Sem Medos

1 Capítulo 1


É isso: eu, Nadine, sou uma medrosa. Mas não uma daquelas pessoas que têm medo de altura ou da escuridão. Ou aquelas que tem pavor a ratos ou a cafés... Ou até a homossexuais. Não! Quem me dera ser apenas uma preconceituosa ou fresca. Não, não, eu tenho medo de muito mais. Eu tenho medo da vida.

Não, eu não descobri isso assim que nasci. Na verdade, só reparei agora, em meus plenos 17 anos, no terceiro ano do Ensino Médio. Bem, tudo estava normal até o ano letivo começar. Quero dizer, eu havia passado minha vida inteira sem reparar que não estava, de fato, vivendo. Apenas no dia primeiro de fevereiro de 2013, eu descobri que havia muito além. E posso dizer a verdade? Venho fazendo tudo aquilo que não fiz até meus 17 anos. Ou, quem sabe, até mais?

Enfim, voltando ao começo da história, cá estou eu, vestindo meu suéter verde e meu par de jeans surrado. Meu cabelo negro está preso num coque e estou caminhando até o colégio. Claro que tenho uma garrafinha de álcool gel na bolsa e óculos escuros no rosto, mesmo sendo um dia frio e chuvoso. Eu te digo: medrosa. Continuando, lá estou eu, muito preocupada em alguém tossir em mim para perceber o burburinho que cresce conforme eu me aproximo do colégio. Só posso realmente notá-lo quando tropeço no pé de uma garota do segundo ano, que começa a berrar comigo. Afasto-me porque sei que aqueles berros contém alguma saliva. Deus, como as pessoas podem ser tão egoístas? Quero dizer, eu piso num Louboutin (algo que ela berrou, não faço a mínima ideia do que seja) e ela cospe em mim?

De repente, quando não consigo mais me desviar das gotículas de saliva, um homem muito belo se aproxima de nós. Ele envolve a garota em um abraço de urso e sorri para mim, pedindo desculpas. Mas, quando ele consegue acalmar a garota, ela me encara. Não de uma maneira raivosa, mas até gentil. Levanto uma sobrancelha quando ela agarra minhas mãos e as encosta em seus fartos seios. Ops, eu quis dizer coração.

–Perdão! É que esse Louboutin foi realmente muito caro. Eu nem tinha visto o quanto você é bonita. Desculpa mesmo. -a garota sorri para mim.

–Você pode nos desculpar, minha linda? -o homem ao seu lado sorri também.

Olho para a garota mais atentamente agora. Ela é baixinha, tem longos cabelos loiros e olhos castanhos. Tem uma pele bonita e bronzeada e rosto de modelo. O seu corpo é incrível, muito proporcional e atraente. O homem ao seu lado é muito atraente também. Sustenta-se em cerca de um metro e noventa, tem cabelos loiros e cacheados, barba por fazer e corpo malhado. Além disso, seu rosto é bem estruturado e tem traços lindíssimos. Rapidamente, fico em dúvida: por quê me elogiam tanto se obviamente não sou tão bonita quanto eles? Ok, aja bem, Nadine, finja que está na boa.

–Ah, é claro que desculpo. Obrigada pelos elogios. -abro um sorriso amarelo.

–Qual é o seu nome? -pergunta o moço.

–Ah... Eu sou Nadine. -falo rapidamente, preocupada com o horário.

–Que nome incrível! -ri a garota- Sou a Pamela, prazer. E este é o Conrado. -ela aponta para o homem.

–E aí, vamos puxar uma "coisa"? -pergunta Conrado, sorrindo de lado.

Fico com um ponto de interrogação na cara. Puxar uma coisa? Puxar o quê? É isso que os adolescentes fazem para diversão nesse século? Puxar coisas como caminhões ou escovas de dente? Ai meu Deus, estou surda? Olho pra eles com uma cara meio estranha, suponho, porque Pamela logo diz:

–É, um bhang, ali na boca de asfalto. Relaxa, é manga-rosa, sem grilo. -fala Pamela.

–Ah, sim. Claro! -falo, com vergonha de perguntar do que diabos eles falavam.

–Boa, Nad. Bora lá. -responde Conrado, animado.

Sinto minhas bochechas se tornarem vermelhas quando ele me chama de Nad. Deus, quem me chama de Nad? Ninguém! Talvez seja porque eu não tenha nenhum amigo no colégio e meus pais tenham viajado para a Escócia há cinco semanas sendo não faço ideia de quando voltarão. Ou talvez pelo fato dos ditos cujos nunca me avisarem quando vão ou para onde vão, deixando esse fardo para nossa vizinha, Angie. Portanto, eu praticamente moro sozinha numa casa semi-geminada com estilo meio medieval em Shrewsbury, na Inglaterra. É uma cidade muito pequena, com cerca de 70 mil habitantes e sua única atração é o fato de que Charles Darwin nasceu aqui. Dane-se Darwin! Se ao menos Kaya Scodelario ou Alex Pettyfer tivessem nascido aqui, os turistas poderiam conversar sobre Skins ou Magic Mike. Mas não, a maioria dos visitantes está na casa dos 50, em busca de novos fatos sobre ciência e genialidade de Darwin. Poupe-me.

Ok, voltando à minha aventura: sigo Conrado e Pamela através da densa névoa gelada, típica de setembro em Shrewsbury. Eles parecem tão animados para puxar algo, ou alguma coisa relacionada à manga, que finjo entusiasmo. Para falar a verdade, minhas pernas tremem tanto que temo desmaiar a qualquer momento.

–Ei, -chama Conrado- o que você tem, minha linda?

Reparo que andava entre ele e Pamela e me sinto como o cachorrinho do casal. Eu imploro por atenção, latindo, mas é claro que meus donos é que a recebiam. Afinal, quem olharia para um cachorro se, próximo a ele, havia dois seres humanos tão incrivelmente bem esculpidos?

–Certo, Nad, você está em silêncio há cinco minutos, não acha que deveria responder? –chama Conrado, me tirando do transe enquanto Pamela abafa risadas.

–Ah, ok... Hã. Não tenho nada, só estou pensando... Estamos muito longe do que vamos puxar?

–Não, é logo ali na esquina. –afirma Pamela- Querida, você já fez isso antes, não é?

–Ah, mas é claro! –zombo gesticulando- Puxo sempre que posso.

Ela sorri maliciosamente para mim e depois volta um olhar sensual para Conrado.

–Mas... E quanto a ménages, você gosta desse tipo de vibe?

Tenho vontade de gritar. Mas que droga de língua eles estão falando? Eu odeio essa merda de mundo onde as gírias se propagam tão rápido. Eu ainda estava me acostumando com “bacana” e “maneiro”. Enfim, afirmo positivamente com a cabeça e escuto eles rirem. Deus, do que eu estou falando?

Antes que eu pudesse começar a especular o significado das palavras, os dois param subitamente e entram em um beco escuro. Não consigo evitar pensar no que eles vão puxar num beco escuro, se não as próprias calças e, apesar do medo fazer meu cérebro derreter levemente, seguro o ar e, passo por passo, adentro no lugar escuro. Não sei exatamente porque eu fiz isso. Nunca havia matado aula, ou entrado em becos com desconhecidos, mas aquilo me parece tão certo. Meu coração bate a mil por hora, minhas mãos suam e minhas pernas, fraquejam. Mesmo assim, a escuridão me parece tentadora e excitante. O medo existe, é claro, mas eu posso sentir a parte mais sensível do meu corpo latejar, se entregando à minha falta de visão.

Por isso, caminho até o fim da escuridão e vejo um grupo de sombras. Consigo reconhecer Conrado por sua altura e, ao me agarrar nele, posso sentir seu sorriso em minha direção. Estou trêmula, mas sinto medo demais para perguntar algo. Rapidamente, uma sombra aponta uma luz para o meu rosto, cegando-me momentaneamente. Segue a iluminação pelo resto das sombras e posso observar rapidamente alguns: uma mulher de cerca de 40 anos, esguia e alta, um garoto de quase 15 anos robusto e com melancolia estampada no rosto e uma garota tão magra que era capaz de quebrar, por volta dos 22 anos. Finalmente, a sombra que segura à lanterna volta a luz à si e sorri maldosamente. É um homem corpulento, com barba demais para ser rosto pequeno e extremamente oleoso. Estende a mão e todas as sombras dão dinheiro, menos eu. Rapidamente, Conrado coloca algumas notas em minha mão e entrego-as ao homem. Legal, agora temos que pagar para puxar coisas! Se eu quisesse musculação, reorganizava os móveis em casa.

Para minha surpresa, o velho abaixa a manga de sua camisa e tira de lá cigarros com um formato diferente. Entrega um a cada um de nós, vira-se e sai do beco. Olho para Pamela e Conrado como quem pede ajuda, mas eles acabam de se tornar sombras novamente. Rapidamente, vários pontos de luz surgem em meio ao nada, queimando as pontas dos cigarros, e um cheiro forte inunda minhas narinas sem permissão. Evito tossir, mas tremo violentamente. Olho para o lado e posso ver Conrado já acendendo o seu. Sem mais nem menos, ele olha para mim, pega o cigarro de minha mão, coloca na minha boca e o acende para mim.

Eu sinto a seda tocando minha língua de forma macia, quente e suave, como um amante na primeira vez: excitante e delicioso. Logo, ela passa a acariciar meus olhos e minha cabeça sente-se leve. Ao mesmo tempo, fico elétrica e meu sexo passa a latejar mais insistente. Olho para a escuridão e a leve sombra do traço das pessoas a minha volta me excita mais. Penso no que eles veem ao olhar para mim. Pela primeira vez na vida, estou isenta de medo. Por isso, solto meus cabelos negros do coque e abro os três primeiros botões da camisa. Coloco a seda em minha boca novamente e dou uma profunda tragada. Minha visão melhora cerca de cem por cento. Consigo prestar atenção nos detalhes e ver traços perfeitos habitando a escuridão. Com a coragem tomada, aproximo-me de Pamela. Ela sorri de lado para mim.

–Ménage?

–Sem dúvida. –sorrio de volta e ela me beija.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.