Tempo depois...

Quando abriu os olhos viu-se em um lugar muito claro. Foi acordada ao ouvir o seu nome em uma voz masculina.

-- Kat?

Virou a cabeça para ver quem era e viu Gabriel sentado ao seu lado, com uma expressão de susto, mas ao mesmo tempo de alívio.

-- Gabriel? – percebendo que estava deitada, levantou o corpo para vê-lo melhor e também o lugar onde estava. – O que houve?

-- Shhh... fica deitada que é melhor... – empurrou-a delicadamente para que deitasse novamente. – Você desmaiou... pressão baixa. Foi por isso que te colocaram no soro. – indicou-lhe com a cabeça o frasco que gotejava lentamente o líquido em sua veia. – Vai precisar de paciência porque ainda falta muito.

-- Droga... – esfregou os olhos como se estivesse sonolenta. – Perdi a aula da Dechamps.

-- Não esquenta, faltou por um bom motivo. A Jenny vai explicar tudo pra ela. A Dechamps não vai questionar.

-- Espero que esteja certo... – fez uma pausa – Quem me trouxe pra cá?

-- Eu, ora...

-- Você?

-- Por quê? Não acredita? – perguntou, bem humorado suficiente para fazê-lo rir.

-- Não, nada disso... – ria mansamente sem deixar claro se era de seu estado de espírito pu fragilidade de momento. – Mas, você está aqui há quanto tempo?

-- Todo o tempo. Quase vinte minutos.

-- Ah, não... Gabriel! Está perdendo aula por minha causa...! – sua voz começou a oscilar para o arrependimento – Se você for agora ainda dá tempo.

-- E te deixar aqui? Nem pensar!

-- Não tenho problemas em ficar sozinha.

-- Sei que não, mas sei que se eu virar as costas você é capaz de tirar o soro do pedestal e sair correndo...

-- Ih, duvido... por mais que seja a minha vontade acho que estou fraca demais para isso – riu – Mas pode ir tranqüilo. Não tem que ficar aqui.

-- Prefiro te fazer companhia... se é que me permite. Vou te incomodar fazendo isso?

-- Nem um pouco.

Ficaram lá bastante tempo. Minutos que ambos preferiram não contar. Conversaram assuntos leves e até mesmo banais. Riram. Gabriel estava preocupado em fazê-la se distrair, esquecer que estava em um lugar tão deprimente.

Assim que terminou, foi liberada para voltar ao alojamento, com recomendações de repouso pelo resto do dia, boas noites de sono e refeições melhores. Gabriel fez questão de levá-la da enfermaria até o seu quarto, bastante atento aos percalços do caminho, pronto para ampará-la caso fosse necessário. E como ainda era cedo para o fim das aulas hesitava em deixá-la sozinha até Jenny voltar. Mas, sem saber o que ela poderia querer, levou-a até lá.

-- Missão cumprida? – ela perguntou.

-- Pelo menos por hora.

-- Alguma missão a mais?

-- Vai depender da rebeldia da paciente.

-- Estou meio fraca para ter esses ímpetos de rebeldia.

-- É, mas assim que melhorar um pouquinho vai esquecer tudo o que o médico falou.

-- Talvez... – deu de ombros, rindo suavemente. – Não vou negar.

Ele olhou para os olhos dela e preocupado com seu estado acabou assumindo um tom de voz quase paternal.

-- Você precisa descansar, Kat. Não vai conseguir dançar desse jeito.

-- Dançar? – perguntou, como se aquilo fosse um absurdo – Estou tentando deixar de ser um peso morto... pra ter algum resultado eu tenho que fazer o dobro... o triplo do que vocês fazem.

-- Como assim? Do que está falando?

Novamente estavam perto de tocar naquele assunto. Kat não queria falar: seu dia já estava sendo complicado demais para que piorasse ainda mais. E também não queria ficar abrindo sua vida pessoal desse modo. Seria como ficar nua.

-- Não sei se quero falar sobre isso... pessoal demais.

-- Pessoal ou mais, é um assunto que está te fazendo mal.

-- Mesmo assim, prefiro deixar isso quieto. – disse, parecendo hesitar. – Você se importa?

Gabriel observou-a: palidez, desânimo... olhos que mais pareciam apagados. Estava frágil e insegura, tentando se defender. Talvez fosse um assunto tão sério a ponto de sentir vergonha, e por mais que quisesse insistir a preocupação com seu estado foi mais forte. Preferiu ficar quieto, evitando que uma nova crise fosse desencadeada.

-- Sem problemas.— respondeu-lhe, desejando ter dito exatamente o contrário.

Ela abaixou a cabeça parecendo envergonhada. Atento aos pequenos sinais, sabia que era apenas uma reação emocional e não sintomas de uma nova crise.

-- Bom, acho que já perdeu muito tempo comigo hoje. – ergueu o rosto, olhando para ele.

-- Não mesmo. – disse, emendando rapidamente com uma outra frase. – Vai ficar bem sozinha? Ainda falta muito para a Jennifer chegar.

-- Não pretendo fazer nada pra me deixar pior. Ninguém vai precisar arrombar a porta pra me socorrer. – desviou os olhos por um breve instante, ouvindo-o rir calmamente, fazendo com que sua sensação de culpa diminuísse.— Não precisa se preocupar, vou ficar bem.

-- Espero que fique mesmo. – abriu a bolsa e tirou dela uma sacola de papel. – Toma.

-- O que é isso?

-- Um sanduíche. Achei que ia ficar enjoada demais pra comer naquela hora... e que talvez ainda esteja, mas... – pareceu pensar um pouco no que iria dizer – Mas não custa nada garantir, e você precisa comer.

Estendeu a mão segurando a sacola, que não demorou a ser aceita.

-- Uau... da Delay´s? – era o nome da lanchonete onde ele a tinha levado quando se conheceram.

-- Bem... -- coçou a cabeça – Você precisa de alguma coisa com sal... acho que nada daquele refeitório se enquadra nessa categoria.

-- Puxa... – ela parecia surpresa -- Você tem sido muito gentil comigo, Gabriel. Obrigada.

-- Não foi nada. – respondeu-lhe. – Agora tem que descansar... então já vou indo. – afastou-se dela poucos passos, sem dar-lhe as costas. – Tchau.

-- Tchau.

Viu-o vira-se e sair pelo corredor a passos não tão rápidos, proeza admitida devido ao horário. Se fosse uma hora mais tarde talvez sequer tivessem conseguido trocar mais que duas palavras.

Assim que Gabriel desapareceu de sua vista, entrou no quarto e fechou a porta. Olhou ao seu redor como se estivesse reconhecendo o ambiente, que pareceu mudar com a garantia da privacidade.

Colocou a sacola do sanduíche sobre a escrivanhia e dirigiu-se ao banheiro. Sentindo-se cansada e enjoada, resolveu tomar uma ducha fria. Talvez servisse para aliviar a sensação de torpor que havia se apoderado de seu corpo.

Tirou suas roupas e abriu o chuveiro. De início sentiu o corpo retesando e a pele arrepiar com o contato daquela água gelada, mas não demorou a relaxar. Gemeu de dor enquanto a água tocava seus pés feridos, mas permaneceu ali.

“Nem sempre o que cura é indolor,” pensou, firme enquanto punha o xampu nas mãos e começava a esfregar os cabelos.

Jenny chegou cerca de uma hora depois, com expressão afogueada. Encontrou a amiga sentada em sua parte do beliche, em meio ao que mais parecia ser uma penumbra.

-- Oi, Jen. – foi Kat quem tomou a iniciativa da conversa, sabendo que estava sendo analisada, e quebrando o clima de constrangimento que isso poderia causar.

-- Oi, Kat. Como está?

-- Estou bem.

-- Mesmo? – insistiu.

Kat sabia o que ela queria dizer, então levantou-se da cama para que pudesse ser vista melhor: roupas leves, cabelos soltos e molhados justificando o suave aroma de camomila pelo quarto, e pés descalços.

-- Mesmo. – confirmou.

Jenny pôs sua bolsa na parte de cima do beliche, tirando dela uma pequena embalagem.

-- Eu trouxe isso aqui pra você. Aposto que não comeu nada.

Kat riu, apontando para a escrivanhia onde estava a sacola de papel, intocada.

-- De onde veio isso?

-- Gabriel... ele achou que eu estaria enjoada demais pra comer, então...

-- ... achou melhor garantir. – Jenny emendou.

-- É – meneou a cabeça, confirmando.

-- O Sobiesky ficou realmente preocupado... precisava ter visto a cara dele quando você desmaiou. Ele te colocou nos braços e tomou todas as iniciativas. Parecia até um daqueles príncipes encantados que só aparecem na hora certa! – riu, fazendo um gracejo só para provocá-la.

-- E ficou comigo durante todo o tempo. – seu tom parecia ser de culpa, ignorando a piadinha de Jenny – Acabou perdendo aula por minha causa.

-- Até em lanche ele pensou... bem que você me disse que era um verdadeiro cavalheiro... aliás, por que ainda não comeu? Tá com uma cara tão boa...

-- Estou enjoada.

-- Isso é fome... soro não é um alimento muito substancial, a não ser que esse enjôo seja outra coisa que ainda não estou sabendo... – insinuou, cantarolando.

-- Pára com isso, Jen. Sua mente está fértil demais.

-- Sei lá, ué? As horas de folga e os fins de semana servem pra muita coisa. – riu – De qualquer modo vai se sentir melhor depois de comer, e caso quiser guardar esse aí de lembrança – referiu-se ao sanduíche de Gabriel – ainda pode comer o que eu trouxe. Se bem que o dele ta com uma cara muito melhor.

Riram. Jenny entregou a embalagem para Kat, que ria enquanto desembrulhava o lanche.

-- Jen... acho que vou precisar de ajuda...

-- Ah, nem vem...! Eu já comi quando fui comprar esse muquirana aqui. Aliás, você deveria comer os dois.

-- Os dois? Você ta louca? Nem sei se consigo comer a metade!

-- Deixa de drama, Kat. Eu não sou o cara educado e galante que o Sobiesky é, então desencanta!

Deu uma mordida, meio que sem vontade no sanduíche enquanto tapava a boca, esforçando-se para não rir e engasgar.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

-- Onde você pensa de vai, Kat? – Jenny perguntou ao vê-la de pé logo cedo.

-- Pra aula, ora... pra onde mais eu poderia ir?

-- Você passou mal ontem.

-- Ontem foi ontem. É passado.

-- Só estou querendo evitar que vire futuro. – advertiu, num tom calmo.

-- Não posso perder mais aulas, principalmente da Dechamps. – disse, séria, virando-se para a amiga após terminar de pôr o último grampo no cabelo. – Eu não iria fazer isso se não soubesse que poderia agüentar.

Por mais que tivesse suas dúvidas, Jenny não conseguiu convencê-la a ficar no quarto e descansar. Sabia que a principal razão da teimosia era Dechamps, que ficara muda diante da notícia da crise de Kat. E sabia que não poderia impedi-la.

No salão, sua presença causou estranheza, mas nada que fosse explícito. Da parte de Dechamps, um olhar frio já habitual. Kat procurou não se importar: estava ali para algo semelhante ao cumprimento de um dever.

-- Srta Hillard, tem certeza de que conseguirá participar da aula sem protagonizar nenhuma cena de desmaio? – perguntou-lhe, pouco antes de começarem, quando todas as meninas prestavam atenção, esperando instruções iniciais.

Kat teve raiva ao ouvir o tom mesquinho e superior daquela pergunta. Teve ódio do ar de superioridade emanada de qualquer palavra ou suspiro de Yelena Dechamps. Mas, reunindo toda a sua educação e polidez, deu-lhe uma resposta positiva.

-- Ótimo – disse, impassível. – Vamos começar. – deu-lhe as costas, afastando-se altiva em direção ao pianista, assumindo uma postura nitidamente superior, permitida por sua autoridade de professora.

Noite.

Voltaram aos alojamentos. Kat estava sentada, massageando os pés. O dia tinha sido mais pesado que o de costume. Sentia-se mais cansada que o de costume.

-- Eu disse que era melhor ter ficado aqui. – disse Jenny, preocupada – Mas você é teimosa... seria bem melhor se tivesse tido um dia de folga.

Durante a aula, Kat não se sentira mal. Sua dificuldade foi sentir que estava com o corpo pesado e reações mais lentas. Não sentiu tonturas e nem esteve perto de um novo desmaio.

-- Eu não podia faltar a essa aula, Jenny.

-- Mas eu te disse que ela não falou nada! Foram recomendações médicas! Isso está acima dela!

-- É, mas ela adora me perseguir. Não quero dar nenhum motivo a mais do que já tem.

Jenny suspirou, como quem está conformada. Kat podia ser muito teimosa a despeito de sua fragilidade aparente de boneca. Questioná-la não iria adiantar em nada. Sabia reconhecer uma derrota.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Manhã seguinte. Classe de pas de deux.

-- Olá, meninas. – cumprimentou Gabriel ao vê-las entrando no salão. Ambas responderam e logo depois Jenny se afastou para falar com seu parceiro, deixando-os a sós. – Como você está?

-- Estou bem.

Gabriel observou-a tentando fazer com que isso não ficasse tão aparente. Ainda estava pálida, mas sua aparência já era bem melhor. Os olhos não pareciam mais tão apagados, mas a razão disso já era uma outra história e da qual não saberia nem tão cedo.

-- Obrigada por ter feito tudo aquilo por mim. Foi muito legal comigo.

-- Não foi nada. – respondeu rápido, envergonhado e emendando com outra pergunta. – Você comeu o sanduíche?

-- É, comi. – perguntou, rindo – Demorei um pouco mas comi. Era maior do que pensei.

-- Como tudo na Delay´s... foi por isso que escolhi.

-- E, como o seu professor reagiu por ter perdido aula?

-- Expliquei o que houve... ele não se importou. Concordou quando eu disse que foi por um bom motivo.

Ia completar a frase, mas o som da voz de Ethan Kulik interrompeu-os, livrando-o de um provável constrangimento de frases mal ditas.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Alguns dias se passaram até Kat sentir-se como antes. Três dias com Jenny desligando os despertadores fizeram com que a amiga pudesse dormir noites completas. Estava preocupada com ela, com a melancolia que vinha acompanhando-a há tempos. Estava preocupada com a possibilidade daquilo virar depressão. Kat estava longe de casa e da família, e praticamente sozinha em um ambiente hostil... e não queria deixá-la. Ela tinha ajudado tanto quando precisou...! Não podia deixá-la.

Fim de semana era o seu dia de sair um pouco. Dia de liberdade e diversão permitida. Dia de telefonar para casa e se abastecer de informação. Estava na banca de jornais quando sentiu alguém lhe cutucar o ombro.

-- O quê? Já ia perguntando, irritada mas engoliu as palavras malcriadas ao perceber de quem se tratava: Gabriel.

-- Incomodo?

-- Não, não... eu estava distraída.

-- Sozinha?

-- A Kat não veio comigo, se é o que quer saber.

-- Estava tão na cara assim? – perguntou, coçando a cabeça.

-- Pequenos sinais. – mexeu um pouco nos livrinhos que estavam em exposição. – O que quer me perguntar?

-- Puxa... você vai direto ao assunto.

-- Gosto de ser pratica... e então? Quer saber da Kat, não é?

Ele não disse nada, simplesmente concordou, meneando a cabeça, parecendo envergonhado.

-- O que quer saber?

-- Ahnn... queria saber como ela está. Desde que a conheci até agora a resposta é sempre a mesma.

-- Ih, liga não... não é só com você. Comigo também... eu percebo porque a conheço melhor... – fez uma pausa – Você está bastante preocupado com Kat.

Aquilo soou a Gabriel como um diagnóstico. Atrevido, mas não precipitado. Há dias que vinha pensando naquela garota de rosto angelical e altiva. Seus melhores instintos, até mesmo aqueles que julgava intocados, como o de proteção, pareciam aflorar quando estava perto dela.

-- Ela tem descansado?

-- Taí uma coisa difícil... mas tem feito sim, mesmo que seja contra a vontade: eu desligo o despertador. – disse, com sorriso malicioso. – Ela fica zangada mas é o único jeito. Vivo dizendo que precisa sair, espairecer... só que ela não me ouve, acredita?

-- E... passou mal de novo?

-- Não que eu tenha percebido. Demorou alguns dias para ela ficar bem mesmo... mas já está legal. Não têm reclamado de dores no estômago.

Bastou ouvir aquilo para que tivesse a vívida lembrança de Kat se dobrando de dor. Vívida e incômoda.

A voz de Jenny cortou-lhe os pensamentos.

-- Aquele lanche foi muito criativo de sua parte.

-- Obrigado.

Jenny pegou um daqueles livrinhos e uma revista, levando-os para o caixa. Depois de pagar saíram juntos.

-- Mas, e aí, Sobiesky? Por que tanto interesse? Você a conheceu há tão pouco tempo...

Sentiu-se testado, nervoso. Era uma pergunta arriscada e sua resposta foi a mais rápida que pôde pensar.

-- Ela é uma garota legal... estamos ficando amigos e eu queria poder fazer alguma coisa pra ajudar. Ela parece não estar muito bem.

A sensação de análise veio ainda mais forte. Gabriel começara a se sentir dissecado pelo olhar daquela garota. Odiava sentir-se assim mas esforçou-se para não demonstrar.

-- Você é um cara legal, Sobiesky... se quer ajudar a Kat seja amigo dela. Ela precisa mesmo de amigos.

-- Eu quero mesmo ser.

-- Aposto que ela já te considera. – disse, conciliadora. – Tchau.

Jenny deixou-o ali, indo embora. Gabriel desfrutou de uma pequena, mas significativa sensação de triunfo.

Quando Jenny voltou a academia, encontrou Kat no alojamento praticamente do jeito como a deixara.

-- Oi, Kat.

Ela não respondeu.

-- Oi, Kat – tentou de novo, sem sucesso, então aproximou-se e cutucou-a, obtendo assim uma resposta imediata. – Oi, Kat.

O tom foi um pouco malcriado mas com humor. Viu-a tirar os fones do ouvido e colocar o discman de lado.

-- Oi, Jen. Desculpa, eu tava distraída... “taí” há muito tempo?

-- Não, acabei de chegar.

-- Você demorou.

-- A rua tava boa... não tive como ignorar. – colocou a sacola sobre a escrivanhia.

-- Mais um?! Quero ver onde vai colocar tanto livrinho. – riu, ao vê-la tirar mais um de seus romances – Qualquer dia vai nós ou eles nesse quarto.

-- Ah, se soubesse quantos desses tem lá em casa... – gracejou – O que está ouvindo?

Kat passou o fone para Jenny. Bastaram alguns segundos para saber do que se tratava.

-- O quê? Eu me recuso... – devolveu o fone para ela – Música clássica até no fim de semana?

-- Não é música clássica, Jen. É só música.

-- É, mas é música que a gente ouve o tempo todo, dança o dia todo... – fez como se estivesse enumerando – Você deve ser doente!

Kat não disse nada. Simplesmente pôs os fones de volta no ouvido e voltou a sua leitura.

-- E o livro, qual é?

Mostrou-lhe a capa, vendo Jenny fazer uma careta: era um livro sobre balé. Mais um dentre os vários que tinha.

-- Você deveria ler alguma outra coisa.

-- E o que sugere? – tirou um os fones para ouvi-la melhor.

-- Sei lá... qualquer outra coisa diferente de balé ou dança. Qualquer coisa que possa te distrair. Aliás, desde que chegou aqui, nunca fez nada que não tivesse nada a ver com balé.

-- Bem...

-- Pensar no teu ex não conta, viu?

Kat não ligou. Simplesmente deu de ombros. Já estava acostumada às implicâncias de sua amiga... e não havia nada que pudesse impedi-la. Há dias que sua crise ficara para trás, então o jeito era aturar sem preocupações, voltando a sua música, seus livros e suas anotações enquanto Jenny observava-a de soslaio, lembrando do encontro que tivera na rua e suspeitando que o abatimento de Kat não iria mais durar muito.

Notas finais
Pleaseee... reviews... senão não vou saber o que estão achando da fic.