Sem Saída
1 Convocação
Notas iniciais
Uma sala escura, sem qualquer iluminação. Um ambiente que não possuía piso ou paredes. Porém, dentro dele o Conselho – composto por quatro essências – conversava, seriamente:
— E o que você descobriu sobre o assunto? – a sombra verde, indagou.
— Encontrei-a, dentro do mundo humano. O Oráculo disse que nascerá em uma menina. – a luz branca, chamada Ererath, respondeu.
— Oh... – o espírito vermelho apreciava a informação. — Podemos simplesmente trucida-la.
— Céus... Você certamente é problemática. – a essência verde – denominada Tokë – suspirou, em protesto. — Não podemos fazer isso, se nascerá no mundo humano, o corpo será a prisão de Thana. Se matarmos o hospedeiro, ela estará livre para fazer o que desejar.
— Oras, e por que você não vira comandante do Inferno para poder falar isso, Tokë?
— Calem-se! – a sombra azulada, Lume, berrou. – Não sabemos quando a garota irá chegar na Terra, o tempo de preparação pode ser curto, e não temos poderes suficientes para confrontar Thana. Deveríamos nomear alguém para acabar com a jovem, de fato, mas esperaremos perseverantemente enquanto isso.
— Se quer saber, tenho uma suposição de quem está disposto a nos ajudar. – Flaket, o espírito vermelho sorriu.
— O que você tem em mente, Flaket? – Lume perguntou, cansada.
As essências não eram as mesmas há tempos atrás, desde que o universo se corrompeu. O conhecimento disso, era geral... Mas, provocar alguma delas era almejar a própria morte.
— Siek. – respondeu em apenas um cochicho.
— Jura? – Ererath questionou, abismada. — Os irmãos Siek?
— Não, apenas um deles, Alaric Siek.
— É uma excelente sugestão, aquele poderoso demônio nos deve muitos favores, não poderá recusar...
Após a decisão, as sombras desapareceram, deixando aquele espaço vazio e silencioso, novamente.
A relação dos gêmeos Siek era conturbada, – ora estável, ora instável – o motivo era claro para todos: a estranha desigualdade na personalidade dos irmãos. Pode parecer estúpido, – é bobo, na verdade – mas veja bem:
Alaric Siek, o primeiro demônio existente no universo, o primeiro pecado. Um líder nato, com sede de desordem e caos. Exerce todas suas tarefas de acordo com seu bel prazer, sem se importar se suas ações prejudicarão outras pessoas.
Stefan Siek, o irmão mais novo, – nasceu pelo simples fato de ter sido almejado, já que a maldade não vive nele. Um homem doce, defensor da verdade e carinhoso. Poderíamos falar que ele é a bondade encarnada, mas é um demônio... E embora seja mais humano do que o normal, nunca sabemos o que esperar deles.
Com certeza devem ter percebido a dessemelhança, certo?
Há um certo tempo atrás, nos primórdios da Terra, – quando nela não se encontrava malícia ou impureza – Alaric nasceu, no formato de uma serpente. E bem... Eu imagino que vocês conheçam o conto.
Após ele oferecer aquele fruto condenado para Eva, o Conselho o prendeu em uma cela de contenção, – onde ele perderia a capacidade de usufruir de seus poderes, lentamente. Prestes a perder sua magia, criou um ser – Stefan – para que não permanecesse só pelo restante de sua vida – vulgo, pela eternidade. Mas, graças ao seu azar, a relação dos dois é péssima.
— Alaric. – um portal se abriu naquele enorme espaço vago, eram as sombras, comunicando-se com o demônio.
A entidade estava dormindo, – não é como se fosse uma surpresa, pois fazia isso na maioria do tempo – enquanto pairava no ar, pela ausência de gravidade.
— Siek, acorde. – Ererath pediu, perdendo a paciência. Como poderia ser tão preguiçoso?
O homem resmungou, ainda sonolento. Se naquele lugar houvesse uma cama, não sairia dela por nada. Talvez pela liberdade, que tanto queria, fora isso... Nada.
— Alaric Siek! – reclamou em forma de um grito estridente. — Acorde logo, esteve dormindo por... Sei lá quantas horas.
— Três dias seguidos. – Stefan ergueu um tanto sua cabeça, levantando seu corpo em seguida. Acabara de acordar, compreendia por completo seu irmão, o local era um tédio. Enxergou o portal e flutuou até o mesmo. — Não é como se tivéssemos várias opções do que fazer por aqui.
— Céus... Você tinha que sugerir justo ele, Flaket? – o espírito branco gritou.
— Sim! – de longe, ouvia-se um berro de Flaket. — Ele é demais.
— É, eu sou demais! – Alaric rapidamente colocou-se de pé e bradou a frase energeticamente, dando socos no ar. — Agora, digam-me, de que vocês precisam?
— Precisar? – Ererath sorriu, inocentemente. — Ninguém falou nada sobre “precisar de algo”.
— Ah, Ererath... Eu não sou ingênuo, sabia? Pelo contrário. – o rapaz juntou as mãos sobre o cóccix, caminhando lentamente no ar, em círculos. — Devem estar bem desesperadas, quem poderia imaginar... Uma materialização de Thana, chocante, não?
— Como sabe disso? – a moça respondeu, surpresa. — Estávamos cuidando para que o caso fosse mantido em segredo.
— Ah, não me diga que você achou mesmo que me prendendo aqui. – enfatizou as últimas palavras, com desdém. — Conseguiria me privar do que acontece no mundo à fora. Eu tenho meus contatos.
— Enfim... Não vem ao assunto, vamos abrir o jogo. – a mulher suspirou longamente e deu continuidade à conversa. — Realmente ocorreu, Thana irá retornar e quando isso se cumprir, devemos estar preparados.
— Certo... E onde eu entro? – O Siek mais velho perguntou, com tamanha ansiedade.
— Esse é o ponto, Alaric. Você foi designado para acabar com ela, de uma vez por todas. – Tokë surgiu diante do portal, completando a missão oferecida para o demônio.
— Eu adoraria, donzelas. – sorriu e fez uma reverência, sarcasticamente.
Enquanto o plano estava sendo terminado, o homem parou e aquele sorriso se transformou em uma expressão que indicava seriedade. Logo, resolveu fazer um pequeno acordo:
— Com uma condição... Espero ser livre por bastante tempo, e acho que esse é o momento perfeito.
— De jeito nenhum. Permanecerá preso até que chegue a hora de sair. E depois que a guerra acabar, irá regressar sem interrupções. – Ererath retrucou, não era saudável confiar nele. Estaria enganando a si própria...
— Ou faremos as coisas do meu jeito, ou não faremos nada. – Alaric rebateu.
— Não nos provoque, Siek. – Lume manifestou-se, sussurrando letra por letra. — Se não...
— Se não o quê? – A entidade blefou. — Não é como se vocês pudessem me exterminar.
As quatro luzes, que formavam o Conselho, pararam diante do portal. Pensavam e raciocinavam os prós e os contras e por fim, tomaram uma decisão, já não poderiam mais voltar à trás:
— Tudo bem, esperamos que não nos decepcione, Siek.
Alaric conseguia sentir sua aura enchendo-se de vida como era antes, seu poder estava sobre seu controle, novamente.
— Então nós temos um acordo. –
Com apenas um pensamento, uma adaga brotou do lado da besta. Não era uma faca comum, com certeza... Era de uma cor preta, ou quase preta. Havia uma palavra, que fora escrita com linhas de ouro: aeternum – eterno, ou para sempre.
Ererath e Alaric cortaram a palma das mãos e durante o tempo que o sangue escorria e pingava pelo espaço, trocaram um aperto de mãos. Concretizando um pacto de que ambos os lados não poderiam fugir.
— Vocês irão mesmo deixar que ele vá embora, assim? – Stefan, que até agora permaneceu calado, decidiu colocar a boca no trombone. — E olhe que eu estou dizendo isso como irmão dele.
— É nossa única opção para destruir Thana, Stefan. – Lume lamentou.
— E enquanto isso não acontecem permitirão que ele espalhe desordem por aí – o mais novo tentou ressaltar novamente, caso elas estivessem loucas. Mas, logo que percebeu que aquela discussão não os levaria para lugar nenhum, calou-se.
Quando Ererath ordenou, os gêmeos foram magicamente transportados para o mundo humano, com poderes em suas veias, pois agora... Eles tinham um corpo!
A pior parte de não estar no plano dos humanos é ser inexistente, viver sem um corpo era péssimo... As ações limitadas, a maneira de como os objetos atravessavam sua aura e o fato de ser parcialmente transparente...
Habitar um corpo depois de tantos anos será uma experiência mágica para os rapazes. Bem, para o rapaz. Porque Stefan sumiria do mapa assim que pudesse, aguentar um demônio rabugento por milésimos é uma tarefa nada fácil.
— Eu vou embora, Alaric. – Stefan apoiou-se sobre os pés, cambaleando, ter pernas era uma sensação engraçada. E falou a frase de despedida, como esperado. Não trocariam abraços ou chorariam um pelo outro, pois odiavam-se, um simples e belo “até nunca mais” estava de bom tamanho. — Por favor, não apronte besteiras e aja corretamente, como um humano.
— Ah, meu querido irmãozinho... Eu vou ter muita diversão a partir de agora. – Alaric virou-se de costas e caminhou dramaticamente para qualquer direção, sem rumo.
Fale com o autor