Sem Direção

14 Correr ou correr


14

Ela puxou a espada e deu três batidas no vidro sem muita força, Daniel abriu os olhos e tomou um susto dos grandes, não tive reação de rir , mas a cena foi meramente impagável. Na esquina da rua vinha Jessie mancando, caiu no chão sem demonstrar vitalidade, Sarah virou o pescoço meticulosamente e observou a garota gordinha sofrendo no asfalto.
— Abra a porta, Peter. – disse ela com um semblante assustador.
Beatrice pareceu desorientada quando percebeu o que estava acontecendo ali, pôs a mão na nuca reclamando um pouco de dor e logo abriu um sorriso para mim. Se aquela fosse a forma de me agradecer por doar meu ombro para ela dormir, foi um gesto simples e confortante.
— Peter, abra essa droga. – repetiu ela mais uma vez.
Suzan arregalou os olhos e me lançou um ar negativo, eu já tinha notado que o pedido era inaceitável, Sarah estava diferente, mais cruel do que o normal. Foquei em Jessie logo em frente, ela tinha conseguido se erguer e caminhar mais alguns passos, mas parou por algum motivo.
— Eu vou contar até três para vocês abrirem essa maldita porta. – anunciou Sarah bravamente.
Jessie gritou sem medo:
— Saiam daí! Ela está infectada! Corram!
Daniel virou rapidamente e me olhou preocupado, eu sabia exatamente o que fazer.
— Suzan, você vai abrir a porta e correr o máximo que puder, leve Jessie para dentro da casa. Se aquele desgraçado ainda estiver vivo dê um jeito de matá-lo pra valer dessa vez. Não tenha medo, esgarce aquele doente. Beatrice, você sairá comigo, iremos dar a volta na quadra e também entraremos na casa.
— E quanto a mim? – não deixei Daniel terminei de questionar e logo falei.
— Você vai calar essa boca e escutar o que eu tenho pra dizer. Sarah precisa ser distraída, e quem é a pessoa que mais sabe irritar e provocar os outros por aqui? Isso mesmo, você.
— O que isso quer dizer? Que eu vou ter que ficar esperando dentro do carro? – no final ele gargalhou.
— Com toda a certeza. Faça o seu melhor, não deixe que ela escape. – respondi fortemente, deixando clara a importância do ato.
Sarah cutucou o vidro mais uma vez e seus olhos ardiam em chamas, estavam vermelhos, porém eu não conseguia ver qualquer mordida pelo seu corpo. Suzan respirou fundo, Jessie se posicionou na calçada encostada na parede, parecendo perceber que tínhamos um plano.
A porta foi aberta logo em seguida, Suzan correu velozmente, olhei para Beatrice e tentei não passar medo ou amedrontá-la, e então ela me beijou. Foi tão intenso e perturbador que meu coração disparou sem controle, fixei meu olhar nela mas no fundo sabia que o que estávamos fazendo era errado, aquela não era a situação certa. Sai do carro juntamente com ela em disparada para a rua de trás, minha última sacada foi Daniel paralisado com as mãos encima do volante, sem algum movimento.
Não tive muita sorte, havia pessoas jogadas no chão e tampas de esgotos fora do lugar, pude ver as cabeças deles saindo lá de dentro e espiando nossa corrida. Me apressei, Beatrice me acompanhava, seus olhos azuis ficavam mais lindos na escuridão da noite e seu perfume se espalhava pelo ar. Alguns tentavam nos pegar, mas não tinham braços, apresentavam somente o tronco e as pernas, gemiam, falavam de um jeito sem compreensão, tentei não perder o foco neles e sim no objetivo atual, chegar na casa.
Finalmente viramos a rua, o muro ao lado tinha pichações esquisitas e o medo estava num ápice absurdo dentro de mim. Abri a porta e me deparei com Suzan e Jessie desesperadas com algo, notei que o homem que nos atacara não estava mais no canto da sala, o que supostamente não era esse o motivo da preocupação de ambas.
— Peter nos ajude! Ben está morrendo, pegue panos, água morna e alguma fruta! – disse Jessie, mancando com o pé torto e procurando os pedidos exigidos.