Passei a mão no meu cabelo de modo a fazer com que ele ficasse em condições. “Ele nunca fica direito”, reclamei. Passei a mão também na saia do meu uniforme de modo a que ele ficasse sem dobras e desci as escadas em passo rápido.

Disse bom dia dirigindo-me a todas as pessoas que se encontravam na minha cozinha, que por sinal era a minha família toda. Edmund encontrava-se na mesa com um caderno aberto e um lápis na mão, olhando para as folhas com um ar muito concentrado.

-Estás a fazer os trabalhos de casa agora?! – perguntou chocada Len. Edmund acenou com a cabeça, pois parecia não estar disposto a quebrar o seu pensamento. – Podias tê-lo feito ontem!

-Esqueci-me completamente que tinha deveres de casa. Só quando acordei é que me lembrei. – disse ele em tom monocórdico.

Peter tossiu e entre a tosse disse “desculpas”. Lucy começou a rir-se e Peter juntou-se a ela. Eu não pude evitar e também fiz um meio-sorriso. Era mesmo bom voltar a ver Peter feliz, mesmo que agora eu já não fizesse parte da vida dele.

-Peter come senão vamos chegar atrasados. Ainda não te vi a tocar em nada. – reclamou Lucy.

-Eu hoje não vou às aulas. – falou ele descontraidamente.

-Porquê? – questionou-o Lucy intrigada. Por esta altura até Edmund tinha levantado os olhos do seu caderno para fixar Peter com um ar interrogativo e curioso.

-Hoje vamos ao hospital novamente, temos outra consulta. – desta vez foi Len que explicou não deixando sequer Peter dizer uma palavra.

-Edmund. – falei eu – Guarda isso e vamos senão perdemos o autocarro. Ele ouviu e fez o que eu lhe ordenei, fechando o seu caderno e metendo-o dentro da sua mochila.

Eu abandonei a cozinha indo para a porta de modo a esperar por Lucy e por Edmund.

Lucy juntou-se a mim e antes de sair apertou rapidamente os cordões dos seus sapatos. Aí subitamente lembrei-me de algo. Afastei-me do hall e aproximei-me de Len que agora se encontrava na sala.

-Mãe, tens que dizer ao médico que Peter não se lembra nem de William nem da namorada. – sussurrei de modo a impedir que Peter me ouvisse.

-Namorada?! – Len ia começar a fazer um monte de perguntas mas eu impedi-a de prosseguir. Edmund ia para o hall mas ao passar por nós ouviu o que dissemos e permaneceu ao nosso lado.

-Ele também não se lembra de Stanley.– acrescentou Ed. Eu fiquei a olhar para ele pasmada e a minha cara dizia “Como é que sabes disso?”.

-Quem é esse rapaz? – perguntou Len curiosa.

-Ah, foi o rapaz que entrou numa briga com Peter. – falou descontraidamente Ed. Mas mal se apercebeu daquilo que tinha dito ficou com um ar terrivelmente aflito.

-O Peter entrou noutra briga?! – perguntou furiosa Len. – Por que é que eu nunca soube disso?

-Bem o Diretor da escola reconheceu que Peter não tinha tido culpa no sucedido e apenas ouviu um sermão. O Diretor não achou necessário ligar-te.

-É incrível aquele rapaz passa a vida a andar a lutar com outras pessoas. Nunca vi nada assim. Ai quando eu o apanhar ele vai ouvir tantas. – começou Len a falar com um ar ameaçador e a dirigir-se para a cozinha, lugar onde Peter se encontrava. Eu puxei-a delicadamente para trás impedindo-a de prosseguir.

-Mãe, o Peter não se lembra sequer do rapaz por isso também não se deve recordar do sucedido. Não vale a pena massacrá-lo agora.

-Tens razão…Mas se ele eventualmente se voltar a lembrar dele vai ouvir um sermão tão grande…

Edmund, eu e Lucy despedimo-nos de Len e fomos a correr para apanhar o autocarro. Quase que o perdíamos.

Quando chegamos ao nosso destino, Lucy encontrou logo uma amiga e ficou ao lado dela a conversar. Eu e Edmund continuamos o nosso caminho, que era cada vez mais para dentro da escola.

-Ed…- falei eu calmamente.

-Hum? – a minha voz tinha quebrado os pensamentos dele.

-O que é que achas que o levou a fazê-lo?

-Estás a falar de quê? – questionou-me Ed.

-O que é que pensas que levou o Peter a fazer…aquilo?

-Ah. A tentar acabar com a própria vi-…

-Shh! Não fales dessas coisas assim tão alto e de maneira tão descontraída.- reclamei eu com ele. Preferia ser discreta e odiava que as outras pessoas soubessem do que se passava na minha vida.

-Não sei. Ainda estou a tentar perceber. Mas suponho que não haja assim uma razão em concreto mas sim um acumular de razões. Provavelmente ele teve muitos problemas e confusões e houve uma altura em que ele não aguentou mais. Eu penso que terá sido isso mas não tenho a certeza pois nunca lhe perguntei. Su…Sabias que o Peter lembra-se de todos os seus colegas de turma menos de William?

-A sério? – perguntei eu surpreendida. — Mas, Ed, como é que sabes disso?

-Ah, foi o Will que me disse. – explicou-me ele fazendo uma pausa. – Ei, está ali o Dempster. – ele acenou-lhe. – Bem Su vemo-nos depois.

Vi Edmund correr para o lado de Dempster e de Charles. Suspirei. As minhas pernas estavam cheias de cortes e feridas, assim como os meus braços e as minhas mãos. Fui contra alguém. Olhei para cima de modo a poder ver quem era a pessoa com quem eu tinha chocado. A pessoa estava a sorrir abertamente para mim.

-Olá Matthew. – disse eu em tom monocórdico.

-Alguém acordou bem-disposta. – ele soltou uma gargalhada. Só aí é que reparei que Matthew não estava sozinho mas encontrava-se acompanhado por Miriam. Ele colocou o seu braço à volta dos ombros dela.

-Olá Su. – falou-me ela a sorrir.

-Bom dia. – falei. – Sabem por acaso por onde andam a Claire e a Elizabeth?

-Mal chegaste e já te queres livrar de nós? – questionou Matthew parecendo verdadeiramente magoado.

-Muito engraçado. Apenas não quero segurar a vela. – falei. Miriam corou imediatamente e fixou o chão.

-Eu acho que elas estão ao lado da nossa sala. – falou Matthew.

Já tínhamos tido dois blocos de aulas e até ao momento o dia estava a correr relativamente normal. Estava a ir para a sala comum pois tinha fome e Elizabeth estava comigo pois Claire encontrava-se com Dempster e Miriam encontrava-se com Matthew.

-Li um livro fantástico Su! – falou ela alegremente.

-Ai sim? Qual? – perguntei-lhe eu curiosa.

-Chama-se Ask the Dust. – declarou ela com um sorriso nos lábios.

-Quem é que o escreveu? – perguntei eu curiosa. Normalmente Elizabeth não gostava de livros simplesmente porque não concordava com os seus finais. Miriam era a que lia mais de nós todas.

-Foi John Fante. Foi publicado mesmo à pouco tempo. Oh Su tens que ler. O fim é um pouco trágico. Mas a história fala sobre um homem, chamado Arturo Bandini e ele-…

-Que foi Beth? – questionei eu ao vê-la calar-se de repente e ficar chocada a olhar para um local qualquer. Segui o olhar dela e deparei-me com a cena que a tinha escandalizado. Num dos cantos da sala comum encontrava-se Margaret. E não se encontrava sozinha, para variar. Estava agarrada a um rapaz qualquer. E nem sequer era James, o rapaz que ela tinha estado a beijar da última vez que eu a tinha visto, era outro.

-Aquela é a Margaret, não é? – perguntou relutante Elizabeth. Acenei com a cabeça. Ainda há uns dias ela tinha andado toda destroçada por causa de Peter não se recordar dela. Aparentemente ela não tinha perdido tempo nenhum e já tinha arranjado outro.