Sem rastros
7 Juntos
Notas iniciais
— Pessoal, não se esqueçam que o trabalho deve ser entregue na próxima aula.
Sara dispensou seus alunos e os jovens saíram correndo, prontos para mais um fim de semana. Ela sorriu, lembrando que já tivera esse desespero, típico da juventude, de querer viver a vida ao máximo em todos os momentos. A professora então se pôs a arrumar a papelada em cima da sua mesa, e estava tão distraída pensando naqueles longínquos tempos de faculdade que nem percebeu a pessoa que apareceu na porta da sala. Por isso, foi com um susto que ela ouviu a voz de Catherine Willows atrás de si.
—Eu nunca ia imaginar isso! Sara Sidle, a professorinha!
Catherine observou os papeis nas mãos de Sara voarem e, segurando um riso, foi ajudar sua velha amiga a catar as folhas do chão.
—Eu não acredito que você está aqui!- a morena falou enquanto abraçava a amiga.
—Foi de última hora, na verdade.
—Não aconteceu nada de errado, não?
—Não, não estou suspensa, se é o que está perguntando. Ironicamente, após muitos anos cobrando que amigos workaholics utilizassem suas férias, o setor de Gestão de Pessoas me obrigou a fazer o mesmo... e voilá!
Sara sorriu e deu mais um abraço em sua amiga. Era tão bom revê-la! Certa vez, Sara confidenciara à Gil que só ficara aquele tempo todo em Vegas, após ele ter sido dado como morto, por conta das pessoas que ali estavam. Os amigos do trabalho eram praticamente sua família, e ela sentia muito a falta deles. Gil logo insistiu para que ela fosse visita-los, mas ela nem conseguia imaginar se separar novamente de Gil, após seu reencontro. E foi quando seu pensamento foi parar nele que ela gelou.
—E aí, como a vida tem te tratado na Inglaterra?
Sara escondeu a mão esquerda atrás de si e tentou retirar os anéis que adornavam o dedo anelar da mão esquerda.
—Bem... muito bem, eu...
Quando você quer muito esconder alguma coisa, inevitavelmente você chama a atenção para o que quer que esteja tentando esconder. Assim, quando o anel saiu de seu dedo, escorregou e foi para no chão, rolando e parando aos pés de Cath. A loira pegou o objeto e o apoiou na palma da mão.
— Muito bem mesmo... isso aqui é uma aliança?!
Sara rapidamente tirou o objeto da mão da amiga e o colocou novamente em seu dedo. Não havia mais razão para esconde-lo. Sara deu graças a Deus por aqueles anéis não serem os mesmos de alguns anos antes. Aqueles foram depositados junto ao caixão de Grissom, não por ela, é claro. Ninguém próximo a Gil foi autorizado a chegar perto do caixão. Diziam que o corpo estava irreconhecível. Sara simplesmente jogou a aliança em cima do caixão.
— Você não vai me responder?
—Sim, uma aliança...- Sara voltou sua atenção para Catherine, que tinha uma expressão incrédula no rosto.
—Sara.... e você não iria nos contar?
—Foi... uma decisão precipitada.... tem poucos meses... eu iria contar... mas...
Embora Sara pretendesse realmente contar de seu casamento para seus amigos, ela pretendia fazer isso bem mais tarde. Quando tempo o suficiente tivesse passado para ela fingir que conhecera alguém que a fizesse esquecer de Gil. Não, assim, com míseros 8 meses de distância. Como ela conseguiria convencer Cath de que ela estava casada com um cara que conhecera a pouco tempo?
Enquanto Sara suava frio, tentando encontrar uma maneira de explicar aquilo, Catherine observava a amiga com um olhar crítico e , antes que Sara pudesse pensar em algo para responder, a loira continuou
—Sabe... eu me preocupei quando você decidiu deixar Vegas... e vir para um lugar tão longe de casa, sem ninguém que conhecesse, mas... decidi que você quem sabia o que era melhor... enfim... agora tenho que dizer que essa decisão fez muito bem a você.
—Hã?
—Sara... desde que Gil se foi... você não foi mais a mesma... é normal , claro... depois de um tempo você me pareceu melhor mas... nunca mais voltou a ter aquela disposição...aquele brilho nos olhos que tinha quando nos conhecemos... e é isso que eu vejo agora, na minha frente.... então, não sei se foi o casamento ou o ar da Inglaterra... mas combinou bem com você... e só por isso eu posso te perdoar por ter casado sem ninguém saber!
Sara ficou, por um momento, estupefata. Catherine havia proferido mil palavras por minuto, e cada uma mais interessante que a outra... será mesmo que ela havia mudado tanto assim desde que deixara Vegas? Sendo verdade, toda essa felicidade seria cortesia de um tal entomologista. Sara abriu um sorriso ao pensar em seu marido.
—Mas então? Não vai nem me contar quem ele é?
—Ele é....- sabendo que Gil não aprovaria se ela contasse a verdade, Sara resolveu que meias verdades bastariam...- É um professor da faculdade. Recém-chegado, assim como eu. Seu nome é William Graham. Nós nos conhecemos aqui, no escritório do Reitor. Ele se ofereceu para me apresentar o Campus e nós nos demos muito bem desde o início... e o resto é história.
Catherine sorriu para sua amiga, mas Sara poderia jurar que havia algo que incomodava a loira. Provavelmente o fato de ela não ter feito menção ao casamento à jato. Sara imaginou que Cath fosse perguntar algo a respeito disso, mas a amiga logo mudou de assunto, perguntando se ela já estava liberada. Sara somente pediu um momento para entregar uns documentos para o coordenador e disse que já estaria com ela. Mas antes de voltar ela fez uma ligação importante.
— Oi, amor!- Gil atendeu ao telefone prontamente- Já terminou o expediente?
—Sim... mas não vou para casa ainda... você não vai acreditar em quem me apareceu aqui... a Catherine!
—Catherine.... que Catherine você está falando? Não pode ser...
—Tanto pode que ela está aqui me esperando.
Gil ficou em silêncio por alguns segundos e Sara deu o tempo que imaginou que o marido precisava para se recompor.
—Honey... ela não pode saber de mim...
—Eu sei, eu sei! Tive que contar a ela que estou casada, ela notou a aliança... mas ela não sabe que é com você.
—Pressinto problemas, Sara... você sabe como ela é... se ela notar algo estranho....
—Eu não vou deixar, prometo... agora eu tenho que ir... vou tentar distraí-la com um passeio pela cidade. Não sei a hora que devo voltar... te amo.
—Amo você também...
Após desconectar com o marido, Sara suspirou fundo algumas vezes antes de se juntar a sua amiga. Ela precisaria tomar muito cuidado com tudo o que falasse. Não poderia dar a oportunidade de Catherine desconfiar de alguma coisa. A loira, ela sabia, conseguia farejar uma mentira de longe.
Embora inicialmente com medo, Sara acabou por passar uma tarde agradável ao lado de Catherine. Sara apresentou os melhores pontos da cidade, aqueles não muito conhecidos por turistas enquanto a loira contava como as coisas estavam com o pessoal do laboratório. Cath confessou então que esta deveria ser uma viagem romântica, mas Lou Vartan teve que adiar sua vinda por conta de um depoimento em um caso que fora adiantado a pedido da defesa. Ele chegaria somente na segunda-feira. Como Cath seguiu perguntando sobre seu marido, Sara resolveu dizer que ele estava em viagem que duraria ainda uma semana. A amiga ficou chateada por não poder conhecer o homem, mas não mostrou sinais de desconfiar de nada.
Após muitas horas de conversas Sara deixou Catherine em seu hotel, prometendo a amiga uma visita a sua casa no dia seguinte. Assim que chegou em casa foi recebida pelo marido, que fez questão de lhe preparar um banho quentinho para que ela relaxasse. Então, na banheira e com um copo de vinho Sara contou a Gil tudo o que aconteceu no dia.
— Eu achei mesmo que Catherine fosse irromper por aquelas portas hoje- Gil comentou, sabendo da tenacidade da amiga- Até mesmo já retirei todas as coisas que possam ser ligadas a mim na casa.
—Pois deixe assim mesmo... consegui evitar a visita hoje, mas amanhã já prometi a ela um tour da casa.
Gil ficou contrariado com a notícia. Já não bastava ter perdido uma tarde agradável com sua esposa? Sem dúvida alguma ele sabia que o fim de semana deles já estava comprometido. Não podia, entretanto, reclamar. Afinal, ele era o culpado por aquela situação toda. Não fosse seu passado os dois poderiam já estar comemorando bodas de açúcar.
—Ok, então... bom, ao menos me avise a hora que ela for passar aqui. Assim eu vejo algo para fazer fora de casa.
—Gil, eu estive pensando...- o homem não precisava ler mentes para saber o que sairia da boca da esposa naquele momento- Por que nós não contamos a Catherine a verdade?
—Amor.... você sabe o porque.
—Não, não sei não!
Sara se levantou da banheira bruscamente, derramando agua pela borda e molhando o marido
—Eu não entendo, Gil, essa sua lealdade a eles! Se fosse por eles, você ainda estaria sozinho e miserável, servindo aos propósitos sórdidos deles!
—Sara!- Gil ficou de pé também e colocou as mãos nos ombros molhados da esposa- Há uma razão para eu estar na Inglaterra e não na América. Para que eu possa viver minha vida sem responder a eles!
Gil forçou a mulher a se sentar novamente na banheira ao ver que ela tremia de frio, e depois continuou seu monólogo.
—Mas isso não muda o fato de que segredos ainda precisam ser mantidos. O FBI ainda tem agentes em operações, e se alguém descobrir que eu tenho alguma coisa com eles... se Cath souber, quem garante que quando ela voltar nosso segredo não se espalhará? Sara, eu odeio que eles tenham roubado minha vida, mas não é por isso que eu vou pôr a segurança de milhares de missões em jogo. Isso anularia tudo o que fiz, todos os riscos que tomei... nós já falamos sobre isso... por que você não entende?
—Eu entendo, Gil!- Sara falou com lágrimas nos olhos- Eu entendo, mas mesmo assim...
Não conseguindo mais falar, a morena levou as mãos aos olhos e começou a chorar. Ela entendia, mas não conseguia aceitar que a vida deles fosse ditada por aquela maldita agencia. Ela confiava sua vida a seus amigos, e sabia que eles faziam o mesmo por ela. Eles foram a única coisa que manteve Sara de pé após tudo o que aconteceu. Ela não aguentava ter que mentir para eles sobre isso.
Vendo a amada se debulhar em lágrimas, Gil retirou sua roupa e entrou na banheira junto com Sara. Fazendo a mulher chegar para frente ele a abraçou e a trouxe para si.
—Honey...perdoe-me... – e o casal ficou abraçado na banheira até que a água esfriasse. Foi só quando ela já estava mais calma que os dois se levantaram e se secaram. Já vestidos, foram para a cama ainda calados e só quando estavam aconchegados e quentes embaixo dos lençóis que Sara falou.
—Eu não me arrependo, Gil... de estar aqui com você. Eu prefiro guardar seu segredo deles do que viver sem você.
Gil passou a mão no rosto de Sara, seu coração acelerado após tal declaração. Ele não compreendia como conseguira ter um amor tão devotado assim, tendo feito tudo o que fez. Gil buscou a boca de Sara a beijou uma, duas três vezes.
—Você é tudo o que eu preciso, Sara... eu quero que você seja feliz ao meu lado...
—E eu já sou...
Sara empurrou o marido e ficou por cima dele. Acariciando o peito do marido, Sara se abaixou até seus rostos ficarem próximos um do outro. Tão próximos que quando ela falou novamente, Gil pode sentir os lábios se mexendo.
—Eu sou a mulher mais feliz do mundo a seu lado.
E Gil roubou as palavras da boca dela com um beijo avassalador. Ele não lembrava de sentir tanto amor antes em sua vida, nem mesmo por ela. E queria mostrar isso a ela. Gil fez amor com sua esposa primeiro com suas palavras. Não palavras emprestadas, mas as que vinham de seu coração. Gil sussurrou para a amada eu seu ouvido, enquanto lançava beijos por todo seu corpo, o quanto ela era linda, o quanto o amor dela o fazia um homem melhor. E quando o corpo dos dois não aguentava mais de desejo, ele completou o ato da maneira mais tenra o possível.
Catherine saiu do carro de Sara em uma rua arborizada e com lindas e idênticas casas de tijolos de mármore. A impressão que dava era que era um quarteirão todo planejado. Sara levou a amiga até a porta e, antes de abrir suspirou fundo. Catherine achava o comportamento dela um tanto quanto interessante. Ela parecia distraída a manhã toda, e não se desgrudou do celular nem um instante.
Ao entrar na casa Catherine ficou boquiaberta. De fora dava a impressão de ser pequena, mas ao entrar elas deram de cara com uma grande sala de estar que parecia ter saído de uma daquelas revistas de decoração. Todos os móveis da casa pareciam ter sido selecionados para combinar um com o outro, sem falar que nenhuma peça parecia ser menos do que confortável. Mas havia algo que incomodava a loira naquilo...
Sara falou para a amiga se sentir em casa e ofereceu a ela algo para beber. Catherine aproveitou para olhar mais de perto a casa da amiga. Prontamente, percebeu que não havia nenhum porta-retratos ou qualquer objeto de um tom mais pessoal. Era tudo impecável, mas a falta daqueles objetos dava um ar muito clínico para uma casa de família. Catherine lembrava que a casa de sua amiga era repleta de fotos dela com Gil.
Assim que Sara voltou da cozinha, ela entregou a Catherine um copo de vinho e se acomodou no sofá. A loira seguiu a amiga e , como não era de seu feitio não falar o que pensava, abriu logo a matraca.
—Então, Sara...achei que fosse ver ao menos algumas fotos de seu marido pela casa. Se não posso conhece-lo pessoalmente ao menos gostaria de ver o rosto desse homem que conquistou seu coração.
—Bem... eu posso fazer algo melhor...- Sara comentou e tomou um grande gole do vinho.
—Não me diga que ele já voltou de viagem?
—Bem... ele está lá em cima... mas é complicado.
—Como assim, complicado? Não vejo nada de complicado em me apresentar a ele... Sara, amiga... se você está com medo de que eu vá trata-lo mal por conta de seu passado com Gil...
—Não é isso, Catherine...não sei se você vai nos perdoar...- Sara tomou o resto do conteúdo de seu copo rapidamente, deixando a amiga alarmada- Catherine... eu preciso te contar algo, mas eu preciso que você deixe eu falar tudo o que tenho para falar... ok?
—Ok... mas você está me assustando...
—E eu ainda nem comecei minha estória...- Sara brincou, tentando cortar um pouco o clima tenso que ela mesma havia criado- Cath... você acredita em espionagem?
— Tipo 007? Eu sei que há certos programas de governo... temos a National Security Agencie...mas...
— Sim... o governo precisa realizar certas ações em que a segurança e o anonimato são imprescindíveis... ninguém sabe quem pode realizar essas ações... diversas agencias usam deste expediente.
—Você está querendo me dizer que seu marido é um espião?
—Era, por assim dizer. Mas ele havia desistido dessa vida bem antes de me conhecer... antes de começar a trabalhar como perito em Minessota... Até que um de seus colegas o trouxe novamente para esse mundo.
Sara começou então a narrar os fatos passados, sem mencionar nomes. Catherine tentava assimilar o que sua amiga estava dizendo. Saber que ela estava casada com um espião era surreal, mas os detalhes que ela soltava aqui e ali faziam com que Catherine ficasse ainda mais assombrada. Os detalhes da vida de seu esposo... eles eram os detalhes que ela conhecia de Gil...mas seu amigo estava morto... ela havia enterrado e o deixado em um cemitério em Las Vegas.
—Sara...
— Como ele não quis mais voltar a trabalhar com eles... eles o mandaram para cá... onde nós nos reencontramos.
— Sara... isso é loucura! Parece que tirou essa ideia de um filme!
Mas fazia sentido, a loira sabia. Aquela estória toda encaixava com os acontecimentos dos últimos dias... do porquê da amiga não mencionar que estava casada ao comportamento estranho dela. E afinal, por que Sara inventaria um conto desse? Ela não era dada a mentiras. Esconder coisas que se passavam com ela sim, mas nunca Catherine lembrava de Sara ter contado uma mentira para ela.
— Eu sei que é difícil de acreditar... eu mesma não acreditaria, não fosse o fato de que eu vivi parte dessa estória, Cath...
Catherine ficou um tempo calada, processando aquelas informações... até o momento sua amiga não havia falado em quem realmente era o tal espião, mas parecia que queria levar Catherine a chegar a identidade de seu marido por conta própria. Catherine quis rir por um momento... o método indutivo era realmente o preferido de Grissom para ensinar... mas ela não queria acreditar. Não queria elevar suas esperanças para no fim não ser nada disso o que ela pensava. Perder Grissom da primeira vez já foi doído o suficiente.
—Cath..- Sara chamou, quando sua amiga ficou tempo demais calada- Você acha que consegue guardar um segredo?
—Não me diga, Sara...-com os olhos marejados de lágrimas, a amiga finalmente respondeu- Não faça eu acreditar em algo que não pode ser verdade... isso é cruel demais...
—Mas é verdade, Catherine...
A voz... aquela voz que ela já quase esquecera soara bem atrás dela.
—Não...
Gil entrou na sala vagarosamente, trocando olhares preocupados com sua esposa. Catherine agora tinha as mãos no rosto e chorava compulsivamente. Ela nem olhara para Gil. Talvez lhe faltara coragem. Sara levantou a mão, pedindo ao marido que esperasse. Sentou-se ao lado de Catherine, pegou uma das mãos geladas da amiga e sussurrou alguma coisa em seu ouvido.
—Gil, por favor, vá pegar um copo de água com açúcar.
O homem obedeceu prontamente enquanto sua esposa tentava acalmar a amiga. Quando Gil voltou, Catherine já havia parado de chorar, mas ainda se recusava a olhar em sua direção. O que não fazia sentido, em sua opinião. Nada mudaria o fato de ele ter feito o que fez... de ter fingindo que se fora para sempre.
—Aqui, Cath- ele se agachou e estendeu o copo para a amiga, dando ampla oportunidade para ela observá-lo. A loira não desapontou. Finalmente o encarou. Gil sentiu-se um pouco desconfortável. Nunca gostara de ser o centro das atenções, mas sabia que isso era inevitável naquele momento. Fazia anos que eles não se viam e Gil não precisava se olhar no espelho para reparar nas mudanças que sofrera desde aquele fatídico dia. Embora os machucados que sofrera já houvessem cicatrizado, ele envelhecera mais que o normal naqueles anos. Sem contar nos cabelos brancos que se multiplicaram, ou o peso que ele perdeu.
—Meu Deu... Gilbert...
Catherine passou a mão no rosto do amigo, como se não acreditasse no que via. Ele pegou a mão da amiga e a levou até a altura de seu coração.
—Sou eu, Cath... você não sabe o quanto eu sinto muito por...
Mas Catherine não o deixou terminar. Ela não queria ouvir desculpas. Tomada por uma onda de raiva, a loira empurrou Gil para longe dela, derrubando a agua que ele carregava. Sara fez menção em ir até eles, mas Gil a impediu. Ele sabia que a amiga precisava descarregar todas aquelas emoções que carregava.
—Você sente muito? Meu Deus, Gil! Você tem noção do que seu desaparecimento fez com a gente? Com seus amigos?! E você, Sara? Você sabia de tudo e não...
—Ela não tem nada com isso, Catherine- Gil estava pronto para receber toda a raiva de Catherine, mas ele não aturaria se a amiga também culpasse sua esposa- Você ouviu o que Sara contou? Ela não poderia contar para vocês... afinal, você acreditaria nela?
Catherine queria dizer que sim, mas a verdade era outra. Porque ela quase não acreditara quando ouviu o conto ainda a pouco. Somente a presença de Gil fez com que ela aceitasse aquilo como verdade. Mas ela não queria perdoar Gil... ela queria infligir nele a mesma dor que ele a fizera sentir.
—Ainda assim... você nem compareceu ao enterro de sua mãe... deixou com que a gente cuidasse de tudo...
Havia muitas coisas naquela situação que Gil detestava. Mentir para seus amigos, perder sua identidade... cada situação dessa o deixava mal... mas saber que fizera aquilo para por fim a um grupo terrorista... ajudava a aliviar a situação. Mas algo que nada poderia aliviar era o fato de que não estava junto de sua mãe na hora de sua morte... nada poderia amenizar a culpa que sentia pela dor que causara a sua querida mãe.
Gil abaixou a cabeça por um instante e depois voltou os olhos para sua amiga. Catherine, que mal terminara sua fala e já se arrependia dela, viu no rosto de Gil algo que nunca imaginara. Era a mais pura dor que alguém poderia sentir, refletida nas feições de seu amigo.
—Gil...
—Eu nunca vou poder me redimir de ter causado tanta dor a ela... eu não queria ter magoado ninguém, Cath... foi por isso que sai daquela vida bem antes de te conhecer. Mas se alguma coisa vai te convencer que minhas intenções foram sempre as melhores, e que essa merda toda só ocorreu porque eu perdi o controle de minha vida... bem, o fato de eu não poder ter me despedido da minha mãe como eu queria, bem... isso devia te convencer... com licença.
Gil foi novamente em direção a cozinha, enquanto as duas mulheres ficaram na sala, com os olhos marejando e um nó na garganta.
—Oh... Sara... eu não queria... me perdoe...
Sara , que havia se afastado um pouco para dar um espaço para os dois amigos reconectarem, voltou para o lado de Catherine e a abraçou. Sabia que o marido precisava de espaço para retomar o controle de suas emoções.
—Não precisa se preocupar... é necessário dar voz aos nossos sentimentos, e Gil sabe disso... se não nós ficamos doentes... mas sabe, Cath, o Gil as vezes parece não viver os mesmos sentimentos que a gente... eu mesma já o acusei disso, certa vez. Mas a verdade é que ele sente tanto, mas tanto, que ele prefere engolir tudo isso, sem demonstrar. Mas em situações como esta- ela apontou para onde o marido desaparecera- nós vemos o quanto ele tenta se esconder. Então, não o culpe por isso, não vá achando que ele não sofreu com tudo isso. É como ele disse, Gil entendeu que a missão dele era tão nobre que valia a pena todos esses riscos.
—Mas ele só pensou nele, Sara...
—Ao contrário... ele só pensou naquelas meninas que perderam a liberdade nas mãos de pessoas inescrupulosas. E nas famílias delas, e nas próximas vítimas... ele pensou em você, Cath... como mãe, você gostaria de ter a notícia de que sua filha sumiu, só para anos depois ver que ela foi vendida como escrava? Sim, foi uma situação de merda para a gente, que o ama, mas a recompensa foi salvar toda essa gente.... eu tive muito tempo para pensar nisso... e eu poderia escolher não o perdoa-lo por tudo o que ele me fez passar, ou então ver essa situação com outros olhos, e viver minha vida ao lado dele... eu escolhi a última...
Catherine suspirou fundo mais uma vez e, tendo finalmente recobrado o controle de suas emoções, falou.
—Vocês dois são tão altruístas que se merecem! Não sei se eu conseguiria ser tão nobre assim, Sara.
—Eu o amo tanto...e a tanto tempo, que não sei viver de outra maneira...
Catherine sorriu, reconhecendo a fala de certo poeta. É... aqueles dois se merecem!
As mulheres ficaram em silencio por um tempo, só se quebrando com a volta de Gil a sala. Ele trazia em mãos uma bandeja com um jogo de chá. Depositou a bandeja na mesa de centro e colocou as mãos nos bolsos da calça, um gesto que trouxe a Catherine memórias de bons tempos... ele sempre fazia aquilo quando estava incerto sobre alguma coisa.
—Eu trouxe um chá...
Ele falou sem jeito. Sara já ia se levantar para ajudar o marido quando Catherine disse.
—Eu ajudo.
Os amigos trabalharam juntos, distribuindo as xícaras e servindo a água quente. Com sua xícara em mãos, Sara pediu licença, dizendo que se lembrou de uma ligação que tinha que fazer.
—Você um dia pode me perdoar?- Gil perguntou a Catherine.
—Gil... se sua esposa pode te perdoar, porque não eu?
Gil sorriu para a amiga e fez uma coisa que somente faria naquelas circunstancias: puxou a loira para um abraço apertado e Catherine pode sentir as lágrimas de seu amigo molhando sua camisa.
—Eu sempre soube que você era um homem fora do comum, Gil. Só não sabia o quanto isso era verdade.
— Eu não sou nada disso sem vocês...
Gil não sabia o quanto precisava daquele perdão até o momento que o recebeu. Só havia uma coisa que ele precisava fazer para finalmente enterrar aquela parte de sua vida para sempre.
Quando Catherine voltou a Las Vegas ela convidou seus amigos para um jantar em sua casa, dizendo que queria mostrar fotos da viagem. E foi o que ela fez. Os garotos se divertiram com as anedotas da amiga e ficaram muito felizes de ver as fotos dela com Sara. Ela só estava esperando que um deles notassem um pequeno detalhe. Como bom CSI que era, foi Greg quem disse primeiro.
—Ei, espera aí... volta essa foto... aquilo ali não é uma aliança na mão de Sara?
Catherine riu e afirmou
—Estava esperando para ver quem notava primeiro! Tinha que ser você, Greg.
—Eu não acredito que ela se casou já. Tão rápido!
—Não foi tão rápido assim, não é Greg? Faz mais de 4 anos desde que....- mas Nick não conseguiu falar.
O humor da sala se evaporou em um instante. Era sempre assim, toda vez que Grissom era mencionado. Warrick, abençoado que era, trouxe todos de volta de uma lembrança triste.
—Vamos lá, gente... devemos nos alegrar que a Sara finalmente está conseguindo viver a vida dela. Como é esse novo marido dela Cath.
—Ele não é bem novo, Warrick... é um velho conhecido dela, e de nós também. Aqui...- ela pegou um envelope de dentro de sua bolsa e entregou a Warrick. O perito abriu o envelope e tirou um par de fotos. A primeira era de Sara, em um parque. A seu lado, estava Grissom.
—Cath... você nos deu uma foto antiga... o Grissom está aqui!- avisou Greg.
—Eu sei, Greggo... continue, veja a outra foto. Nela, com as mesmas roupas da outra foto estavam o casal junto a Catherine.
— E daí? Fotos antigas de vocês... o que isso tem a ver com o marido de Sara?- Greg insistiu.
Nick olhava da foto a Catherine, o mesmo olhar confuso que Greg no rosto. Somente Warrick continuava a encarar a foto, e foi nele que Catherine depositou sua atenção.
—Não pode ser...- ele murmurou.
—O que não pode ser, Rick? A evidência está em suas mãos...- Catherine respondeu.
Nick pareceu ter entendido o recado, e puxou a foto para si. Warrick ainda não queria aceitar o que passava por sua cabeça.
—Pessoal... o que está acontecendo ?- Greg quis saber, assustado ao ver Nick largar a foto no chão e se levantar de súbito.
Como os outros dois pareciam em choque, Catherine pegou novamente a foto e a levou em direção a Greg.
— Olhe bem, Greg. Esta foto não te parece nova demais para ser antiga?
—Você pode ter revelado recentemente.....
—E as pessoas, Greg? Eu estava com essas rugas aqui alguns anos atrás?
Realmente, a Catherine da foto era muito semelhante a que estava a sua frente no momento. E Grissom... ele se lembrava bem que seu chefe não tinha os cabelos brancos assim... mas isso significaria que...
—Meninos. A estória que vou lhes contar agora, eu ouvi da boca deste homem da foto, do marido de Sara, nosso Gil.
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