Sempre Em Minha Vida
8 Capítulo 08 — O Encontro
Rosalie finalizou, no caixa, o pagamento pelo sorvete que ela e Joshua consumiram. Pensava em voltar para casa quando alguém se aproximou por detrás de suas costas, pegando-a de surpresa ao tocar sua cintura com a mão. Virou-se depressa, imaginando quem poderia ser, e acabou se deparando com Royce, sorrindo, próximo demais.
A ousadia na abordagem causou desconforto.
— Royce — a palavra deixou seus lábios com um leve tom de desagrado que foi impossível conter. Chegou um passo para trás, buscando espaço pessoal.
— Não esperava encontrar você aqui. — O sorriso permaneceu nos lábios dele. — Estou feliz que isso tenha acontecido. Aceita de dividir uma mesa comigo?
Rosalie lançou um olhar na direção do balcão de atendimento.
— Na verdade, acabei de pagar pelo sorvete que Josh e eu tomamos. De toda forma, agradeço seu convite.
A resposta negativa deixou Royce desanimado. Tentou disfarçar, olhando em volta, procurando pela presença de Joshua. O menino conversava com Summer ao lado da mesa onde a família da garota ocupava. Os dois se mostravam animados, falando a todo tempo.
— Você e Joshua já almoçaram? — tentou mais uma vez.
— Ainda não…
Ele não deu a chance de ela terminar de falar, tentando outra vez um convite.
— Venham os dois almoçar comigo. Posso deixar o sorvete para mais tarde. Podemos ir a um restaurante pertinho daqui. O que você escolher. Então, o que me diz?
— Desculpe — pediu, sem graça. — Josh saiu do treino agora a pouco. Ainda está com o uniforme do futebol. É melhor levá-lo para casa, para tomar um banho, e descansar um pouco.
Como ouvisse a mãe chamar seu nome, Joshua correu para junto dela.
— Você está nos perseguindo? — disparou num tom firme de quem estava acusando.
— Josh… — Rosalie repreendeu, envergonhada com sua atitude.
— Desde que voltou, ele fica aparecendo nos lugares que a gente está — Joshua fez questão de expor seu incomodo em relação à presença do ex-namorado da mãe.
— Isso não foi legal, mocinho. Peça desculpa a Royce.
Nenhum pouco disponível a pedido de desculpas, Joshua cruzou os braços junto ao peito.
— Vamos, Joshua, estou esperando.
O menino bufou deixando claro que não queria fazer isso.
Royce olhava para ele de cara fechada. E toda vez que olhava para Rosalie, a expressão em seu rosto mudava com um sorriso amigável.
— Ele não precisa pedir desculpa. Está tudo bem, Rose.
— Precisa, sim. Está sendo malcriado. — Olhou firme para o filho. — Peça desculpa, Joshua.
Percebendo que a mãe não o chamou de Josh, ficou ainda mais zangado com a presença de Royce. Sabia que se não fizesse o que estava pedindo, estaria encrencado.
— Desculpe — pediu entre dentes.
— Faça do jeito certo. — Rosalie exigiu.
Joshua descruzou os braços. E, com um sorriso forçado, tornou a pedir:
— Me desculpe Royce.
— Está tudo bem. — Royce estendeu a mão para tocar na cabeça dele, e Joshua deu um salto para trás, evitando o contato.
— Vamos, Josh! — Rosalie segurou sua mão. E ao olhar para Royce, completou: — Obrigada pelo convite. Quem sabe numa próxima sentamos para tomar um sorvete. — Se virou para sair com o filho, evitando que a conversa se estendesse.
Rosalie não percebeu, mas Royce colocou o pé propositalmente no caminho de Joshua. O tombo que o menino levou só não foi maior porque estava segundando na mão dela.
— Tenha mais cuidado, filho — comentou depois de ajudar ele a levantar. Analisou todo ele, dos pés a cabeça, se certificando que não tinha se machucado.
Joshua olhou para trás, irritado, sabendo bem o que tinha acontecido.
— Foi ele — acusou.
No mesmo instante, Royce se virou puxando conversa com a moça no balcão.
— Ele o quê?
— Que colocou o pé para eu cair. Esse bobão.
— Por que ele faria isso, Josh?
— Porque ele não gosta de mim.
— Lá vem você de novo com isso.
— Mas é verdade, mamãe.
— Ele foi gentil nos convidando para almoçar e até tomar sorvete.
— Ainda bem que você não aceitou. Ele é falso.
Rosalie acabou rindo da sinceridade exagerada do filho. Para depois bagunçar seus cabelos com a palma da mão.
— Você é fogo, sabia?!
— Fogo, fogo, fogo — Joshua repetiu enquanto deixavam a sorveteria.
— As pessoas vão achar que a sorveteria está pegando fogo — ela lembrou. — Pare com isso, vida.
— Você não vai voltar a sair com ele, vai? — Joshua deixou de lado a história do fogo, para tirar a dúvida que o atormentava. — Não aceite, mamãe. Mesmo que ele insista, tipo, muito.
— O que eu faço com você, Josh?
— Continue me amando que já está de bom tamanho.
Rosalie o puxou para perto, querendo esmagá-lo num abraço apertado.
— Você é uma figura.
[…]
— Vai para o banho — Rosalie avisou assim que entraram em casa.
Joshua largou a mochila no chão, logo ao lado da porta.
— Tá bom.
— Volta aqui, mocinho. Não é aí que você deixa a mochila. Nem essa, nem a da escola, por tanto…
O menino voltou correndo, colocando no rosto sua melhor expressão de esquecimento.
— Foi mal, mamãe.
Enquanto Joshua tomava banho, ela foi adiantando o almoço deles. Quando o menino voltou, minutos mais tarde, usava roupas limpas e seus cabelos úmidos cheiravam a maçã verde.
— O almoço já está pronto, mamãe?
Rosalie se movimentou nas proximidades do fogão. Mexeu o conteúdo de uma das panelas com a colher de silicone, e foi terminar de pôr a mesa.
— Só mais uns minutinhos e estará pronto.
— A gente podia ter ido almoçar na vovó. Ou mesmo comer um lanche na rua, seria muito mais rápido. E fácil.
— Você sabe o que penso sobre lanches. E a sua avó já deve estar de saco cheio da gente. Estamos lá praticamente toda hora.
— Não está, não. — Joshua puxou a cadeira e se sentou, sacudindo os pés o tempo todo.
— Como você sabe?
— Porque ela ama a gente.
Rosalie voltou e pegou os talheres na gaveta ao lado do fogão.
— Tenho uma notícia para te dar. — Organizou os talhes na mesa, em seguida, olhou no rosto de Joshua. — É sobre o seu pai.
A notícia o interessou, Joshua segurou o garfo prestando total atenção a ela.
— O que é?
— Advinha só? — Joshua não soube o que dizer, por isso continuou esperando. — Seu pai vem amanhã para te ver.
Joshua saltou da cadeira no chão. O garfo deslizou no assoalho da cozinha e foi parar ao pé da ilha. Entusiasmado, correu por toda a cozinha falando para quem quisesse ouvir.
— Meu pai vem me ver. Meu pai vem me ver. Meu pai vem me ver…
No primeiro momento, Rosalie se assustou com a forma inesperada com que reagiu à notícia. No final, acabou rindo com ele.
— Vem dançar, mamãe. — Joshua chegou perto dela e segurou suas mãos, conduzindo-a ao espaço entre a ilha e a pia da cozinha.
Contagiada pela alegria do filho, Rosalie se viu fazendo a dança da felicidade com ele.
— Festa dançante — se alegrou Joshua. — Festa dançante, festa dançante.
Os dois dançaram, mesmo sem música. Um leve cheiro de queimado chamou atenção pouco tempo depois de eles começarem dançar. Rosalie correu para tentar salvar o almoço e evitar que o alarme de incêndio fosse acionado.
[…]
Joshua teve dificuldades para pegar no sono. Ansiedade e euforia não permitiam relaxar. Quando finalmente conseguiu deixar ele sozinho no quarto, Rosalie voltou à cozinha para organizar a bagunça. Aproveitou para colocar roupas na máquina para lavar. Depois de tudo pronto, finalmente pode subir e tomar um banho. Contudo, ainda restavam as roupas para recolher na secadora. Achou melhor fazer isso de uma vez, já que o domingo seria um tanto tumultuado com a chegada de Emmett.
Ficou no sofá da sala separando uniformes, cuecas e meias de Joshua do restante das roupas. Ouviu passos se aproximando, quando virou para olhar, Joshua estava de pé, usando um dos seus pijamas com estampa de dinossauros. Os cabelos, bagunçados. Esfregava uma mão no rosto como não suportasse a luz na sala.
— Não consigo dormir — gemeu.
Rosalie estendeu a mão convidando-o sentar ao seu lado no sofá.
— Me conte, o que está acontecendo?
Joshua subiu no sofá, encostando-se a ela. A mãe ajeitou seus cabelos bagunçados com as pontas dos dedos, afastando de seus olhos.
— Eu fico pensando que quero que chegue logo amanhã, aí o sono vai embora.
— É normal, você está ansioso.
— Quero ver meu pai logo.
Rosalie beijou no alto de sua cabeça.
— Eu sei.
O olhar de Joshua encontrou o seu.
— Você não está ansiosa? — pediu.
— Um pouco, talvez.
— Eu aposto que ele está, também, ansioso. Você não acha que meu pai está ansioso?
— Eu acho que sim.
— Ele está, sei disso.
— Quer ficar aqui e assistir alguma coisa com a mamãe? Quem sabe assim você não relaxa e dorme.
— Pode ser um desenho?
— Claro. Por que não?! — Ela pegou o controle da televisão, e Joshua ajudou escolher o que assistir.
[…]
Emmett se encontrava no porão, sentado no mesmo lugar onde Rosalie se sentou durante a conversa que revelou sua paternidade. Já tinha perdido as contas de quantas vezes olhou as fotos de Joshua durante todo o dia.
Isabella e o marido já tinham voltado para casa deles com a filha. Carmen e Eleazar estavam no quarto deles há bastante tempo.
Não conseguia deixar de pensar no dia de amanhã. Não via a hora de estar frente a frente com Joshua e poder abraçá-lo. De poder falar com ele. E, quem sabe, correrem juntos atrás da bola de futebol no jardim. Não negava que a ideia de voltar ver Rosalie fosse interessante, porém, a irritação ocasionada por suas mentiras, permanecia igual.
Horas se passaram sem que saísse do porão. Depois de muito pensar, pegou no sono ali mesmo no sofá de couro.
[…]
Rosalie despertou com o sol saindo no horizonte. A televisão ainda estava ligada. Nem mesmo reparou que desenho passava quando alcançou o controle e a desligou. Sentiu o alívio que a ausência do barulho proporcionou aos ouvidos.
Levantou com cuidado para não acordar Joshua. Usou um dos cobertores limpo do cesto para cobri-lo.
Deu um jeito de prender os cabelos no alto da cabeça sem o auxílio de um elástico, e foi até o banheiro. Foi só o tempo de tomar um banho e se vestir, Joshua acordou. Ele entrou em seu quarto correndo, sem bater na porta, dizendo que era o dia de o pai chegar.
Mandou-o para o banho e deixou uma roupa nova em cima da cama dele. Arrumou os cabelos duas vezes, porque Joshua insistiu em querer deixar do seu próprio jeito. Ele não quis tomar café da manhã. Somente depois de muita insistência, aceitou um pouco de cereal com leite, deixando um restinho no fundo da tigela.
Não sabia se quem estava mais ansioso era o filho ou mesmo ela. Queria que tudo ocorresse bem no encontro dos dois. Sabia que Emmett não era uma pessoa ruim, contudo, estava magoado, e mágoa, às vezes, fazem pessoas cometerem erros.
[…]
O ponteiro do relógio se aproximava das dez da manhã e nada de Emmett chegar. Joshua já tinha feito tantas vezes o mesmo trajeto até a janela que dava para o jardim da frente que, se Emmett demorasse mais meia hora para chagar, o assoalho acabaria gasto naquele trajeto.
Começava se preocupar que, com intenção de puni-la, afinal estava furioso quando saiu da casa dos pais dele no outro dia, Emmett não aparecesse. Alertou a si mesma de que ele não era essa pessoa. Buscou esperança no fato de o dia ainda está começando. E de ele não ter dado um horário estimado para sua chegada.
Joshua levantou mais uma vez. Rosalie o seguiu com o olhar, estava com medo que se magoasse. O celular lhe causou um sobressalto ao começar a tocar, obrigando-a deixar de olhar Joshua um instante.
— É o meu pai? — Joshua se precipitou, virando o rosto para olhar em sua direção. O olhar triste, de repente, se tornou esperançoso.
Ela alcançou o aparelho, esperando, assim como Joshua, que fosse Emmett.
— É a vovó — contou ao menino, que voltou quase que no mesmo instante ficar com a expressão triste no rosto. Poucas vezes o viu assim. Esforçava-se dia após dia, desde seu nascimento, para momentos como esse não acontecer. — Oi, mamãe — falou ao telefone, olhando a costas de Joshua enquanto ele espiava pela janela como se o pai fosse surgir a qualquer momento e surpreendê-lo. — Josh, eu vou até à cozinha e já volto — avisou se dirigindo ao cômodo ao lado.
— Tá bom — a resposta veio sem que o menino olhasse para ela.
A voz de Esme soou do outro lado da linha.
— Emmett já chegou?
Rosalie cruzou a cozinha para se apoiar a ilha.
— Ainda não. Josh já está ficando maluco. Não para de verificar na janela se ele está chegando. Não conseguiu dormir bem essa noite. E acordou com os primeiros raios de sol.
— Foi só ele?
— Eu também. Só que no meu caso, por motivos diferentes. Quero que Joshua conheça o pai e que eles se deem bem. Mas agora, estou pensando que, se Emmett não aparecer, vou matá-lo. Ele não pode fazer isso com Josh. Irá magoá-lo profundamente. Ele sonha com esse dia faz muito tempo.
— Não deixe ouvir você dizer que vai matar o pai dele. Sei que não é sério quando diz isso, mas pode confundir a cabecinha dele, ouvir você dizer essas coisas.
— De forma alguma. Jamais diria uma coisa dessas para ele ouvir. — houve uma pausa na conversa. — De verdade, mamãe, eu estou com medo, por Josh.
— Restam algumas horas para o dia acabar, não se desespere ainda. Qualquer coisa me ligue. Ou mande uma mensagem quando o pai de meu neto chegar.
— Se chegar — Rosalie emendou.
— Está sendo muito pessimista. Não estou te reconhecendo.
Um gemido de frustração se fez audível.
— Vá ficar com meu neto. Se lembre de mandar uma mensagem assim que o pai dele chegar.
— Não vou suportar a tristeza de Josh se Emmett não aparecer, mamãe. Já está sendo difícil vê-lo para baixo e agoniado.
— Acredito que Emmett não fará isso. Mas, se acontecer, passo aí depois para ver como estão.
— Está bem.
— Tchau, querida. Tente se acalmar um pouco. Josh percebe e fica mal com isso, também.
Rosalie voltou para a sala com o celular na mão. A porta da frente estava aberta, e Joshua não estava em qualquer lugar onde sua vista alcançasse. Atirou o celular no sofá, correndo para fora.
— Josh! — chamou seu nome ainda no trajeto até lá. Parando no impulso ao vê-lo sentado num dos degraus que antecedia a porta. Levou a mão ao coração sentido as batidas descontroladas no peito. Respirou fundo, uma, duas vezes, tentando se acalmar, antes de se sentar ao lado dele no degrau. — Oi, amor. — Passou o braço em volta dos ombros dele. — Por que está sentado aqui sozinho? Tomei um susto quando não te encontrei lá dentro e a porta estava aberta. Você sabe que não deve sair sem falar comigo antes.
— Desculpe, mamãe, não queria te assustar. — Ele olhava a rua, ainda esperando que o pai chegasse.
Rosalie encostou os lábios em sua têmpora esquerda, depositando um beijo.
— Está tudo bem.
— Acho que ele não vem… o meu pai. Já se passaram muitas horas desde que acordamos.
Rosalie sentiu a tristeza dolorosa em cada palavra dita pelo filho. Desejou, profundamente, que Emmett chegasse.
— E se ele mudou de ideia e não quer mais me conhecer?
— Essa possibilidade não existe. Conhecer você é o que seu pai mais deseja.
— Já são quase oito anos. Ele nunca veio me visitar. Deve ser porque não me ama. Ele nem mesmo telefona para falar comigo.
— Não é isso, vida. Você sempre soube que seu pai te ama.
— Não, eu não sei. Isso foi o que você sempre disse.
— Eu disse por que é verdade.
Joshua a pegou de surpresa ao se levantar.
— Não acho que seja isso.
— Está me chamando de mentirosa?
Ele estava de costas para a rua.
— Não. Só estou dizendo que talvez dissesse isso para me ver feliz, porque sabia que era isso que eu queria ouvir.
Rosalie estendeu a mão, pensando que queria muito um abraço seu. Joshua segurou sua mão parecendo indeciso, ela o puxou para o colo, sufocando o menino com todo seu carinho e afeto.
[…]
Emmett verificava no GPS do carro o endereço fornecido por Rosalie. Segundo constava no aparelho, estava perto.
Numa rua tranquila, o GPS o guiou até a casa de parede de tijolos com uma cerca de madeira pintada de branco. E regadores automáticos no jardim.
A cerca branca o fez lembrar-se da Rosalie do passado, a adolescente apaixonada que, certa vez, mencionou seu desejo em viver numa casa com aquele mesmo estilo de cerca. O desejo se tornou contraditório quando chegou, de um dia para o outro, com a conversa de querer ser livre para conhecer o mundo.
Deveria ter desconfiado, na época, que estava mentindo. O motor do carro ainda estava ligado. Sacudiu a cabeça afugentando os pensamentos. Reparando enfim nas pessoas do outro lado da cerca baixa, sentadas no caminho que levava até a porta de entrada da casa. Ela segurava o menino no colo, na verdade, estava praticamente esmagando com tanto carinho. O garoto era seu filho. Sorriu com esse pensamento. Ficou ansioso para ir até lá e olhar de perto no rosto de Joshua.
Desligou o motor do carro. Estava pronto para conhecer o filho.
[…]
Como sentisse a presença, Rosalie levantou o rosto, olhando sobre os ombros de Joshua. Emmett estava saindo de dentro do carro. Uma onda de alívio tomou seus pensamentos e emoções. Respirando aliviada, conseguiu falar ao ouvido de Joshua:
— Seu pai está aqui, vida.
Os braços de Joshua deixaram seu pescoço dando a impressão de estarem em câmera lenta. Como não acreditasse no que dizia, ele se virou olhando para a calçada, além da cerca branca.
Pai e filho se olharam pela primeira vez.
Joshua saiu do colo da mãe, olhando o homem alto e forte que ela dizia ser seu pai. O pai que desejou por tanto tempo a chance de poder conhecer.
Por detrás da cerca baixa, Emmett olhava o filho com a sensação de que algo em seu coração se modificava. Reconhecendo traços seus e da garota que foi seu grande amor, no garoto.
Não imaginava que pudesse ser tão forte assim o amor de um pai pelo filho. Estava dentro dele. No sangue. Em cada respiração. Independente do passado e do que o futuro reservava, já amava Joshua com todo coração.
Hipnotizado pela presença do garoto, se aproximou do portão.
Joshua não se moveu, assistindo ao pai cruzar o limite entre a calçada e o jardim.
Atrás de Joshua, Rosalie levantou. Esperando. Estudando a reação dos dois.
— É o seu pai, vida — murmurou.
Joshua a olhou sobre o ombro, sem dizer uma só palavra. Voltou olhar a figura grande que cruzava o jardim, abriu e fechou as mãos junto ao corpo.
— Josh, filho?
Os olhos de Joshua se arregalaram. O coração disparou dentro do peito. A voz dele era potente como imaginou que seria.
Emmett deu mais alguns passos à frente. A poucos metros de Joshua, se abaixou, no caminho que se estendia do portão à entrada da casa. Imaginou que, talvez, seu tamanho estivesse intimidando o menino.
— Vem me dar um abraço, filho — pediu.
Joshua voltou olhar no rosto da mãe. Em seu olhar, Rosalie viu espanto, porque seu maior desejo estava se realizando e ele meio que não acreditava. Encontrou também gratidão, por ela tê-lo procurado.
Rosalie meneou a cabeça, sabendo que havia feito por ele o melhor que podia. Agora estava devolvendo a Joshua a chance de conhecer o pai.
Joshua caminhou alguns passos na direção de Emmett como o chão fosse sumir sob seus pés. Parou, olhando outra vez a mãe diante a porta.
Emmett aguardou pacientemente o impacto causado por sua chegada deixar o menino agir.
Joshua deu mais dois passos, em seguida, correu a pouca distância que os separa, se lançando nos braços do pai.
Emmett ficou de pé com Joshua nos braços, apertando-o de volta num abraço desejado pelo menino há um bom tempo. Embora parecesse pulsar como antes, havia algo diferente em seu coração ao conhecer Joshua. Agora que sabia do filho, nada mais seria igual. Nem a ele mesmo.
Tanto ele quanto Joshua estavam com lágrimas nos olhos. Um olhou para outro de pertinho, reconhecendo a herança genética. Reconhecendo um pouco de si mesmo no outro. Acometidos pelo amor singelo de um pai e seu filho.
— Meu filho… — murmurou Emmett.
— Papai… — Joshua respondeu com a cabeça no ombro dele. Os braços em volta dos ombros largos.
Olhando sobre os ombros de Joshua, moveu os lábios agradecendo a Rosalie por tê-lo apresentado. Ela balançou a cabeça, aceitando, entendendo que não podia ser diferente. Nunca teve dúvidas que amaria o filho no momento em que o visse. Emmett sempre foi aberto ao amor.
Levou um tempo para que o abraço de reconhecimento entre pai e filho tivesse um fim. Quando aconteceu, Emmett o colocou de volta no chão e se abaixou para ficar na mesma altura que ele. Tocou o rosto do filho guardando sua imagem na memória e no coração. Passou a mão nos cabelos louros do menino, e sorriu para ele. Joshua sorriu de volta revelando o sorriso faltando alguns dentes de leite, acabando de arrebatar seu coração.
— Você tem furinhos nas bochechas, iguais a mim — comentou o menino.
— Na verdade, você que tem os furinhos nas bochechas iguais a mim. — Sorriu ao repetir a palavra que o filho usou para descrever a semelhança em seus sorrisos.
— A mamãe é apaixonada nesses furinhos — Joshua entregou.
Emmett tornou olhar para ela sobre os ombros de Joshua. Rosalie reconheceu que falam dela.
Joshua continuou:
— Ela nunca cansa de dizer o quanto acha bonito e fofo.
— Desde que a conheci — Emmett deixou de olhar para ela votando olhar no rosto de Joshua —, sempre foi assim. Estava sempre falando desses furinhos em minhas bochechas a cada sorriso.
— Eu sei como se conheceram. Mamãe me contou tantas vezes que eu até já decorei.
Dessa vez, quando olhou para Rosalie, ela desviou o olhar.
— Você é maior que eu imaginei — admirou-se Joshua.
— É mesmo?
— Uhun. E forte também. Quando eu crescer vou ser tão grande forte como você?
— A grandes chances de isso acontecer. Tamanho é quase certo que terá. Quanto a ser forte, isso pode ser resolvido com exercícios físicos e dedicação.
Joshua se mostrou satisfeito com o que ouviu.
— Quer conhecer o meu quarto? — mudou de assunto de repente.
— Com certeza, eu quero conhecer seu quarto. Quero conhecer tudo sobre você.
Joshua segurou sua mão quando se colocou de pé. E o arrastou até a porta onde a mãe estava aguardando.
— O meu pai quer conhecer meu quarto — contou a ela. E o arrastou casa adentro.
— Oi, Rosalie — Emmett a cumprimentou sendo arrastado pelo filho para dentro da casa, onde o menino viveu todo esse tempo longe de sua presença.
Reconheceu, com tristeza, que não a chamou de Rose como costumava fazer no passado. E na casa dos pais dele antes de saber de Joshua. Isso só confirmou que ainda sentia raiva.
Entrou na casa logo após eles terem entrado. Ficou na sala observando Joshua levar o pai até o quarto. Não foi atrás, aquele era o momento deles.
Joshua gesticulou mostrando o interior de seu quarto ao empurrar a porta.
— Este é o meu quarto. — Ele soltou a mão do pai, correndo para junto da estante com livros, troféus e medalhas. — Mamãe já leu quase todos comigo. E estes são todos os meus troféus e medalhas.
Emmett pensou que poderia ter lido com o filho alguns daqueles livros também, mas, devido às mentiras da mãe dele, não foi possível. Assim como desejou ter estado ao lado dele em cada conquista no futebol.
— Que maneiro, filho.
Joshua ergueu o rosto, orgulhoso de suas conquistas.
— Sua mãe me disse que joga no ataque.
— Sou o titular — afirmou.
Emmett se aproximou da estante. O quarto tinha muitas referências a dinossauros e também futebol, desde a decoração aos brinquedos.
Analisou as medalhas e troféus, orgulhoso do filho.
— Eu sinto muito, Josh, até hoje não ter podido te acompanhar nos treinos e durante os jogos.
— Eu treino todos os sábados. Você ainda pode ir. Quando tiver jogo, posso te avisar agora que já sabe quem eu sou.
Emmett afagou seu ombro pequeno.
— Eu vou adorar — a distância não seria problema, pensou. Agora que o conhecia, queria fazer parte da vida de Joshua. Cruzaria o mundo para vê-lo, se fosse preciso. — Eu trouxe presentes — lembrou. — Estão dentro do carro. Vou até lá buscar para você.
— Você era o único presente que queria papai.
Emmett o pegou no colo.
— Nunca mais ficarei longe de você, filho.
— Vai vir morar com a gente?
Emmett o colocou de volta no chão.
— Ainda não sei como vai ser daqui para frente. Até lá, estarei voltando sempre para te ver.
— Não quer ver a minha mãe?
— Sim. Mas ver você é mais importante agora.
— Por que você e a mamãe já se conheciam antes?
Emmett bagunçou os cabelos de Joshua na palma da mão.
— Pode ser.
— Quer ver minhas fotos desde bebê até agora? Tenho um montão delas.
— Eu vou adorar ver todas as suas fotos.
— Vou perguntar a mamãe onde estão.
— Enquanto faz isso, vou buscar seu presente no carro.
Joshua saiu correndo do quarto. Emmett ouviu sua voz ao falar com a mãe na sala.
— Onde estão nossos álbuns de fotografias? Quero que meu pai veja todas elas.
— Estão no meu quarto, na primeira gaveta da cômoda.
— Obrigado, mamãe.
Joshua passou por ele feito um foguete.
— Vou pegar os presentes dele que ficou no carro — Emmett avisou a Rosalie ao cruzar a sala.
— Obrigado por vir.
— Não foi por você que vim.
— Josh estava morrendo de medo de você não aparecer.
— Se não apareci antes foi porque você o escondeu de mim. Hoje, o atraso foi devido ao carro. Estou usando o carro que pertence a minha mãe, tive uns problemas com ele durante a viagem até aqui.
A culpa pesou sobre ela.
— Nada do que eu tenha feito foi com intenção de magoar você ou a Josh.
Emmett sacudiu a cabeça.
— Não importa. Não permitirei mais que Josh sinta minha falta.
— Isso vai fazer nosso filho feliz.
— Incrível que só agora você lembra que ele é nosso. E não apenas seu.
— Emmett…
— Temos muito a falar ainda, Rosalie. Antes quero conhecer meu filho. Quero descobrir do que ele gosta. O que o faz feliz? Quem são seus melhores amigos? Qual sua matéria favorita na escola?
Emmett se encaminhou até a porta da frente.
— Nunca desistiu da casa com a cerca branca, mas desistiu de nós.
Suas palavras fizeram os olhos de Rosalie se encherem de lágrimas.
— Não desisti de nós, te dei a chance de seguir seus sonhos — sussurrou com a certeza de que não ouviria. — E talvez tenha sido esse meu maior erro. — Enxugou uma lágrima quando essa molhou seu rosto. Pensando que, se tivesse a chance de voltar no tempo e fazer tudo diferente, nunca teria escondido Joshua do pai e da família dele.
Fale com o autor