Sem Escape
25 Capítulo 25
Notas iniciais
Sakura
A vida é cheia de surpresas.
Tanto boas quanto ruins. E acho que posso afirmar isso com propriedade depois de tudo o que eu passei, tudo o que vivi e testemunhei… bom, acho que pude tirar lições preciosas pra minha vida.
Sasuke chegou como um furacão em minha vida. Antes dele, minha vida fora mudada drasticamente com a morte de minha melhor amiga. Foi trágico, chocante… eu achei que tinha colocado minha vida nos eixos, que estava o caminho certo e que eu encontraria a paz! Mas eu não conseguia me livrar da culpa.
Eu corri por inúmeros caminhos tentado aliviar tanto peso que eu carregava. Eu era culpada, eu não fui atenciosa, não fui empática, não fui… uma amiga. Fui o pior tipo de ser humano e recebi o resultado disso naquele dia, quando vi minha melhor amiga pendurada pelo pescoço na árvore atrás de sua casa.
Eu procurei uma saída, eu procurei uma forma de fugir de tanta dor. Eu procurei uma forma de escapar.
E quem diria que o amor seria a minha válvula de escape? lembro muito bem do dia em que entrei naquele lugar horrível com Ino, do dia em que o vi, todo superior, socando a mandíbula de um cara e a encarando com um sorriso sinistro. Ele era um falastrão, um egocêntrico metido, um insolente marginalzinho…. um menino perdido.
Sasuke se agarrou a mim do jeito que me agarrei a ele. Precisávamos um do outro e quando me dei conta disso foi que me libertei de muita coisa. Eu não via salvação para mim, eu não merecia, não me achava digna de amar… mas ele estava ali.
Com ele aprendi a lutar, aprendi a levantar quando caísse e continuar lutando.
Ele virou meu herói. Meu menino machucado. Meu amor.
Nosso primeiro beijo foi constrangedor, nossa primeira vez também… nosso primeiro “Eu te amo”, bom… corríamos como loucos quando escutamos os tiros dentro do bar. Vimos as viaturas pararem em frente o lugar e Sasuke reconheceu a caminhonete do padrinho. Foi aí que corremos mais, nem sei o que Kakashi faria se o visse por ali. Na hora não sabíamos que era Orochimaru quem estava sendo preso por tráfico, achávamos que o circo tinha sido descoberto e que ruiria… Naruto voltou correndo atrás da Hina e nós continuamos correndo e rindo. Rindo de desespero na hora, mas depois rimos da sorte que tivemos.
Foi naquele banco, naquela noite fria que eu o cerquei e fiz ele dizer o que tinha dito ao Naruto.
– Irritante…
– Diga.
– Pra quê?
– Pra eu te certeza…
– Não vou dizer
– …
– …
– …
– Não faz essa cara, droga.
– …
– Veja bem, eu quero ficar com você… por bastante tempo. Tá bom assim?
– Você me ama?
– …
– Sasuke? Deixa de ser assim...
– Vai ter que se acostumar, sou assim e vou continuar sendo depois que se tornar minha mulher.
Kakashi nos encontrou quando voltava para a delegacia e ajudou Sasuke a me acordar depois que desmaiei.
Bom, logo Sasuke precisou de mim como nunca antes. O pior acontecera e seu Fugaku se fora. Mas eu estava ali e eu o confortei, o fiz sentir meu carinho, meu amor.
Depois daquilo tudo foi difícil, mas ficamos juntos, unidos por uma aliança que ele me deu sem qualquer romantismo depois de achar que tinha perdido. Naquela época, eram raros os momentos que tínhamos para rir. E eu amava tanto o sorriso dele.
De tempos em tempos eu conversava com Ino pelo computador. Ela estava feliz, lindíssima. Me perguntava sobre Gaara e Sai… até que somente Sai a fazia sentir saudades daqui.
Minha mãe teve que arrumar depois de estourar o cartão de meu pai. Não tenho muito contato com eles, desde que saí de casa, mas meu pai me mandou uma foto de minha mãe vestida de garçonete. Me senti feliz por ela, acho que conseguirá amadurecer e aprender certas lições da vida.
Tsunade… bom, escutei muito dela depois de Mei dar com a língua nos dentes sobre Sasuke e eu. Eu esqueci da chantagem e ela não perdoou. Porém, Sasuke mostrou a ela que não era o marginalzinho que ela pensara. Depois da morte do pai, ele voltou ao asilo e ajudou na jardinagem, deu aulas e alongamento e até dona Mikoto começou a acompanhá-lo.
Era lindo de se ver. Nem Tsunade poderia dizer o contrário.
A vida deles mudou e minha mudou junto. Eu era a tia Sakura, a esposa de Sasuke, a nora de Mikoto, a enfermeira do asilo, a amiga, a filha, a mãe.
Construímos nossas vidas para serem perfeitas. Traçamos rotas, pulamos obstáculos, batemos de frente, agarramos com força e depois deixamos ir.
Uma ordem que não precisa ser seguida assim, mas precisa ser vivida.
Conheci um tempo onde não haveria esperanças e encontrei uma luz no fim do túnel. Eu encontrei uma forma de escapar, sem deixar de lado o que é importante. Eu cresci, sofri, amei e fui amada.
Vejo os dois pilares da minha vida e sinto que valeu a pena. O mundo pode ruir, as coisas saírem do lugar, eu não estarei sozinha. Eu encontrei o meu escape.
***
Sasuke
O ringue era a minha balada.
As luvas eram minha amante.
Antes a fúria fazia morada constante em mim.
Mas como tudo na vida, foi uma fase e acabou.
Hoje fazem oito anos que o meu pai faleceu, e é engraçado pois eu sempre imaginei que quando esse dia chegasse, quando a hora de dizer adeus se concretizasse, eu iria esmurrar tudo e todos, ou que tomaria um porre daqueles e esqueceria o meu próprio nome. Mas, por mais incrível e surpreendente que possa parecer, nada disso aconteceu.
Naquele dia Itachi, Shisui, Kakashi e eu carregamos o caixão até o túmulo, eu sentei ao lado da minha mãe e ouvi paciente o sermão que o pastor da congregação local falava tão eloquentemente. Agradeci pela chuva que sutilmente mascarou as minhas lágrimas e pelo apoio suave de Sakura ao meu lado. Uma das palavras que o pastor usou foi: ”O tempo cura tudo”, eu tenho de concordar com ele, o tempo cura, mas só faz aumentar a saudade.
Aos poucos tudo foi tomando seu curso, com o fim do circo cada um foi para o seu lado, a ideia de separação só se fez real na área profissional, pois o laço que nos une ia além do circo. Como em um filme clichê os namorados, noivaram e por fim casaram, e como a ordem natural da vida, temos de multiplicar.
Itachi foi o mais rápido, meus sobrinhos Akemi e Kanji são a mistura dos dois, os cabelos negros do Itachi e os olhos da Konan. O preguiçoso do Shikamaru nos apresentou seu herdeiro um ano depois, seguidos de Chouji,Sai, Naruto e eu.
Me dá nos nervos imaginar que daqui a uns dias minha garotinha vem ao mundo, eu sou inverso de todo pai, enquanto a maioria dos homens estaria ansioso, eu estou com medo de não ser um bom pai, de pisar na bola e de futuramente ir pra cadeia quando a Sarada entrar em épocas de namoro e adolescência.
Eu tenho tentado me manter o mais longe de Sakura, o final da gestação tem deixado ela maluca.Eu tento agradar e até ouvi os conselhos de Itachi, antes de voltar da academia eu sempre passo na mercearia e compro chocolates pra acalmar a rosada.Confesso que tenho feito algumas horas extras pra me livrar dos ataques de fúria, mas enfim houve uma hora onde eu não pude mais escapar.
Lembro do telefonema de Ino, dos berros de Sakura falando que eu me apressasse, do sorriso besta do Naruto dizendo que aquela era a hora… E de Itachi me levando pela mão como um garotinho assustado para a maternidade.
Eu lembro da dor na minha mão esquerda, e do orgulho de ver que a minha mulher era forte a ponto de quase quebrar meus dedos, sua ânsia por dar a luz e terminar de uma vez com a dor, eu sou um lutador e lutadores estão acostumados à dor, a dor é minha constante companheira, mas naquele momento, vendo um pequenino pedaço de gente, chorar e anunciar aos quatro cantos sua vinda. No instante em que eu pairo meus olhos sobre os seus e vejo os meus traços misturados aos da Sakura e em um instante tudo se dissipa.
A Sakura acabou com o meu desespero, matou em doses fortes de amor toda a minha fúria, mas a dor continuava lá, não por incompetência da Sakura, ou algo do tipo, mas pelo fato de estar perdendo um pedaço de mim junto com o meu pai. Hoje eu ganhei outro pedaço, que não substitui a falta dele, mas me faz um homem mais completo.
Eu beijo a testa suada de Sakura e a vejo chorar de alegria com nossa menina nos braços, e eu sinto toda a adrenalina sumir aos poucos, seguido do amortecimento da paz.
Hoje eu sou dono da academia de boxe Fugaku Uchiha, os negócios vão bem e eu faço o que gosto. Tenho uma mulher que me ama, uma filha que só me dá orgulhos, sobrinhos que me fazem rir e amigos que posso chamar de família.
Aos tropeços eu descobri que a vida as vezes nos coloca contra a parede, realmente não há escape. Mas não importa quantas vezes eu caia com a cara na lona, não importa o quão derrotado eu me sinta. Ao fim da “luta” eu terei a Sakura pra me apoiar, eu terei a Sarada como motivo pra levantar e continuar a lutar.
Eu posso não ter controle das minhas quedas, e dar de cara na parede no meu caminhar. Eu posso entrar na decadência do lutador e começar uma maré de derrotas, mas ainda assim, eu vou me sentir o dono do cinturão!
– Hei papai, vamos nos atrasar… — Sarada grita do andar de baixo,em seus sete anos tentando mandar em mim. — Tenho treino com a Temari, ela disse que vai me ensinar a socar mais forte, um dia eu vou tirar sangue do nariz do Boruto, você vai ver.
Eu aceno procurando as chaves do carro e ao descer encontro Sakura de quatro, no chão procurando alguma coisa.
– Algum problema?
– Meu brinco, não consigo achar… caiu no tapete.
Eu contorno a mesa de centro e tiro a pequena perola do meio de seus cabelos, ela sorri encantada e coloca o brinco no lugar.
– Indo pra academia?
– Yeah, eu queria ficar mais um pouco, mas a sua filha está ansiosa pra ter aulas, algo sobre bater no filho do Naruto até sangrar.
Sakura franze a testa preocupada e morde o dedo pensativa.
– Sabe Sasuke, eu acho que a Sarada gosta do Boruto… Eles são rivais, isso é bem óbvio, mas você lembra daquela vez que um garoto socou ele, a Sarada foi a primeira a enfrentar o garoto.
– Pelo amor de Deus Sakura, deixe de besteiras.
O som da buzina impaciente de Sarada interrompe nossa conversa, dou um beijo em seus lábios e corro de encontro a porta, a porta já está aberta e eu lembro de algo que tenho a falar.
– A propósito...eu estava pensando.
– O que?
– Acho que está na hora da gente casar,no papel… com vestido, bolo e buquê de rosas vermelhas.
Sakura riu de mim, colocando seu jaleco e caçando as chaves do seu próprio veículo.
– Depois de todos esses anos, só agora você me pede em casamento? — As mãos na cintura e a sobrancelha arqueada em ceticismo. — Você é uma vergonha pra raça dos homens, um cachorro sem vergonha…Safado.
– E um cara lindo que te faz ir ao céu na cama.
– Exibido…
– Charmoso!
Concluo meu pedido de casamento com sucesso e entro no carro, dirigindo tranquilamente pelas ruas de Konoha.
– Hei Sarada, pedi sua mãe em casamento, teremos uma festa e você vai levar as alianças.
– Ai pai, que coisa brega.. eu não quero usar um vestido cheio de babados. Eu prefiro passar o dia todo treinando.
Concordo satisfeito, percebendo que a minha filha se iguala a mim em sua aparência e personalidade, para o horror de Sakura.
– Sarada…
– Sim pai.
– Não cresça nunca, ok?!
– OK!
Eu ligo o rádio e canto os versos de um rock piegas, sinto o sol esquentar as ruas e um sorriso torto se faz presente no meu rosto.
Com uma vida como essa, quem iria querer escapar?
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