Notas iniciais
Bom, tem uns devaneios aí... leiam vocês mesmos...

- Kat?

Ela despertou sem saber o que esperar. Aquela voz... sabia de quem era, mas também sabia que aquilo era impossível. A voz grave e levemente rouca, quase sussurrada, bem próxima. Ainda estava com os olhos fechados, tinha medo de descobrir o que realmente estava acontecendo.

- Kat? Ainda está dormindo? Não quer me ver?

Obedecendo aos seus impulsos, abriu os olhos e quem encontrou foi a única pessoa da qual nunca imaginou que pudesse estar ali.

- Tommy?

- Eu mesmo. – ele riu. – Mas, qual a razão do susto? Por acaso esperava outra pessoa?

Ia responder, mas Tommy não deixou. Aproximou-se e sentou ao seu lado, ficando a sua altura. Pôde vê-lo melhor: os traços fortes, os cabelos lisos e negros, os olhos levemente puxados dos índios. Sentiu quando a mão dele tocou-lhe suavemente a face, os dedos deslizando por sua pele com cuidado.

- Eu só quis fazer uma surpresa. Tem tanto tempo que a gente não se vê. Estava morrendo de saudades.

Aproximou seu rosto do dela, encostou seus lábios no de Kat tentando um beijo. Foi bastante lento no início, mas seguro. Tommy sabia com quem estava lidando. Aos poucos o beijo foi se tornando mais intenso, mais proveitoso, quase urgente. A mão dele tocando sua nuca, a mostra por causa do rabo de cavalo em que seu cabelo estava preso, fazendo com que a pele se arrepiasse. Simples contato com o ar ou pura excitação?

Não interessava. Kat não quis saber, afinal milhares de outras perguntas passavam por sua cabeça e pareciam ser bem mais urgentes.

- Tommy... – chegou a parar para chamá-lo, afinal queria respostas. Tudo aquilo era estranho demais para ser ignorado.

Mas o beijo continuou. Ele não iria deixá-la falar. Tornou-se intenso demais para ser interrompido. Uma sensação fria e gostosa correndo pela espinha sem o menor pudor de ser e acontecer. Tudo em Tommy, a postura, as mãos, os lábios... tudo aquilo a impelia a esquecer suas perguntas e a necessidade de respostas que sabia serem meramente burocráticas. Elas não serviriam para nada a não ser para estragar tudo. Seus instintos foram mais fortes que a razão. Sentiu os dedos dele procurando a pele escondida pelo tecido fino de sua roupa de dormir, o corpo dele se insinuando sobre o seu. Ele baixou a alça fina de sua camisola e Kat teve uma sensação gostosa quando ele a tocou.

- Eu quero você, Kathy. – ouviu-o sussurrar em seu ouvido. – Eu te amo...

Seriam palavras mágicas? Era verdade?

- Kat, Kat... acorda!

- Hã? O quê? Tommy?

- Tommy?! Você bebeu?! – a voz indicou estranheza. – É a Jenny!

Descrente daquilo, Kat esfregou os olhos querendo comprovar a realidade. Comprovou e não gostou nada do que viu: em vez do rosto bem traçado de Tommy, a cara de espanto e sonolência da amiga.

- Ah, sim. – confirmou, parecendo muito vaga.

- Impressão minha ou senti um leve tom de decepção na sua voz? Mas claro, na certa você estava sonhando com o seu ex namorado bonitão, aí eu venho e te arranco dos braços dele. Que missão ingrata...

- Eu não estava sonhando com ele.

- Pela cara de decepção, um pesadelo é que não foi. Acho que devia ser algo bem mais empolgante, se é que me entende.

- Não, não entendo. Sinceramente? Prefiro fingir que não entendi.

- Certo, como quiser. Se prefere enganar a si mesma...

- Não enche o saco, Jenny. – levantou-se, com uma expressão mal humorada.

Foi assim que Kat começou o seu dia. Com mau humor e má vontade. De frente ao espelho, tocou seus lábios tentando descobrir se o sonho transcendera. Obviamente era um sonho apenas, mas tinha a impressão de que o hálito de Tommy ficara em seus lábios. Bobagem? Não sabia, mas podia jurar que acontecera.

Rapidamente estava pronta para encarar a sua rotina. Arrumou-se para parecer com todas as outras garotas, porque no fim aquele sempre fora o objetivo: o mesmo coque, as mesmas roupas, os mesmos passos. Mas certamente nenhuma delas possuía um último beijo do homem que amava preso em seus lábios. Um gesto tão furtivo, mas que mesmo em sonho guardava o seu gosto e as doces sensações que vieram depois.

- Kat, o que houve?

Jenny e Kat estavam sentadas no refeitório, almoçando. Jenny olhava fascinada para o prato de Kat: uma porção substancial de algo diferente de salada, além de um bom pedaço de frango.

- Que foi, Jenn? Como assim “o que houve”?

- É que... – não soube como explicar. – Você está comendo!!

- Claro que sim. Estou com fome. O dia está sendo puxado hoje e se eu não comer vou acabar caindo dura.

- Ave Maria, milagres acontecem! Agora que eu acabo de presenciar mais um dentre tantos outros serei obrigada a entrar em um convento para uma vida de contemplação.

- Nenhum convento no mundo te aceitaria, sua tonta. Qual o milagre em estar com fome?

- Não estou falando só da sua fome repentina. É que hoje você está com todo o gás, dançando como se fosse movida a pilhas. – explicou. – Agora, quanto a me aceitarem ou não em um convento pelo menos eu tenho mais chances que você.

- E por que acha isso? – levou a boca mais uma garfada, não parecendo muito interessada naquela conversa, não esperando mais que uma piadinha qualquer.

- Porque não sou eu que ando tendo sonhos quentes com meu o ex namorado.

Bastou isso para que Kat engasgasse. Começou a tossir, levando as mãos à boca para não colocar a comida para fora. Jenny apressadamente deu-lhe uma garrafa de suco, que a amiga pegou rapidamente. Ainda demorou um pouco para que ela se recuperasse, e assim que foi possível respirou fundo, com o rosto vermelho e olhos arregalados.

- Você está melhor? – Jenny perguntou, não fazendo grande esforço para conter o riso, e deixando que este explodisse quando viu-a recuperando o fôlego.

- Olha aqui, não achei graça nenhuma nisso, tá bom? – protestou, com a voz rouca e aborrecida.

- Se visse a sua cara agora provavelmente também estaria rindo. – seu esforço agora era para não dar gargalhadas. – Aliás, eu não sei o porque de tudo isso. Só tô dizendo a verdade.

- Que verdade?

- O sonho quente com o amor da sua vida.

- Mas... que sonho quente, sua louca?

- Bom, quando eu fui te acordar, você me chamou de “Tommy”. Acordou com um humor inacreditável, uma disposição de dar inveja e com essa fome toda. – estava enumerando eus argumentos — E pior! Sua reação quando falei nisso te entregou! Nem adianta esconder que tá na cara. Aliás, você não deveria ter vergonha. É perfeitamente normal ter esse tipo de sonho, ainda mais com um cara bonitão que nem ele.

- Eu já disse que não tive esse tipo de sonho.

- Poderia até acreditar nisso, mas não depois de ter visto a sua cara de irritação quando viu que era eu. Imagino mesmo que estivesse tudo muito bem... se é que me entende.

- Eu estava sonhando com ele sim, mas não isso que está pensando. – cedeu um pouco, percebendo pouco depois que tinha cometido um erro.

- Ah...já entendi a razão de ter ficado tão irritada. Não deu tempo, eu interrompi justamente quando a coisa estava ficando boa. Agora saquei. Desculpa por ter te tirado bem no meio do melhor da festa. – completou a frase com um sorrisinho malicioso.

- Você tem uma imaginação podre, Jenny Hunter. Esses romancezinhos água com açúcar não estão te fazendo bem. A vida não é um romance desses.

- Sei disso, Kat. – deixou-se encostar-se na cadeira, numa posição entediada, mas com ares de sabedoria. – Eu tenho alguma experiência amorosa, você sabe. Um ou outro mais complicado, mais apaixonado. Sei que a natureza de um relacionamento não é tão simplória quanto a desses meu romancezinhos açucarados, mas quem disse que precisamos sempre da realidade? Um pouco de fantasia faz bem, especialmente as desse tipo que você teve. E não adianta me falar que não teve, porque eu sei que está mentindo.

Kat revirou os olhos, impaciente, sabendo que não tinha saída. Quando Jenny começava uma dissertação sobre qualquer tema sabia que ela se tornava incansável e imbatível. Então deixou-a falar, exercitando sua falha capacidade de abstração enquanto pensava em como seria se os ponteiros do relógio se movessem mais depressa.

- E então? Não vai falar nada?

- E por acaso vai adiantar alguma coisa? Prefiro não perder o meu tempo. Ainda vai dizer que todos os grandes romances da literatura universal são apenas “água com açúcar” que tiveram mais sorte e ficaram famosos, e blá blá blá...

- Por acaso sou tão óbvia assim? – ergueu uma sobrancelha ao perguntar.

- É o tipo de argumento que a minha mãe usa.

- Hum! Ela é das minhas, tô começando a gostar disso. Talvez eu deva bater um papinho com sua mãe um dia desses. – ela riu. – Ué, não vai terminar de comer?

- Perdi a fome. – respondeu, malcriada. – Agora vamos. Tá quase na hora da aula.

Levantaram e deixaram o refeitório.

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Quando finalmente veio a noite, Kat não soube como agir. Jenny a observava de soslaio, preparando-se para uma nova piada. Por mais que negasse, Kat sabia que não adiantava manter segredo porque sua companheira de quarto era observadora e perspicaz o bastante, e de qualquer forma sabia que não era uma boa atriz. De qualquer modo preferiu manter o teatro por não querer que sua vida e seus pensamentos fossem completamente devassados. Já era difícil bastante estar ali, então precisava de algo que pudesse ter em segredo, algo particular e apenas seu.

Foi assim que veio o sono: em meio a pensamentos sobre segredos, vida particular, privacidade e sensações sobre o sonho com Tommy que variavam desde o medo até a vontade que acontecesse de novo.

Notas finais
Reviews? Alguma?