Sem Nome (ainda)
4 Capítulo 4
–Parece que foi um erro. Não sei bem como aconteceu, mas a assistente dele deve ter trocado os currículos e acabou me ligando no lugar de ligar para essa garota que eles queriam.
Thomas está do outro lado da linha e parece tão assustado quanto eu. Estou dentro de um quarto, provavelmente o quarto mais impressionante que já vi na vida. Ele é maior que a sala da minha casa. Tem uma ante-sala com uma pequena mesa e um arranjo de flores frescas mais bonito que muito arranjo de casamento que já vi, e o quarto, com duas camas que supostamente seriam camas de solteiro mas parecem camas para uma pequena família (Greta ocupa uma delas, que está toda desarrumada, com um monte de coisas espalhadas ao redor e a outra eu já posso chamar de minha!) . Tem até um balcão, onde dá pra ver uma piscina gigantesca e as colinas de Los Angeles, com o logo de Hollywood.
Greta me colocou no quarto e disse para eu esperar. Ela e Rick foram ajustar os detalhes da programação da semana (e provavelmente falar sobre mim, já que me deixaram para trás — espero que Greta não seja demitida por isso — espero que eu também não), e eu aproveitei para ligar para a primeira pessoa que podia me ajudar a me acalmar.
–Mas mesmo assim eles vão ficar com você, não vão?
–Por umas duas semanas, ou menos se eu acabar atrapalhando alguma coisa.
–Anele, você não vai atrapalhar ninguém, você é supercompetente e é obvio que vai dar conta disso melhor que essa tal de Pine. Aliás, que nome é esse?
–Sei lá. Acho que ela é chinesa, japonesa ou algo assim.
–Que se dane se você nunca trabalhou na Disney, nem conheceu essa tal de Hanna Montanha. –Quero corrigir ele, mas aquilo não importa naquele momento – Você aprende rápido. Só mantenha a cabeça e o foco no trabalho e tudo vai dar certo. Aposto que eles vão querer ficar com você pra sempre e nem vão chamar a outra garota.
Thomas fala de uma maneira tão decidida que eu quase me convenço. Quase.
–E os meninos, são mesmo bonitos? São metidos? São nanicos?
Suspiro meio desanimada enquanto brinco com um fio solto no meu casaco.
–Vi eles passarem muito rápido. Não tenho certeza nem se vou conseguir lembrar o nome de todos. Greta começou a me falar algo sobre eles, sobre tomar chá ou coisa do tipo e eu não consegui acompanhar nada.
–Bom, acho que você devia decorar o nome deles o mais rápido possível. Nem que tenha que andar com uma foto deles na carteira.
“Aprender os nomes” anoto mentalmente numa lista imaginária de coisas para fazer para tentar ser a melhor assistente do mundo.
Nesse momento escuto a porta se abrir, e estou tão tensa que nem me despeço de Thomas, apenas bato o telefone com força e tento fazer uma pose de quem não estava fazendo nada (não sei se posso fazer ligações interurbanas, e não quero que eles descontem isso do meu salário “base”).
–Uff. Dá pra acreditar nisso?
Greta entra pelo quarto e se joga sentada na cama dela.
–Rick me passou uma grande bronca na frente dos meninos. Não acredito que eu confundi os currículos, eu tinha certeza que estava tudo certo. –Ela fala como se estivesse falando sobre outra pessoa e eu decido que Greta é muito esquisita – Mas agora está feito. Ainda bem que gostei de você. Mas se você não trabalhou com a Miley Cyrus, com quem você trabalhava antes?
A porta se abre de novo e eu olho Rick aparecer pelo quarto. Greta dá um pulo na cama.
–Greta, confirma pra mim a agenda dos garotos, liga para a Seventeen para confirmar a sessão de fotos amanhã de manhã, ajuste seu relógio para acordar cedo. Você, Adele – Eu penso em corrigir, mas depois penso que não seria uma boa coisa corrigir Rick, não agora, então me calo – Apenas tente não estragar tudo e arrume uma maneira de ajudar.
E sem dizer mais nada, ele sai do quarto. Rick Ridículo, Rick Ridículo. No mesmo instante, Greta pega o celular no bolso da calça e começa a discar e falar com alguém, provavelmente sobre a tal da sessão de fotos. E eu continuo ali, sem saber bem o que devo fazer, e começo a pensar que ficar ali parada talvez se enquadre na categoria “Estragar tudo parecendo uma preguiçosa” e fico esperando Greta acabar o telefonema.
–E então Greta, tem algo que eu possa fazer? Quer me passar algo, alguma coisa que eu precise saber?
–Não, agora já está tarde e eu tenho que ir daqui a pouco com os garotos nesse negócio do Canal 4. Mas pensando bem, você vai precisar de um telefone, sabe, pra gente poder se falar, e também pra anotar todos os nossos contatos: Produtores de rádio, TV, jornalistas, editores... Você podia amanhã ir no shopping comprar um BlackBerry igual o meu né? – Ela estende o telefone no ar, como se eu não soubesse o que é um BlackBerry.
–Sim, claro. Se precisar que eu faça mais alguma coisa...
–Eu vou te passar tudo aos poucos. É tanta coisa que eu não quero que você se confuda.
Então escutei aquele barulhinho, Zzzz-zzzz. Zzzz-zzzz. O BlackBerry de Greta começou a vibrar e ela atendeu tão rápido que fiquei me perguntando se ela estava esperando que ele tocasse.
–Oi amor– Ela se levanta enquanto fala ao telefone, se afastando de mim. Depois, aparece de novo, ainda no telefone, e só aponta para o aparelho e depois pra porta, fazendo um tipo de mímica que acredito que signifique “volto logo”, por que em seguida ela saiu do quarto e fiquei sozinha.
Uhu. Sozinha.
Eu devia ligar para meu pai ou minha tia, mas eu não queria ter que desligar na cara de nenhum deles como eu tive que fazer com Thomas. Aliás, eu tinha que ligar também pra Thomas e me desculpar, e terminar de contar toda a história desse dia maluco.
Olhei para minha mala, ali jogada no chão. Eu devia também começar a me sentir “em casa” e desfazer a mala talvez? Quanto tempo será que ficaríamos naquele hotel? Será que eu e Greta sempre ficaríamos em hotéis como aqueles?
Dei uma olhadinha no banheiro e meus olhos quase lacrimejaram com a visão de uma grande banheira e vários potinhos de espuma de banho com o logotipo do hotel. Peguei um deles e realmente cheirava bem.
Eu me imaginava tomando um longo banho e pedindo um drink pelo serviço de quarto, brindando comigo mesma pelo novo emprego, ou pelo menos aproveitando o tempo que eu ainda tinha nele. Quero dizer, mesmo que eu não fosse a menina japonesa com o currículo recheado que eles esperavam, eu era boa. Sim, eu era! E como Thomas disse, eu podia aprender rápido e era muito esforçada.
Eu queria Thomas ali comigo.
Fiquei imaginando se Greta e eu seríamos um dia amigas como eu e Thomas. De sair juntas para jantar, conhecer o namorado dela, ter piadas internas e apoiar uma a outra a fazer coisas e crescer como pessoa. Eu até achava Greta simpática, mesmo com aquele jeito meio maluco e bipolar: quando estávamos sozinhas, ela era um poço de ideias que eu não conseguia acompanhar, quando Rick surgia ela era a assistente-modelo.
De qualquer maneira, tenho certeza que naquele momento, Greta ainda não era minha amiga, não do tipo de amiga que deixaria você tomar um longo banho de banheira sem contar pra ninguém, ou que deixaria você usar o serviço de quarto em segredo, colocando a nota secretamente na conta da empresa. Por isso me contentei em tomar um banho de chuveiro mesmo, sem drink nem glamour.
Para não dizer que não ia aproveitar nada, me enrolei em um daqueles roupões felpudos pendurados no cabide e deitei na cama macia que eu já chamava de minha.
Mandei uma mensagem pelo celular para meu pai dizendo que tudo estava bem e que ligava para ele mais tarde (ainda não tinha decidido se ia mesmo contar tudo para ele — sobre a confusão e a troca dos currículos, sobre Rick Ridículo e tudo mais).
Vi que havia algumas revistas sobre a escrivaninha do quarto. Elas estavam em uma língua que devia ser alemão ou holandês, e eram aquelas revistas adolescentes cheias de fotos. A foto dos garotos estava na capa de todas, entre outras fotos de artistas adolescentes que eu não tinha certeza se conhecia.
Folheei as páginas até chegar na reportagem sobre a banda. Como eu previa, eu só podia olhar as figuras, por que não entendia nada do que estava escrito. Mas lá estavam os meninos, naquelas fotos padrão de divulgação, em algumas fotos de shows e coisas do tipo.
Harry, Liam, Niall... decorar os nomes. As legendas estavam um pouco confusas. Eu precisava achar alguma revista com boas legendas e decorar o rosto dos meninos. Eu podia...
Parei ao ouvir a porta do quarto se abrir.
Olhei para frente esperando encontrar Greta ou Rick Ridículo, mas ao invés disso um deles estava ali, parado na minha frente.
Um dos garotos. Eu sabia que era um deles por que eu me lembrava do rosto dele, mas o nome... eu não fazia a mínima ideia. Ah, droga. Desesperadamente olhei pra revista que ainda estava aberta no meu colo, e de novo pra ele, mas eu não conseguia achar nenhuma legenda que me ajudasse.
E ele ainda parado no mesmo lugar, a poucos passos de mim, me olhando meio sem se mexer, assustado, como um cervo que acabou de avistar um leão. Percebi que eu também estava paralisada. Droga. Eu devia pensar em algo para falar, algo simpático. Me apresentar. “Anda, se levante e aperte a mão dele!” meu pensamento gritava, mas eu não conseguia.
Ele parecia estar pronto pra a fugir com qualquer movimento que eu fizesse.
–QUEMÉVOCÊ? – Ele finalmente conseguiu falar, e a voz saiu esganiçada, um pouco acima do tom, como a voz de alguém que acabou de escutar um barulho na cozinha, desceu as escadas e encontrou alguém esquisito segurando uma faca – Quem... Quem é você? –Ele tentou se recompor, e a voz saiu um pouco mais firme.
–Sou Anele, a nova assistente do Rick. – Consegui responder, me levantando e estendendo a mão, mas ele se afastou, olhando pra minha mão como se a faca estivesse ali.
–A Greta é assistente do Rick. Você não é a Greta.
Ah, muito inteligente.
–Eu sou a nova assistente... – Respondi, um pouco pausadamente. Por que ele não estava me entendendo? Rick não tinha avisado que tinha contratado uma nova assistente?
–Você-é-uma-fã-não-é? –Ele falou rápido, de novo de um jeito esganiçado, com as palavras se embolando. Então era por isso que ele estava daquele jeito? Ele estava com medo que eu fosse uma fã e que fosse pular sobre ele?
E agora? O que eu devia responder?
Se eu falasse que eu não era uma fã ele podia ficar chateado, afinal, eu devia gostar do trabalho dele se eu vou trabalhar para ele. Mas se eu falasse que eu era uma fã, ele podia sair correndo pela porta desesperado com medo de ser atacado.
–Ahn....–sim ou não? sim ou não? Eu tinha que escolher minha resposta – Sim?
E então, como eu previa, ele fez uma cara apavorada e saiu correndo pela porta. Parece que escolhi a resposta errada.
Notas finais
_Louis, é a Greta. Só fazendo a checagem noturna. Ok, até amanhã._ Colocou o telefone no gancho e o pegou de volta, discando outro número.
_O que é checagem noturna?_ Perguntei, sem conseguir controlar uma cara de quem vê uma comida estranha, não consegue identificar os ingredientes e acaba torcendo o nariz. Não parecia uma coisa muito legal.
_Tenho que ligar para os meninos para ver se eles estão nos quartos, prontos para dormir.
_Por que? Vocês não confiam neles?
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