Sementes de rancor
6 Capítulo 6 – O acampamento
Algumas pessoas tinham pernas bem estranhas, cobertas de varizes, estrias, cicatrizes e pelos, mas Gary tinha com toda certeza os pares mais bizarros que ela já vira na vida. O garoto havia estacionado o carro de qualquer jeito e descido correndo, sem calças na direção deles.
Talvez fosse estresse pós-traumático, resultado de ter acabado de esfaquear sua madrasta até ela virar pó, ou a revelação de que um dos seus estava vivo, aliás, para sempre, mas foi só depois de estar na parte de trás da van, ao lado de Paulo, com Gary dirigindo a mil por hora e tendo acabado de beber um líquido estranho, com gosto de biscoito e que parecia repor suas que Lily conseguiu perguntar:
– Desde quando você tem pernas de bode Gary?!
–Desde sempre Lily, sátiros nascem assim e morrem assim.
– Ah que legal? Meu pai é um deus, minha madrasta é uma Fúria e sou amiga de um sátiro. Alguém chama o meu Pégaso para completar a festa, por favor. A pegadinha foi muito bem feita menino, mas já passou dos limites.
– Isso não é uma pegadinha pequena, pare de pensar que é para tornar tudo mais fácil. – disse Paulo sorrindo de leve — Não se preocupe você pode lidar com tudo isso, está no seu sangue.
Então ele se aproximou de repente e a abraçou, foi só então que Lily percebeu que estava tremendo. Com a cabeça nos seu peito ela começou a brincar com a estampa de cavalo, já começando a se acalmar.
– Paulo, o que é o Acampamento Meio-Sangue?
– É o lugar para onde estamos indo agora, o único lugar na terra seguro para pessoas como nós, completamente livre de monstros. Mas não perturbe essa cabecinha com isso agora, tente descansar, você merece.
Ela queria retrucar que ele devia estar mais cansado que ela e ainda por cima estava machucado logo ela devia ficar acordada enquanto ele dormia no colo dela, mas Paulo parecia ótimo, tirando as marcas dos cortes, que pareciam tão superficiais agora, e ela estava realmente exausta, física e emocionalmente.
– Não se preocupe comigo Lily, eu vou dormir também, e vou ficar mais calmo com você nos meus braços. – então se virou para frente – Gary você pode colocar uma música por favor?
Gary assentiu e ligou o rádio, quando a melodia começou a tocar a menina sorriu para Paulo, porque eles costumavam cantar essa música juntos quando eram pequenos:
I, I wish you could swim
Like the dolphins, like dolphins can swim
Though nothing, nothing will keep us together
We can beat them, for ever and ever
Oh we can be Heroes, just for one day
E adormeceu rindo da ironia de pensar que agora eles eram heróis de verdade, matando monstros de verdade. Foi um sono leve e rápido, pois Gary fazia muitas curvas arriscadas e freava muito e Emily frequentemente sentia o corpo de Paulo se enrijecer quando Gary dizia farejar algum monstro nas redondezas, mas apesar disso chegaram a colina no alto do acampamento sem ter que travar mais nem uma luta.
Ao descer do carro ainda cambaleando de sono, Emily teve que esfregar os olhos mais de uma vez para acreditar no que estava vendo. Ele nunca tinha ido a um acampamento antes, mas tinha certeza que acampamentos não tinham armaduras, espadas, uma parede de escalada com lava de verdade escorrendo ou principalmente sátiros e criaturas que ela suspeitava serem ninfas, correndo livremente entre aquele mar de adolescentes vestidos de laranja.
– Bem vinda ao acampamento meio sangue pequena. Vem comigo, eu vou te mostrar o lugar.
Então Paulo saiu puxando Emily colina a baixo, e levou ela para quase todos os cantos do lugar, faltando apenas a grande casa branca que ficava no centro do lugar (inacreditavelmente chamada de “Casa Grande”) e os chalés que ficavam aglomerados a oeste, para onde eles iam agora.
– E esses são os chalés, cada deus ou deusa tem um, até mesmo os menores, e nós dormimos em um de acordo com o seu pai ou mãe Olimpiano. Existem dois chalés que estão sempre vazios: o de Hera, já que a deusa do matrimonio não deve pular a cerca, o de Ártemis, pois ela jurou manter-se virgem, embora suas caçadoras, que são garotas que desistiram dos meninos, servem a ela e são jovens para sempre, o ocupem de vez em quando. Está me acompanhando Lily?
– Estou sim, embora minha cabeça esteja girando um pouco. E quem é o seu pai?
– Apolo, deus do sol, da profecia, da cura, da poesia e das cantadas toscas-disse ele rindo- Ou o deus mais hot do olimpo, se você quer saber.
– Humm, isso explica muita coisa..,
– O que? Eu te encontrei ontem e você já está me cantando de novo? Oh deuses, por que tenho que ser tão irresistível?
– Cala a boca seu idiota- e deu um soco no ombro dele, sem conseguir evitar uma risada de constrangimento — Eu quis dizer que você sempre teve um fascínio pelo sol e pela poesia, embora você nunca tenha escrito algo digno de ser lido.
– Ah é né? Agora é assim?
Então ele se aproximou, com a sua nova velocidade, abraçou a cintura dela com o braço e com o outro o seu queixo, imobilizando a enquanto a forçava a encará-lo.
– Vamos lá Lily, diz olhando no fundo dos meus olhos que não me acha irresistível e que não gostava das poesias que eu te escrevia, vamos diz.
Emily não sabia o que responder, ela não poderia mentir , ele sempre sabia quando ela fazia isso por outro lado admitir ali aquela velha paixonite de infância seria constrangedor demais, ainda mais quando ela persistia, sem que ela soubesse se era ou não retribuída, isso sem mencionar o fato de que tê-lo tão perto estava deixando a mente dela um tanto...confusa.
Ela foi poupada de qualquer resposta graças ao Gary que vinha andando se graça, se remexendo nos seus cascos nervosamente.
– Gente...desculpa atrapalhar mas... Emily tem alguém importante que quer ver você.
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