Notas iniciais
Olá! Minha primeira fanfic! Ainda não desapeguei do meu shipper, então quis escrever uma one para narrar um pouco os sentimentos do Tiago. Espero que vocês gostem.

“Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade” Paul Valéry

E era sobre solidão e liberdade que eu pensava naquele tarde de outono, 24 de Abril, enquanto cruzava a Avenida Paulista.

É engraçado pensar em quanto à vida é irônica. Cresci em uma família deturpada e que cultivava o ódio em seu âmago. Alguns anos atrás, a pessoa que eu mais admirava e tinha profundo respeito, se provou a mais cruel de todas.

Meu pai a quem eu achava um paspalho me mostrou que a fruta nunca cai muito longe do pé.

Apesar de ter uma família grande, solidão sempre foi à palavra que rodeava a minha vida. Mesmo em meio às pessoas, eu me sentia sempre sozinho. Uma família que não tinha laços de amor, um lar aonde eu não tinha conforto.

Até que uma garota muito especial surgiu na minha vida. Letícia. A memória dela sempre me traz um sorriso no rosto. A guerreira, aquela que batalhou e que não entregou os pontos em nenhum momento para o câncer. Ela passou a ser parte fundamental da minha vida.Me deu o que até aquele momento ninguém nunca tinha me dado. Base. Função. Estabilidade. Conforto. Alem de um amor calmo, que era nutrido de carinho e companheirismo, ela me ofereceu uma nova família, formada pela mãe e o irmão dela. Me vi então rodeado do que eu mais queria. Carinho maternal.

Até aquela noite. A primeira coisa que eu reparei quando a vi, foram seus olhos. Parece clichê mais eu enxerguei a imensidão do mundo naquele olhar.

Ela foi à tempestade em meio à calmaria. Eu me rendi naquele momento a algo que eu sabia que jamais poderia controlar.

Eu não conseguia pensar em outra coisa, aqueles olhos dominavam todos os meus pensamentos. Ainda me lembro daquele teatro, do riso fácil, contagiante, do sorriso de lado, da compreensão no olhar, da conversa fácil, interessante, dos gostos em comum. A única coisa que eu conseguia pensar era, eu me achei. Ela é o meu lugar.

E quando ela sumiu, eu não existia mais. O buraco no meio do peito era sufocante. Eu não conseguia mais pensar. Eu era só saudade.

Minha vida seguiu. Mais eu nunca mais me senti completo.

E ela voltou, voltou para me tirar do prumo. Para desestabilizar minha rotina, meus pensamentos. Eu peguei fogo.

Aquelas palavras ainda estão gravadas a ferro na minha memória.

— Talvez eu não seja a pessoa que você amava.

A frase mais verdadeira que eu ouvi dela. Ela já não era mais a pessoa que eu amava.

A primeira vez que nos beijamos sob a luz da nova personalidade eu só pensava-É ela!

O Gosto da boca, o cheiro da pele, me envolveu e eu só queria parar o tempo e me entregar de corpo e alma. Até que eu me lembrei, você não é a pessoa que eu amava. Você não é ela.

Mais como diferenciar, se toda vez que ela me tocava eu me perdia? Eu não sabia dizer aonde eu terminava e ela começava, o fogo dela me consumia, me engolfava e eu não consiga respirar. Minha cabeça desligava e meu corpo agia por instinto. É ela.

E quando tudo terminava, vinha o vazio. O sorriso não era mais o mesmo. O olhar cheio de malicia não me mostrava mais o mundo. Eu não sabia mais o que fazer.

O cheiro do mar, a desorientação. Senti-me perdido quando me vi naquela lancha. E quando olhei para ela me dizendo que todo aquele tempo tinha mentido para mim, que ela sempre buscou vingança, o céu escureceu. Eu não conseguia enxergar, estava novamente perdido, vazio, deteriorado. Porem a única coisa que eu conseguia pensar- Era ela, sempre foi ela.

Engraçado que tudo começava e terminava nela. Eu me vi completamente apaixonado por duas mulheres diferentes, que na essência não tinham nada em comum. Mais eram a mesma pessoa. Sempre ela, sempre.

Minha vida já não era minha. Eu precisava mudar.

E eu lutei para me reerguer, mudei de emprego, de casa, de metas, de planos e de sonhos.

E naquele dia ao caminhar pela Paulista pensando em quanto a minha vida hoje se resumia novamente em solidão e na recém-adquirida liberdade, eu fui jogado novamente no meio da tempestade.

Era ela.

Os olhos. Novamente a imensidão na minha frente. Fiquei sem chão.

Bebi do seu olhar e sorri. Sorri por que agora sim eu a enxergava sem qualquer barreira, sem magoas, sem dor. Eu era morada de sentimentos bons.

E ela sorriu de volta.

Eu senti o fogo me consumindo novamente, ao ver a curva da sua boca, a luz naqueles olhos esverdeados, ao ver a pele corada, o cobre que eram os fios dos seus cabelos ao sol.

O fogo agora era morno, confortável, desejável.

Virei-me a fim de ir embora, mais meu corpo clamava por ela.

Um ultimo olhar e me perdi novamente. Quem eu era?

Não sei quem fez o primeiro movimento, mais quando me dei conta, eu só sabia sentir.

O gosto.

A aquele gosto. Aquele perfume suave que fazia eu me lembrar do mar. A boca, a boca que atormentava meus sonhos durante tantos anos. Era demais para mim. Seus dedos entrelaçaram nos cabelos da minha nuca, puxando. Apertei o corpo nela e ouvi o gemido suave de desejo. É ela. Minha. Novamente minha.

— Isa – Suspirei baixinho.

—Tiago – os olhos transmitiam a surpresa.

— Desculpa eu agi por impulso, mais eu precisava beijar você.

—N..Não, eu também não sei o que me deu. Acho que me perdi- E estávamos novamente compartilhando sentimentos.

—Você por aqui? – Precisava sanar as duvidas.

— Sim. Eu faço residência aqui na Santa Casa. –então ela tinha seguido seus sonhos- E você? Você está tão diferente, seu rosto, a barba. Gostei do novo Tiago. Como você está?

— Bem, de um modo geral. Eu estava indo até a Reserva Cultural.

— Bom preciso ir, meu turno começa daqui uma hora- Não! Eu ainda não estava preparado para deixá-la ir. Eu precisava de mais.

—Você não quer tomar uma coca-cola comigo? – Ela sorriu.

— Com muito gelo e limão espremido?

— Certos hábitos, nunca mudam.

— Sim, eu aceito. – Foi ali que depois de tantos anos o céu se abriu novamente.

“Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira” Cecília Meireles

—Ei! –Acordei do sono leve, com o seu corpo se aconchegando em mim. Rolei por cima dela, colocando meu nariz em seu pescoço, sentindo o cheiro suave do seu sabonete. Minha.

—Você tem que ir para o seu plantão?

—Não, me ligaram do hospital avisando que eu poderia entrar mais tarde. Quer fazer algo? Está passando aquele filme que a gente queria assistir... -Beijei seu pescoço.

—Não. Eu só quero você. Aqui. Agora. — Suas unhas desceram arranhando as minhas costas. Arquei o corpo, suspirando. — Você me queima.

—Eu sei. Eu sinto o mesmo.

Afundei meu corpo, me aninhando entre suas coxas. Meus lábios encontraram os seus, macios, deliciosos como fruta fresca. Beijei seu pescoço, o lóbulo de sua orelha.

—Preciso te falar algo.

—Hummmm- Meus lábios acharam sua clavícula e ela puxou meu cabelo, fazendo com que eu olha-se em seus olhos.

Seus olhos. Meu lugar preferido.

—Eu não sei se é a hora, já que compramos esse apartamento há pouco tempo. A gente ainda não terminou de pintar os quartos. A sala ainda está uma bagunça com tantos livros, e suas telas. Eu ainda estou me especializando, e.... a gente ainda está planejando o casamento. Nem marcamos a data....

—Fala Isa.

—Eu fiz o teste hoje – Meu Deus! será que depois de tanto tempo, o meu maior desejo, iria se realizar? Será que eu finalmente iria transbordar- Eu to grávida. Ainda é recente...provavelmente umas 6 semanas – Eu olhei para ela, tentando entender. Só conseguia processar que finalmente um filho meu, seria gerado pelo amor da minha vida – Eu sei que não era a hora....amor desculpa...você sabe que com esses horários loucos de plantão, as vezes eu esqueço de tomar o remédio e....

—Isa.

—Oi? –Ela me olhou com lagrimas nos olhos.

— Você não sabe como eu estou feliz!

—Está?

—Sim. Tudo que eu mais sonhei na vida, foi formar uma família com você. Não importa se a sala está uma bagunça, se seus horários são loucos e a gente mal se vê, não importa se a gente não escolheu o modelo dos convites. Importa que mesmo depois de tudo, o nosso amor venceu. Esse bebe aqui-Coloquei a mão suavemente dentro da camiseta que ela usava, e me emocionei ao pensar que o fruto do amor que me consumiu, estava ali- É tudo o que eu sonhei na vida. E eu quero que ele ou ela, tenham seus olhos.

—Meus olhos?

—Por que neles eu consigo enxergar a imensidão. Eu amo você. — Tirei a coberta, e levantei sua camiseta. — Ei bebe, é o papai – Falei encostando o ouvido em sua barriga- Eu te desejei tanto, pequeno. — Beijei sua barriga, ouvindo a risada dela.

—Você vai ser um pai babão.

—Pode contar com isso.

—Quero que ele tenha a sua bondade Tiago, a sua capacidade de perdoar. De enxergar as coisas boas nas pessoas- Sorri, pensando que essa era a minha melhor qualidade. Perdoar. Perdoar os erros do passado, as magoas que ficaram. Minha capacidade de perdoar foi o que possibilitou que eu estivesse vivendo o momento mais feliz da minha vida.

Nosso amor renasceu em um tarde de outono. E hoje estava virando primavera.

Notas finais
Obrigada por ler!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!