Sem Ensaios para a Vida

4 Lembranças e Desabafos


Notas iniciais
Talvez esse seja o início de uma luz no fim do túnel para Kat...

Tomara que alguém goste...

Alojamentos. Noite

Não conseguia dormir. As dores no estômago e a insônia tornaram-se companheiras cada vez mais freqüentes. Suas noites pareciam ser cada vez mais longas, e não podia fazer muito para mudar isso.

Sentiu uma vontade tremenda de pegar o telefone e voltar para casa... desistir daquilo. Uma vontade recorrente nos últimos tempos. Algumas vezes, inconscientemente entrava em uma cabine telefônica ou pegara o celular para isso, mas nunca conseguiu ir adiante. Vigiava-se, controlava-se para impedir que acontecesse. Não queria ser uma desistente, ou uma covarde, mas o fato era que o arrependimento começava a surgir. Embora já lidasse com esse tipo de sentimento há algum tempo, já estava ficando difícil de suportar.

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Manhã seguinte – fim de semana – dia livre.

Kat acordou cedo, bem antes de Jenny. Na verdade mal conseguira dormir, pois os incômodos de sempre vieram de maneira mais forte, e somadas as péssimas lembranças dos últimos dias fizeram do sono uma tarefa impossível. Sentia-se sufocada.

Decidiu que precisava sair um pouco. Vestiu-se silenciosamente para não acordar a amiga. Precisava ficar sozinha.

Saiu. Já estava na rua, afastando-se dos domínios da academia a passos rápidos. “Quanto mais longe melhor.”, pensava, numa ansiedade sem tamanho.

Uma calça jeans comum, uma blusa branca lisa e um casaco de moleton cinza. Cores que mal podiam lhe distinguir em uma multidão. Rosto limpo, olheiras e cabelos aparentemente sem vida, presos em um rabo de cavalo. Nada de vaidade... há tempos não pensava nisso: era apenas o balé, calorias, cansaço, workshop... estava vivendo em função disso desde que pisara naquele lugar pela primeira vez. Não havia espaço para mais nada nem mesmo nos dias de folga.

“Estou cansada”, disse para si mesma, numa reflexão que mais pareceu uma derrota anunciada. Nunca tinha admitido isso sequer para si mesma até aquele momento. Faltava-lhe ânimo mas lutava para não demonstrar. Só que agora, sozinha, não havia a quem enganar.

“Talvez isso não seja pra mim”, admitiu. Stress, ofensas, suor, cansaço, competição... naquele mundo precisava ser forte para suportar as mais diversas situações e obstáculos, mas não estava conseguindo. Não conseguia mais ser.

“—Puxa, Kat... como você é forte!” – disse-lhe Tanya ao saber de seu começo de sua história como ranger.

“—Queria ter a sua coragem” – disse Kimberly ao vê-la enfrentar um medo antigo.

“—Meu Deus, Kat! Você é louca? Eu poderia ter te matado!” – afirmara Tommy após vê-la arriscar-se tentando salvar sua vida.

Desafiara Rita e Lord Zedd sem ajuda.

Enfrentara o medo da piscina, saltando após um acidente só para ajudar outra pessoa.

Arriscou-se para salvar seu namorado de uma lavagem cerebral, estando na mira de uma arma, sem morfar e completamente desprotegida.

Lutou e venceu tantos monstros... por que agora não tinha forças para dançar?

Quando se deu conta, já estava dentro de uma cabine telefônica, no meio de uma ligação internacional, já ouvindo a voz da mãe.

-- Oi, meu amor... que saudade! Há quanto tempo!

-- É, tem tempo mesmo... – respondeu, tentando saber como chegara a aquela situação e querendo descobrir como sair dela. – E aí? Como vocês estão?

-- Por aqui tudo bem. Seu pai está trabalhando... sua irmã está numa excursão da escola... e eu estava aqui aqui fazendo um trabalhinho extra.

-- Ah, mãe... estou atrapalhando? Desculpa, eu nem me dei conta do horário...

-- Não, não... não está me atrapalhando. Nada que não possa esperar. – riu – Mas me fala de você? Como está?

-- Ah... tudo na mesma. – hesitou – Tudo normal.

-- Sua voz está diferente... aconteceu alguma coisa?

Aquela era a velha armadilha de sua mãe. Atenta aos mínimos detalhes, era capaz de saber apenas pela voz se algo estava acontecendo.

-- Só estou um pouco cansada. Não é nada de mais.

-- Não parece. Está triste com alguém? Chateada?

Tampou o fone com a mão, suspirando antes de responder, ou pensar em responder algo. Era melhor admitir pelo menos uma parte. Sua mãe não se contentava com qualquer desculpa, seria pior se tentasse esconder.

-- Um pouco.

-- O que houve?

-- Estou desanimada. As coisas não estão acontecendo como deveriam.

-- E como deveria estar acontecendo?

-- Sei lá... – abaixou a cabeça e olhou para o chão, hesitando, pensando no que seria certo dizer – Eu deveria estar fazendo progressos, dançando direito... estou sob muita pressão.

-- Não está feliz. – ouviu-a dizer. Não era uma pergunta e sim um diagnóstico. Talvez o mais fácil que já fizera, pois acabou dando todos os sinais.

-- Não estou no meu melhor momento. – respondeu, torcendo para que aquilo fosse o suficiente.

-- Katherine, querida... você não é obrigada a ficar em um lugar que te deixa infeliz. Sabe que pode voltar pra casa a qualquer hora. Nós não alugamos o seu quarto e nem transformamos em escritório... está tudo do jeito que você deixou.

Kat riu. Uma concessão a leveza passou-lhe despercebida.

-- Eu sei.

-- Espero que saiba mesmo. Pensa nisso... você tem outras possibilidades. Balé não é tudo na vida, e nem precisa ser.

“Assim como os saltos”, pensou lembrando de que neste caso ao menos tivera bons motivos para desistir. O acidente, o bloqueio psicológico e o medo irracional de saltar novamente... a superação e a descoberta de outras coisas a fazer...

Só que agora não podia. Não havia um bom motivo. Nada que justificasse sua desistência.

-- Sei sim, mãe. Obrigada, não vou me esquecer. – fez uma pausa. – Agora preciso ir.

-- Tudo bem, filha. Qualquer coisa sabe que pode me ligar. Te amo.

-- Também te amo. Tchau.

Pôs o fone de volta no gancho. Sentia-se mais leve, mas ainda profundamente perturbada. Sua mãe estava certa: o balé podia não ser tudo... assim como os saltos ornamentais não foram. Paixões podiam não ser para a vida toda. Não morrera por não saltar mais... e agora a dança não estava mais a fazendo feliz. Será que morreria por deixar de dançar? Será que se arrependeria se fosse embora?

Batidas no vidro. Um homem queria usar o telefone. O movimento na rua começara.

-- Desculpe.

Saiu da cabine, deixando o telefone livre para o homem que a interrompera. Não sabia pra onde iria e nem o que fazer. Sabia apenas que precisava pensar, e muito. E que seu estômago continuava ardendo.

Olhou para o relógio. Ainda era cedo... talvez Jenny ainda nem tivesse dado por sua falta.

“Pés ruins... corpo errado... falta de técnica...” pensou na lista de defeitos que jogavam em sua dança. “Isso só se resolve de uma forma.”

Seus pés a levaram de volta para a academia, mas não para os alojamentos. Antes de ir para a rua, simplesmente pegara sua bolsa por instinto. Não teria aulas, então até querer voltar não teria qualquer utilidade. Então, resolveu ir até um dos salões, que na maior parte do tempo ficavam vazios nos dias de folga. Exceção de um ou outro perfeccionista ou desesperado. Agora era um deles.

Ao chegar em um dos salões, sentiu-se intimidada: era um ambiente tão grande, tão claro e tão frio que era como se estivesse sendo engolida, ou como se suas energias fossem sugadas. Deixou sua bolsa perto da porta e sentou-se para colocar as sapatilhas e trocar a calça. Foi até as barras e fez um alongamento e alguns exercícios para preparar os músculos. Após esse alongamento foi para o centro do salão: seu treinamento seria com a coreografia de Dechamps, justamente aquela que errara.

Iniciou a coreografia. Não haveria o som do piano, apenas sua própria contagem mental. Olhava para o grande espelho, tentando saber se estava fazendo direito, se os movimentos estavam certos.

Uma, duas vezes. Passos errados. Repetiu-os várias vezes, errando-os várias vezes também. Repetia-os mais, tentando acertar... mas não parecia estar dando certo.

“Mais uma vez”

“Outra vez...”

“De novo...”

“Vamos, vamos! De novo!”

Não conseguia acertar. Seu estômago ardia, os pés doíam. Nada facilitava, nada parecia confortável.

“Só mais uma vez” pensou, enquanto as lágrimas rolaram. Poucas e em silêncio. Poderia ser apenas suor se não fossem seus olhos, levemente vermelhos.

Iniciou os passos. Prometeu para si mesma que seria a última. Estava novamente olhando para o espelho e foi quando viu através dele um vulto que assustou-a. Rapidamente reagiu de acordo com os reflexos dos velhos tempos como ranger: virou-se para a porta, completamente alerta, faltando pouco colocar-se em posição de luta. Mas o que viu não eram bonecos de massa, cogs ou piranhatrons... e sim um rapaz alto, de corpo esguio, pele clara e cabelos escuros.