Sempre ao seu Lado
60 𝟏𝟐 𝐝𝐞 𝐃𝐞𝐳𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 ➹

Sempre ao Seu Lado
Capítulo 56
Meu sábado estava com um ar diferente.
As meninas acordaram eufóricas, despertaram antes de mim e pela primeira vez fui acordada por ambas simultaneamente, a alegria irradiava de seus risos e toques macios das mãos contra meu corpo.
Alice foi a responsável pela bagunça na cama da mamãe. Ela e Esme apenas nos assistiam espremidas pela fresta da porta enquanto eu era alegrada pela presença da Hilary e Helena, elas já haviam sido alimentadas, estavam de banho tomado, os cabelos lavados e presos em simples amarrações com lacinhos e tinham energia de sobra para me fazer ficar em pé na cama e pular com elas em cima do colchão como se nós três tivéssemos cinco anos de idade.
Eu não falei nada, mas amei meus novos despertadores.
E não paramos por aí.
Elas me acompanharam no banheiro, da maneira delas me incentivaram a fazer um penteado simples no meu cabelo; eu não prometi muita coisa, mas fui capaz de pegar duas mechas mais longas da frente, torcê-las como se fosse formar uma mecha cacheada e prendê-las atrás. Ficou até que bonito e minhas filhas aprovaram com palminhas agitadas. Em seguida eu nos levei ao closet, separei não uma, nem duas, mas três peças de look completo. Vesti as três e só quando me cobri com um robe deixei que elas escolhessem o que eu vestiria. Hilary não entendia muito bem o que exatamente ela tinha que escolher, por vezes ela me estendia peças aleatórias ou até mesmo tentava retirar alguma coisa de dentro das gavetas, até mesmo Helena teve que conter a euforia inocente da irmã.
Elas eram minhas melhores juradas.
Meus primeiros minutos de silêncios e exercícios foram tão facilmente descartados, que só me lembrei quando eu já tinha terminado de almoçar e agora, estávamos na sala, onde eu tramava mais uma brincadeira com elas. Já tínhamos construído uma fortaleza de brinquedos e para que qualquer outra pessoa tivesse a “honra” de ter acesso a nós, precisaria passar por debaixo do forte de lençóis e cobertores que havia ali.
Escolhi um dos cantos da sala, perto das janelas altas que deixavam a luz cinzenta de Forks entrar difusa, suave, quase leitosa. O piso de madeira foi parcialmente coberto por uma longa faixa de papel kraft em bobina, desenrolei com cuidado até formar um caminho largo e contínuo no chão. O papel tinha aquele tom pardo quente, simples, quase humilde demais para um ambiente tão sofisticado, Esme o havia me oferecido como uma opção de tarefas lúdicas com a Hilary, já que havia partido dela a iniciativa de inserir o mundo das tintas para a minha pequena, mas escolhi esse momento para que elas fizessem isso juntas. Helena estava sentada à minha esquerda, as perninhas dobradas com uma naturalidade que ainda me surpreendia. Hilary, à direita, ainda precisava do meu apoio, as mãozinhas inquietas sempre prontas para explorar o mundo com força demais.
Espalhei entre nós os potes de tinta guache infantil, alguns pincéis de cabo grosso, próprios para mãos pequenas, panos para limpar as mãos e giz de cera largos, já um pouco gastos pelas inevitáveis mordidas curiosas da Hilary. Também deixei aberto, mais à frente, um pequeno livrinho de catálogo de desenhos simples: flores, casas, sóis com rostinhos sorridentes, animais formados por círculos e linhas grossas. Era mais uma sugestão do que uma regra a ser seguida.
— Olha, meninas… — murmurei, minha voz naturalmente baixa naquele espaço amplo — Nós podemos desenhar o que quiser. Não precisa ser igual ao do livrinho, tá bom?
Peguei um pincel, testei a maciez das cerdas contra meus dedos antes, e mergulhei no pote amarelo, tracei lentamente um círculo no papel, exagerando o movimento para que elas acompanhassem. Transformei o círculo em um sol desajeitado, com raios tortos saindo de todos os lados. Não era o meu melhor sol, mas elas nunca haviam desenhado um mesmo...
Hilary soltou um som animado, algo entre uma palavra não terminada e uma gargalhada gostosa, e imediatamente afundou os dedos na tinta azul. Não houve hesitação nenhuma da parte dela, apenas movimento cheio de entusiasmo. Ela bateu a mão aberta no papel e depois arrastou, deixando um rastro irregular, molhado, manchando o kraft com riscos grossos e imprevisíveis.
Sorri. Aquilo era exatamente o que se esperava de uma criança de um ano e quase onze meses: o prazer puro da textura, da cor, da descoberta.
— Isso, filha… — sussurrei, guiando levemente seu pulso para que ela não escorregasse sobre a tinta — Pode riscar. Pode pintar o papel.
Helena observava em silêncio, ela sempre observava primeiro. Escolheu sozinha um giz de cera verde. Segurou com uma firmeza precisa e, sem olhar para o caderninho de desenhos prontos, que eu já sabia que ela não precisava, abaixou-se sobre o papel. Seus movimentos eram lentos, calculados de uma forma que não combinava com a aparência física de alguém que mal aparentava estar próxima de ter dois anos. Ela começou com uma linha curva. Depois outra. As linhas se encontraram com precisão quase absurda. Em seguida, pequenos traços surgiram ao redor da forma principal, distribuídos de maneira… harmônica.
— O que você está desenhando, minha estrelinha? — perguntei, tentando manter o tom casual, como se aquilo não estivesse desconcertando minha mente humana profundamente.
Sem levantar totalmente a cabeça, ela respondeu com aquela voz ainda suave, mas já estável o suficiente:
— Árvore. — a palavra saiu clara, simples.
Inclinei-me um pouco mais, observando melhor. O tronco tinha proporção. A copa era ampla, cheia, e havia algo que lembrava raízes se espalhando para baixo, respeitando o espaço no papel como se ela intuitivamente entendesse limites e estrutura. Nenhuma criança humana daquela idade faria aquilo. Apenas Helena e uma pequena Renesmee que já surgiu.
— Está linda. — falei com sinceridade — Você vai colocar folhas?
Ela assentiu e trocou o giz verde por um tom mais claro, acrescentando pequenos detalhes com uma delicadeza quase cuidadosa demais para mãos tão pequenas. Enquanto isso, Hilary havia decidido que o pincel era menos interessante do que espalhar tinta com as duas mãos ao mesmo tempo. Agora havia marcas vermelhas, azuis e amarelas misturadas, sem ordem. Aproximei-me dela, beijando-lhe o topo da cabeça, sentindo aquele cheiro de bebê, de leite, a essência que ainda não conhece o peso do mundo.
— Você está fazendo arte abstrata, sabia? — murmurei, mais para mim mesma do que para ela.
Helena olhou para a irmã por um instante. Depois, com uma naturalidade desconcertante, estendeu o giz até Hilary.
— Aqui, Hili.
Hilary tentou levar o giz direto à boca. Intervim a tempo, rindo baixinho.
— No papel, amor. Aqui… — ajudei, segurando sua mão e fazendo um risco torto.
O risco atravessou parte da árvore de Helena. Prendi a respiração, esperando algum sinal de incômodo, mas Helena apenas observou. Então pegou outro giz e, com dois traços rápidos, transformou o rabisco da irmã em algo que parecia… um pássaro pousado. Ela ergueu seus olhos azuis cristalinos para nós, e meu peito apertou numa emoção funda, silenciosa, quase dolorosa de tão bonita. Aqui, sentada no chão frio da mansão Cullen, com tinta nas mãos, papel kraft espalhado e duas meninas tão diferentes e ainda assim minhas, eu senti algo que já não era mais tão raro dentro de mim, o passado não pesava. O futuro não assustava. Havia apenas cor, papel e a certeza de que, de algum modo inexplicável, nós três estávamos exatamente onde deveríamos estar e o papel kraft em bobina já não era mais apenas uma faixa organizada no chão.
Ele tinha virado um território.
Eu mal conseguia acompanhar quando aquilo aconteceu, num segundo eu ainda alisava o papel com a mão, no outro Helena já estava ajoelhada sobre ele, e Hilary batia palminhas, excitada demais com a quantidade de cores abertas ao seu alcance, sem limitação.
— Mamãe, eu preciso do azul. Do azul escuro, por favor. — Helena disse, sem olhar para mim, já apontando com o giz verde para o pote específico.
— Azul escuro… espera… — estendi o braço por cima da Hilary ao mesmo tempo em que ela tentava mergulhar o pincel inteiro dentro do vermelho.
— Não, amor, assim não. — segurei o potinho antes que virasse, mas não antes de uma gota grossa cair direto no papel. Ainda bem que todos os acidentes estavam dentro do papel e não no piso polido.
Hilary deu uma gargalhada satisfeita.
— Cô! Cor! — ela balbuciou, batendo a mão suja de tinta no papel e depois… na própria perna.
— Cor, isso, cor. — confirmei, já rindo, enquanto puxava um pano para limpar o excesso, falhando miseravelmente quando ela se inclinou para frente e deixou uma marca azulada na minha manga.
Helena nem pareceu notar, ela desenhava rápido agora, decidida. Linhas surgiam, se cruzavam, se completavam, enquanto ela narrava o próprio pensamento em voz alta:
— Aqui é o chão. Aqui é a casa. Essa é você.
— Eu? — perguntei, tentando acompanhar com os olhos e com as mãos, porque ao mesmo tempo Hilary havia descoberto que o giz amarelo rolava se empurrasse com força suficiente.
— Olha, mamãe! — Hilary gritou, apontando para o giz que agora estava perigosamente perto da boca.
— Não, não, isso não se come! — falei rápido, pegando o giz no ar, enquanto Helena continuava:
— Sim, essa é Amberli Gall. E essa é a Helena Adhara. E essa é a Hilary Anna.
Ela fez dois círculos perfeitos ao lado do traço das três bonecas perfeitas que havia desenhado. Um maior e um menor. Sem hesitar. Hilary engatinhou rápido até nós e bateu as mãos novamente no papel, agora espalhando o azul por cima do círculo menor.
— Hili! — Helena protestou, não estava irritada, mas surpresa — Você está pintando em mim.
— Pintá! — Hilary respondeu num grunhido brincalhão, orgulhosa, como se tivesse entendido tudo perfeitamente.
— Tudo bem, filha. — intervi rápido, antes que Helena ficasse frustrada demais — Às vezes o olhar da arte muda.
Helena parou por meio segundo, olhou para o desenho, depois para a irmã e depois sorriu.
— Então tá; agora é um vestido. — pegou o rosa. Transformou a mancha azul em parte da roupa com três traços rápidos.
Eu não tive tempo de reagir, porque Hilary havia decidido que o pote de água dos pincéis era, claramente, um brinquedo mais interessante. O virou com força.
Água espalhada. Pincéis rolando. Tinta escorrendo.
— Ah, não!... — comecei, mas parei no meio da frase, rindo apesar de tudo. Ainda bem que só havia um dedo de água ali dentro. O estrago poderia ser maior.
— Água! — Helena anunciou, observando o estrago como se fosse um fenômeno climático inevitável.
— Áua! Áua! — Hilary repetiu, batendo as mãos molhadas no papel, criando marcas mais claras que se misturavam às cores.
Agora havia marcas por todo lado. Vermelho, azul, amarelo, verde. Pegadas de mão. Riscos sobrepostos. O papel kraft já não era pardo, era um mosaico vivo. Resgatei um pano já manchado para absorver a água de cima do papel e não parei por aí: eu me movia entre elas o tempo inteiro. Uma mão limpando, a outra oferecendo cores, a voz indo e vindo:
— Hilary, aqui… isso… segura assim…
— Helena, espera, não pisa na tinta!…
— Não, amor, o pincel não vai no cabelo!... — tarde demais.
Helena riu. Hilary gargalhou mais alto ainda.
— Mamãe, a Hilary é muito rápida para fazer bagunça! — Helena comentou, séria demais para alguém tão pequena.
— Eu sei. — respondi, puxando Hilary para perto antes que ela engatinhasse direto sobre a área ainda molhada — E você pensa rápido demais.
— Eu penso normal. — ela respondeu, convicta.
Hilary se inclinou contra mim, sujando minha calça inteira de azul e amarelo, e depois apontou para o desenho da Helena.
— Eu! Eu!
— Sim, você. — confirmei, beijando sua bochecha manchada de tinta — Está toda aí.
Tudo acontecia ao mesmo tempo. Helena falando, desenhando, explicando. Hilary rindo, balbuciando, espalhando. Cores se misturando. Minhas mãos indo de uma filha à outra sem pausa. O tempo não desacelerava. Ele corria. E no meio daquele caos colorido, barulhento, vivo demais para se comportar em qualquer ordem, eu só conseguia pensar numa coisa enquanto as observava, “É assim que a felicidade se parece quando não pede silêncio.”. Olhei de uma para a outra, eu estava ajoelhada no meio delas quando Helena decidiu que não bastava desenhar, ela precisava ensinar.
— Hili, olha. — disse, batendo de leve com o giz no papel, deixando um traço firme — Assim. Primeiro faz uma linha.
Hilary estava com um pincel na mão, tinta verde escorrendo pelo cabo e já manchando seus dedos. Ela não olhava para o papel, ela olhava para Helena.
— Liinha… — murmurou, os olhos atentos, a cabeça ligeiramente inclinada, como se estivesse tentando decifrar um segredo.
— Não é com a boca. — Helena corrigiu, soltando um risinho — É com a mão. Assim. — ela fez outra linha, mais longa, depois apontou — Agora você.
Hilary abaixou o pincel com toda a convicção do mundo… e bateu forte no papel, espalhando a tinta em um borrão sem forma.
— Fiz, Nena! — anunciou, orgulhosa, erguendo o pincel no ar.
Eu ri antes mesmo de conseguir conter.
— Você fez, sim. — confirmei, limpando uma gota de tinta que já descia pelo pulso dela.
Helena observou o borrão com atenção genuína. Depois assentiu.
— É, quase. Falta repetir.
— Re-piti! — Hilary respondeu, séria, como se tivesse entendido perfeitamente.
Helena trocou o giz pelo amarelo e desenhou outra linha ao lado.
— Linha. Linha de novo. Devagar.
Hilary não desviou o olhar dessa vez. Seus dedos apertaram o pincel com força demais, a linguinha presa no canto da boca em concentração. Ela tentou imitar o movimento, arrastando o pincel lentamente. O resultado foi torto. Tremido. Desigual. Mas foi um arrastar, não uma batida; já era alguma coisa.
— Viu? — Helena disse, satisfeita — Você está aprendendo.
— Hiwawy tá prendêno. — Hilary repetiu, balançando a cabeça, animada, e então decidiu que precisava tentar de novo… só que agora usando as duas mãos ao mesmo tempo.
— Não, Hili, uma mão só. — Helena falou, estendendo a própria mão pequena para demonstrar — Assim fica melhor.
Hilary olhou. Prestou atenção. Depois largou o pincel, pegou um giz de cera azul e fez um risco atravessando tudo.
— Melhor! — declarou.
Eu me peguei observando aquilo com mais cuidado do que deveria, porque no meio da bagunça dos pincéis rolando, potes abertos, minhas roupas manchadas, havia algo acontecendo ali. Hilary não estava apenas reagindo ao caos, ela escutava. Mesmo quando não conseguia repetir, mesmo quando seu corpo de bebê não obedecia à intenção. Ela ouvia a irmã, processava e tentava.
— Hili, isso é um círculo. — Helena continuou, desenhando com facilidade absurda — É redondo. Começa aqui e volta aqui.
Ela fez o gesto no ar. Hilary acompanhou com os olhos. Abriu a boca em um “O” silencioso, como se estivesse entendendo o conceito inteiro dentro da própria cabeça. Então pegou o giz… e rabiscou em zigue-zague.
— Cículo, Nena! Olha! — anunciou, satisfeita.
Helena piscou, confusa por meio segundo, e depois sorriu.
— Quase.
A palavra não veio como correção dura. Veio como promessa. Hilary bateu palmas, espalhando mais tinta no papel, e se inclinou contra mim, o corpo quente, manchado, vibrando de empolgação.
— Mamãe! Eu fiz! — disse, apontando para o desenho inteiro, como se tudo fosse obra dela.
— Eu vi! — respondi, beijando sua têmpora — Você está tentando pra valer.
Do jeito confuso e intenso que só um bebê consegue, ela acreditava, com todo o coração que estava fazendo exatamente o que a irmã ensinava e talvez, de alguma forma essencial, estivesse mesmo. Helena se aproximou mais da irmã, agora desenhando ao lado do rabisco azul, sem apagar nada.
— Vamos desenhar juntas. — ela disse, simples.
Eu não estava olhando para elas quando aconteceu, estava tentando salvar o último pote de tinta derrubado pelo pezinho da Hilary quando ouvi a voz de Helena, clara demais.
— Hili, olha para mim.
Levantei o rosto no mesmo instante. Hilary tinha parado. Literalmente parado. As mãos ainda sujas, o corpo inclinado para frente, os olhos castanhos presos no rosto da irmã como se o resto da sala tivesse desaparecido. Não me contive, resgatei o celular abandonado entre as coisas espalhadas e tentando disfarçar a agitação dos meus dedos contra a tela, eu ativei a câmera, apontando timidamente para elas, registrando a interação que acontecia.
— Assim... — Helena disse, devagar. Pegou o giz e fez um traço curto — Um. Só um.
Hilary piscou. Abriu a boquinha levemente, concentrada. O giz caiu da sua mão, rolando pelo papel.
— Caiu. — ela anunciou, frustrada.
— Tudo bem. — Helena respondeu sem hesitar — Pega de novo.
E Hilary pegou, a mãozinha desajeitada, lenta, errando o encaixe dos dedos, mas pegou.
Meu peito apertou sem aviso.
Ela tentou imitar o movimento. O traço saiu tremido, interrompido no meio, quase nada parecido com o da irmã. Dei um zoom singelo para poder registrar.
— Fiz ingual! — disse, convencida.
Helena se inclinou para olhar melhor. Não corrigiu. Não riu. Não desviou.
— Fez sim. — afirmou, dando uma olhadela para o celular e baixou o olhar de volta à tentativa da irmã — Só ficou menor, Hili.
Hilary sorriu. Um sorriso aberto, satisfeito, como se tivesse acabado de vencer algo grande demais para o próprio corpo. Eu senti como se alguém tivesse colocado a mão dentro do meu peito e apertado devagar. Porque eu vi. Vi o esforço. Vi a atenção. Vi a confiança inteira que Hilary colocara na irmã e o cuidado quase instintivo de Helena em não frustrar ou quebrar aquilo. Encerrei a gravação e engoli em seco, desviando o rosto rápido quando percebi meus olhos ardendo.
Não era só sobre desenhar. Era sobre como estavam fazendo isso acontecer. Helena voltou ao papel, ajustando o desenho para incluir o risco torto da irmã, sem encobrir nada.
— Aqui é seu. — explicou — Fica junto com o meu.
Hilary apontou para o papel inteiro.
— Nosso.
A palavra veio sem firmeza em seus lábios, mas carregada de intenção.
E foi ali, com tinta secando nas mãos, pincéis espalhados, papel kraft tomado por histórias de desenhos, riscos e carimbos que só elas entendiam, que algo dentro de mim se reorganizou. Talvez eu não conseguisse proteger minhas filhas de tudo. Talvez eu errasse mais vezes do que acertasse. Mas eu estava criando um espaço onde uma ensinava sem ferir e a outra aprendia sem medo de errar. Eu me virei de costas por um segundo, fingindo procurar um pano limpo que eu nem precisava, só para respirar fundo.
Quando voltei, elas ainda estavam ali. Juntas.
E só percebi que estava chorando quando uma gota caiu no papel. Fez até um barulhinho. No meio do azul, do amarelo, do rosa misturado em camadas, havia um pontinho transparente que não era tinta. Piscar não adiantou. Meu corpo continuava ali, funcionando, limpando uma mão, afastando um pote, mas alguma coisa dentro de mim tinha cedido sem pedir permissão.
— Mamãe? — Helena chamou, notando algo por cima do meu silêncio do que as lágrimas — Você está com lágrima.
Sorri, rápido demais.
— É só… água, amor...
— Eu sei mamãe... — sua voz ficou mais baixa — Não é lágrima de tristeza, eu sei.
Hilary se remexeu sobre o papel, engatinhando pro meu colo, ainda segurando um giz que já tinha passado por todas as cores possíveis. Ela esticou a mão até o meu rosto e encostou os dedos sujos de tinta na minha bochecha.
— Cor. — disse, satisfeita.
Toquei onde ela me marcou, a tinta fez contato no meu dedo, uma mancha azul ficara ali. Eu ri. Um riso curto, trêmulo, que saiu junto com o ar preso no peito há tempo demais.
— Isso, cor. — repeti, fechando os olhos por um segundo enquanto segurava o pulso dela com cuidado — Azul escuro. Você sempre escolhe as cores mais fortes.
Helena voltou ao desenho, mas agora mais próxima de nós. Desenhava e falava, como se aquele fosse o jeito mais natural do mundo de existir.
— A Hilary deve aprender rápido. Só demora para sair certo. — ela comentou, sem julgamento.
Hilary apoiou a cabeça no meu peito por um instante, o corpo cansando de tanta excitação. Ainda assim, os olhinhos seguiam Helena, atentos, mesmo pesados. Ela não desenhava mais, apenas observava, prestava a atenção. Minha garganta apertou. Eu chamei Helena para mais perto de mim e abracei as duas ao mesmo tempo, uma contra cada lado do corpo, sentindo o contraste absurdo entre elas: Helena firme, quente, presente demais para a idade que aparentava; Hilary morna, desajeitada, e eu ali, no meio.
Eu não chorei alto. Não havia desespero naquele choro. Era um vazamento lento, silencioso, como se algo antigo estivesse finalmente encontrando espaço para sair. Talvez fosse o medo que eu tive de não dar conta. Talvez fosse o passado que ainda pesava em mim. Ou talvez fosse só isso: o instante.
Duas menininhas no chão de uma casa que não era minha, mas que as acolhia. Uma ensinando, a outra tentando com tudo o que tinha. E eu percebendo, com uma clareza quase dolorosa, que mesmo quando tudo parecia bagunçado demais… algo ali estava dando certo.
Hilary se mexeu no meu colo e apontou para Helena.
— Nena.
— Oi... — Helena respondeu sem tirar os olhos do desenho.
— De novo.
Helena sorriu.
— De novo.
Passei a mão pelo cabelo das duas, com meus dedos sujos de tinta, sem me importar, porque, naquele momento, com o papel manchado, o chão molhado e o tempo escapando rápido demais, eu não precisava ser perfeita. Eu só precisava estar ali. E eu estava.
— Tuudo bem! Agora eu quero saber, quem vai desenhar a joaninha mais linda do mundo inteiro?! — agarrei o primeiro pincel atolado num pote de tinta que vi.
— Eu!
— Eu tamém, mamãe!
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Nós três já estávamos de banho tomado e cheirosas, cada uma à sua fragrância e cor. Eu havia feito penteados diferentes em cada uma. Eram trancinhas? Sim; mas cada uma com uma elaboração diferente.
Acredito que era a primeira vez que deixava os cabelos de Helena tão elaborados além dos belos cachos anelados. Apesar de ambas não conseguirem ficar quietas durante os longos minutos que passaram comigo prendendo, separando mechas e torcendo-os em tranças, elas ficaram satisfeitas com o resultado.
Minhas duas menininhas de penteados.
Nem eu estava acreditando na minha paciência e capacidade para ter elaborado tudo aquilo em duas meninas no mesmo dia.
Durante o banho delas eu combinei com as mulheres da casa de incluí-las no preparo da receita da primeira fornada de biscoitos de gengibre que eu iria fazer, então não foi surpresa alguma quando eu desci com elas até a cozinha e encontrei todos os ingredientes, ou até mais, posicionados estrategicamente ao meu aguardo.
O balcão principal da cozinha estava frio sob minhas mãos quando coloquei as duas sentadinhas ali em cima. A pedra contrastava com a bagunça que já começava a se formar: farinha espalhada em montinhos leves, potes semiabertos, o rolo de madeira separado ao lado da massa de biscoito de gengibre ainda envolta em filme plástico. Helena se sentou sozinha, equilibrada, as pernas pendendo para frente, os pés quase não alcançando a borda. Hilary precisou do meu braço ao redor da cinturinha quando não me pareceu estar segura onde eu a estava colocando, mas assim que percebeu a irmã tranquila, apoiou as mãozinhas ao lado das pernas e permaneceu assim.
— Vocês ficam aqui, quietinhas. — avisei, ajustando-as mais para o centro — Sem levantar, combinado?
— Combinado, mamãe. — Helena respondeu imediatamente.
Hilary bateu as palmas da mão na pedra.
— Binado, mamãe!
— Não pode comer agora. — falei pela terceira vez, segurando a mão da Hilary antes que ela a mergulhasse direto na tigela da massa de mistura do açúcar mascavo.
— Pode sim! — Emmett discordou imediatamente, encostado na bancada com um sorriso provocador — Deixa ela provar, vai.
— Não pode! — Rosalie respondeu no mesmo instante, lançando-lhe um olhar afiado — Ela vai passar mal.
— Eu passaria! — ele deu de ombros. O sorriso largo e travesso evidenciando suas covinhas profundas.
— Elas parecem duas confeiteiras profissionais! Olha só que fofurinhas! — disse, apoiando os cotovelos na pedra — Só falta o avental.
— Não incentiva... — murmurei, sorrindo, quando vi Hilary tentar puxar o pano de prato.
Rosalie estava encostada do outro lado do balcão, observando com atenção prática.
— A pedra ajudará a massa a não grudar tanto. — comentou.
— E fica mais fácil de abrir. — complementei, retirando o plástico e colocando o bloco de massa bem no centro.
O cheiro de gengibre e canela subiu imediatamente, quente, doce, envolvendo tudo, Hilary se inclinou para frente, curiosa.
— Huum... Cheiroso né, mamãe?
— É cheiroso, né? É o gengibre, — expliquei — e a canela.
— Canela... — Helena repetiu, experimentando a palavra.
Emmett se aproximou, cruzando os braços. Seus olhos cheios de tons amarelos olhavam para as meninas em grande expectativa, parecia até que ele era uma criança que também me ajudaria a sovar a massa dali a alguns instantes. Não se cabia de entusiasmo. Eu peguei o rolo, mostrando para as meninas.
— Isso aqui é o rolo. Ele serve para deixar a massa bem lisinha.
— Aah, eu sei. — Helena disse suavemente, tocando a madeira com cuidado — Aperta e empurra.
— Isso mesmo.
Hilary estendeu a mão e bateu no rolo com entusiasmo.
— Lolô!
— Rolo. — corrigi, sorrindo — Isso.
Polvilhei farinha sobre a pedra, espalhando com a palma da mão. O pó subiu no ar, e Hilary imediatamente tentou soprar.
— Não sopra, Hili. — Helena avisou rápido — Vai voar.
Hilary parou, pensou… e então riu. Coloquei a massa no centro e pressionei levemente com a mão para achatá-la.
— Primeiro assim. — expliquei — Depois a gente usa o rolo.
Helena observava cada movimento com atenção total. Hilary alternava o olhar entre minhas mãos e o rosto de Alice, que fazia caretas para distraí-la.
— Posso ajudar, mamãe? — Helena perguntou.
— Claro que pode.
Helena esticou a mão com cuidado, pressionando a superfície macia.
— Nossa, está fria. — comentou.
— Porque tiramos quase agora da geladeira. — expliquei, guiando o movimento — Agora você aperta assim… sem forçar. — coloquei o rolo nas mãos dela, segurando por cima, guiando o movimento — Empurra devagar, filha.
Ela fez força. Não demais. O rolo deslizou, deixando a massa mais fina.
— De novo? — pediu.
— De novo. — concordei.
Hilary não esperou instruções, com sua mãozinha ligeira ela deu um tapa com as duas mãos na massa com entusiasmo.
— Pão! — anunciou.
— Quase isso. — ri, segurando suas mãos para evitar que ela puxasse tudo para si — Primeiro, abrimos a massa para virar um monte de biscoitos deliciosos.
Jasper observava em silêncio, encostado próximo à ilha central. Eu sentia o ambiente mudar sutilmente, mais leve, mais calmo, como se ele estivesse mantendo tudo equilibrado enquanto Emmett narrava cada erro possível em voz alta.
— Essa cozinha nunca mais vai ser a mesma. — ele comentou, quando Hilary conseguiu jogar mais farinha no chão.
— Já não era antes. — Rosalie retrucou, mas havia algo suave no tom.
— Tá macio, mamãe. — Hilary comentou.
— Está sim, eu sei que você gosta do macio. — confirmei — Mas não puxe a massa.
— Não puxa. — Helena repetiu, séria, olhando para a irmã.
Hilary tentou puxar mesmo assim. A massa esticou torta e rasgou.
— Opa! — Emmett riu daquele modo só seu, exagerado — Isso vai virar arte moderna!
— Ainda dá para arrumar. — Rosalie disse, prática.
Eu ri, ajeitando a massa com cuidado. Sovando parte da massa contra a pedra mais uma vez.
— Dá, sim.
Segurei as mãos da Hilary e fiz o movimento de empurrar.
— Assim. Empurra.
Hilary imitou. O movimento foi estranho, descoordenado, mas consciente.
— Fiz! — anunciou.
— Fez. — confirmei com um sorriso.
Helena sorriu para a irmã.
— Agora a massa está bem grande, Hili.
— Êh! Bem gândi! Gândi! — Hilary repetiu, satisfeita.
Alice se inclinou para mais perto.
— Vocês estão indo muito bem. Logo dará para cortar os formatos. — Alice já estava ao meu lado, empolgada, empurrando um potinho colorido em direção às meninas — Aqui, cortadores pequenos. Formas de estrela e coração..., todos que quiserem!
Helena olhou para as formas como se fossem algo sagrado.
— Eu faço o de estrela. — decidiu, com absoluta certeza.
— Também tem de coração... — Alice respondeu.
— O boneco. — Emmett completou.
— Boneco de gengibre. — Esme completou com um sorriso suave, aproximando-se de nós — É tradição. Dará para usar todos, depois. — Esme falou, gentil — Primeiro tem que terminar de abrir a massa.
Eu observei as duas, sentadas ali, mãozinhas sujas de farinha, pés balançando no ar, cercadas por vozes calmas, risos fáceis, instruções simples.
— Mais um pouco. — falei, passando o rolo mais uma vez.
A massa estava quase perfeita. Helena tocou a superfície com cuidado, sequer deixou marcas.
— Agora está pronta, mamãe?
Olhei. Sorri.
— Está pronta.
Eu usei os pequenos potes dos ingredientes já usados como apoio para o celular e coloquei para gravar o momento em que ajudei Helena a pressionar o cortador sobre a massa. Ela fez força na medida certa, levantou com cuidado e sorriu quando o molde da estrela apareceu, perfeita.
— Consegui! — ela exultou. Seu olhar correu brevemente para o aparelho apontado para nós, o sorriso imutável, os olhinhos brilhavam pelo feito.
— Conseguiu! — confirmei, o peito aquecido — Vamos testar a massa com os outros também, filha.
Hilary observava tudo, os olhos grandes, atentos, acompanhando cada movimento. Quando cortei e estendi um pedacinho de massa para ela, já sem intenção de forma, ela apertou com as mãos, amassando sem parar.
— Fazendo! — disse, orgulhosa.
— Está mesmo. — falei, beijando sua testa enfarinhada.
Esme se aproximou por trás, colocando uma assadeira sobre a bancada.
— Vocês querem colocar os biscoitos aqui?
— Eu quero! — Helena se prontificou imediatamente — Por favor, mamãe, deixa?
Assenti, direcionando as pontas de onde ela tinha que descolar da pedra primeiro. Com minha ajuda, ela colocou a estrela cuidadosamente na assadeira, alinhando com uma precisão quase exagerada.
— Temos que dar espaço uma das outras, tá bom? — avisei, apontando — Senão grudará.
Eu respirei fundo, observando aquilo tudo: farinha no chão, mãos pequenas sujas de massa, risadas espalhadas pela cozinha, Hilary tentando comer a massa crua a cada cinco segundos e Helena testando o recorte de todos os moldes disponíveis. A massa nos rendeu três fornadas, eram rápidos quando estavam prontos para assar e já aguardávamos a última.
— Na-na-ni-na-não! — falei automaticamente, quando Hilary tentou levar a massa à boca de novo.
— Não coma, Hili. — Helena reforçou, séria — Só depois dá pra comer.
Hilary fez uma careta, pensou por meio segundo… e então assentiu.
— Poide depois com a bebê. — foi o que conseguir entender da sua resposta, mas me parecia ter aceitado.
Meu coração apertou de um jeito bom. O forno apitou ao fundo, avisando que estava pronto. Nove minutos cravados, era o suficiente para não ressecar e queimar.
Esme sorriu para mim.
— Esse dia ainda vai nos render boas memórias.
Olhei para minhas mãos sujas de farinha, para minhas filhas concentradas nos moldes espalhados ao redor e para aquela cozinha cheia de vozes e boa companhia.
— Acredito que já rendeu, Esme. — respondi, sabendo que era verdade.
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Um terceiro banho foi inevitável e não permiti margens de enrolação para que acontecesse. Depois de quase bater o pé, de tanta insistência que tive para Esme me deixar limpar a bagunça de farinha espalhada no chão da cozinha, eu me enfiei dentro do banheiro do quarto junto das minhas filhas. Anteriormente eu já havia recolhido os produtos pessoais de cada uma e Alice me barrou de separar os pijamas, alegando que já havia providenciado isso e que já estava dentro do meu closet.
Não vi necessidade de usarmos a banheira para esse banho, e evitando molhar os cabelos e estragar os penteados, uma ducha rápida era mais que suficiente.
Vestirmos os pijamas se tornou uma celebração à mais. Principalmente para mim.
Estamos combinando! As três com o mesmo modelo e estampa.
Claro que, eu sei que isso não é algo inédito, porém é a primeira vez na minha vida que estou vivendo minha própria tradição de família. Hilary e eu ainda não tínhamos um pijama igual, agora estávamos eu, Hilary e Helena com pijamas fofos de tema natalino idênticos, exclusivos e com toda certeza, feitos sob medida. Eu soube disso pelos tamanhos exatos. O de Hilary acompanhava um sapatinho que já era dela desde antes de virmos para cá e que ainda só servia por eu ter comprado em tamanho maior, e o conjunto de Helena era mais folgado, o que claramente o deixava permanecer por mais tempo dentro de seu guarda-roupa tão exclusivo e limitado.
— Tira uma foto nossa, mamãe! — Helena pediu, enquanto eu ajustava o caimento do tecido em seus ombrinhos.
Ergui meus olhos para ela e sorri. Minha filha deu um sorrisinho discreto e puxou Hilary com gentileza, trazendo-a para mais perto de nós.
— Estamos iguaizinhas a você, mamãe. — Helena olhou de uma para outra com entusiasmo.
— A bebê da mamãe tá ingual; a Nena tá como a bebê. — Hilary completou da sua maneira, tão entusiasmada quanto.
— Tudo bem! — me levantei e olhei em volta, procurando pelo celular — Ah!... Tá ali no banheiro... — olhei para elas — Fiquem quietas e não façam nada que eu não gostaria... — firmei meus olhos para Hilary — Quietinha.
Recuperar o celular entre as roupas usadas não foi problema nenhum, e quando retornei ao closet, as duas estavam sentadas, encostadas nas gavetas. Seus pezinhos se balançavam, me esperando.
— Vem, mamãe! — Helena me chamou assim que abri a porta. O olhar inteligente me acompanhando — Dá para apoiar o celular aqui! — apontou para o pufe.
Sorri, aceitando sua sugestão. Me agachei, posicionando o celular contra o móvel, deixando a câmera em selfie e me posicionei entre elas, trazendo-as para mim. Não resisti em aproximar meu nariz na pele delas para sentir o cheiro.
Tão diferentes e tão minhas.
Nos ajustei, para que desse para ser visto nossas roupas iguais, e quando nossa posição estava boa diante da câmera eu elevei minha voz dentro do ambiente:
— Capturar! — dei o comando para o celular e o cronômetro de dois segundos foi acionado na tela.
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Após o jantar e a leve competição de quem comia mais biscoito de gengibre entre as duas meninas; que no caso, Helena ganhou devorando oito entre os dez que eu permiti, nós nos agrupamos na sala.
As luzes principais estavam apagadas, restando apenas os abajures espalhados pelos cantos e o brilho suave da televisão refletindo nas paredes claras. Eu estava sentada no tapete macio que cobria quase todo o chão com as meninas, as pernas esticadas, o corpo levemente encostado no sofá. Ao nosso redor, havia um pequeno rastro do que tinha sido o dia delas: bonecas de pano, um urso de pelúcia maior que o torso da Hilary, bloquinhos coloridos e dois livrinhos infantis abertos ao acaso perto dos meus pés. E duas mantas dobradas ainda davam o ar da graça por ali.
Emmett estava esparramado no sofá, uma perna dobrada, o braço firme ao redor de Rosalie. Ela estava enroscada nele de um modo claramente romântico, os dois assistindo a um filme em um silêncio confortável entre eles, ora e outra trocando comentários baixos e sorrisos ocasionais de vez em quando.
Helena saiu de trás do sofá carregando uma pelúcia debaixo do braço, seus passinhos vieram ligeiros na minha direção, ela se acomodou rápido, as costas apoiadas em mim. Hilary andava de um lado para o outro entre os brinquedos, concentrada demais na própria missão. Ela puxava os livros, folheava do jeito que conseguia, fechava, largava, até que parou de repente.
Seus olhos indo certeiros para a irmã e vendo-a tão confortável em mim também decidiu se aproximar. Ela pegou um dos livrinhos com as duas mãos e veio na minha direção, tropeçando no tapete macio até conseguir se equilibrar sentada entre minhas pernas e se aconchegar. Ela demorou mais, se remexendo, virando, testando posições, até finalmente se aquietar com a cabeça encostada na minha barriga, soltando risinhos quando pressionava sua orelha ali, ouvindo os sons de dentro de mim.
Ergui meus olhos para a televisão, tentando capturar o que exatamente estava acontecendo no filme desconhecido.
Quando reparei, um livro estava no meu colo. Olhei na direção dos meus pés, os outros dois continuavam abandonados no mesmo lugar.
Voltei meus olhos para esse. A capa era simples, colorida, com ilustrações suaves. Letras grandes. Um título curto: “I love you, mommy.” Olhei para as minhas filhas, esperando que de alguma forma uma delas se manifestassem. Não me parecia uma ação comum deixar um livro em cima de mim.
Hilary ergueu os olhinhos para mim.
— Mamãe… — chamou, baixinho. Me pareceu até mesmo tímida.
Esperei. Ela empurrou o livro devagar sobre a minha barriga.
— Lê pra mim, mamãe… ingual antes. — pediu, tropeçando nas palavras — Mamãe senta… Hili aqui… — bateu de leve na própria barriguinha — E conta histórinha.
Houve algo ali que não veio de mim naquele momento. Era uma lembrança difusa, quase um eco: eu sentada em uma poltrona, ela pequena demais para entender as palavras, só a cadência da minha voz; o livro não importava, só o momento. Um impulso desconhecido para me fazer levantar... Uma agitação estranha, que não parecia ter surgido com veracidade dos meus próprios ímpetos e memórias. Desci os olhos para o livro, “quando exatamente eu li esse livro para minha filha?”, pensei.
Hilary franziu a testa, esforçando-se para dizer mais.
— Conta… mamãe ama. — ela sorriu, satisfeita, como se tivesse conseguido dizer tudo o que precisava.
Peguei o livro com cuidado, observando a capa antes de abrir.
— Esse? — perguntei, sorrindo.
Hilary assentiu com a cabeça, satisfeita.
— Mamãe. — Helena se acomodou de lado, curiosa — O que diz? — ela perguntou, esticando-se para olhar.
— É um livro sobre uma mamãe e o filhote dela. — expliquei, passando o dedo pelas palavras.
Hilary tocou a capa com a ponta dos dedos.
— Lê, mamãe. — pediu novamente, simples e direta, olhando para mim.
Meu peito aqueceu de um jeito silencioso.
— Eu leio, meu amor.
A trouxe mais para cima do meu colo, assim como me pediu, sem deixar de ajeitar Helena ali também. Abri o livro com cuidado. As páginas fizeram um som baixo, macio, que pareceu combinar com o momento. As ilustrações mostravam uma mamãe animal abraçando seu filhote.
— “Eu te amo quando você acorda…” — comecei, lendo devagar, articulando bem.
Hilary levantou a cabeça.
— Acorda.
— Isso. — confirmei, sem interromper a leitura — “…eu te amo quando você ainda está com sono.”
Helena também acompanhava as imagens com atenção, passando o dedo pelos desenhos.
— Ela segura assim. — comentou, apontando para a figura — Igual você, mamãe.
Continuei.
— “Eu te amo quando você ri…”
Hilary soltou uma gargalhada espontânea, como se tivesse sido instigada pelo livro.
— Ri! — disse, orgulhosa.
— “…e também quando você chora.”
Hilary franziu o rosto por meio segundo, pensativa, e depois se aconchegou mais em mim. Helena se inclinou para frente, a mãozinha tocando o braço da irmã.
— Ela sempre ama, Hili. — concluiu, com a lógica simples e absoluta que só ela consegue ter.
— Sempre. — afirmei com carinho, o coração transbordando.
No sofá, Emmett abaixou um pouco o volume do filme. Rosalie apoiou a cabeça melhor no ombro dele, observando a cena no chão com um olhar tranquilo, sem pressa, sem julgamento.
Virei a página.
— “Eu te amo quando você aprende coisas novas…”
— Igual nossos desenhos. — Helena sorriu.
— Igual os desenhos. — concordei — “…e quando ainda está tentando.”
Hilary bateu a palma contra a página.
— Tentá!
Eu ri baixinho, beijando o topo da cabeça dela sem parar a breve leitura.
— “Eu te amo quando você está perto…” — minha voz saiu mais baixa — “…e mesmo quando está longe.”
Helena encostou o rosto nas minhas costelas. Hilary segurou minha camisa com força, como se quisesse garantir que eu continuaria ali. Fechei o livro devagar quando terminei.
— Já acabou? — Helena perguntou.
— Acabou.
Hilary fez um biquinho rápido, depois levantou o rosto para mim.
— Mamãe ama?
Engoli em seco.
— Ama. — respondi, sem hesitar — Ama muito.
Ela sorriu, satisfeita, e voltou a se aninhar entre minhas pernas. Helena estendeu a mãozinha esquerda para ela, e entrelaçaram seus dedinhos, ela fechou os olhos por um instante, tranquila demais. Ao fundo, o filme continuava. Emmett passou a mão pelos cabelos de Rosalie. A casa com aquela atmosfera silenciosa apesar do filme. E ali, sentada no tapete, com um livro simples no colo e duas meninas aquecidas contra mim, eu senti amor, dito em palavras que até uma criança podia entender.
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Quando os créditos finais do filme subiam em uma telinha secundária na televisão, minhas filhas estavam esparramadas no tapete junto comigo, agora deitadas, usávamos as almofadas de apoio para nossas cabeças, Helena virou o corpo para o lado, inclinado na minha direção. Seus olhinhos claros, escurecidos pela pouca iluminação do cômodo me fitaram com intensidade familiar, os dedos pequenos deslizaram até a orelha.
— Mamãe… — disse com suavidade — Eu pensei.
— Pensou em quê, meu amor?
Ela franziu o nariz, concentrada, como se organizasse palavras que não pertenciam inteiramente à infância aos meus olhos.
— Eu entendo que brilho por dentro. Mas… eu queria brilhar por fora também. Só um pouquinho. — tocou de novo a orelha — Igual à Hilary.
— Espera. Você está falando de… — toquei minha própria orelha, num gesto automático — Brincos?
Helena assentiu, segura.
— Sim, por favor, mamãe. Eu não tenho medo, mamãe. Se doer, passará rápido. Tudo passa rápido em mim.
A frase, dita com tanta naturalidade, me atravessou como um lembrete silencioso de quem ela era e de tudo o que ainda seria.
— Amberli. — Rosalie chamou então, a voz firme, mas surpreendentemente gentil. Ela acomodava o corpo sentado no sofá, inclinando-se para mim — Se você permitir… nós podemos fazer isso. Do jeito humano, não. — completou rapidamente — Agulha, pistola, nada disso funciona. A pele dela é densa demais. A resistência celular é… — ela fez um gesto vago com a mão — quase elástica em nível molecular.
Eu engoli em seco.
— Então como…?
Rosalie se inclinou para frente, os olhos dourados sérios.
— Como Carlisle faria.
O nome dele pareceu trazer um pouco de chão sob meus pés.
— Ele sabe disso? — do pedido da minha filha?
— Ele está no escritório. — Rosalie respondeu, abrindo um sorriso pequeno — Você não deve ter percebido, mas, ele chegou já faz alguns minutos.
Minutos depois, estávamos no escritório, o mesmo onde tantas vezes eu havia sido examinada com um cuidado quase reverente. Helena estava sentada na maca, as perninhas balançando levemente, curiosa. Carlisle não reagiu de imediato quando Alice e Rosalie comentaram, quase casualmente, que Helena havia pedido por um brinco “igual ao da irmã”.
Ele apenas pousou seu tablet sobre a mesa com cuidado excessivo, um gesto que já aprendi a reconhecer como o instante em que sua mente começava a calcular possibilidades.
— Você tem certeza? — me perguntou, olhando diretamente para mim, não para Helena.
Não havia julgamento ali, havia respeito.
— Tenho. — respondi sem hesitar — E ela também.
Quando Carlisle se aproximou mais, ela ergueu o rosto.
— Não dói. — disse ela, afirmando mais do que perguntando.
— Não da maneira que você imagina. — Carlisle sorriu de leve para ela, seus olhos dourados se voltaram para mim antes de retornarem para ela — E você quer entender. — disse ele, sem me olhar diretamente. Não era uma pergunta.
Assenti. Olhando para a minha filha de esguelha.
— Eu confiei. — deixei em aberto sobre a possibilidade real dela poder ter brincos — Mas preciso saber no que.
Carlisle sorriu de leve, aquele sorriso que nunca promete mais do que pode cumprir.
— Então eu vou te explicar como. Métodos convencionais são inúteis. — explicou, enquanto colocava luvas finíssimas, quase translúcidas. De onde ele havia as tirado, eu não sabia — A pele da Helena não responde à perfuração mecânica comum. A resistência dérmica dela se aproxima da estrutura cristalina vampírica, mas ainda mantém fluxo sanguíneo e regeneração celular ativa. — continuou — Ela é organizada para não se ferir. As células… conversam entre si o tempo todo. Quando sentem ameaça, se fecham antes mesmo do impacto.
— Por isso uma agulha comum não funciona. — murmurei.
— Exatamente. — ele assentiu — Força contínua só reforça a defesa. Seria como empurrar uma porta que se fecha cada vez mais.
Ele se virou e abriu uma pequena gaveta e retirou uma cápsula metálica fina. Não a abriu. Apenas a deixou ali, visível.
— Então não perfuramos. — continuou — Criamos um instante em que o corpo dela esquece que precisa resistir.
Meu peito apertou.
— Esquecer… soa perigoso.
— Seria, — concordou ele, com honestidade — se fosse duradouro. Mas falamos de milissegundos. Menos de três segundos. — ele apoiou dois dedos na superfície da maca — Usamos uma liga extremamente estável. Titânio, pela estrutura. Prata, pela condução. Não posso chamá-la exatamente de aço, nem exatamente de titânio. Apesar de ser. — fez uma pausa — Ambos são inertes ao organismo dela.
— E o resto? — perguntei.
Carlisle respirou fundo antes de responder.
— Um traço de veneno vampírico.
Senti o sangue gelar.
— Neutralizado. — completou imediatamente — Fragmentado, oxidado, sem capacidade de transformação, sem propagação, sem agressão sistêmica. O que resta é apenas um efeito: ele desorganiza temporariamente a comunicação entre as células. Nada mais.
— Por quanto tempo?
— Milissegundos suficientes para permitir passagem — respondeu — Não causa ruptura, encare como uma passagem. — ele inclinou a cabeça, atento à minha reação — O instrumento não corta. Não rasga. Ele se insinua entre as células no momento exato em que elas deixam de se alinhar.
— E depois? — minha voz saiu baixa.
— Depois, o corpo dela se reorganiza. — um sorriso suave surgiu — Em torno do brinco. Não contra ele.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, assimilando.
— Então como você faria? — perguntei.
Carlisle abriu a capsula, dentro do pequeno estojo estéril vi um par de haste extremamente fina, longa como uma agulha de acupuntura, mas com uma superfície que parecia… diferente. Não refletia a luz, a absorvia num aspecto diferente, quase fosco.
— Essa, é a liga metálica. — apresentou — Desenvolvida ao longo de décadas. Base vampírica, refinada em altas temperaturas, com adição de elementos humanos raros. — ele segurou a haste com precisão cirúrgica — A estrutura molecular é instável o suficiente para atravessar tecidos híbridos sem causar fratura, mas estável o bastante para não se desintegrar no processo.
— Realmente é uma forja híbrida. — murmurei.
— Exatamente, — confirmou — mas ainda abaixo do ponto de fusão vampírico total. O metal é resfriado lentamente, para manter flexibilidade microscópica. É isso que impedirá que a pele dela se feche antes da inserção do brinco.
Helena inclinou a cabeça, curiosa.
— É como costurar a pele antes dela sarar. — disse ela, simples.
Carlisle arqueou as sobrancelhas, impressionado.
— Uma analogia perfeita.
Ela sorriu, satisfeita. Rosalie e Alice ainda estavam presentes, seus olhos expectantes olhavam da minha filha para a pequena caixa almofadada luxuosa onde estavam os primeiros brincos que haviam sidos confeccionados para o uso exclusivo de Renesmee, mas não interferiram. Percebi que ambas haviam recuado propositalmente. Aquilo, naquele momento, não era vaidade. Era medicina. Carlisle se ajoelhou à frente de Helena, ficando na altura dos olhos dela.
— Você quer mesmo fazer isso? — perguntou, sério agora.
— Quero, tio Carlisle. — respondeu sem vacilar — É meu corpo.
Meu peito apertou ciente do peso da sua decisão. Para mim, ela já decidir junto comigo quais peças de roupas usar, significavam muito; agora eu simplesmente condizia com a sua decisão de colocar um brinco. Uma decisão que não partiu de um incentivo meu, mas de uma vontade exclusiva, inteiramente dela.
— Então precisamos combinar algo. — continuou ele para ela — Você não pode remover o brinco por longos períodos durante os primeiros dias. Caso contrário, o corpo vai fechar o orifício completamente.
— Igual quando você fecha a porta rápido demais. — comentou ela, usando a mesma comparação dele.
— Exatamente.
Carlisle não começou pela agulha.
Antes de qualquer instrumento tocar Helena, ele observou as orelhas dela por longos segundos, os olhos dourados levemente estreitados, como se estivesse lendo algo invisível sob a pele. Ele marcou com delicadeza o ponto exato da orelha apenas assim, não havia caneta, nem instrumento visível, apenas o toque preciso do seu dedo, calculando simetria, espessura, fluxo.
— A cartilagem é mais densa do que a de Renesmee. — comentou, quase para si mesmo — O fluxo é mais rápido também.
Ele ajustou o refletor articulável, trazendo uma luz branca e estável, sem reflexo agressivo. A iluminação não era para enxergar melhor, era para controlar sombras, evitar qualquer variação mínima que pudesse alterar a angulação.
— Helena, — disse ele, com voz calma — você vai sentir pressão. Não é dor. É como quando você aperta o dedo contra algo muito firme.
Ela assentiu uma única vez. Carlisle apoiou dois dedos atrás da orelha dela. Não pressionou. Apenas estabilizou. A pele ali, sob meus olhos atentos, parecia lisa demais para ceder, quase irreal. A haste metálica foi retirada do estojo somente naquele instante. De perto, percebi que ela não era perfeitamente lisa. Havia micro-ranhuras helicoidais ao longo do corpo, tão finas que só podiam ser vistas sob aquela luz específica. “Ah”, pensei com um leve deslumbre, “Então é isso que dá o aspecto fosco...”
— Essas ranhuras, — explicou ele, percebendo meu olhar — criam uma fricção controlada. Não para forçar a entrada, mas para atrasar a regeneração por frações de segundo.
Ele posicionou a ponta exatamente onde havia marcado apenas com os olhos. Não havia tremor. Nenhuma hesitação.
— Respire normalmente, querida. — pediu a Helena — Se quiser segurar a mão da sua mãe... — aconselhou.
Helena estendeu a mão sem olhar para mim. Eu a segurei por debaixo da minha sem apertar, o braço esticado para dar espaço para Carlisle trabalhar. Não queria eu ser a responsável por um furo impreciso nas orelhas delicadas da minha filha.
A perfuração começou com pressão constante, sem impulso. Carlisle não atravessou a pele de uma vez como minha mente imaginou que iria acontecer. Ele avançou em um movimento contínuo e lento, permitindo que a estrutura da pele híbrida fosse cedendo por reorganização, não por ruptura. Houve um som baixo, quase imperceptível, como quando se atravessa um tecido muito esticado com algo afiado demais. A pele não se avermelhou imediatamente e um segundo, nada aconteceu. Então, uma única área ao redor se tornou rubra antes de voltar ao tom natural. Carlisle já esperava por isso.
Com a outra mão, ele encaixou o brinco oferecido por Alice na extremidade da haste no mesmo instante em que a atravessava completamente. Não houve intervalo. Nenhuma chance de fechamento.
— Agora... — murmurou.
Ele retirou a haste em um único movimento suave, deixando o brinco perfeitamente no lugar. A pele ao redor reagiu de imediato. Vi as bordas do furo se ajustarem ao metal como se o reconhecessem. Não houve inchaço, não houve vermelhidão prolongada.
Helena piscou uma vez.
— Terminou? — perguntou. As sobrancelhas franzidas, o corpinho tenso pela imobilidade.
Carlisle sorriu.
— Terminou. Eles evidenciam seu brilho.
— Você está ainda mais perfeita, minha pequena. — dei-lhe um olhar caloroso, um sorriso largo nos lábios.
Ela sorriu com minhas palavras, levando a mão à orelha com cuidado extremo, tocando apenas a parte externa do brinco.
— É… diferente. — disse — É quente só, e não dói. É como se meu corpo estivesse pensando.
A observação fez Carlisle soltar um leve suspiro satisfeito.
— E está. — confirmou — Está decidindo o que fazer com algo novo.
Ele limpou a orelha com uma gaze estéril, explicando que não para estancar qualquer indício sangue, mas para remover qualquer resíduo que pudesse estimular o fechamento excessivo.
— Nas próximas horas, — explicou para mim — o metabolismo dela vai tentar selar o orifício. O metal do brinco foi tratado para resistir a isso, mas apenas enquanto estiver no lugar.
— E se ela tirar? — perguntei.
— Em minutos, o furo desaparece. Sem cicatriz.
Olhei novamente para minha filha. Para a felicidade no rostinho dela. Para a naturalidade com que aceitava aquele novo detalhe no próprio corpo. Carlisle ajustou o segundo brinco com a mesma precisão. Mesmo processo. Mesmo cuidado. Nenhuma diferença entre um lado e outro, uma simetria absoluta. Quando terminou, ele se afastou num passo largo, observando o resultado como um procedimento bem-sucedido com respeito.
— O corpo dela não foi ferido. — disse, finalmente — Foi convencido.
Apertei gentilmente a mão de Helena mais uma vez, sentindo o calor que emanava.
— Obrigada, — falei, com firmeza — por respeitar isso.
Ele inclinou a cabeça.
— Helena não é um experimento. — respondeu — É uma pessoa. Sempre foi.
Olhei para minha filha. Para o pequeno ponto de luz brilhante nas orelhas. Para a forma como ela se observava no reflexo do vidro, curiosa, consciente que aquele brinco não era um adorno para nós. Era um marco. Uma escolha feita com ciência, cuidado e, acima de tudo, respeito.
Carlisle se afastou, pedindo licença e afastando os itens usados para o descarte próximo das prateleiras. Foi então que Alice e Rosalie se aproximaram. Não juntas de imediato, cada uma respeitando o ritmo da outra. Rosalie trazia nas mãos uma pequena peça de joalheria que eu nunca tinha visto antes. À primeira vista, me parecia um objeto ornamental, quase antigo, moldado em metal claro, com arabescos finos nas bordas, quando ela girou levemente o pulso, percebi: era um espelho.
Alice parou à frente de Helena, pequena como era, acabou ficando na altura dos olhos dela, o sorriso suave, contido, nada da sua euforia habitual.
— Posso mostrar? — perguntou com um pouco de suspense na voz.
Helena olhou primeiro para mim. Assenti firmando o sorriso. Rosalie então inclinou o espelho com cuidado absoluto, ajustando o ângulo para que Helena pudesse ver o próprio rosto de perfil.
O efeito foi imediato.
Os olhos da minha filha se arregalaram apenas um pouco não por surpresa exagerada, mas por reconhecimento. Ela levou a mão à orelha direita, tocando o brinco com a ponta dos dedos, e depois olhou de novo. Girou levemente a cabeça, observando como a joia acompanhava o movimento.
— Sou eu… Brilhante. — murmurou, mais para si do que para nós.
Alice sorriu, mas não disse nada. Rosalie manteve o espelho firme, como quem sustenta algo precioso demais para tremer.
— Ficou delicado. — comentou Helena, com uma seriedade que não combinava com a idade — Não pesa.
— Porque foi feito para meninas como você. — respondeu Rosalie, baixo. Não houve vaidade na voz dela.
Helena voltou a se olhar. Mais uma vez. E outra. Havia algo diferente agora em sua postura. Não era vaidade. Era apropriação. Como se aquele pequeno brilho nas orelhas ajudasse a organizar quem ela era naquele instante.
Alice se movimentou primeiro.
— Vamos deixar vocês quietas. — disse suavemente.
Rosalie fechou o espelho e o entregou a Helena por um breve segundo, permitindo que ela o segurasse sozinha. Depois o recolheu com um aceno silencioso. Um sorriso belo nos lábios.
As duas se afastaram sem mais palavras. Nenhum comentário. Nenhuma celebração. Apenas passos leves saindo do consultório, a porta sendo fechada com cuidado. Carlisle permaneceu junto à estante, de costas, como se observasse os livros, mas eu sabia que ele estava apenas garantindo que aquele momento fosse só nosso.
Helena abaixou o olhar para as próprias mãos.
— Mamãe… — chamou, baixo.
— Estou aqui.
Ela se virou para mim, os olhos grandes, brilhando de um jeito que não tinha nada a ver com luz do cômodo.
— Agora eu pareço… completa para mim.
Meu peito apertou, mas não cedeu à emoção. Aproximei-me e me inclinei à frente dela, segurando seu rostinho com as duas mãos, o polegar tocando de leve a base da orelha recém-perfurada. Estava em brasas. O que deveria ser um leve detalhe, como se estivesse morna, levando em consideração a temperatura natural do seu corpo.
— Você sempre foi, filha. — respondi — Mas às vezes a gente precisa se ver mais vezes assim, para lembrar.
Ela me abraçou então. Se aninhou contra mim com cuidado, como se respeitasse o próprio corpo renovado, e ficou ali, respirando devagar.
— Obrigada por deixar, mamãe. — murmurou.
Fechei os olhos.
— Obrigada por me pedir.
Ficamos assim por alguns segundos longos, silenciosos, enquanto o mundo parecia suspenso naquele pequeno escritório, entre livros antigos, ciência impossível e um amor que não precisava de explicação. Quando levantei o rosto, Carlisle havia se afastado ainda mais, praticamente invisível, como se entendesse que algumas curas não eram da responsabilidade dele. E nesse instante, com minha filha nos braços e dois pequenos pontos de luz refletindo quem ela estava se tornando, soube: não foi apenas por um brinco. Foi por um momento em que Helena se viu. E eu tive o privilégio de estar ali para testemunhar.
A porta do escritório se fechou atrás de nós com um som suave, o corredor da casa pareceu diferente ao nos receber. mais claro, mais vivo, como se algo tivesse sido reorganizado ali dentro e agora se espalhasse silenciosamente pelos espaços. Helena caminhava ao meu lado, os dedinhos entrelaçados aos meus, o rosto erguido com uma serenidade nova, não orgulhosa, apenas consciente.
— Você sente mais alguma coisa diferente? — perguntei, baixo, inclinando-me um pouco para ela.
Ela pensou antes de responder.
— Sinto que todo mundo vai ver. — disse — Mesmo que não olhem para os brincos.
Sorri.
— Isso se chama presença, filha.
Ela assimilou a palavra como quem guarda algo importante. Assim que dobramos o corredor, fomos recebidas por vozes suaves e o som distante de tecido sendo movimentado. Alice estava próxima da escada, ajustando algo no próprio pulso, e foi Esme quem nos viu primeiro. Ela vinha da sala principal, trazendo uma manta dobrada nos braços, e parou no meio do passo ao nos encontrar. O olhar dela percorreu meu rosto rapidamente, como sempre fazia, antes de descer para Helena e seu olhar então subiu, fixando-se nas orelhinhas dela.
Esme levou uma mão ao peito num gesto espontâneo, quase maternal demais para ser contido.
— Oh… — escapou-lhe num sussurro.
Helena inclinou a cabeça de leve, como se oferecesse o detalhe à observação.
— Eu pedi, — disse, antes que qualquer pergunta fosse feita — e a mamãe deixou.
Esme se aproximou com cuidado, como se estivesse diante de algo recém-nascido.
— Ficou lindo em você. — disse, com a voz aquecida — Não só bonito… — corrigiu-se — Combina com você.
A palavra pareceu tocar Helena de um jeito especial. Ela sorriu pequeno, satisfeito.
— Eu gostei. — respondeu, simples.
Foi então que Hilary apareceu, ela vinha correndo pelo corredor, um dos sapatinhos frouxos quase escapando do pé, com um brinquedo nas mãos. Parou abruptamente ao nos ver, os olhos atentos em nós três.
— Mamãe? — chamou.
Ajoelhei-me rapidamente, abrindo os braços.
— Vem cá.
Hilary se aproximou, mas antes de se jogar em mim, olhou para Helena. O olhar curioso subindo pelo rosto da irmã até encontrar o brilho discreto nas orelhas. Os olhos se arregalaram. O reconhecimento foi imediato.
— Brilhinhos… — murmurou, dando um passo mais perto.
Helena se abaixou até ficar na altura dela.
— São meus. — disse, sorrindo com entusiasmo — Iguais aos seus. Só que feitos pra mim.
— Bonito, Nena. Então tá. — concluiu, satisfeita.
E então, como se isso resolvesse qualquer dúvida no mundo, sorriu e voltou a se apoiar em mim por um instante para poder ajudar o sapatinho por si só e voltou a brincar, satisfeita demais para carregar qualquer ciúme. Um riso baixo ecoou do outro lado da sala. Emmett estava apoiado no braço do sofá, os braços cruzados, observando a cena com um sorriso amplo. Helena seguiu à minha frente para acompanhar os passos da irmã.
— Uau! — comentou — Tá crescendo rápido, hein Gatinha?
Helena cobriu a boca, sem conseguir conter o riso que escapava, assentindo para ele e virando a cabeça de um lado para o outro, mostrando-os, Jasper surgiu logo atrás dele, silencioso como sempre. Não disse nada de imediato. Apenas observou Helena por alguns segundos, a postura, a respiração, o equilíbrio emocional.
— Ela está… centrada. — comentou, por fim, dirigindo-se a mim — Isso fez bem a ela.
Assenti. Emmett se aproximou mais um pouco e se agachou para ficar na altura de Helena.
— Gostou mesmo? — perguntou.
— Não só gostei. Eu amei! — respondeu ela, firme.
— Então é isso que importa.
Ele piscou para ela e se afastou, respeitando o espaço como poucos esperariam dele. Rosalie, encostada à parede próxima, também percebeu. Cruzou os braços devagar, avaliando, e assentiu quase imperceptivelmente, como quem aprova algo bem-feito. Esme estendeu a mão para mim, apertando meus dedos com carinho.
— Você fez o certo, minha querida. — disse, baixo — Muito certo.
Respirei fundo, sentindo o peso bom daquela confirmação. Firmei nossa troca de olhares, deixando que o meu “obrigada” a alcançasse. E enquanto o murmúrio da casa retomava seu ritmo natural, Alice se aproximou mais um pouco.
— A Bebê da mamãe e a Nena tá binado! — Hilary comentou quando a irmã se sentou junto dela entre os livros e brinquedos.
Helena exclamou algo alegre para ela, pedindo mais uma vez naquela noite para que eu registrasse esse momento entre elas. Enquanto caminhávamos em direção onde as fotos seriam feitas, percebi algo simples e definitivo: Helena não tocava mais nos brincos, eles já faziam parte dela.
E eu caminhei ao lado das minhas filhas, estendendo o celular para Alice, que se projetara atrás de mim como uma sombra.
— Tia Alice, depois eu quero uma só minha com a Hili, e depois com toodo mundo! — Helena foi clara com seu pedido, olhando ao redor — E ela não poderá ser hoje... Está faltando muitos.
Alice riu como sinos agitados, e moveu as mãos instruindo-nos nas posições.
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As duas já dormiam quando o corredor da mansão finalmente sossegou. Encostei a porta do quarto onde Hilary repousa com cuidado extremo, girando a maçaneta apenas o suficiente para não fazer ruído. Quando me afastei pelo corredor, passos leves, os pés tocando o tapete frio, eu ainda sentia o corpo em estado de alerta, aquele cansaço bom, cheio, que só um dia inteiro com elas conseguia provocar.
A porta de Alice se abriu só o suficiente para que o rosto dela surgisse, iluminado por aquela expressão travessa que nunca vinha sem motivo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Amberli. — ela murmurou — Olha o celular quando entrar no seu quarto.
Inclinei a cabeça, curiosa.
— O que foi?
— Te mandei uma coisa, um presente. — o sorriso dela se alargou — De hoje cedo. Eu filmei sem você perceber. Achei que você ia querer guardar isso.
Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, ela já tinha fechado a porta, deixando para trás apenas o eco do sorriso dela. Entrei no meu quarto e encostei a porta com cuidado. A lembrança do dia inteiro parecia pairar no ar, misturada ao cheiro leve de sabonete infantil e açúcar. Peguei o celular sobre a cômoda. A notificação ainda estava ali.
Um vídeo.
Sentei-me na beirada da cama antes de abrir. A gravação começava por entre a fresta da porta. Eu aparecia de costas no início, os pés afundando no colchão, até que as duas surgiam, uma de cada lado, as mãos pequenas presas às minhas. Pulávamos juntas, desalinhadas, rindo alto demais, como se o mundo tivesse se resumido àquele quarto.
O som do meu riso me arrancou uma gargalhada curta, quase incrédula. Levei a mão ao rosto, balançando a cabeça devagar.
— Meu Deus… — murmurei para mim mesma.
Assisti de novo. Depois mais uma vez.
Quando o vídeo terminou pela terceira vez, o silêncio voltou a se instalar e foi nele que uma ausência se fez notar, e senti a falta. Não uma falta urgente, mas profunda. A ausência de alguém que deveria ter visto aquilo acontecer ao vivo.
Cole devia ter rido disso. Devia ter estado ali com a gente durante à tarde, talvez sentado no chão, talvez fingindo que não estava com medo de que alguém se machucasse, mas sorrindo daquele jeito contido que ele tinha quando algo o tocava fundo demais.
Ergui os olhos para o ambiente. O quarto pareceu maior do que antes.
Deixei o celular por um instante e respirando fundo, comecei a preparar o ambiente para me deitar, tentando organizar também os pensamentos, tirei os brincos com cuidado e passei a desarrumar a cama com movimentos lentos, quase cuidadosos demais. Estendi o edredom, alinhei os únicos dois travesseiros que uso para dormir, como se isso pudesse organizar também o turbilhão silencioso dentro de mim. O quarto estava quieto agora, um contraste estranho depois de um dia tão cheio de risadas, passos pequenos correndo pela casa, vozes misturadas.
Mas a imagem persistia.
Peguei o celular da mesinha de cabeceira e me sentei na beirada da cama. Por um instante, fiquei apenas olhando para a tela apagada. Sentir falta do Cole vinha assim: manso, inesperado, ocupando os espaços vazios.
Desbloqueei o celular, já sabendo o que faria quando já estava deitada, as luzes do quarto reduzidas ao mínimo. O edredom pesado repousava sobre minhas pernas, mas meu corpo ainda parecia desperto demais para dormir. O dia ainda não tinha terminado completamente ele precisava chegar até a quem não esteve ali.
Escrevi.
“Como foi o seu dia fora?”
“Já está livre agora?”
Cole não estava por perto. Geograficamente por perto. Ele estava em uma viajem breve, apenas por questões contratuais, porém isso não me deixava menos ansiosa para vê-lo novamente.
Sua resposta demorou alguns minutos. Tempo suficiente para eu abrir a galeria do celular. Meus dedos deslizaram pelas fotos como se pudessem tocar o dia outra vez: elas pulando no colchão, os rostos manchados de tinta na sala, o cheiro de gengibre ainda parecia preso à memória quando o celular vibrou. As mensagens chegavam uma seguida da outra.
“Finalmente.”
“Boa noite, Lee.”
“Estava esperando você aparecer.”
“Você está bem?”
“As meninas estão bem?”
“Acabei de sair de mais uma reunião interminável.”
“Cansativo, mas produtivo!”
“Teve renovação de contrato.”
“E o seu? Fiquei pensando em vocês o dia todo.”
Sorri sozinha.
“Boa noite!”
“Caramba!”
“Contrato estendido é sempre algo bom para a empresa!”
“Eu espero que esse seja!”
“Eu e as meninas estamos bem”
“Aqui, hoje foi um daqueles dias que passam rápido demais.”
“A casa ficou...”
“Viva e muito colorida!”
“Cheirosa também!”
A resposta veio rápido, como se ele já estivesse à espera.
“Isso soa perigosamente como “eu perdi alguma coisa importante”.
“Porra, Lee”
“O que eu perdi?”
“??”
Expirei pelo nariz, um sorriso pequeno nos lábios. Selecionei as fotos e os vídeos com cuidado, quase cerimoniosa. O momento em que Helena ensinava a Hilary, nós três vestidas com pijamas natalinos sob medida, as risadas que os vídeos mal conseguiam conter.
Enviei tudo de uma vez.
“Olha tudo o que você perdeu hoje!”
O silêncio que se seguiu foi até que curto, mas denso. Quando a resposta veio, eu quase pude imaginá-lo parado, olhando cada imagem com atenção.
“Nossa”
“Lee”
Meu peito se apertou.
“Caralho, nunca achei que precisava ver vocês assim!”
“Todas pulando no colchão?”
“A felicidade”
“É contagiante”
“As mãos sujas de tinta…” -risos
“Lee”
“Essas tranças”
“Você fez isso sozinha?”
Passei o polegar na tela, descendo as mensagens.
“Esses pijamas… meu Deus.”
“Está linda!”
Os vídeos foram carregados por último. A reação veio logo depois.
“O riso delas.”
“A sua risada.”
“Lee”
“Esse som devia ser proibido de causar tanta saudade.”
Engoli em seco.
“E os brincos da Helena…”
Digitei devagar.
“Ela nem chorou.”
“Ela foi tão corajosa. Tão linda.”
“Nós três estamos combinando agora.”
A resposta dele demorou um pouco mais, como se tivesse sido pesada antes de ser enviada.
“Eu devia ter estado aí.”
“Só pra sentar no chão e fazer parte disso.”
“Eu deixaria a Hilary pintar minha calça bem de boa!” — risos
Puxei o cobertor até o peito, sentindo o cansaço finalmente me alcançar.
“Você perdeu um caos organizado hoje.”
“Sentimos sua falta também.”
Alguns segundos depois:
“Eu vi.”
“E senti.”
“Eu senti a de vocês o dia inteiro.”
“Senti sua falta.”
“Promete que da próxima vez não vai guardar tudo só em fotos?”
Fechei os olhos por um instante antes de responder.
“Prometo.”
Deixei o celular ainda quente na palma da mão. O quarto continuava silencioso, mas já não parecia tão vazio.
“As meninas já dormiram.”
“Dá pra acreditar?!”
“Quinze minutos mais cedo que ontem!” — risos
“A casa ficou quieta… estranha.”
“Imagino.”
“Cuidado”
“Quietude demais costuma denunciar saudade.”
Revirei os olhos, mesmo sem ele poder ver.
“Aham”
“Não sei porque estou surpresa”
“Você é muito observador.”
“Ou talvez eu esteja só aprendendo a ler você.”
“E olha que nem estou tão perto assim”
Respirei fundo, sentindo aquele calor discreto se espalhar no peito.
“Esses vídeos”
“As fotos”
“Mexeram comigo”
“Assisti de novo”
“Mais de uma vez, confesso.”
“Hilary claramente herdou seu talento pra bagunça.”
Ri baixo.
“Ei!”
“!!!!”
“Elas só estão exercitando a criatividade!”
“Claro.” — risos
“E você liderando a revolução, pulando no colchão.”
Balancei a cabeça, sentindo o sorriso crescer.
"Você devia estar aqui pra ver.”
“Foi muito divertido”
Houve uma pequena pausa antes da resposta dele.
“Eu sei.”
“Mas fiquei orgulhoso daqui.”
Engoli em seco. Digitei rápido:
“De quê?”
“De você.”
“Da mãe que você é.”
“Da forma como elas confiam em você sem pensar duas vezes.”
Meus dedos pairaram sobre a tela por alguns segundos. Aquilo me atingiu num lugar fundo do coração, silencioso. O ritmo da conversa mudou ali. Não foi abrupto, foi como se ambos tivessem diminuído o passo ao mesmo tempo. Fiquei olhando para a tela por alguns segundos antes de escrever, o quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca do abajur, e o silêncio da mansão parecia mais denso.
“Ainda acordado?”
Perguntei quando percebi que não havia respondido mais nada. A resposta veio quase imediata.
“Sempre que é você.”
Sorri. A troca de mensagens seguiu leve por alguns minutos. Enviei mais uma das fotos, uma que eu ainda não tinha mandado. Hilary deitada no tapete, cercada de giz de cera, Helena com a mão erguida mostrando a mamadeira especial, e outra dela dormindo. Ele comentou das meninas riu das manchas de tinta; elogiou os desenhos e disse que Helena tinha cara de quem sabia exatamente o que queria; brincou que Hilary estava claramente planejando dominar a casa inteira antes dos três anos. Fez piada de mim, dizendo que eu devia ter superpoderes escondidos para conseguir dar conta de tudo aquilo sozinha.
Eu respondi como sempre: tentando minimizar. Ele, como sempre, não deixou.
“Você é uma mãe extraordinária, Amberli.”
“E não digo isso por gentileza.”
“Hoje foi um dia… cheio.”
“Eu sei.”
“Deu pra sentir daqui.”
“Fiquei cansado só de ver!” -risos.
Apoiei o celular contra o peito por um instante antes de responder.
“Às vezes eu só faço o que dá.”
“E ainda assim faz mais do que imagina.”
Eu ri baixinho, sem acordar ninguém.
Mas, pouco a pouco, as respostas ficaram mais espaçadas. Não por falta de assunto, era como se ambos estivéssemos escolhendo melhor cada palavra. Suspirei e escrevi, antes que a coragem me abandonasse.
“Senti sua falta hoje”
“De verdade”
A resposta demorou um pouco mais.
“Eu também.”
“Mais do que eu costumo admitir.”
Meu coração bateu mais lento, pesado. Ele continuou.
“Acho que a gente anda matando a saudade do jeito errado”
“Sempre em pedaços.”
“Talvez a gente esteja se acostumando com a ausência” arrisquei.
“Ou”
“Talvez a ausência esteja começando a nos incomodar.”
“E acho que a gente já parou de fingir que isso é só costume.”
Respirei fundo.
“Cole”
Ele continuou, antes que eu dissesse qualquer coisa.
“Eu estava pensando”
“A gente sempre se encontra entre os intervalos.”
“Entre uma coisa e outra.”
“Nunca só… nós.”
Li aquilo devagar.
“Ah”
“A gente combinou de ir devagar. No meu tempo.”
“Você”
“Quer mudar isso?”
Houve uma pausa mais longa dessa vez.
“Se você quiser”
“Sem pressão”
“Sem expectativa além da companhia.”
Meu peito se apertou, entendendo.
E ele escreveu antes mesmo que eu continuasse.
“Eu sei”
“Eu não quero apressar nada”
“Só… tornar claro.”
Franzi a testa.
“Então”
“Claro, como?”
“Como”
“Assumir que o que a gente está vivendo já começou.”
Meu coração bateu mais forte e deixei que continuasse a digitar.
“E”
“Eu queria oficializar isso de um jeito simples”
“Um encontro.”
“De verdade.”
“Na terça-feira”
“Você e eu.”
Fechei os olhos. Pensei no quanto aquela palavra ainda parecia grande demais para mim e, ainda assim, o quanto soava certa dita por ele. O celular vibrou mais:
“Nada que te tire do eixo.”
“Só nós dois.”
Pensei nas meninas dormindo seguras. Pensei em mim mesma, naquele quarto silencioso, sentindo falta demais de alguém que já ocupava espaço muito dentro de mim. Pressionei meus lábios um no outro quando digitei.
“Eu quero”
“Se for simples assim.”
A resposta veio quase imediata.
“Então deixa eu fazer direito.”
Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer, o celular começou a vibrar na minha mão. O nome dele iluminou a tela.
Cole estava ligando.
Atendi com o coração acelerado.
— Oi. — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Do outro lado, o silêncio durou só um segundo. O suficiente para eu senti-lo respirar.
— Eu só queria ouvir você dizer, — ele falou, com a voz firme e suave ao mesmo tempo — que aceita sair comigo. No dia quinze, terça-feira.
Sorri, um sorriso que ele não podia ver, sentindo algo se alinhar dentro de mim.
— Eu aceito, Cole.
Houve um suspiro contido.
— Então é um encontro. — ele disse, quase solene — Só nós dois. Sem pressa. Sem ruído.
Apoiei a cabeça no travesseiro, olhando para o teto escuro.
— Eu gosto disso. — respondi — Do jeito que você disse... Eu amo de como você respeita meus tempos.
— E eu amo você. — ele respondeu, simples. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável — Eu só queria dizer em voz alta, — ele falou, com calma a voz ficando mais grave — que eu estou com você. Do jeito que você puder. Do jeito que você quiser.
— E eu estou deixando você ficar. — respondi, sincera, o coração batendo forte dentro do peito.
— Então é um encontro. — concluiu — Um jeito nosso de dizer que isso já é real.
— É, sim. — confirmei — Já é.
Ele respirou fundo do outro lado da linha.
— Boa noite, Lee.
— Boa noite, Cole.
Quando a ligação terminou, o quarto voltou ao silêncio. Mas agora era um silêncio diferente. Cheio de promessa. Cheio de algo novo e eu não senti vontade de fugir disso. Deixei o celular na mesinha ao meu lado e fechei os olhos.
O quarto continuava o mesmo.
Eu não.
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