Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
47 Capítulo quarenta e sete - O que acontece com meu mundo?
Notas iniciais
Benjamin aproveitou o resto da sua tarde de aniversário como não pretendia fazer. Seus amigos garantiram um reencontro cheio de brincadeiras, a bebida só incendiou mais o comportamento daqueles jovens para o descontentamento de dona Marisa. A garotada começou a ir embora quando já estava escuro e o silêncio na sacada começava a ser gritante com a maioria dos parentes de Ben também deixando sua casa.
De todo o grupo de amigos do Ben, só o Yuri e a Bárbara ficaram na casa dos Furlanettos além do horário. Quando o irmão de Benjamin se recolheu para tomar banho, a ruiva aproveitou o momento para perguntar algumas coisas que não estava mais conseguindo ignorar:
— Vocês acham que o Arthur ficou chateado por me ver com o Miguel?
Yuri respondeu antes de Ben:
— Claro que não, ele estava com aquela guria, a Helena, se não me engano.
— Ué, isso não quer dizer que ele não ficou chateado ou enciumado, japa – insistiu ela.
— Ele me pareceu bem intimo da guria. Acho que ele já conseguiu dar um passo para frente sem você – comentou Ben, fazendo com que ela arregalasse os olhos.
— Não sei, não, hein... ele me deu várias olhadas durante a tarde e ainda quando estava sentada com seu irmão perto da piscina naquela hora do vôlei-aquático. Acho que ele ainda está apaixonado por mim, sim.
Yuri virou os olhos, achando aquilo um absurdo.
— Meu, quer saber? Ele também estava preocupado com sua reação ao vê-lo com sua nova namorada. O Arthur me disse que começou a namorar a Helena e que não queria deixar você chateada e que por isso quase nem a trouxe à festa hoje.
— Me deixar chateada? Mas fui eu que terminei com ele, japa. Eu dei um passo antes de ele dar qualquer engatinhada.
— Me poupe, Ronsoni. Você não me parece ter superado ele, se tivesse, não estaria falando desse jeito. Não ia ficar dando pití aqui.
— Cale a boca, Yuri. Eu estou com o irmão do Ben agora e é ele quem eu amo agora.
— Sei...
— Vá se foder, caralho! – gritou ela.
— Hei, hei, já chega! Que merda de discussão é essa que estamos tendo? – disse o de olhos verdes de modo agressivo. – Não interessa quem está sofrendo por quem. Eu amo os dois, você e o Arthur, Báh, então não quero ver nenhum e nem outro sofrendo por amor.
— Tá, tá, mas o Yuri está inferindo uma coisa sem saber. Eu amo o Mig agora e vou ficar com ele até darmos certo um com o outro.
— Ok! Que os anjos dos céus digam amém...
Benjamin captou a ironia vinda do namorado e presenciou a amiga empurrá-lo antes de se levantar em fúria e subir às escadas em disparada para o quarto do namorado. O menino não sabia o que dizer depois daquilo.
— Está na cara que ela ainda ama o Arthur e ficou toda inflamada ao vê-lo com a Helena e quer saber? A Bárbara mereceu isso.
Ben respirou profundamente sem dar bola para o namorado.
— Hei, você está bravo comigo? – perguntou depois de sentir-se ignorado pelo loiro. Ele passou a mão no peito e barriga do namorado tentando acabar com aquilo.
— Ah, sai pra lá, Yuri. Você e a ruiva foram imaturos por levarem isso tudo tão a sério.
— Ah, fui? Mas foi ela quem saiu no meio da discussão como se fossemos criancinha. – O japa insistiu no carinho sendo repelido novamente por Ben.
— Já disse para você parar – cortou novamente, mas sabendo que estava apenas se fazendo de difícil.
— Ah, é? Vou mostrar como te obedeço? – Yuri começou a fazer cócegas no quadril do rapaz, que por reflexo caiu para trás, deitando-se entre um dos sofás e a mesa de centro em frente à lareira apagada, sobre o tapete felpudo de Marisa. Coincidentemente, ali foi o mesmo lugar em que começaram sua relação para valer.
Quando os dois se deram conta já estavam em um beijo bem demorado, que foi cortado com um grito forte vindo da escada:
— Que porra é essa, Benjamin? – Eles reconheceram a voz de Miguel.
Os dois levantaram rapidamente e quando eles se deram conta Miguel já estava perto o suficiente para começar a agredir o japonês. Ele acertou o rapaz no meio da cara antes de começar a dar pontapés nele. Yuri caiu em cima da mesa de centro da sala, destroçando-a em vários pedaços e ainda cortando braços e cotovelos. Benjamin deu um soco no irmão que então partiu para cima dele com socos a punhos fechados.
— Seu filho da puta! O que pensava estar fazendo com esse viado do diabo?
— Miguel, saia daí... – gritou Bárbara após correr para sala logo que foi pega de surpresa pela gritaria e pela barulheira lá em baixo. A cena que ela viu foi horrível, Yuri todo ensanguentado se levantando enquanto Benjamin não conseguia mais se defender dos golpes. – Para, Miguel! Para!
— Desgraçado! Filho da puta – gritava Miguel, cego pelo ódio e nem se dando conta dos seus golpes violentos.
— Socorro! Alguém nos ajude! – gritou Bárbara, esperando que algum vizinho pudesse ouvi-la.
Yuri conseguiu dar uma rasteira em Miguel e começou a esganá-lo. Foi então que a porta da sala se abriu num estrondo violento. Era Manoel que acabava de entrar com tudo após ouvir os gritos vindos de casa ao estacionar na garagem.
— Que tá acontecendo aqui? Meu Deus, que estão fazendo?
Yuri largou o cunhado quase desacordado e foi abraçar o namorado com o rosto todo cortado e sangrando.
— Foi ele que começou tudo isso, doutor Manoel – chorava Bárbara apontando para o Miguel.
— Pai, foi ele que nos atacou! – defendeu-se, Benjamin, limpando o sangue do seu rosto na manga da blusa.
O médico estava atônito perante os quatro e sem reação alguma. Olhava para os dois filhos com horror nos olhos.
— Cadê a maldita da Marisa? – explodiu ele, dando socos no sofá.
— Ela foi à igreja com alguns parentes de vocês – respondeu, Bárbara.
Yuri e Benjamin continuavam abraçados enquanto Miguel chorava com as mãos cobrindo seu rosto. Estava perto de Bárbara, mas ela nem quis consolá-lo depois daquilo tudo.
— Já tá na hora de um dos dois começar a me contar o que está acontecendo aqui, caralho— o doutor dirigia a palavra aos filhos. – Eu criei dois humanos ou duas crias do diabo? Onde já se viu tentarem se matar?
— Foi ele, pai... foi ele – repetia Benjamin, sem conseguir parar de chorar.
— Que estava pensando, Miguel, seu desgraçado – Manoel não se controlou mais e jogou uma das almofadas na cabeça do filho mais velho a fim de que ele começasse a falar. – Me conte o que você estava pensando, filho da puta.
Discretamente a ruiva foi em direção à porta da sala para fechá-la antes de os vizinhos começassem a expiá-los.
— Eles, pai... eles... – começou a explicar soluçando copiosamente. – Eu peguei os dois trocando carinho aqui em baixo... – Manoel sentiu o coração acelerar enquanto precisou buscar forças para respirar profundamente. – Carinho que só namorados trocam. Eles estavam se beijando de língua. O desgraçado do japa emboiolou o meu irmão.
— Cala boca! Já chega, eu quero que você suba para seu quarto agora em silêncio e não abra a boca até eu ir lá falar com você. Agora, eu quero ficar a sós com o Benjamin e o Yuri – Miguel não acreditou que aquilo era sério, que seu pai estava excomungando-o. – Bárbara, eu quero pedir sua licença também.
— Eu já vou indo embora, não quero mais ficar aqui – confessou ela, indo em direção à mesa da sala de estar para pegar sua bolsa e suas chaves. – Ligo para você, amanhã, Ben.
A menina saiu sem dizer mais nada e sem se direcionar ao namorado. Yuri estava morrendo de medo de ser agredido também pelo pai do seu namorado. Benjamin estava sentindo palpitações fortes no peito e um pouco de tontura. Temia a reação da pessoa que mais amava na vida.
— Que está fazendo aqui ainda, Miguel. Suma da minha vista antes que eu perca meu juízo e te ponha para correr – ameaçou Manoel, descontrolado. Assim que seu filho o obedeceu, ele ficou mais tranquilo para direcionar a palavra aos outros dois: – Agora, vocês dois, me esperem aqui, que já volto.
O homem se dirigiu para seu escritório que ficava no corredor entre a cozinha e a lareira.
— Me desculpe, Benjamin, por eu ter forçado aquele beijo. É tudo minha culpa! Eu sei que não vai me perdoar.
Benjamin apenas segurou forte a mão do japa em resposta. O outro se acalmou com aquele gesto. Não demorou até que Manoel voltasse para sala com sua maleta médica e com seu kit de primeiros socorros.
O médico prestou seu atendimento aos dois sem dizer nenhuma palavra ou mesmo inferir qualquer reação pelo que ocorreu. Ele precisou dar uns pontos nos cotovelos do oriental e, depois, recolheu as partes quebradas da mesinha de centro. Demorou alguns minutos para conseguir fazer tudo aquilo.
— Agora, gostaria de pedir para que você, Yuri, também pudesse ir para casa. Eu preciso ficar a sós com Ben antes que sua mãe volte, por favor. – Ele não olhou nos olhos do japa enquanto fazia aquele pedido.
Yuri se levantou em silêncio e desapareceu pela porta da entrada. Ben ficou triste com aquilo, acreditava que seu pai conversaria com os dois. Sentia que talvez pudesse ter mais coragem com aquilo.
— Benjamin, olhe para mim... – E olhou. Seu pai estava chorando. – Que está acontecendo entre você e o Yuri?
O menino engasgou com a própria saliva e voltou a sentir aquela palpitação de antes no peito. Não conseguiu responder nada. Suas mãos tremiam de leve e seus lábios estavam sobre o domínio de seus dentes, uma espécie de nervosismo pelo que viria.
— Eu sei o que está acontecendo, mas preciso ouvir da sua boca. Estou a meses, esperando seu tempo, mas ele nunca veio... – o homem chorava como uma criança que acabou de apanhar de seus pais.
Aquilo cortou o coração do menino.
— Eu amo meu melhor amigo, pai. Não queria que tivesse me apaixonado por ele, mas, nos últimos meses, me envolvi fisicamente e emocionalmente com o Yuri. Não consigo mais vê-lo como apenas meu melhor amigo. Eu preciso dele para ser completo.
Aquelas palavras pareceram cortar o peito do pobre pai, mas ao invés de gritar ou qualquer coisa, ele se aproximou do menino e se ajoelhou diante dele, repousando sua cabeça no colo do filho.
— Filho, eu te amo demais para querer vê-lo se afastando de quem tanto ama. Desde aquelas briguinhas bobas com seu amigo, eu já desconfiava desse amor. Mas foi no acidente que quase levou a vida dele que pude ter certeza disso. Só que como um pai não queria mesmo acreditar. Queria imaginar que tudo era fruto da minha imaginação e que vocês apenas estavam passando por um momento complicado da idade de vocês.
Benjamin deitou sua cabeça sobre a do seu pai e continuou a ouvir seu desabafo:
— Eu quero que você fique com ele. Eu aceito seu amor por outro homem. Quem disse que isso diminuirá o que sinto por você? Amar outra pessoa é tão natural, não importa se é um amor entre dois homens, duas mulheres ou um homem por uma mulher. O amor é o que deve prevalecer, Benjamin.
Manoel levantou-se do colo do filho e o fez se levantar também. Olhando diretamente dentro daqueles olhos tão verdes e avermelhados.
— Sou muito orgulhoso de ter você, Benjamin, como meu filho. Ratifico todas as palavras que te disse mais cedo ao telefone: eu te amo demais, carinha. Agora, vá atrás do seu japinha e seja feliz. Vá para casa dele, que eu me viro com sua mãe e irmão.
— Pai, não sabe o peso que acaba de tirar das minhas costas. Tive muito medo de decepcioná-lo e de afastá-lo de mim. Você é meu melhor amigo e sempre será. Peço desculpas por ter escondido por tanto tempo o meu amor por ele. Mas saiba que não foi porque não confio em você. Foi apenas por medo de perder o seu amor. Obrigado por me amar sempre.
Benjamin abraçou-o bem forte antes de subir para trocar de roupa e correr atrás do seu namorado.
— Só quero te pedir um grande favor, por favor, Benjamin.
— Mas é claro!
— Não conte nada para sua mãe ou não demonstre por enquanto seu afeto pelo japa quando estiver por perto dela. Como sabe sua mãe está grávida e eu preciso de um tempo para ajudá-lo a contar tudo para ela. Marisa já teve quadros de pressão alta durante sua gravidez e qualquer nervosismo pode só prejudicar a nossa gravidez tão precoce. Mas juro para você que tudo vai ficar bem.
— E quanto ao Miguel? Ele pode contar tudo pra ela.
— Deixe seu irmão comigo. Vou ter uma conversa com ele agora mesmo. E não quero mais vê-los se engalfinhando como cachorros do mato.
— Eu te amo pai – disse mais uma vez, beijando-o na bochecha e dando um abraço bem demorado.
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