Sem Direção
20 As fichas
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Era uma salinha, com vários monitores, uma mesa, uma cadeira e um enorme tapete no chão cobrindo todo o chão do cômodo. Esperei todos entrarem e tranquei a entrada em seguida.
– Uau... Que coisa sinistra! – exclamou Ben.
– Gente, o que faremos agora? – perguntou Jessie. — Nada se encaixa, tudo isso é loucura.
Me desviei dos questionamentos e impressões que cada um começou a fazer, dediquei exclusivamente minha atenção aos monitores presentes naquele lugar. Eram filmagens da cidade que tínhamos escapado momentos antes, supostamente não eram gravações. Cada tela mostrava partes do centro, das ruas e da vida naquele interior sombrio.
– Peter, dá uma olhada nisso. – disse Beatrice me chamando.
Encima da mesa havia uma papelada incontável com dezenas de informações, as últimas folhas traziam fotos de adolescentes, seus nomes, endereço e contatos pessoais.
– Vejam, é o Ben! – falou Jessie assustada.
No papel dizia os seguintes termos:
Ben Harpor.
13 anos.
Estudante.
Reside com os pais.
Imunidade incerta.
– O que tudo isso quer dizer? E que imunidade é essa? – interrogou Daniel desconfiado.
– Não sabemos nada cara – respondi ele. – estamos todos no mesmo barco, lembra?
Daniel me fitou, seu nariz parecia um pouco torto, e sua boca ainda permanecia inchada depois da nossa briga.
– Peter... Achei sua ficha.
Caminhei para perto de Beatrice, que carregava em mãos algumas das informações que eu precisava para descobrir quem eu era.
Peter Atkins.
16 anos.
Estudante.
Reside com os pais.
Imunidade aprovada.
– Toda essa droga não faz sentido – esbravejou Ben. – por que sua imunidade é diferente da minha?
– Talvez por que ele seja imune à doença. – respondeu Jessie.
– Que doença? Você está falando daquelas pessoas... – disse Daniel, não completando a frase.
– Não se faça de desentendido. Tentem achar suas fichas.
Após a solicitação de Jessie, ajudei Beatrice. Cada um mexia na papelada exposta encima da mesa e no chão, o cheiro de mofo daquela sala me fez espirrar três vezes consecutivas, particularmente o ambiente não era limpo fazia algum tempo. Revirei uma pasta que continha fichas de adolescentes que eu nunca tinha visto na vida, e achei a foto de Sarah, seu cabelo estava curto e o ruivo ainda predominava exuberância.
– Não ouse ler qualquer coisa dela. – Beatrice colocou sua mão no meu pulso, puxou a ficha e amassou.
– Gente, olha eu aqui.
Fizemos uma roda em volta de Jessie e ela leu em bom tom:
Jessie Harpor.
12 anos.
Estudante.
Reside com os pais.
Imunidade incerta.
Seu sobrenome era o mesmo de Ben, uma dúvida cruel atingiu a todos. Provavelmente faziam parte da mesma família, podiam ser irmãos, primos ou qualquer outro grau de parentesco.
– Eu... Não sei o que dizer. – disse Jessie aflita, se mostrava emocionada. Ben lançou um olhar fixo para ela.
– Somos irmãos? Quem é você? – seu tom de voz demonstrou desprezo.
– Não venha me culpar, não sabemos quem somos, e se eu sou sua irmã você deveria estar feliz. – replicou bravamente.
– Não chegue perto de mim. Quero apenas distância.
Fiquei pasmo com a reação de ambos, o que deveria ser um momento de inclusão familiar se tornou uma mágoa interna. Observei Jessie, que sentou num canto envolvendo seus braços entre os joelhos.
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