Sempre Contigo
1 Capítulo 1 — Eu odeio você!
Notas iniciais
Já estava farta. Hoje completa três meses que vim parar nesse fim de mundo! Como a Manuela pôde viver todo esse tempo aqui?! Ainda tenho que fingir para meio mundo de caipiras uma pessoa que não sou. Principalmente para a Rebeca, aquela mulher que finge ser boazinha para todos! Argh. Tenho nojo desse tipo de gente.
Saio de casa de manhãzinha para não olhar para Rebeca logo cedo. Quanto mais evitá-la, melhor. No meio do caminho Marina pega em meu braço e me leva até uma árvore.
Ela utiliza aquelas roupas velhas e bregas que desvalorizam cada vez mais seu corpo. Ela era mais bonita quando vestia o uniforme de empregada na mansão, mas a Regina tomou conta de tudo. Mas eu ainda irei virar o jogo.
— O que você quer Marina?! — Perguntei olhando para os lados, por sorte não havia ninguém por perto. — Desembucha!
— Ai, como você tá grossa Isabela. Você não era assim não. O que aconteceu com você?!
— Não é interessante dormir no mesmo quarto que a mulher que destruiu a minha vida.
— A Rebeca não tem culpa de nada, quantas vezes vou ter que repetir isso?!
— Você tem como provar? — Perguntei.
— Não. — Olhou para os lados. — E você tem Isabela? Tem provas? Não, então estamos quites. Você está sendo injusta com a sua mãe, ela não merece isso.
— Você me puxou para falar disso? — Me virei, mas ela segurou meu braço.
— Vim dar notícias da mansão.
— O que aconteceu agora?!
— Os três capangas foram presos. Está Manuela, Regina, Laura... E o meu Ofelinho.
— Quer dizer que Regina está sozinha na mansão... Ótimo.
— Não vai fazer nenhuma besteira, Isabela...
— E tem como fazer alguma coisa nesse fim de mundo, Marina?! Rebeca está em cima de mim o tempo inteiro, eu estou cansada de ficar fingido para estes/
— ISABELA JUNQUEIRA! — Marina elevou a voz e me interrompeu. Revirei os olhos. — Sua irmã está fazendo o mesmo e nem por isso fica reclamando. Ela adoraria estar no seu lugar, sabia?
— Ah claro. Ela tem o talento de cantar, o amor da mamãezinha, amiguinha de todos... E eu Marina? Onde fico nessa história? Jogada para escanteio, como sempre...
— Você não se esforça nem um pouco Isabela. Tira essa ideia maluca que a Rebeca te abandonou, ela não merece isso.
— Não!
— Me surpreende você ter acreditado nessa história. Regina nunca gostou de você, e de uma hora para outra, fala que adotou você porque Rebeca não te quis?
— Chega Marina, isso não é lugar nem hora para falar disso.
— Disse isso pelo seu bem, Isabela. Com licença. — E voltou à sorveteria.
Meu bem... Nunca ninguém quis o meu bem.
Vou para a escola e encontro Téo, Dóris e Matheus na porta da escola.
— Oi. — Disse, e sorri sem mostrar os dentes para o Téo, mesmo ele não vendo.
— Oi! — Responderam em coro. — Vamos entrar?! — Perguntou Téo. Eu coloquei meu braço entre o dele e entramos.
Entramos na sala de aula. Teó sentou-se na minha frente e virou para o lado.
— Isa. — Ele cochichou. — Está tudo bem com você? Nos últimos dias você anda um pouco estranha, o problema é comigo?!
— Não Téo. Claro que não... São outros problemas, Rebeca que pega muito no meu pé.
— Ela é sua mãe, as mães pegam nos pés dos filhos.
— Não Téo. Ela me descartou assim que nasci. Não é minha mãe, nunca será. Só estou esperando o momento certo para conseguir destrocar com a Manuela definitivamente. E tudo voltará a ser como antes.
— Eu não quero que seja como antes. — Ele pegou em minha mão e a apertou delicadamente. — Quero você aqui, comigo.
— Isso é impossível Téo. Você vai ter a Manuela, sempre teve ela, não precisa de mim.
— Você não entende? Eu gosto de você. Eu amo você!
E antes que eu pudesse responder, a professora Flávia entrou na sala, fazendo com que a nossa conversa seja interrompida.
Téo me amava?
Ou melhor...
Téo me ama?!
No final da aula corri portão afora e fui até o Haras e fiquei escondida lá. Não conhecia ninguém, nem fazia questão de conhecer. Fiquei próxima de um estábulo, lá fiquei quieta, pensando em tudo... Mas cochilei.
Acordei um pouco tonta, peguei meu celular e tinham quase vinte chamadas da Rebeca.
Ela vai me dar uma bronca. Uma bronca muito grande. Mas tenho que encarar, infelizmente.
O céu começou a dar alguns relâmpagos. Corri para casa. Rebeca estava sentada em uma poltrona, impaciente e... Nervosa.
— Onde você estava Manuela?! Sabe que horas são?!
— Oito da noite.
— Isso é hora de ficar na rua, Manuela? Não atendeu minhas ligações... O que aconteceu com você, filha?!
Odiava aquela palavra. Odiava ela me chamar de filha.
— NÃO TE INTERESSA! — Gritei, ela olhou assustada. — Estou em casa, estou bem... Não precisa brigar.
— Não é a primeira vez que faz isso.
— Nem será a última! — A enfrentei.
— Por que mudou tanto Manuela?! — Ela perguntava com lágrimas nos olhos, as quais não me surpreendiam. — Eu fiz algo pra você?
— Sim. — Dei um tempo. Não devia ter dito isso, droga! — Fica o tempo todo no meu pé, eu não gosto disso.
— Eu me preocupo com você filha! Não sabe como eu me desesperei quando levaram você, quantas noites fiquei acordada pensando em você... Eu tenho medo de acontecer de novo!
— Mas não vai acontecer. Só para de se meter na minha vida, já estou sem paciência com isso!
— Não é possível que tenha mudado tanto...
— Mas eu mudei! Não tá satisfeita? — Olhei em seus olhos. — Ou queria que eu não tivesse mudado? Continuado com aquele jeito de menina boba e doce do interior?
— Só queria que não me tratasse desse jeito!
— Eu te odeio! — Esbravejei. Pude ver Rebeca se derramar em lágrimas. Manuela jamais diria isso, mas estava entalado. Saí de casa, já estava chovendo, mas nem me importei. Só ouvi os gritos de Rebeca.
— Manuela! Manuela volta aqui! — Mas corri o mais rápido que eu pude.
Caminhei pelo Vilarejo, enquanto a chuva engrossava cada vez mais. Meus olhos estavam cheios de águas, baixei a cabeça e deixei-as caírem.
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