Semideuses: A descoberta
12 Capítulo 12
– É hora de dividirmos as carroças. – disse um dos monstros, olhando o relógio.
As ordens do mestre não podiam ser quebradas de maneira alguma. Todos sabiam disso. Por isso, cadaum deles tinha uma função. Um ficava de olho no horário, outro nas rotas, outro nas divisões de funções e grupos: batedores, guardiães da carroça, proteção de suprimentos. É claro, que só os mais próximos, e os que o mestre mais confiava que recebiam essas funções. Afinal, nos últimos tempos haviam surgido muitos adeptos ao grupo. E parecia que ele sabia que isso ocorreria. As ordens foram claras: “Nós precisamos de quantos vocês puderem encontrar no caminho. Mas nada de essencial deve ser dito. Não saberemos se são confiáveis, ou se são apenas espiões, pelo menos não até enfrentarem momentos decisivos”.
E ele, como sempre, estava certo. Deuses e ninfas mandaram espiões. Não sobreviveram muito mais que alguns dias. Eram raros, mas alguns sobreviviam algumas semanas. Mas um deles sobreviveu. Mostrou que era confiável, e durou no grupo. Passou-se um mês, e ele sumiu. Provavelmente para reportar as descobertas, que não foram muitas, graças às ordens do mestre. Ele, Mythos, o nomeado chefe do grupo pelo mestre, mandou um grupo à caça do espião. Como ele imaginou, não tiveram sucesso algum. A partir daquele dia, deixou esse grupo mantendo-se atrás, como uma retaguarda. Caso algum ataque surpresa acontecesse por trás.
Mas de certa forma ele estava se sentindo seguro. Apesar das intromissões e dos espiões, eles ganharam muitos aliados ao longo do caminho. Monstros de todos os tipos. Monstros até que os humanos gregos não chegaram a conhecer. Monstros que nasceram de Titãs ou deuses, ou até foram criados. Ou melhor, foram as experiências que não deram certo. Ele achava que essas experiências dos Titãs não fossem se juntar ao grupo, por ressentimento, então eram eles os mais vigiados. Até ter sido provado exatamente o contrário: eles eram os mais confiáveis, pois queria mostrar que não eram inúteis, e queriam dar orgulho, ou algo parecido com isso, aos seus criadores.
– Mythos, tem gente nova chegando. Onde vamos coloca-los? — Perguntou um dos seus assistentes.
– Coloque na carroça três, Larry. Avise os outros que nós temos que ir agora. Sem mais enrolação.
– Sim senhor.
Os novatos passaram encarando Mythos com estranheza. Afinal, todos faziam isso. Os que só o conheciam pelo nome, pensavam que ele era o famoso Minotauro. Já os que o conheciam pela aparência, estranhavam o nome. Mas o que poucos se lembravam é que o nome do Minotauro era Minos, não Mythos. E ele, que monstro era? Era o famoso Leão de Neméia. Por isso ele havia sido escolhido para escoltar a carruagem principal e verdadeira. Ele era forte, esperto, e não podia morrer tão facilmente. Afinal, sua pele era impenetrável. É claro que ele podia ser morto de alguma forma, mas era, dos monstros nos quais o mestre confiava, o que era mais invulnerável.
As três carroças começaram a se movimentar em uníssono. Por um momento, Mythos ficou confuso. “Qual é a carroça mesmo?” Lembrando-se, encaminhou-se à carroça e juntou-se ao grupo que iria escoltá-la. “O mestre foi esperto até nisso. Não deixou os monstros fortes na carroça verdadeira, nem tentou enganar os outros, protegendo com os melhores ‘soldados’, como ele nos chama, uma das carroças falsas. Ele protegeu todas com a mesma quantidade de soldados fracos e fortes.”
Mas se alguém estivesse seguindo-os, pensou ele, e não tivesse sido descoberto, acabaria percebendo que todos os monstros trocam de carroça de tempos em tempos. Menos ele, Larry e Encélado. E deles três, só Mythos era realmente o melhor.
Encélado era um gigante, filho de Gaia. Ele era o gigante do fogo. Mas o problema dele é que, assim como seus três irmãos, ele era, bom... Enorme. Enorme e lerdo. Tanto no sentido de velocidade quanto de esperteza. Larry era um amigo antigo de Mythos. Não era tão ruim assim, mas tinha que admitir, que também não era tão bom. Larry era a também famosa Píton. O único problema era que ela ainda estava meio dividida. Os monstros, assim como os deuses, não morrem. Mas Larry foi dividida em dois por Apolo. E ela ainda tem uma cicatriz. Já que ela não “morreu” e foi pro Tártaro, onde eles se regeneram, ela ficou com a parte de trás partida. Tudo o que se tinha que fazer para matá-la era terminar o trabalho da divisão. E repartida assim, ela não era tão ágil quanto antes. Isso até mesmo ela admitia.
Então, essa pessoa perceberia que Mythos era o mais forte, ou pelo menos que ele era o principal no comando. E assim ficaria mais fácil tentar descobrir sobre a carroça certa, e as falsas. Mas era um risco, e um risco muito pequeno. Com toda a segurança que tinham, era quase impossível que alguém estivesse seguindo-os.
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A estrada, que antes era única, dividiu-se em três. E as duplas olharam-se pela última vez, e deram olhares de despedida. E cada um seguiu seu caminho. Ágata e Mia seguiram pelo caminho da esquerda, aparentemente liderado por um gigante. Aaron e Blanca seguiram pela direita, com uma Píton liderando o grupo. E Agis e Théo seguiram pelo caminho do meio, acompanhando o Leão de Neméia.
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Mia se mostrava mais apreensiva a cada passo. E Ágata estava preocupada com ela, já que Mia havia se tornado muito especial para ela. Não conseguindo mais esconder a preocupação, Ágata pergunta:
– Mia, o que foi?
Mia a olha como se estivesse acordando de um sonho.
– Nada Ág, não é nada não.
– Você não tá conseguindo esconder muito bem esse nada...
– Está bem, você venceu. Eu estou preocupada com todos, porque agora que a gente se separou, eu não posso protege-los. Me sinto impotente. E o que mais me preocupa é o Théo com o Agis, sabe? Eles não se dão bem, e tenho muito medo de que isso acabe estragando todo o plano, e que eles sejam capturados, ou coisa pior...
– Mia, eles são uns grandes bobos de brigarem, e serem um tão mal educado com o outro. Mas eu tenho certeza de que eles não são burros o suficiente pra deixar essas desavenças tomarem conta deles. Eles sabem dos riscos, e sabem que vão precisar dar um jeito de resolver os problemas juntos.
– Obrigado Ág, mas eu não tenho tanta certeza disso. Eles dois são muito teimosos e orgulhosos.
– Bom, o único jeito de saber é deixando-os não é? Quem sabe assim o Ágis não tenta entender o Théo, e vice-versa?
– É, quem sabe...
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– Sabe, acho que vai ser legal a gente passar esse tempo sozinhos – disse Blanca. – Vai dar pra gente se conhecer melhor.
– Acho que a frase correta seria: você me conhecer melhor. Eu sei tudo o que há de possível e impossível sobre você. – Aaron disse, com um sorriso brincalhão.
– Ah, é mesmo? Então conte-me o que você sabe – Blanca fala, visivelmente surpresa.
– Ok. Sobre as coisas bobas e não tão importantes: você é filha de Afrodite, e tem o dom de convencer as pessoas. Nasceu na Alemanha. Seu pai era músico, o que explica sua paixão pela música, principalmente músicas clássicas. Antes da Narcisa aparecer, vocês tinham aula de música por aqui, e você aprendeu a tocar violoncelo. Adora moda, e é viciada em maquiagem. Vive pedindo pra Mia desenvolver maquiagens novas. Apesar de tudo, não é muito chegada aos sapatos de salto. Você usa, e sabe andar muito bem, mas sempre que pode usa sapatilhas. É apaixonada por hip hop, o que te faz uma garota muito... Interessante. Suas comidas preferidas são torta de morango, suflê de frango e suco de maçã com cenoura. Eca para esse último. Você precisa de mais alguma informação?
Blanca olhava para ele totalmente embasbacada. Só quem sabia que o pai dela era músico e que ela tocava violoncelo eram seus dois melhores amigos, Mia e Théo. E as comidas, ele tinha que ter prestado muita atenção nela para descobrir isso.
– Nossa, você é algum tipo de ninja de pesquisa? Porque se for eu vou precisar muito dessa sua habilidade pros trabalhos da escola. Quer dizer, se a gente voltar né.
– Não, eu simplesmente gosto de saber tudo das pessoas que me interessam.
Aaron a olhava com olhos penetrantes e curiosos. Blanca se recompôs e disse:
– Bom, da próxima vez você pode apenas me perguntar. Eu poderia te dizer todas essas coisas e muito mais. Agora vamos aprender sobre você.
Blanca e Aaron conversaram animadamente, rindo um do outro, e aprendendo todo o possível sobre o outro.
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Agis e Théo iam em silêncio. Dava para notar a tensão entre os dois. Para eles, a viagem seria muito longa, e cheia de desavenças. Pelo menos era isso o que os dois pensavam inicialmente.
– Então – Agis começa, tentando quebrar o gelo – nós vamos passar a viagem inteira assim, sem se falar, e um sem ir com a cara do outro?
– Por mim tudo bem. – resmunga Théo.
– Olha, eu sei que pareço ser um cara chato, super mandão, mas eu também tenho meu lado legal ok? Eu vou tentar controlar essa coisa de dar ordens. Mas é meio que meu. Sabe, sou filho de Esculápio, deus da cura e meio que da medicina também. E todo médico tem um ar mandão não é?
– Oi? Como é o nome do seu pai? Esculacho?
– Esculápio cara. Pra ser sincero, Hefesto não é um nome muito melhor.
– Verdade, não mesmo. Mas Esculacho é mais engraçado.
– Nunca tinha pensado nesse trocadilho. Mas é engraçado.
Os dois forçam uma risada, e o silêncio paira novamente. Após um longo tempo de caminhada, Agis tenta novamente:
– Então, você e a Mia. Finalmente ein, achei que isso nunca fosse acontecer.
– Pois é. Ela deixou de teimar um pouco, e decidiu ouvir o coração. – Théo diz, muito cautelosamente.
– Parabéns cara. Sério, não precisa ficar encascado com isso. Fico feliz por vocês. Apesar de... Bom, não é segredo, pelo menos não pra você, que eu gosto dela. Mas eu sempre soube que ela ia ficar com você. Então, não precisa ficar bravo comigo por causa disso tá? Afinal, no coração não se manda.
– Nossa, uma pessoa que fala cara, tá, e na mesma frase consegue colocar um encascado. Não sei se você veio do futuro ou do passado.
– É que eu costumo usar algumas palavras que minha mãe dizia quando eu era criança. Sei lá, é meio que um jeito que eu tenho de me manter conectado com ela.
– Nossa, você lembra da sua mãe?
– Sim, lembro. Você não deve lembrar porque está naquela escola há muito tempo, então além dos poderes que foram impregnados lá afetarem, bom, infelizmente a verdade é que você deve ter passado pouco tempo com sua mãe.
– É – Théo diz, meio abalado.
– Olha aqueles dois caras ali. Eles tão se afastando. Acho que vão conversar sobre alguma coisa. Quer arriscar?
– Achei que você não ia perguntar nunca.
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Mythos sai discretamente com um dos soldados. Eles param em frente a um monte de casas escavadas. Mythos pergunta diretamente:
– Você cumpriu a missão que te dei?
– Sim senhor, eu fui até o Mestre e falei que...
– Quieto! – vociferou Mythos. – Já te falei que o que nós conversamos, só ficará nas nossas mentes. Nada de pronunciá-las. Podem haver espiões em algum lugar.
Mal sabia ele quão certo estava, pois Agis e Théo se aproximavam cada vez mais, cuidadosamente.
– Depois que passarmos essa cidade, as coisas ficarão complicadas. Terão mais templos, e será cada vez mais perigoso para nós viajarmos. – disse Mythos, quase para si mesmo.
– Nós não podemos fazer como estamos fazendo até agora senhor? Quer dizer... Criar essas esferas espaço-tempo para nos locomovermos sem passar por templos e essas coisas feitas para os – ele parou para cuspir – deusezinhos do Olimpo?
– Não. A partir de agora teremos que passar por mais cidades onde a marca deles está presente em vários períodos de tempo. Essa cidade foi a última em que escapamos ilesos, pois sofreu conquistas de vários povos, e teve muitas outras influências deíficas.
– Então eu vou preparar meus... Quer dizer, seus soldados senhor. Estaremos prontos para qualquer armadilha que aparecer.
– Espero que sim. Você está sentindo isso? – Mythos diz, farejando.
– Nã...nã-não senhor. O que há?
– Nada. Volte para a formação, e mantenha tudo organizado. Eu já estou a caminho.
O soldado e Mythos seguiram direções opostas. Mythos farejava, se aproximando mais e mais dos dois garotos. E eles tentavam sair, e encontravam obstáculos que uma pessoa fora de perigo acharia mínimo, mas que ambos sabiam que seriam fatais: pedras, areia molhada e pedaços de construção. E a cada momento a mais de medo, mais Mythos se aproximava de suas possíveis presas.
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