Semelhantes a Lágrimas.

1 Pairando no céu... as lágrimas infindáveis.


Notas iniciais
Obrigada pela atenção e por sua curiosidade, filhotes! Espero que gostem do que irão ler, nesse pequeno texto...
Boa leitura.

No meu quarto, havia um banheiro. Ele ficava escondido dentro de meu armário, em uma das portas da extremidade à esquerda, perto da parede, distante da porta. Lembrava-me de como deixava a porta semiaberta, e quando entrava lá para, às vezes, ocultar-me da realidade. Não era apenas um banheiro. Era um portal, uma passagem trancada cuja chave apenas eu tinha.

Havia chuva quando entrei nele pela última vez. Chovia, e trovejava. Particularmente, nunca tive medo de trovões. Já tinha presenciado um acidente com raios no inverno passado, mas realmente não os temia. Era apenas uma ameaça vazia, tentando me provocar, porém imprecisa. Não lhe permitiria causar-me espanto. Não mesmo. Principalmente porque eu não tinha muitos indícios para me concentrar em qualquer coisa concernente a adrenalina, quando esta estimulava o terror. Eu era uma casca vazia.

Provavelmente, isso ajudou quando não senti minha morte. Ou, pelo menos, o aparente de minha morte. Não que eu tenha necessariamente morrido, com o coração cansado e com a final injúria cessando de bater, com a respiração lenta transformando-se em mórbida e acabando-se em um sopro minúsculo, e os membros transfigurando-se para cada vez mais gélidos e inúteis. Não. Eu morri, mas imperceptivelmente. E eu não tive medo dela.

A janela em meu banheiro expandia-se ao lado de minha banheira. Ela era opaca externamente, e completamente fragmentada, impossibilitando qualquer tentativa de espionagem em meu refúgio. Porém, havia uma perfeita visão internamente, e era por ali que eu examinava as gotas da chuva se derramarem no gramado, este encharcado e coberto de cores vivazes das flores plantadas por mim na primavera passada, irradiando um aspecto lôbrego sob a luz incidente do luar intitulando-se forte e majestoso. As gotas impregnavam-se no vidro, escorrendo infelizes e ardilosas. Ainda não entendia o motivo por definirem metaforicamente a chuva como “lágrimas despejadas pelo céu”. Como poderiam saber se aquelas gotas puras e singelas eram tristonhas como lágrimas representariam? Está bem, posso confessar de boa vontade que lágrimas não são essencialmente tristes. Há lágrimas de alívio, de felicidade, e de fúria. Entretanto o significado mais expressivo é este: solidão, desconsolo, mal agouro. Ou talvez as pessoas apenas diziam isso para indicar a confusão. Lágrimas também podem ser definidas como indistinção. Era exatamente o que ocorria comigo: estava aturdida.

Levantei meu braço da sua submersão dentro da água da banheira, a qual cobria-me até o pescoço. Levei minha mão até o vidro e encostei minha palma na friagem. Das fissuras quase indetectáveis, as quais percorriam o contorno da janela, havia a corrente de ar esgueirando-se para dentro, congelando minha pele. Não retirei-a dali. Mal conseguia detectar sua sensibilidade. Meus pensamentos vagavam longes, e as gotas frenéticas apenas dançavam pelo caminho, perfilando-se nas bordas de repartições, escorregando pela superfície como se estivessem em um parque de diversões.

Será que as pessoas não as viam como bênçãos? Porque são o que elas são. São magnificências concedidas a nós para mandar-nos alento e paz. Conforto e segurança. Abrigo e reflexão. Assim como às vezes controversas e pesadelos. Puxei uma longa baforada de ar e afundei mais na banheira, recobrindo com a água meu maxilar, deixando imergido apenas o topo de minha cabeça e meus olhos, observando, e sofrendo. Eu também tinha gotas. Gotas que se libertavam de mim com uma frequência absurda. Perdendo-se no aglomerado de água limpa da banheira, misturando-se, tornando-se um. Eles encontravam alguém, pelo menos.

A cortina despencava ao meu lado, separando-me do espelho que pendia da parede oposta. Não podia vê-lo; não, sem antes visualizar minha própria imagem. Uma garota frágil, e confusa. Assim como a chuva, a qual ficava cada vez mais fraca, fina e distorcida. Minha mão ainda permanecia na janela, escutando seus sussurros, surpreendendo-me em sua canção. Elas cantavam. Soavam harmoniosas, ritmadas e delicadas. Chamando por alguém, chamando por estrelas. Eu não as via havia semanas, digo, as estrelas. Às vezes, seu desaparecimento coincidiu com o meu. O meu desaparecimento do racional, do obvio. Vivia as sombras, inundada de suposições. Era difícil, como quando pequena era difícil compreender, sem antes sofrer, como o fogo queimava se eu o tocasse e mantivesse meu dedo acima da fagulha abrasante. Era assim quando vivia, também. De modo indefinido, era assim com tudo.

Os pelos de meu braço se eriçaram, e por fim os meus dedos começaram a escorregar. Minha palma descolou-se da superfície melancólica do gelo e deslizou até a água morna, causando-me um arrepio pela medula. Continuei a livrar minhas gotas de chuva silenciosamente, sem perturbar ninguém.

A porta do banheiro, a qual deixara semicerrada, rangeu-se ao abrir-se pela metade. Quem quer que tenha entrado, não se importou em fechá-la novamente. Talvez não lhe desse importância, ou não houvesse razões. Não ouço passos, muito menos uma segunda respiração. Meu coração continuava a bater em pleno coral, baixo e lento. Naquele instante estava vulnerável, mas não levava em conta esse detalhe. Meus olhos, até aquele momento focados na janela desde o início, desviaram-se para as cortinas. Não havia movimentos, sombras, ou sequer oscilação de temperatura. Respiro fundo, e posso ouvir o ar bater e ricochetear nas ondas das águas mornas que me serviam como cobertor.

Ergo o braço direito do véu conciliado com a estabilidade da ideal maneira familiar de uma lareira calorosa. De imediato, uma invasão da corrente gélida percorre pelo meu membro, desdenhosa, gargalhando de forma lúdica enquanto me nocauteava. Um tremor involuntário atravessa meu corpo e eu o refreio em meia partida de me dominar. Ranjo os dentes e agarro a cortina, fechando os dedos no tecido macio. Puxo-o para o lado, metodicamente, vasculhando o quadrículo de meu banheiro com meticulosa atenção. Meu reflexo, diante de mim, acompanha-me, parecendo escarnecer com minha imagem vultuosa perante a sua superfície embaçada, causada pela névoa acumulando-se no teto, grudando-se às paredes. Mostro a língua para meu eu do outro lado e ela imita o gesto. Uma gota ecoa no chão quando ela foge de meu cotovelo. Volto a atenção aos cantos abaixo, acima e nas laterais de minha banheira. Não há ninguém, está nítido. Mas isso não me reconforta, ou me faz relaxar. Porque meus músculos nem ao menos ficaram tensionados.

Escuto um ruído breve ao meu lado, e sei exatamente de onde vem. Impulsionando meu corpo com o braço imergido na água, inclino-me para o lado e analiso a beira de minha banheira. Um sorriso esparrama-se pela minha face como se encontrasse algo há muito tempo perdido. Voilà. Lá estava o invasor. Ele tinha um corpo flexível, e uma cauda longa, que contorcia-se e balançava com graciosidade; suas costas eram volumadas por pelos marrom escuros e em seu focinho negro havia fiapos contrastando-se a tufos da maciez branca; os olhos eram circunferências obscuras e cintilantes, as quais fixavam-se em mim com afeição. Meu pequeno cachorro, de raça desconhecida, cascateava pela borda, buscando por atenção.

Tornei a mergulhar no líquido, escutando, atenciosa, a chuva pairar ao meu redor. Deixei meu braço caído ao lado da banheira, permitindo transbordar certa quantidade de água para fora, resultando em minha mão alcançar pelos úmidos ao invés dos suaves e secos que eram poucos momentos atrás. Um riso estendeu-se pela minha garganta, e aconcheguei minha cabeça na cavidade em minhas costas. Meus olhos fitaram a janela novamente, e uma de suas gotas competiram com as minhas, que chegaram no alto de meu nariz e desabaram exaustas, causando ondulações no ponto onde aterrissou. Meu cachorro, certa vez, houvera encontrado um hamster nos degraus de uma casa enquanto passeava com ele pelo bairro. O hamster não se movera, o que foi algo conveniente, entretanto meu cachorro também não movera um único músculo, e se recusava a voltar à caminhada. Foi quando eu comecei a prestar atenção. Meu cachorro o farejava como uma cria, e deitara a cabeça ao seu lado de modo quase parecido ao tranquilizador – embora não consiga imaginar um ser daquele tamanho reconfortando uma suposta vítima. Ficaram daquela maneira congelada por minutos, e eu continuei a assisti-los deleitando-me no que presenciava, até notar alguém me observando, com uma percepção absurda.

Foi aí que eu morri. Tenho de lembrá-los de que não foi uma morte física. Minha morte foi cáustica, e não sei se agradeço, ou se apenas me debato por aflição e relutância. Eu não sentia medo, nunca, jamais, em qualquer situação. Porém, naquele momento, quando fitei olhos verdes faiscando em minha direção, doces e profundos, sarcásticos e inquietos, eu tive. Tive um medo irracional o qual me invadiu. Não porque ele fosse ameaçador, ou carregasse uma arma consigo. Isso nem me faria tremer. Mas porque ele fizera meu sistema nervoso reagir, mandando-me impulsos energéticos que elevaram minha pressão sanguínea e aceleraram o processo cardíaco, a adrenalina agindo contra mim. O estupor que sobrepujara minhas forças riam de minha atitude, e repreendi a mim mesma por ter esse medo involuntário desabrochando dentro de meu âmago. Eu não conseguia o compreender – era por isso que ele despertara.

Meu braço começa a formigar e retiro-o hesitante do corpo aquecido de meu cão. De acordo com minhas deduções, calculando por sua respiração leve e constante, ele teria adormecido. Fito além da janela, e percebo as gotas aparentar rarear. Empurro-me para mais fundo da banheira, tentando sufocar a angústia. Estava com medo pelo que me acontecera, mas ao mesmo tempo não estava. Era um medo diferente. Era um medo apático.

Fechei os olhos e fiquei escutando os últimos passos da trilha das gotas. Sentia minha garganta apertada, e meu corpo leve depois de horas ponderando. Havia tantas mudanças, tantas, que tentava não sentir medo. E até agora, eu conseguia. Tinha êxito em não temê-las. Em lidar com as alterações com coerência. Porém, agora, havia algo que interrompera meu sucesso. E esse algo rasgara meu peito e me fazia sentir um assombro inconsciente. E não sabia o que era. Não sabia... eu tinha de esconder esse defeito. Mas era esse defeito? Havia realmente algum?

Eu estava morta. Havia morrido. Pois quem eu pensava ser não sentia medo. Mas algo despertara o medo. Não despertara? Não sabia. Havia tantas mudanças... tantas... Eis que todos morrem, então? Não há o que se temer, portanto. Que morte é essa? Sentia-me vazia, mas ao mesmo tempo inundada, cheia, prestes a estilhaçar-me e lançar cacos por todos os lados. Como o espelho diante de mim. Era difuso, circunspecto. Queria entender. Mas havia tantos detalhes, tantas lacunas.

Abro os olhos dentro da água. Consigo enxergar bolhas, pequeninas. Algumas mesclavam-se umas nas outras e outras espalhavam-se, estourando e dissolvendo-se ao chegar ao ápice. A inocência. A ignorância. A simplicidade. Era isso? Era isso que se transformava? Era isso que se perdiam dentro de mim?

Talvez... talvez.

Notas finais
Obrigada por terem carinhosamente vindo, terem lido e por preservarem um tempo para ler meu texto. Sou extremamente grata.
Comentem, digam-me o que apreciaram, o que acham que necessita de melhorias, e sobre o que mais desejarem escrever. Expressem suas opiniões, adoraria conhecê-las e respondê-las! *sorriso tímido*
Obrigada mais uma vez.
-ReynaPotter.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!