Sem esperar o amanhã
5 Um olhar frio
O refeitório estava munido de um balcão com bandejas de alimentos quentes e frios, além de café preto, chocolate quente, sucos, chá quente e frio, frutas, pães, bacon, carne assada, cereais, salsichas, iogurte e purê de batata. Os homens foram chegando e sentando um em cada mesa e depois foram preenchendo os lugares, não havia grandes conversas. Bond serviu-se de pão preto, queijo natural, café preto, uma maçã e uma banana; não sabia o que viria pela frente e não queria ficar com o estômago em pleno trabalho.
Sig apareceu no refeitório usando um vestido azul que parecia o uniforme de uma comissária de bordo, calçava botas brancas e seu rosto estava levemente maquiado. Foi gentil e sorridente perguntando como fora a noite de todos e informou que após o café deveriam se dirigir ao centro de treinamento.
Os homens terminaram de comer com pouca diferença de tempo entre eles e quinze minutos depois estavam todos no que seria o centro de treinamento, ali havia um tatame e Amanda já os esperava; estava usando um quimono azul amarrado com uma faixa preta, outra roxa e calça preta, estava descalça; falou para os recém chegados tirarem os calçados e se sentassem em linha. Explicou que estava ali para ver a capacidade para defesa pessoal dos candidatos, primeiro como estavam em uma luta corpo a corpo e depois em uma luta com facas. – Acredito que todos aqui tenham o devido treinamento, estou aqui para ver o nível em que estão e será decisivo para integrar qual time vocês irão integrar, a equipe pessoal ou a equipe de serviços secundários. Alguma pergunta?
Cirillo da empresa de segurança particular, levantou a mão:
— Pode perguntar.
— O que você está usando debaixo do quimono?
Bond, Enrico e Levi foram os únicos que não soltaram um riso.
— Lembre-se que vocês não estão no jardim de infância. – disse Amanda em um tom profissional.
O que seguiu foi um espetáculo de arte marcial.
Levi foi o primeiro a enfrentar a instrutora, Bond esperava que ele fosse usar o Krav Magá, uma técnica de poucos movimentos introdutórios como o Kung Fu, sem chutes voadores como o Taekwondo, fora criada para que os soldados em guerra voltassem vivos para casa. O ex-agente israelense aprendeu que esta técnica não era a mais eficiente de todas e deu a impressão a todos que Amanda se utilizava dela, no entanto, seus movimentos eram mais rápidos, principalmente nos contra-ataques e inutilizou Levi com dois golpes diretos em pontos nevrálgicos na perna e nas costas quando se cansou de enfrentá-lo.
Ahamad foi o próximo, seu país de origem não era conhecido por alguma defesa pessoal efetiva, mas como era um guerreiro mujahedin deveria ter seu sistema de luta. O que se viu foi a tentativa de aproximação e agarre, mas Amanda parecia ser lisa demais para se segurar, tentou uma troca de socos, mas também a agilidade da instrutora evitou a maioria do contato, então Ahamad performou uma série de movimentos que parecia ser de um ataque com facas, pretendia desestabilizar sua oponente a confundindo sobre onde e o que ele pretendia atacar e isto durou com eficiência por uns minutos chegando mesni a atingi-la com alguns golpes, quando ela também se cansou e o derrubou com duas cotoveladas na cabeça; Bond pensou que ela, a princípio, pensou estar enfrentando uma nova forma de arte marcial, o que caiu por terra.
As demais confrontações não foram muito diferentes. Alguns conseguiram atingir Amanda, mas nada excepcional, o que fugiu da média foi quando chegou a vez de Cirillo, que começou a rodear a adversária como se fosse um boxeador, ela manteve a calma e a atenção, estudando os movimentos dele, em dado momento ele abandonou o estilo boxeador e partiu para cima dela tentando aplicar um golpe de JiuJtsu, possivelmente ele não foi rápido o bastante, ou Amanda, como calculou Bond, foi mais rápida e aplicou um formidável chute no queixo dele que o fez desabar na hora.
— Um pequeno intervalo rapazes. 40 minutos e voltem pra cá.
Neste intervalo os candidatos comentaram sobre Amanda e riram de Cirillo, uma humilhação que ele teve que aguentar com um sorriso amarelo. Bond procurou se integrar no grupo, dentro do que se esperava de um inglês, procurou estudar os demais, percebendo que Levi fazia o mesmo.
— Agora o treinamento será com facas, facas reais, por isso cuidado com vocês, porque os atingirei na menor falha de defesa. – a voz de Amanda era fria, como se fosse um legista explicando marcas no corpo de um cadáver. Os homens voltaram a se sentar no chão e Ahamad foi o primeiro a ser chamado. Ele se levantou e foi até a uma mesa onde estavam dispostos vários modelos de faca e facões, Ahamad escolheu uma lâmina que a Bond lembrou das facas compridas que vira no Afeganistão, com as quais estripavam carneiros e abriam um homem de um só golpe. Se o afegão não fora muito bem na luta corporal sem armas, mostrou-se um adversário implacável com a faca, seus movimentos anteriores eram agora compreensíveis e Amanda teve um trabalho para sair daquele embate sem um risco nas mãos ou em alguma parte da cabeça; uma lâmina de trinta centímetros precisava de mais movimentos e maior controle devido ao peso, fatores que a instrutora soube explorar; em dado momento, ela girou o corpo escapando de um golpe e se meteu nas costas dele atingindo sua nuca com o cabo da faca que levava, encerrando a luta.
Bond se concentrava em conhecer sua futura oponente, e também aproveitava para ver a reação dos demais, para variar, viu que Levi também estudava os candidatos e reparou em Enrico, o kaibil, ele olhava para Amanda além dos golpes e fugas de golpes que ela fazia, ele estudava o desenho do corpo feminino, calculava o quanto as pernas se distanciavam, como o tronco se inclinava, ele não estava estudando os movimentos da instrutora, ele estava estudando como necropsiar aquele corpo. Seu rosto não demonstrava surpresa ou algum sentimento, apenas permanecia como uma estátua que mirava enquanto ninguém se importava com seu olhar.
Os ex-seals e os operadores da Blackwater se saíram bem, não sofreram um dano sério no corpo, mas suas roupas mostravam cortes que se tivessem atingido a pele, teriam provocado muita dor, mas a intenção era mostrar que eles eram vulneráveis; eles optaram por facas curtas, instrumento de difícil defesa devido a proximidade e fácil manuseio.
Levi tentou atingir Amanda e depois mudou de tática, tentando desarmá-la, ao tentar isso recebeu um contragolpe que o jogou ao chão sendo atingido pelo cabo da faca de Amanda várias vezes no peito.
Cirillo entrou confiante, mas como na luta anterior foi vencido rapidamente, levaria um tempo para esquecer as cicatrizes no pescoço e na mão direita.
Quando Bond entrou com uma faca curta, sabia que seu objetivo era não ser ferido e nem ter sua roupa cortada, ele gostaria de saber em qual arte marcial Amanda era treinada, talvez não tivesse oportunidade de descobrir isso, mas tinha quase certeza que boa parte de seus dias era de treinamento árduo. Em relação aos demais, Bond estava no mesmo nível de perícia e tal como Ahamad, foi surpreendido com a agilidade dela que desferiu em um contra-ataque uma estocada com o cabo contra a cabeça de Bond.
Enrico era o próximo. Optou por uma de lâmina curta, indicando que queria se aproximar bastante de sua oponente, uma escolha que todos ali estranharam e antes de começar o embate, Bond estudou o olhar do kaibil, não havia ódio ali, nem preocupação, era o olhar de alguém acostumado a cumprir uma rotina diária, era a segurança de alguém em seus atos, como um açougueiro que não se cortava mais, a ideia de um açougueiro ficou na mente do agente de sua majestade. A princípio os dois se estudaram, testando os movimentos de ambos, parecia uma dança sincronizada, mas a cada passo Enrico se aproximava e Bond compreendeu uma coisa, Amanda dificilmente seria vencida, mas poderia ser tocada e lhe pareceu que Enrico queria isto, tocar sua oponente. Ele continha no rosto e pescoço algumas cicatrizes, talvez de cortes ou de projéteis, talvez estilhaços, não era possível estar no ramo de guerra e violência sem ter uma e outra marca, a cada passo de aproximação, Amanda conseguiu cortar o tecido da roupa do kaibil, este parecia não se importar, então aconteceu, ele se aproximou o bastante e em um contragolpe, Amanda o enredou e antes que ela pudesse estocar ele com o cabo, Enrico fez um só movimento, não era para enfiar a faca, não havia como, apenas pode fazer o que já estava prevendo, o único movimento que lhe seria permitido e teria que executar rapidamente, rodou a faca entre os dedos, Amanda ficou surpresa com o movimento e antes que pudesse reagir, levou um corte no rosto que a fez dar uns passos para trás, os homens, com exceção de Bond e Levi, aplaudiram, estes dois estavam estudando o único que se dera bem no treino; o sangue correu pelo rosto feminino, Amanda colocou a mão sobre o ferimento e olhou com ódio para Enrico. – Ok, encerrado por hoje, tomem um banho e depois passarão por um teste escrito. Vejo vocês amanhã.
Enrico foi deixar a arma ainda com o sangue sobre a mesa, era a marca de sua presença, calculou Bond, aquele olhar que ele estudara lhe ensino muito.
O olhar de alguém muito perigoso a ser evitado.
Um olhar frio.
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