — Acho que a gente nunca está completamente pronta pra ser quem esperam que sejamos.

Ficamos quietas por alguns segundos, ouvindo a chuva. Eu me senti menos sozinha naquele instante, não por ela me entender totalmente, mas porque não tentou consertar nada em mim. Ela se afastou do corrimão e ajeitou os fios que escapavam do penteado, caindo ao redor do rosto. Rosalie olhou para mim outra vez, e sem precisar perguntar nada, disse apenas:

— Está começando a clarear, naquele ponto. — apontou para uma área muito, muito distante, onde aparentemente não chovia e que dificilmente eu repararia — Quer ver o sol nascer daqui?

Sorri, mesmo sabendo que em Forks o sol quase nunca aparecia por completo.

— Quero.

Ela assentiu, e o silêncio que voltou guardava tudo o que ainda não se pode dizer, mas que, de algum modo, conforta. E foi ali, naquele frio de quase inverno, que percebi que havia encontrado um pequeno ponto de pausa entre o caos e o consolo.

— Já quer entrar? — ela perguntou depois dos nossos minutos de silêncio e apreciação — Esme deve estar terminando o café-da-manhã das meninas. — comentou, de forma prática — Você devia comer mais algumas coisas antes que a Hilary e a Helena acordem.

Sorri de leve.

— E você?

— Não preciso.

Ela abriu a porta para mim e esperou eu entrar primeiro. E antes de seguirmos para a cozinha, ela acrescentou, baixo:

— Não se culpe por sentir, Amberli. A culpa só pesa quando a gente tenta negar o que é óbvio.

Aquilo ficou comigo, mesmo depois de eu ter trocado as botas de chuva pelo conforto familiar das minhas botinas de tricô e o cheiro de café fresco se tornar o ar da casa. O calor da cozinha nos envolveu, e essa casa que é tão cheia de histórias que não eram minhas, começava aos poucos, a se tornar familiar.

O resto da manhã passou em um tempo estranho, nem lento, nem rápido. Só... calmo.

Saí da cozinha ainda sentindo o cheiro do café. Ele parecia me seguir pelo corredor, misturado à doçura discreta do aroma de canela que havia espalhado pela casa. O ar estava morno, mas o chão frio sob os meus pés calçados fazia me lembrar que eu não dormi direito. As escadas estalaram sob o meu peso leve, a luz cinzenta de Forks entrava tímida pelas janelas da escadaria iluminando meu caminho e o som dos meus passos nas botinas de tricô se misturava ao farfalhar distante das folhas molhadas.

Empurrei a porta do quarto e respirei fundo. Tudo estava do mesmo jeito: a cama bagunçada, os brinquedos da Hilary amontoados num cantinho, o cobertor caído como se tivesse desistido de cumprir sua função. Aquele pequeno caos me pareceu familiar, quase reconfortante. Me aproximei da parede de vidro, afastando toda uma parte das cortinas, a chuva começou de novo. Fina, persistente. Fiquei ali um tempo, observando as gotas escorrerem pelo vidro e se juntarem em linhas tortas.

Meu reflexo se formou difuso, um borrão entre o dentro e o fora.

Era estranho me ver assim, inteira, mas ainda não completamente aqui.

Às vezes me pergunto se é isso que eles chamam de paz. Essa ausência de urgência, esse sossego que parece oco no começo, até que você entende que ele só está esperando ser preenchido. Desci meu olhar para o chão iluminado por um tom azulado, frio, mas bonito. O silêncio é tão presente nesse momento, que quase consigo ouvi-lo respirar. Me agacho devagar, desfazendo o laço interligado das botinas e tiro meus pés de dentro de sua proteção quente, ficando descalça sobre o piso frio. Dou alguns passos, sentindo o frio da madeira subir pelas minhas pernas. O corpo inteiro protesta a cada movimento, as poucas horas mal dormidas e os pensamentos que me perseguiram durante a madrugada ainda pesam como chumbo. Mesmo assim, tento me convencer de que basta me manter ocupada. Arrumar o quarto vai me distrair. Talvez o corpo acredite que ainda tem energia.

Começo a arrumar a cama, puxando o lençol, esticando as pontas, ajeitando os travesseiros. Os movimentos saem automáticos, mas vão ficando lentos, preguiçosos. Meus olhos ardem, e o ar parece pesado, como se cada respiração viesse coberta por uma névoa morna. Cada gesto insistido era uma tentativa de manter o corpo acordado. Mas havia algo no ar… um tipo de silêncio que se estendia sobre tudo. Um silêncio que me convidava a parar.

Um raio tímido de luz atravessou a janela, refletindo nas partículas de poeira que dançam no ar. Fico olhando para elas, pequenas, suspensas, flutuando. Por um instante, tenho a sensação de que o tempo também parou. O quarto está aquecido o suficiente para parecer um refúgio, o som da chuva contra o telhado cria uma cadência suave, quase hipnótica, num compasso que me lembrava uma canção de ninar. O som enchia o quarto devagar, se infiltrando pelos meus ouvidos até alcançar o peito. Encosto-me na cabeceira só para esticar a coluna, prometendo a mim mesma que será por um minuto.

Mas o minuto se alonga.

Olhei para o quarto em silêncio, tentando reconhecer em mim o mesmo sentimento de paz que esse lugar carrega. Mas havia algo dentro de mim que não se calava, um pensamento pequeno, insistente.

Pensei em tudo o que havia acontecido até chegar ali. Nos lugares por onde passei, nos dias em que não havia ninguém esperando por mim, nas noites em que dormir era mais uma forma de esquecer. A casa dos Cullen era o oposto de tudo isso. Era um abrigo tão calmo que às vezes doía, como se o corpo ainda não soubesse receber cuidado sem se assustar.

Meus ombros cedem, o olhar se perde em algum ponto da colcha, e eu sinto o corpo desistir. A cabeça cai de lado, encostando no travesseiro, e um suspiro me escapa, leve, quase um alívio. Senti os olhos arderem. Pisquei algumas vezes, mas a vista ficou turva. Não sabia se era sono ou emoção. Talvez os dois.

Fechei os olhos só para ouvir a chuva melhor.

Deitei de lado, ainda com o cobertor nas mãos, parte do tecido deslizou sobre mim no colchão até o chão, mas eu não tive forças para pegá-lo. A fadiga me alcançou com delicadeza, sem aviso.

Lá embaixo, ouço vagamente o som da chuva se misturando a vozes distantes, talvez fosse Esme e Carlisle conversando. A luz cinzenta filtra-se pelas cortinas e toca meu rosto com delicadeza, acho que, lá fora, um corvo pousa perto da janela ou talvez seja apenas o som das asas cortando o vento. E então tudo começa a se dissolver: o frio dos pés, as lembranças, as pequenas dores que ficaram em mim. Tudo desaparece em camadas, como se o mundo estivesse me embalando. O último pensamento antes de adormecer foi que eu precisava lembrar de agradecer à Esme mais tarde, por tudo, mas principalmente por esse tipo de silêncio. O que não assusta, não dói, só acolhe.

Em poucos segundos, adormeço.

A primeira coisa que percebo é o som.

Não o da chuva, ela já cessou, mas o leve murmúrio da casa. Vozes ao longe, passos que ecoam suavemente pelo andar de baixo, e um som metálico que imagino ser talheres.

Abro os olhos devagar, sem pressa, e por um momento fico ali, imóvel, observando a claridade que atravessa a parede de vidro, as cortinas. A luz é diferente agora, como se o dia já tivesse avançado além do que eu esperava.

Piscar dói um pouco.

A sensação é que dormi por séculos.

Viro o rosto para o lado e vejo que o cobertor foi puxado até meus ombros. Tenho certeza de que não o fiz. Esme, talvez, ela tem esse cuidado de perceber tudo, sem nem mesmo precisar olhar.

Respiro fundo. O ar no quarto está morno, com um perfume doce de lavanda, minha mente ainda tenta se situar, mas o corpo já percebeu que eu dormi demais. Estico o braço em direção à mesinha e pego o celular, mais por reflexo do que por necessidade. A tela se acende e confirma o que já suspeitava: 14:47h.

Quase quinze da tarde.

Fico alguns segundos olhando para a hora, meio incrédula. Tinha subido apenas arrumar a cama. Tinha prometido a mim mesma que não descansaria. E, ainda assim, o corpo me traiu, ou talvez, tenha me protegido de mim mesma. Sento-me devagar, sentindo a cabeça ainda pesada, o cabelo um pouco bagunçado. O silêncio é diferente agora; não é o silêncio denso do amanhecer, lá fora, o céu ainda carrega o cinza húmido de Forks, embora uma nesga de sol insista em aparecer entre as nuvens, bem lá no fundo, quase inexistente. Mas ainda está lá.

Passo as mãos pelo rosto, tentando acordar de verdade. Uma parte de mim sente vergonha de ter dormido tanto; outra, estranhamente, se sente grata. Faz tempo que meu corpo não descansava assim por inteiro, sem sobressaltos, sem medo do desconhecido.

Escuto uma risada infantil ao longe, leve e cristalina. Reconheço o som de Helena. O peito se aquece. Mas sinto um desconforto súbito, um frio pela perca do cobertor me faz olhar para baixo. O tecido frio grudado à pele me faz franzir o cenho, e vejo a mancha húmida na blusa de ginástica, escura no centro, expandindo-se sobre o tecido justo. Demoro alguns segundos para entender o motivo.

Suspiro baixinho.

Leite.

De novo.

Passo a palma da mão sobre o peito, tentando conter o incômodo. É morno, pegajoso, e a roupa colada ao corpo evidenciando a protuberância dos seios me dá uma sensação estranha de constrangimento, mesmo estando sozinha. Eu havia adormecido assim, sem me trocar, sem pensar, o corpo exausto vencendo qualquer cuidado. Por um instante, fico imóvel. Depois solto outro suspiro e murmuro baixinho para mim mesma:

— Ótimo, Amberli…, dormiu metade do dia e ainda vazou leite.

Levanto-me devagar, ajeitando a colcha e tentando disfarçar o amasso do travesseiro. Tudo parece mais calmo agora, como se o tempo tivesse decidido andar devagar só para me dar esse intervalo. Passo os dedos pelos fios amassados e sigo direto para o banheiro. A cada passo, o tecido molhado arrepia a pele. Quando abro a porta, a temperatura fria do cômodo me recebe com um arrepio que percorre minhas costas. Acendo a luz, a claridade reflete no espelho e revela o cansaço ainda preso sob meus olhos. As olheiras finas, o rosto pálido, o cabelo sem forma, mas há algo otimista ali também e um traço de calma. Abro o registro do chuveiro. A água começa a cair, primeiro hesitante, depois em uma cascata quente e constante. O som cobre o silêncio, como um véu de ruído que me envolve inteira. Enquanto a temperatura sobe, puxo a blusa devagar, afastando o tecido colado da pele. O sutiã esportivo vai junto, pesado de leite, e o contato do ar frio me faz arrepiar.

Entro debaixo do chuveiro.

A água quente desliza sobre mim, escorre pelos ombros, pelos braços, pelas mãos. Fecho os olhos e deixo que o corpo esqueça o peso do cansaço, o desconforto da roupa, a confusão entre sono e vigília. Sinto o cheiro do sabonete novo que Alice colocou ali, é suave, familiar. Lavo os cabelos, o rosto, a pele, até sentir que tudo em mim está mais leve, mais limpo, mais real. Por alguns minutos, deixo o tempo correr junto com a água.

Não há pressa.

Não há culpa.

Quando fecho o registro, o vapor preenche o banheiro inteiro. Enrolo-me na toalha macia e apoio a testa contra o espelho embaçado. O vapor ainda se ergue no ar, como uma pequena neblina particular. Sinto o calor da água permanecer na pele, um resquício bom de conforto. Lá fora, o som distante das vozes continua, Helena, rindo. Rosalie, respondendo baixinho.

Sorrio sem perceber.

Talvez eu tenha dormido demais. Talvez tenha precisado. E agora, sob o cheiro doce das loções e o calor da toalha, sinto que o corpo e a alma finalmente estão no mesmo lugar. Retiro os próximos produtos necessários para finalizar o cabelo e dedico-me a isso nos próximos minutos, alinhando os fios, deixando-os bem retos.

Quando tudo dentro do banheiro estava de volta ao lugar, abro a porta do closet e sou recebida por uma lufada de ar fresco. Ele traz consigo o cheiro distante de tecido, madeira húmida, canela e pão recém-aquecido, “Alguém está na cozinha” pensei “Provavelmente Esme”.

Caminho por entre os nichos, indo diretamente para a minha parte das gavetas, sem pressa. A princípio, eu só pensava em vestir qualquer coisa confortável, mas algo dentro de mim hesitou, um impulso quase imperceptível de querer me ver... um pouco melhor hoje também. Não bonita para alguém, mas bonita para mim. Passei os dedos pelas peças, o tecido macio roçando na pele. Escolhi uma calça jeans azul-escura, de cintura alta e corte ajustado, que desenhava as pernas sem apertar. Uma blusa de tricô azul que Rosalie deixou dobrado na prateleira. O tecido é macio, leve, com um perfume de lavanda que parece vir de cada canto dessa casa. Visto-me devagar admirando a costura fina e delicada da blusa, com decote em “V” e mangas longas que cobriam parte das mãos. Peguei também um colar simples de prata, pequeno demais para chamar atenção, mas que sempre me trazia uma sensação de conforto, como se fosse um lembrete de que eu ainda era eu por dentro, apesar de tudo. Calcei botas de cano curto, num tom castanho que combinava com o clima nublado do lado de fora. O espelho devolveu uma imagem discreta, mas diferente: o cabelo solto, bem alinhado; o rosto um pouco mais desperto, as olheiras suavizadas pela luz difusa do cômodo fechado.

Soltei um suspiro, meio cética com o próprio reflexo.

Talvez fosse apenas um dia comum, mas havia algo de silenciosamente novo no ar como se, sem perceber, eu estivesse me preparando para algo que ainda não sabia o que era. Com o som distante da chuva começando outra vez, saí do closet. A caminho da porta, lanço um último olhar ao quarto. A cama, que antes estava desfeita, agora está perfeita. Os brinquedos da Hilary estão empilhados no mesmo canto.

Sorrio, sabendo exatamente quem fez isso.

O corredor da casa estava quieto, banhado por um aroma de especiarias que vinha da cozinha, canela, noz-moscada, algo morno e acolhedor. Desço as escadas com passos leves. O som é abafado, mas ainda ecoa de leve nas paredes altas. Desci os primeiros degraus ainda ajeitando a manga do tricô, distraída com o som suave da chuva lá fora e o aroma irresistível que parecia preencher cada canto da casa, me sentia um pouco tonta pelo sono prolongado e pela confusão de ter perdido completamente a noção do tempo. Quando vou chegando ao próximo desnível da escada, o aroma de comida me envolve: algo assado, temperado com ervas, quente e convidativo, doce e salgado ao mesmo tempo, como torta de abóbora recém-assada. Esme está na cozinha, como imaginei.

Como se tivesse sentindo que eu pensava nela, Esme surgiu na base da escadaria, levanta o olhar quando me vê e sorri, aquele sorriso pequeno, mas cheio de luz. No mesmo segundo ela já está no mesmo degrau que eu. Seus olhos dourados parecem reluzir de ternura e me cativam naquele momento.

— Ah, querida... acordou enfim! — diz, num tom que mistura carinho e alívio — Já estava começando a achar que teria que te chamar.

— Eu... — começo, um pouco constrangida — Acho que dormi demais.

— Dormiu o que precisava. — responde ela, simples, sem hesitar, como quem afirma um fato — Seu corpo pediu. — disse ela, com um sorriso tão acolhedor que quase fez meu peito se desfazer em alívio.

Fico parada por um instante, observando-a. O jeito como fala é sempre sereno, como se nada jamais fosse apressado com ela. A voz de Esme tem esse poder estranho de me fazer acreditar que está tudo bem, mesmo quando eu duvido. Atrás de mim, o som de saltos descendo os degraus me chamaram a atenção, era Rosalie, apoiada no corrimão, com aquele ar elegante até nos gestos mais simples.

— Dormiu bem? — pergunta Rosalie, arqueando uma sobrancelha, meio provocando, meio genuinamente curiosa.

Dou um riso envergonhado.

— Mais do que devia, pelo visto. — murmurei, meio sem graça — Achei que ainda era de manhã.

Rosalie ri de leve.

— Melhor assim. Você precisava.

Rosalie trocou um olhar rápido com Esme, como se ambas compartilhassem um segredo silencioso, e antes que eu pudesse perguntar o que estava acontecendo, ela apenas gesticulou com a cabeça, pedindo que eu a seguisse.

— Bem... — disse Esme, desviando o olhar — acho que você acordou no momento certo.

Desci o restante dos degraus, intrigada. A cada passo, o cheiro de especiarias se tornava mais intenso, noz-moscada, canela, manteiga, algo tostado e doce no ar. O som de vozes e risos suaves vinha da cozinha, e quando os degraus alcançaram o andar da cozinha, por um instante, achei que estivesse sonhando outra vez.

A mesa estava posta de forma impecável com uma toalha branca rendada, castiçais baixos com velas acesas, louças finas e arranjos de flores com folhas secas e pequenas abóboras ornamentais espalhadas entre travessas e taças, há tortas, pães, travessas fumegantes. Tudo banhado por um varal de luz amarela suave que atravessava as janelas, dourando o ambiente.... e uma sensação no ar que eu não sentia há muito tempo: lar.

E ao redor dela… todos.

Carlisle estava na ponta da mesa, em pé e sereno, com o olhar cheio daquela calma que parecia comandar a atmosfera inteira. Isabella e Edward estavam juntos, sorrindo com aquela ternura discreta que só os dois compartilhavam e Renesmee, à frente deles, abanava discretamente as mãos para mim, os olhos luminosos de empolgação.

Alice, animada como sempre, ajustava os últimos detalhes de um arranjo com uma mão e a posição impecável de um prato com a outra, enquanto Jasper permanecia próximo, o semblante calmo, irradiando uma tranquilidade quase palpável.

Emmett ria alto de algo que Jacob dissera, os dois pareciam disputar quem contava a história mais absurda. Cole estava encostado à parede, observando tudo com aquele meio sorriso tranquilo, o olhar que por algum motivo sempre me fazia esquecer o que ia dizer.

E entre todos eles, as duas pequenas luzes da minha vida: Hilary sentada no colo de Bella, com as bochechas coradas e os olhos brilhando de curiosidade. E Helena, no colo de Renesmee, brincando com os próprios cachos, e o olhar encantado com o reflexo das velas.

O nó na minha garganta foi instantâneo.

— O que… o que é tudo isso?! — perguntei, num fio de voz esganiçada.

— Feliz Dia de Ação de Graças, Amberli! — disse Esme, com aquele tom doce e firme que parecia conter o próprio significado da palavra “família”.

Eu pisquei algumas vezes, sem saber se devia sorrir ou chorar.

— Mas... vocês fizeram isso... pra mim? — minha voz saiu quase num sussurro.

— É o nosso Dia de Ação de Graças. E este ano, querida, ele é por você. — Esme deu um passo à frente, as mãos entrelaçadas.

Por mim.

— É claro. Você faz parte disso agora. — Rosalie se aproximou, cruzando os braços com um sorriso.

Olhei ao redor mais uma vez, só para ter certeza.

Carlisle inclinava a cabeça em um gesto gentil, Bella sorrindo até com os olhos, Renesmee assentindo com entusiasmo, Cole cruzando os braços num gesto discreto, mas com um olhar caloroso, que fez meu coração se acelerar de saudade.

Tudo era tão irreal que eu quase esperei acordar de novo, deitada na cama.

Era impossível não me prender em cada detalhe. A sala em conjunto com a cozinha parecia envolta em um aconchego quase palpável: as chamas das velas baixas tremeluziam sobre a mesa, refletindo nas guirlandas de folhas secas e fitas douradas que serpenteavam ao longo do aparador. Pequenas abóboras repousavam como se fossem joias de outono, intercaladas por castiçais de ferro que lançavam sombras dançantes contra as paredes. O aroma da canela e da maçã assada impregnava o ar, misturando-se à brisa húmida que escapava pela janela entreaberta.

Meus olhos percorriam tudo como se quisessem gravar para sempre; cada laço, cada detalhe que havia sido pensado com tanto carinho. Não era só decoração; era como se a casa falasse comigo em silêncio, sussurrando você faz parte disso.

E eu me vi tocada, de uma forma quase dolorosa, porque por dentro eu sabia que jamais tinha vivido algo assim. Com Anna, os feriados passavam totalmente simplórios, quase despercebidos. Não por falta de amor, jamais, mas por falta de espaço; espaço no tempo, no bolso, no coração cansado de tantas lutas. E quando nos reuníamos no feriado, quase sempre só nós duas, tentando sorrir para disfarçar o vazio das ausências.

Aqui, no entanto, o vazio não existia. Cada canto parecia ocupado por uma lembrança que ainda estava prestes a acontecer: As meninas ririam em seus cadeirotes, os adultos conversariam baixo na cozinha. E eu, de repente, me senti lembrada. Como se tivessem guardado um lugar para mim, mesmo sem pedir.

Era um contraste tão forte que o coração doía e aquecia ao mesmo tempo. Doía, porque me lembrava do quanto minha mãe fez o possível sozinha, e porque, no fundo, uma parte minha gostaria que ela tivesse visto essa mesma cena, talvez risse do excesso de fitas ou reclamasse da quantidade de velas, ou se surpreenderia com o tamanho do peru, mas eu sei que seus olhos brilhariam. E aquecia, porque agora eu estava aqui. Porque, por algum motivo que eu ainda não conseguia compreender inteiramente, essas pessoas, que não precisavam de mim, mas me incluíam como se sempre tivesse sido assim. Não era só uma mesa de celebração do Dia de Ação de Graças. Era um convite silencioso ao pertencimento. Um lembrete de que, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava apenas de passagem. Eu estava sendo lembrada. Eu estava incluída.

Suspirei, e enquanto observava as velas se alinhando em alturas perfeitas no centro da mesa, minha mente, quase sem pedir licença, voltou no tempo, o presente se dissolveu diante de mim. Era como se a voz suave da minha mãe tivesse o poder de atravessar o tempo.

De repente, eu estava de novo na nossa antiga cozinha, tão menor do que o espaço em que agora eu me encontrava. Eu devia ter uns dez, ou talvez onze anos, o teto descascado nos cantinhos, a mesa simples de fórmica branca já manchada sutilmente pelo tempo. O cheiro do peru assando se misturava ao doce da torta de abóbora, e a mesa, mesmo simples, parecia sempre farta sob as mãos dela. Minha mãe cortava as fatias, como se aquele gesto pudesse substituir qualquer banquete encomendado. Ao lado, uma panela soltava um vapor que deixava todo o ambiente com cheiro de lar quentinho, mesmo que lá fora mostrasse o quanto estava frio.

Anna tinha um jeito curioso de transformar qualquer prato comum em um banquete só pela forma de arrumar, de sorrir, de nos fazer acreditar que estávamos vivendo algo grande. “Pronto, jantinha chique para o Dia de Ação de Graças!” E eu acreditava. Não pelo que havia na mesa, mas porque os olhos dela sempre procuravam o meu, como se bastasse estarmos juntas para o mundo ficar mais leve “O que eu mais agradeço hoje é por ter você, filha.”

Mas o detalhe que sempre se repetia era a câmera. Havia sempre uma encaixada num tripé, ou o celular dela apoiado em algum canto bem elaborado, ávida para registrar cada passo. “Filha, dá um tchauzinho pro pessoal!”, ela dizia rindo, e eu com o cabelo preso de qualquer jeito, um pouco envergonhada, levantava a mão no ar; e ela, sorrindo cansada, erguia uma caneca de algum game patrocinador, como se fosse uma taça de vinho. Uma comemoração tão precária e, ao mesmo tempo, tão cheia de amor.

A naturalidade com que ela me envolvia nos nichos de vídeos fora dos jogos e eletrônicos era parte do nosso cotidiano, e hoje em dia eu vejo como se ela estivesse montando uma cápsula do tempo, guardando não apenas nossos breves takes entre os pratos, as receitas ou as decorações, mas o jeito como eu crescia ao lado dela. Eram momentos que poderiam ter sido apenas ordinários, o som dos talheres, as brincadeiras bobas enquanto montávamos a mesa, minha reclamação por ter que ajeitar o único par de velas tortas, mas nas mãos dela tudo ganhava um brilho diferente. Não importava a pequenez do nosso lar, nem as faltas que tínhamos; com Anna, tudo se tornava festa.

Agora, pensando nisso, percebo que aqueles vídeos não eram só para “o pessoal do YouTube”. Eram, sem que eu entendesse na época, para mim mesma. Para que eu pudesse um dia olhar para trás e lembrar que houve amor, que houve cuidado, que minha mãe quis me deixar algo além do silêncio da ausência.

Pisquei, passeando meus olhos na decoração mais uma vez, a lembrança me arrancou um aperto na garganta. Porque agora, diante da sofisticação impecável que Alice e Esme tinham montado, eu percebia ainda mais a grandeza do esforço que minha mãe fez com o pouco. Ela nunca teve tempo, mas me deu sua presença. E presença é algo que nem a decoração mais luxuosa pode fabricar. Olhei de novo para o cômodo iluminado, para os cristais, os arranjos, os aromas doces. E pensei que, talvez, se houvesse uma maneira de conectar esse momento ao passado, eu gostaria muito que minha mãe pudesse aparecer pela escada, com a câmera na mão, registrando tudo, rindo daquele jeito espalhafatoso, como se dissesse: “Olha só, filha, agora sim é um Dia de Ação de Graças chique de verdade!”

Mas ela não estava. E, ao mesmo tempo, estava em mim.

Não percebi de imediato quando meus olhos começaram a arder em lágrimas. Eu não estava tentando esconder, não dessa vez. Talvez fosse impossível, a cozinha e a sala inteira pareciam brilhar contra mim, e tudo o que eu sentia precisava sair de algum jeito. Respirei fundo, mas a respiração veio trêmula, a borda dos meus lábios tremia quando fizeram um sorriso mais largo surgir. Meus dedos roçaram a borda da cadeira mais próxima, como se precisassem de um ponto fixo, enquanto o nó na garganta se desfazia em lágrimas silenciosas que escorriam sem pedir permissão. E eu não senti vergonha disso.

Foi Esme quem percebeu primeiro. Seus passos foram leves, mas não havia como não notar sua aproximação. Ela não disse nada no início; apenas tocou meu ombro com a ponta dos dedos frios, aquele gesto delicado que parecia dizer: “Estou aqui.” Quando finalmente me voltei para ela, seus olhos estavam tão cheios de ternura que quase me fizeram chorar ainda mais.

— Vocês... — minha voz falhou, e precisei respirar fundo de novo — Vocês não fazem ideia do quanto isso significa pra mim.

Rosalie, que observava próxima da janela, se afastou devagar e parou ao meu lado outra vez. Havia algo diferente nela, uma suavidade que raramente deixava transparecer.

— Nós fazemos ideia, sim. — disse firme, um leve sorriso surgindo nos lábios bem-marcados de batom — É exatamente por isso que fizemos.

Senti o peito apertar de novo, mas de um jeito bom. Eu não estava sozinha. Não precisava acreditar que estava. Passeei os olhos mais uma vez pelo ambiente, pelas velas, pelas guirlandas, pela mesa posta como um convite. E cada detalhe, cada arranjo, não parecia apenas bonito: parecia dizer meu nome. Como se Alice e Esme tivessem montado não apenas uma celebração ao feriado, mas um lugar onde eu, Amberli, pudesse me enxergar pertencendo.

— Obrigada. — consegui murmurar, e deixei que a palavra soasse do jeito mais verdadeiro possível. Não havia nada que pudesse igualar o que eu sentia naquele instante.

Esme apertou levemente meu ombro e sorriu com uma serenidade que só ela tinha. Rosalie desviou o olhar para não se deixar mostrar tão vulnerável, mas ainda assim fiquei com a impressão de que, de algum modo, eu também havia tocado algo dentro dela. E, pela primeira vez em muitos anos, em vez de sentir que estava apenas passando pela vida dos outros, eu me permiti acreditar que tinha um lugar. Abracei as duas, deixando que seus braços frios pudessem me apertar um pouco mais do que de costume e não deixei que o abraço fosse rápido.

Quando me afastei delas, enxugando os olhos, Hilary estendeu as mãozinhas em minha direção, me chamando com anseio. Fui até ela e a peguei no colo, sentindo o cheirinho familiar que sempre me trazia de volta à realidade. Helena soltou uma risadinha do outro lado, e Renesmee a acompanhou com o olhar terno.

— Elas estavam esperando você pra começar. — disse Renesmee, sorrindo.

O riso de Emmett ecoou da ponta da mesa.

— E eu esperando o peru! — completou ele, arrancando um olhar reprovador de Esme.

Todos riram, e eu, por fim, também. Aquele som leve preencheu o ar e, de alguma forma, me fez sentir... inteira. Fiquei alguns segundos em silêncio, olhando aquela mesa, a essa família que, mesmo não sendo minha por sangue, me acolhera como se fosse. E com o coração apertado e grato, tive uma leve percepção de que talvez fosse isso o que significava realmente “pertencer”.

Rodeei a mesa, abraçando cada pele fria que estava ali, alguns toques eram tão leves que mal conseguia sentir, mas meus braços os apertavam igualmente. Jacob quase me deixou sem fôlego na sua vez, e com Cole, meu coração ficara tão acelerado que tive receio de que ele pudesse ter sentido contra si.

Esme devolveu Hilary aos meus braços e me guiou até uma cadeira à mesa com aquele cuidado maternal que parecia envolver cada gesto dela. Rosalie ajudou a afastar a cadeira para me sentar, enquanto Renesmee equilibrava Helena no colo e sorria para mim, como se dissesse silenciosamente “você merece isso”. Eu me sentei devagar, abraçando Hilary, que agora embolava as mãozinhas na ponta da manga do meu tricô e observava o brilho das velas como se fossem estrelas. O barulho de talheres, de pratos sendo ajeitados, de risadas leves, enchia o ar com uma naturalidade que me desarmava.

Carlisle, ao fundo, ergueu levemente a taça.

— Este é um dia de gratidão. E hoje, mais do que nunca, somos gratos por termos você conosco, Amberli.

Senti o rosto aquecer.

— Eu… nem sei o que dizer. — murmurei.

— Não precisa dizer nada. — completou Bella, a voz suave — Só estar aqui já é o suficiente.

Renesmee brincou com um dos cachinhos de Helena, que soltou uma risadinha aguda e murmurou algo para Nessie.

— Parece que alguém também concorda! — disse ela, divertida.

— Eu também! — Emmett riu alto, pegando uma das travessas e servindo-se com entusiasmo exagerado.

— Cuidado, grandalhão. Deixa pelo menos um pouco pros outros. — Alice lhe deu um leve empurrão no ombro.

— Ah, mas tem o suficiente pra alimentar um pequeno exército. — observou Jacob, fingindo seriedade, antes de olhar para Cole — Ou uma matilha inteira.

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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Cole sorriu, inclinado na cadeira.

— Só se a matilha for sua, Black. Eu sou mais civilizado.

O riso foi geral. Até Jasper, que raramente deixava transparecer emoções, soltou um sorriso contido, como se o ambiente inteiro o tivesse contagiado. Alice quebrou o silêncio com seu entusiasmo natural:

— Eu sabia que ela ia escolher essa blusa! — exclamou, apontando para o tricô azul que eu usava.

— Sabia? — perguntei, rindo.

— Claro que sim! — ela piscou, radiante — Eu vi você abrindo as gavetas e hesitando. Eu só não te avisei pra não estragar o momento.

Rosalie balançou a cabeça, sorrindo.

— Você nunca deixa de surpreender, Alice.

Esme se aproximou novamente, pousando uma mão sobre o meu ombro.

— Espero que saiba, querida, que hoje é sobre você se lembrar de que não está sozinha. Que tem um lar aqui.

A voz dela veio tão cheia de ternura que o nó na garganta voltou.

Passeei meus olhos pelo ambiente, vendo Carlisle e Isabella trocando olhares tranquilos, Edward passando o braço ao redor da esposa, Jasper passando uma taça para Alice, Emmett brincando com um guardanapo e fazendo Hilary rir, Jacob e Cole trocando provocações amistosas.

Era um caos suave. Um tipo de harmonia que não se encontrava nos livros ou nos filmes. Eu respirei fundo, senti o coração bater devagar, num ritmo manso, sincero, cheio de pertencimento.

Carlisle ergueu a taça de cristal de novo, o líquido âmbar refletindo as chamas trêmulas das velas.

— Antes de começarmos, — disse ele, com aquela voz calma e profunda — quero propor um brinde...

O murmúrio de risadas e vozes se aquietou. Todos voltaram os olhos para ele, até Hilary parou o movimento das mãozinhas curiosas. Um som de passos firmes e vozes masculinas ecoou do lado de fora antes mesmo que Carlisle tivesse a chance de concluir sua fala.

— A casa está mais viva do que nunca! — comentou Esme, emocionada, o olhar percorrendo cada rosto com ternura.

E com aquele instinto acolhedor, ela apressou-se até a escada para o andar abaixo com um brilho maternal nos olhos. Num segundo ela já parecia estar com a porta da casa aberta, convidando pessoas a entrarem, havia um conjunto de vozes e gargalhadas grave que eu reconheceria mesmo a distância. Meu peito inflou com ternura.

— Acho que a festa acabou de ficar mais cheia. — Rosalie ergueu as sobrancelhas, cruzando os braços de maneira elegante, não esnobe.

Emmett sorriu, como quem já sabia o que estava por vir.

— Aposto que é o pessoal de La Push.

Eu me virei, e o coração deu um salto familiar. Eu estava certa.

— Ei, espero que não tenhamos chegado tarde pra festa! — disse Thomas, o primeiro a entrar, com jaqueta encharcada da chuva e aquele jeito inconfundível, alto e sorridente, com o mesmo ar brincalhão que sempre o fazia competir com Emmett em qualquer coisa, como “qual deles contava as histórias mais absurdas”.

Isaac veio logo atrás, rindo com algo que Brady dissera, enquanto os outros balançavam as cabeças, fingindo reprovação, o reflexo quase idêntico do irmão, exceto pela trancinha fina que caia discretamente sobre a sobrancelha esquerda. Ele cumprimentou Carlisle com um aperto de mão firme e um olhar respeitoso, antes de sorrir para mim.

— Você parece bem melhor do que da última vez que te vimos, Amberli. — disse ele, a voz grave, mas gentil.

— Ah, melhor é pouco. — completou Brady, entrando junto com Ravi, que carregava uma bandeja envolta num pano de linho — Trouxemos o que prometemos. Peixe fresco, direto da costa.

Cole, que até então observava em silêncio encostado ao batente da porta, esboçou um meio sorriso satisfeito.

— Eu disse que eles não chegariam de mãos vazias.

— Até vocês vieram! — exclamei, a surpresa e emoção escapando na minha voz.

Thomas abriu os braços em um gesto largo e brincalhão.

— Claro que viemos, gata! Jake mandou uma mensagem dizendo que teria comida de verdade. Até achei que fosse mentira.

— Não era mentira. — respondeu Esme, aparecendo à porta com o sorriso caloroso de sempre — Só não esperava que vocês fossem chegar todos ao mesmo tempo.

Eles riram, e Isaac passou a mão pelos cabelos molhados, sem graça.

— A culpa é do Taylor! Ele errou a estrada duas vezes.

— Eu não errei, o GPS é que não entende o que é essa estrada fora da rodovia. — retrucou ele, arrancando gargalhadas até de Jacob, que já se aproximava para cumprimentá-los com abraços e tapas nas costas.

Taylor e Martim vieram por último, os dois mais jovens, sempre parecendo um pouco deslocados entre os veteranos, mas logo se entrosando quando viram Jacob e Emmett trocarem piadas de canto.

A sala se encheu de vozes graves, risadas, e o perfume de madeira molhada que parecia acompanhar os quileutes aonde quer que fossem. Helena, aninhada no colo de Renesmee, ergueu as mãozinhas curiosas para o grupo, arrancando sorrisos imediatos. Hilary, que estava perto de Esme, tentou imitá-la, balbuciando algo que soou como “Oii”.

A energia da casa mudou de imediato, ainda mais quente, mais viva, mais humana. Os Cullen, com toda a elegância que sempre mantinham, pareciam se adaptar à presença barulhenta dos meninos quileutes como se fosse natural. Alice os cumprimentou com entusiasmo, comentando algo sobre o contraste “marrom e bege” das roupas deles, enquanto Jasper sorria de canto, divertindo-se com a espontaneidade dela. Rosalie manteve-se discreta, uma careta aqui e outra ali, mas vi que havia um sorriso sincero no canto da sua boca bem-marcada pelo batom quando viu a forma como Collin ajeitava o cabelo antes de se aproximar, claramente nervoso por estar ali. Cole passou por mim, o cheiro de chuva e madeira molhada o acompanhando.

— Espero que não se importe. — disse ele, baixo, inclinando-se um pouco — Eles insistiram em vir quando Esme apresentou a ideia.

— Eu nunca me importaria. — respondi, sincera — Faz tempo que não os vejo.

Eu me pus em pé para abraçar cada um daqueles homens de corpos altos e quentes. Hilary, quis ir para o colo de Esme, e através dela, ergueu as mãos em direção a Cole, e ele não resistiu, pegou-a com facilidade, como quem já conhecia cada movimento dela.

— Ei, pequena... — murmurou, ajeitando a menina no braço — Você cresceu desde a última vez, hein?

Ela riu, e a risada ecoou como uma nota clara na sala.

— Ela lembra da gente? — perguntou Isaac, curioso.

— Talvez não... — respondi — Mas acho que ela se familiarizou.

Esme sorriu, encantada com a cena, e em poucos instantes, todos estavam reunidos, Cullen e quileutes; humanos e imortais. Diferentes em tudo, exceto na forma como se olhavam. Com respeito. E com algo que ultrapassava qualquer diferença. Foi então que Esme anunciou, com aquele brilho de contentamento nos olhos:

— Agora sim, todos estão aqui. Podemos começar.

E foi nesse momento, cercada por rostos que significavam pedaços diferentes da minha história, o ontem em La Push, o presente em Forks, e o improvável elo entre dois mundos, que eu realmente senti o que era ser acolhida.

Carlisle, então, se aproximou de mim, com aquele sorriso tranquilo que parecia sempre compreender tudo antes mesmo que alguém dissesse algo.

— Amberli, acredito que agora sim temos todos reunidos.

Ele fez um gesto com a mão, indicando o caminho até a cozinha, e foi quando percebi o que realmente estava acontecendo. A luz amarela e suave que se estendia até o cômodo à frente parecia emanar um calor especial, como se a casa inteira respirasse junto. Guirlandas delicadas de folhas secas e galhos trançados decoravam o lustre discreto do teto, o aroma de noz-moscada e maçã assada pairava no ar, e sobre a mesa, uma ceia impecável se estendia em tons dourados, âmbar e caramelo. Por um instante, tudo silenciou dentro de mim. Não era só uma mesa bonita. Era um gesto, um lembrete silencioso de que, mesmo após tanto caos, ainda havia espaço para recomeços, para gratidão, para amor. Rosalie, de pé ao meu lado, pousou a mão em meu ombro, o toque gentil contrastando com o brilho orgulhoso em seus olhos.

Cole se aproximou em silêncio. Ele parou ao meu lado, as mãos nos bolsos, o rosto meio sério, mas os olhos… os olhos diziam tudo.

— Não é uma festa qualquer. — murmurou ele, baixo o suficiente para que só eu ouvisse — Eles quiseram fazer isso por você.

— Na verdade, todos nós quisemos. — Renesmee, que ainda segurava Helena no colo, sorriu de canto.

Isabella se aproximou um pouco, com aquele sorriso contido que eu reconhecia de alguém que entendia o que era recomeçar.

— Esme teve a ideia… mas ninguém resistiu em ajudar.

— E eu fiz questão de cuidar da parte mais importante. — Emmett ergueu um prato coberto de alumínio, com orgulho — A sobremesa!

— A sobremesa? — perguntou Jasper, arqueando a sobrancelha com desconfiança.

— Sim, senhor! Torta de abóbora feita por mim! — Emmett respondeu, batendo no peito, o que fez Isaac soltar uma gargalhada alta.

— Eu não provaria sem um antídoto por perto! — provocou Thomas, arrancando risos até de Edward, que parecia tentar conter um sorriso.

O clima era leve, vivo… e eu me senti incluída. Verdadeiramente incluída. Meu coração pulsava de alegria. Esme aproximou-se e estendeu os braços para mim como uma mãe faria com a filha.

— Nós sabíamos que você vinha se esforçando tanto, Amberli… — disse ela, com a voz doce e emocionada — Então pensamos que talvez fosse bom lembrar que o Dia de Ação de Graças não precisa ser sobre o que perdemos, mas sobre o que ainda temos.

Aquelas palavras me atingiram como uma onda morna. Meus olhos arderam, e antes que eu pudesse conter, um nó se formou na garganta. Hilary, que agora brincava com o colar brilhante no colo de Rosalie, me olhou e desatou a falar um embolado de palavras meio confusas, mas doce, quase como se entendesse que tudo aquilo era por mim.

Eu me abaixei um pouco, beijando o alto da cabeça dela, enquanto Helena, ainda no colo de Renesmee, batia as mãos, chamando a atenção da irmã, instigando uma canção.

Cole, ainda ao meu lado, soltou um suspiro discreto e cruzou os braços, desviando o olhar, como se tentasse disfarçar o quanto aquela cena também o tocava.

— Bem, — disse Carlisle, retomando o tom gentil, mas com um brilho de celebração nos olhos — acho que é hora de fazermos o que toda mesa de Ação de Graças merece.

— Comer? — Emmett se adiantou.

— Agradecer. — corrigiu Esme, com um olhar carinhosamente firme.

Todos riram, e então, pouco a pouco, foram se reaproximando da mesa. Quando a mesa finalmente se acomodou, com os pratos diante de cada um e o aroma de comida preenchendo o ar, senti que algo mudou dentro de mim. Não era apenas a fartura ou a perfeição da decoração… era o silêncio compartilhado entre todos os olhares. Cada gesto, cada sorriso, cada movimento parecia dizer: você pertence aqui.

Eu ainda fiquei ali, parada, absorvendo tudo, o som, o cheiro, os rostos. Quando finalmente me sentei, senti algo diferente, a mesa parecia uma pintura viva. Louças brancas reluziam sob a luz das velas, e o vapor que subia das travessas se misturava ao perfume de canela e manteiga. Cole sentou-se à minha esquerda, e Rosalie com Hilary no colo, à direita, e Helena no colo de Renesmee um pouco adiante. Havia algo diferente, não era só conforto. Era uma espécie de paz nova, como se o mundo, pela primeira vez em muito tempo, me desse um respiro. Longo e verdadeiro.

E quando Carlisle começou a agradecer, não apenas pela comida, mas pela família que se forma nos lugares mais improváveis, eu compreendi o que aquele dia realmente significava. Não era apenas o Dia de Ação de Graças. Era o meu primeiro lar desde o caos.

— ...Como eu havia iniciado anteriormente; quero propor um brinde. — Carlisle tomou a fala, todos ouviam em silêncio — Hoje, somos gratos pela vida. Pelas pequenas alegrias que se escondem nos dias comuns, pelas pessoas que nos transformam só por existirem perto de nós. — ele olhou em minha direção, e por um instante, senti que aquelas palavras eram dirigidas diretamente a mim — E somos gratos, acima de tudo, pelas segundas chances que o tempo nos concede.

Enquanto Carlisle agradecia pela união improvável que existia entre todos àquela mesa, eu pensei em quantas vezes havia desejado uma cena assim e em quantas vezes achei que jamais aconteceria. O silêncio que se seguiu foi delicado. As chamas das velas tremularam, e o som distante da chuva batendo nas janelas parecia acompanhar a respiração coletiva da sala.

Cole foi o primeiro a erguer sua taça.

— Às segundas chances, então. — disse, em tom baixo, mas firme.

Outros seguiram o gesto, Edward, Brady, Esme, Bella, Thomas, todos; até que os cristais se tocaram num tinido suave, quase sagrado.

Eu fiquei alguns segundos segurando a taça, sem coragem de falar nada. A visão diante de mim parecia surreal, o brilho suave das velas refletindo nos olhos de cada um, o murmúrio das conversas que cessavam conforme eu dava o primeiro indício de que iria ser a próxima a falar, e aquele sentimento de pertencimento que, por tanto tempo, eu achei que jamais voltaria a sentir. Cole passou discretamente a mão quente pelo meu braço, um toque leve, quase instintivo, e eu percebi como aquela presença dele era ao mesmo tempo calma e firme, um ancoradouro silencioso em meio a tanta emoção. Esme olhou para mim com aquele sorriso maternal que parecia dizer “É a sua vez, querida”.

— Eu... — comecei, tomando fôlego, sentindo o coração tropeçar nas próprias batidas — Eu nunca fui muito boa com palavras. E... acho que faz tempo que não sentia algo assim.

Hilary, que brincava com uma fatia de pão, se remexeu no colo de Rosalie, e eu estendi minha mão para segurar a sua mãozinha desocupada antes de continuar:

— Eu me acostumei a correr o tempo todo. A acordar cedo, a cuidar, a tentar resolver tudo sozinha. Mas hoje... vocês me fizeram parar. E perceber que, às vezes, alguém também pode cuidar da gente.

Esme pousou a mão no peito, emocionada. Rosalie desviou o olhar, disfarçando a própria sensibilidade com um sorriso discreto.

— Eu não sei se mereço tudo isso, — continuei, com a voz embargada — mas sei que nunca vou esquecer. Obrigada. Por estarem aqui. Por me deixarem estar aqui.

Silêncio. Depois, um movimento suave. Alice bateu palmas baixinho, sorrindo com os olhos marejados. Jasper passou o braço por cima dos ombros dela.

Emmett foi direto:

— Acho que você acabou de melhorar o discurso do Carlisle. — o comentário arrancou risadas da mesa inteira, quebrando a emoção com leveza.

— Foi melhor do que o meu. — respondeu Carlisle, com aquele humor contido que só ele tinha.

Eu ri, enxugando discretamente o canto dos olhos. Cole me olhou de novo, e dessa vez o olhar dele foi longo. Firme, profundo, quase imperceptivelmente orgulhoso. Havia algo ali, na expressão dele, que dizia mais do que qualquer palavra.

Renesmee ajeitou Helena no cadeirote, minha filha apertava firmemente os talheres reluzentes contra seus dedinhos poderosos.

— Eu acho que as meninas também concordam. — disse Nessie, olhando para Hilary — Não é, pequena?

Hilary abriu um meio sorriso com um “É” e um coro suave de risadas encheu o ambiente outra vez. E então, Esme se levantou, os olhos brilhando sob a luz das velas, e ergueu uma taça de sidra dourada.

— Antes de começarmos a refeição. — disse ela, com a voz doce e firme — quero que todos saibam que este Dia de Ação de Graças não é apenas sobre comida ou tradições. É sobre união. Sobre estar junto, mesmo quando a vida insiste em nos separar.

Houve um silêncio respeitoso. Os olhos de todos se voltaram para ela e o calor daquele instante me atravessou como se eu tivesse sido banhada por luz.

— Hoje somos gratos por Amberli. — continuou Esme, olhando diretamente para mim — Por sua coragem, por sua força, por permitir que este lar a acolha. E também somos gratos por cada vida aqui presente, por cada amizade, cada amor, cada gesto que nos lembra que nunca estamos sozinhos.

Cole ergueu a taça primeiro, num gesto discreto, mas firme.

— À Amberli. — disse ele, baixo, mas cheio de sinceridade.

Carlisle levantou a sua, e logo todos seguiram: Bella, Edward, Rosalie, Emmett, Jasper, Alice, Renesmee… até os meninos quileutes se inclinaram em suas taças, Brady e Ravi trocando olhares e sorrisos cúmplices, Taylor e Martim erguendo as mãos junto a Isaac e Thomas. Hilary balbuciou algo que soou como “Para a mamãe!”, e eu sorri, emocionada, segurando a pequena com mais força contra meu peito. Helena bateu palminhas, encantada com o brilho das velas refletindo na sidra.

Então, Esme levantou a taça mais alto e completou:

— À Amberli. À coragem de recomeçar.

Todos repetiram o gesto, e o som do brinde ecoou leve, como se fosse parte do próprio ar, se misturando à risada das meninas, às brincadeiras dos quileutes e ao silêncio tranquilo dos Cullen. Quando minha taça tocou a de Cole, senti algo mais do que o metal ou vidro, senti o calor de todos ali, a certeza de que, apesar de tudo, este era meu lugar. Enquanto as velas tremulavam e o cheiro de canela se misturava à chuva, percebi que aquele instante era mais do que uma refeição, era um respiro, comunhão, um pedaço de cura, um lar que me havia sido dado mesmo sem eu pedir.

— À coragem de recomeçar! — eu disse, quase sem fôlego, sentindo o nó na garganta se desfazer aos poucos, eu respirei fundo e realmente senti: estava exatamente onde precisava estar.

E quando levei a taça aos lábios, senti um gosto adocicado e quente, algo que me fez sorrir sem perceber.

Talvez fosse o sabor da gratidão.

Enquanto isso, Esme circulava a mesa com aquele cuidado, ela não queria que nada faltasse, servia com as próprias mãos, ajeitando os talheres, trocando pratos, sorrindo com o coração inteiro em cada gesto. Era como se ela vivesse o prazer de alimentar os outros, mesmo que nunca provasse o sabor do que preparava. Ela distribuía pedaços de torta, o cheiro de noz-moscada e maçã dominando o ar.

— Sirva-se, querida! — ela disse, pousando diante de mim uma travessa dourada com legumes tostados e fatias de peru perfeitamente dispostas.

Eu aceitei um pedaço pequeno, ainda tentando me acostumar à ideia de estar ali, cercada por pessoas que, de alguma forma, haviam transformado a solidão em acolhimento. Cole riu baixo, enquanto Thomas e Isaac, sentados próximos a Emmett, já travavam uma competição silenciosa sobre quem comeria mais.

— Eu avisei que vocês iam se arrepender. — Emmett provocou — Vampiro ou não, ninguém vence a minha torta de abóbora no quesito aparência.

— Aparência? — Isaac riu, pegando uma fatia generosa — Então é pra olhar, não pra comer?

O riso deles preencheu o ambiente como uma brisa morna. Por um instante, eu me perdi observando a naturalidade com que todos se misturavam, vampiros e humanos, dois mundos que deveriam se repelir, mas ali… parecíamos apenas parte de uma mesma história.

Notei, porém, algo curioso.

Os Cullen serviam-se também, pequenas porções, pedaços quase simbólicos. Rosalie mexia levemente o garfo, fingindo provar; Carlisle segurava um cálice entre os dedos, conversando sobre literatura com Jasper; Edward sorria enquanto observava Bella cortar uma fatia de peru para Renesmee, que realmente comia. E, embora o gesto fosse silencioso, havia algo profundamente humano nisso. Eles não comiam, eu sabia, mas participavam. De um jeito que era mais sincero do que qualquer refeição.

Hilary, agora em meu colo, brincava com o guardanapo, e eu deixei que ela experimentasse um pedacinho de pão, enquanto Helena, risonha, batia as mãos na borda da bandeja tentando alcançar outra colher de prata. Parecia estar montando uma coleção perfeitamente alinhada.

— Ela também gosta de brilho! — comentou Renesmee com os pais, rindo baixinho.

— Elas são… tão pequenas e já tão nossas... — murmurou Edward, ao lado de Bella, o olhar suave.

Cole se inclinou um pouco, olhando as duas meninas com ternura disfarçada.

— Elas puxaram isso da mãe. — disse ele, sem me encarar, mas o canto do seu sorriso o denunciou.

Os quileutes riam entre si, trocando piadas de sempre, e Emmett, claro, exagerava em cada gesto. Thomas e Isaac se provocavam como se competissem pelo maior pedaço de peru, enquanto Brady, Ravi, Taylor e Martim tentavam acompanhar sem se engasgarem de tanto rir.

— Eu avisei que ele começaria com as cantadas antes da sobremesa. — Rosalie soltou um suspiro divertido, cruzando as pernas. Ela falava de outro assunto, possivelmente relacionado ao seu marido.

Todos riram, e eu… apenas fiquei ali, ouvindo. O som, as vozes, o riso, o calor das velas e a presença de todos, vivos de formas diferentes, mas vivos. Naquele instante, percebi que, mesmo que eles não comessem, havia algo sendo partilhado, e era mais nutritivo do que qualquer refeição, era o começo de algo que eu nunca mais deixaria escapar, uma família que se estendia além do sangue, um lar que me havia encontrado no momento exato em que eu mais precisava.

E naquele instante, entre o calor das velas e o tilintar das taças e talheres, soube que, finalmente, podia me permitir sentir paz.

Enquanto eu equilibrava Hilary, sentada no meu colo apenas do lado esquerdo para conseguir manusear os talheres, ela decidiu que a melhor forma de comer o pãozinho era amassando-o com as mãos antes de colocar qualquer pedaço na boca. Eu ri baixinho, deixando-a explorar, enquanto colecionava migalhas pela minha blusa. Helena, por outro lado, agradecia a cada pedaço de comida que Renesmee oferecia.

— ...Elas também adoram bater palmas. — dizia Renesmee, sorrindo — Fora a recente mania de agradecer a tudo. Deve ser uma habilidade herdada da mãe delas.

Cole se inclinou, observando a cena com atenção, e murmurou baixo:

— Parece que elas já sabem quem são.

Eu senti o calor subir às bochechas, sem saber se ria ou se derretia de emoção. Cole desviou o olhar, como se estivesse envergonhado por me tocar com aquela simples observação, e sorriu discretamente. Enquanto isso, Emmett e os gêmeos competiam para ver quem pegava mais fatias de torta de abóbora.

— Aposto que nem vocês, Cullen, conseguem comer tanto! — provocou Thomas, tentando enfiar duas fatias no prato ao mesmo tempo.

— Eu até conseguiria! — respondeu Emmett, rindo alto — Mas prefiro deixar vocês se enganarem!

Isaac bufou, fingindo indignação, e Brady, Ravi, Taylor e Martim caíram na risada, enquanto Cole apenas balançava a cabeça, meio divertido, meio resignado com a energia contagiante deles. Eu, quieta, observei Rosalie mexer o garfo com perfeição, mas nenhum pedaço chegar à boca. Carlisle conversava calmamente com Jasper e Collin, e Alice observava cada gesto, sorrindo de canto.

Hilary, finalmente comeu todos os pedacinhos do pão amassado, e pediu por alguns pedaços de batatas que havia no meu prato. Ela não quis que eu simplesmente colocasse os pedaços em sua boca; queria segurar o talher e levá-lo sozinha à própria boca. Depois de algumas tentativas falhas, ela conseguiu colocar um pedacinho de batata na boca, e soltou um pequeno gritinho de triunfo. Helena imitou diligentemente, e os dois quileutes mais próximos, Taylor e Martim aplaudiram as meninas, arrancando risadas da mesa inteira.

— Vocês estão me dizendo que toda essa diversão é só porque elas sabem bater palmas? — Emmett perguntou, erguendo uma sobrancelha, com Thomas rindo do lado dele.

— Pode ser! — disse Isaac, com um sorriso largo — Mas pelo jeito, Amberli também merece aplausos, não é, pequenas? — incentivou minhas filhas a erguerem as mãozinhas numa salva de palmas.

Eu me senti engolida por uma onda de emoção. Cole tocou minha mão discretamente, e os olhos dele encontraram os meus por um instante longo, silencioso, cheio de significado.

— Você merece. — ele sussurrou.

— Quem colocou tantas velas aqui? — Jacob apontou para o brilho que refletia nas travessas, o rosto iluminado de maneira quase mágica — É hipnotizante.

— Esme! — respondeu Nessie, sorrindo — Ela acha que a comida fica mais gostosa quando o ambiente é acolhedor.

O que veio depois foi um burburinho constante de risadas, pequenos acidentes da Hilary derrubando um pedacinho de comida no chão, Helena tentando pegar a manteiga e conversar com Collin e provocações leves entre Quileutes e Cullen. A cada instante, percebia como aquela mistura improvável de pessoas, raças e mundos funcionava tão bem quanto qualquer refeição tradicional. E, entre uma risada e outra, o momento se ressignificava: não era a comida, não era a perfeição da decoração, não eram os elogios. Era a sensação de estar finalmente em casa, rodeada por aqueles que me amavam de formas diferentes, mas igualmente genuínas.

Mais tarde, enquanto passávamos as travessas vazias, nossos dedos se tocaram de leve. Cole manteve o contato por um instante a mais do que necessário, e eu senti aquele arrepio familiar. Quando o prato principal terminou e o cheiro da torta de abóbora começou a dominar o ar, Esme levantou novamente a taça de sidra:

— Vamos brindar não apenas pelo alimento, mas por este lar que se forma entre nós. — disse ela, olhando para cada um dos presentes — Por Amberli, por coragem, por amor, e pela união que nos mantém juntos, apesar de tudo.

Todos ergueram suas taças, e novamente senti aquele calor, aquele pertencimento. Cole, ao meu lado, envolveu levemente minha mão com a dele. Eu respirei fundo correspondendo, sorrindo para todos: Cullen, quileutes, Cole, Helena e Hilary. Apertei meus dedos contra os de Cole, amando esse momento, esse lar, esse laço que unia todos nós. A sobremesa chegou, e com ela uma nova onda de risadas. Emmett, claro, fez questão de exibir a torta de abóbora como se fosse um troféu, enquanto Thomas e Isaac se entreolhavam, prontos para a próxima competição silenciosa de quem comeria mais rápido. Brady, Ravi, Taylor e Martim riam, tentando acompanhar o ritmo, enquanto Jacob se inclinava para ver Hilary, que tentava repetir os movimentos de Helena batendo palminhas dentro do ritmo e cantarolava perfeitamente uma das canções favoritas de Hilary, que se divertia com o pão e batia palminhas. Quando a cantoria cessou, Helena passou a conversar habilmente com Alice, tentando chamar mais da atenção de Jasper.

Cole continuava ao meu lado, tranquilo, mas atento a cada gesto meu e das meninas, e eu sentia que Cole não tirava os olhos de mim mesmo que mantivesse a conversa com os outros ao nosso redor. Quando tentei alcançar um pedaço de torta salgada para Hilary, nossos dedos se tocaram de leve. Ele sorriu de canto, como se entendesse o que eu estava pensando antes mesmo que eu pensasse.

— Você sempre consegue se cercar de caos com tanto estilo? — disse ele baixo, depois de algum tempo, com aquele sorriso que tentava ser brincalhão, mas que carregava algo mais.

— Caos? — perguntei, segurando o riso enquanto observava Thomas quase derrubar uma fatia de torta — Acho que isso aqui se chama família.

— Família ou caos, não faz diferença... — murmurou ele, inclinando-se ligeiramente para perto, como se fosse um segredo só nosso — Desde que você esteja no meio.

Senti um calor subir ao peito, e desviei o olhar para Hilary, fingindo concentração no pãozinho esmagado entre os dedinhos dela, mas não consegui esconder o sorriso.

— Acho que você se acostumou rápido com a confusão deles. — comentou ele, desviando o olhar, mas o canto dos lábios denunciando o que não dizia.

— Ou eu simplesmente gosto dela. — respondi baixinho, só para mim mesma, mas ele me ouviu. Cole ergueu a sobrancelha, os olhos brilhando de leve, como se estivesse se divertindo com meu comentário.

Quando Emmett provocou Thomas e Isaac por estarem comendo os infinitos pedaços de torta de forma exagerada, Cole me deu uma risadinha discreta, inclinando-se para cochichar:

— Você não acha que essas crianças vão nos deixar malucos antes do final do dia? — murmurou ele baixo, só para mim.

— Acho que já estamos bem nessa. — respondi, sorrindo — Mas não me importo de perder para eles.

— Não se preocupe. Eu posso cuidar deles se eles exagerarem muito.

Ele riu, e senti o calor da mão dele ainda pairando sobre a minha. Cada gesto discreto, cada olhar, era como se falasse: estou aqui. Você não está sozinha. Sorri para ele, sentindo uma confiança silenciosa inflar mais ainda entre nós. Era como se, no meio de toda aquela festa, só nós dois tivéssemos nosso próprio pequeno diálogo, cheio de nuances e compreensão mútua. Enquanto todos se serviam de torta, Cole pegou um pouco para mim, mesmo sabendo que eu conseguiria sozinha. Era um gesto simples, mas cheio de cuidado.

— Para você. — disse ele, discretamente, e eu sorri, sentindo meu coração acelerar sem que ninguém percebesse.

Helena acomodou a colher diligentemente entre seus pequenos dedos, colocando facilmente um pequeno pedaço de torta na boca, e Hilary a imitou, falhando algumas vezes, até conseguir, rindo. O ambiente permanecia leve, cheio de vozes, risadas e pequenas provocações. Emmett fingia estar exausto de tanto comer, Thomas e Isaac continuavam a disputar pedaços de outra forma de torta, e Rosalie, mesmo fingindo indiferença, observava cada movimento com um sorriso quase imperceptível. No meio de toda aquela confusão, Cole segurou minha mão por um instante, num entrelaço firme, mas silencioso. Carlisle, aproveitando o clima alegre e sereno que parecia encher todos os corações junto comigo, se levantou novamente, e a casa mergulhou em um silêncio respeitoso.

— Que este Dia de Ação de Graças nos lembre da importância de estarmos juntos! — disse ele, olhando para todos os presentes — Humanos, vampiros… todos aqui reunidos, como uma única família.

Esme ergueu a taça mais uma vez, e cada um seguiu o gesto. Toquei a borda da taça contra o copo azul da Hilary, vendo em segundo plano todos participando, seja com comida, com riso, ou apenas com companhia. Quando minhas taças se encontraram com a de Cole, senti algo profundo, a certeza ainda mais concreta de que não estava sozinha, que finalmente havia um lugar para mim e minhas filhas, um lar que se estendia para além do que eu conhecia. Passei os olhos ao redor, na certeza de que eles brilhavam nesse instante, entre o tilintar das taças sendo esvaziadas e enchidas, as risadas das crianças e o calor de cada família, percebi que a verdadeira refeição não estava dispostos nos pratos, mas naquele momento cheio de cuidado, amor e pertencimento. Deixei que tudo aquilo me envolvesse, fechando os olhos e respirando fundo, não consegui evitar um sorriso. Cole apertou um pouco mais minha mão, Helena e Hilary sorriam entre a distância entre si, e eu soube: esse era o meu lar, finalmente, e ninguém poderia tirar isso de mim.

A minha cabeça ainda vibrava com os últimos ecos de risadas quando os irmãos quileutes começaram a se despedir. O sol, que constantemente eu imaginava bem ali, escondido entre as nuvens espessas, deixava um rastro pálido pelas janelas altas da casa, uma luz fria e suave, refletida nos móveis de madeira. Thomas e Isaac foram os primeiros a levantar, ainda rindo da discussão com Emmett sobre quem venceria um braço de ferro “sem restrições”.

— A gente volta pra revanche, grandão! — disse Isaac, apontando para Emmett, que cruzou os braços, teatral.

— Sonhem, garotos! Aqui quem manda é o braço de vampiro!

Risos ecoaram outra vez. Brady e Ravi cumprimentaram Carlisle e Esme com respeito, e Alice, sorridente, os abraçou um por um antes de irem. Taylor e Martim se juntaram a eles na porta, trocando algumas últimas brincadeiras com Jacob, que os acompanhou até a varanda. Lá do lado de fora, os sons dos motores se misturaram ao barulho da chuva leve que começava a cair. A casa foi se acalmando aos poucos, como se encolhesse depois da agitação. As meninas, cansadas, estavam aninhadas nos braços de Rosalie e Renesmee, enquanto Esme recolhia discretamente as travessas vazias. Cole ficou perto de mim o tempo todo. Não invasivo, mas tranquilo, constante, protetor e discreto.

— Faz tempo que não vejo todo mundo junto assim. — ele comentou, encostando-se ao guarda-corpo da escada, olhando pela janela a neblina fina que cobria o gramado.

— É… — murmurei, ajeitando uma das almofadas no sofá ao redor de Helena quando Rosalie a pousou delicadamente ali — É diferente, mas bom.

— Diferente, mas bom. — ele repetiu, com um leve sorriso, como se tivesse gostado da combinação — Acho que é exatamente o que precisava ser hoje.

Jacob regressou logo depois, sacudindo a jaqueta humedecida, nos degraus abaixo vinha Renesmee em seu encalço, Hilary estava toda mole no colo dela.

— Eles já foram. — disse, soltando um respiro pelos lábios, quase num assovio. Seu olhar castanho escuro encontrou Cole — Vai ficar mais um pouco, ou ia com eles?

Cole deu de ombros.

— Acho que fico. — o olhar dele se moveu até mim, e um sorriso breve se formou — Ainda não estou com vontade de ir.

Renesmee sorriu, brincando com um cacho de cabelo frisado que escapara para a testa.

— Então fica, Cole. — ela olhou para Jacob, com um toque de cumplicidade — As meninas vão acordar daqui a pouco, e acho que vão gostar de te ver.

Hilary, como se compreendesse a menção indireta do próprio nome, se mexeu no colo dela. Helena abriu os olhos, sonolenta, e esticou a mãozinha em minha direção. O coração me derreteu no mesmo instante. Cole se aproximou devagar, com aquele cuidado que parecia sempre medir o espaço entre nós antes de cruzá-lo. Ajoelhou-se diante de Helena e fez uma careta suave, arrancando dela uma risada rouca e breve.

— Ei, mocinha, dormiu bem? — ele perguntou, tocando de leve o pezinho dela.

— Eu só tirei um cochilinho... — ela disse para ele, parecendo tímida, franzindo o nariz.

Helena sorriu, e eu juro que, por um segundo, tudo ao redor sumiu. Só havia aquele gesto simples, aquela risada curta, e o calor discreto do olhar dele sobre mim logo em seguida. Jacob e Renesmee se entreolharam, cúmplices de algo que eu ainda não entendia completamente. Ele passou o braço em volta dela e a puxou para perto, observando-nos em silêncio, como se soubessem que aquele momento pertencia a outro tipo de calmaria.

— Acho que nós vamos ficar por aqui com as pequenas. — disse Renesmee, sorrindo para mim — Pode aproveitar um pouco, Amberli.

— Aproveitar? — perguntei, confusa, dando atenção aos movimentos de Helena, que em silêncio, pedia por colo.

— Sim. — ela respondeu, rindo baixinho — Deixar o dia terminar do jeito certo.

Cole endireitou-se, passando uma das mãos pelo cabelo.

— Quer dar uma volta antes da chuva apertar? — perguntou ele, num tom calmo, sério e quase tímido.

Olhei para a janela. A chuva vinha em gotas miúdas, quase translúcidas como uma bruma, e a floresta ao redor da casa parecia envolta num véu de prata.

— Só se for uma volta curta. — respondi, com um meio sorriso.

Ele assentiu, estendendo a mão para mim, um gesto natural, sem pressa, mas com algo de silenciosamente íntimo. Aceitei sua mão, deixando que nossos dedos se encaixassem entre si, naquele instante, antes de qualquer passo, percebi que o que começava entre nós não tinha nada de grandioso nem repentino. Era lento, sincero, e nascia justamente no espaço onde o silêncio encontrava o conforto. Jacob trocou um olhar rápido com Renesmee, e ela apenas assentiu, sorrindo.

— Vai lá, Amberli. — disse ele, cruzando os braços, flexionando os músculos — Prometo que as meninas ficam bem.

Eu ainda hesitei por um instante, mas Cole esperou paciente, firme, com aquele olhar que parecia dizer que nada precisava ser apressado. Pisquei os olhos, a respiração curta saindo por entre meus lábios, o coração dando uma guinada acelerada, engoli seco, mas não fui capaz de desviar meu olhar. Às vezes, olhar para ele era como mirar dentro de um veio de ágata rachado: partes opacas, partes translúcidas. Camadas de história, de dor, de beleza em estado bruto.

Mas agora, parecia que ele carregava dentro de si a memória do tempo, como se seu corpo tivesse sido esculpido em madeira de pinho, e os nós que surgiam fossem os pontos onde sentimentos antigos insistiam em permanecer. E mesmo que ele nunca dissesse nada por entre aquele mistério no profundo... Os olhos dele, esses olhos de pedra viva, de madeira nobre, de folhas eternas me contavam tudo; talvez muitas coisas estivessem sendo ditas em sua língua nativa, a qual eu não fazia ideia de como interpretar, mas era inegável que estava a falar.

Suspirei. O coração ainda pulsava forte. Dei impulso em nossas mãos, fazendo um leve movimento de que estava pronta para sairmos. Cole pegou o casaco pendurado na cadeira, justou o tecido pesado sobre meus ombros como uma proteção à mais e o segui escada abaixo até a porta. E mesmo com nossos passos ecoando pelos degraus, pude ouvir a voz baixa de Renesmee atrás de mim:

— ...Eu disse que ela ia começar a sorrir de novo.

Quando atravessamos a conexão com a sala, eu virei discretamente, vendo Carlisle inclinar-se diante da lareira, com aquele mesmo cuidado metódico que ele usava para tudo. O cheiro leve de madeira queimada se espalhava, as fagulhas se ergueram devagar, douradas e vivas, refletindo-se no brilho do chão de madeira.

Seguimos para a saída. O ar do lado de fora estava frio, mas não o bastante para me arrepender de sair. A chuva fina caía como bruma em fios delicados, como véus de vidro se desfazendo sobre as árvores. O cheiro de terra molhada e cedro fresco misturava-se com o perfume distante de lenha acesa vindo lá de dentro. Caminhamos em silêncio por um tempo, para mim, sem destino certo; só o som dos passos sobre o chão húmido, o murmúrio do rio e o vento que soprava entre as copas. Cole estava ao meu lado, bem próximo, nossas mãos unidas, num toque quente, respeitoso. Mesmo assim, o simples movimento do corpo dele, o calor que escapava de sua pele avermelhada exposta, fazia o ar ao meu redor pulsar de um jeito que eu não sentia há muito tempo. Ou talvez nunca tivesse sentido antes de chegar aqui.

Dois dias.

Dois dias sem vê-lo.

E por mais que eu tentasse convencer a mim mesma de que não sentia falta, havia algo no jeito como algo dentro do meu peito desacelerava agora, com ele perto, que me traía completamente. Virei-me devagar, sem motivo aparente, talvez só para olhar para ele. Mas o olhar dele me encontrou com uma precisão desarmante, como se já estivesse me esperando. Havia algo ali, nos olhos dele, que me puxava. Quando parei de caminhar, ele também parou.

— Você sumiu. — falei, enfim, tentando parecer casual.

Ele arqueou uma sobrancelha, mas manteve o olhar à frente. Um vento gelado atravessou o espaço entre nós, e eu senti os pelos dos braços se eriçarem por debaixo das camadas de tecidos.

— É… — respondeu, depois de uma pausa curta. Voltando a nos movimentar — Eu sei.

— Achei que tinha feito alguma coisa errada. — completei, meio brincando, tentando ler o que ele não dizia.

Ele parou. Virou-se para mim, e isso bastou para que o calor dele me envolvesse. O olhar dele era sério, mas calmo.

— Não. — balançou a cabeça devagar — Você não fez nada errado, Lee.

O tom da voz dele era diferente. Não defensivo, nem frio. Só… verdadeiro. Eu fiquei em silêncio por um momento, observando uma gota d’água cair de uma mecha do cabelo dele e deslizar até o queixo.

— Então o que foi? — perguntei.

— Esme me pediu ajuda com algumas coisas. — fez uma pausa curta, quase um sorriso — Ela queria que o Dia de Ação de Graças fosse perfeito pra você.

O peito apertou, mas eu não me movi. Apenas respirei, sentindo o ar mudar, o tempo se alongar.

— Ah... Então era isso.

— Era. — confirmou ele, desviando o olhar por um segundo — Mas também… — hesitou, passando a mão no pescoço — eu achei que talvez fosse bom te dar um tempo.

— Um tempo?

Ele assentiu, com um sorriso contido.

— Você tem passado por muita coisa. Eu… — suspirou — Não queria parecer alguém que mal chegou na sua vida e já exige ocupar espaço demais.

A sinceridade dele me desmontou. Porque ninguém nunca tinha dito isso, não com aquele cuidado.

— Mas você não ocupa espaço demais, Cole. — respondi, mais rápido do que pretendia — Quando você não aparece… é que parece que falta espaço.

Ele me olhou, surpreso. Ficou quieto. O som da floresta pareceu se expandir entre nós. E então ele deu um passo mais perto. Só um.

— Eu fiquei com medo. — confessou, depois de um tempo — De te deixar confusa. De fazer você pensar que eu estou tentando tomar o lugar de alguém.

Aquela frase atravessou o ar entre nós devagar. E eu soube que ele falava de a respeito de tudo: de quem eu fui, do que perdi, do que foi embora e do quanto ainda tentava aprender a respirar outra vez.

— Ninguém está no lugar de ninguém, Cole. — disse, firme, mas suave — Só existe quem fica… e quem vai.

Ele respirou fundo. O olhar dele se suavizou, e por um instante, vi algo brilhar por trás da calma.

— E eu tô aqui. — respondeu ele, com uma simplicidade tão honesta que me fez engolir seco.

Ficamos em silêncio depois disso. Um silêncio bom, cheio, que vem quando não é mais preciso se explicar. Caminhamos mais um pouco, e eu percebi o quanto era fácil estar com ele, o quanto o mundo parecia menos barulhento ao lado dele.

— Sabe, — ele disse, de repente, com o tom mais leve — quando eu tava no porto nesses dias, eu fiquei pensando…

— No quê?

— No quanto você fala com as mãos. — sorriu de lado — Quando está nervosa, quando tenta disfarçar que tá sentindo alguma coisa.

— Você presta atenção demais. — revirei os olhos, rindo sem graça.

— Eu presto atenção no que me importa. — respondeu ele, simples.

Mas a forma como ele disse, o jeito como olhou para mim enquanto dizia, foi o suficiente para acender aquele tipo de calma que vem junto com o medo, aquele medo bom, aquele que faz o coração pulsar num aviso que alguma coisa está mudando.

— Você ainda vai se cansar de mim, sabia? — Eu desviei o olhar, tentando esconder o sorriso.

— Acho que não, nem se eu quisesse. — ele disse, quase rindo — Tem gente que a gente só quer ficar por perto, mesmo que não entenda bem o porquê.

Eu sorri, movendo brevemente a cabeça ao concordar. Passeei meus olhos ao redor, acima da copa das árvores longas e magras, as nuvens baixas cobriam o céu como um lençol cinzento, e o som dos pássaros e dos galhos molhados estalando sob os pés era o único ruído entre nós por mais algumas passadas.

— Posso te perguntar uma coisa? — ele disse, enfim, quebrando o som da floresta.

— Pode. — dei permissão.

— O que você espera daqui? — ele olhou pra frente, a voz tranquila, mas com uma curiosidade genuína — Digo… de Forks. Desse lugar. Das pessoas daqui. Do seu futuro aqui.

A pergunta me pegou de surpresa. Respirei, tentando encontrar palavras que não soassem frágeis demais.

— Não sei ao certo. — respondi, olhando o chão coberto de folhas — Eu não tinha planos quando cheguei. Só queria… sobreviver e proteger a Hilary.

Ele assentiu, como se entendesse mais do que eu estava dizendo.

— E agora? — insistiu com gentileza — Ainda é só isso?

Pensei por um instante. O vento gelado batia no rosto e fazia o cabelo colar na pele. Eu senti vontade de ser honesta, talvez porque ele não é do tipo que julgava, só ouvia.

— Agora eu só quero sentir que pertenço a algum lugar. — falei devagar — Que posso parar de fugir o tempo todo.

Cole desviou o olhar para mim, observando com atenção.

— E acha que Forks pode ser esse lugar?

Hesitei.

— Talvez. — admiti — Sou técnica em farmácia, então não seria tão difícil encontrar uma vaga de trabalho nessa área. Tenho desenvoltura em análises e controle de qualidade e tantas outras vertentes do ramo... — respirei — É estranho, sabe? Às vezes parece que tudo aqui é calmo demais, como se o tempo tivesse esquecido de correr. Mas tem algo nisso que me faz..., sei lá... respirar direito.

— Isso é um bom sinal. — ele disse, com um meio sorriso — Quando o corpo começa a respirar sem a gente mandar, é porque o coração tá aprendendo a ficar.

Eu ri de leve, balançando a cabeça.

— Essa foi profunda.

— Foi sincera. — Cole retrucou, ainda sorrindo.

Andamos mais alguns metros em silêncio.

— E você? — perguntei com cautela — O que espera daqui?

Ele pensou um pouco antes de responder.

— Eu não sei se espero… Quando precisei sair de Ilwaco havia outras questões aqui além de gerenciar pessoalmente o centro pesqueiro em La Push..., foi bem difícil me habituar ao meu povo de novo; acho que aprendi a deixar as coisas me encontrarem. — deu de ombros — Mas tem algo diferente agora.

— Diferente?

Ele olhou para mim, e por um segundo o tempo pareceu desacelerar.

— É. — sorriu, discreto — Acho que é você quem está deixando Forks mais viva pra mim.

Meu coração errou o compasso. Não havia provocação na voz dele, nem charme forçado. Só verdade. Desviei o olhar, sentindo o rosto aquecer.

— Você fala umas coisas que me deixam sem saber o que responder. — soltei um riso nervoso.

— Então não responda. — ele disse, sereno — Apenas sinta.

— Cole… — comecei, quase num sussurro — Você acha que é errado eu estar começando a me sentir bem aqui? Depois de tudo?

Ele franziu o cenho, como se a resposta fosse óbvia.

— Errado? Não. Eu acho que é bonito. Tem gente que passa a vida inteira tentando voltar a sentir isso, Lee.

As palavras dele me tocaram numa área que eu ainda não sabia que estava tentando se curar. Ficamos parados por um momento, sem precisar dizer mais nada. O vento soprou, levantando uma mecha do meu cabelo, jogando-a na minha cara como se fosse teias de aranha, e ele estendeu a mão automaticamente, ajeitando tudo para atrás da minha orelha. O toque foi breve, quente, decidido, delicado, mas o suficiente para me tirar o fôlego e fechar os olhos por um instante.

— Eu gosto desse cheiro... — ele disse, por fim, olhando ao nosso redor — De chuva, de madeira molhada… é como se o mundo respirasse mais devagar aqui.

Sorri, olhando para a trilha coberta de folhas.

— É. Aqui nesse lado do país até o silêncio soa diferente.

Ele virou o rosto na minha direção.

— E você? Tá diferente hoje.

— Diferente? — repeti, surpresa.

— É. — ele encolheu os ombros — Você parece... mais leve. Mais… viva, eu acho. — disse ele por fim, quebrando o silêncio sem pressa.

A palavra me pegou desprevenida. Leve. Viva. Fazia tempo que ninguém me via assim. Fazia tempo que eu mesma não me via assim.

— Mais leve? — perguntei, rindo de leve, embora minha voz tenha saído baixa, como se o ar não quisesse me deixar falar.

— É desse jeito que você devia ficar sempre. — disse, com um tom baixo, quase um sussurro — Rindo sem medo. Hoje, na mesa, quando você riu com Rosalie, ou com todos os outros, foi diferente. Parecia... você mesma. — ele me olhou por um instante, como quem não tem medo de olhar de verdade — Fazia tempo que eu não via esse sorriso.

Desviei o olhar, mas o calor subiu do pescoço até o rosto. O coração apertou, e eu logo o olhei de volta. O rosto dele estava perto, talvez perto demais, e por um instante, pensei que fosse o frio às minhas costas que fazia minha pele arrepiar. Mas não era.

Era ele.

Era a calma que me invadia quando ele estava por perto. A forma como a presença dele parecia me ancorar no mundo, como se eu finalmente pudesse existir sem ter que me proteger de tudo. Arrastei um passo à frente, devagar. A distância entre nós quase desapareceu. Cole não se moveu. Só me olhou, o tipo de olhar que segura firme, sem invadir, sem exigir. Eu respirei fundo, aspirando seu cheiro, o mesmo aroma que vinha indescritível junto do sal do mar e percebi o quanto eu havia sentido falta disso, sem sequer saber. Quis dizer algo, qualquer coisa, mas as palavras se dissolveram antes de saírem. A ponta dos meus dedos roçou na pele do braço dele, e um arrepio percorreu os meus braços.

Ele reagiu, quase imperceptível. Um respirar mais fundo, o maxilar tenso, os olhos que vacilaram por um segundo.

— Lee… — a voz dele saiu rouca, quase inaudível.

— Eu sei. — murmurei, baixando o olhar, tentando conter o sorriso que se formava sozinho — Não precisa dizer nada.

Ficamos assim por um tempo que pareceu longo demais e breve demais ao mesmo tempo. A garoa, o vento, a respiração, tudo parecia suspenso. O que existia ali não era só toque, era vontade. Um impulso delicado, intenso e contido. Quando recuei um passo, o ar voltou a circular entre nós. Cole respirou fundo, desviando o olhar como quem tenta retomar o controle de si mesmo.

— Eu acho que tinha esquecido como era. Rir de verdade. — murmurei retomando o fio da conversa.

Ele respirou fundo mais uma vez, quase num suspiro, e caminhou mais alguns passos antes de dizer:

— Então mantenha a lembrança. Não esquece de novo.

Havia tanta simplicidade naquela frase que doeu, uma dor bonita, que acorda o coração adormecido. Ficamos parados perto das árvores, e o som das gotas de chuva pingando das folhas caia em nossas cabeças. As gotas caíam sobre os fios de cabelo dele, escorrendo até a barba rala que começava a sombrear o queixo. Eu o observei sem disfarçar. O mundo pareceu encolher até caber no espaço entre nós. Meu coração acelerou, mas não de medo. Era algo mais profundo, algo que começava no peito e se espalhava por inteiro, parecia alcançar o fundo da minha alma.

— Cole... — comecei, mas não terminei. Não sabia o que dizer, só sei que sinto um impulso que me faz querer me aproximar mais, sentir de perto essa essência sua que sempre me traz segurança.

Ele me olhou, silencioso, como se me desse tempo para decidir o que fazer. E então, sem planejar, sem pensar, apenas segui o instinto suave de me aproximar, dei um passo à frente. Desfiz os nós entre nossos dedos, e ergui minhas mãos para que meus dedos tocassem de leve o peito dele, sentindo o calor absurdo da sua pele sob o tecido, e então, num gesto quase involuntário, toquei o rosto dele com a ponta dos dedos, Cole inclinou-se devagar, e vi o reflexo das nuvens nos olhos dele, cinza e luz ao mesmo tempo e soube que nada me afastaria mais dali. Ele se aproximou ainda mais e deixei que viesse, deixei o beijo acontecer.

Foi um beijo leve.

Quase um toque, um roçar breve de lábios quentes, suave como o som das gotas de chuva ao cair sobre as folhas. Mas naquele instante, o tempo parou incendiando tudo dentro de mim. Cole não se moveu de imediato, nossos lábios ficaram por mais um instante selados até ele romper o contato sensível e febril. Ele apenas me olhou, os olhos verdes de pálpebras puxadinhas foram aos poucos se arregalando, seu tórax se movia com brusquidão, surpreso, como se tentasse conter algo maior, como se não acreditasse que aquilo tivesse realmente acontecido.

O coração batia tão forte dentro de mim que pude sentir a vibração subir pela garganta.

— Desculpa! — sussurrei, mas minha voz saiu trêmula, e ele balançou a cabeça, negando.

— Não. — disse ele, com firmeza, e o som saiu rouco, como se a palavra tivesse vindo direto do peito — Não peça desculpa.

A respiração dele estava próxima, o hálito quente contrastando com o frio que nos cercava. Por um momento, ficamos ali, imóveis, apenas respirando o mesmo ar. E foi então que percebi: não havia medo em mim.

Pela primeira vez em muito tempo, não havia culpa, nem hesitação. Só havia vontade. Cole levantou uma das mãos e, devagar, tocou a lateral do meu rosto. Os dedos dele estavam enrugados pela humidade da chuva, mas o toque queimou, uma linha fina de calor que correu até o fundo de mim. Ele se inclinou um pouco, mas parou a meio caminho, como se ainda me deixasse escolher.

— Lee... — murmurou — Você tem certeza?

Eu sorri, um breve elevar dos lábios totalmente sincero. O coração trovejando dentro do meu peito.

— Pela primeira vez, tenho.

O olhar dele mudou. A gentileza deu lugar a algo mais profundo, mais intenso. E então ele me beijou.

Dessa vez, de verdade. Não houve pressa. Não houve dúvida. Lento, firme, quente. Quando seus lábios tocaram os meus, a primeira sensação foi um choque suave, quase elétrico, um arrepio que percorreu minha espinha e fez meus dedos latejarem de expectativa. Um beijo que não pedia licença nem pressa, que carregava o peso de tudo o que ficou calado até ali. Como se tudo o que eu contive durante meses finalmente tivesse encontrado saída.

O som da chuva se dissolveu, o frio da floresta desapareceu, e o mundo pareceu caber inteiro na nossa entrega. Não era só o contato físico, era como se ele tivesse tocado algo dentro de mim que eu nem sabia que existia, algo que sempre esteve esperando.

A pressão dele era firme, mas delicada, medida. Cada movimento parecia equilibrar desejo e cuidado, como se ele soubesse exatamente até onde podia ir. Só restava o calor dele, a precisão de uma das mãos em minha nuca, e a maneira como ele me puxava para mais perto, não para prender, mas para ancorar.

O beijo era encorpado. Flamejante. Vivo. Real.

Meu corpo respondeu antes da minha compreensão: meus joelhos cederam ligeiramente, meus braços tremeram contra os músculos dele, e o calor que subiu do peito espalhou-se pelos meus ombros, barriga e até pelos dedos.

Havia um ritmo, uma cadência quase silenciosa, como se nossos corpos tivessem ensaiado aquilo sem que eu percebesse. O toque dele despertava sensações duplicadas do que eu não ousava sentir havia muito tempo, e ainda assim não havia medo, apenas uma entrega confusa e deliciosa. Eu me sentia segura, mas vulnerável; potente, mas frágil. Como se, por algum motivo que eu não entendia, aquele era o lugar onde eu realmente pertencia.

O coração dele batia contra o meu de uma maneira que eu podia sentir, uma batida firme, desritmada, quase dialogando com a minha própria pulsação. Cada respiração compartilhada, cada pressão dos lábios, parecia sincronizar tudo dentro de mim. Não era só atração, era algo mais profundo, um reconhecimento silencioso de que, por algum motivo misterioso, ele e eu éramos peças encaixadas no mesmo instante.

O mundo ao redor existia apenas como sombra. As árvores, o chão húmido, a névoa pairando baixa, tudo desapareceu para mim. Só havia ele, Cole, e a sensação de que finalmente, de alguma forma inexplicável, eu pertencia.

Quando nos separamos, ele manteve a testa encostada na minha, respirando fundo, como se também estivesse tentando entender o que acabara de acontecer.

Fiquei ali, imóvel, sentindo o calor e o sabor dele ainda vibrar nos meus lábios, nas minhas mãos, na pele que havia roçado a dele. Inclinei levemente a cabeça, apoiando minhas mãos no peito dele, só para sentir a firmeza do corpo que se encaixava tão naturalmente ao meu. Cole manteve os olhos fechados por um instante, como se saboreasse o momento tanto quanto eu. E mesmo sem palavras, senti que ele entendia: nenhum gesto apressado, nenhuma pressa, apenas a entrega silenciosa de dois mundos que finalmente se encontravam. Cada respiração parecia carregada de eletricidade, mas também de algo mais profundo: confiança, segurança, reconhecimento. Eu nunca havia sentido nada assim. Nunca.

— Eu esperei por isso há tanto tempo. — confessou, num sussurro.

Meu corpo ainda lembrava de cada toque, e meu coração batia acelerado, mas não com medo. Com desejo? Talvez. Com certeza. Mas também com a convicção de que estou pronta para sentir sem recuar. Era como se uma parte de mim, aquela que sempre se escondia atrás do medo e da cautela, tivesse finalmente se dissolvido. Senti o peito apertar, não era de medo, mas de certezas. Porque, de algum modo, eu também.

Eu também esperava que isso acontecesse há um bom tempo.

Respirei fundo, tentando assimilar o que acontecia. Sentia cada batida desenfreada do coração dele, cada toque da respiração compartilhada, como se estivesse aprendendo a amar pela primeira vez. Meu corpo tremia, sim, mas não de hesitação. Tremia de vida, de pertencimento, de consciência de que algo havia mudado para sempre.

Quando recuei apenas alguns centímetros, só o suficiente para olhar nos olhos dele, notei a forma como a luz refletia nos olhos esverdeados dele, tornando-os ainda mais profundos, mais intensos, e encontrei ali a mesma intensidade que sentia. Um reflexo silencioso da minha própria entrega. Ele não acrescentou mais nada, mas o silêncio era tão carregado de significado que era quase insuportável. Um calor húmido e palpável percorria meu peito, meus braços, minha coluna. Eu não precisava entender nada. Não precisava controlar. Estar ali, sentir aquilo, era suficiente.

Cole sorriu levemente, sem forçar nada, só o canto dos lábios curvado numa reação simples, mas que me queimou por dentro. E naquele instante, na névoa e no frio da floresta de Forks, eu percebi que o mundo podia continuar do jeito que quisesse. Porque eu havia me permitido sentir, e já não havia mais volta.

Eu pertencia àquele momento. Pertencia a ele.

Continuamos ali, parados, quase grudados, sentindo a respiração um do outro se misturar ao ar húmido da floresta sob a chuva, abraçados pelo silêncio vivo da floresta, eu ainda estava deslumbrada por sentir as batidas do coração dele contra a palma das minhas mãos que ainda descansavam levemente sobre o peitoral dele, e eu podia sentir a firmeza sob minhas mãos, quente e segura. A sensação de pertencimento crescia, preenchendo cada parte do meu corpo e pela primeira vez desde que cheguei a Forks, o frio não me alcançou.

Cole inclinou a cabeça, e nossos olhares se encontraram novamente. Um sorriso sutil surgiu nos cantos de seus lábios, e meu peito se apertou com uma mistura de alegria e expectativa. Era um sorriso que dizia: estou aqui. E estou com você.

Minhas mãos deslizaram levemente para o ombro dele, e percebi como cada gesto simples carregava uma intensidade quase dolorosa de emoção, sem pressa, sem força... E era isso que me deixava sem ar: saber que ele estava ali, tão próximo, tão inteiro, tão meu de uma forma que eu ainda não entendia, mas que não precisava entender. Senti um impulso de me reaproximar mais, encostando minha testa no peitoral dele. O calor do corpo dele encontrou o meu, e tudo se alinhou de um jeito que eu não podia nem precisava explicar. O toque era elétrico, mas ao mesmo tempo calmo, como se dissesse: você pode ficar aqui. Pode se permitir.

Ele não disse nada, e eu também não precisava. Os olhos dele falavam por nós: profundos, fixos. Meus dedos ainda descansavam levemente sobre o ombro dele, e eu podia sentir a firmeza sob minhas mãos, quente e segura. Cada pequeno gesto seu, a maneira como inclinava a cabeça, o leve arqueamento de sobrancelha, o toque quase imperceptível do polegar na minha cintura falava de cuidado, de atenção, de desejo contido. O mundo ao nosso redor continuava cinza e úmido, com o farfalhar das folhas e a chuva tênue batendo nas folhas. Mas nada disso importava. O que importava era a química que queimava entre nós, invisível e palpável, carregada de promessas silenciosas. Cada toque, cada respiração, cada olhar reforçava o que eu já sentia: finalmente me permitiria ser inteira com alguém que me entendia sem precisar de palavras.

Eu sorri, sem pensar. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro. Cole respondeu com outro sorriso, e naquele instante, não havia dúvida, nem medo, nem hesitação. Só nós dois, o mundo suspenso, e a certeza silenciosa de que algo havia mudado para sempre.

— Amberli. — murmurou ele, a voz baixa, quase rouca, cheia de significado.

Quando ele disse meu nome, não soou como uma palavra; nem uma chamada, nem mesmo era uma declaração.

Foi vibração. Uma nota grave, suave, que atravessou o ar e entrou em mim como se o mundo inteiro tivesse prendido a respiração para escutar.

Amberli.”

Havia algo naquele tom que não comporta em explicações humanas. Não era só desejo, nem curiosidade, era profunda conexão. Foi como se ele moldasse com cuidado, letra por letra, até que o som se dissolvesse entre nós, quente e cheio de sentido. Como se, por um instante, o tempo tivesse se curvado e permitido que duas almas se lembrassem uma da outra. A forma como “Amberli” saiu dos lábios dele me fez sentir como se fosse a primeira vez que alguém realmente me chamasse assim, não por obrigação, não por familiaridade, mas por me ver. Como se ele me chamasse de volta de um lugar que eu havia esquecido existir.

O som do meu nome ecoou dentro de mim, e de repente eu não estava mais apenas ali, parada diante de Cole. O mundo parou. Não havia vento, nem floresta, nem chão sob meus pés. Havia apenas o som grave e rouco da voz dele com algo dentro de mim se expandindo, como se meu corpo inteiro tivesse entendido uma verdade que minha mente ainda não conseguia alcançar, muito menos nomear. Eu estava em todos os lugares em que já tinha me sentido perdida e, pela primeira vez, havia uma presença me chamando de volta. Não para o mundo, mas para mim mesma. Aquela voz, a voz de Cole, parecia atravessar as camadas que construí para me proteger e aquilo me desarmou como se, de alguma forma, me conhecesse há muito tempo. Meu coração deu um salto, desses que doem e acalmam ao mesmo tempo, senti os olhos dele me segurarem, não com posse, mas com um tipo de cuidado silencioso, um convite para respirar com ele.

E o mais estranho, no bom sentido, era que eu não queria fugir. Eu não estava mais lutando contra ele. Nem contra o que eu sentia. Era como se algo em mim, algo que eu pensei ter sido apagado, tivesse acordado de novo. Acordado como nunca esteve antes. Me senti mentalmente agitada, como se uma parte antiga e silenciosa, talvez a mais pura, tivesse reconhecido nele um lar que o corpo ainda não entendia. Os olhos dele permaneceram sobre mim, e foi como olhar um espelho de algo que sempre esteve ali, só esperando ser lembrado.

Não havia promessa, nem pressa.

Só uma certeza calma, e quase sagrada, de que de alguma forma, eu pertencia àquele instante.

O vento se moveu entre nós, leve, frio, quase respeitoso. E eu soube, sem precisar pensar, que meu nome dito daquela forma não era apenas o que eu era; era o que eu sempre fui, antes mesmo de saber o que significava amar alguém assim.

— Isso muda tudo, não muda? — ele perguntou.

Respirei fundo, eu ainda podia sentir a respiração dele misturada à minha. Meu coração ainda pulsava descompassado.

— Não sei… — respondi meio sem fôlego — Mas acho que muda o suficiente pra eu não querer voltar atrás.

E ele sorriu, entendendo que algo acabou de começar.

Correspondi ao sorriso sentindo meu rosto esquentar, mas permaneci em silêncio, deixando meus sentidos absorverem cada detalhe que parecia ter voltado ao seu estado habitual: o cheiro de musgo e tronco molhado, o farfalhar das folhas, o calor do corpo dele ao meu, a sensação de pertencimento que ainda me deixava tonta. Cada segundo ali era uma confirmação de que algo dentro de mim havia se libertado, que aquela entrega não era perigosa, mas necessária. Nossos olhares se encontraram. Nenhuma palavra, apenas a intensidade do momento. Eu senti minhas mãos tremerem levemente, meu peito se expandir, e aquela mistura de calma e fogo me consumiu de forma arrebatadora.

— Você está bem? — ele perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.

— Mais do que bem. — respondi, deixando que um sorriso leve escapasse, eu não conseguia evitar — Nunca me senti assim antes.

Ele sorriu de volta, os olhos ainda fixos nos meus, e a mão dele encontrou a minha de forma natural, entrelaçando nossos dedos. A outra, alcançou o contorno dos meus lábios sensíveis, contornando-os. Não havia pressa, não havia urgência, apenas nós dois, respirando e percebendo, aos poucos, a profundidade daquilo que se firmou com um simples toque dos lábios. E naquele instante, cercados pela névoa e pelos tons acinzentados da floresta de Forks, eu tinha certeza de que algo havia mudado para sempre. Que aquele primeiro beijo não foi só um beijo, foi o início de tudo.


— Vamos voltar. — disse ele, com um meio sorriso, a voz baixa, limpa, mas carregada — Antes que a Nessie ache que a gente se perdeu na floresta.