Starts with one

I can't feel

It's all in your mind anyway

I can't heal

Make me feel this way

Segurei-me na beirada do prédio, com a respiração ofegante e minhas mãos suando. Uma espécie de nervosismo tomava conta não só de meu corpo, porém do local. Joseph tentava manter sua firmeza, mas era impossível. Sua única amiga se foi, e tudo que restara foi abandonado. Sua família, sua facção, sua casa. Talvez Julia, de fato, fosse a única lembrança dele. Prego meu olhar no chão, enquanto ouço os soluços de Joseph.

— Acho melhor você se recompor, nerdzinho. Isso não é nada. — Amah sussurra no ouvido do garoto e nos entreolhamos. Desvio o olhar, desconfortavelmente. Por fim, o instrutor virou-se para todos os iniciandos.

— O único jeito de vocês chegarem no complexo da Audácia é pulando daqui. Então, quem se habilitará a ser o primeiro?

— Vocês são malucos? Acabamos de pular de um trem, agora querem tentar nos matar de novo? — soltou um garoto transferido da Erudição.

— Está com medo? Arque com sua escolha, ou desista. Como um covarde.

O garoto deu de ombros e o silêncio tomou conta do local, até Clary, a garota com a tatuagem de um leão, pigarrear. Deu três longos passos, encarando Max e Amah por longos segundos.

— Não temos a noite toda, Clary. — Max disse, coçando a nuca, num sinal de desconforto. Ela ignorou o comentário e apoiou suas mãos na beirada do prédio. Já em pé, olhou pela última vez para trás e sorriu, um sorriso bobo e desafiador. E seu corpo desapareceu na escuridão.

Ficamos em silêncio até ouvir a voz de uma mulher anunciando a chegada da garota. Todos começam a bater palmas e a gritar e por um momento, me sinto avulso. Gosto da energia que a Audácia me proporciona, do calor das pessoas daqui e da recepção, mas ainda sinto-me segregado. Ignoro o pensamento quando vejo Joseph alcançando Amah e sem hesitar, pular. Franzo o cenho.

— Joseph Morgenstern, segundo a pular!

Dou um passo para frente, ainda pensando na possibilidade ser o próximo a pular. Entretanto, não há mais tempo a perder, e minha decisão já estava tomada: eu iria pular. Caminhei, pensando mais uma vez na minha vida antiga. Meu suor após as agressões de Marcus, o vaso azul de minha mãe, os trajes cinzas da Abnegação e uma vida altruísta.

Tudo isso deixado para trás em uma fração de segundos.

— O Careta! Terceiro a pular.

+++

Quando todos já tinham pulado, dividimo-nos em dois grupos: os nascidos na Audácia e os transferidos. Amah descrevia o local, como um guia e seu rosto exprimia uma sensação de cansaço, como se já tivesse feito aquilo por várias e consecutivas vezes. Segundo ele, o local onde estamos é o Fosso, uma espécie de túnel repleto de rochas irregulares que sustentam o local. O teto, era feito de vidro e nele conseguíamos ver as estrelas, e a luz da lua se refletia no rosto de Clary. Enquanto caminhávamos, pus a mão nas pedras, que eram frias e pareciam estar molhadas. Ele explicava cada ponto cautelosamente, até chegarmos ao abismo, onde pessoas passavam por perto sem a mínima preocupação. Minha mãe chamava-os de imprudentes, hoje, eu entendo o por quê. Assim que atravessamos o local, entramos numa sala que, relativamente, é bem ornamentada. É grande e no meio dela há uma pequena caixa preta.

— Ok, isso foi surpreendentemente divertido, não acha? — disse a garota da Amizade que enfrentara Amah ainda no trem, e que agora cutucava um garoto da Franqueza. Por um momento franzi o olhar. Os princípios da Franqueza e Amizade são altamente antagônicos, fazendo com que os membros tenham uma espécie de repugnância em relação as pessoas da outra facção. Acordei do devaneio quando percebi que esta era uma nova facção: novas regras, nova casa, novas pessoas. Ainda não me acostumei com isso.

— Como? A alguns minutos atrás você estava reclamando sobre toda essa trajetória, Mia. Isso é uma espécie de paradoxo?

— Eu não pensaria que algo tão perigoso me traria essa coisa que eu nunca senti antes na Amizade.

— Adrenalina? Claro, até mesmo porque as pessoas da Amizade não fazem nada de interessante a não ser distribuir a comida para as outras facções.

— Cale a boca, Luke. Não estou pronta para falar mal da minha antiga facção.

— Desculpa, eu só não consigo esconder a verdade.

— Existe uma grande diferença entre esconder a verdade e ser um idiota. — a garota vira-se e prende seu olhar nos meus. Encaramo-nos por segundos, até o instrutor parar-nos, e ao seu lado, encontrarmos o grupo de nascidos na Audácia junto a Max. Amah acenou para todos os iniciandos e agora todos estavam em silêncio.

— Muito bem. Meu nome é Amah, e eu serei o instrutor de alguns de vocês. Diferentemente das outras facções, sua iniciação já está sendo realizada, caso não tenham percebido. Seguindo a ordem cronológica, hoje deveriam se alojar e amanhã de manhã, começaríamos o teste físico. Mas desta vez, iremos testar algo diferente. Começaremos testando seus medos, a fim de fazer com que conheçam si mesmo e, ao mesmo tempo, fazer com que nós o conheça.

— E se eu não estiver a fim de me conhecer?

— Então faça suas malas e saia daqui, Zeke. — Amah o repreendeu.

— Quer saber? Dane-se. Eu vou começar com isso.

A ideia de encarar meus medos faz com que eu sinta um calafrio percorrer minha espinha. Vivi todo a minha vida tentando reprimi-los e agora terei que enfrentá-los. Mas a verdade nua e crua é que eu não posso mais ignorá-los, ou ignorar as marcas que carrego em todo o meu corpo em consequência a esses medos. Sou uma nova pessoa; sou corajoso.

Zeke, o garoto nascido na Audácia é o primeiro. Vejo Amah inserir o soro nele e percebo as reações agitadas dele. Fico inerte por vários minutos, até ver Zeke acordado. Aguardo todos os iniciandos entrarem na simulação e saírem. Alguns saíam atordoados, enquanto outros apenas choravam. Embora esteja assustado, não posso recuar agora. É tarde demais para fazer algo, a não ser esperar.