Sem esperar o amanhã
2 Um homem marcado em uma sala confortável
Notas iniciais
Um homem marcado em uma sala confortável
Bond abriu a porta do sala de Moneypenny e sorriu, a secretária-executiva de M também sorriu e ficou em pé – Não sei se o cumprimento ou se eu o consolo, James.
– No momento, qualquer um deles cabe para a situação. — Bond estava com o sobretudo preto e o tirou para deixá-lo como de costume na sala da secretária, agora mostrava um terno preto feito sob medida e uma gravata também preta, ele achou que as cores eram perfeitas para a ocasião que estava passando, as meias e os sapatos também eram da mesma cor, apenas a cueca era azul, mas azul-escuro. — Você disse que o humor dele está péssimo, sabe de algo para eu me precaver? — a pergunta era retórica, Bond sabia da profissional que Moneypenny era, passaria apenas o que ela poderia passar.
– Não sei, mas creio que o resultado do teu inquérito seja parte do mau humor.
– Bom, vou descobrir.
Não poderia haver dois ambientes mais diferentes do que a sala de M e a de sua secretária. A de Moneypenny era cheia de coisas pessoais, uma caneca personalizada, bonecos de personagens de cinema e no teclado do computador havia bandeiras pequenas da Inglaterra adesivadas, bem como figuras do Big Ben; um porta-retratos estampava ela ao lado de um cavalo e ela nunca mencionara paixão por estes animais, provavelmente uma montagem; na parede atrás dela um quadro do almirante Nelson em uma moldura moderna, a mesa em que ela trabalhava era tubular, tampo de vidro na cor cinza, sua cadeira era na cor verde e havia cadeiras estofadas, quatro, onde as pessoas podiam esperar por uma audiência com M, era difícil de acontecer, a agenda era rígida, pessoas chegavam no horário exato e saíam tão logo o assunto terminasse. A sala de M era diferente, primeiro não havia nada que pudesse identificá-lo nem dar pistas de seu passado ou de algum hobby, a decoração era sóbria, copiada de ambientes que poderiam retratar o rigor da era vitoriana, aliás a mesa de M, madeira maciça, talvez fosse dessa época distante; não havia prateleiras com livros e nem quadros nas paredes, apenas a mesa, a cadeira de madeira com estofamento, e duas cadeiras de madeiras, sem estofamento, parecia que ele não recebia mais do que duas pessoas ao mesmo tempo.
– 007, entre e sente-se.
Se M tivesse optado por uma função executiva em uma empresa ou mesmo em alguma função burocrática, seria o típico inglês meio rosado, talvez com uns quilos a mais, isso se a opção fosse feita anos atrás, mas ele seguiu a carreira militar e mais tarde enveredou pelo mundo diplomático. Seu passado era obscuro, sua ficha no computador era apenas algo formal, as histórias que corriam era que ele era um veterano que passara pelo Vietnã em missões secretas, participara de várias ações no continente africano no interesse da Coroa, treinara rebeldes em vários países, bem como soldados regulares, sempre a serviço de sua Majestade, participara da retomada das Falklands, na Guerra do Golfo enfim, ele lutou e matou em metade do mundo, sua pele do rosto era morena, seu olhar era direto, frio e quando sorria era por alguma ironia, o lábio inferior tinha uma cicatriz, nariz aquilino e olhos azuis, acinzentados pela idade e pelo que devia ter passado na vida. Um homem de combate conhecia outro só de olhar para ele, eram homens marcados e M era um destes.
– Teu último trabalho proporcionou-me longas horas de chateação burocrática e conversas que eram pura perda de um tempo precioso, temo que não consegui muita coisa além de resguardar tua carreira em campo. Não demora muito e padres prepararão as futuras operações, mesmo o mundo se tornando cada vez mais instável, seria bom se decidissem se querem ser leões ou cordeiros. Agora você ficará um tempo afastado e terá que passar por alguns profissionais, provavelmente vão pedir para você desenhar um vaso com flores. — Bond sabia que M não desprezava os profissionais da saúde mental, apenas achava besteira examinar alguém por cumprir o serviço que lhe fora proposto. — Bom… entrei em contato com nosso serviço médico e expliquei que você está em uma missão que não pode ser interrompida, quando tudo acabar vamos marcar algo, até lá você aproveita para repor as energias que gastará neste próximo trabalho, que aliás, não parece ser fácil. — Sobre a mesa do homem que comandava estava apenas uma pasta azul, um laptop fechado, um cubo de madeira onde eram deixados lápis e canetas e finalizando, um aparelho telefônico sem fio. Era uma sala confortável. — Creio que seu caminho já tenha sido cruzado por Kernel algumas vezes, não é mesmo?
Bond fez um meneio com a cabeça – Kernel, Louis Cyfer, Lodr Stephesson, Da Mata, Antonino… ele usa muitos nomes, claro que o senhor sabe disto. Não é alguém fácil de se encontrar.
– Não estamos pensando em marcar uma entrevista com ele, 007 – Bond refletiu se a menção do duplo zero não seria já uma permissão para eliminar aquele homem de muitos nomes. — O problema é que ele agora está em contato com extremistas árabes, isto significa fornecer um bom suprimento de armas, munições e artefatos que podem derrubar um prédio, como uma implosão e sabemos que pode ser usado em qualquer parte do mundo. A CIA está atrás dele, assim como o MOSSAD e outros serviços de inteligência de países amigos e não amigos, suponho que os não amigos queiram que eles explodam os lugares certos, longe deles, é claro.
– Certamente. — assentiu Bond desnecessariamente, mas não pareceu perturbar M.
– Você precisa identificar quem está negociando com ele, o que está negociando e onde; já temos outros agentes nesta missão, vocês não vão se comunicar, toda a informação vai para o setor competente e de lá repassada para quem precisa saber, tua parte nesta missão é se infiltrar na organização de outro criminoso, Antoniel, temos informações que ele é um colaborador íntimo de Kernel. Você agora deverá voltar para seu apartamento, o inquérito vai ser finalizado ainda, mas, mesmo assim, você pode deixar o atual e ir para onde vive.
M observou a sobrancelha direita de seu agente alterar-se, pareceu-lhe como um suspiro de alívio.
– Será ótimo.
– Algumas instruções serão enviadas para o teu celular, poderá estudá-las ainda hoje. Se possível seja mais discreto desta vez, estamos em um mundo onde qualquer idiota tem um celular com uma câmera na mão. Queremos esta operação de Kernel encerrada o mais rápido possível. Alguma dúvida?
– Não senhor. — aquilo encerrava a reunião, Bond ficou tentado a perguntar sobre sua arma, mas ficou quieto, este assunto seria tratado com o armeiro.
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