Sem Refúgio
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu estava sentado na poltrona da sala de espera já fazia uns trinta minutos, com a cabeça baixa entre as mãos eu só podia escutar bem distante a voz do anunciante na televisão querendo vender o seu produto, a vida é sempre assim, um série de produtos nos são oferecidos e nós sempre escolhemos os de qualidade mediana, até mesmo porque os melhores são difíceis de alcançar, e os piores perdemos rapidamente. Uma leve dor começou a subir pela minha nuca, e não pude resistir a levantá-la, me deparando assim com o resto da sala, uma mesa de centro com revistas que tinham na capa belas pessoas, com belos sorrisos estampados nos rostos, a intenção sempre foi nos fazer querer se sentir como elas, e assim prosseguir nossas vidas imaginando que talvez pudéssemos chegar lá, é claro que não conseguimos. Ao meu lado estava o paciente das 5h, eu já tinha analisado a face de todos os meus companheiros de terapia e todos carregavam rostos cansados de tanto tentar chegar a um lugar inalcançável. Eu já ia começar a analisar o aquário quando escuto algo:
- Senhor Sans?! Por favor dirija-se à sala 8 – era a voz da atendente, uma senhorinha agradável, que no nosso último encontro até me ofereceu uma xícara de café, é claro que ela só estava fazendo o seu trabalho.
Eu me levantei e caminhei até o meu destino dos últimos três meses, a porta continuava sempre a mesma, cor de terra molhada após uma chuva de fim de tarde, mas que bela descrição, acho que estou ficando bom nisso. Doutor Becker já estava sentado na sua típica cadeira com um bloco de anotações, pronto para escrever os meus próximos relatos, ou o que ele definia como um.
- Sans, mas que bela surpresa, como você vai indo? – ele me indagou com o que eu considerei o mais falso sorriso desde o inicio da terapia.
Mas que pergunta é essa? Nossos encontros são marcados, como posso estar bem quando na maior parte do tempo me sinto drogado com os remédios que você me receita.
- Bem – respondi com a cara mais lavada do mundo.
- Sente-se, o que posso fazer por você hoje? – odeio essa pergunta, me faz querer responder coisas que ele detestaria escuta.
- Diga você, afinal é pago para isso. – foi a única resposta que me veio a mente, e saiu como um jato de água fria, atingindo em cheio meu alvo.
Com um riso irônico no rosto, ele só conseguiu me responder:
- Tem razão Daniel Sans. Então me conte como foi sua semana. – escutei incrédulo aquele pedido, eu acho que essa é a pior parte de uma terapia, eles pedem que você ponha neles toda a confiança e a verdade de seus dias.
- Foi extremamente interessante, eu e meu companheiro salvamos algumas donzelas que estavam em risco com a bomba que foi plantada na Torre Eiffel, e agora mesmo vindo para cá, eu salvei um gatinho da árvore. Estou pensando em forma um grupo de super heróis, como uma Liga da Justiça, fora isso eu dormi bastante porque fiquei cansado com o resto do dia. – respondi, finalizando com um sorriso no rosto.
- Ok Sr. Sans, você sabe que não precisa ser assim.
Já faz um mês que venho perturbando o gênio dele com essas minhas narrativas, eu gosto do modo como ele tenta descobrir o que eu estou tentando dizer através dessas palavras, eu sei que na verdade não quer dizer nada, ele não.
- Então Dr. Becker, acha que eu devo tomar alguma providência em relação ao meu dia?
- Bem, não. Continue tomando os medicamentos receitados, e me traga os exames okay? – os exames eram a única forma que ele tinha de controle sobre mim, o meu sangue me entregava.
- Sim, posso ir? – perguntei já sabendo a resposta.
- Sabe Daniel, às vezes deixamos que o mundo faça jus sobre nós, e essa é uma forma errada de levar a vida, cada dia é uma nova chance de recomeçar, e ela não bate à nossa porta, por vezes sim, mas nossa tendência de ignorá-la nos faz perder a chance de ao menos conhecê-la. Fique bem, tenha um resto de boa tarde. – eu sentia como se esse discurso estivesse pronto.
- Igualmente. – respondi, e saí dali o mais rápido que pude, antes que aquelas palavras grudassem na minha cabeça.
Passei pela sala e a senhorinha me deu um sorriso, eu tinha certeza que era de pena, já que beleza não era o meu forte. O consultório ficava somente a algumas horas da minha casa, eu esperei o ônibus que me levasse o mais próximo para que eu caminhasse. O caminho até minha casa passava pela Avenida Warren, eu sempre admirava a placa do “Aladdin Orient”, a população árabe vinha crescendo em Dearborn.
Sentado no ônibus, eu observei uma jovem balançando a cabeça, acompanhando no ritmo da música talvez. Faz bastante tempo que não paro para escutar uma bela música, mas quem carrega na mente um grito, não se deixa mais levar pela melodia de uma canção.
Enquanto eu subia a rua, a minha vizinhança como de costume cochichava pelos quatro cantos, depois de um tempo você se acostuma. Percebe então que é fácil viver sem a opinião dos outros, difícil mesmo é ter de aturar os seus próprios pensamentos, as suas próprias lembranças.
Cheguei em casa, e só senti o algo roçando as minhas pernas, olhei para baixo e vi Fumaça me encarando com os olhos amarelados pedindo comida, até hoje me pergunto se esse foi o nome mais ideal que eu poderia dar ao meu presente de casamento, mas um gato persa só me lembrava cinzas, e esse nome seria clichê demais. Eu coloquei sua comida no comedouro, mas de forma inútil, ele sempre derrubava no chão e era trabalho em dobro, Ana havia o acostumado assim, e eu apenas preservei a tradição porque era uma forma de mantê-la viva também, apenas para me torturar com lembranças, claro.
Chequei o e-mail e só tinha o de sempre, correntes, aquelas da pior espécie implorando para ser compartilhadas; produtos à venda, eu não me lembrava de ter pedido para receber notificações; a clínica, enviando a confirmação da hora da próxima consulta; amigos, perguntando como eu estava apesar de saber que eu iria ignorá-los; então algo chamou minha atenção, era um e-mail da Corretora onde eu trabalhava, abri de imediato.
“Senhor Daniel Austin Sans, requisitamos sua presença na corretora Popins & Pock, às 16:30 do próxima segunda feira
Atenciosamente
A Diretoria”
Eu só consegui senti nesse momento raiva, como podem ser tão cara de pau? Cortaram o total contato comigo após o acontecido. Depois desse choque só me restou dormir, ou pelo menos tentar. Me joguei na cama e apaguei.
“- Anaaa...Não! Por favor não! Meu Deus alguém me ajude..Anaa!” – acordei arfando, pingando de suor, coloquei a cabeça entre a mãos, esse pesadelo jamais me abandonaria. Nunca mais eu serei o mesmo, nunca mais vou conseguir tirar essa imagem de mim. Nem por mil anos, os gritos se cessarão.
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