SelflesSelfish
1 Oneshot
Em dias de chuva as pessoas costumam se abrigar em algum canto. Isel nem havia saído de casa. Enrolado num edredom em algum canto de seu quarto, ele olhava para o celular com uma expressão complicada, e se perguntou:
"Eu ainda tenho amigos?"
Oh, garanto que Isel tinha suas razões pra pensar isso. Ele tinha a impressão de que as pessoas que ele considerava importantes aos poucos foram se tornando fora do seu alcance. A garota com que passava horas conversando, sem que nenhum dos dois cansasse... Agora não conseguiam ao menos manter uma conversa curta sem o clima ficar desconfortável e um dar uma desculpa pra ir embora, quando se encontravam por coincidência.
Coincidência era a única forma de encontrar essas pessoas agora. Afinal, se não conseguem se comunicar, como podem combinar de se verem? Se não conseguem mais manter conversas, por que combinariam algo, em primeiro lugar?
"Até mais" pode ser uma forma suave de dizer adeus. Você não está dando esperanças de que vão se encontrar novamente, como em "até a próxima". Há um "se" muito maior. Algo como "nos vemos por aí, se a vida tiver ainda tiver mais alguma coisa pra nós". Bem, apesar de pensar assim, ele nunca pesquisou realmente a origem dessas despedidas. Gastou muito mais tempo se preocupando com as pessoas que deixavam ou chegavam em sua vida.
No final das contas, a definição de "amigo" de cada pessoa varia. Pra alguns, é algo com significado muito profundo, e não chamam qualquer um assim. Pra outros, pode ser o cara da padaria que costuma perguntar como você está enquanto atende seu pedido quando você vai pra lá com um café na mão antes de ir fazer as coisas que acredita que deve fazer, porque sua cara não é muito de alguém que se alimenta bem. Oh, nem todo mundo gosta de café? Nem todo mundo vai a padaria, sai de casa ou etc etc? Fazer o quê, Isel só precisava de um exemplo que transmitisse o que ele queria dizer, e é mais fácil tirar significado de coisas familiares.
Ele sabia que ainda tinha pessoas que podia chamar de amigos e não sentir insegurança. Ele sabia que ainda tinha gente importante pra ele ao seu lado. Ele sabia, mas... Passar por alguém, chamar o nome dessa pessoa e receber um olhar desconfiado que diz "Quem é você? Por que você tá falando comigo?", ou pensar em como as coisas poderiam ter sido você não tivesse se tornado distante de alguém, ou tantas outras situações relacionadas, é algo absurdamente doloroso pra alguém que já passou por algo assim várias vezes, e continua passando. Ele perdia pessoas e elas se tornavam fora de alcance sem sequer terem morrido. Mas por outro lado, era como se um tivesse morrido pro outro, não era? E ainda assim, ocasionalmente era possível observá-las vivendo.
Uma mensagem apareceu na aba de notificações do celular, e fez uma montanha de outras não lidas aparecerem também. Isel suspirou, com vontade de bater a cabeça na parede, mas decidiu por não mover um centímetro.
Também havia pessoas que tentavam manter contato com ele, mas ele não conseguia corresponder o esforço. No final das contas, Isel era parecido com as pessoas que lhe deixavam.
...Algo lhe tirou de seu estado de inquietação que começou com essa percepção, um lembrete do telefone. "Ir para a escola de artes" apareceu na tela pela terceira vez naquele dia, e ele esboçou um sorriso de alívio. Não precisaria deixar aqueles pensamentos lhe pertubarem mais. Ele podia simplesmente esquecer tudo de ruim com o que gostava. Se desenrolou do edredom, verificou se a roupa que havia colocado pra sair antes de começar a chover estava ok, calçou seus sapatos favoritos, pegou um guarda-chuva e saiu.
Porque, apesar de em dias de chuva as pessoas costumarem buscar abrigo, o dele só poderia ser alcançado se seguisse em frente.
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