Um arrepio ruim passou pela espinha de Eliza, suas mãos tremiam e sua boca abria e fechava tentando pronunciar algo da qual não tinha sido pensada direito. Endireitou-se na cadeira em que estava e fechou o livro dourado que lia, colocando as mãos sobre a mesa redonda e as apertando, tentando manter o nervosismo longe, ou o máximo que poderia, mas não adiantava. Era algo que tinha acontecido ou era algo ao seu passado que tentava voltar.

Fechou os olhos levemente até sentir algo tocando suas mãos, patinhas pequenas lhe fazendo cocegas e trazendo em seguida dessa sensação a culpa, sentimento que pelo que poderia entender não era para ter no momento.

Abrindo os olhos, uma lagarta parecia ter se deixado ficar ali mesmo, parada junto a Eliza e sem parecer se importar com protestos ou não.

Dando um breve sorriso, tomou o inseto envolto numa concha com as mãos e levantou-se da cadeira, saindo da enorme biblioteca estelar do homem da lua. Seria recomendável comentar com o bom homem o que estava sentindo e o mesmo lhe contara uma vez que qualquer sensação ou pressentimento não deveriam ser ignorados.

Andando pelo corredor iluminado com luzes douradas, seus passos eram silenciados devido ao sapato de sola diferente da qual tinha usado no outro sapato da qual chegou, suas roupas se moviam com leveza e pareciam brilhar junto a decoração, queria até mexer no cabelo solto e rebelde, mas a lagarta não a permitia fazer no momento.

Entrando na sala principal da lua, encontrou Lunar sobre o painel que mostrava o holograma da Terra, mostrando pontos vermelhos e azuis em destaque e pela face do outro, a preocupação era visível.

— Lunar? Eu gostaria de lhe contar algo... — tentava não demonstrar pânico ou nervosismo em sua voz, mas o mesmo se virou com o olhar indagador — Eu tive um pressentimento ruim... Você contou que caso algo assim viesse a ocorrer, deveria falar o mais rápido possível com você.

— De fato, Eliza. O que lhe aflige em relação a esse pressentimento? — indagou, mas sem sair de perto do painel.

— Você poderia ver ou buscar aquela mulher que ameaça os guardiões? Sinto como se ela estivesse fazendo algo de ruim... — explicou, deixando a lagarta sobre uma cadeira e ficando ao lado do homem da lua — Não gosto desse pressentimento em relação a ela, é como se tudo que ela fizesse tivesse uma ligação direto comigo.

— Não sei ao certo se posso vê-la por aqui — apontava para o holograma da Terra — Mas tentarei...

Os pontos azuis sumiram do pequeno globo e apenas as vermelhas restavam, logo dando espaço para um ponto preto em especifico no país em que o guardião da diversão vivia. Mostrando ao lado do globo, uma tela transparente exibia imagens da escuridão dos céus caindo sobre uma cidade, e se juntando para uma casa da qual Eliza soube reconhecer de imediato, temendo mais a sensação ruim que lhe percorria. Até que a tela ficou escura e Lunar teve que mexer em algo para que a visão da tela voltasse, mas quando o mesmo se distraiu, a imagem voltou e com ela, o pânico tomou conta de Eliza por completo.

Uma criança estava nos braços daquela mulher estranha e sombria, debatendo-se e tentando grittar contra a mão da que o segurava. Medo era uma das coisas que ela não tinha presenciado desde que acordou, mas aquilo era temor e aquela mulher sorria para a tela, como se soubesse que estivesse sendo observada, um sorriso estranho e sujo, erguendo um dedo diante dos lábios palidos, pedia silêncio e a visão da tela voltou a ficar escura.

— Lunar.. Ela... Ela pegou uma criança... Aquela mulher pegou uma garotinho! — chamou o homem da lua, alarmanda e tendo a atenção dele, vendo o rosto do outro suavemente preocupado — Você tem que fazer algo, ele está em perigo...

— Eu gostaria de fazer algo, mas meus dons não são de grande ajuda até a Terra... — explicou — eu poderia contar aos guardiões.

— Mas até chama-los seria tarde demais! — elevou a voz, notando que Lunar a olhava com pena e no mesmo instante, Eliza tocou o rosto e sentia algo molhado sair de seus olhos — Por que eu estou chorando? — entrou em desespero.

Não sabia o que era a dor que crescia em seu peito, a raiva que lhe fez apertar as mãos em punho e as lágrimas de tristeza ao ter visto o pânico no olhar do garoto. Era como se já o tivesse visto...

Mas e se fosse? E se o conhecia e tinha perdido o mesmo em sua memória? Amaldiçoou a si mesma e mordia o lábio inferior, sentindo o gosto do sangue.

— Não se preocupes tanto minha cara — tranquilizou, Lunar — Eu disse que meus dons não tem quase efeito algum sobre a Terra e como você mesma disse, os guardiões não podem impedi-la a tempo de saber... Mas eu não disse que você não pode fazer nada — sorriu como uma criança, transmitindo esperança para Elizabeth — Você também era uma guardiã mortal por lá e agora o dever lhe chama novamente.

Cobrindo a boca com as mãos, conteve um soluço de um futuro choro e abraçou o homem da lua, sorrindo torto com aa felicidade que continha para si e o sentimento de alivio que lhe retirou a raiva.

— Obrigada.. Muito obrigada...

— Mas se for voltar para lá, ira precisar da sua arma ou o que se assemelha a ela. Não gosto de violência, mas você vai usa-la para espantar a mulher que ameaça o garoto — contou, se afastando do observatório e indo até um canto da enorme sala onde se encontrava alguns livros, mexendo em uma prateleira e tomando um livro em mãos, tirando-o pela metade e o recolocando no lugar, dando assim espaço para que a prateleira se afastasse e mostrasse armas estranhas e outras similares.

— Você usava o arco... — apontou — Não há flechas como as conhecidas, ela usa o brilho da lua como uma flecha. É preciso apenas mirar que será o suficiente. Mas não use para ferir ou se vingar daquela mulher, a espante apenas — entregava o arco para Eliza, que colocava-o em seu ombro

— Não farei nada de errado, defenderei o Vitor custe o que custar... — arregalou o olhar com o nome que tinha dito.

— O que disse? — perguntou, Lunar com um sorriso singelo.

— Vitor... O nome dele é Vitor... — sussurrou, memórias nubladas surgiam aos poucos e sorriu tristemente para si, lembrando aos poucos quem era o garoto — Ele é meu irmão e seu nome é Vitor.

— Fico feliz que tenha se lembrado de seu irmão, mas agora você precisa salva-lo — andava apressadamente até o observatório novamente, apertando botões.

— Eu lembro de outra pessoa... — chorou novamente — Da minha família, dos meus amigos... E do Jack também — novamente lágrimas molhavam seu rosto.

Uma luz dourada preenchia totalmente a enorme sala e fechando os olhos, Elizabeth sorria feliz, em paz consigo.

Estava na hora de voltar para casa e proteger aqueles que eram importantes para si.