Sem titulo Universal
1 Capítulo 1
Por mais que eu evite me apresentar ou qualquer coisa que faça você virar “meu amigo” vou ignorar meu desconforto.
– Olá, Meu nome é Thomas Collins, e por mais que seja tentador, não me chame de Tom.
–Ahn, ok... Amigão, sou Joseph. Creio que nos vamos ver muito.
Esse é Joseph, o mais novo (de muitos) namorado da minha mamãe. Joseph não tinha nada de especial como todo mundo que conheço, sonhava em ser físico renomado e hoje vende seguros. Seus cabelos começando a ficar grisalhos, o deixavam envergonhado, principalmente quando mamãe passava a mão por eles. Joseph era apenas mais um de muitos que iria acabar saindo pelo batente da porta desgastado, deixando alguns pares de meias.
Mamãe tinha gosto muito ruim para escolher parceiros humanos para viver o resto da vida. Desde a morte de papai na guerra ela se tornará compulsiva por arranjar um marido, mas afastava-os em poucos meses.
O pobre do senhor que lhe dava rosas vermelhas partiu após quase falir de tantas joias. O francês Jean Pierre que quase pegou fogo depois que minha mãe jogou toda sua coleção de bebidas em sua cama e acendeu um fosforo solitário. O alemão que eu nunca soube escrever o nome. E por fim o inesquecível Paolo, ele tinha um forte sotaque espanhol, e de cada três palavras eu não entendia três, ele adorava cozinhar para mamãe, até que um dia fugiu com a vizinha espanhola, deixando uma garrafa de vinho, um pão no forno e um bilhete escrito em garranchos.
Eu não á culpo por todos os homens á deixarem, afinal, eu os odiava também, eram todos iguais, sempre que se referiam a mim me tratavam como uma criança de 10 anos. Ok, eu tenho 11, mas isso não quer dizer nada.
Eles sempre estampavam no rosto o sorriso de palhaço mais torto possível, me chamavam de “Amigão” e estendiam seus polegares em positiva. Sempre me perguntei se eles soubessem o significado disso na Roma nos anos 300 a.C. eles estariam indicando que eu viveria ou pra que eu poupasse meu adversário.
Eu sou filho único, Não conheci meu pai e odeio a palavra ”social”, não me sinto confortável em estar, conversar, ou qualquer outra coisa com qualquer outra pessoa, exceto mamãe. Ela é a única em que faço coisas junto, apesar de evitar ao máximo sair do meu quarto.
Mamãe é única pessoa especial que eu conheço, não sei se pelo simples fato de ter o posto “mamãe” , ou por ter a capacidade de não me fazer sentir-me sozinho, mesmo com seus namorados.
Ela me ensinara o nome das estrelas e constelações quando o tempo se punha aberto, nós ficávamos deitados na grama sob o céu escuro vagalumear. Mamãe me ensinou uma coisa que aprecio muito, mais que aprecio, consegue me acalmar e é uma forma de não me sentir sozinho quando mamãe não está de noite. Ela dizia.
– Thomas, quando chegar às noites solitárias de céu aberto, deite se aqui no quintal, fique em absoluto silencio e escute.. – Alguns segundos de pausa – consegue ouvir?
– Não mamãe – o rosto dela brilhava ao me ouvir chama-la de mamãe – o que é?
– Escute! Quando se está muito quieto, olhe pra cima por alguns segundos, feche os olhos, e escute. Este é som do universo.
Devo assumir que abri minha boca em um sorriso, normalmente dizem que eu nunca faço isso. E ela retribuiu com o seu sorriso de dentes perfeitamente alinhados. Ao meu ver, além de especial, mamãe tinha uma beleza indescritível. Ela usava aquele cabelo ruivo típico das mulheres dos anos 60, tinha traços finos e olhos penetrantes. Mantinha sempre um sorriso fraco na boca, porém uma expressão que insinuava que ela não era frágil muito menos ingênua. Ela me lembrava muito aquela atriz “Audrey Hepburn” no filme “bonequinha de luxo”. Acho que por isso ela dispensava tantos namorados, vai ver a personalidade da Audrey no filme coincidia com a da minha mãe também.
– Às vezes olhando assim pra cima, imagino que seu pai esteja olhando para nós de volta.
Mamãe ficava muito emocionada ao falar sobre meu pai, seus olhos brilhavam e um sorriso torto se abria como se um abridor de latas invisível estivesse a forçando. Ah, devo avisar que mamãe não é minha mãe de verdade, eu soube quando encontrei cartas de meu pai na gaveta da penteadeira dela. Até hoje ela pensa que ratos furaram a gaveta por baixo. Apesar dessa condição de “mamãe”, mas não mãe, ela sempre me tratou como tal e até mais que isso.
Pelo o que soube meu pai se casou com uma Brasileira chamada Anabelle e viveu com ela cerca de sete anos em Nova York nos Estados Unidos. Teve um filho ao qual Anabelle não resistiu e morreu no parto. Meu pai sozinho e com a guerra á caminho deixou um bilhete, uma cesta e algo não muito importante, eu, na porta de uma Londrina que passava certo tempo em Nova York. Deixando seu contato do exercito pediu que a Londrina chamada Rebecca (mamãe) mandasse cartas lhe informando sobre a criança. Após ler várias cartas sobre como os conflitos estavam ficando mais “intensos e perigosos” as cartas pararam de chegar. E apenas uma chegou após isso. A última carta não era uma carta do meu pai, mas uma carta informando sobre ele, sobre um atentado, sobre duas balas alojadas na caixa torácica, uma bala prestes a alcançar o tecido miocárdio e palavras como “Sem”, “chance”, “vida”, “desligar”, “aparelhos”.
Após todo esse ilustre drama eu entrei em constante incógnita, meu pai foi ou não especial?
Ele poderia simplesmente fugir da guerra e cuidar do filho, mas preferiu como alternativa a morte certa e o filho entregue nas mãos de uma mulher até então desconhecida. Porém, se ele não teve alternativa a não ser a que escolheu, ele poderia apenas se esquecer de que um dia foi pai, porém se manteve em pleno contato com mamãe e se dignou a enviar o que pudesse para nos ajudar. Acho que talvez ele tenha sido metade especial metade não. Mamãe acha que “eu penso demais” quando levanto essa questão.
Amanhã inicio a 6ª série na escola, e por mais que eu adore a escola eu me sinto cercado por idiotas. Toda sala de aula possui os mesmos tipos de pessoas, não importa a série. Apesar de não ter nenhum contato eu listei as pessoas e os comentários respectivos que ouço: As meninas: A que serve de chacota o ano todo, a bonitinha que todos desejam acompanhada da amiga relativamente feia, a que ninguém nem lembra o nome, a patricinha, a gorda legal que cresce e fica linda, a que não para de falar, a alta, a que fica cercada de meninos por ter seios grandes, a ruiva, a engraçadinha, a menina que parece ter o dobro da idade, e a legal influenciável.
Os meninos: O afeminado legal, o afeminado chato, o gordinho, o com cara de inocente mas toca o terror, o normal, o bonitinho, a clássica dupla ”rock n roll” e o menino rejeitado por eles, o estranho, o chato, e o engraçado que não tem graça nenhuma. Não julgo nenhum deles pelo o que eles são e nem sou dono das suas respectivas denominações. Só os quero longe de mim.
A única pessoa que gosto na escola toda é a minha professora de história, ela consegue explicar tudo de uma maneira que até os menos dotados de inteligência conseguem entender. Ela me dá aula desde a 3série, quando a senhora Pheobe resolveu tirar uma semana de férias e nunca mais voltou. Acho que notei algo nela que ninguém mais nota, o fato dela interpretar e colocar ênfase no que ensina, como se aquilo fosse o trabalho dos sonhos de toda mulher de 28 anos, como se aquilo fosse a sinfonia de bethoveem dela, a Monalisa, como se uma maçã caísse na sua cabeça e consolidasse a teoria da Gravitação Universal, eureka!
O nome dela é Bellatrix e a origem desse nome me intriga, uma vez pesquisei na internet sobre esse nome. Os resultados foi o nome de uma estrela da minha constelação preferida. Órion. (E algo sobre uma bruxa em algum filme). E isso me deixa mais feliz por ser aluno dela. Apesar de tudo, nunca falei com ela sobre, e isso me deixa um pouco confuso. Como posso querer falar com alguém sobre seu nome e como adoro seu modo de interpretar se não me sinto confortável falando com ela mesma?
Essa é a maior incógnita indecifrável na minha vida, eu não sei por que mais quando ela chega perto minhas mãos soam, fico corado e de cabeça baixa (Não é de bom grado que eu assumo isso). Isso sem contar quando ela vem até mim e pergunta se eu tenho alguma dúvida, talvez por que eu seja quieto demais, não há de ser outra coisa. Meu coração não se aquieta e se desespera, minha pulsação aumenta consideravelmente. Melhor eu parar de falar disso antes que vocês pensem que eu tenho o chamado “Romance pela professora”.
Há mais uma coisa que ela vivia fazendo por mim, e não me orgulho de dizer, ela me tirava das encrencas que os outros garotos viviam me colocando. Ela me retirava dos corredores e me deixava na sala dela durante todo o intervalo (é uma palavra substituta de “recreio”, mamãe disse que eu já estava muito velho pra ter um vocabulário infantil). Ela sempre me dava uma maça e falava sobre como qualquer objeto poderia mudar o mundo, assim como a maça para Newton.
Ela tinha doçura nos olhos azuis esverdeados, e a maneira como mexia a boca, as mãos, e subitamente coloca a mecha de cabelo atrás de orelha. (Ok, talvez eu tenha uma ‘paixonite’ por ela). Ela me falava sobre coisas que os Ingleses do passado fizeram, mundos novos para descobrir. Mas sempre diminuía o entusiasmo dizendo.
– A busca por novos mundos, novos continentes, foi um dos atos mais corajosos, mas a forma que tomaram pra si, é repugnante. – Me olhava séria – Se quer algo pra si, Collins, lute por, mas nunca tome a de ninguém. – Entristecia o olhar, mas eu não entendia – Você é diferente de todos os outros, eu acredito em você mais do que qualquer um;.
Depois de muito tempo em silêncio, vermelho como maçãs, tomei folego e perguntei.
– A senhorita acha, que alguém como eu, possa fazer como os desbravadores do novo mundo, por entre as estrelas? Novos planetas, vidas, a senhora acha que poderia ser rei deles?
Ela me olhava. – Claro Tom (Ela podia), todos nós podemos ser reis e rainhas. Por exemplo. Agora nessa sala, eu sou a rainha, vá pro seu lugar. E, fez algo que me paralisou, beijou minha testa. Eu não soube o que fazer, foi como mamãe fazia.
Eu não costumo ser otimista, mas aquilo me animou. Encheu-me com estranho sentimento todas aquelas palavras, Bellat... Quer dizer, professora Bellatrix causava esse efeito. Eu podia ser tudo naquele exato momento, mas algo me incomodava, apesar de todo discurso positivo minha mente me trazia de volta a “realidade” (como as pessoas normalmente dizem [O que na verdade é um conceito errôneo, acho que a tal “realidade” é que os seres humanos criam para si, eles inventam as mentiras da própria vida, escolhem cenários e personagens e se lamentam depois, assim como mamãe e seus namorados]). Eu não podia ser realmente, qualquer coisa, tantos empecilhos no caminho: condição financeira, motivação, apoio. Eu mal podia falar com as pessoas, imagine ser Astronauta. Queria que as coisas fossem que nem os livros, onde algo mágico acontece e me transporta pra um mundo novo, com pessoas novas e oportunidades infinitas. Assim como a “realidade” das pessoas, só que irreal.
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