Não sei como isso aconteceu e não quero saber. Tudo que me importa é que aqui estou eu, de novo em Hollywood, em um hotel muito melhor que o anterior e dessa vez estou usando saltos altos. Eles fazem meu pé doer e eu tropecei duas vezes no curto espaço entre descer do táxi e atravessar a calçada para a entrada do hotel, mas tudo bem.

Não consigo parar de pensar que fui contratada e isso me faz querer sair cantando e dançando pelo hall de entrada, mesmo com esses saltos desconfortáveis.

Achei que a entrevista tinha sido um fracasso, mas aparentemente consegui chamar a atenção do Sr Robson (agora acho que devo chamar ele assim, e não mais de Rick Robson ou “cosplay de Danny Devito”). Me sinto invencível, e um milhão de ideias para ser a melhor assistente que já existiu passam pela minha cabeça. Acho melhor o Sr Robson não chegar agora, por que posso abraça-lo e dar um beijo na sua careca de tanta felicidade.

Pra minha sorte, quem vem andando na minha direção é uma garota, o oposto de Rick Robson: baixinha como ele, mas muito, muito magra, com uma aparência um pouco doente. Quero dizer, ela é pálida, e muito loira. Os olhos dela são saltados, com um ar meio avoado, de uma cor turva. Eu espero que o trabalho dela não seja o motivo da aparência amalucada.

–Senhorita Pinheiro?

Me levanto e aperto a mão dela, controlando bem a força para não apertar demais e acabar quebrando algum osso. Ela parece tão frágil.

–Sou Greta, assistente do Rick. O Rick foi buscar os garotos no aeroporto, eles estão chegando da Europa. A turnê americana vai começar, por enquanto só estamos nos preparativos, mas tudo está uma loucura...

E lá está meu estômago dando voltas e voltas na montanha russa. Já fico imaginando eu, euzinha que dias atrás estava cuidando de canapés e do fato da cerveja que o noivo escolheu não ser a mesma que os fornecedores entregaram, agora estou conversando sobre turnês e shows.

–E então, você trabalhou mesmo para a Disney?

Olho pra ela sem saber do que ela está falando.

–Minha prima é doida pela Hanna Montana. O Rick me disse que você passou quatro meses com ela em turnê. Deve ter sido bem legal... Se bem que cá entre nós, eu ás vezes queria trabalhar com alguém mais adulto sabe? Esse mercado teen paga muito melhor, mas seria ótimo poder ir a umas festas mais malucas, relaxar um pouco mais...

Eu não consigo responder, por que não entendo sobre o que ela está falando. Ainda bem que, pelo visto, Greta não precisa de estímulos para manter uma conversa sozinha e continua falando sem parar.

–...não que eu não goste dos meninos, eles são uns doces. Mas eu estou doida por uma vaga com a Rihanna. Ou quem sabe uma vaga cuidando só de um evento, sabe? Tipo o Coachella, todas aquelas bandas indie. Não dá tanto dinheiro, mas as vezes o dinheiro não é tão importante, concorda?

–Ahn. Meu namorado gosta de bandas indie.

Que ótimo, voltei a ser mentirosa. Acho que é o ar de Hollywood que faz a gente mentir sem parar. Ou talvez seja o nervosismo. Thomas não é meu namorado, e nem sei por que falei isso, mas estou tentando me enturmar e processar tudo que essa garota está dizendo, e não é tão fácil quanto parece.

–Legal! Eu também tenho um namorado. A Caroline, que é a estilista da banda, também tem um namorado, e eles tem um bebê. Eu acho ela maluca por ter um bebê, e ela tem tipo, a minha idade. Eu tenho um monte de fotos dele aqui no meu celular. Quer ver uma? –Sem esperar minha resposta ela saca o celular do bolso de trás da calça e me mostra um bebê com uma caretinha, vestindo uma roupinha azul toda babada. –O nome dele é John. Os garotos adoram o John. Ele viaja com a gente ás vezes. Você já conhece os garotos?

Minha cabeça dá voltas e eu me sinto tonta. É muita coisa pra absorver e Greta fala comigo como se eu já tivesse muita experiência nisso tudo.

–Você está bem? Quer tomar uma água ou um suco?

–Eu... é só o calor de Hollywood. Não estou acostumada.

–Nem me fale. Os garotos também reclamam, afinal, na Inglaterra não faz esse calor. Só o Zayn que parece gostar. O Niall também não reclama. Na verdade é mais o Harry e o Louis, os dois são tão tipicamente britânicos que mesmo nesse calor pedem para eu arrumar chá para eles.

Eu tento sorrir, mas parece impossível.

–Então me conte, com quem mais você já trabalhou?

Nesse momento escutamos uma movimentação estranha. A porta do hotel se abre e dois homens de roupas pretas (o típico uniforme dos seguranças – terno preto completo. Com esse calor, fico com dó dos coitados que parecem estar derretendo mas mantêm a pose. Eu devia aprender com eles) entraram no lobby com um pouco mais de estardalhaço do que deviam.

Há uma certa movimentação, as pessoas e alguns poucos hospedes que estão no salão param de fazer o que estão fazendo e ficam assistindo aquilo, curiosas. Até que eu os vejo.

Os cinco andando em um pequeno grupo, protegidos por outros dois seguranças, atravessando o saguão do hotel. Eles não notam nossa presença, apenas passam direto pelo saguão em direção aos elevadores. Um dos seguranças já abriu a porta do elevador, e aguarda os cinco passarem e entrarem. Em seguida a porta se fecha e tudo volta ao normal.

Com esse pequeno choque inicial, nem percebo Rick, que entra depois dos garotos no saguão, olha pra nós duas ali paradas e começa a caminhar em nossa direção.

–Greta, você confirmou a van para essa tarde? Temos que estar no Canal 4 as cinco horas.

–Já confirmei com a van e com a produção do programa. –Greta agora parece assumir uma voz um pouco mais responsável, checando uma prancheta que ela segurou nas mãos o tempo todo. Nem parece aquela garota com diarreia verbal de cinco minutos atrás. Rick sequer olha para mim, então decido tomar o primeiro passo.

–Senhor Robson, quero dizer que estou muito feliz pela oportunidade e que vou dar meu melhor, o senhor pode contar comigo.

Ele me olha como se eu tivesse acabado de me materializar ali vestindo uma fantasia de ovelha.

–Ela é a assistente que você pediu para eu chamar – Greta se adianta. –Anele Pinheiro.

–Ela não é a assistente que eu pedi – Rick me olha com um olhar que conheço muito bem. É como as noivas costumam olhar para o buquê de flores errado. É um olhar que diz “Eu não pedi isso não, trate de trazer o que eu pedi ou vou gritar.”

–Mas você me disse para chamar a Pinheiro. –Greta mexe nos papéis da prancheta.

–Eu disse para você chamar a Pine. Pine Matsuna.

Greta continua mexendo nos papéis como se a resposta estivesse ali, escrita em algum lugar e eu estou pateticamente parada em silêncio, esperando aquele pesadelo acabar ou tentando pensar em algo para consertar toda aquela situação.

Nesse momento o celular dele começa a vibrar, e ele faz um sinal para nós duas nos calarmos (pra mim ele podia economizar energia, por que sinto que as palavras estão todas embrulhadas no fundo do meu estômago e nunca mais vão sair).

–Anele, acho que temos um problema – Greta olha para mim com um olhar não muito bom. Nada bom.

–Escute, temos que ir –Rick volta tão rápido que ainda não consegui nem pensar numa boa resposta para Greta – Temos uma semana lotada, e não vamos conseguir que a assistente que eu pedi esteja aqui antes do próximo domingo. E não podemos esperar todo esse tempo. Qual seu nome mesmo garota?

Que ótimo. Ele sequer lembra do meu nome.

Espero que ele também não se lembre do meu currículo.

–Anele. _ respondo.

–Anele, seguinte: você pode trabalhar com a gente por uma semana ou duas. Sem contrato, sem carteira assinada, sem benefícios. Só o salário base. – Ele fala como se estivesse fazendo um favor para mim, sem perguntar se aceito ou não. –Mas não ferre com nada, por que senão vamos ter que te mandar embora. Quem não ajuda também não atrapalha.

É nessa hora que uma pessoa de culhões falaria para aquele cosplay de Danny Devito enfiar o “salário base” onde bem entendesse e sairia rebolando pelo saguão, largando ele sozinho para correr atrás da porcaria de Pine que ele queria (e que pelo que Greta disse, é bem mais preparada que eu). Mas eu não. Como vingança, decido voltar a chamar ele de Rick. Rick Ridículo.

Então aprendo minha primeira lição do showbiz. Estou lá embaixo da cadeia alimentar do setor, por isso quem tem que enfiar o orgulho em algum lugar, engolir a seco, aceitar e dar o sorriso mais confiante sou eu. E é isso que eu faço.

–Vamos, não temos tempo. – Rick me olha por uma última vez, com uma cara de quem está repensando a decisão que tomou, mas então vira as costas e sai andando. Greta sai correndo atrás dele, e eu sigo ela em direção ao elevador.



Notas finais
No Próximo Capítulo:
Olhei para frente esperando encontrar Greta ou Rick Ridículo, mas ao invés disso um deles estava ali, parado na minha frente.
Um dos garotos. Eu sabia que era um deles por que eu me lembrava do rosto dele, mas o nome... eu não fazia a mínima ideia. Ah, droga. Desesperadamente olhei pra revista que ainda estava aberta no meu colo, e de novo pra ele, mas eu não conseguia achar nenhuma legenda que me ajudasse.
E ele ainda parado no mesmo lugar, a poucos passos de mim, me olhando meio sem se mexer, assustado, como um cervo que acabou de avistar um leão. Percebi que eu também estava paralisada. Droga. Eu devia pensar em algo para falar, algo simpático. Me apresentar. "Anda, se levante e aperte a mão dele!" meu pensamento gritava, mas eu não conseguia.
Ele parecia estar pronto pra a fugir com qualquer movimento que eu fizesse.
_QUEMÉVOCÊ?_ Ele finalmente conseguiu falar, e a voz saiu esganiçada, um pouco acima do tom, como a voz de alguém que acabou de escutar um barulho na cozinha, desceu as escadas e encontrou alguém esquisito segurando uma faca _ Quem... Quem é você?_ Ele tentou se recompor, e a voz saiu um pouco mais firme.