Sem regras
1 Desapegar
Desapegar desapegar desapegar desapegar ...
A única coisa que eu tinha em mente desde quando sofri a pior desilusão amorosa de todos os tempos era isso: desapegar. Eu preciso urgentemente me desapegar do cheiro dele que ainda está na minha blusa, da lembrança do beijo dele que era puro fogo, do gosto que a língua dele tinha, preciso me desapegar dele e de tudo que ele estava envolvido, preciso dar um basta nisso o mais rápido possível, de um jeito ou de outro.
- Mundo chamando a Bruna – a Maia estava estalando o dedo na minha cara e isso me irrita pra caralho.
- Maia para, pelo amor de Deus, hoje não tô boa – e era a mais pura verdade, não estava boa mesmo, aliás, faz um bom tempo que eu não estou boa.
- Ai amiga, desde que deixou o Daniel você tá um porre ein? Animo mulher, vida que segue. – pensando bem, é isso mesmo, vida que segue.
- Maia, sabe aquela festa que o Henrique falou? – ela deu um gole no chocolate e fez que sim com a cabeça. –Eu vou. – ela fez uma cara de espanto, como se não estivesse acreditando.
-Eu não estou acreditando, ela saiu do jejum, Deus seja louvadoooooo – ela gritou e botou a mão para cima, como se estivesse agradecendo, eu entendia o desespero dela, fazia bastante tempo que eu não botava o pé fora de casa a Maia estava com saudades de minha companhia, apesar de morar comigo, de dois meses para cá era difícil eu acompanhar ela em uma festa.
– Amiga, a parti de hoje eu vou para TODAS as festas que rolar nessa cidade e você tá encarregada de arranjar um boy bem lindo pra mim, tô necessitada de sexo – e de sexo a Maia era experiente, minha amiga era ninfomaníaca, se passasse uma semana sem dar, ficava louca, ainda bem que nunca faltava homem, como nunca faltou para mim e nunca faltou para a Alice, nós três era o TRIO PARADA DURA, desde o colégio.
- Boneca, acorde desse sonho, se eu arranjar um boy lindo ele será meu, se quiser pode pegar o meu resto, eu deixo – fui obrigada a rir e ela fez uma carinha de nojo – tenho certeza que você não vai querer e também tenho certeza que não precisa de mim para arranjar um homem pra tirar sua carência.
- Meu Deus, tu é uma vaca mesmo né? – joguei um travesseiro nela – e é verdade, não preciso de você para arranjar um homem, mas preciso de um vestido bem lindo para ir para festa, vamos comprar comigo? – a única coisa que ela amava menos que sexo era comprar, por isso que eu me dava tão bem com aquela vadia, ela jogou o travesseiro na minha cara e riu que nem uma retardada.
- Com todo prazer do mundo, vou só trocar de roupa tá? – ela saiu da cama e ficou olhando para mim com cara de bunda – Amiga, a Alice deu sinal de vida? – a doida da Alice estava sumida desde ontem, isso era totalmente normal dela.
- Não, tentou ligar para ela? – Maia fez que não com a cabeça, deu de ombros e entrou no banheiro, levantei da cama e fui olhar a hora, eram dez da manhã, a Alice chegaria umas onze e meia, como sempre. Eu, Maia e Alice, terminamos o ensino médio, e resolvemos morar juntas, nem uma das três fazia faculdade e nem trabalhava, totalmente sem compromisso nenhum, meu pai era um dos empresários mais bem pagos do país, desde quando minha mãe o deixou, o cara fica com uma diferente todos os dias, e minha mãe não fica para trás, ela é uma dona de agencia de modelos de São Paulo e ainda tá nova, ela me teve apenas com quinze anos, ainda tem 31, tem mais é que aproveitar a vida mesmo, meu pai também era novo, tinha 16 quando engravidou minha mãe, quando eu tinha 3 anos eles se separaram e até então, são amigos, eu passava a semana com minha mãe e o final de semana com o meu pai que mora em Salvador, eles sempre foram muito presente em minha vida, todos os dias me ligam e nunca deixam faltar dinheiro, no meu aniversario de 16 anos, ganhei um carro, minha obrigação é gastar e a obrigação deles é pagar, sou filha única, apesar de considerar a Maia e a Alice irmãs, o pai da Maia era o melhor amigo do meu pai e tão rico quanto ele, a mãe dela morreu na hora do parto, ela morava com a empregada e o pai, minha mãe sempre considerou ela como filha e ela considera minha mãe como mãe, a Alice o caso era ao contrario, o pai dela não valia nada, o maior mulherengo, dono de uma empresa, todo dia saia no jornal uma polemica daquele cara, a Alice tinha uma irmã por parte dele, mas era mais nova que ela três anos, logo quando a mãe dela o deixou, ele arranjou outra, mas logo ela não aguentou e deixou ele também, a Alice não se importava, a única coisa que interessava a ela era o dinheiro dele e a mãe, que era sócia e melhor amiga de minha mãe, a mãe dela era um doce e a minha tinha um amor enorme por minhas duas melhores amigas e isso era totalmente recíproco.
-Bom Dia Bru – a Alice chegou, com o sapato na mão e com cara de bem comida.
- Bom Dia cinderela, chegou cedo hoje, qual foi o milagre? – ela sorriu e estreitou o olhar para mim.
- Nenhum milagre, o Henrique tinha que organizar as coisas da festa de amanha – ela era a única que namorava, o namorado dela era quem organizava as festas de praticamente todas as faculdades do Rio de Janeiro, que era onde a gente decidiu morar, isso era um privilegio e tanto. –Falando em festa, você vai amanhã né? Amiga, você tem que ir, tipo assim, vai muitos e muitos gatos, diz que vai, por favor.
- Alice, eu vou para a festa e eu vou não só para essa festa, mas sim para todas as festas dessa cidade, eu tô de um jeito que não vou perder nem mais festa de boneca. – ela arregalou aqueles olhos pretos dela, parecia que ia saltar do rosto e tampou a boca.
- MAAAAAAAAAAIA, VOCÊ DEU O QUE PARA ESSA MENINA? – ela gritou e com certeza a Maia não escutou, a gente estava na sala e ela estava no banheiro, sem resposta a Alice olhou para mim com cara de quem comeu e gostou. – não tô nem acreditando que depois de séculos vou para uma festa com você, ain como tô feliz – ela me deu um beijo na testa e partiu para quarto. Eu fiquei pensando, passei um ano de minha vida com o Daniel, e depois descobri que o canalha me traiu, ao invés de ir curti, perdi mais dois meses de minha vida tentando esquecer ele ficando em casa e me isolando de tudo e todos, agora era a hora de me libertar e esquecer de vez aquele idiota e mostrar para que voltei com tudo e não vou facilitar a vida dele.
Fui ao quarto e tirei o moletom e botei um short para sair, a Maia já estava pronta e a Alice decidiu ir também. Entramos no carro e partimos.
...
- Esse está bom? – dei uma rodadinha de leve, a Maia estava dentro do vestuário comigo enquanto Alice procurava um sapato, eu já tinha experimentado umas vinte peças diferentes e gostei de todas, Maia como sempre era a que demorava mais, aquela menina era a indecisão em pessoa.
- Amiga, esse tá lindo, perfeito para a festa de amanhã – era um vestido colado, curto e de manga, todo preto e as bordas amarelas, era perfeito, e ficou mais perfeito ainda em mim.
- Vou levar esse também, e você Maia? Já se decidiu? – ela fez uma cara de poucos amigos, com certeza ela não se decidiu.
- Decidi sim, vou levar todos – saímos do vestuário com as peças e entregamos para a vendedora, passamos o cartão e fomos em busca de achar a Alice.
Passamos a tarde todinha comprando, depois a gente foi tomar um chopp, quando a gente já estava alegre, as meninas apostaram comigo, se depois de dois meses parada eu conseguiria virar dez dozes de tequila, cada dose era cinquenta vinte reais no meu bolso e se eu não conseguisse ia ter que chegar no garçom e tascar o beijo nele, ainda bem que ele era mô gatinho, não ia ter problema nenhum, mas eu ia conseguir beber.
- Garçom, pode dar dez doses de tequila para minha amiga aqui? – ele sorriu, acenou com a cabeça e trouxe a tequila com um copinho, botou o copo em minha frente e serviu a primeira dose.
- Vira, vira, vira – esse era o incentivo que eu tinha de minhas amigas enquanto o garçom morria de rir, peguei o copo e virei, desceu queimando, mas nada que eu nunca tenha sentido e nada que eu não aguente, ele encheu o copo de novo, peguei e sem pensar duas vezes, virei, depois de contar o terceiro eu já estava bêbada demais para fazer conta, e Maia gritava que faltava apenas uma, mas meu estomago reagiu e eu achei que iria vomitar, e não consegui virar a ultima, o garçom que eu tinha que beijar, estava olhando para mim com uma cara surpresa, como se nunca tivesse visto uma mulher bêbada, eu me levantei da cadeira, quase caindo, peguei ele por o pescoço e tasquei o beijo, e que beijo, ele no começo hesitou, mas depois quase que me devora com a boca, fiquei sem ar, eu mordi o lábio inferior dele e sem querer mordi muito forte e saiu até sangue, ele deu um pulo de dor.
- Você tá louca?
- Desculpa, quer que eu beije pra passar? – ele olhou para mim e riu, como se eu estivesse zuando da cara dele, e eu não estava, queria realmente outro beijo, como se estivesse lendo os meus pensamentos, ele me puxou e colou os lábios no meu, o beijo foi demorado e intenso, eu me soltei dos braços dele e sentei novamente, com o beijo, minhas pernas ficaram bambas, esse garçom era um pecado.
- Não fica com raiva tá? Ela só pagou uma aposta, como é seu nome?- a Maia agora estava conversando com o garçom lindo, e que beijava muito muito bem, lembrando do beijo, eu levantei pra beijar ele de novo, quando levantei, tropecei no meu próprio pé, não cai por que ele me segurou e me sentou de novo.
- O sortudo fui eu, essa menina é forte né? Já vi muito homem desistir na terceira dose, aliás, qual o nome dela? – odiava quando as pessoas falavam parecendo que eu não estava presente.
- Eu tô aqui tá? – apesar de estar meio bêbada, ainda tinha audição e estava escutando tudo – E Maia, não diz meu nome, só se ele falar o dele. – olhei para ele e ele estava olhando para mim, não contive o riso, ele passou a língua no lábio, e a mão no cabelo ficando mais sexy ainda.
- Eu tô aqui tá? – ele repetiu minhas palavras e deu um sorriso – Já que quer saber tanto, meu nome é Matheus. – nossa até o nome dele era lindo – Agora eu quero saber o seu.
- Ahh, agora sim, prazer meu nome é Bruna – estendi minha mão e ele apertou forte, mordi meu lábio só com o pensamento dessas mãos percorrendo o meu corpo, a mão dele era enorme, do jeito que o Brasil gosta.
- Bruna – repetiu meu nome como se não quisesse esquecer nem tão cedo esquecer, agora ele estava me encarando com aqueles olhos pretos, e por um momento pareceu que só existia nós dois ali naquele lugar.
- Eu lamento interromper esse momento, mas o meu garçom tem que trabalhar – essa voz que interrompeu o meu momento era curta e grossa, e era de um coroa alto e com cabelos grisalhos, filho de uma mãe ele era, o Matheus ficou todo sem graça, acenou com a cabeça e foi atender outra mesa.
- Amiga, que sorte, ele além de lindo é gente boa. – eu ri muito com esse comentário da Alice.
- Boneca, ele não é lindo, e sim maravilhoso, e não é gente boa, é gente ótima, a boca dele então... – ela começou a rir e Maia estava concentradíssima no celular, devia tá combinando um encontro, ela tinha um rolo com um cara misterioso, que ninguém sabia quem era, ele era tipo o bombeiro que ela ligava pra apagar o fogo, a sorte era que ele comia quieto e calado, já perguntei umas mil vezes quem era e ela nunca me disse, sempre falava que ia perder a graça se eu soubesse. Eu pedi a conta para o garçom, ele mandou e junto com ela o número do celular, homem com atitude é outra historia, anotei o numero no celular, paguei a conta, dei um beijinho de despedida e chamei as meninas, a Maia ainda no celular e a Alice discutindo com o Henrique também pelo celular.
- Quem vai levar? – balancei a chave do carro e a Maia finalmente tirou o olho do celular e olhou para mim.
- Pode deixar que eu levo amiga – pegou a chave, guardou o celular no bolso.
- Aleluia que soltou esse celular, estava me sentindo carente – fiz uma carinha de triste e ela me abraçou e riu.
- Ai amiga que drama, acabou de pegar um gatinho e fica fazendo charme — de repente deu uma dor de cabeça, fiquei totalmente sem forças e tudo ficou escuro.
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