Notas iniciais
Bond recebe as primeiras informações sobre seu novo trabalho em campo

Um lugar frio

O apartamento de Bond estava limpo e com cheiro de hortelã, que sua empregada gostava e ele apenas tolerava e como ela
não sabia quando ele voltaria deve ter usado aquela essência que tanto a agradava. Quando retornou, Bond foi direto para o banheiro e tomou uma ducha quente, um banho rápido, para tirar da mente o tempo que passou no outro apartamento à disposição da comissão de inquérito, como queria apenas algo rápido para em seguida relaxar, dispensou desta vez a rápida ducha fria. Depois de seco vestiu seu roupão branco, chinelos e foi preparar uma bebida, analisou o carrinho de bebidas que ficava na sala e escolheu um Scott que ganhara de presente, colocou uma dose simples e foi para o seu quarto, pegou o celular e viu que nada fora enviado, possivelmente estavam esperando mais informações; a possibilidade de reencontrar Kernel, ou seja lá que nome usasse aquele negociante de tudo que era ilegal lhe pareceu ser uma boa perspectiva, cruzara com ele umas três vezes, ou melhor, cruzara o caminho dele, embora nunca o tivesse visto, sabia que ele estava muito perto e isto poderia significar que aquele criminoso talvez tivesse visto Bond em alguma destas ocasiões, ou em todas, quem saberia? Isto era um problema e o pessoal do suporte sabia disto, fora M quem dissera que os caminhos haviam se cruzado, sinal que o MI6 tinha os detalhes da missão e deveriam supor que Bond fosse um rosto conhecido, como realmente era por algumas agências e criminosos; naquele ramo, algumas faces não eram esquecidas e isto significava que ele teria que se disfarçar, isto não era problema, próteses colocadas na boca já modificavam o rosto e lentes de contato serviriam para despistar alguma lembrança indesejada, nem seria a primeira vez que ele se disfarçaria; ainda sobre o colchão ortopédico, comprimiu os lábios, era claro que ele trabalharia com o rosto modificado, não
poderia colocar a missão em risco, Kernel e seus homens poderiam reconhecê-lo e tudo viria por água abaixo, segundo M havia mais agentes envolvidos e ser reconhecido poderia levar a queda dos outros agentes.

“O que vocês estão aprontando para mim?” — a pergunta era para o pessoal de suporte, principalmente para o setor Q; esperar as informações poderia ser torturante, contudo, a experiência de ficar no quarto do hotel esperando um resultado do inquérito tornava aquela experiência mais palatável, ainda mais se ele relembrasse lugares piores onde tivera que esperar por respostas. Um bipe fez Bond pegar o celular, na tela havia apenas uma instrução:

“Receba os dois pacotes da empresa”

O celular voltou para a cama e Bond saiu do leito para vestir uma calça cinza, uma camisa branca de manga curta, deixou os chinelos e preferiu o par de mocassim com o qual estava acostumado a ficar em seu apartamento. A missão estava a caminho, era incomum receber o equipamento em seu apartamento, o que ele interpretou sendo um sinal que já deveria sair disfarçado ou ao menos, sair direto para a missão. Meia hora depois Bond foi avisado pelo interfone sobre a presença de um entregador que ele autorizou a entrada, apesar de estar sem a sua arma oficial, ainda possuía armas em sua casa, assim, de um coldre preso embaixo de sua cama pegou um Colt Python .357, que era um revólver perfeito para deter alguém indesejado na porta e o colocou nas costas, preso na cintura; pelo monitor do sistema de segurança na parede ao lado da porta viu um homem franzino com um macacão azulado e um boné com o símbolo da Universal Exports, o entregador estava com duas mãos no pacote, abriu a porta, cumprimentaram-se e Bond assinou um recibo em um aparelho eletrônico que emitiu uma pequena nota, durante a assinatura o entregador ficou com o pacote embaixo do braço; quando se viu sozinho Bond foi para a sala e abriu a embalagem, um envelope amarelo cobria uma caixa que tinha o dobro do comprimento e largura de uma caixa de sapatos, rasgado o papel ele desencaixou abas na tampa que eram como travas para evitar do pacote ser aberto sozinho, no interior em uma proteção de isopor um tablet, um modelo usado no MI6 que era uma réplica, enquanto estrutura externa, de um IPad, Bond ficou um tanto decepcionado, esperava algo mais, não saberia dizer o quê, talvez algum outro material mais elaborado; ele apertou o botão liga-desliga e esperou alguns segundo e olhou para a câmera frontal a fim de que a íris de seus olhos fossem lidas e a primeira imagem foi a de Q, ao vivo.
– Ah! 007. Já estava ficando entediado.
– Com tantas novidades ao teu redor? — havia uma ironia fina no tom de voz.
– Novidades? Isto não é uma loja de lembranças 007. Bom, o que tem em mãos guarda toda a informação que você precisa para esta missão, no entanto ele só estará disponível depois que eu terminar esta transmissão. Você receberá uma segunda caixa dentro de uma hora, nela você vai encontrar equipamento que vai ajudá-lo em seu novo trabalho. Você receberá um jogo de lentes de contatos que não mudarão a cor dos seus olhos, contudo, vão identificá-lo como sendo outra pessoa, esta outra pessoa é informada nos arquivos deste tablet; haverá um celular com alguns recursos extras que eu agradeceria se você o devolvesse inteiro, encontrará as instruções de seus recursos nos arquivos; além do celular estará recebendo uma nova arma, nosso armeiro pede que você não estranhe, é uma arma comum no mercado, de acordo com as instruções que ele recebeu, no entanto o cano é reforçado; haverá três pentes, dois com munições capazes de perfurar colete antibalístico, senão perfurar vai provocar um excelente impacto no alvo e o terceiro pente está com munição incendiária. Quando acabar de ler os arquivos, aperte o ícone do microfone da tela e peça para apagar conteúdo pessoal, olhe para a câmera e depois toque em “sim” e você terá em mão um tablet comum, encontrado na maioria dos países da comunidade europeia, no entanto, ainda conterá alguns serviços extras.

– Serviços extras? Poderei encomendar algo para comer?

Q era um homem na casa dos quarenta, cabelos abundantes, pretos e penteados com gel, o bigode era fino e ele parecia ter um orgulho dele, tinha o rosto meio cheio, deveria estar uns cinco quilos acima do recomendável e naquele instante olhava para Bond como sempre olhava quando ficava irritado com alguma brincadeira que ouvia sobre seu trabalho.

– Diga-me 007, recrutaram você no jardim de infância?

Sentado na poltrona, Bond liberou um sorriso. — Tenho boas lembranças desse período, Q.

– Imagino… isto é tudo o que eu tinha para falar ah sim! Algumas coisas que virão na próxima encomenda você já conhece. Tenha um bom trabalho e cuidado com meus equipamentos.

O segundo pacote chegou enquanto Bond se concentrava nos arquivos sobre a missão, houve o mesmo ritual de entrega, mas desta vez ele não abriu o pacote, achou que era melhor ler tudo sobre o próximo trabalho.

O nome da missão era Centro de compras

O código: OZ35S

Objetivo secundário: Desmantelar a estrutura do suspeito de ser operador de armas no mercado negro internacional de armas, conhecido como Kernel.

Objetivo primário: Eliminar Kernel e Friederedick.

Objetivo acessório: Se confirmado, impedir entrega de armamento, missão em andamento e será enviado informações com o decorrer da missão.

Não havia muita informação sobre Kernel; a foto era antiga e com a observação que havia informes que ele teria feito plástica, teria por volta de cinquenta anos e os únicos registros policiais eram de sua juventude, quando fora fichado por roubo, depois havia apenas investigações sobre sua figura em negociações sobre tráfico de armas, drogas, escravos, lavagem de dinheiro e suborno entre as principais atividades em uma rede que operava na Europa, com ramificações na América do Norte e contatos na América Central e do Sul, seria mais um caso para as agências internacionais e nacionais de polícia, no entanto, nos últimos anos ele começou a estreitar relações com terroristas árabes e iranianos. A foto antiga era de um homem magro e Bond concentrou-se nos olhos, geralmente os olhos mantinham características que não mudavam com o tempo, talvez sinais de rugas, mas a expressão era algo que não costumava mudar; a medicina aplicada à plástica facial estava em desenvolvida, Bond mesmo iria se disfarçar sem uma intervenção cirúrgica; quanto aos olhos não apresentavam nada de especial a não ser algo meio infantil, como se uma criança curiosa estivesse esperando alguém entregar um presente, a foto era colorida e parecia ter sido tirada em um momento comum na vida de Kernel, cujo nome na ficha policial era Jhonson W. Fieldman, americano de Minessota, Estados Unidos, se é que era possível confiar em um registro policial de alguém que se aperfeiçoou a se camuflar, talvez pela época da prisão já estivesse em prática.

Já Friederick possuía uma vasta ficha crível, filhos de austríacos, nascera em Nantes, França, estava com quarenta e cinco anos e era o braço direito de Kernel, na verdade, era seu preposto, o imediato se estivessem em um navio, até os trinta anos esteve envolvido em vários crimes de contrabando de vários produtos e tráfico de armas, tinha ligações com organizações de vários países, a partir desta idade ele provavelmente se envolveu ou foi cooptado por Kernel e mudou seu estilo de vida, tornou-se um broker e saiu das manchetes dos jornais, mas não dos olhos das organizações policiais, contudo, embora houvesse suspeitas sobre eles, não havia provas concretas e algumas testemunhas desapareceram antes que pudessem falar, mesmo sob a proteção policial. Oficialmente era um homem no ramo de importação e exportação e seus navios nunca foram pegos com mercadorias ilegais, fora isto tinha sociedade em bancos e empresas comerciais, uma fortuna
considerável, acumulada em pouco tempo sob um suposto prêmio ganho na loteria, provavelmente um premiado que fora comprado ou roubado de alguém, a partir daí foi acumulando e acumulando dinheiro com investimentos em alguns países que proporcionavam bons lucros e em empresas de sucessos. Era um milionário discreto, e um bilionário ilegal mais discreto ainda; tinha bons carros, mas nenhum que chamasse a atenção, eram carros luxuosos do tipo que se esperam de pessoas com dinheiro.

Havia um terceiro arquivo pessoal. Richard Dönitz, um milionário recluso, filantropo, dono de indústria metalúrgica, criador de cavalos e sócio no ramo de pedras preciosas; seus negócios estavam espalhados pela Europa e passava sua vida em Berna, Suíça; ele era um amigo de Friederick, ambos nutriam uma paixão por cavalos e geralmente eram flagrados jantando juntos, tal associação e a frequência com que se viam chamaram a atenção da polícia embora não conseguissem provar nenhuma ação ou associação criminosa entre eles.

A ficha de Antoniel Lineau era a quarta e sobre este, trazia informações de um homem que ganhava dinheiro na Bolsa de Valores e na compra de empresas em má situação financeira que rendiam lucro ao serem desmontadas e vendidas; não havia
prova de nenhuma ligação dele com qualquer tipo de crime, no entanto, Bond recordava-se que M o chamara de criminoso, talvez usasse esta expressão por ele ser ligado a Kernel e Friederick.

Quinto arquivo pessoal: Ronald Z. Vistas, conhecido como senhor Z, um mercenário que mantinha uma empresa de segurança pessoal e intermediava contratações de mercenários, sob os panos, logicamente. O senhor Z era o contato de Bond; no último arquivo sobre pessoas ele encontrou as instruções de como deveria agir; sua nova identidade era de ex-soldado inglês, um fuzileiro que agora estava trabalhando por dinheiro não importando a origem dele e nesta condição ele foi recrutado para ser testado, se aprovado, ele ia ser próximo da segurança pessoal de Antoniel.

Bond olhou de novo o local onde seria o teste.

Islândia.

Um lugar frio.

Notas finais
A missão começa, Bond tem que passar nos testes, senão outro agente terá que recomeçar o que pode favorecer a ação criminosa em andamento