Sem Rumo
4 Estranhos
Notas iniciais
Eu nunca me senti tão perdida antes.
Tudo bem, eu sabia que podia ir para qualquer lugar. Qualquer um mesmo, sem que ninguém reclamasse no meu ouvido por estar fora de casa por muito tempo ou coisa parecida. Mas ao mesmo tempo, eu me sentia perdida.
Ok... Poderia ir para qualquer lugar, mas para onde? E quando chegasse lá, o que faria depois?
A única coisa que eu tinha era uma mochila, e eu não me sentia lá muito segura só com aquilo. Se bem que uma pessoa que é capaz de ensurdecer alguém só com o poder do pensamento não deve ter medo de andar rumo ao desconhecido.
É. Acho que o desconhecido devia ter medo de mim. Eu ia adorar isso, se não fosse pelo fato de eu mesma estar com medo de mim.
- Ah, droga... O que deu em mim? – Perguntei encostando-me á uma parede. Eu estava no meio da cidade. Já tinha corrido muito até chegar lá, e esperava que ninguém me encontrasse com facilidade.
Meu cabelo estava bagunçado, minhas roupas estavam suadas, e eu estava com cara de cão sem dono. Mas não um cão sem dono qualquer. Não é um filhotinho fofo que as pessoas querem desesperadamente levar para casa e cuidar com todo o carinho e amor. É um daqueles que as pessoas preferem virar o rosto ignorando a existência.
Já estava de noite, e eu não tinha nem idéia de onde iria dormir. Podia ficar em uma praça, ou até mesmo debaixo de uma marquise de loja, mas não achava lá um lugar muito seguro. O que aconteceria se a polícia fosse falar comigo?
Não, eu tinha que dar o fora daquela cidade o mais rápido possível. Correr para longe, não importando para onde. Mas eu não tinha nem mesmo uma bicicleta, e minhas pernas já não agüentavam mais.
Olhei para o lado e vi que um policial olhava para mim curioso. Eu desviei o olhar e tentei parecer normal. Eu endireitei a minha postura e resolvi andar um pouco para ele não me seguir ou fazer perguntas.
Dei alguns passos, mas pude notar que ele me seguiu mesmo. Tentei andar mais rápido, mas não estava dando certo.
- Ei. Ei garota! – Chamou ele. Eu estava pronta para correr quando tropecei e caí para frente. Meu corpo estava tão pesado que eu tinha certeza que no momento em que ele tocasse o chão, eu não teria forças para me levantar.
- Eu pego! – Exclamou alguém. Eu não tinha visto ninguém na minha frente, mas de repente eu estava nos braços de um homem. Ele me virou de frente para ele, e pude ver seu rosto – Você está morta, ou...?
Pisquei meus olhos. O rosto dele mostrava que devia ter por volta de uns vinte e tantos anos. Seu cabelo castanho estava completamente bagunçado, mas não parecia que ele tentara arrumá-lo antes. Seus olhos igualmente castanhos tinham um brilho um tanto travesso, e me fitavam curiosos.
Mas o que me prendeu foi o sorriso. Seu sorriso malandro me fez sentir vontade de rir pela primeira vez no dia.
- Ah... Estou viva ainda. – Respondi depois de alguns minutos de silêncio. Ele riu e me pôs de pé. O cara olhou para o guarda, cruzou os braços e depois olhou para mim.
- Deseja alguma coisa com ela? – Perguntou ele por curiosidade.
- Ahm... É que a polícia recebeu a queixa de uma garota desaparecida, e ela se encaixa no perfil. – Respondeu o policial. Ferrou, pensei.
O cara riu um pouco, e depois olhou para mim.
- O que? Desaparecida? Tolice! Não é ela. – Riu ele como se fosse uma piada. Eu ri um pouco também, mesmo não entendendo porque – Eu estava justamente procurando ela para podermos voltar para casa! Desculpe, mas ela não está desaparecida ou coisa do tipo. Só estávamos dando uma volta no centro com a nossa família.
- Vocês são parentes? – Perguntou o policial. Eu olhei para ele em dúvida, mas o cara só riu mais um pouco.
- Só porque eu não puxei a beleza da família quer dizer que não podemos ser parentes? Está me chamando de feio? – Perguntou ele tentando não rir. O policial piscou os olhos, e negou com a cabeça.
- Ahm... Não, senhor. Não. Eu... – Ele coçou a cabeça e olhou para mim confuso.
- Você já estava indo embora comprar um sorvete de morango naquela loja ali. – Suspirou o cara apontando com o dedão para uma sorveteria do outro lado da rua. Franzi o cenho para ele, achando-o louco por falar isso á um policial, mas...
- Isso. Isso mesmo, filho. Estava indo tomar um sorvete de morango. – Confirmou ele como se estivesse em transe. O policial virou as costas e atravessou a rua sem nem mesmo falar nada comigo.
Eu arregalei os olhos de leve, surpresa por ter visto a cena, e depois olhei para o cara que começou a rir um pouco de novo. Ele soltou um suspiro, e colocou as mãos no bolso. Olhou para mim, e encolheu os ombros.
- É, foi divertido. – Disse ele virando-se e indo embora.
- E-Ei! Espera... – Disse correndo em direção á ele, mas minhas pernas bambearam e eu caí. Ele virou-se incrivelmente rápido e me segurou.
- Me diga... – Disse ele olhando para mim. Eu olhei em seus olhos e ele continuou – Alguém amarrou os seus cadarços uns nos outros para você ficar levando tombos o tempo todo?
- O que? Não. Não, eu... – Neguei com a cabeça – Eu só... Ahm... Ah. Obrigada.
- Não foi nada. – Respondeu ele. Eu fiquei de pé novamente, mas dessa vez ele não virou as costas e foi embora. Devia estar esperando para mais um tombo meu – Fugindo de casa? Seus pais não gostam disso?
- Falar com estranhos também não é uma coisa bonita. – Eu ri um pouco, e ele riu ainda mais concordando.
- Bem colocado. – Confirmou – Mas então, estranha? Para onde está indo?
- Eu... – Encolhi os ombros e olhei em volta – Estou sem rumo. Posso ir para qualquer lado, mas tem que ser para longe dessa cidade.
- Qualquer lado? – Perguntou ele levantando levemente as sobrancelhas.
- É. Para onde a estrada me levar. – Confirmei, e ao ouvir essa frase ele abriu um largo sorriso – O que?
- Para onde a estrada te levar? Agora ficou um pouco mais interessante. Bem... Eu não tenho nada para fazer mesmo, então... Quer uma carona para qualquer lugar? – Perguntou ele animado.
Olhei para ele por um instante. Aquilo tinha acontecido muito rápido. Aquele cara tinha me ajudado a despistar o policial e agora estava falando que poderia me dar uma carona para qualquer lugar. Eu nem mesmo o conhecia, mas falar com pessoas que apóiam fugitivos da policia não parecia ser algo tão legal.
- Ahm... Sei lá. Eu não conheço você, sabe? Então... – Ponderei, e ele riu – Eu realmente não sei... Eu...
- Não estou perguntando se você quer casar comigo. Perguntei se quer uma carona. – Riu ele – Relaxa. Pode confiar em mim para isso. Juro que não bato com o carro.
Olhei melhor para ele. Estava usando uma calça jeans, e uma camisa azul escura normal. Não parecia um ladrão ou coisa do tipo, por isso resolvi arriscar.
- Certo. – Confirmei – Mas... Ainda não confio completamente em você.
- Isso. Nunca confie em estranhos. – Disse ele confirmando sério – Você pode até pedir carona para eles, mas nem todos. Acho que só para pessoas com eu, e genéricos. Você teve sorte de me achar. Não costumo sair por aí ajudando todos que aparecem.
- Ah, é? – Perguntei enquanto seguia ele. Não estava entendendo muito bem o que ele e falava, mas resolvi só concordar e seguir.
- É. O que posso dizer? Sou um cara ocupado. – Disse ele olhando para os carros da rua com o cenho franzido. Parecia estar concentrado em algo que eu ainda não entendia.
- Qual desses é o seu carro? – Perguntei ajeitando minha mochila.
- Uhm... Está por aqui. Um minuto. – Respondeu ele olhando em volta. Foi aí que parou na frente de uma picape 4x4 prateada. O carro era bem grande, o que me deixou impressionada.
- Esse é o seu carro? – Perguntei surpresa. Ele riu um pouco como se desfrutasse de uma piada interna, e mexeu um pouco na fechadura do lado do motorista. A porta se abriu e ele sorriu para mim.
- Agora é. – Respondeu. Meus olhos se arregalaram – Vem. Entra.
- Ahm, não obrigada. Tenha uma boa noite, mas eu prefiro ir á pé. – Respondi me virando, mas ele se levantou e tocou no meu ombro.
- O que? Mas e o nosso plano de ir para onde a estrada levar? – Perguntou ele.
- Você não me disse que nós íamos em um carro roubado. – Rebati.
- Achado não é roubado. – Retrucou ele.
- Mas quando se arromba a porta, é sim! – Protestei.
- Pena que o policial está ocupado tomando sorvetes de morango. Senão ele poderia vir aqui e me prender por não ser um cidadão americano correto e ter roubado propriedade alheia. – Comentou ele fingindo estar triste. Ele riu um pouco ainda bem humorado, e eu fiquei ainda mais impressionada – Relaxa. Eu juro pelo Estige que não te seqüestro, ou roubo, ou mato, ou coisa do tipo, ok?
- Jurar pelo Estige é alguma gíria para marginais? – Perguntei sem querer, e de modo inocente. Eu sempre deixo essas perguntas escaparem. Ele riu.
- O que? Ah, é. Claro. O meus brothers, como vocês chama hoje em dia, falam isso direto. Agora... – Ele voltou para o carro e sentou-se – Quer entrar antes que alguém venha brigar comigo? Por favor.
Franzi o cenho para ele, mas pude notar algo de diferente. Seus olhos mostravam a energia de alguém que encara o seu primeiro dia de férias cheio de planos. Ele estava animado para dirigir para longe, e dava para ver que isso era algo sincero.
Por isso eu resolvi entrar no carro. Também pelo fato dele ser bonito e simpático, mas vamos ignorar isso.
- Eu vou. – Sorri para ele. Entrei pelo outro lado, e fechei a porta. Ele olhou para mim e franziu o cenho.
- Qual é o seu nome mesmo? – Perguntou ele.
- É... Abigail Strangford. Mas... Eu prefiro Abby Starr. – Comentei mesmo sabendo que ele ia ignorar a informação como todo mundo.
- Ok, Abby. Põem o sinto e se segura, porque eu calculo que o dono furioso desse carro vai aparecer daqui á uns... 14 segundos. – Falou ele ligando o carro. Olhei para ele com os olhos arregalados, e isso lhe chamou a atenção – O que foi?
- Você me chamou mesmo de Abby. Que... Demais! – Exclamei sem querer. Ele riu um pouco colocou o carro na rua.
- É, eu sou demais. Mas obrigado mesmo assim. Adoro ouvir isso. – Sorriu acelerando.
- Meu carro! – Berrou alguém do lado de fora, só que ele acelerou demais para que o homem pudesse ir atrás de nós ou algo do tipo.
O único ponto iluminado no meio da área rural era a casa de campo. Deméter estava sentada na sala de estar ajeitando um arranjo de flores. Perséfone fazia um tipo de bordado enquanto a lareira mantinha o lugar aquecido.
- Mamãe, o arranjo de flores está lindo! – Exclamou Perséfone encantada. Deméter sorriu para as flores vermelhas e brancas que davam vida á um vaso sem graça que ela tinha achado.
- Obrigada, filha. Deixe-me ver o seu bordado. – Pediu ela. Perséfone mostrou para a mãe o que tinha bordado no pedaço de pano braço – “Lar, doce lar”. Que lindo.
- Obrigada. – Sorriu ela tímida e voltou a bordar. Deméter colocou o vaso na mesinha de centro de madeira e sentou-se na cadeira novamente. Ela observou as flores sorrindo, mas seu sorriso sumiu quando elas morreram de repente – Estava demorando... A felicidade nunca dura mesmo com ele por perto...
Hades desceu as escadas com cuidado por causa do seu corpo completamente queimado de sol, e Deméter se virou devagar no sofá para vê-lo.
- Tá olhando o que? – Perguntou Hades em um gemido de dor, enquanto tentava passar pela escada sem que os corrimãos tocassem nele.
- Um tomate. – Respondeu Deméter. Hades fez uma risada forçada e de repente ficou sério.
- Você devia queimar só o nariz e virar comediante. É sério. Bateria palmas para você agora mesmo, se isso não fosse me causar dor. – Sorriu ele fingindo ser amigável.
- Não vamos começar, por favor. – Disse Perséfone olhando para sua mãe. Deméter sorriu para ela.
- Começar o que? Hades só me deu uma dica de... Ah! Foi uma piada? Há Há! Vamos, Perséfone. Ri para o palhaço não perder o emprego! – Sorriu Deméter.
Hades, assim que desceu o último degrau da escada, mostrou o dedo do meio para Deméter.
- Hades! – Exclamou Perséfone.
- Ah, foi sem querer! Foi sem querer. Eu só ia apontar para o arranjo, mas usei o dedo errado. – Sorriu ele inocente.
- Quando você acordar com a sua cama cheia de capim, o seu dedo não vai ajudar em nada. – Deméter lançou a indireta.
- Eu vou enfiar o meu dedo no seu...! – Perséfone o interrompeu.
- Hades! – Exclamou novamente.
- Arranjo de flores! No arranjo de flores! Por que ninguém me entende? – Perguntou ele repentinamente inocente – Eu ia ver se ia precisar de água.
- Não. Precisa de suco de uva, seu animal. – Retrucou Deméter de mau humor.
- Ora, sua velha barraqueira... – Resmungou Hades. Perséfone levantou do sofá e colocou o seu bordado na mesinha de centro.
- Hades, já chega. Mamãe, boa noite. – Ela virou-se para seu marido – Vamos dormir. Vem.
- O que?! Agora que eu tive o maior trabalho em descer a escada, Perséfone?! – Exclamou ele incrédulo.
- Hades... – Ela revirou os olhos. Perséfone foi até perto do ouvido dele e sussurrou – Vamos subir e ficar á sós. Vai ser melhor.
Hades sorriu de leve e assentiu.
- Ou você pode sentar e ter uma boa conversa comigo. – Comentou Deméter fingindo estar sendo educada – Eu não sei falar a língua dos cachorros, mas eu tento para ser uma pessoa sociável.
O Deus dos mortos ia lançar um fora bem forte, mas resolveu que era melhor deixar essa passar.
- Tenha uma boa noite, irmã. – Disse ele com certa irritação. Ele virou-se e subiu as escadas logo atrás de Perséfone. Deméter olhou para eles subindo a escada e sorriu.
Não um sorriso de “eu acho vocês um casal lindo”, mas o sorriso de “isso vai ser divertido”. E misteriosamente uma planta cresceu perto do degrau em que Hades estava, e ficou na frente de seu pé como uma corda, fazendo o Deus tropeçar e cair de cara nos degraus.
As queimaduras arderam como nunca, e Hades soltou um berro furioso.
- Deméter, sua filha da pu...! – O berro dele foi abafado pelo de Perséfone.
- Hades! – Berrou ela o repreendendo.
Seria uma longa noite.
Notas finais
O que vocês acharam?
Mandem reviews! Beijos e até o próximo capítulo, queridos leitores!
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