PARTE 1

1

Acordei com minha cabeça latejando, meu rosto deitado em uma calçada fria e suja, minhas pernas estavam dormentes, meu cotovelo com um arranhão e tudo o que eu lembrava era apenas o meu nome, Peter. Levantei-me com muita dor em todo o corpo, nunca me sentira assim, tentei pensar sobre a noite passada ou sobre algo que pelo menos fizesse sentido, mas nada se encaixava, nenhuma lembrança corria pela minha mente. Manquei um pouco, mas precisava me localizar, saber onde estava e procurar por ajuda, o ambiente era bagunçado, latas de lixo no chão, pichações, muros altos, grosseiramente altos. Andando mais adiante cheguei á uma esquina no qual pude ver o outro lado, era uma mini cidade, redonda, um circulo perfeitamente fechado com muros metálicos.
Comecei a ficar assustado, não conseguia achar uma saída, havia carros pelas ruas, mas não havia pessoas, queria gritar por socorro, fazer contato com alguém, mas tudo o que eu via eram prédios, carros e o muro. Entrei em um beco, subi uma escada que levava ao topo de uma construção, lá do alto pude ver toda a cidade, era estupidamente pequena, não tinha árvores — somente um tipo de vegetação selvagem pela calçada — animais, pedestres ou vida. O sol estava forte, conclui que provavelmente era meio dia, no canto do olho percebi um movimento ágil, me virei rapidamente, mas deveria ser apenas um pássaro, estar sozinho realmente não era bom, parei pra pensar se meus pais sabiam do meu desaparecimento. Meus pais. Como eles eram? Eu tinha um pai e uma mãe? Minha memória estava pregando uma peça pra cima de mim, refleti se tudo o que eu estava vivendo no momento era apenas um sonho. Fiquei observando cada detalhe, olhando as enormes paredes para tentar achar uma solução, até que vi uma menina, baixinha, gordinha, correndo pela rua, ela colocou suas mãos nos joelhos, se curvou para pegar um pouco de ar e enquanto isso desci bruscamente as escadas para alcançá-la. Gritei por socorro e acenei as mãos, ela virou a cabeça e veio em minha direção, me abraçou forte e começou a chorar. Não tive reação, apenas encobri meus braços em volta do seu corpo suado e assustado, ela respirava freneticamente, minha voz saiu rouca:
– Calma, vai ficar tudo bem – nem mesmo eu sabia se tudo iria ficar bem, mas eu precisava deixar ela mais relaxada – estou aqui agora, temos um ao outro.
Ela levantou o rosto e disse:
– Eu acabei de fugir de um monstro, me escondi dentro de uma loja, fiquei com tanto medo – pausou para soluçar – eu não sei por que estou aqui, quero sair desse lugar.
– Espera aí, você se lembra de alguma coisa antes de vir pra cá? – comecei a ficar nervoso com a situação.
– Nada, absolutamente nada – olhou distante, talvez remoendo a mente para puxar algum fio do passado – meu nome é Jessie.
– Eu sou Peter – reparei que ela era mais nova do que pensei, pelo tamanho eu daria uns treze anos de idade, não perguntei e nem mencionei sobre o assunto, aquele não era o momento – vamos tentar escapar, achar uma solução.
– Tudo bem, mas não podemos ir para o centro, está infestado de coisas horríveis, parecia uma doença, não sei explicar. – Jessie andou para o outro lado da calçada e sentou-se na sombra.
– Como assim? Sobre o que você está falando?
– Eu não sei, juro que não sei, foi tudo muito rápido.
Me sentei ao lado dela.
– Estou confusa.
– Tente se acalmar, me sinto assim também, perdido, sem destino, sem rumo, mas precisamos guardar forças pro que vier, eu acho que fomos traficados ou algo do tipo. Me dê sua mão.
Ela segurou meu pescoço com firmeza.
– Juntos, certo?
– Isso, juntos. – Jessie deu um sorriso, ela era linda, uma criança especialmente linda.
Andamos vagarosamente, mantendo a atenção redobrada a cada curva, estávamos desprotegidos, mas eu tinha a obrigação de protegê-la e buscar um abrigo pelo menos. Achamos uma casa com as janelas quebradas, a porta estava aberta, entramos e procuramos por comida, na geladeira havia algumas frutas, frios e pedaços de carne crua, uma jarra de suco e ovos na lateral. Jessie comentou:
– Estou faminta. Eu sei que sou gorda, feia, chorona, fraca, mas preciso sobreviver comendo alguma coisinha.
– Você não é nada disso! – nunca vi uma garota tão negativa, se desvalorizava por completo.
Ela revirou os olhos ignorando meu comentário, pegou uma maçã e deu uma grande mordida. Abri as gavetas e os armários, achei talheres e alguns biscoitos, comecei a comer junto a ela na mesa. Percebi novamente aquele vulto ágil, veloz pelo canto do olho, corri para a janela e tudo o que eu vi foi apenas o asfalto sujo e um carro branco em frente da casa, embaixo do automóvel consegui ver duas pernas. Fiquei curioso e fui de encontro com a pessoa escondida, era um garoto, cabelo escuro, liso, pele branca. Começou a falar:
– Me desculpe, eu não queria incomodar. – nunca tive tanta pena de um ser humano quanto aquele moleque, ele exibia frustração e desordem no olhar.
– Está tudo bem cara, fico feliz em saber que há mais alguém vivendo aqui nesse fim de mundo comigo, vamos entrar.
Entrou desajeitado, envergonhado, e sentou no sofá.
– Meu nome é Ben, também fico feliz em encontrar pessoas por aqui. Eu já tinha lhe visto quando você subiu naquela construção, me escondi, pois pensei que você faria algum mal ou me machucasse.
– Agora algo faz sentido nesse lugar, aqueles movimentos estranhos era você – ri de uma maneira tosca, sem saber direito o porquê – lembra-se de mais alguma coisa sem ser seu nome?
– Não. Fiquei martelando isso desde o momento que cheguei. Não consigo me concentrar ou recordar de absolutamente nada.
Jessie chegou na sala e seu rosto enrubesceu, percebi uma diferença no seu jeito mas não ousei comentar. Ela começou a conversar com Ben, puxando assunto e explicando o que tinha vivido até então, falou do que vira lá fora, deixando-o assustado. Ela demonstrava uma inteligência anormal, ambos discutiam sobre hipóteses dos acontecimentos que jamais passariam pela minha cabeça, se orgulhava de conduzir e fluir o assunto, de expressar os sentimentos, as ideias, Jessie era realmente especial.