Semelhanças Inesperadas
1 Capítulo 1
Neytiri notou o silêncio e a solidão irem embora da tenda quando sem dúvida nenhuma, seus filhos tinham acabado de chegar. Virando-se apra eles, contente em ter sua companhia novamente depois de todo o dia separados, ela notou as expressões cansadas de Neteyam e Lo'ak. O rosto do filho mais novo com certeza mostrava um pouco mais de protestos e indignação.
—O que aconteceu com vocês dois? — ela questionou antes de dizer qualquer outra coisa.
—Está tudo bem, mãe, não se preocupe — Neteyam logo fez questão de despistar qualquer preocupação dela, tendo consciência do quanto aquela mudança tinha sido difícil, principalmente para sua mãe.
—Deixa de ser mentiroso, Neteyam, é a mãe, acho que tudo bem a gente falar que tá sendo um saco tudo isso! — Lo'ak preferiu desabafar, deixando seus pensamentos saírem de forma bastante frustrada.
—Não fala assim, seu tolo! — seu irmão mais velho achou melhor corrigi-lo.
—Não minta, meu filho — ela pediu a ele, desfazendo a discussão que com certeza poderia continuar por muito mais tempo — seja sincero, Neteyam, me fale o que chateou vocês dois.
—Bom, a verdade? É que tudo isso, viver aqui, é muito diferente, é muito difícil — o mais velho resolveu conversar sobre o que estava pensando também, de forma mais suave que o irmão — toda essa coisa de respirar muito tempo debaixo d'água, perdi quantas vezes pensei que ia morrer, e toda essa coisa de se concentrar e focar, eu consigo me focar, sei que consigo, sabe aqueles momentos antes de atirar uma flecha, sei fazer isso muito bem, mas nem se compara com segurar o fôlego.
—Você não mencionou os ilus — Lo'ak riu sem humor — eles simplesmente não aceitam a gente, sem contar em todo mundo rindo da gente, ou nos chamando de um monte de coisas, meninos da floresta, cauda de bebê, aberração, a gente tinha mesmo que passar por tudo isso?
Antes de responder, Neytiri apenas suspirou, tocando o rosto dele e depois de Neteyam. Era claro a frustração que eles sentiam, ao menos nisso, ela não estava sozinha, era um sentimento compartilhado pela família toda, mas talvez no mesmo nível pelos três que estavam ali.
—Eu sei que é difícil, mas seu pai disse porque tivemos que fazer isso, é um jeito diferente de proteger o nosso povo, mas fizemos nossa parte, com nosso sacrifício — ela explicou, esperando acalmar os meninos de alguma forma.
—Sabemos porque viemos pra cá, mas não torna a adaptação mais fácil, mãe — Neteyam suspirou.
—Eu sei, precisam de tempo, eu preciso também — sua mãe acrescentou — tenham paciência com vocês mesmo, como eu precisei ter um dia.
—Paciência com o que? — Lo'ak perguntou, muito curioso.
—Eu não queria rir às custas de vocês, mas tudo isso que me contaram me lembra muito o seu pai — Neytiri se explicou melhor, permitindo-se rir um pouco.
—O pai? Como assim? — Neteyam quis mais explicações.
—Ah eu entendo, vocês o conheceram como o grande Toruk Makto, o guerreiro que salvou a todos do povo do céu mas antes de tudo isso, ele era como um bebê quando eu o conheci, completamente sem jeito, sem saber o que fazer — ela contou, se lembrando de tudo isso.
—Eu sei que foi você quem ensinou os costumes do nosso povo pra ele, mas nunca contaram muitos detalhes, eu me lembro da história de você tentar matá-lo — o mais velho comentou.
—Sim, é verdade, mas depois comecei a entendê-lo melhor, depois de ficar muito irritada com ele por errar tanto nas lições — Neytiri continuou contando — a primeira vez que ele montou em um pa'li levou um grande tombo e eu não pude evitar rir, sem contar em como ele falava errado o tempo todo, eu também o provocava chamando de idiota, mais por raiva do que pra irritá-lo.
—Será que ele ainda se lembra disso tudo? — o mais novo levantou a questão, não conseguindo associar o jovem que a mãe estava descrevendo ao guerreiro que era o pai que conhecia.
—Ele lembra sim, e entende o lado de vocês, poderiam conversar com ele sobre isso — ela sugeriu, sabendo que para seus meninos, naquele momento, essa não era uma tarefa muito fácil.
—Não tenho certeza — Neteyam confessou, um tanto envergonhado.
—Eu sei que não querem decepcioná-lo, mas conversar seria bom, de verdade — a mãe deles insistiu.
—Ele mudou muito, sabe? — Lo'ak deu de ombros distraidamente — de quando a gente era criança...
—Não, até pouco tempo ele ria com a gente, brincava, contava piadas, perguntava das nossas aventuras, mas sempre pedindo pra sermos cuidadosos — Neteyam achou melhor acrescentar, corrigindo um pouco o irmão — quando o povo do céu voltou, tudo mudou pra nós, o pai mudou, transformou a gente em... outra coisa.
—Ah Neteyam ...- sua mãe o envolveu num abraço antes que falasse qualquer outra coisa — você está indo bem, vocês dois estão.
—Talvez o Lo'ak precisasse de mais juízo — seu irmão mais velho conseguiu brincar, depois de receber o gesto de conforto.
—Cala a boca... — reclamou o mais novo.
—Vocês dois estão indo bem — Neytiriu corrigiu e abraçou Lo'ak também — nós vamos superar tudo isso, de alguma forma, vamos encontrar alguma coisa que nos ajude a lidar com todas as novidades, estarmos juntos ainda é um conforto no meio disso tudo, não é?
Os meninos assentiram, sorrindo agradecidos para ela.
—Se precisarem conversar, eu vou estar aqui por vocês, sempre — ela ofereceu.
—Eu sei, mãe, obrigado — Lo'ak respondeu.
—Obrigado — disse Neteyam — e você também, eu sei que é difícil, nós sentimos saudades da floresta, da vovó, se precisar falar comigo sobre essas coisas, também estou por aqui.
—Eu sou muito grata a Eywa por ter filhos tão atenciosos — ela sorriu para os meninos mais uma vez — temos um trato então, algo que eu acho que pode até ficar entre nós.
—Sem as meninas saberem? — Lo'ak estranhou a exclusão das irmãs na conversa.
—Elas estão bem, vocês precisam mais da sua mãe agora, por mais que não queiram admitir — Neytiri acabou rindo.
—Eu estou dentro — Neteyam aceitou de imediato.
—Eu também — Lo'ak riu da situação, mas concordando que era uma ideia muito boa.
Interrompendo sua conversa, chegou justamente o objeto de toda discussão. Jake deu uma olhada nos filhos e na esposa, levemente desconfiado, mas depois sorrindo para eles.
—É bom ver que estão bem — ele comentou sobre seu estado — aconteceu alguma coisa interessante?
—Não, nada mesmo — Lo'ak foi o primeiro a responder — só nós conversando com a mamãe sobre quando você era aluno dela.
—Eu lembro disso — o pai deles decidiu entrar no assunto — eu era péssimo, um completo desastre ambulante, um pouco como agora, o tsurak não é nada fácil, mas por tudo que eu aprendi e fiz no passado, as coisas estão mais simples, eu acho.
—É, pode ser que sim — Neteyam respondeu quietamente.
A vida que conheciam tinha ficado para trás, mas talvez o pai que conheceu antes que a guerra o mudasse pudesse retornar naquele ambiente diferente.
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