Sempre Com Você

11 Amor, Lágrimas e Brigas


Sirama dissera-me que não sabia quando estaria de volta e as duas semanas seguintes passaram de uma maneira relativamente normal, por isso vou-vos contar o que aconteceu após esse período de tempo.

Era uma sexta e quase tudo se encontrava igual. Len andava deprimida, Lucy mal falava, Edmund nem sequer olhava para Peter, e os estranhos comportamentos deste permaneceram. Miriam e Matthew continuavam juntos e eu não voltara a falar para William desde aquele dia.

Mas nessa sexta-feira, foi o dia em que Claire descobriu a razão pela qual Dempster e GraySon tinham lutado. Não fui eu a contar-lhe, foi Elizabeth. Esta tinha sabido disto através de uma amiga de Dempster.

–Dempster também gosta de mim?

–Aparentemente sim. – Disse Elizabeth.

–Mas como?

–Não sei.

–Primeiro GrayS, agora Dempster… Não sei o que é que eles veem em mim.

–Ora, ora. Não sejas tão modesta, Claire. – Falou Miriam.

–Ouvi dizer que eles agora não se podem ver. – Disse eu.

–Eu não queria que nada disto acontecesse! – Disse Claire desesperada.

–Ei, Su, aquele não é o teu irmão? – Perguntou Miriam.

Olhei e vi que Peter estava com uma rapariga. Soube mais tarde que o nome dela era Margaret e tinha a mesma idade que ele. Ela possuía olhos cor de âmbar e cabelo castanho liso pelos ombros. Era bastante bonita. Margaret estava a sorrir, mas Peter encontrava-se sério.

–Sim, é o Peter…

Olhei para Elizabeth e ela baixou o olhar.

–Ela parece gostar dele. – Disse Miriam. – Ele está sério, mas é a primeira vez que o vejo sozinho com uma rapariga, portanto …

–Podemos mudar de assunto?! – Gritou Elizabeth exaltando-se. Nós ficamos todas a fita-la de boca aberta. Ela voltou a falar mas com um tom de voz mais dócil. – O problema aqui é Dempster, GraySon e Claire…

–Sim, tens razão. – Falei. Por momentos pareceu-me ver Elizabeth suspirar de alívio. O diálogo sobre o problema continuou. Mas algo não estava bem. E a minha mente insistia em pensar na rapariga que tinha visto com Peter. Será que eles namoravam? Seria completamente normal se o fizessem. Ela é bonita, ele é bonito e popular no meio das raparigas. Mas é esquisito. Peter mal fala com os seus familiares e com os seus amigos…

Matthew e Charles aproximaram-se de nós o que fez com que Miriam se levantasse abruptamente.

–Matt! Aposto que tu sabias!

–Sabia o quê?

–Oh, não te faças de inocente. Tu sabias muito bem que Dempster também gostava da Claire, e tu não me disseste nada! Nem à Claire!

–Eu, eu … — Matthew ficou atrapalhado durante uns segundos, mas logo me lançou um olhar furioso. Ele pensava que tinha sido eu. O meu instinto imediato foi tentar explicar-me, mas mal abri a boca para o fazer, fechei-a logo de seguida. Elas não sabiam que eu tinha vindo a saber antes delas. Matthew permaneceu calado durante algum tempo e depois falou com uma voz fria.

–Eu tinha de o proteger. Eu prometi-lhe que não contava a ninguém. Vocês fariam o mesmo. – O olhar dele perfurou o meu e parecia que se estava a dirigir só à minha pessoa. – Quem é que vos contou?

–Foi uma amiga de Dempster. – Afirmou Elizabeth. Ela e Claire continuaram a falar. Matthew olhou para mim com um ar de agradecimento, eu fiz um ligeiro aceno com a cabeça. “Podes contar comigo” quis eu dizer. Quando desviei o olhar de Matthew vi que Charles estava fixado em mim. Ignorei-o e vi Miriam aborrecida com Matthew por causa de ele não lhe contado. Ele andou sempre à volta dela até que a convenceu a ir com ele. Quando eles estavam prestes a desaparecer no corredor, vi que as mãos deles se entrelaçaram uma na outra.

Charles acabou por entrar na conversa de Elizabeth e de Claire mas eu fiquei apenas a observa-los.

Nesse mesmo dia eu ia voltar à loja de Sirama. Nas semanas anteriores ela não se encontrara na loja.

Assim que as aulas terminaram precipitei-me para ir ao encontro de Sirama. Subi a rua e finalmente deparei-me com a loja. O edifício parecia-me igual. Mas ao aproximar a mão da porta ela abriu-se. Entrei lentamente.

–Sirama?

Ela apareceu, apressada como sempre com uma bolsa de veludo verde na mão.

–Oh, olá Susan. Já não te via há algum tempo.

–Sim, pois é.

–Leste a carta?

–Li sim. Sirama, descobriu alguma coisa sobre o mensageiro?

–Não. Continua a ser um mistério. – Daquela vez Sirama tinha o cabelo todo entrançado mas todo preso no topo da cabeça. – Queres algo para beber?

–Sim, aceitava um chá. – Sirama desapareceu durante uns minutos e depois voltou com um tabuleiro com uma chávena, bule, açucareiro, um prato com bolinhos e várias colheres adornadas com jóias falsas.

–Serve-te à vontade minha filha. – Ela esperou que eu desse um ou dois goles para tornar a falar. – Susan, vou ser muito direta contigo, eu já sei onde está Aslan e daqui a dois dias partirei partirei para ir ao seu encontro. – Aquela revelação súbita fez com que eu me engasgasse com o chá. Ela sabia onde ele estava? Ela ia encontra-lo? Daqui a algum tempo a minha situação seria resolvida. Fiquei inundada de esperança.

–Quando é que volta?

–Daqui a cinco ou seis semanas.

–Tanto tempo?

–A viagem de ida demorará duas semanas e voltar demorará o mesmo tempo. E devo ficar lá durante uma ou duas semanas.

–Então vai ficar fora dois meses?

–Sim, aproximadamente. – Aquilo magoava-me. A espera por notícias iria matar-me aos poucos e poucos.

–Sirama, como é que ele está? – Era a primeira vez que eu lhe perguntava assim tão diretamente por Caspian.

–Bem, devo admitir que não o vi muitas vezes. Mas da última vez que o vi, ele parecia estar doente.

–Doente?! – Saiu-me uma espécie de guincho agudo. Recompus-me e voltei a falar. – O que é que lhe aconteceu?

–Bem, isso não sei. Mas ele muito mais magro e muito mais pálido do que na minha última visita.

Ficamos as duas em silêncio durante algum tempo até que eu perguntei algo que já queria perguntar há muito tempo.

–Sirama, a Claire sabe da existência de Narnia?

–Oh Susan, não sejas tão ingênua.

–Como assim?

–É claro que ela não sabe. Apenas quem está destinado a encontrar Narnia é que irá encontra-la.

–Mas isso é injusto.

–Ora, ora. Porque é que dizes isso?

–Toda a gente devia poder ir a Narnia. Toda a gente devia poder ver aquele lugar único pelo menos uma vez na vida. – falei.

Sirama sentou-se numa poltrona roxa com cobertores verdes e dourados e disse:

–Susan Pevensie, não te esqueças que é por causa de Narnia que tens o coração partido. – eu não respondi.

–Tudo o que é bom tem sempre o seu lado negro. Nunca te esqueças disso. – continuou Sirama.

Fiquei magoada. Pensava que Sirama me compreendia. Que apoiava a relação que existia entre mim e Caspian. Mas não, ela era exatamente como Peter. Ela achava que não valia a pena. Decidi despedir-me de Sirama e sair dali. Nunca pensara que Sirama me dissesse uma coisa daquelas.

À medida que me aproximava de casa, arrependia-me da minha saída abrupta. Eu só veria Sirama dentro de cinco semanas. Mas mesmo assim não conseguia deixar de me sentir desiludida. Sirama chamou ao facto de eu estar apaixonada por Caspian “o lado negro” das minhas idas a Narnia. É claro que estar afastada de Caspian fazia com que eu sofresse. Mas para mim, amá-lo era mais importante do que a minha dor.

Quando cheguei a casa decidi ir para a sala de estar. Só queria dormir e esquecer os meus problemas. Mas embora eu estivesse terrivelmente cansada não tinha nem um pouco de sono. Encostei-me um pouco mais no sofá e Lucy sentou-se ao meu lado. Ela ainda parecia ter receio de mim.

–Hum… Olá Susan. – falou timidamente.

–Olá Lu.- sorri-lhe. Lucy também sorriu e pareceu ficar mais à vontade.

Edmund entrou de rompante e sentou-se do meu lado esquerdo.

–Susan, viste hoje o Peter com uma rapariga? – perguntou-me ele friamente.

–Sim vi, porquê?

–Bem… Disseram-me que ela é a namorada dele.

–Isso seria muito estranho. – falou Lucy com uma pontada de timidez. – Ele mal fala connosco, como é que ele conseguiria falar com uma rapariga?

Repentinamente senti uma movimentação de ar e olhei para trás. Ainda fui a tempo de ver o cabelo dourado de Peter. Ele tinha ouvido tudo.


Notas finais
digam-me o que acharam ^-^