Sem Destinatário
1 一 Carta Para um Inimigo
Notas iniciais
Desde a primeira vez que te vi, eu soube de uma coisa e, depois dos primeiros dias que passamos juntos, eu tive certeza: Eu te odiava.
Não era um ódio como uma simples birra de criança. Eu queria ver você ser abandonado por todos, queria que estivesse triste; a ponto de querer encerrar a própria vida. Não sabia por quê. Pensar nisso fazia eu me sentir estranho, mal, muito mal; meu estômago doía e eu queria vomitar.
É claro que você não podia saber disso, tampouco eu poderia dizer; mamãe certamente me daria um sopapo. Mas essa vontade nunca deixou de me passar pela cabeça: te dar uma surra e dizer como você era uma podre e desgraçada criança. Praguejar tudo o que viesse à cabeça. Como será que você reagiria? Choraria? Ficaria bravo, ou.. Talvez, quem sabe, sorriria. Porque no fundo você sabe que isso seria a pior forma de me atingir. Então eu só aproveitava as brechas que me sobravam do dia pra te maltratar. Nada tão grave quanto eu gostaria: Um empurrão acidental, um pé para você tropeçar ou uma gafe na hora do lanche.
Mamãe sempre dizia pra ser bonzinho com você, porque você não entendia como eu me sentia. E, ainda por cima, óh! Pobre criança! Você ficaria magoado! — Mas o que seria isso se não um desejo realizado?! — Além do mais, quem era ela pra dizer como eu me sentia? E eu, quem sou pra fazê-lo também?
Não era meu parente, sequer era meu amigo. Mesmo assim vivia enfurnado na minha casa como se não tivesse outra. Fazia questão de tentar parecer feliz e legal, fingir que se importava. E eu, claro, correspondia: Estava sempre ótimo, feliz com a vida e a sua presença; brincando com as minhas coisas e roubando a pouca atenção que eu tinha dos meus pais. Fazendo questão de pagar de bom moço e me levar à escola como se eu fosse uma criança retardada. Mamãe achava um máximo: Eu tinha feito um amigo gentil e leal. E que eu planejava sutilmente esganar e judiar sempre que aparecia na minha frente.
E, de novo, era natal. Outro natal. Como se já não bastassem os outros quatro em que você e a escória que você chama de família tinham vindo passar na minha casa. Na minha casa. Pela primeira vez eu levara minha primeira namorada para passar as festas conosco e você fez questão de estragar tudo. De novo. Como se não bastasse insultá-la, você fez questão de derramar sorvete na roupa dela. Parabéns! Mais uma vez, você conseguiu. Houve um lado bom, no entanto. Pela primeira vez em muito tempo eu me senti leve. Disse tudo o que estava engasgado nos últimos meses esperando que você revidasse e dissesse também o quanto me praguejava pelas costas. Mas, como sempre, você achou a melhor rota para me torturar. Não disse nada, e, pela primeira vez, você saiu da minha casa antes de todo mundo.
"Vitória!" Foi o que eu pensei. Estava mais feliz que qualquer coisa: Finalmente tirei aquele fungo da minha casa! Uma pena que pouco depois eu também não pude aproveitar a festa, só nós três estávamos presentes quando eu briguei com ele, mas algo do buffet me fez mal. E, então, mais uma festa perdida. Pena que, pela primeira vez, eu não tenha podido culpar você por isso. Aliás, só por isso; ela terminou comigo pouco depois. Com certeza graças ao showzinho que presenciou no natal.
E você, a pobre criança, tão bonzinho, não é mesmo? "Passou três dias trancado no quarto." Como o mestre no fingimento que você era, um perfeito canalha.
Mais uma vez, no Reveillon, você estava de volta para se vingar. Como o monstro que você era, conseguiu virar todos contra mim. Como se a culpa de tudo tivesse sido minha. Não me deixava em paz um segundo sequer, perguntando a cada cinco minutos como eu estava, como quem queria jogar na minha cara o quanto você conseguia ser melhor que eu em manipular e destruir tudo. Quando eu e ela voltamos e sofri um acidente de carro, eu queria acordar e ver todos na minha frente, qualquer pessoa, qualquer animal ou besta, qualquer um, menos você. E logo quem estava lá.
Quis te matar de todas as formas, torci para que você estivesse no meu lugar naquela cama e com a perna quebrada. Gritei para que você saísse da minha frente e nunca mais aparecesse. Não tinha ninguém perto, era a minha chance de desabafar de novo o quanto eu o repudiava. Contudo, infelizmente, dessa vez eu não consegui me livrar de você. Foram as piores semanas da minha vida. Com você e só com você; mais ninguém. Aquele maldito cuco conseguiu expulsar todos.
Desde sempre você nunca me deu descanso. Nos meus aniversários era pior ainda. Fazia questão de me lembrar que tinha você o tempo inteiro. Investigava usando das formas mas doentias para descobrir o que eu queria. Mas.. Na vez passada você não perguntou a ninguém. Sequer pesquisou. cinco dias antes da comemoração, você me deu uma carta, um envelope gordo e selado com uma flor. Pediu que não abrisse até o meu aniversário, que era importante. Qual era mesmo a cara que você estava fazendo? Não prestei atenção. O tomei de má vontade e joguei em cima da cômoda. Depois daquilo você me abraçou e se despediu. Disse alguma coisa sobre boas lembranças e quando chegou na minha casa. Eu não te vi mais depois daquilo. Ninguém mais viu. Eu também não abri a carta. Toda vez que eu penso em fazê-lo meu estômago dói e eu quero vomitar.
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