Sem Rumo
9 A moral da história é...
Notas iniciais
Espero que gostem...
Apolo colocava na boca o máximo de cereal que conseguia, mas ao mesmo tempo não parava de falar.
- Ahm menha filham achamem que eum não existu. – Ele falava enrolado e em um tom abafado, enquanto pedaços de sucrilhos coloridos caiam para fora de sua boca. Deméter cruzou os braços, irritada.
- Tenha modos, garoto! Coma de boca fechada, engula, e depois fale! – Repreendeu ela. Hades fez uma careta para Apolo, por estar vendo as cores alegres do sucrilho se misturarem em sua boca.
Apolo engoliu o cereal com raiva, e bateu a caixa de papelão na mesinha de centra. O Deus do sol jogou-se para trás no sofá, e cruzou os braços como uma criança contrariada.
- O que você tinha dito? – Perguntou Perséfone sem ter entendido uma única palavra.
- A minha filha acha que eu não existo! – Exclamou ele com raiva. Todos fizeram um “Aaaah” mostrando que tinham entendido, e Apolo revirou os olhos – Eu não existo? Eu não existo?! Se eu não existo, ela não existe.
- Quer parar com isso. Faz sentido ela não achar que você existe. – Resmungou Hades achando que, como sempre, Apolo fazia drama demais.
- Faz sentido porque?! – Exclamou Apolo com raiva.
- Por que se ela acreditasse que Deuses gregos existem, saberíamos que ela tem um parafuso frouxo na cabeça. – Comentou Hades.
- O que? Nada a ver. – Resmungou Apolo.
- Pessoas normais não pensam assim. – Disse Hades.
- Pensam sim. – Confirmou Apolo sem querer admitir a verdade.
- Pensam nada! – Exclamou Hades.
- Pensam sim! Lá lá lá lá lá lá! – Apolo tampou os ouvidos e começou a cantarolar para não ouvir a voz de Hades. O Deus dos mortos ficou com raiva e se pôs de pé.
- Ah, para mim já chega! Já basta ter que ficar nesse fim de mundo com essa velha! Eu não sou obrigado a ficar nessa sala ouvido sua criancice, Apolo! – Exclamou Hades sem paciência como sempre.
- Para onde está indo? – Perguntou Perséfone – Vai falar com a Abby?
- O que? Eu não. Eu vou pegar mais protetor solar. Minha pele está começando a arder de novo. – Corrigiu Hades dando de ombros – Deixa a garota se sentir mal. As pessoas precisam aprender a lidar com os sentimentos negativos também.
- Isso tinha mesmo que ter vindo de um pessimista como você. – Reclamou Deméter negando com a cabeça.
- Ah, desculpe. Se você vive em um arco íris colorido e come cereal colorido, parabéns, mas a vida não é assim. – Queixou-se Hades – As pessoas nascem, crescem, ficam desapontadas, levam chutes da vida, e depois morrem.
- Que horror! – Exclamou Perséfone – Isso foi algo terrível de se dizer, Hades!
- É a verdade! – Afirmou ele quando chegou a escada – O problema é que todo mundo se ilude pensando que a vida é sempre feliz. Não, ela não é. As pessoas têm dias ruins, dias de chuvas, e dias tristes. Deixa a garota em paz, e depois ela melhora!
- Eu não vou deixar ela em paz! Eu deixei ela em paz por vários anos, e já chega! – Exclamou Apolo se colocando de pé.
- Vai aonde? – Perguntou Perséfone se levantando também.
- Vou falar com a Abigail. – Respondeu ele.
- Vai nada! Senta aí de novo! – Disse Perséfone – Não adianta pressionar a garota para aceitar você! Ela precisa de um tempo para respirar.
- Não! Eu vou falar com ela! – Confirmou Apolo ignorando Perséfone.
Hades começou a falar para ele não se intrometer, e Apolo reclamou com ele. Pesérfone reclamou com os dois, e tudo começou a ficar barulhento. Eles estavam brigando cada vez mais, até que Deméter resolveu que aquilo já passara do limite.
- Já chega! – Berrou ela, e todos ficaram em silêncio. Eles olharam para a Deusa da agricultura, que andou até o meio deles e apontou para Apolo – Acham que estão em um mercado de peixe?! Essa casa é minha, e eu quero ordem aqui!
Todos engoliram em seco. Deméter olhou diretamente para os olhos do Deus do Sol, e apontou para o sofá.
- Você. Volta e põem o seu traseiro no sofá agora mesmo!
Apolo teve medo de desobedecer a ordem dela, ao ver que Deméter estava realmente irritada. Ele estendeu as mãos em rendição.
- Sim, senhora. – Murmurou ele com medo. O Deus do Sol sentou-se e ficou quieto observando o resto da cena. Deméter apontou para Perséfone.
- Você vai ficar sentada lá também, ouviu? E eu não quero ouvir você reclamando com ninguém, mocinha. Quem faz isso sou eu. – Ordenou Deméter. Perséfone assentiu revirando os olhos, e foi para o sofá ao lado de Apolo.
- Sim mamãe... – Resmungou sentando-se.
- E quanto a você, seu infeliz deprimido, suba as escadas e conversa com ela! – Exclamou Deméter para Hades. O Deus dos mortos piscou os olhos sem acreditar.
- Eu?! Ah, desculpe. Não foi você que acabou de dizer que eu era deprimente, e que só falava coisas horríveis? – Perguntou ele erguendo os braços.
- Você vai controlar a sua boca e vai fazer ela se sentir melhor. Ela precisa de alguém que a faça ver que está em família. – Disse Deméter.
- Quem disse que eu vou obedecer você?! – Perguntou ele com raiva. Deméter fez surgir uma colher de pau em sua mão e apontou para ele.
- Ou você sobe essa escada agora mesmo e ajuda a menina, ou eu juro que te dou a surra que mamãe devia ter te dado faz tempo! – Exclamou Deméter apontando o utensílio culinário para ele. Hades cruzou os braços devagar para não se machucar com as queimaduras.
- Eu sou um dos Três Grandes. Eu sou Hades, Deus dos mortos, Senhor do Mundo Inferior. E você acha que vai me controlar com uma colher de pau...? Ah! – Hades berrou ao sentir Deméter atingi-lo na barriga com o objeto.
- Sobe! Sobe essa escada agora! – Berrou Deméter peseguindo-o. Hades virou as costas e começou a correr.
- Sua maluca! Louca! Demente! – Berrou ele com medo de Deméter – Para com isso! Para!
O Deus dos mortos atingiu o topo da escada, mas não parou até chegar á porta do quarto onde Abby estava. Ele abriu e entrou. Deméter desceu as escadas, e viu que Apolo e Perséfone estavam prendendo o riso por verem uma cena tão cômica.
- Estão rindo de que?! – Perguntou ela, e os dois ficaram extremamente sérios.
- Nada. – Responderam juntos.
- Acho bom. – Resmungou ela. De repente, ela voltou a ter a posição de mãe doce e gentil, e sorriu para os dois – Alguém quer biscoitos?
Abby estava sentada no chão quando Hades fechou a porta com medo de Deméter. Ele olhou para o chão, e lá estava a filha de Apolo. A semideusa estava com um pequeno pedaço de giz, desenhando.
Ele franziu o cenho e deu um passo para frente. A tábua do chão rangeu, e Abby ergueu seus olhos para ele. Ela parecia indiferente. Talvez um pouco aborrecida, mas não estava chorando. A garota olhou para a barriga de Hades sem entender, pois tinha uma marca engraçada em vermelho.
- Olha... Parece uma colher! – Exclamou Abby olhando-o. Hades olhou para a barriga, e assentiu.
- Parece, não é? – Perguntou ele fingindo um sorriso simpático. Abby não estava sorrindo para ele, e nem sorriu depois. Ela só abaixou seus olhos para o chão novamente, e murmurou algo para o Deus dos mortos.
- Tem mais protetor ali em cima da cama. – Foi tudo que a garota falou. Hades fez uma pequena comemoração com as mãos, e o pegou. Houve um grande intervalo de silêncio, até que Abby resolveu falar com ele – Por que está aqui?
- Quer que eu conte a verdade, ou invente alguma coisa para te animar? – Perguntou ele passando protetor na mancha vermelha.
- Desculpa. – Murmurou ela franzindo o cenho – Esqueci que a casa é sua.
Hades riu incomodado, e negou com a cabeça.
- Minha? Minha casa? Ah, longe disso. Isso aqui não é uma casa. – Resmungou ele irritado – É só um barraco decadente abandonado pelos Deuses sabe-se lá onde. Não tenho nada a ver com esse lugar.
Abby se virou e notou que Hades fitava sua pele queimada pelo Sol com raiva. A semideusa, sentou-se de pernas de índio no chão e olhou para ele com mais atenção.
- Eu pensei que gostasse daqui. – Disse ela sem entender – Por que acha que esse lugar é um inferno?
- Inferno? Não ofenda o inferno. Acredite no que eu digo, garota do protetor solar, ele é melhor do que essa casa. Principalmente quando não aquela velha irritante não está presente. – Resmungou ele jogando o protetor solar em cima da cama.
- Ela não é tão ruim. – Comentou ela. Hades olhou-a como se fosse maluca, e Abby explicou – Alguns amigos que eu tive... Bem... Uns colegas na escola, na verdade. Eles disseram que as mães deles eram irritantes, ás vezes, porque reclamavam o tempo todo.
Hades ergueu as sobrancelhas para Abby, sem entender o que ela queria dizer com aquilo. Ela só encolheu os ombros.
- Mas elas só fazem isso porque se importam. – Completou Abigail. Ela encolheu os ombros – Viu? Ela se importa com você.
- Ela quer a minha cabeça na parede. – Corrigiu Hades – Você não conhece essa mulher. Ela me odeia.
Abby desistiu de falar alguma coisa, e acabou sentando no chão para desenhar. Hades franziu o cenho para a parede, e assentiu.
- Ela me odeia mesmo. – Confirmou ele, sem que Abby tenha contestado.
- Tudo bem então. – Disse ela voltando a desenhar.
- Não, é sério. Ela me odeia. – Confirmou ele. Abby assentiu e voltou a desenhar no chão com giz – Eu poderia até te explicar melhor, mas você não entenderia.
- Não, tudo bem. Não precisa. – Abby encolheu os ombros.
- Tudo bem, eu te explico. – Confirmou Hades. – Senta aqui que eu te conto.
- É sério, não precisa... – Abby foi interrompida.
- Então pode ficar aí mesmo. – Disse Hades dando de ombros. Abby viu que ele queria desabafar de qualquer jeito, por isso sentiu-se uma psicólogo. Ela encostou-se contra a parede, de modo que ficou de frente para a cama.
- Pode contar. – Murmurou.
- Quando nós saímos da barriga do nosso pai... – Hades foi interrompido.
- Ahm? Não seria da sua mãe? – Perguntou Abby confusa.
- Não. Nós já tínhamos saído da barriga da nossa mãe. Estávamos na do nosso pai depois. – Explicou ele, mas Abby ficou ainda mais confusa – Quando saímos de lá, e cuidamos do mundo e blá blá blá... Alguns anos depois, ela teve uma filha com o nosso irmão.
- O que? – Abby franziu o cenho, mas então lembrou-se de algo que ele tinha dito antes – Ah... Foi antes da lei do incesto ser criada.
Hades sorriu para ela e fez que sim com o dedão.
- Garota esperta. Adoro gente inteligente. – Confirmou ele. Hades continuou depois de um suspiro – A Perséfone e eu nos apaixonamos. E... Eu levei ela para o Mundo Inferior, para podermos ficar juntos.
- Mundo Inferior...? – Abby franziu o cenho.
- Vai ficar me interrompendo, ou vai prestar atenção na história? – Perguntou Hades incomodado. Abby olhou para ele.
- Ahm... Não foi o meu pai que te mandou aqui em cima para perguntar alguma se eu estava bem? Eu imaginei que fosse isso... – Abby foi interrompida.
- Podemos falar disso mais tarde? Eu estou no meio de um momento flashback. – Reclamou Hades irritado por estar sendo constantemente cortado – Ótimo. Depois, quando Deméter soube que eu tinha levado a filha dela, ela fez um escândalo. “Ele sequestrou a minha garotinha! Buah! Ele é tão mau!”.
Hades imitou uma voz enjoada, e ergueu seus braços fingindo desespero.
- Exagerada. Ela me chama de sequestrador até hoje. – Disse revirando os olhos – Depois nós...
Ele olhou para Abby e notou que ela parecia triste. Não parecia insegura como quando chegara lá, e sim triste. Hades parou a história, e soltou um suspiro pesado.
- Esquece isso. Não é importante. – Disse ele revirando os olhos – É só que... Vou pular logo para a moral da história.
- O amor vence tudo? – Tentou Abby.
- Não. Famílias são um porre, mas existe uma coisa chamada de DNA que nos amarra uns aos outros. Não tem jeito. Eles são chatas, irritantes, e te repreendem se você não amarra os sapatos, mas você tem que ficar com eles. – Respondeu Hades – Tudo bem. Seu pai é um cara ocupado que dirige o Sol, mas é melhor fazerem as pazes, pois nunca vão estar livres um do outro.
- Quer dizer que você vai fazer as pazes com a Deméter também? – Perguntou Abby analisando o assunto.
- O que?! Ficou maluca?! Eu quero mais que ela seja torturada eternamente nos Campos de Punição e depois...! – Hades se interrompeu ao ver Abby arregalar os olhos um tanto tensa – Ahm... Er... Quero dizer. Isso é um talvez. Agora vai falar com ele.
Notas finais
Haha! Hades traumatizado tadinho...
Espero que tenha valido essa espera tão longa.
Por favor, mandem reviews. Se quiserem... Recomendações.
Espero pela opinião de vocês, e até o próximo capítulo!
Fale com o autor