Sementes de rancor

1 Capítulo 1- Adivinha que veio para dançar?


A noite está quente, a lua já está brilhando com toda a sua intensidade no céu, rodeada de suas estrelas. Uma brisa perfumada avança janela adentro, balançando as cortinas, virando as páginas do livro sobre a mesa de cabeceira e agitando seus cachos e seu vestido.

Ela estava diante do espelho, terminando de fazer a maquiagem, bem natural como sempre, e depois dando voltas diante do espelho.

- Bem, é o melhor que eu posso fazer – suspirou desanimada.

Emily tinha acabado de completar quinze anos, era ligeiramente magra, possuía olhos grandes e castanhos, pele bronzeada (resultado de várias horas lendo no jardim de sua antiga casa), e um cabelo bem negro completamente cacheado que hoje ligeiramente preso no alto de sua cabeça caindo em ondas nas suas costas.

Aquela era a noite do baile de Homecoming e por isso ela estava arrumada daquele jeito, embora o seu vestido (vermelho bem escuro, o mais próximo de sua cor favorita, vermelho sangue) fosse com certeza ser o mais discreto no salão essa noite.

Uma olhada rápida no rádio relógio do criado mudo revelou que ela já estava começando a se atrasar.

- Droga!- xingou baixinho.

Odiava aquelas frescuras de seu internato, pra que ostentar aquele clichê americano se mais da metade dos calouros preferia estar no seu dormitório, a ver os veteranos se acabando de dançar na pista de dança enquanto eles ficam sentados, espiando, cercados de estranhos?

Preferia mil vezes seu antigo orfanato a aquela escola/prisão cheia de gente metida. Mas ela havia sido adotada pela “caridosa” Mrs. Polaine, que a atirara naquele internato assim que percebeu que não conseguiria lidar com o TDAH e a dislexia da sua nova filhinha.

Como ela sentia falta do orfanato... Das árvores que pareciam convidá-la para sentar-se entre suas raízes e sonhar estando acordada ou não, geralmente na companhia de algum livro, que ela lia com muito custo, sem dúvida, mas com muito prazer. Sentia falta das moças que cuidavam dela como mães, dos amigos e, principalmente sentia falta de Paulo.

Mesmo depois de quase cinco anos sem notícias, aquele menino não lhe saía da cabeça, não fazia ideia de onde ele estava, da ultima vez que o vira ele estava sendo adotado, vulgo: arrastado para longe dela contra sua vontade, por uma senhora idosa que, na opinião de ambos fedia sangue seco.

Tocou de leve a pulseira de miçangas vermelhas como maçãs que ele dera-lhe naquele dia, e começou a lembrar dos seus cachos loiros de anjo, os olhos sorridentes verde mel a pele bem branca...

Uma batida na porta a trouxe de volta a realidade, era Melanie já impaciente e deslumbrante no seu vestido rosa choque.

- Estava lendo de novo não é? Anda logo, nós vamos nos atrasar por sua causa. — Disse ela puxando Emily do quarto com tanta força que ela mal teve tempo de pegar sua bolsa.

- Desculpe... Você está linda por sinal.

Melanie sorriu a contra gosto.

- Você também não está nada mal Ebony.

Okay, pensou Emily, se Mel tinha a chamado pelo seu inusitado sobrenome talvez seu atraso fosse considerado perdoável.

Juntaram-se a multidão que descia apressada as escadas do ginásio e chegaram ao baile.

A primeira coisa que Emily viu não foram as luzes, os balões as mesas ou o DJ.

E sim um adolescente loiro, forte, alto vestindo uma camiseta laranja e calça jeans que caminhava em sua direção.

- E aí pequena?- disse ele abrindo um enorme sorriso.

Emily não conseguiu responder.

Era Paulo que estava diante dela.