Sempre ao seu Lado

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Sempre ao Seu Lado

Capítulo 59

Já fazia muitos minutos que eu estava acordada, mas permanecia na cama pensando sobre o último assunto que tive trocando mensagens com Cole, ele esteve madrugando nessa última semana, ajudando com os preparativos em geral na reserva e nos portos de Forks e Ilwaco.

Por um instante, permaneci imóvel sob o cobertor, observando a penumbra azulada que preenchia o quarto. O inverno em Forks parece ter um talento especial para transformar as manhãs em crepúsculos intermináveis. Mesmo sendo véspera de Natal, o céu além da parede de vidro continuava coberto por nuvens densas, e a luz que atravessava o vidro era suave, quase preguiçosa.

Respirei fundo deixando o celular de lado. O cheiro do ambiente carregava o aroma já tão familiar de pinho vindo da decoração natalina espalhada pela casa. Mesmo do meu quarto eu conseguia sentir o cheiro da guirlanda que Esme havia pendurado no corredor alguns dias antes.

Já era véspera de Natal. Nossa.

Naquela altura da manhã Cole já estava há tempos no salão do centro comunitário, ocupado, nossa última mensagem havia sido a quase dois minutos atrás. Ou três, talvez... Quando acordei, ainda estava escuro e o meu primeiro pensamento não foi sobre os presentes acumulados debaixo das duas árvores, nem sobre a ceia do almoço de amanhã; foi sobre minhas meninas. O primeiro Natal delas juntas; o primeiro de muitos.

Automaticamente, virei o rosto para o meu novo relógio na mesa de cabeceira só para não ser fisgada pelo celular outra vez. Ainda é cedo. Muito cedo. Mas conhecendo a agitação da Hilary nessa última semana, sinto que ela já esteja acordando toda animada. Um sorriso involuntário surgiu nos meus lábios e respirei fundo para espantar a falta de coragem.

Afastando as cobertas, coloquei os pés confortavelmente no chão, já que agora sei que ele está aquecido pelo sistema de calefação da mansão. A diferença entre esse conforto e o frio do lado de fora era tão grande que às vezes ainda me parecia irreal.

Por alguns segundos permaneci sentada na beira da cama; cocei a cabeça, olhei ao redor, pensando em tudo e nada sem definição; escutando o vento passando pelas árvores centenárias ao redor da propriedade. Por dentro a mansão me parece bem silenciosa, ou pelo menos tão silenciosa quanto uma casa cheia de vampiros podia parecer. Levantei-me devagar, me espreguicei ouvindo uma junta e outra estalar e caminhei até o closet. Fui passando os dedos pelos cabides pensando no que iria vestir nessa manhã.

Acabei vestindo meu suéter de tricô creme, confortável e quente, uma calça jeans escura e meias grossas de lã. Entrei no banheiro para a higiene matinal e dar um jeito no embaraço dos cabelos.

Enquanto eu arrumava a cama, meus olhos foram atraídos para a parede de vidro: a floresta estava envolta por névoa, as copas dos pinheiros desapareciam dentro da brancura acinzentada da manhã. Parecia uma daquelas publicações-postais de inverno que eu costumava admirar quando era adolescente e que agora eu estava dentro dele.

Prendi o cabelo curto atrás das orelhas, afofei o último travesseiro e saí do quarto.

Atravessei o corredor silencioso, as luzes da decoração permaneciam acesas, lançando pequenos pontos dourados sobre os corrimãos e as paredes. Esme e Alice haviam transformado a mansão inteira com guirlandas, laços vermelhos, ramos de pinheiro, velas decorativas, enfeites que pareciam ter sido escolhidos um por um, até presépios tínhamos espalhados em móveis estratégicos pela casa. Tudo me remetia à lar. Um lar bem elegante e moderadamente luxuoso, mas ainda assim, um lar.

Meu coração apertou suavemente. Ainda é estranho pensar nessa palavra: lar.

Abri a porta do quarto da Hilary com cuidado, encontrando minha pequena criaturinha atravessada no colchão, completamente embolada nas cobertas, como se tivesse lutado contra elas durante toda a noite, um pé estava descoberto, os cabelos castanhos espalhados pelo travesseiro, as bochechas rosadinhas pelo calor do quarto.

Sorri imediatamente.

— Bom dia, meu raio de sol...

Ela resmungou alguma coisa incompreensível, seus olhinhos estavam abertos e despertos, mas continuou deitada. Aproximei-me da guarda do berço e afastei uma mecha de cabelo de seu rosto.

— Feliz véspera de Natal, minha linda.

Ela resmungou outra coisa quando abriu uma bocara num bocejo bem longo e preguiçoso, os olhinhos piscaram e ela ergueu a mão esquerda, me mostrando a bola de Natal que ela trouxe para dormir com ela por quase todas as noites.

Boom dia, mamãezinha! — ela sacudiu a bola — Feliz Natal!

— Bom dia, bebê... Ainda não é Natal, mas obrigada mesmo assim.

Ôh mamãe?

— Hum?

Já posso ter presentes?

Não consegui evitar a risada.

— Ainda não. Hoje é a véspera.

Então o Papai Noel já tá tabalhiando?

— Provavelmente sim.

E Jesus tamém, mamãe?

— Também filha, ele nunca deixou de trabalhar.

Hilary pareceu considerar a informação extremamente importante, então assentiu solenemente.

Tá. — assentiu como se aquilo resolvesse todas as questões do universo.

Inclinei-me dentro do berço a tal ponto que quase achei que cairia dentro dele, mas não deixei de beijar-lhe a testa.

— Vamos nos arrumar? — estendi minhas mãos ante o convite para sair dali.

Ela abriu os braços imediatamente, meus lábios abriram um sorriso e meu coração derreteu. Peguei-a no colo, sentindo o calor sonolento de seu corpinho se acomodar contra mim e por alguns segundos só fiquei ali, apenas segurando minha filha, sentindo o seu cheirinho.

Agradecida. Profundamente agradecida.

Dei mais um apertão nela, e depois seguimos para o quarto de Helena.

Ao contrário da irmã, Helena já estava bem-disposta, fora do berço e sentada no centro da cama, os olhos azuis cristalinos voltados para a janela observando a floresta coberta pela névoa. A luz suave da manhã refletia em seus cabelos e em sua pele pálida de uma forma quase etérea.

Meus olhos absorveram-na tão intensamente, embasbacada, que estagnei na porta. Nem um passo a mais e nem um a menos. Existiam momentos em que ela parecia tão pequena, tão criança; e outros em que sua natureza híbrida surgia de uma maneira impossível de ignorar. Como agora, comigo me sentindo perplexa de uma maneira estranha de tentar explicar.

— Bom dia, minha estrelinha. — sorri para ela, mal conseguindo acreditar que cumprimentei sem gaguejar.

Os claros olhos dela imediatamente encontraram os meus e então seu rosto se iluminou num sorriso.

— Mamãe.

Aquela única palavra foi suficiente para me reaquecer toda a manhã. Em resposta, meu corpo reagiu e entrei no quarto carregando Hilary e, pela primeira vez naquele dia, senti que o Natal já havia começado, porque duas das minhas filhas estavam ali. Seguras e comigo.

E isso era mais do que eu ousara sonhar durante muito tempo.

Vestir duas crianças de comportamentos diferentes deveria ser uma tarefa simples. Pelo menos era o que eu imaginava que aconteceria conforme o tempo. A realidade era que agora Hilary havia decidido que precisava discutir sobre cada peça de roupa como se estivesse negociando um tratado internacional.

Ah não! Não quéro essa meia, mamãe! Essa não!

— E por quê?

Por que não. — balançou a cabeça e teve a ousadia de cruzar os bracinhos ainda.

— Esse não é um motivo válido, Hilary.

É sim, mamãe. A Hiwawy não qué.

Suspirei revirando os olhos. Haja paciência.

Helena, sentadinha na beirada da cama, nos observava com aquele interesse silencioso que sempre me fazia desconfiar que ela estava se divertindo às custas da irmã.

— E qual meia você quer usar então, criaturinha?

Hilary apontou para a gaveta que permanecia aberta.

A vemelha.

Havia pelo menos seis pares vermelhos.

— Qual delas?

A vemelha.

Fechei os olhos por um segundo. Será que era impressão minha, ou estou mesmo começando a sentir dor de barriga?

— Hilary...

Aquela vemelha ali ó, mamãe. — a criaturinha insistiu. Olhei para ela, Helena e a gaveta mais uma vez, antes de olhar para elas de novo.

Helena apontou imediatamente para um par específico.

— Essa.

É! Isso! — Hilary respondeu e bateu palminhas.

— Claro que era essa. — resmunguei.

Helena sorriu. Eu tinha quase certeza de que ela já sabia exatamente qual era desde o início.

Depois de muita negociação, consegui vestir as duas.

Hilary usava um vestidinho verde de inverno com mangas compridas, meia-calça grossa, a bendita meia vermelha junto com a bota e um pequeno laço vermelho prendendo parte dos cabelos castanhos e Helena vestia um conjunto creme com detalhes bordados delicados que Esme havia escolhido semanas antes. Seus olhos azuis cristalinos pareciam ainda mais absurdamente claros nessa manhã.

Quando finalmente terminamos, elas interagiam, muito lindas e arrumadinhas sentadas no meio da cama; fiquei alguns segundos apenas observando as duas. Meu peito apertou, porque era impossível não lembrar dos meses em que eu precisei fazer milagres para colocar comida na mesa. Dos natais em que o meu presente era simplesmente conseguir pagar uma conta. Dos momentos em que eu me perguntava se algum dia minha filha conheceria algo diferente da luta constante.

E agora ali estava ela. Elas.

Protegidas. Amadas. Felizes.

— Mamãe?

A voz de Helena me trouxe de volta.

— Sim, meu amor?

— Você está chorando?

— Ah...! — fiquei encabulada. Toquei o canto do olho. Uma lágrima — É de felicidade... — sorri para tranquilizá-las — Só estou feliz.

Helena se pôs em pé sobre o colchão puxando Hilary para fazer o mesmo, quando ela verificou se a irmã estava equilibrada sobre a superfície macia, ela cochichou algo para Hilary e imediatamente abriram os braços.

— Então vem cá, mamãe.

Meu coração simplesmente inflou de amor. Abracei as duas ao mesmo tempo, Helena se encaixou de um lado e a Hilary do outro, durante alguns segundos o mundo inteiro pareceu resumir-se àquele abraço. Um morno como eu, e um quente, que me fazia lembrar vagamente da sensação de ser abraçada por Cole. Beijei-lhes o cabelo, a pele sensível dos meus lábios sentindo a diferença da textura dos fios sedosos de cada uma, e aspirei o cheiro das loções infantis diferentes.

Quando saímos para o corredor, o aroma do banquete de café-da-manhã pairava no ar, a predominância do cheiro de canela, baunilha, café, pão assado ontem a noite e alguma coisa adocicada que provavelmente era obra de Esme..., fora todas as infinidades de doces feitos durante as semanas que eu sei que agora possivelmente estarão bem-organizados sobre a mesa posta.

Descemos a escadaria devagar, Hilary segurava minha mão enquanto a ponta dos seus dedinhos tentava alcançar o corrimão e Helena caminhava ao meu lado com equilíbrio e segurança suficiente para não precisar segurar no corrimão e muito menos em mim.

— Bom dia. — nos anunciei assim que chegamos aos últimos degraus que chegavam na cozinha.

Esme virou o rosto e o sorriso que surgiu em seu rosto foi tão caloroso quanto o próprio dia nos prometia simbolizar.

— Bom dia, queridas.

Antes que eu pudesse responder mais alguma coisa, Hilary já havia soltado minha mão e corrido.

Tia Me!

Esme abriu os braços sem hesitar, Hilary praticamente se jogou neles.

Um suspiro involuntário me escapou, fazendo algo dentro de mim amolecer. Ainda havia momentos em que eu me surpreendia vendo minha filha tão à vontade com os Cullen, como se sempre tivesse pertencido ali. Como se aquele amor tivesse sido construído ao longo de décadas anteriores e não apenas de meses.

— Vejo que alguém está animada! — Esme comentou, balançando-a em seus braços. Hilary soltava risinhos.

É hoje tia Me! — Hilary anunciou num gritinho — Feliz Natal!

— Ainda não está na hora de desejar “Feliz Natal”, querida. — Esme soltou um leve riso.

Mas é hoje que começa. — foi convicta.

— Oh... Ela tem um ponto. — Esme lançou um olhar para mim.

Hilary parecia satisfeita consigo mesma.

Helena chamou a minha atenção, pedindo por colo. Acomodei seu corpo no meu, percebendo que hoje ela estava um pouco mais pesada e havia crescido mais um pouco, seus pés estavam começando a tocar na lateral da minha coxa, isso significava que ela estava maior que a Hilary.

Atrás de nós, ouvi passos descendo a escadaria, voltei meus olhos para lá, vendo o corpo baixinho de Alice. É claro que seria Alice, ninguém mais desceria uma escada com tanta energia às seis e trinta e oito da manhã.

— Vocês finalmente acordaram! — não soube se ela estava feliz por isso ou levemente frustrada.

— Bom dia para você também. — falei.

— Não temos tempo para bom dia. — sua pequenez nos circundou.

— O quê? — franzi a testa ao mesmo tempo que correspondia o seu cumprimento. Beijinhos nas bochechas.

— Temos um cronograma a cumprir, queridinha. Principalmente vocês!

Meu estômago afundou num gelo imediatamente.

— Ai Alice...

— Calma. Não é nada assustador.

— De acordo com a Bella, sempre é assustador quando você diz isso.

Ela ignorou completamente minha observação e passou a enumerar num disparate.

— Café da manhã. Depois preparação. Aí vocês almoçam. A Helena vai caçar. Depois saída. Depois a recepção em La Push. Depois deve haver a fogueira. Depois...

— Calma aí, Alice. — interrompi.

— O quê? — não estava muito feliz pela interrupção.

— Você pode pelo menos respirar entre uma etapa e outra?

— Ah... — Ela piscou, mas fez o que eu pedi, os ombrinhos frágeis se movendo em uma respiração bem longa e profunda.

Esme riu, Helena também, até a Hilary pareceu achar graça. Alice cruzou os braços.

— Vocês são muito difíceis de agradar, eu hein! — fez uma careta.

— Não seja dramática, nós amamos você. — respondi.

— Humpt! Eu sei, né!

E, de algum modo, essa era a resposta mais Alice Cullen possível.

O som das nossas conversas e o riso das meninas guiou o restante da família até a mesa de jantar. Logo Carlisle já estava ali, sentado à cabeceira e Esme na outra extremidade, Rosalie já havia tomado seu lugar também. Ao lado de Alice, Jasper observava tudo com sua calma habitual; Emmett parecia estar terminando de contar uma piada absurda que envolvia panquecas. Bella, que havia chegado a pouco tempo, estava sentada ao lado da minha cadeira e Edward à sua frente estava... Bem, Edward tinha uma leve expressão cômica de quem estava ouvindo pensamentos demais para uma única manhã.

Assim que Emmett simplesmente surgiu na minha frente quando eu caminhava com metade do meu café da manhã nas mãos, ele abriu um sorriso enorme.

— Finalmente! — com o tamanho colossal, era até visualmente ridículo vê-lo quase saltitar sob os pés.

— Bom dia pra você também Emmett. O que está acontecendo? Nenhum bom desejo de véspera de Natal... nem nada, o que você está tramando grandalhão? — perguntei.

— Você perguntou exatamente o que eu queria! — ele esfregou calmamente uma mão contra a outra — Eu estava apostando quanto tempo demorariam pra chegar.

— Credo, Emmett... Você apostou o horário que eu e minhas filhas acordariam?

— Claro. — foi bem cara de pau.

— Com quem?

— Com todo mundo. — apontou ao redor.

Carlisle ergueu a mão, Rosalie também, até Jasper levantou a sobrancelha numa expressão que mostrava que até mesmo ele estava envolvido nas trambicagens do irmão.

— Vocês são impossíveis! — gargalhei.

— Eu ganhei! — Emmett anunciou.

— Parabéns?!

— Obrigado. — aceitou a ironia de bom grado.

Sentei-me à mesa balançando a cabeça, mas não conseguia esconder o sorriso porque aquela era a coisa mais próxima de uma família grande que eu já havia vivido.

Enquanto eu ajustava a bandeja do cadeirote e ajudava Hilary a cortar uma fatia do mini chocotone e observava Helena conversar com Esme sobre os presentes debaixo da árvore, uma sensação estranha surgiu dentro de mim. Não era exatamente felicidade, era algo mais profundo, uma paz que eu não sentia havia muito tempo numa época dessa.

Depois de algum tempo, mesmo que eu esquivasse o pensamento e tentasse mantê-lo em último plano, era inevitável que eu pensasse que essa era a primeira vez em anos que eu não estava pensando no que poderia dar errado. Que não estivesse esperando uma tragédia, ou que não estivesse apenas sobrevivendo. Eu estava vivendo mesmo esse momento.

Simplesmente vivendo.

E quando levantei os olhos para a enorme janela da sala de jantar, observando a névoa envolvendo a floresta ao redor da mansão, percebi algo que me assustou um pouco: esse lugar já não parece só um refúgio temporário; todos estavam começando a parecer uma família para mim.

Depois do café da manhã, a casa entrou numa atmosfera agitada de preparativos familiar que parece só existir na véspera de datas importantes. Claro, ninguém estava na correria, ou afobado, os Cullen não precisavam correr para lugar algum, mas todos estavam numa atividade por toda parte.

Esme recolhia algumas travessas enquanto organizávamos os detalhes finais para a ceia do dia seguinte; Alice desaparecia e reaparecia constantemente para opinar, vinha de diferentes cômodos como uma rajada de vento, me assustando ocasionalmente; Rosalie ajudava Helena a prender uma fita dourada em uma das bandejas de doces que seriam colocados na mesa só amanhã e Emmett fingia nos ajudar. E eu tinha quase certeza de que aquilo era pior do que não ajudar.

— Emmett, não. — Rosalie dispensava sua insistência.

— Mas ficaria incrível. — ele teimou.

— Não ficaria. — a loira negou, entregando algo nas mãos surpreendentemente habilidosas de Helena.

— Ficaria sim. — o grandalhão insistiu.

— Não. — a esposa dispensou.

— Só um pouco, ursinha...

— Emmett. — ela apenas deu um olhar mais longo bem dentro dos olhos dele.

— Tá bom. — recuou resignado.

Observei os dois de longe e ri sozinha.

Eu estava lavando algumas xícaras quando senti uma presença se aproximar ao meu lado. Olhei sobre o ombro, vendo Esme se aproximando naturalmente, ela colocou uma travessa sobre a bancada e começou a secá-la com um pano. Por alguns instantes permanecemos em silêncio, num silêncio confortável, uma olhando para a cara da outra, ouvindo as vozes e outros sons ao nosso redor, como: Edward dedilhando a música que ele compôs para mim na salinha do andar inferior, do lado de fora, a chuva fina começava novamente, as gotas escorriam pelos vidros enormes da cozinha, transformando a floresta em uma pintura borrada de verde e cinza junto aos piscas-piscas e toda a decoração externa.

Eu gostava disso, acredito que sempre gostei, mesmo nos meus dias mais difíceis por aqui, havia algo reconfortante em observar a chuva cair enquanto eu estava segura dentro da casa.

Segura...

— Está tão pensativa, Amberli. — a voz de Esme foi suave quando lançou o comentário.

Olhei para ela, sem ter percebido quando meus olhos desviaram do seu rosto, havia um sorriso leve nos seus lábios, sua feição pálida transparecia sua paciência comigo, como sempre. Era irresistível deixar qualquer coisa que eu sentisse só para mim quando ela olhava dessa forma para mim. Mesmo que sua aparência física indicasse que nossas idades eram próximas, ela ainda exalava essa essência de mãe, era irresistível.

— Estou nervosa. — a confissão saiu num suspiro.

— Com o que te espera em La Push? — ela arqueou uma sobrancelha.

— É tão óbvio assim? — minhas sobrancelhas pesaram sobre minhas pálpebras.

— Um pouco.

— Que droga, achei que estava escondendo melhor. — bufei uma risada e apertei meus lábios um no outro.

— Não de mim, querida.

Claro que não, baixei os olhos para a espuma da pia quando a frase veio no meu pensamento.

— Eu não sei exatamente o motivo.

— Sabe sim. — observou.

Aquilo me fez parar. Porque ela estava certa. Eu sabia, só não queria admitir.

— Tenho medo de me sentir deslocada, Esme. — a confissão saiu ainda mais baixa do que eu pretendia. Esme continuou secando a travessa, num movimento sem pressa. Sem querer me interromper, só esperando — Todo mundo lá tem uma história em comum. — minha voz ficou ainda mais baixa — Todos cresceram juntos e conhecem uns aos outros desde crianças. Compartilham tradições e..., memórias. — engoli seco — Eu cheguei agora.

Esme pousou a travessa sobre a bancada com cuidado, então virou-se completamente para mim.

— Amberli. — começou, a forma como ela pronunciou meu nome me obrigou a erguer os olhos — Você acha que o pertencimento acontece apenas porque alguém nasceu em determinado lugar?

Não respondi, porque eu não sabia. Ou talvez soubesse.

— Pertencimento, querida, é construído. — ela apoiou uma das mãos sobre a bancada — Às vezes leva anos, já em outras, apenas um momento.

Meu peito apertou.

— Sim..., mas é que... Eu sei que parece estúpido, mas e se eu nunca me encaixar?

O sorriso dela se suavizou.

— Então eles estarão perdendo uma pessoa extraordinária.

Balancei a cabeça imediatamente.

— Esme...

— Estou falando sério. — havia tanta convicção em sua voz que precisei desviar os olhos — Além disso, — ela continuou — você não estará sozinha. — olhei para ela novamente, a expressão divertida apareceu primeiro na sua expressão, depois um brilho quase maternal — Você terá uma pequena tribo inteira de pessoas determinadas a mantê-la confortável. Os meninos, principalmente.

Franzi a testa.

— Isso não me tranquiliza.

Ela riu.

— E sempre terá o Cole. — acrescentou.

Meu coração imediatamente perdeu o compasso. Traidor. Completo traidor. Voltei minha atenção para a pia.

— Cole não vai ficar me seguindo o tempo inteiro.

— Tem certeza? — eu apenas retribuí seu olhar e neguei com num aceno — Estou apenas perguntando. — agora ela estava claramente se divertindo.

O que era injusto. Muito injusto. Porque eu tinha quase certeza de que ela sabia exatamente o efeito que aquele nome produzia em mim. Antes que eu pudesse formular qualquer defesa para me esquivar, ouvi passinhos correndo, era Hilary.

Ei, mamãe!

Ela surgiu na cozinha como um furacãozinho de bochechas vermelhas, os cabelos já começando a escapar do penteado.

— O que aconteceu?

Tia Lice tá com fotos, mamãe. Um moontão!

Isso não esclarecia absolutamente nada.

— Que fotos?

Fotos!

— Sim, eu entendi essa parte.

Para a minha completa surpresa, Hilary revirou os olhos, exatamente como uma adolescente faria, o que era preocupante. Deixei o utensílio dentro da pia, sequei minhas mãos no pano de prato e me virei completamente para ela, me agachei na sua altura e segurei em seus bracinhos para que ela se atentasse em olhar bem para mim.

— Hey. — soltei num tom calmo de aviso, vi a pálpebra de seus olhinhos se arregalarem de leve, agora eu tinha sua total atenção — Não vire esses olhinhos para mim se ainda quiser ganhar os presentes de Natal!

Diculpa mamãezinha. — ela encolheu os ombrinhos, mas não deixou de continuar animada com o assunto que a trouxe a mim — Vamos mamãe! — ela tocou nas minhas mãos que ainda a seguravam — Um montão! Tia Lice tem um montão de fotos!

— Mamãe.

Era Helena quem surgia por de trás do balcão. Ela parou ao lado da irmã, gentilmente tirando minhas mãos dos bracinhos dela, entrelaçando suas mãos nas dela, num convite subentendido para que Hilary a acompanhasse de volta.

— Tia Alice pediu para que você nos acompanhasse para ver algumas fotos do Cole.

Parei. Esme parou. O universo inteiro pareceu parar.

— Como é que é? — minhas sobrancelhas se espicharam pro alto.

— Vem ver! — ela exclamou. Ambas já haviam sumido da minha visão.

Meu instinto imediato foi fugir. O segundo foi correr para descobrir.

Infelizmente o segundo venceu.

Esme tomou a frente para terminar tudo por ali, me incentivando a descobrir o que Alice havia inventado. Desci os degraus até lá, os piscas-piscas da árvore principal ainda estavam acesos, refletindo nas enormes janelas da sala, por mais vezes que eu a visse, ainda me impressionava, pois, a árvore quase alcançava o teto. Os enfeites dourados, laços vermelhos, os piscas-piscas espalhados pelos galhos, pequenos ornamentos artesanais de qualidade que pareciam guardar histórias próprias. Era linda. Mas não era a árvore que prendia minha atenção, era a sensação de que a sala estava tomada por uma atmosfera perigosamente animada, Emmett já estava rindo antes mesmo de qualquer coisa acontecer, o que nunca era um bom sinal.

A pequena Alice estava ajoelhada no tapete com uma caixa aberta diante dela, Helena estava de pé ao seu lado e observava curiosa. O olhar de Rosalie cruzou com o meu, ela estava parada diante da árvore, ajustando um único enfeite, um único enfeite que provavelmente ninguém além dela perceberia se estivesse torto. Ela ocultou minha visão de si, deixando os fios dourados caírem sobre a face, escondia um sorriso por trás dos cabelos.

— Ah, ela chegou! — anunciou Alice.

Meu instinto gritou para eu voltar para a cozinha. Tarde demais.

— Alice, as meninas... — ela nem me deixou terminar.

— Veja só o que encontramos! Acho que a Nessie estava testando seu feeling em fotografia! — riu. Se o riso dela não soasse tão angelical, ele poderia ser sido facilmente diabólico.

— Eu não gosto do tom da sua voz. — me aproximei hesitante.

— Está com medo de quê? São só fotografias.

— Isso eu percebi.

— Pode até considerar serem antigas.

Piorou. Muito. Muito pior. Ela retirou umas fotografias, movimentando a mão com uma lentidão exagerada, um sorriso com lábios brilhantes quase maior que a cara e estendeu para mim.

Meu coração afundou. Era mesmo fotos do Cole.

Mas não o Cole que eu conhecia. Era ainda um garoto, talvez quinze anos, ou dezesseis, os cabelos maiores, um sorriso despreocupado, a roupa coberta de lama e segurando um peixe enorme.

— Meu Deus. — exclamei.

— Eu sei. — Alice sorriu.

Minhas mãos agiram mais rápido do que eu previa, tomando o papel com brusquidão, meus olhos ávidos de curiosidade para ver mais de perto. Antes que eu pudesse perceber, já estava sorrindo. Havia algo encantador naquela imagem, genuíno. Os cabelos mais longos, a calça coberta de lama, o peixe enorme sendo segurado apenas com uma das mãos pela guelra, o dorso nu, a tatuagem já marcada na pele.

Cole realmente foi exatamente o garoto que passou a adolescência inteira pela praia e voltando para casa coberto de areia.

— Ele já era tão bonito. — as palavras me escaparam.

Silêncio.

Absoluto.

Se espalhando pela sala devagar. Muito devagar. Nem mesmo o som do piano.

Ergui os olhos, todos estavam olhando para mim. Todos. Sem exceção. Minha alma imediatamente abandonou meu corpo.

— E-eu quis dizer...

Ninguém me ajudou a amenizar a intensidade da minha palavra. Ninguém. Traidores. Todos. Rosalie foi a primeira a sorrir, depois Alice, mal um segundo havia se passado e Emmett começou a gargalhar enquanto batia palmas que estalavam pelo ambiente. Até o riso espontâneo da Bella contagiou o ar, Hilary pareceu sentir, olhando por cima do ombro para nós, Helena acompanhou, soltando um riso rouco, quase sobrenaturalmente cantado, antes de voltarem a atenção para os pacotes coloridos amontoados ao redor do pé da árvore. Minha vontade foi de dar as costas e voltar para onde eu nem deveria ter saído. Fulminei Alice com meu olhar, usar minhas filhas para que eu fosse fortemente incentivada a estar aqui era algo baixo demais.

— Acabou pra você! — urrou Emmett, tão alto que alguém lá fora poderia ouvir — Eu já tenho a aposta perfeita! — ele esfregava as mãos numa maquinação maléfica — Quanto tempo mais vocês vão aguentar...

— Emmett! — censurei irritada me virando em sua direção, minhas mãos se espaçaram de leve na direção das meninas, agora atrás de mim.

— Acabou, Amberli! A-ca-bou!

— Fica quieto, Emmett!... — insisti, morrendo de vergonha. Ele continuava rindo alto.

— ...Completamente!

— Se recomponha, Emmett! — insisti.

— Vou contar para ele.

— Você não vai contar nada! — guinchei quase desesperada, negando fortemente.

— Ha! Vou sim! — ele vibrava.

— Não vai.

— Ah, se vou! — ele sorriu largo.

Descarto o riso diabólico de Alice, o sorriso de Emmett era muito pior.

— Espera só o Thomas saber... Depois da Bella, você fará minhas apostas serem lendárias! — gargalhava, quase uivava de animação.

Fechei os olhos, porque, pela forma como todos estavam sorrindo, eu tinha a desagradável sensação de que aquele assunto me acompanharia até La Push. E talvez durante todo o restante do Natal, até mesmo durante o restante da minha vida. Relaxei os meus ombros e passei, aos poucos, a rir com eles.

Não havia muita coisa que eu pudesse fazer agora. Só entrar na onda do Emmett e rir.

Ainda estávamos rindo da minha humilhação pública causada pelas fotografias de Cole quando Esme surgiu na entrada da sala. Por um instante achei que ela fosse chamar a atenção de Emmett, ou salvar minha dignidade. Infelizmente não fez nenhuma das duas coisas. Ela apenas entrou carregando uma pilha de caixas retangulares embrulhadas todas exatamente iguais, cuidadosamente organizadas, Carlisle vinha logo atrás com outra pilha. Era possível perceber que não eram mais presentes apenas para serem colocados juntos dos outros na árvore, eu percebi apenas pela forma como ela os segurava.

— O que é isso? — perguntei me sentando ao lado de Rose no sofá e trazendo minhas filhas junto comigo.

Os olhos de Esme brilharam imediatamente, o mesmo brilho que Alice apresentava antes de colocar algum plano em prática.

— Todos na sala, por favor. — Esme pediu, com a voz suave que sempre conseguia ser ouvida mesmo sem precisar elevar um tom sequer.

Alice recolheu as fotos e já parecia incapaz de permanecer quieta num lugar por mais de cinco segundos, Emmett estava afundado na poltrona, com aquele sorriso largo que já indicava que mais alguma coisa inconveniente poderia escapulir dele a qualquer momento. Rosalie ao meu lado, mantinha a postura impecável, embora seus dedos acariciassem distraidamente os cachos de Helena quando ela se inclinava em sua direção.

Edward e Isabella se aproximaram, trocavam olhares silenciosos que eu jamais conseguiria decifrar.

— Antes de qualquer coisa... — foi Carlisle que chamou a atenção de todos, sua voz tranquila atravessou o cômodo, os poucos murmúrios cessaram imediatamente.

Ao seu lado, Esme sorria daquela maneira amorosa que sempre fazia meu peito apertar de saudade.

— Existe uma tradição na nossa família. — Esme continuou — De abrirmos apenas um presente na véspera de Natal.

Alice bateu palminhas imediatamente. O gesto despertou o entusiasmo de Hilary, que a copiou no instante seguinte.

— Eu estava até começando a achar que vocês tinham esquecido. — disse Emmett.

— Emmett, nós fazemos isso há mais de oitenta anos. — rebateu a esposa.

— Exatamente. O risco de esquecer aumenta com a idade.

Rosalie lançou-lhe um olhar tão afiado, que até eu precisei conter um vestígio do sorriso que teimou surgir nos meus lábios.

— Eu poderia testar essa teoria quebrando o seu braço. — ela soou tão feroz que mesmo que não fosse comigo, foi impossível não me encolher com a ameaça.

— Viu? — Emmett direcionou a Edward, nem um pouco afetado — Ela ainda se lembra perfeitamente.

Algumas risadas preencheram a sala, até Carlisle pareceu lutar contra um sorriso e Esme apenas balançou a cabeça, acostumada.

— Ignorem... — disse ela, suspirando — Como eu estava dizendo... — se aproximou da árvore. Por um instante, a iluminação dos piscas-piscas ficou refletida em seus olhos e cabelos cor de caramelo, transformando-a quase em uma figura saída de um conto antigo — Existe uma tradição muito querida para mim. — seu olhar percorreu cada rosto da sala — Na véspera de Natal, abrimos um presente especial.

— Só um? — Emmett se manifestou outra vez, erguendo uma sobrancelha.

— Só um. — confirmou Esme.

— Isso parece uma forma muito cruel de tortura psicológica.... — ele lançou um olhar sofrido na direção dos presentes aos pés da árvore iluminada.

Algumas risadas ecoaram pela sala.

— Você sobreviveu aos últimos oitenta anos. — Bella comentou.

— Sobrevivi, mas não sem sequelas.

Jasper tentou disfarçar a risada baixa, e pude até ver Edward sorrir. Olhei ao redor, para os demais, e assim acabei percebendo a realidade da situação: eles já haviam vivido aquilo inúmeras vezes, por décadas, ou até mesmo por mais de um século e ainda assim todos pareciam genuinamente felizes como se a tradição nunca envelhecesse, como se a Esme tivesse encontrado uma maneira de fazer a magia da sua tradição amorosa nunca acabar.

E então o casal começou a distribuir os pacotes. Um para cada pessoa. Quando o meu chegou às minhas mãos, senti algo dentro do peito. Era expectativa, aquela mesma expectativa que eu me lembrava de sentir quando era criança e acordava sabendo que algo especial aconteceria naquele dia. Ajustei Hilary num lado do meu colo, ela estava distraída com algum brinquedo que quando ela erguia na sua brincadeira silenciosa, acabava se enroscando no seu cabelo. Helena permanecia do meu outro lado, aconchegada junto a mim, seus olhos azuis cristalinos observando tudo.

Recebi os pacotes delas também, nossos nomes bordados na etiqueta, não escrito à caneta, bordado, como se pertencêssemos à celebração, como se nossa presença tivesse sido considerada desde o início e não apenas uma convidada.

Engoli em seco.

— Eu também estou preocupado. — Emmett apareceu atrás do sofá.

— Mas você já sabe o que é. — Rosalie respondeu.

— É, eu sei.

— Então por que está preocupado? — olhei para cima, encontrando seu olhar.

— Porque vai ser engraçado. — limitou a dizer.

Não soube como interpretar a resposta, então direcionei os presentes das minhas filhas às suas mãozinhas.

— Podemos abrir? — foi Helena quem perguntou.

— Claro, querida. — respondeu Carlisle.

Hilary já estava rasgando o papel antes mesmo da autorização terminar, usando até mesmo seus dentinhos para morder um canto em que ela não conseguia puxar.

— Isso mesmo, pequena! — disse Emmett — É assim que eu abro meus presentes também.

— E por isso você já destruiu metade dos laços que a Alice comprou nos últimos cinquenta anos. — respondeu Jasper.

— Eu chamo isso de eficiência!

— Humpt! E eu chamo isso de vandalismo natalino! — rebateu Alice.

As risadas voltaram e eu me peguei sorrindo junto. Então observei enquanto todos começavam a abrir os seus, o som de embalagens sendo abertas preencheu a sala. E logo foi surgindo os primeiros tecidos: xadrez vermelho, verde e branco...

Abri a minha.

E imediatamente encontrei o tecido estampado com flocos de neve, renas, pinheirinhos e outros pequenos detalhes natalinos. Pisquei surpreendida, e puxei o conteúdo para fora, olhando para o que havia nas caixas das meninas.

Eram pijamas, combinados.

Meu coração derreteu na mesma hora, o tecido parecia incrivelmente macio, as mangas eram compridas, mas não foi isso que chamou minha atenção. Foi o nome, o meu nome, bem ali, bordado cuidadosamente sobre o bolso superior. Amberli.

Por alguns segundos fiquei olhando, apenas olhando, as letras delicadas estavam costuradas em linha dourada, não era algo comprado às pressas, alguém havia pensado nisso.

Por um momento, minha garganta fechou.

Vi Hilary olhando o próprio pacote com os olhinhos arregalados, o conjunto dela também tinha um bordado com seu nome em dourado. Hilary. Perfeito, cuidadosamente bordado. Passei os dedos sobre a linha costurada no bolso.

Olhei para o outro lado, Helena soltou um suspiro encantado.

— Tem meu nome, mamãe.

A felicidade genuína em sua voz atingiu alguma parte muito vulnerável dentro de mim, porque eu sei exatamente o que isso significa para uma criança: ser lembrada, esperada, incluída.

— Você viu, Hili? Tem o seu nome aí! — Helena se curvou para mostrar.

Tem na onde, Nena?

— Olha, aqui em dourado, Hili. É o seu nome: Hilary.

Ouvi Hilary soltar um grito tão agudo que quase me assustei.

TEM MEU NOME! — ela segurava seu pijama como se tivesse acabado de encontrar um tesouro perdido — Olha, mamãe! — agora ela apontava freneticamente para o bordado.

— Eu vi, meu amor.

É MEU!

— Sim.

Só meu, né mamãe?!

— Exatamente.

Helena observava o seu próprio conjunto, seus olhos azuis brilhavam, vi quando ela passou os dedos sobre o próprio nome bordado: Helena.

— É bonito. — disse baixinho.

Meu coração apertou. Olhei para cima, vendo Esme, que observava todos nós e eu conhecia aquela expressão, era a mesma que iluminava sua feição sempre que fazia algo por alguém. Nela não havia expectativa, nem a necessidade de agradecimento, ela simplesmente gostava de cuidar das pessoas. Era quem ela era.

— Esme... — minha voz saiu mais baixa do que pretendia.

— Sim? — ela me olhou.

— Foi você quem bordou todos eles? — passei os dedos pelo tecido.

— Ah, querida, eu tive ajuda. — um sorriso gentil apareceu e ela olhou sugestivamente para o lado.

Olhei para Carlisle. Ele ergueu ambas as mãos imediatamente.

— Eu costurei apenas alguns nomes.

— Alguns quantos?

— Dois.

— Sério? Quais?

— Não vou dizer.

Esme riu da esquiva do marido. E pela primeira vez naquela manhã percebi que Carlisle parecia quase orgulhoso da própria participação, o que, para mim, tornou tudo ainda mais adorável.

— Você gostou? — Esme quis saber.

Demorei alguns segundos para conseguir responder.

— Eu adorei.

E adorei mesmo, mais do que ela poderia imaginar. Não me lembro de alguém que havia preparado algo assim para mim, e se já houve, havia muito tempo e nunca dessa forma. Esme sorriu, satisfeita.

— Todo ano fazemos isso. — explicou Esme — Um novo conjunto para nosso dia de Natal. Todos precisam estar usando amanhã de manhã.

— Todo ano? — perguntei.

— Todo ano. — ela assentiu.

— Para as fotografias. — completou Rosalie.

— Muitas fotografias. — confirmou Esme.

Eu posso hoje? — Hilary já estava segurando o pijama contra o peito.

— Hoje à noite, meu bem. — lhe respondeu Esme.

Agóia?!

— Hoje à noite. — afirmei.

Depoi de almoçar, mamãe?

— Só hoje à noite, filha.

Hilary suspirou dramaticamente, o que fez metade da sala rir.

— Isso é tortura... — Emmett abriu a boca para dizer, mas apenas ergui meu olhar atravessado na sua direção — Você vai sobreviver, pequena. — nitidamente não era isso que ele queria dizer.

Não vou! — Hilary respondeu, já havia entrado na onda dele.

— Vai sim.

Não vou! — cruzou os bracinhos, mesmo que ainda segurasse o pijama entre os dedinhos.

— Vai.

Não vou, tio Emm. — balançou a cabeça, estava começando a ficar bravinha.

— Vai.

Rosalie lançou um olhar para Emmett.

— Você está discutindo com uma criança de praticamente dois anos.

— E eu vou vencer.

Não vai! — minha filha insistiu.

— Vai ver.

Hilary colocou as mãos na cintura e olhou para mim.

Mamãe.

— Sim?

O tio Emm tá me irritando.

— Eu imaginei.

Faz ele pára.

— Emmett, para de irritar a minha filhinha.

— Traição. Essa carta na manga não vale. — Emmett cruzou os braços com um garotinho emburrado.

A sala inteira explodiu em risadas, mas eu mal ouvi, porque meus olhos haviam voltado para o pijama dobrado em meu colo. Para o nome bordado, o cuidado escondido nos detalhes, para o fato de que eles haviam preparado um lugar para mim naquela tradição. Não apenas para minhas filhas, para mim. E isso me atingiu de uma forma inesperada, porque durante muito tempo eu me acostumei a sobreviver sem esperar ser incluída, sem esperar ser lembrada e até mesmo sem esperar ocupar espaço na vida de alguém. Mas aqui, nessa sala, segurando um simples pijama natalino é gratificante aceitar que os Cullen não estavam apenas me acolhendo em mais uma celebração, eles estão me adotando de todas as formas que importavam.

E, por mais que eu tentasse impedir, senti meus olhos arderem novamente.

Felizmente, naquele momento, Hilary começou a correr pela sala exibindo o pijama para absolutamente todo mundo, o que me deu alguns segundos para respirar. Porque se Esme percebesse que eu estava prestes a chorar..., ela provavelmente me abraçaria. E aí eu realmente começaria a chorar.

Me permiti aproveitar o momento de vivificação que Hilary causava ao ir de pessoa em pessoa para mostrar onde seu nome estava bordado, Alice parecia pronta para vestir o dela naquele exato instante, Rosalie analisava a qualidade da costura como se estivesse avaliando uma obra de arte, Jasper observava Hilary com aquele sorriso tranquilo que aparecia nos seus lábios apenas quando a família estava reunida.

Então quando Hilary mostrou seu pijaminha para Emmett, ele ficou em pé e levantou o próprio pijama diante de si.

— Excelente. — todos olharam para ele, aquele sorrisão aprofundava suas covinhas — Agora estamos oficialmente uniformizados!

— Não estamos uniformizados. — disse Rosalie, quase ofendida pela comparação.

— Claro que estamos, ursinha.

— Meu Deus, não.

— Somos uma equipe de elite natalina.

— Nem pensar. — dessa vez, foi a Bella a negar.

— Uma organização secreta.

— Emmett... — Esme balançou a cabeça.

— Um exército!

— Emmett. — Jasper recusou, um pouco chateado.

— Um culto extremamente bem-vestido.

Dessa vez até Edward riu.

— Estamos sendo transformados em decoração natalina. — falou Emmett dramaticamente.

— Você é a decoração natalina, Emmett. — respondeu Edward.

— E uma muito bonita, obrigado.

— Não foi um elogio.

— Você sabe que eu escolhi interpretar como um.

Carlisle levou uma das mãos ao rosto e Esme simplesmente deu um beijo na bochecha do filho.

— Você adora isso.

— Eu adoro. — ele ergueu os olhos para ela, circulando sua cintura carinhosamente.

— Nós sabemos, querido.

— E amanhã vocês vão me agradecer quando perceberem que as fotos ficarão perfeitas. — piscou um olho para ela — Eu vou me comportar.

— Finalmente alguém com visão nesta família. — Alice apontou imediatamente para ele.

— Obrigado, baixinha.

— Eu estava falando de mim!

— Ah...

Mais risadas.

Apertei Hilary contra meu lado, Helena estendeu os braços para alcançar o pijama dela. E, por um instante, compreendi algo que talvez nunca tivesse percebido antes: essas tradições não existiam porque os Cullen precisavam delas, eles poderiam atravessar séculos sem celebrar um único feriado já que podem viver eternamente. Mas escolhiam celebrar, decorar, trocar presentes; tirar fotografias; porque eram essas pequenas coisas que impediam a eternidade de se tornar vazia. E era Esme quem mantinha essa chama acesa, quem transformava uma mansão enorme em um lar.

Olhei novamente para o pijama em minhas mãos, depois para Hilary e para Helena, enquanto a floresta de Forks permanecia silenciosa do outro lado das janelas, tive a estranha impressão de que algo dentro de mim também encontrava um pouco mais de espaço para repousar, como se, depois de tantas tempestades, eu finalmente tivesse chegado à parte da história em que as luzes mágicas de Natal permaneceriam acesas para mim.

A animação provocada pelos presentes demorou bastante para diminuir, Hilary passou os quarenta minutos seguintes carregando seu novo pijama junto de Emmett pela mansão como se fosse uma relíquia. Helena foi mais discreta, mas a encontrei, pelo menos três vezes, voltando ao sofá para tocar o próprio conjunto dobrado, como se precisasse confirmar que ainda continuava bem ali, como se o pequeno gesto de carinho de Carlisle e Esme ainda parecesse uma novidade.

Talvez para nós três ainda fosse.

Quando o relógio finalmente se aproximou do início da tarde, a movimentação da casa começou a mudar, foi sutil, mas perceptível. Ajudei Esme a recolher algumas das embalagens espalhadas, Alice havia desaparecido escada acima, o que normalmente significava que algum renascimento fashion estava prestes a acontecer; Bella e Edward levaram Helena para caçar; Rosalie e Emmett ficaram para me ajudar a entreter Hilary quando ela chorou muito ao ver a irmã indo passear e ela não.

Quando o casal retornou com a minha filha, Helena arrastou Hilary para comer doces com ela na frente da lareira. Helena não comeu mais do que três, mas Hilary devorou um pouco de cada um que a irmã oferecia; comeu tanto que ficou grudenta de doce.

Carlisle organizava os últimos detalhes antes de sair para uma breve passagem pelo hospital, ele me garantiu de que as chances de Helena contrair carie era inexistente, mas eu não queria que sua falta necessária de higiene bucal pudesse influenciar a da Hilary negativamente, por isso eu a fiz escovar os dentes ao lado da irmã mesmo assim.

Agora estamos no meu quarto, mais especificamente dentro do closet, terminando de ajudar Hilary a fechar o zíper das pequenas botas de camurça com pelinhos quando ouvi batidas suaves na moldura da porta; ergui meus olhos na direção vendo Esme.

— Está pronta, querida?

Era hora, eu estaria mesmo pisando em La Push para a celebração da véspera de Natal na comunidade quileute.

— Acho que sim. — meu estômago já me respondia antes da minha voz.

Esme sorriu com uma expressão e olhar tranquilo que sempre me transmitia a sensação de que tudo ficaria bem, mesmo quando eu não acreditava totalmente.

— Você vai adorar! — ela adentrou no cômodo, algo na minha expressão a fez rir — Não precisa se preocupar.

Fácil para ela dizer, não seria ela entrando em uma reserva indígena onde praticamente todos já se conheciam. Meu nervosismo deve ter aparecido ainda mais em meu rosto porque ela se aproximou.

— Amberli.

— Hum?

— Você não precisa provar nada para ninguém. — baixei os olhos. Ela continuou — Não precisa impressionar ninguém, nem agir diferente. Entenda, Amberli, você não precisa merecer estar lá.

Meu peito apertou, suas palavras atingiram exatamente o lugar certo, ou talvez o lugar errado, na insegurança, um lugar teimoso que ainda acreditava que pertencimento precisava ser conquistado.

— Apenas vá, aproveite sem reservas, ame cada instante e,.... — ela tocou meu braço — Seja você.

Assenti. Era tudo que eu conseguiria fazer. Dei um leve tapinha no solado antiderrapante das botinhas de cada uma das minhas filhas.

— Prontinho, ursinhas da mamãe. — brinquei, vendo as duas livres para descerem do pufe, com Hilary tentando andar para o quarto de forma desajeitada, limitada pelas camadas de roupa.

Pouco depois eu e minhas filhas estávamos prontas.

Elas usavam vestidinhos de moletom flanelado por dentro, Hilary de verde-musgo e Helena de vermelho-fechado, combinados com leggings térmicas bem grossas para garantir que as perninhas ficassem salvas da baixa temperatura. Por cima de tudo, os casacos teddy volumosos e fofos as deixavam parecendo duas bolinhas de pelúcia prontas para o frio.

De frente para o espelho do closet, fiz meu último ajuste. Eu precisava estar minimamente elegante para uma véspera de Natal, mas a maternidade em dose dupla exigia pragmatismo, então escolhi o vestido de veludo verde-profundo como a floresta à noite, com uma gola alta bem encorpada e macia, essencial para que o tecido não arranhasse o rosto das meninas quando elas inevitavelmente pedissem colo. É o mesmo vestido que Alice havia separado na prova dos looks para o meu encontro, oficial, com Cole.

Por baixo dele, a salvação da noite: uma meia-calça térmica preta e opaca, combinada com minhas botas de couro de cano curto para não correr o risco de escorregar na lama da chuva e qualquer outra superfície que eu possa pisar. Peguei meu sobretudo longo preto na cama e o joguei pelos ombros, sem abotoar por enquanto. Olhei para a grande mochila de lona ao lado da porta, cheia até a boca com mudas de roupa extras, mamadeiras, fraldas e lenços humedecidos.

O plano original era ir com o Cole, mas ele ainda estava bem ocupado no centro comunitário quileute, ajudando na produção final e na organização do galpão para a festa. Por isso, Jacob tinha se oferecido para passar aqui na mansão e nos buscar.

Ajeitei a bolsa pesada em um ombro, respirei fundo e encarei as duas meninas que seguravam juntas um livro de fábulas, Helena estava nitidamente maior que a irmã mais velha.

Tínhamos uma noite inteira em um salão comunitário cheio de energia, comida e pessoas, o que significava que meu vestido provavelmente terminaria a noite manchado ou amassado. Me aproximei das minhas filhas, instruí Hilary a guardar o livro na mesinha de cabeceira e dei mais uma ajeitada no lacinho que prendia uma parte do penteado nos cachos da Helena.

Agora sim, prontas.

Hilary segurava minha mão esquerda obedientemente e na outra mão seus dedinhos se entrelaçavam carinhosamente aos de Helena. Elas estavam muito animadas, cantarolando cantigas infantis que Hilary já conhecia e Helena a ensinava novas canções.

Descemos diretamente para a sala, as meninas sendo paparicadas e elogiadas sem reserva por todos. Logo cada uma estava entretida entre um casal e outro, com risos, brinquedos que surgiam do nada e tentativas frustradas de furtar pacotes debaixo da árvore esplendorosa. O céu continuava, sem novidade alguma, encoberto. Uma névoa fina pairava entre as árvores, a chuva a tempos havia diminuído para um chuvisco muito leve que deixava o ar ainda mais frio, porém Esme me garantiu que aonde eu estaria não estava chovendo.

O som de um motor potente rasgando a estrada de cascalho ecoou pelos meus ouvidos antes mesmo que eu pudesse ouvir a buzina. As meninas levantaram as cabeças num sobressalto, os olhinhos brilhando.

— É o tio Jake, Hili! — Helena balbuciou, já apontando para fora.

Esme me acompanhou, reafirmando suas palavras anteriores, pedindo para que nos divertíssemos e que eu estaria muito segura entre os quileutes. Eu aceitei suas palavras de sorte mesmo com o frio gelado no fundo da barriga, mas, vendo a empolgação das minhas filhas enquanto descíamos as escadas da mansão em direção ao carro do Jacob, eu não mudaria absolutamente nada. Respirei fundo quando saímos pela porta principal da mansão e o cheiro da floresta me envolveu imediatamente, toda aquela mistureira do cheiro de terra molhada, dos pinheiros, do musgo.

Por um instante virei o rosto para trás, observando a enorme casa entre as árvores, os piscas-piscas brilhavam através das janelas, a fumaça da lareira subia lentamente pelo telhado. Parecia uma pintura.

Mamãezinha?

A voz de Hilary interrompeu meus pensamentos.

— Sim?

O Cól vai estar lá?

Meu coração decidiu me trair novamente.

— Ele já está lá, filha.

Obaa!

— Oba, é? — perguntei.

Eu gosto muuito dele.

Claro que gostava. Helena sorriu discretamente desviando o olhar, o que me fez desconfiar imediatamente.

— O que foi? — me inclinei para ela.

— Nada, mamãe.

— Helena.

— É sério, mamãe. Não é nada.

Definitivamente era alguma coisa, mas antes que eu pudesse insistir, ouvi o som dos passos de Jacob a se aproximar.

— E aí? Prontas? — foi assim que nos cumprimentou, com um sorriso no rosto.

— Sim. — Helena assentiu.

Eu tô pronta! — anunciou Hilary.

— Eu percebi. — Jacob riu.

— EI!

Olhamos para trás e me encolhi. Era Emmett, dentro da mansão, próximo da porta de entrada, mesmo que estivesse estranhamente contido nos braços de Rosalie, ele ostentava um sorriso largo e diabólico.

— Jake!, diz pro Cole que ele ainda está muito bonito!...

Antes que ele pudesse matracar mais algum absurdo, ele e Rose simplesmente desapareceram a frente dos meus olhos. Mas eu ainda ouvia a risada forte dele de dentro da mansão.

Jacob virou devagar na minha direção, as sobrancelhas espichadas pro alto, claramente confuso com a declaração já que Emmett não havia conseguido esclarecer muita coisa. Ergui os ombros e curvei meus lábios para baixo, como se também não tivesse entendido muita coisa. Não seria por mim que Jacob saberia de alguma coisa sobre aquelas fotografias.

Ainda mais à minha custa.

Poucos minutos depois estávamos a caminho de La Push, enquanto Jacob dirigia, Hilary e Helena falavam sem parar no banco de trás sobre: o pijama, suas expectativas infantis sobre o Natal, os biscoitos que pretendiam comer, como tinham absoluta certeza de que o Papai Noel e Jesus já estavam acordados..., a maioria das palavras da Hilary eram traduzidas por mim com o auxílio da Helena, pois um novo assunto surgia em sua mente a cada cinco segundos seguidos, era um atrás do outro.

A estrada serpenteava através da floresta, árvores gigantes passavam pelas janelas como sombras verdes, contrastando com o céu cinzento que parecia tocar o topo dos pinheiros. Conforme nos aproximávamos da reserva, algo dentro de mim começou a se inquietar: uma mescla de ansiedade, expectativa e curiosidade; e passei a responder a falação fofa e interminável da minha filha quando conseguia, pois, minha atenção estava presa à janela, a tal ponto que me peguei sorrindo sozinha por imaginar onde Cole estaria naquele momento: se estava carregando alguma coisa pesada; ajudando alguém, ou sendo solicitado por metade da reserva a cada dez minutos.

A cena surgiu tão certeira na minha mente, que me fez rir.

— O que foi, Amberlizinha? — perguntou Jacob.

— Não é nada. — balancei a cabeça, tocando discretamente na pulseira.

Mas era alguma coisa. Era o fato de que eu já conhecia Cole o suficiente para imaginar seu dia antes mesmo de vê-lo. E isso ainda parecia novo, assustadoramente novo.

Voltei a dar atenção para as palavras de Hilary, sua voz preenchia o espaço de uma forma tão genuína que me fazia sorrir. Helena já estava mais quieta outra vez, observando o mundo pela janela oposta. Seus olhos azuis cristalinos acompanhavam as árvores como se estivesse tentando memorizar cada detalhe daquela paisagem.

Uma sensação pesou meu coração. Eu deveria ter ouvido as duas, porém minha atenção vagava de tal maneira que me cérebro deixava de ouvir qualquer coisa que pudesse ter acontecido no interior deste veículo, talvez porque estivesse nervosa, ou até mesmo emocionada, porque, pela primeira vez desde que Cole me convidara para a celebração semanas atrás, eu estivesse entendendo o que aquilo realmente significava. Até então, La Push existia para mim através dele, nas lembranças que compartilhava, uma coisa e outra sobre sua mãe, sua afilhada e familiares; eu já conhecia fragmentos desse lugar, conheci o porto, o cheiro do oceano impregnado nas roupas dele depois de um dia inteiro de trabalho, o restaurante, mas não o berço de tudo, o lugar que o havia formado muito antes de eu entrar em sua vida.

Quando finalmente deixamos a estrada principal, a paisagem começou a mudar lentamente, o cheiro de maresia entrou pelas frestas, misturado ao aroma de madeira queimando, a caminhonete reduziu a velocidade enquanto atravessava as primeiras ruas da reserva, meu olhar permanecia preso à janela. Eu já tinha estado em La Push antes, mas nunca desse jeito. Tudo é exclusivo aos meus olhos, exatamente como Cole havia descrito, talvez até melhor. As lâmpadas penduradas entre os postes balançavam suavemente pelo vento vindo da floresta e do oceano, piscas-piscas iluminavam as fachadas das casas, algumas varandas exibiam guirlandas feitas à mão, outras tinham estrelas entalhadas em madeira, em alguns quintais foi possível ver pequenas fogueiras queimando, cercadas por famílias reunidas.

Olha mamãe! — Hilary me chamou. Me ajeitei sobre o banco para olhar melhor para ela — Começou as luzes! — apontou pela janela — Olha aquela casa! — cinco segundos depois — Mamãe, olha aquela outra! — mais cinco segundos — MAMÃE, TEM LUZES AZUIS!

Levantei os olhos para a direção apontada com fervor, mas não vi muito. Voltei meu corpo para frente para poder visualizar melhor o que estava ao nosso redor.

— Aah, agora eu estou vendo. — sorri.

— É lindo! — Helena concordou com a irmã — Hili, olha isso...

Era mesmo, mas eu mal prestava atenção nas casas. Ao longe, entre as árvores que ficavam cada vez mais espaçadas, pequenos pontos dourados começavam a surgir como estrelas espalhadas pela terra. Conforme nos aproximávamos, as lâmpadas revelaram algo maior, mais casas decoradas com cordões luminosos e piscas-piscas; mais enfeites artesanais pendurados em varandas; fumaça saindo das chaminés; pessoas caminhando pelas ruas; crianças correndo; famílias reunidas. A reserva inteira parecia vivificada, não da forma barulhenta das cidades, é uma forma mais calorosa.

Meu coração desacelerou.

Aquela não era uma celebração organizada exclusivamente para turistas, nem um evento, nem uma festa. Era uma comunidade celebrando junta e, acredito que pela primeira vez, estou compreendendo o que Cole tentava explicar sempre que falava de La Push, não era apenas sobre o lugar onde ele morava, era uma extensão dele, da mesma forma que a floresta fazia parte da paisagem.

A reserva faz parte de quem ele é.

A caminhonete reduziu a velocidade, Jacob estava diminuindo para que uma senhora, carregando uma travessa coberta por um pano bordado, atravessasse antes que ele chegasse à curva seguinte; junto dela, duas crianças correm atrás uma da outra usando gorros vermelhos.

Meu peito apertou suavemente enquanto eu observava as casas contra o céu cinzento, pensei em quantas gerações haviam passado aqueles mesmos natais ali. Quantas crianças tinham crescido correndo por aquelas ruas; quantos avós haviam contado histórias junto às fogueiras, quantas famílias haviam construído suas vidas naquele pedaço de terra cercado por floresta e mar. Era impossível não sentir respeito, não sentir emoção.

Dei uma olhadela para Jacob por entre as mechas do meu cabelo, fisgando suas características nativas antes de voltar meu olhar para além do para-brisa e, de forma inesperada, comecei a entender melhor algumas coisas sobre Cole: porque ele carregava um senso tão profundo de responsabilidade; porque falava da comunidade como se falasse de família, porque, para ele, as duas coisas eram praticamente a mesma.

— Ele ainda está no centro comunitário. — Jacob chamou minha atenção.

Olhei para ele, que já estava sorrindo. Aquele sorriso irritante de quem havia percebido exatamente o que eu tentava esconder.

— Quem? — franzi minhas sobrancelhas.

— O Cole.

Meu rosto esquentou.

— E-eu não perguntei.

— Nem precisava, né.

— Jacob. —apertei meus olhos em sua direção.

— O quê?! — exclamou com cinismo.

— Só dirige, vai.

A gargalhada dele ecoou pela cabine, do banco traseiro, Helena me observava e havia algo divertido em sua expressão; definitivamente ela também havia percebido.

Minha filha tem andado muito tempo com o Emmett e o Jacob, não é possível.

Mamãe.

A voz de Hilary interrompeu meus pensamentos, olhei para ela por cima do ombro.

— Oi, filha?

Ela apontou para a sua janela com tanta empolgação que se não fosse pelo cinto de segurança, teria quase caído do banco.

Eu achei ele!

Meu coração imediatamente acelerou, virei meu corpo para trás.

— Quem?!

O Cól!

Era claro que para ela, sabia exatamente o que estava dizendo. Helena não escondeu um sorriso quando deixou de prestar a atenção na sua própria janela para olhar onde a irmã ainda apontava, Jacob riu e eu tive a forte sensação de que hoje estava cercada por conspiradores. Só que ainda assim virei o rosto para as janelas e procurei, porque era inútil fingir o contrário, eu queria vê-lo, mais do que isso, eu estava ansiosa para vê-lo.

Minha reação esperançosa só fez com que Jacob quase chorasse de rir.

— Prontas, minhas meninas? — perguntei, abrindo a porta traseira e sendo imediatamente atingida pelo ar gelado que fez meu nariz arder.

Antes mesmo que eu pudesse abrir a porta traseira, Hilary já estava tentando sair.

— Devagar, garotinha.

Eu tô devagar, mamãezinha! — ela estava tentando puxar o cinto com todas as suas forças.

Ela claramente não estava.

O processo de desembarque foi um malabarismo digno de circo. Pendurei a bolsa em um ombro, encaixei Hilary em um braço e puxei Helena contra o outro lado do quadril. Elas estavam pesadas, fofas e redondinhas por causa das camadas de roupa. Apertei as duas contra o meu corpo e com passos firmes para não escorregar no chão úmido da reserva, passamos por um grupo de adolescentes que ajudavam a descarregar caixas de uma das caminhonetes estacionadas próximas da entrada, o centro comunitário de La Push é de vista oposta à praia de costas para o mar, um espaço bem grande e coberto, grande parte da infraestrutura é de madeira clara, com mesas e bancos rústicos, entalhados em alto relevo, no espaço externo. Caminhei apressada em direção à iluminação calorosa que escapava pelas janelas do galpão.

Assim que Jacob empurrou a porta de madeira pesada com o ombro, o mundo mudou de figura, o impacto do calor do aquecedor nos atingiu de imediato, trazendo um aroma reconfortante de pinheiro, canela e comida caseira sendo preparada em algum lugar. O burburinho acolhedor das conversas e risadas do povo quileute preencheu meus ouvidos.

Quase que instantaneamente, o choque térmico fez as bochechas de Hilary e Helena ficarem muito vermelhas. Hilary estava menos avermelhada que a irmã, mas se destacava sob o gorro de tricô com pompom que ela já começava a tentar arrancar da cabeça. Senti vários olhares generosos e sorrisos se voltando para nós na entrada. Duas crianças vestidas para o frio daquela forma, eram um imã de simpatia.

No chão, mamãe! No chão! — Hilary começou a se contorcer, os olhinhos castanhos brilhando ao ver o espaço amplo do salão de madeira.

Coloquei as duas no chão, já sabendo que a calmaria tinha acabado. Enquanto eu desfazia o nó do meu casaco longo de lã para tirá-lo, Hilary e Helena já davam os primeiros passos com suas botinhas antiderrapantes, prontas para explorar a festa.

A noite estava apenas começando, e eu sabia que meu vestido provavelmente terminaria a noite com alguma mancha de doce ou marcas de mãozinhas, mas, observando a alegria delas ali, eu não mudaria absolutamente nada.

— Amberli!

A voz familiar surgiu antes que eu pudesse interceptar os passos das minhas filhas pelo local e procurar sua origem. E então a vi, parada próxima ao centro da movimentação: Renesmee. Se movia com fluidez numa saia mídi tartã xadrez vermelho e verde, botas marrons combinada com uma blusa de gola alta cinza-chumbo, os cabelos acobreados destacando-se entre as pessoas, o rosto iluminado por um sorriso enorme. Um sorriso largo surgiu nos meus lábios quando observei Renesmee esperando por nós no meio do salão vibrante, senti que eu não estava chegando a um lugar totalmente desconhecido, mesmo que eu já estivesse acompanhada pelo Jacob.

Assim que ela percebeu que eu a enxerguei, ela ergueu um braço, começou a acenar e passou a vir de encontro, praticamente correndo em nossa direção.

NESSIE! — Hilary imediatamente soltou minha mão assim que a viu.

As duas se encontraram no meio dos últimos metros de distância e, como sempre acontecia, Renesmee se abaixou para abraçar a pequena, Helena chegou logo depois por acompanhar os meus passos, mas recebeu um abraço igualmente apertado.

Renesmee levantou-se, me abraçou também.

— Feliz Natal! — cantarolou no meu ouvido.

— Feliz Natal. Nessie.

— Você veio! — festejou.

Ri.

— Você está surpresa? — um sorriso involuntário surgiu em meus lábios.

— Não. Mas estou muito feliz de ter você aqui! — seus olhos castanhos, como sempre, gritavam sua alegria; ela segurou meus ombros — Você está linda!

— Ah, pare, está sendo modesta.

— Pra você? Nunca!

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Revirei os olhos e Renesmee apenas riu, com um sorriso bonito de ser admirar. Meus ombros se encolheram debaixo de seus dedos quentes, era estranho imaginar que ela tomava sangue para se alimentar..., assim como Helena.

— Me dê toda a sua bagagem. — me pediu, a voz descontraída, com o sorriso ainda nos lábios — Acredito que você não tenha vindo pela rua onde dá par ver os chalés..., mas, na outra ponta da praia, há chalés para temporadas. — passou a informar, pegando a mochila e passando as alças para os ombros — Hoje eu aluguei um deles para passar a noite. — sacou seu celular, clicando na tela e virou o visor para mim — Olha que gracinha!

— É uma gracinha mesmo. — concordei analisando os detalhes do clássico chalé todo de madeira com decoração artesanal de penas pendendo na entrada.

— Estou com o chalé número oito. Caso você acabe perdendo a hora aqui com a gente, você pode posar lá com as meninas. Ou, — seus lábios voltaram a emoldurar um sorriso, dessa vez mais travesso — caso precise passar algum tempo sem as meninas..., sinta-se à vontade para ficar..., eu cuido delas, caso precisar.

— Ah!... — meu rosto se aqueceu, aclarei a garganta — Obrigada, Nessie.

Ela assentiu, sorrindo como num "de nada" e, então seu olhar desviou para algum ponto atrás de mim e seu sorriso aumentou. Ah. Meu coração imediatamente soube, antes mesmo de eu me virar de que Cole estava por trás de mim.

Virei-me.

E lá estava ele, a alguns metros de distância, ajudando a descarregar uma caminhonete estacionada diante do prédio. Havia várias pessoas ao redor dele, entrando e saindo com caixas, bandejas e sacolas. Algumas crianças passavam correndo entre os adultos.

Mas meus olhos foram certeiros, direto para ele, como sempre acontecia.

O vento vindo do mar bagunçava seus cabelos escuros enquanto ele erguia uma caixa aparentemente pesada com a mesma facilidade com que eu levantaria uma almofada. Sua camisa estava aberta apesar do frio, as mangas dobradas até os antebraços fortes, revelando a pele morena. Era uma visão simples, tão simples que talvez ninguém mais prestasse atenção, mas eu prestava, porque havia algo profundamente bonito em observar um homem que eu admiro no ambiente ao qual pertencia.

Durante meses eu fui conhecendo o Cole entre nossas conversas, em passeios, momentos roubados entre as obrigações da vida. Mas aqui, agora é diferente, eu não estou vendo apenas o homem que segurava minha mão. Estou vendo o filho, o amigo, o membro dessa comunidade. O homem que cresceu entre essas pessoas, que é chamado pelo nome por praticamente todos que passavam, que parava para ouvir um ancião, que carregava caixas para uma senhora sem que ela precisasse pedir, que abaixava a cabeça para ouvir uma criança lhe contar alguma coisa importante.

Meu peito aqueceu, de alguma forma, aquilo confirmava tudo o que eu já sabia. Sorri.

Foi então que ele ergueu o rosto, seus olhos encontraram os meus e imediatamente alguma coisa mudou: a concentração naquilo que fazia desapareceu, sua expressão séria suavizou e aquele sorriso surgiu em seus lábios num movimento lento, como se ele tivesse acabado de encontrar exatamente quem esperava encontrar.

Meu estômago deu uma volta completa, um frio misturado com calor, tudo em menos de segundos. Ele tem uma facilidade de provocar reações físicas inesperadas dentro de mim, um misto entre a confusão e segurança inexplicáveis, mas que se aquietava com a quentura no peito, era como voltar para casa depois de um dia longo.

Mamãe tá sorrindo muuitão! — anunciou Hilary, apontando o dedinho.

— Que nada filha... — balbuciei — Não estou não.

— Está sim.

— Não, Hilary...

Tá muito.

Renesmee começou a rir juntamente de Helena, até mesmo Jacob. Suspirei resignada e contive a vontade de revirar os olhos, eu merecia isso. Definitivamente merecia.

— Ele está sorrindo igual você. — anunciou Helena.

Desviei os olhos dele, por um segundo inteiro.

— Você também, Helena.

— O quê? É sério mamãe, está sim. — ela insistiu com toda a meiguice e inocência.

— Tá o quê?

— Sorrindo igual..., um sorriso meio bobo.

Jacob gargalhou alto, chamando a atenção das poucas pessoas que passavam entre nós. Quando meus olhos foram atraídos novamente, Cole dizia alguma coisa para a pessoa ao lado dele, entregou mais uma caixa, que foi sustentada por duas pessoas e começou a caminhar em nossa direção. E eu me peguei observando a forma como as pessoas o cumprimentavam enquanto passava: um toque no ombro; um aceno; um sorriso; uma palavra rápida; ele respondia a todos, conhecia todos.

Aquilo me emocionou mais do que deveria. Me parecia tão longe do homem que não via motivos para estar ali, para ter ficado tanto tempo contra as ondas bravas do mar e a pesca arriscada. Eu não posso não o ter visto naquela fase, mas hoje em dia em vejo seus olhos claros serem aquecidos por um significado grandioso de que ele havia construído sua vida ali com raízes; talvez naquela época ela não pudesse ver o que estava junto dele a todo momento, mas hoje ele entende o quanto pertence a Comunidade.

Cole parou diante de nós quando os braços de Jacob o recepcionaram com um toque nas costas, seus olhos passaram primeiro pelas minhas meninas. Primeiro olhou para Helena, depois para Hilary.

Como sempre fazia.

— Ei, Feliz Natal, pequeninas.

Hilary abriu os braços imediatamente, Cole a pegou no colo sem esforço.

Ebaa! Cól! Feliz Natal! Feliz Natal!

— Você cresceu desde a última vez que te vi.

Cresci mesmo! Muitão, quem nem a Nena!

— Impressionante.

Eu sei!

Helena recebeu um abraço logo depois, um toque mais discreto e igualmente afetuoso. Ele comparou a diferença significativa na altura das meninas com descontração e um sorriso; outra demonstração silenciosa daquele carinho que ele tem pelas duas. Só então seus olhos voltaram para mim, por um segundinho que deu-me a sensação de tudo parecer desacelerar e o mundo pareceu diminuir um pouco. Meu coração parecia ressoar em todos os lugares, era capaz de todos o ouvirem de tão forte que batia.

— Oi, Lee. — me cumprimentou, erguendo-se.

Era apenas uma frase. Uma pequena frase que eu poderia até mesmo considerar como uma palavra, de tão curta que soa. A forma como ele a disse fez meu coração esquecer completamente como funcionava. Ora trabalhava muito, ora parecia se esquecer até mesmo de como bombear.

Graças a Deus, tudo metaforicamente, mas as vezes eu temia pelo momento que não pudesse ser.

— Oi. — minha voz saiu engasgada, um fiasco constrangedor que aqueceu meu rosto.

O sorriso dele aumentou.

— Feliz Natal, Amberli.

A forma como ele diz meu nome sempre me faz sentir algo arrebatador e estranho. Algo bom, como se aquela parte do som do meu nome tivesse sido feita para existir na sua voz.

Sorri.

— Feliz Natal, Cole.

Por um instante nenhum de nós dois disse mais nada, não porque faltassem palavras, mas porque não pareciam necessárias. Os olhos dele percorreram meu rosto rapidamente, parecia estar certificando-se de que eu realmente estava ali. E percebi que eu fazia exatamente a mesma coisa, o que me fez soltar um leve riso, que Renesmee interpretou a algo que ela conversava.

Movi meus pés para ficar mais próxima dele, acometida pela sensação de saudade antes mesmo de haver uma despedida, de sentir falta de alguém mesmo quando a ausência havia durado apenas algumas horas. Cole selou seus lábios ao meu, foi rápido, delicado e altamente caloroso.

Pisquei os olhos, olhei ao redor, pareci ter quebrado um encanto de poucos minutos.

Segurei o punho da Hilary, a contendo no lugar, Cole inclinou levemente a cabeça, seu corpo se colando em mim, sua temperatura quente como sempre. Meus olhos seguiram os relevos dos seus músculos à mostra e, me pergunto: quem no mundo deixaria de estar bem agasalhado na baixa temperatura dessa região do país?

Aparentemente quase todos os indivíduos do sexo masculino da reserva quileute.

— Você está nervosa. — Cole manifestou quando passamos a seguir o casal pelo salão.

Bufei uma risada.

— Está tão óbvio assim?

— Um pouco. Posso sentir no seu.., cheiro. — confidenciou.

— Ah, que ótimo. — fiz uma careta, devo estar meio esquisita.

— Não se preocupe, você está muito cheirosa, acredito que só eu consiga farejar o seu nervosismo... — ergui meus olhos aos seus, arqueando uma das sobrancelhas. Isso não estava me ajudando. Ele riu com meu olhar — Não se preocupa.

Claro. Mais uma pessoa me dizendo para não me preocupar, como se fosse simples, como se meu cérebro aceitasse esse tipo de instrução.

— Relaxe um pouco, Lee.

Meus ombros cederam, acatando às suas palavras. Eu nem havia percebido o quanto eles estavam tensos.

Há algo diferente quando vem dele, talvez porque sua mão encontrou a minha naquele instante. Entrelaçando-nos naturalmente, sem cerimônia, sem chamar atenção; os dedos enlaçando-se aos meus já sabendo a maneira que me agrada. O calor daquela única ação atravessou meu peito e, de repente, o nervosismo diminuiu.

Não desapareceu, claro. Mas diminuiu. Consideravelmente.

Cole percebeu. Eu sei que percebeu por que seu sorriso aumentou e o polegar acariciou o dorso da minha mão uma única vez. Um toque quente, suave e discreto. Que foi o suficiente para tudo em mim.

— Vamos. — ele me guiou alguns passos a frente, nos pareando com Jacob e Ness.

— Pra onde?

— Vou te mostrar algumas pessoas da minha família.

Eu também! — Hilary vibrou.

— Principalmente a você.

Oba!

Cole riu, gesticulou para Jacob que nós iriamos para o outro lado e então começamos a caminhar por entre as mesas de madeira e a decoração característica. Não havia laços e nem muitos adornos vermelhos como o que eu estive acostumada por grande parte da minha vida; o que predominava era os artefatos tão bem consolidados com carinho entre as gerações quileute e claramente feitos a mão.

Cole nos guiava entre as mesas redondas, num passo e outro ele indicava sobre uma pessoa, em outra ele era chamado a atenção para cumprimentos. Foi então que uma senhora com apenas uma bela mecha grisalha saiu de uma das portas duplas fechadas carregando uma bandeja e ao nos ver, abriu um sorriso imediato. Achei que ela passaria por nós, assim como todos os outros, mas sua saudação me surpreendeu:

— Ei, Bee-Bee! — exclamou com entusiasmo.

Cole parou seu movimento, o que fez com que os meus passos e o das meninas também fossem interrompidos, nossa atenção se tornou exclusiva à mulher.

— Oi, tia.

Meu cérebro travou, completamente.

— Lee, essa é a minha tia: Olívia.

— Finalmente trouxe ela. — ela sorriu, os olhos praticamente se fechando.

Cole apenas sorriu, esfregando suas mãos em mim, com carinho, como se quisesse deixar a minha pessoa em evidência. Como se aquilo fosse normal.

— Finalmente eu trouxe. — ele concordou.

A mulher me observou por um instante, não havia traços invasivos no seu olhar puxado, nem avaliadora. Apenas absorveu o que via. Seu olhar castanho desceu para as minhas filhas, que estavam de mãos dadas, conversando entre si, então ela descansou a bandeja na madeira da mesa mais próxima e segurou uma de minhas mãos entre as dela. Mornas como as minhas.

— É um prazer finalmente conhecer você, Amberli.

Minha garganta apertou antes as suas palavras tão sinceras, seu acolhimento me pegou desprevenida.

— O-o pra-a-zer é meu. — gaguejei quando situações do meu passado contrastaram por de trás das minhas pálpebras e gritei na minha mente que nada de ruim estava acontecendo. Pisquei, me concentrando no presente e sorri levemente para ela — O prazer é meu, tia Olívia.

— Oh, querida... — seus olhinhos puxadinhos piscaram, o sorriso se firmando nos lábios, logo seu olhar desceu, olhando para as meninas — São suas filhas?

— Sim; as duas. Essa é a Hilary... e, essa é a Helena. — eu trouxe as meninas para mais perto de nós.

Hilary não deu muita bola para ela, mas Helena a olhou daquela maneira que as vezes me deixava sem fôlego, um olhar conhecedor e tão sereno que nos desconcertava. É a primeira vez que vejo o que causava em alguém além de mim.

— Helena. — a chamei suavemente quando o olhar trocado no silêncio entre elas começou a me deixar desconfortável. Foi uma troca de olhares silenciosa e breve, mas a semelhança desconcertante da feição da senhora, me deu a sensação de estar durando uma eternidade.

— É um prazer conhecê-la também, senhora Olívia. — ela estendeu a mãozinha para o cumprimento, tão alinhada, que parecia ter ensaiado o movimento.

Cole e eu trocamos um breve olhar antes de voltarmos nossa atenção para a interação que acontecia a frente de nossos olhos, Olívia pareceu um pouco perdida nos míseros microssegundos que teve para se reestabelecer e aceitar a mãozinha da minha filha na sua, selando o cumprimento.

— Oh..., que mocinha mais educada! — sorriu, encantada, mas vi quando suas sobrancelhas se franziram em confusão — Igualmente, querida.

— Eu e a mamãe estávamos ansiosas para participar dessa festa... da comunidade. Eu te diria que a Hilary também, mas ela só acha que estamos passeando pelo mundo.

Suas palavras nos arrancaram uma risada sincera e a reação de Helena foi agarrar a minha mão e voltar a murmurar alguma coisa com a irmã.

— Ele fala muito de você. — meu coração abandonou qualquer tentativa de normalidade quando a Olívia comentou sobre isso para mim. Cole tossiu — Venham comigo, tem mais pessoas querendo te conhecer também. — ela nos incentivou a segui-la por entre as pessoas quando recolheu a bandeja para si novamente — Você disse isso para ela, não é, Bee-Bee?

— Sim, tia, ela já está ciente.

— Ainda bem, — riu — porque eu sei que a Rebecca vai surtar com o corte de cabelo dela.

E ela realmente surtou. Positivamente.

A mãe da pequena Kaylee e esposa de Embry é socialmente o oposto do marido, muito expressiva, divertida, com um teor propício a piadinhas implícitas que poucas vezes vi uma mulher ter. Ela se mostrou ser bem apegada ao Cole, e não era pra menos já que se consideram melhores amigos.

Fui apresentada ao marido de Olívia, o tio Joseph, que continha a neta em rodopios dançantes pelo espaço livre do salão; acabei por conhecer também, Allison; irmã de Rebecca, que coincidentemente é namorada de Hugo. Ela me recepcionou tão bem quanto os outros, me perguntando o que achava da decoração e o que eu já sabia sobre seu povo. Eu admiti que não sabia tanto quanto gostaria e momentos depois me vi de frente a uma guia turística nata, que transbordava paixão por viagens pela região e pela cultura ricamente preservada do seu povo. Allison insistiu para que eu a chamasse apenas de Allie dali em diante...

Allie confessou que estava ansiosa para poder me contar tudo o que ainda aprende com sua avó Emily. E em palavras poéticas acrescentou o quanto nunca deixa de aprender e se surpreender com seus ancestrais, assim, ainda sendo fisgada com a sua maneira descontraída de conversar foi que me vi diante de três.

Anciões.

A maneira como a mesa onde eles estão acomodados me trouxe a leve sensação de que eles eram muito mais importantes do que eu estava sentindo. Duas mulheres e um homem. A pele escurecida já era fina e enrugada, deixando claro a idade avançada de cada um. Devagar, num ritmo limitado da idade do corpo, o homem se pôs em pé, ele é muito mais alto do que eu havia imaginado, seus olhos quase ocultos pelas pálpebras puxadas eram bem escuros e carregavam uma seriedade e autoridade tão expressiva que por um momento fiquei sem saber como reagir.

Eu precisava fazer alguma saudação, ou engolir seco já era suficiente? Tive vontade de esconder minhas mãos e reprimi a vontade de retorcer meus dedos um no outro.

O toque quente chamou minha atenção, amenizando a tensão que endurecia meus membros. Cole passou seu braço sobre meus ombros, e juntos, caminhamos ainda mais para perto dos anciões. Observei quando o senhor se virou para uma das mulheres, a ajudando a sair da cadeira e fez o mesmo com a outra senhora.

Elas pareciam ter quase a mesma altura, mesmo com o corpo envelhecido e curvado, não eram baixas e nem altas; cabelos lisos na cor das suas experiências de vida, pele marrom..., e o que mais as diferenciavam eram as rugas e outra coisa também.

Entre as rugas na pele de cor quente, a senhora à minha esquerda tinha algo estranho no rosto que puxava sua pálpebra de forma diferente e violenta, trazendo parte do rosto num repuxar imóvel mesmo com tantas linhas irregulares da fase da sua vida. Apesar disso, mesmo com um lado da face envelhecida arruinada em cicatrizes, ela não deixava de apresentar uma feição realizada, serena e certo domínio.

A senhora do meu lado direito era semelhante nas demais características. O rosto era livre de cicatrizes não ocasionadas pelo ciclo natural, olhos escuros entre as pálpebras puxadas detrás dos óculos de armação fina e um leve sorriso já iluminava sua expressão. Nossos olhares foram os primeiros a se encontrarem.

— Lee. — Cole iniciou quando nossos passos findaram a frente deles — Estes são meus avós: vô Sam e vó Emily, paternos, e vó Nimue, materna. Essa, é a Amberli.

Meu coração bateu forte dentro do peito e não tive tempo para limpar a sensação de suor nas minhas mãos quando as estendi para cumprimentar o homem. Sua mão é grande e forte apesar da pele fina e quente, o aperto em minhas mãos foi firme. Sua expressão me pareceu desconfiada, mas seus olhos acompanharam o sorriso dos lábios quando me cumprimentou.

— Seja bem-vinda à família, Amberli.

Emily se aproximou logo em seguida. Seu contato foi inesperado, mas o recebi com carinho, suas mãos leves e cansadas pareciam querer ter a certeza de que eu estava realmente ali, a frente de seus olhos; suas palavras de saudação foram gentis e calorosas e antes que desse a vez, ela quis tocar no meu rosto, mas quando percebeu que eu estava maquiada, seus dedos apenas deslizaram pelos meus cabelos e disse:

— Eu tenho tanto a ensinar para você. — ela sorria, suas palavras saíram sussurradas por entre os dentes, pareceu verbalizar um desejo antigo.

Vovó Nimue pôde ter sua vez e, mesmo que não tenha expressado em palavras, eu sabia que ela se sentia realizada por me ver ao lado do seu único neto. Seus olhos brilharam muito quando vislumbraram minhas filhas atrás de mim e não se conteve em perguntar-me se ela poderia ser apresentada como avó. Seu pedido fez com que meu cérebro me desse a impressão de que o chão derretia por debaixo dos meus pés, mas permaneci estável no chão, respirei fundo e chamei minhas filhas para mim. Ergui os olhos na direção de Cole, perguntando através do olhar. Seus olhos claros queimaram sobre os meus numa resposta fervorosa e desviou como se dissesse que a decisão final tem que ser totalmente minha. Hilary pediu por meu colo assim que chegou, Helena aceitou os braços de Cole e diante do pedido de Nimue, os apresentei.

— Essa é a bisavó Nimue, filha. — minha voz anunciou com clareza, mesmo que eu sentisse minha garganta quente e apertada. O coração batendo loucamente dentro do peito.

Do meu colo mesmo, Hilary aceitou ser abraçada pela senhora. Não que ela não tenha correspondido, ou deixado de envolver seus bracinhos ao redor da cabeça da anciã, ela apenas não queria sair do meu colo para fazer isso e eu também não acho que seria uma boa ideia uma senhora tão avançada na idade comportar o peso dela, então segurei firme nas suas perninhas enquanto ela estava inclinada contra o corpo da Nimue, que passava as mãos nos fios de cabelo da minha filha e elogiava sua beleza infantil.

Helena repetiu o gesto da irmã de se manter no colo, quando segui para o casal, apresentando-os para Hilary. Emily ficou satisfeita com o abraço da minha filha e suas palavras emboladas ditas com entusiasmo, mas Sam conseguiu desgrudá-la de mim e nem um pouco afetado, a sustentou muito bem nos braços. O que me surpreendeu, mas ainda assim, mantive minhas mãos próximas das costas da Hilary, que sequer estava ligando de já não estar mais no meu colo.

Após o breve entrosamento entre eles, Hilary voltou aos meus braços quando chegou a vez de Sam ser cumprimentado por Helena, porém ela se agarrou a Cole, cobrindo o rosto na curva do pescoço dele de uma forma que eu jamais vi, negando o contato com o ancião. Vi quando Cole exerceu certa força nos braços dela para diminuir seu agarre, afastando-se um pouco do avô e falando baixinho com Helena.

Senti meu corpo gelar em preocupação, "será que minha filha sentiu sede por ficar tão próxima deles?", pensei, meu olhar seguindo os movimentos de Cole.

— Não se preocupe, Amberli. — a voz velha me chamou a atenção para si. Era o sr. Uley — É apenas uma criança, não é?... Nem todos conseguem cativá-las de primeira.

— Sim..., é... — não consegui responder.

— Quantos anos a Hilary tem mesmo, querida? — vó Emily emendou entre as minhas palavras inconsistentes.

— Ela vai fazer dois anos no final de janeiro. — respondi de imediato.

— E já é tão esperta! — vó Nimue exclamou.

— Você já está planejando a festa de aniversário dela, então?

Vó Emily continuou a perguntar, e me vi sem opções além de focar meu raciocínio nas suas perguntas, manter Hilary nos braços, enquanto Cole lidava com Helena, mesmo eu querendo muito saber o que tinha acontecido. O que eu havia perdido?

Quando Cole voltou para perto, ele já não estava sozinho. Helena agora estava nos braços de uma Renesmee sorridente, que logo contagiara Hilary, que pulou nos braços dela assim que a irmã encontrou abrigo nos meus.

— Eu estou bem, mamãe. — Helena afirmou quando apertei seu corpo cheio de calor contra mim.

— Tem certeza? — sussurrei em seu ouvido — Se quiser, podemos ir embora...

— Eu estou bem, mamãe. — olhou bem nos meus olhos, vi neles o reflexo de quartzo azul, safira levemente lavada e opala marinha, todas existindo nas pequenas mesmas írises — Não iremos embora. — ela afirmou, convicta.

E assim ela partiu para os braços da Nessie mais uma vez, que se misturou entre as pessoas com minhas filhas enganchadas em seus quadris.

Cole tomou seu lugar ao redor de mim, beijou o topo da minha cabeça, e sussurrou que Helena estava bem, me tranquilizou de que não era nada relacionado a sede, ela apenas deve ter estranhado mesmo o seu avô. "Talvez por ela nunca ter visto idosos antes na vida...", ele comentou sério, dando de ombros, e acrescentou que "Renesmee estava logo atrás de nós quando a situação aconteceu. Achei uma boa ideia colocar Helena próxima de alguém mais familiar.", e "Me desculpe por te fazer pensar que o caldo havia entornado, Lee... Sei que ficou muito preocupada."

Bom, ele não havia realmente sussurrado, mas por causa do barulho ambiente ao nosso redor, foi assim que pareceu para mim.

Pedindo licença aos seus avós, ele nos guiou para fora do galpão, seguimos pela lateral externa onde mais gente também estava reunida até estarmos no fundo do local, também decorado.

Descemos por uma escada que nos dava acesso a areia da praia. O vento frio da praia de La Push parecia atravessar meu casaco, entrando por cada fresta possível, como se quisesse me lembrar de que eu ainda não pertencia completamente àquele lugar. A fogueira adiante, porém, dizia o contrário, a chama subia alta, laranja e viva, refletindo luz âmbar em dezenas de rostos reunidos ao redor, todos quileutes, todas gerações, todas histórias antigas pulsando ali, rostos que pareciam conhecer uns aos outros desde sempre.

Eu nunca tinha visto um fogo daquele tamanho. Não era, nem de longe, uma simples fogueira; parecia mais um monumento vivo de luz e calor. À medida que eu me aproximava do círculo de troncos onde a comunidade se reunia, o calor bateu no meu rosto como um abraço físico, quase agressivo, contrastando com o ar gélido de La Push que soprava das costas do oceano. Eu parei alguns passos atrás do círculo de pessoas, sentindo aquele calor distante e um frio nas costas, com uma vontade de encaixar entre um e outro… só não sei como.

— Vem comigo. — sua voz surgiu atrás de mim, baixa, segura.

Não precisava mais olhar para reconhecer; meu corpo reconhecia antes da minha mente. Cole parou ao meu lado, tão próximo que percebi o cheiro sutil de madeira, maresia e algo muito próprio dele.

— Você tem certeza de que eu devia…? — hesitei.

— Tenho, Lee. — ele estendeu uma mão, não para me tocar, mas para me indicar o caminho, como quem guia algo delicado — Fica perto de mim.

Acompanhei seus passos, sentindo a areia fria ceder sob meus pés enquanto o calor da fogueira aumentava. O som do mar se misturava com murmúrios baixos, risadas esparsas, e a voz de um ancião, grave e ritmada, se destacou quando nos aproximamos. Cole inclinou um pouco a cabeça, aproximando o rosto do meu, a fogueira crepitou mais forte quando nos aproximamos, iluminando o verde dos olhos dele.

— Esse é o Quil Ateara V. Ele sempre conta a primeira história da fogueira de inverno.

— Sobre o quê? — murmurei.

— Sobre como nossos antepassados aprenderam a sobreviver ao mar… e ao frio. É um lembrete de força.

Tentei prestar mais atenção ao que o senhor falava, a voz madura do senhor Quil parecia uma onda: constante, ritmada, profunda demais para ser ignorada pelos meus ouvidos. Pelo que eu podia captar, a história falava de um caçador que outrora desafiou o mar para salvar sua família. Falava de coragem, sacrifício, e de como a comunidade sempre sobrevivia quando permanecia unida.

Eu prendi a respiração. Não era só a história que me tocava; era o fato de Cole me incluir, ter a paciência de me explicar, me trazer para dentro do seu convívio. Eu não esperava que meus olhos ardessem, mas arderam, Cole percebeu, claro.

— Está tudo bem? — ele sussurrou suavemente.

Assenti, mas sentia que não estava, ou..., talvez estivesse pela primeira vez. Havia algo devastador e aconchegante em ser testemunha de uma história que vinha sendo contada há gerações, algo que nunca tive em lugar algum. E isso doía de um jeito estranho, familiar, quase melancolicamente bonito. Cole se aproximou mais um pouco, o suficiente para que eu sentisse o calor do braço dele, mesmo sem toque, foi como se seu calor me abraçasse.

Eu respirei fundo.

E pela primeira vez naquela noite, senti que talvez… eu pudesse realmente permanecer ali.

Um agrupamento da comunidade regressou até o grande galpão quando um sino foi tocado e vozes começaram a espalhar que "já era hora", o ar estava impregnado do cheiro maravilhoso de comida, fumaça e salmão em muitas maneiras, em molho, recém-grelhado, assados e vegetais defumados. Hilary foi devolvida a mim, estava fascinada, virando a cabeça para todos os lados, observando tudo com olhos muito abertos. Era novidade para ela também: aquele movimento de gente, essa energia comunitária que pulsava mesmo no frio do inverno.

Eu topei com Allie e Hugo entre o mar de pessoas, a descontração do casal permitiu que Cole pudesse se ausentar por alguns minutos para longe de mim. Hilary estava toda falante, sendo passada dos braços de Hugo para o de Allie com frequência quando Cole retornou do fundo do galpão, com uma caixa térmica enorme apoiada no ombro que me parecia pesada, mas ele carregava como se fosse leve.

— Chegou o herói do jantar! — alguém gritou, e todos ao redor riram.

Eu também sorri, sem conseguir evitar. Ele colocou a caixa sobre a mesa e abriu a caixa, uma nuvem de vapor subiu como um convite irresistível. Dentro havia salmões enormes, limpos, preparados e frescos. Peixes perfeitos, brilhantes sob a luz amarelada do galpão. A expressão orgulhosa e tímida dele era… uma perdição para o meu coração.

— Quando você pescou tudo isso? — perguntei espantada.

— Hoje bem cedo. Tem muito mais de onde esses vieram... — ele desviou o olhar, coçou a nuca envergonhado — É meio que a versão moderna da "Primeira Caça", mas ainda vale.

— Você foi para o mar sozinho?

Cole deu de ombros, mas seus olhos revelavam certo orgulho.

— Collin estava junto comigo. — disse ele, segurando o riso — Mas se quer saber, ele só me atrapalhou.

— Ei! — Collin reclamou por detrás de algumas pessoas, aparecendo atrás dele, fingindo indignação — Eu levei a isca! Isso deve contar.

Cole riu, empurrando o amigo de leve com o ombro. Sorri, sentindo o coração aquecer assistindo aos dois, a amizade leve, o companheirismo, o pertencimento natural.

Kaylee surgiu correndo logo depois, as tranças balançando com seu movimento.

— Amberli! Vem sentar com a gente? Com o meu padrinho e comigo! — ela disse, puxando minha mão com tanta casualidade que eu não tive coragem de resistir.

De repente eu estava sentada ao lado de Cole, Hilary no meu colo e Kaylee entre nós, rindo de tudo. Eu observava aquela mesa cheia, aquelas pessoas que pareciam pertencer umas às outras… e senti algo apertar dentro de mim. Não era de dor, só de uma saudade do que eu nunca tive.

E, mesmo assim, de algum jeito, eu estava ali.

O salão agora estava cheio, triplicado de risadas, conversas cruzadas, crianças correndo, as mesas estavam ocupadas por toda a comunidade e claro, pessoas da região. Num certo tempo vi a tia de Cole, Olívia, se agrupar no meio do salão acompanhada de Franchesca e os anciãos da família, Jacob e outros indígenas a qual fui e não fui apresentada; aos poucos a comunidade foi ficando em silêncio e um microfone foi passado para as mãos de um dos homens mais velhos.

Cada um teve seu tempo de fala, afirmando a alegria e benevolência dos espíritos da tribo em terem mais um ciclo de bençãos e saúde, por suas descendências ainda permanecerem predominantemente conservadas e pela fé. Foi um momento bonito onde eu tive a compreensão de que a religião deles estava fortemente entrelaçada às raízes das quais fui ensinada e, quando comentei esse detalhe para Cole, ele pareceu não compreender a minha percepção, mas deixou esclarecido como os espíritos da tribo sempre tiveram uma divindade celestial onipresente com eles desde o princípio das estórias da tribo. E aos cochichos, ele segredou que em breve teríamos reuniões em volta de fogueiras para que eu passasse a saber com mais detalhes sobre o seu mundo. E com entusiasmo, eu cochichei de volta o quanto esperaria por esse momento. Sua resposta foi o dilatar de suas pupilas e um sorriso de lábios fechados.

Ao final, todos os que estavam a falar fizeram um círculo com as mãos estendidas para todo o povo ao redor do salão e numa língua que eu não entendi passaram a proferir em uníssono; um pouco perdida, acompanhei o movimento responsivo ao meu redor, abaixando a cabeça e selando minhas mãos uma na outra, os gestos me fizeram entender que eles entoavam uma oração. "De proteção, fé e gratidão", disse-me Cole.

Os pratos foram sendo passados de mão em mão, Cole me serviu, me vi tímida, mirando o prato como se fosse um novo desafio, mas assim que dei a primeira garfada… parou. O salmão está tão macio que chegou a derreter dentro da boca, estava temperado com algo que não consegui identificar, mas que explodia em sabor. Os vegetais que compunham o prato tinham um toque amadeirado da defumação, como se fossem assados com o cuidado ancestral. Peguei mais um pedaço do salmão e, fechei os olhos involuntariamente. Contive um suspiro.

Ergui meu olhar, encontrando os de Cole sobre mim. Sorri de lábios fechados, o qual ele correspondeu, os olhos puxados quase se fechando.

— Isso está… incrível! — pude expressar minha aprovação assim que engoli.

— Coisa da tia Olívia e das mulheres mais velhas que cuidam daqui. — ele riu, satisfeito — Elas cozinham para a tribo há quarenta anos. Talvez até mais!

— Eu nunca comi nada assim. — olhei para o prato.

— Fico feliz que gostou. — eu sentia que ele ainda me olhava.

Eu assenti ainda mastigando.

— Eu gostei… muito. — olhei rapidamente para ele antes de mover os talheres pelo prato — Será que poderei pegar a receita com ela, algum dia?

— Poderemos tentar. — ele soltou um leve riso.

Sorri de lábios fechados mais uma vez, enquanto mastigava, meu coração pulsando forte dentro do peito, guardando cada pedaço precioso desse instante e ansiei por mais momentos assim.

Mais Natais assim.

Mais noites assim.

Mais… dele assim.

— Há receitas ainda melhores de onde veio essa. — ele continuou, e havia algo mais naquele olhar. Algo que parecia dizer:

Quero que você viva isso.

Quero que seja parte disso.

Quero você aqui.

E isso mexeu comigo de um jeito arrebatador, difícil de admitir.

Renesmee retornou com a minha filha quando as pequenas porções de sobremesas já haviam sido distribuídas, avisando que a fogueira foi reacendida depois do jantar, e como se todos tivessem ouvido seu anúncio, a comunidade voltou a se reunir ao redor. Voltamos para lá também, a fogueira, agora maior, reabastecida, iluminava a noite escura. As chamas iniciais da base, perto do carvão, eram acesas num tom impressionante de azul-escuro; o chiado da seiva cozinhando dentro dos troncos húmidos; no meio, as labaredas ganhavam forma com o vento atiçando as brasas de um amarelo-violento como a personificação visual do calor e as pontas como línguas de fogo, as faíscas subiam como pirilampos poéticos em direção ao breu do céu escuro que me permitia enxergar a fumaça cinzenta que serpenteia o ar como um fantasma.

Kaylee se aproximou de nós mais uma vez num caminhar saltitante, que percebi ser bem característico dela, e me puxou para perto das crianças, que se sentaram nuns tocos baixos de madeira na areia, com cobertores nas pernas; a afilhada de Cole puxou Helena e Hilary mais para perto do círculo, como se estivesse orgulhosa de apresentar suas convidadas.

Vendo minhas filhas bem integradas e confortáveis com os cuidados infantis da Kaylee, meus olhos foram atraídos novamente para a fogueira alta, o cheiro da fumaça em breve começaria a impregnar nas roupas e com certeza já começara no cabelo. O tamanho daquela fogueira me fez recuar um passo antes de encontrar o lugar que Cole me indicava para me ajudar a sentar. Era colossal.

À minha volta, o contraste era absoluto: minhas costas congelavam com a brisa salgada do Pacífico, enquanto meu rosto ardia com o calor pulsante do fogo. Mas foi questão de tempo para que eu estivesse espremida em um casulo de músculos cheios de calor que parecia desafiar o inverno de La Push. À minha frente, a fogueira monumental rugia, lançando uma onda de calor que arrepiava a pele; ao meu lado, Cole era uma fogueira por si só. Seu braço estava ao redor dos meus ombros, e o calor que emanava de seu corpo era tão intenso, tão absurdamente reconfortante, que a brisa gélida nem sequer me tocava mais.

Dezenas de rostos da reserva, do mais velho ancião à criança mais inquieta, estavam moldados por aquela luz alaranjada e trêmula. Havia um silêncio reverente no ar, quebrado apenas pelo estalar violento da lenha grossa e pelo chiado da seiva que cozinhava lá dentro.

Um dos contadores de histórias, dessa vez, uma mulher alta, de cabelos longos e prateados, levantou-se com uma postura serena e imponente e ergueu um cajado entalhado. Sua presença era marcante, a pele morena do seu rosto parecia arder e brilhava pelo calor tão próximo dando-lhe uma áurea quase sagrada.

— Hoje contamos a história do Espírito Guardião do novo ciclo... — ela começou.

As crianças ficaram hipnotizadas, eu também. A voz dela tinha uma força que parecia me atravessar. Senti um arrepio na espinha. Então, a contadora de histórias começou a se mover, caminhando lentamente ao redor do perímetro da fogueira, as solas de seus sapatos quase tocando as fagulhas de brasas periféricas. O efeito era hipnótico. Quando ela passava para o outro lado do círculo, as labaredas gigantescas a transformavam em uma silhueta mística, uma sombra que parecia controlar os elementos. Mas quando ela contornou o meu lado, a luz dourada revelou cada linha de expressão em seu rosto e o brilho intenso em seus olhos escuros.

— Há muitas eras, antes do primeiro inverno... — a voz dela ecoou, profunda.

E naquele exato momento, um estalo forte na fogueira lançou uma cortina de faíscas em direção às estrelas, como se o próprio fogo estivesse celebrando a chegada do espírito guardião do novo ciclo. Eu segurei o fôlego, completamente capturada pelo calor, pela fumaça com cheiro de pinho ancestral e pela magia daquele momento. A contadora de histórias deu mais um passo lento ao redor do círculo. Sua voz, madura e magnética, flutuou por cima do estalar pesado da lenha.

— ...O espírito guardião observa os caminhos que cada um percorre, sem interferir. — disse ela, as mãos gesticulando suavemente em direção às faíscas que subiam — Ele guia os seus, da mesma forma que a lua guia o mar. Não impera à força, e sim com a intensidade silenciosa da sua presença, e isso é o suficiente para alinhar muitas coisas na nossa vida...

Senti um leve sobressalto no peito de Cole. Olhei de relance para o seu perfil esculpido pela luz alaranjada; seu maxilar estava tensionado, os olhos fixos na contadora com uma reverência profunda, quase solene. Aos poucos minhas filhas voltaram para mim, cada uma tomando seu lugarzinho no meu corpo. Do outro lado de Cole, a pequena Kaylee apoiava a cabeça em seu joelho, os olhos castanhos fixos nas chamas. No meu colo, ajeitei Hilary, que já bocejava aninhada contra o meu peito. Bem ao lado dela, minha outra menina observava o fogo com uma intensidade que não pertencia a uma criança de sua idade aparente, a luz dourada da fogueira dançava nos olhos delas, pintando o reflexo da celebração em suas pupilas.

— ...E neste novo ciclo para o novo ano, que se iniciará à meia-noite, — a mulher continuou, suavizou o tom de voz, fazendo com que todos ao redor do círculo se inclinassem inconscientemente para a frente — o espírito assumirá a forma do Lobo Branco. O protetor das mães e das crianças. Aquele que vigia em silêncio quando a escuridão parece densa demais.

Eu engoli seco, meu coração bateu forte, muito forte. Automaticamente, virei o rosto para Cole, que já me observava. Seu olhar… Era intenso, cheio de algo que eu ainda não ousava compreender e que me prometia muito mais do que ele podia dizer em voz alta. O vento soprou mais forte vindo do oceano, fazendo o topo da fogueira vergar e estalar como um chicote. Instintivamente, apertei minhas filhas contra mim, e o abraço de Cole ao meu redor se tornou ainda mais firme, pesado e protetor. Olhando para as brasas vermelhas e pulsantes, uma sensação estranha e arrepiante me envolveu. Eu não conhecia quase nada das lendas desse lugar, mas olhando para o fogo e sentindo o calor quase selvagem de Cole ao meu lado, me senti profundamente segura. Como se o tal guardião estivesse bem ali, nos vigiando no escuro.

Eu decidi não pensar. Pela primeira vez em meses, desliguei as engrenagens da minha mente que tentavam decifrar cada mistério, cada anomalia, e apenas me deixei levar.

O ambiente era propício para o transe. O calor duplo, o da fogueira gigante crepitando à nossa frente e o do corpo de Cole me envolvendo por trás, funcionava como um sedativo suave. O cheiro de madeira queimada e terra salgada molhada parecia limpar o ar de qualquer preocupação. Olhando para a contadora de histórias, que agora caminhava quase como uma sombra fluida entre as chamas e nós, senti meu corpo afundar contra o peito de Cole.

Hilary soltou um suspiro pesado no meu colo, o polegar apoiado na bochecha, vencida pelo sono e pelo estalar rítmico da madeira. Ao lado dela, minha menina híbrida ficou de pé sobre o banco e encostou a cabecinha no meu ombro, os olhos ainda abertos, mas semicerrados, fixos nas brasas que pulsavam como um coração gigante no centro da clareira. Até a Kaylee parecia hipnotizada, com os dedos brincando distraidamente com a barra do próprio casaco.

— ...Ele caminha entre as árvores, — a voz da contadora flutuou, caindo sobre o círculo como uma prece — seus olhos veem o que a noite esconde. O Lobo Branco não pede passagem aos seus protegidos, ele apenas se aproxima com gentileza e guarda o perímetro do seu coração.

Um calafrio bom subiu pela minha espinha, daqueles que arrepiam a nuca sem ocasionar a sensação de medo. Eu não sabia quase nada sobre os Quileutes, nem sobre suas lendas ou sobre o que quer que fizesse o sangue de Cole parecer fogo líquido nas minhas veias. Mas ali, sob o céu gélido de La Push, cercada por estranhos que pareciam uma família, a história do espírito guardião não me pareceu uma fábula. Pareceu uma promessa.

Fechei os olhos por alguns segundos, respirando o ar quente e defumado. Senti os lábios de Cole tocarem o topo da minha cabeça em um beijo terno, demorado, ele exalou um suspiro longo, e o apertou seus braços ao meu redor e ao redor das meninas. Eu senti um calor estranho mover dentro de mim, um reconhecimento silencioso de estava sendo protegida, e a sensação era tão convicta, que posso jurar que me disse que, onde quer que estivéssemos indo naquele novo ciclo, nós estaríamos protegidos; e que eu estava exatamente onde deveria estar.

A voz da mulher continuou soando ao redor da pira, sua sombra tremeluzente sobre a areia escura da praia enquanto a história se estendia mais e mais; no fim, quando Hilary que já havia despertado outra vez, bateu palminhas, encantada o silêncio que se seguiu à última frase da contadora de histórias foi denso, quase sagrado. Por alguns instantes, ninguém se moveu. O único som era o sopro pesado do vento nas copas dos pinheiros distantes e o estalar final de um tronco que desabou no centro da fogueira, abrindo uma cratera de luz vermelha e viva no meio das cinzas que começavam a se formar. Uma chuva de fagulhas douradas subiu em espiral, misturando-se com a primeira neve finíssima que começava a cair do céu de La Push.

Uma das pequenas pétalas de gelo pousou na bochecha quente de Hilary, e ela se encolheu de leve, afundando ainda mais o rosto no meu casaco. Minha outra menina esticou a mãozinha, capturando um floco de neve antes que ele derretesse no calor que emanava de nós.

— Feliz Natal. — a contadora murmurou com um sorriso benevolente, quebrando o feitiço.

Imediatamente, o círculo ganhou vida. O tom de voz baixo e reverente deu lugar a risadas suaves, conversas sussurradas e o som de pessoas se levantando dos troncos. O transe havia acabado, mas a sensação de paz permaneceu firme no meu peito.

— Você está congelando? — a voz de Cole soou baixa e rouca perto do meu ouvido. Ele se inclinou, e seu hálito quente contra o meu pescoço me fez sorrir.

— Com você por perto? Impossível. — respondi, virando o rosto para olhar para ele.

Cole sorriu, aquele sorriso de canto que sempre acelerava meu coração, mas havia uma intensidade diferente em seus olhos castanhos agora. Uma espécie de orgulho reluzente, misturado com uma vulnerabilidade que eu raramente via. Ele olhou para baixo, para as minhas filhas e para Kaylee, que já começava a esfregar os olhinhos, aparentemente sendo vencida pelo sono.

— A história foi bonita? — ele perguntou, ajeitando uma mecha de cabelo que o vento tinha jogado no meu rosto. Seus dedos estavam tão quentes que pareciam carregar um pedaço daquela fogueira com eles.

— Foi perfeita. — confessei, deixando minha cabeça descansar próxima de seu ombro por mais um segundo antes de nos movermos — Quase me fez acreditar que tem mesmo um lobo gigante correndo por esses bosques agora mesmo, cuidando da gente.

O corpo de Cole enrigidilhou por uma fração de segundo sob o meu peso, um reflexo tão rápido que, se eu não estivesse completamente colada a ele, jamais teria notado. Quando olhei para cima, ele estava engolindo em seco, os olhos fixos na floresta escura que cercava o final da praia antes de voltar a focar em mim.

— Quem sabe? — ele disse, com a voz subitamente mais suave, quase um sussurro — Essa reserva é cheia de segredos, Lee. Mas o que a anciã disse é verdade. Você e as meninas estão seguras aqui. Eu garanto.

Ele se levantou com uma agilidade impressionante, pegando Kaylee no colo com um braço só como se ela não pesasse nada, enquanto usava a outra mão para me ajudar a levantar com Hilary e Helena. Enquanto caminhávamos de volta em direção às luzes distantes, deixando a grande fogueira para trás, olhei uma última vez sobre o ombro.

As brasas ainda queimavam com uma intensidade vermelha e pulsante, como um farol na escuridão. E nas sombras além do alcance da luz, por um breve segundo, jurei ter visto a silhueta de algo grande e imponente se mover entre as árvores, vigiando nossa caminhada sob a neve de Natal. Voltei meus olhos para frente, meu corpo sendo mais conduzido pela mão quente de Cole nas minhas costas do que pelos meus próprios passos, e não deixei de notar seus olhos esverdeados atentos sobre mim.

Eu estava sendo vista de perto. Por ele. E talvez… por algo maior.

— Onde nós iremos agora?

— Pensei que já pudesse escutar. — um leve sorriso sombreava o canto dos lábios — Nós estamos indo para o pátio nos fundos do galpão.

Permiti que sua mão nos guiasse pela lateral da enorme estrutura no fluxo que também seguia para lá, e conforme nos aproximávamos eu pude identificar o som de tambores surgindo devagar num ritmo profundo, ancestral, que chegou a me causar um leve arrepio pela percussão. Cole nos direcionou a um novo agrupamento, havia mais rostos novos por ali, as pessoas já se reuniram ao redor dos músicos que batiam nos pequenos e grandes tambores, seus corpos gingando em leves movimentos instintivos, ninguém parecia preocupado com nada além de aproveitar cada momento.

Cole se aproximou ainda mais de mim conforme adentramos ainda mais entre o povo, praticamente estávamos andando abraçados; Kaylee ainda em seu braço esquerdo, sua mão direita na minha cintura; Hilary no meu braço esquerdo e Helena segurando a minha mão direita, indo a frente do meu corpo. Logo algumas pessoas corajosas foram se aproximando dos músicos e se reunindo num círculo, seus passos marcados, numa coreografia até que fácil, para quem observa de fora, como eu.

Com a agitação, Kaylee voltou a se animar e pediu para voltar ao chão, desperta e totalmente animada com seus próprios passos ritmados da dança; Helena, mesmo que absorvesse tudo silenciosamente, se movia levemente no embalo e não se acanhou quando a pequena Kay tomou suas mãos para que dançassem juntas.

Pouco tempo depois, entre os desconhecidos, eu vi Rebecca se aproximando em passos de dança com o marido para perto de nós, ela trocou algumas palavras amistosas conosco e, um pouco acanhada ofereceu seu colo para Hilary, que para a nossa surpresa mesmo estando sonolenta aceitou a oferta. Deixei meus braços penderem nas minhas laterais para um descanso, mas não bastou muito tempo para que eu percebesse que minhas mãos procuraram pelo toque de Cole. E fiquei muito melhor por dentro quando me senti conduzida, mesmo que minimamente, por ele outra vez. Entre mais e mais corpos se reunindo ao redor para a dança, meus olhos puderam identificar Franchesca ali e até mesmo sua outra sobrinha, Allie.

— Vem. — disse, enquanto ele já me conduzia mais para o meio — Você vai gostar.

— Ah... Eu não sei dançar isso. Vou errar tudo. — respirei pela boca, nervosa.

— Não precisa saber. — ele disse, baixinho — Só precisa sentir e me acompanhar.

Eu ri, mais pelo nervosismo, mas ele já estava me guiando cada vez mais para dentro do círculo. Cole ficou logo atrás de mim, me instruindo a acompanhar seus movimentos, a música quente e ritmada se espalhava pela gente, vibrando contra as paredes externas do galpão, como se carregasse memórias de décadas dentro de cada batida e mesmo sem me tocar diretamente, era como se seus braços, seu peito e respiração, desenhassem um campo de calor ao redor do meu corpo. Observei atenta os seus passos e dei uma espiada pelo canto do olho como eram os passos de uma adolescente que passava próxima de mim e tentei o primeiro passo e depois mais outro, que me enrosquei no meio do caminho e pus tudo a perder.

— Calma, — ele murmurou perto da minha orelha — sinta o chão, Lee. Pise junto com o ritmo da Terra. Deixe-a te guiar.

Eu obedeci, me arrisquei nos passos mais uma vez. Sem muito sucesso aparente, mas não desisti, Cole mudou nossa posição mais uma vez e foi quando vi sua mãe sair de um rodopio numa dança com alguém que eu desconhecia. Nossos olhares se encontraram e Franchesca sorriu para mim, da mesma maneira de quando nos vimos quando eu estava em trabalho de parto, seus passos de dança a direcionando para mais perto.

— Relaxa, querida! — ela disse, com aquela voz tão típica de mãe que sabe das coisas — Nosso corpo aprende mais rápido do que você imagina.

Eu respirei fundo, arriscando mais um passo. Cole parou à minha frente, braços cruzados, aquele sorriso de canto que sempre me desmontava antes mesmo de me tocar.

— Eu não sei dançar, Cole. — murmurei, quase tímida — Já te avisei.

— E eu já te avisei que não estou preocupado com isso. — ele respondeu, aproximando-se, até o calor do corpo dele tocar meu queixo como uma brisa quente — Estou preocupado apenas em você não olhar para os seus pés.

Revirei os olhos, Franchesca riu. A melodia da música mudou e agora havia a participação de um conjunto de vozes masculinas marcadas pelos tambores profundos, algo que parecia ao mesmo tempo festivo e ancestral. Os quileute tinham um jeito tão próprio de marcar o ritmo que eu não sabia se deveria acompanhar com o corpo, com a respiração ou com a alma.

— Vem cá, eu vou te guiar. — Franchesca disse, dando um toque no meu ombro, seu corpo em nenhum momento saiu do ritmo — E o Cole vai te acompanhar. Confie em nós dois.

Ela ajeitou minhas mãos com delicadeza, depois colocou uma mão minha no ombro de Cole, e a outra entre as próprias mãos dela.

— Aqui está sua base. — ela moveu nossas mãos juntas, criando o primeiro movimento — Primeiro passo: sentir o chão. Eu sei que parece algo impossível, mas apenas acredite, não pense. Só sinta como se estivesse andando descalça na areia.

— Eu nunca fiz isso. — sussurrei.

— Melhor ainda. — ela respondeu, com um brilho peralta nos olhos — Vai aprender duas coisas ao mesmo tempo.

Cole segurou minha cintura com ambas as mãos, firme, mas gentil, como se me mantivesse no mundo, a pressão dos dedos dele era um convite: vem comigo.

— Vamos devagar. — ele disse, a voz baixa, quase encostando no meu ouvido. Ergui meu rosto, encarando-o com expectativa — Esquerda, Lee.

Eu tentei. Errei, bati a ponta do pé no dele.

— Desculpa! — ri de nervoso, me encolhendo.

— De novo. — ele disse, rindo baixinho me dando um olhar tão bonito — Não doeu. Eu prometo que já tive piores. Collin pisa mil vezes pior que você quando tenta dançar demais.

— Ei! Eu ouvi isso! — gritou Collin de trás de mim, passando ao nosso lado com um pacote de biscoitos na mão.

— É pra ouvir mesmo! — Cole retrucou dando risada.

Franchesca bateu palmas.

— Concentrem-se aqui, meninos. A Amberli está indo muito bem.

Eu não estava. Mas também não queria contrariar a esperança daquela mulher. Ela posicionou meu quadril com um toque quase profissional, e então guiou meus pés com os dela.

— Assim… isso… o segredo é deixar o ritmo entrar pela coluna, não pelos pés. Dançar não é só caminhar: é respirar pelo corpo.

Aos poucos, quase sem perceber, eu comecei a me mover no compasso do que ela dizia. Meu corpo ainda era rígido, mas começou a aquecer, a soltar, como se cada batida do tambor fosse uma mão invisível me puxando para frente.

Pisando devagar, sentindo o ritmo no chão, no ar, nele. Eu não sabia dançar, mas naquele momento parecia saber.

— Está melhor. — Cole murmurou.

— Agora vocês dois, — Franchesca disse, soltando minha mão e entregando-a por completo a ele — mas não se apressa. Amberli, se caso desconectar um instante, pare. Respire. E volte a repetir os passos.

Cole entrelaçou seus dedos nos meus, a mão quente, grande, envolvendo a minha como se a moldasse. A outra mão permaneceu na minha cintura, deslizando ligeiramente até achar o ponto exato que me estabilizava.

Meu coração trovejou dentro do peito.

— Eu vou te mostrar algo, tá? — ele murmurou — Não tente copiar como se estivesse recalculando nos próprios passos. Sinta, Lee.

Ele se moveu primeiro, com movimentos sutis do quadril, do tronco, dos ombros. Era fluido, bem conectado com a percussão e muito atrativo. Era Cole em essência. Ele se aproximava e recuava, me conduzindo como se eu fosse parte de uma conversa silenciosa entre nós dois através das batidas.

Eu tropecei uma vez, quando me distraí com o movimento sensual do seu corpo ao redor do meu. Ele me segurou.

Tropecei nos passos de novo. Outra vez, ele me segurou.

— Eu sou um desastre. — resmunguei, apoiando a testa no peito dele.

— Você é linda. — ele corrigiu, quase que imediatamente — E está dançando comigo. Isso já é suficiente.

Meu rosto queimou e recomeçamos os passos, mesmo que a música tivesse mudado. O ritmo ainda continuava quase o mesmo, então pelo jeito os passos continuavam a mesma coisa. Posicionei minhas mãos de volta nas suas e tomei a frente no primeiro passo, Franchesca suspirou atrás de nós e, quando dei o primeiro giro pude vê-la com aquele olhar de “eu já sabia”.

A música ganhou força, parecia ser o refrão, e então Franchesca se aproximou mais de nós, nem eu e nem Cole teve a pretensão de parar, então ela disse:

— Amberli… você está pronta.

— Pronta? — perguntei, alarmada, mas não interrompi o giro cruzado que Cole me deu.

Ela sorriu e foi o sorriso mais cheio de orgulho que já vi alguém dar para mim que não fosse minha própria mãe.

— Sim! Agora deixe que ele te conduza por conta própria!

Ela deu um passo para trás, depois mais outro e foi saindo, devagar, até desaparecer pelas pessoas agitadas em seus próprios passos e giros, mas virou antes de ir e piscou para o filho. Cole nem percebeu, porque os olhos dele estavam presos em mim. Ou talvez tivesse percebido, e apenas não deixou transparecer.

A respiração dele roçou minha bochecha quando ele disse:

— Só nós dois agora.

Meu corpo reagiu antes que eu entendesse, quase parecia que não precisava da execução do meu cognitivo. Passei a me mover mais confiante, respondendo aos toques das mãos dele. Ele me puxava, eu acompanhava. Ele girava o tronco, eu seguia. O ritmo deixava de ser externo e virava algo entre nós, como se o espaço inteiro tivesse encolhido até caber dentro do espaço entre nossos corpos. A cada giro do meu rosto, meu cabelo curto conseguia roçar a mandíbula dele. A cada passo certo, eu sentia o sorriso se abrindo em seus lábios. A cada erro, ele me firmava, me segurava, me puxava de volta como se eu fosse parte essencial de um movimento que só existia quando nós estávamos juntos.

Quando a dança terminou, eu estava sem fôlego. Quando seu queixo bateu de leve na minha testa, eu encolhi minhas mãos no peitoral dele, não era mais um movimento acidental. Era um movimento de acolhimento, de descanso… rendição.

Ergui meu rosto para vê-lo, os olhos esverdeados pareciam brilhar mesmo na iluminação das luzes e pude admirar o momento em que Cole sorriu, e era um sorriso que dizia sem pudor nenhum o quanto estava orgulhoso por estarmos juntos ali.

— Uau, você conseguiu. — ele murmurou, sem soltar minha cintura — Conseguiu mesmo, Lee.

Eu ri sem fôlego.

— Eu consegui porque você não me soltou em nenhum momento.

— Não é verdade. — ele se inclinou e encostou o nariz no meu — Eu só segurei você. Seus passos foram seus. Você foi perfeita. — ele disse, sem ironia.

Eu poderia ter respondido, ter brincado, até mesmo ter recuado para provocá-lo. Mas eu só consegui olhar para ele, para seu olhar verde, lindo, que brilhava como se tivesse ficado orgulhoso de mim por muito mais do que a dança. E sem que eu percebesse, sem que eu tivesse realmente planejado, minhas mãos subiram ao ombro dele, indo para a nuca.

Ele não disse nada, nem eu.

A música acabou, recomeçou, mas nós continuamos imóveis, como se as últimas batidas ainda estivessem vibrando entre nossos corpos. A respiração dele roçava na minha boca e, por um instante longo e cheio de significado, eu soube que se ele me beijasse agora, no meio de pessoas conhecidas e desconhecidas, eu não recuaria.

Nem por um segundo.

Renesmee realmente havia cedido a cabana alugada para mim. Ela já havia saído de cena carregando a mochila e minhas filhas à tiracolo para a habitação número oito dizendo saber muito bem como convencer a Hilary a continuar dormir.

Continuei fora e dentro do salão, ora dançando..., cheguei até mesmo a dançar com a Rebecca; ora beliscando as refeições e sobremesas que não acabavam nunca; ora bebendo, com moderação; ora sendo apresentada para homens e mulheres que passavam por mim; ora roubando beijos e sendo beijada.

Num determinado momento, quando claramente já dava início a madrugada, percebi que a energia das pessoas que ainda permaneciam ativas foi se acalmando. Era notável que a multidão havia diminuído consideravelmente, principalmente por aqueles com crianças e pré-adolescentes, e o frio os convenciam ainda mais a se refugiarem para dentro do salão.

Eu estava sentada entre Taylor e sua irmã Mabel, Cole estava a algumas mesas de distância. Foi questão de tempo para que os benditos gêmeos viessem ao meu encontro, cada um abraçados por moças sem qualquer vínculo afetivo notável, elas riam divertidas, levemente embriagadas e a cada dois minutos ela comentavam sobre não se esquecerem dos seus presentes.

Quando as palavras das jovens atiçaram a minha curiosidade, tive que perguntar para a Mabel sobre o que elas estavam falando.

— Ah..., as pessoas que ficam, — indicou o salão em si — são as que fazem a celebração dos presentes. — a jovem se inclinou para mim — Temos um nome específico, mas você não vai entender. — deu-me um sorriso fechado — Mas é uma troca de presentes... É o que também representa o Natal, né?

Quando a troca de presentes começou, percebi algo que me tocou profundamente: ninguém fazia alarde, nem mesmo aqueles que exageraram na bebida. Não havia exageros, nem embrulhos extravagantes, nem pilhas enormes como nos filmes. As pessoas entregavam seus presentes diretamente às mãos umas das outras, com poucas palavras. Cada objeto tinha história. Cada gesto tinha significado.

E eu não tinha levado nada.

Eu preparei mentalmente uma desculpa, mas antes que pudesse me encolher ou me afastar, Cole se levantou e veio até mim.

— Posso te entregar uma coisa? — ele perguntou.

Meu estômago deu um nó.

— Cole… eu não trouxe nada…

— Eu sei. — ele disse, com um sorriso tão suave que quase desmontou minhas defesas — Não quero nada em troca.

Quando abriu a mão, vi uma pulseira trançada com fibras naturais, tons escuros e claros entrelaçados com perfeição, numa habilidade que eu não saberia reproduzir nem em mil anos. No centro havia uma pedra lisa, cinza, polida até ficar brilhante. Cinzenta como o céu de Forks.

— Eu que fiz. — ele disse, sem desviar o olhar.

Eu perdi o ar.

— Para mim? — perguntei idiotamente.

— Para você. — Ele falou devagar, como se quisesse que eu entendesse cada sílaba.

— Eu… — minha voz falhou, soltei um riso nervoso — Eu não sei o que dizer.

— Não precisa dizer nada. — ele sorriu. Um sorriso torto, suave, gentil. Cole deu um passo mais perto — Posso colocar?

Estendi o braço, o coração martelando, um calor subiu pelas minhas mãos, peito, garganta. Um aperto inesperado tomou minha respiração. Os dedos de Cole tocaram meu pulso com uma delicadeza quase reverente. O toque dele era, como sempre, muito quente, firme e suave ao mesmo tempo, ele amarrou bem devagar, como se estivesse prendendo mais do que uma pulseira, como se temesse me machucar se fizesse mais rápido.

Nossa respiração se alinhou.

Eu não conseguia olhar para mais nada além do movimento das mãos dele na minha pele. Quando terminou, ele manteve a mão sobre meu pulso por um segundo a mais, só um segundo, mas suficiente para acender algo em mim que eu não sabia traduzir. Só sei que é forte, muito forte. Maior do que eu.

— Ficou perfeita. — ele murmurou.

Eu não sabia se ele falava da pulseira… ou de mim ali, com ele.

Ergui meus olhos aos seus, o castanho que surgia dentro do verde me lembrava a terra molhada depois da chuva, o tom discreto, mas proeminente, como se me afirmasse:

Você está segura;

Eu estou aqui;

Eu vejo você;

Não vá embora.

Não havia nem amanhecido quando ouvi uma batidinha suave na porta do chalé. O silêncio do fim da madrugada era quebrado pelo som distante das ondas e pelo canto suave dos pássaros mais noturnos. Caminhei até a porta com o casaco malvestido pelo corpo e um frio percorrendo meus pés.

— Cole?… que horas são…?

— Quatro e trinta. — ele respondeu, sorrindo apenas com um canto da boca — Vem ver a Primeira Luz na praia comigo.

— Cole… está congelando aqui fora...

— E eu trouxe uma manta. — ele levantou uma manta grossa que eu nem tinha percebido que carregava debaixo do braço, como se fosse a resposta mais lógica do mundo.

Hilary acordou e ainda sonolenta, veio até a porta arrastando o cobertorzinho. Cole se abaixou imediatamente, pegando ela no colo, e a minha filha se enroscou nele, deitando a cabeça em seu ombro como se fosse o lugar mais confortável do mundo. E talvez fosse. Helena surgiu logo em seguida, suas mãos quentes tocando-me com carinho.

Deixei Cole com Hilary na porta e junto de Helena retrocedi alguns passos para dentro da cabana para colocar as outras peças de roupas trazidas por cima dos pijamas. Calcei Helena, e voltamos para a porta, Cole esperou pacientemente enquanto eu calçava devidamente os pés da Hilary e quando fechei a porta atrás de nós, Helena puxou minhas mãos num pedido silencioso de que queria colo.

Cole nos guiou até a praia. Só tinha nós quatro e alguns poucos membros da tribo caminhando por ali. A areia estava gelada, quase esbranquiçada sob a luz pré-dourada do horizonte, o ar, húmido. Cole espalhou a manta grande na areia e sentou, Hilary já dormia no colo dele, pedi para que Helena fosse para chão para que eu me sentasse bem colada a ele, nos sentamos sobre a manta e Helena se ajeitou novamente no meu colo, deitando a cabeça no meu ombro, logo estava tão adormecida quanto a irmã. Não tinha como eu sentir frio com o calor da minha filha me aquecendo e o corpo quente de Cole a minha esquerda. Ficamos em silêncio, observando pouco a pouco o breu se tornar cinzento e cada vez mais claro. Havia uma paz ali… tão profunda e doce como mel, que me deu uma vontade de nunca mais sair daqui, desse momento.

Quando o sol finalmente, por um milagre, apareceu, uma faixa dourada cortando o mar em duas cores: âmbar e cinza; Cole suspirou fundo.

— Isso… — ele disse, olhando para o horizonte — É o começo de tudo novo. Todo ano. Toda vida.

Eu senti lágrimas escorrerem por minhas bochechas sem pedir permissão, mas não senti nenhuma vontade de escondê-las, e elas seguiram livremente seu caminho. Cole virou o rosto para mim.

— Ei... — disse baixo — Está tudo bem.

— Sim, eu sei. — elevei meus olhos aos seus, rindo entre lágrimas — É só que eu nunca vivi nada assim. — respondi com a voz embargada, fungando.

Ele estava ali, tão incrivelmente perto, preenchendo todo o espaço ao meu lado esquerdo. Eu podia sentir o calor que emanava de seu corpo antes mesmo de qualquer toque, ele aproximou a mão direita na minha pele e limpou o caminho da lágrima com o polegar, um gesto tão delicado para uma mão tão grande, que quase me desmontou.

— Então viva agora, Lee. — ele murmurou — Viva comigo.

Meu coração parou. Senti meu mundo inteiro quase parar. Eu olhei para o nascer tímido do sol; para as pulseiras que ele me presenteou, uma em cada pulso; para ele.

Meditei sobre nós com uma clareza que me assustou, reconhecendo que algo em mim estava mudando, que eu estava, finalmente… sendo curada; sendo encontrada; sendo amada… mesmo não me esquecendo por nem um minuto do que ele já tivesse dito em voz alta. Aqui, no nascer do sol frio de La Push, ao lado de Cole, finalmente, estou sendo encontrada por algo que sempre desejei, mas que nunca tive a coragem de sonhar.

— Eu nunca me esqueci de você, Cole. — comecei, baixinho, procurando seu olhar — Desde a primeira vez que nos vimos. — tive sua completa atenção. Senti minhas mãos quererem tremer — E você tem razão, eu te reconheci, mesmo que ainda eu sinta que não entendo o que isso quer dizer completamente. — enchi meu pulmão com mais ar e coragem, o coração apertando dentro do peito de tão rápido que batia — Eu nunca me esqueci de tudo o que você me disse dentro do seu escritório, tento me lembrar de cada palavra todos os dias. — meus olhos arderam, mas não deixei de absorver a intensidade escrita no verde dos seus olhos, onde os rastros castanhos pareciam caminhos de terra batida depois da chuva, convidando-me a percorrer cada centímetro de uma veracidade que eu ainda não sabia nomear, mas que já sentia queimar. Engoli seco e continuei — E tem uma frase sua..., entre todas as outras que guardo com carinho, que hoje eu posso usá-las para mim com tanta convicção..., tão forte, que parece doer dentro do meu peito. — senti mais lágrimas escorrerem dos meus olhos, pingando nos cachos da minha filha.

— E qual é, Lee? — ele limpou discretamente minhas lágrimas com o polegar.

— E vou usá-la como se fosse minha. — funguei, deixando avisado. Seu dedo ainda secava minhas lágrimas — Mas posso prometer que nas próximas eu serei mais autêntica.

— Pode dizer, — ele consentiu, selando brevemente nossos lábios. Fechei meus olhos pela proximidade — depois posso ceder meus direitos de fala para você.

Um leve riso saiu soprado por entre meus lábios. Abri meus olhos novamente, atraída pelo seu olhar, por ele todo.

— Cole. — sussurrei seu nome, me inclinando um pouco mais contra ele, meu olhar firme nos seus, a troca intensa parecia arder entre nós. Meu peito tremeu de emoção contida — Cole, eu te amo completamente. — as palavras se arrebataram para fora de mim com alívio e redenção — Com tudo o que em você é homem e tudo que em você é uma fera. Mesmo que eu não saiba ainda onde está essa parte dentro de você. — pausei para tomar fôlego e engolir, meus olhos ardiam, mas lutei para não desviar o olhar — Eu sinto que te amo tanto, que nenhuma lógica pode explicar e talvez nem meu corpo consiga entender toda a descarga de sentimentos ou emoções que eu sinto a todo o momento..., pois desde a primeira vez que eu olhei para você, eu nunca fui capaz de te esquecer... Independente do que estava em primeiro, ou segundo plano, você nunca, nem por um dia sequer ficou em último lugar na minha vida. E duvido muito de que vá estar. — suspirei, me sentindo um pouco fora do ar, surpresa comigo mesma — Eu não quero ligar para as lógicas, que se danem todas elas. O que eu só quero, é amar você.

De repente, vi o movimento de sua mão direita erguer-se no pouco espaço que nos separava.

Não houve hesitação, os dedos dele contornaram a curva do meu maxilar, subindo com uma lentidão deliberada até se enterrarem nos fios de cabelo na minha nuca. O contraste do calor da palma de sua mão contra a minha pele me fez prender a respiração.

A pressão da mão dele na minha nuca causou um arrepio imediato que desceu pela minha espinha, desarmando qualquer resistência que eu pudesse ter. E eu me deixei levar pelo comando dos seus dedos, inclinando a cabeça na direção exata que ele queria. Meus lábios se abriram em um suspiro mudo, encontrando os dele quase que imediatamente, não em um beijo, mas em uma proximidade tão absurda que meus olhos se fecharam no instante em que senti o primeiro roçar de sua boca contra a minha. O calor das palavras dele me envolveu, mas a distância milimétrica já era um tormento, a textura dos seus lábios quentes roçava nos meus a cada palavra que ele ditava repetidamente, baixinho, como se o universo inteiro se resumisse àquele sussurro contra a minha pele.

Guiada por um impulso puro, cedi à gravidade daquela atração e me inclinei um pouco mais para a esquerda, transferindo o peso do meu corpo na direção do dele.

Dei um jeito da minha mão esquerda encontrar o caminho para subir pelo peito dele, sentindo o ritmo acelerado do seu coração sob o tecido da camisa, subindo para o contorno do seu ombro, segurando-o com firmeza.

— Eu te amo, Lee. Eu te amo, Amberli Scott. — falava com o hálito quente contra meus lábios sensíveis.

Eu não queria apenas ouvir o que ele tinha a dizer; eu queria absorver cada vibração. Quando ele falava contra os meus lábios, eu respondia com um suspiro profundo, entreabrindo a boca para colher o som e a textura do seu hálito, fundindo o meu respirar ao dele.

Suas palavras vibraram diretamente contra a minha boca, um segredo compartilhado no espaço de um suspiro. A proximidade era tanta que o calor do seu hálito quase queimava, e cada sílaba que ele pronunciava roçava suavemente nos meus lábios, deixando um rastro de eletricidade. Eu esperei que ele terminasse, embora o som já tivesse se transformado em pura sensação. Meus dedos apertaram o tecido em seu ombro, ancorando-me nele. Eu não recuei um milímetro sequer; em vez disso, mantive meu rosto inclinado, a nuca ainda firme no calor de sua palma direita.

Venci a micro distância agonizante que nos separava e colei minha boca à dele com delicadeza, o suficiente para que minhas próprias palavras tocassem os seus lábios da mesma maneira.

— Eu sei. — sussurrei, sentindo o formato da sua boca moldar-se à minha a cada letra, o som saindo frágil, mas carregado de uma certeza absoluta — Eu nunca me esqueci.

Não havia mais espaço para o ar entre nós, apenas o compasso acelerado das nossas respirações misturadas. Antes que ele pudesse processar a resposta, curvei meus lábios em um sorriso sutil contra os dele e cedi ao que meu corpo implorava, anulando qualquer fala e transformando aquele sussurro no início do nosso beijo.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.