Sem Reticências
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Seus olhos estavam cheios d’água, vermelhos, inchados, de tanto chorar. Não conseguia entender... Tivera uma conversa com a amiga mais cedo, e fora aquilo que desencadeara todos os outros fatores. Aquilo fora a chave que abrira o cofre dentro do seu coração, no qual ela escondia todos os seus medos e segredos.
Ninguém poderia saber o que ela sentia de verdade, porque ninguém entenderia. Era mais fácil colocar um sorriso no rosto, esconder as lágrimas, fazer brincadeiras sobre si mesma e levar a vida. Ela era tão insegura, tinha tantas coisas sobre ela, tantos problemas... Não faziam ideia... Mas era melhor assim mesmo, porque ela sabia que quando as comportas se abriam, ninguém segurava.
Agora estava ali, sozinha. Sentiu o vento batendo em seu rosto, era tão gostosa aquela sensação! Não, não estava prestes a pular de um prédio. Estava em uma praça, altas horas da madrugada, sentindo o vento balançar seus cabelos. Sozinha. Sempre achara que a outra precisava dela, necessitava dela para viver, para ser feliz.
“- Eu não preciso de você! Fique longe de mim!
- Precisa, você sabe que precisa. Precisa de mim constantemente ao seu redor, para te lembrar de quem você é.”
Mentira pura, e agora ela sabia disso. Bianca era maior do que tudo, ela tinha um longo caminho pela frente, para brilhar, e sabia brilhar sem precisar de outras pessoas. Agora Helena tinha consciência disso. Bianca era linda, olhos, boca, cabelo, corpo, tinha uma mente ótima, um sorriso, uma simpatia, além do seu talento natural. As pessoas viam tudo isso e lhe diziam isso.
Mas Helena... Aquela Helena... Olhou seus próprios braços, as mãos, passou a mão no rosto... Quem iria querê-la? Desejá-la? Amá-la? Ela se enganava constantemente fingindo ter paqueras onde quer que fosse, mas ela sabia da verdade. Sabia que se iludia, e que nunca teria chance com aquelas mulheres mesmo, era só fantasia, para divertir-se tal qual criança pobre, que com um pedaço de pano, inventa mil e uma utilidades.
Sorriu tristemente por entre as lágrimas. Ninguém sabia como era insegura. Tinha tanto medo da solidão... Por isso precisava desesperadamente de Bianca. Tinha certeza que a amava, e saber que a outra a amara trazia um pouco de alento ao seu coração assustado. Mas depois de tanto silêncio... Começou a se perguntar se ela seria o suficiente para Bianca.
Tantos homens e mulheres nesse mundo, mais bonitos do que Helena, melhores do que Helena, mais perto da onde Helena jamais poderia estar, pelo menos não naquele momento. Por quê aquela que tanto amava, ficaria tanto tempo batendo na mesma tecla, insistentemente? Ela esperava que Bianca continuasse ali. Seus desejos mais profundos esperavam que, mesmo em seu silêncio, Bianca sempre se lembrasse dela.
Estava quase desistindo... Quando olhou para o céu, sentiu um arrepio pelo corpo todo, e de repente a chuva começou a cair, molhando todo o seu corpo. Sentia frio, mas aquilo parecia tê-la acalmado. Ela começou a sorrir, sentiu seu coração aquecido. Seria um sinal? Alguns diriam que não, pura coincidência, chove o tempo todo. Outros? Pensariam igual à ela, quando a gente pede, Ele responde.
Helena começou seu caminho de volta para casa, não sabia o que faria dali para frente. Ainda tinha tantas dúvidas sobre como proceder... Sobre seu futuro, carreira, amor... Mas por ora, sabia que não devia desistir. Já tinha deixado claro o que faria, o quanto a amava, o quanto a queria... Teria que esperar, até que a outra se resolvesse... Sua única certeza, sem reticências, era de que um dia se encontrariam.
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