Sempre Com Você
22 Regresso
Notas iniciais
Eu simplesmente odiava quando acordava exaltada a meio da noite. Mas ali estava eu novamente, ensopada em suor e ofegante. Aquilo que eu acabara de experienciar tinha sido intenso. Aquele tinha sido real? Lucy tinha-me contado que na nossa última visita a Nárnia Aslan tinha-lhe falado em sonhos.
Encontrava-me na casa de banho a molhar a minha cara com água fria. Tinha que me acalmar brevemente pois o meu coração ainda se encontrava acelerado. Só de pensar em Caspian a amar outra rapariga, eu ficava doente.
Porque razão tomaria Caspian a poção de Sirama? Eu também a tinha querido tomar numa altura em que eu estava a chegar ao limite. Mas Sirama nunca me dissera nada sobre Caspian também ter intenções de a tomar. Um pensamento obscuro passou-me pela mente. Talvez, se não houvesse passagens entre o meu mundo e o de Nárnia, Caspian tomasse a tal poção de modo a esquecer-me de vez. Seria ele capaz de fazer isso?
Uma tristeza profunda apoderou-se de mim perante aquele pensamento. Seria eu tão irrelevante para Caspian que se ele soubesse que não poderíamos nunca voltar a estar juntos ele simplesmente me iria esquecer? Será que ele iria avançar com a vida e até conhecer outra rapariga? A imagem daquela rapariga loira não abandonava os meus pensamentos. Será que eu amava muito mais Caspian do que ele me amava a mim?
A vontade de chorar voltou a surgir e eu permiti que lágrimas surgissem na minha face.
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Por mais que eu não quisesse admitir, eu tinha-me tornado uma fraca. Este pensamento corria-me enquanto via as ruas e as pessoas transformadas numa grande mancha pouco nítida e desfocada, pois estavam a passar por mim com grande velocidade. Eu encontrava-me ao lado dos meus irmãos e dentro do autocarro de dois andares. Aquele era um dia importante pois Peter iria voltar para a escola. E naquele momento dirigíamo-nos para esse mesmo local. Suspirei. Por que é que depois do sonho eu tinha ficado abruptamente tão insegura?
No final do primeiro bloco de aulas, dirigi-me logo à sala de William e Peter. Tinha esperanças de encontrar o primeiro lá. Mas antes que eu sequer me aproximasse da sala deles, já alguém me tinha tocado nas costas, impedindo-me de prosseguir o meu caminho.
–William? – fiquei um pouco perplexa pois era com ele mesmo que eu queria falar. –Já falaste com Peter?
–Bem…Já…- William parecia estar em baixo.
–E…? – falei eu de modo a incitá-lo a prosseguir.
–Ele também não se lembra de mim.- admitiu Will com frustração muito evidente na sua voz.
–Como assim? – eu estava completamente perplexa. Peter não se lembrava do seu melhor amigo. Abracei William. Ele sempre me apoiara nos momentos difíceis. Era a altura certa para eu retribuir tudo aquilo que ele tinha feito por mim. Ainda por cima eu sabia bem aquilo pelo que ele estava a passar porque, afinal, eu também estava exatamente na mesma situação. Também eu era uma estranha para Peter. Will retribuiu o meu abraço. Naquele momento era claro para toda a gente que passasse por nós que éramos mais do que amigos, mas isso não era verdade. Eu amava William. Mas não da mesma maneira que ele me amava a mim. De certo modo, William estava na mesma posição que Elizabeth. Ambos amavam alguém que não podiam nunca ter. E os dois podiam ter quem quisessem, no entanto tinham escolhido as únicas pessoas que nunca os iam amar. O meu coração doeu perante este pensamento. Quem seria eu sem Elizabeth? Não suportava vê-la a magoar-se. Também não suportava ver William a magoar-se.
Quando finalmente me despedi de William e me estava a afastar dele, encontrei alguém que eu não suportava no início do corredor. O meu instinto foi, obviamente, ignorá-la, mas uma vozinha na minha cabeça sugeriu-me fazer o contrário, e assim eu fiz.
–Então Margaret? Por aqui?- Ela estava com um lencinho branco rendado na mão e os olhos vermelhos. Eu tinha a sensação que Peter também não se tinha recordado de Margaret.
–Eu é que te devia estar a perguntar isso. – disse ela com uma voz fraca mas ainda com o seu habitual tom de superioridade.
–Estás com péssimo aspeto. Então? O que aconteceu? – perguntei eu com uma voz melíflua.
–Não faças de conta que não sabes o que se passou. – disse ela assoando-se dramaticamente ao seu lenço. – Quando Peter chegou eu fui ter com ele e ele não me reconheceu. Agora toda a gente anda a falar sobre isso.
–Que pena. – disse eu ironicamente. De certo modo eu estava aliviada por causa de Peter não se lembrar de Margaret, mas por outro lado também estava frustrada porque assim ele nunca iria saber como é que ela era na realidade. – Mantém-te afastada dele. Se estiveres à procura de um namorado popular, desta vez faz-nos a todos nós um favor e escolhe Stanley. Vocês estão bem um para o outro. – ela ficou chocada e a sua máscara de “viúva destroçada” caiu por terra ao mostrar uma indignação total.
Eu abandonei-a. Só de estar perto daquele ser eu ficava incomodada.
Tive aula de Literatura e no fim desta, Claire e Miriam arrastaram-me com elas.
–Como é que tens estado? – perguntou-me Claire mostrando a sua preocupação.
–É difícil, mas ainda tenho esperanças que Peter se volte a lembrar de mim. Miriam deu-me a mão, tentando me reconfortar.
–Não te preocupes Su. Ele gosta muito de ti. As pessoas lembram-se sempre daquilo que é mais importante para elas. – suspirei quando Miriam disse aquilo.
–Peter também não se lembra de William. – falei.
–O quê? – exclamaram as duas ao mesmo tempo.
–Mas falando de coisas mais alegres. Como é que tem estado Dempster? – disse eu tentando esconder o sorriso que me surgia na cara. Claire ficou logo corada.
–Eles os dois são o casal mais giro desta escola, vamos enfrentar essa realidade. – disse Elizabeth surgindo por trás de Claire e pondo o seu braço à volta dos ombros de Claire.
–Ele já se confessou a ti? – perguntei.
–Não, mas…- Claire ia explicar mas foi subitamente interrompida por Elizabeth.
–Oh Su, está para breve. – ela riu-se e eu não pude evitar e soltei uma gargalhada. Tinha tido saudades daquilo.
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