Seize The Day
1 Prólogo
O carro aonde eu estava corria desenfreadamente pela noite, sob a guarda da luz da lua que me dava um aspecto fantasmagórico. Eu mirava a lua, porém não pensava, não falava, porque eu não era capaz de fazê-los, A única coisa que estava convicto era que, de alguma forma, estava voltando para casa.
Ao contrário do esperado, eu tinha o rosto rabiscado pelos caminhos de minhas lágrimas. O cinto me comprimia loucamente contra o banco, um desconhecido motorista obrigava-me a manter os olhos postos na margem da estrada em Nova Jersey. Cada parte do meu corpo que eu podia sentir pulsava medonhamente. Eu sabia porque, mas não queria recordar-me. Estava em perfeita agonia e lamentei que ele não pudesse me ver. Tenho certeza que meu estado o agradaria.
Repentinamente o carro parou, os pneus castigaram o asfalto. O motorista soltou o cinto e saiu do veículo. Eu solucei alto, com medo, enquanto a luz da lua recusava a me consolar. Ele agarrou a maçaneta da minha porta e e afastou-a. Tateei debilmente onde prendia-se a fivela do cinto e o desfiz a tempo. A tira recolheu-se ao mesmo tempo em que o homem agarrou minha camisa surrada e rasgada. Atirou-me contra o chão e eu gemi. Tudo doía demais e não julguei necessário o tipo de tratamento.
Fiquei imóvel, jogado contra o capim seco à margem da estrada, sentindo as folhas me pinicando. Ouvi o carro dar partida, acelerando ruidosamente pela noite, finalmente abandonando-me.
Não sabia que lugar era aquele, contudo tinha plena consciência que eu precisava de água, comida, cobertores, um bom banho e, acima de tudo, que Pierre estivesse aqui, bem pertinho de mim. Ao relembrá-lo, encolhi-me infantilmente e comecei a ter uma crise abobalhada de choro. Eu não sabia também, como, aonde ele estava, embora soubesse que em qualquer lugar que fosse, ele me amava e me aguardava. Fechei os olhos uns segundos, sentindo as lágrimas caindo no meu rosto e me imaginei sendo apertado pelos braços fortes e protetores de Pier, me sentindo aquecido pelo calor do corpo dele.
Juntei a dor, as necessidades e a exaustão para poder permitir-me um desmaio suficientemente digno. Apesar das circunstâncias, acordei, e ainda era escuro. Não tive vontade de me erguer, se eu apodrecesse ali, poucos notariam minha falta. No entanto, assentei-me. Minha cabeça rodava tanto que me desnorteou a razão. Recomecei a chorar, apavorado de cansaço, até parar e reprimi-lo melhor. Estava tudo escuro. Quse não via nada. Estava tudo muito frio, de tal modo que chocalhava e batia o queixo. Sentia medo.
Levantei-me cambaleante. Não gostava da idéia de encarar a rodovia: ela não parecia ter nem início nem fim. Estendia-se de um horizonte a outro. Em algumas horas, ou assim me pareceu, vi uma luz. Não conseguia gritar por causa do choro e dos soluços.
Arranhei-me no arame farpado que cercava a propriedade, todavia não me importei, já estava todo ferido mesmo. Sabia que o dono da casa ficaria assustado comigo, por ventura me expulsasse, recuei, nervoso. Não queria ficar pior do que estava psicologicamente. Mas eu simplesmente não suportava mais.
Subi as escadas que davam para a varanda da frente e caí de joelhos no tapete que me dava boas-vindas. Fiquei ajoelhado, chorando muito e talvez isso tenha comovido a senhora de idade ao abrir a porta.
Dentro de casa, anunciavam o desaparecimento de David Desrosiers pela TV. Anunciavam meu seqüestro. Tive que admitir que as pessoas pareciam se importar comigo. A senhora me ajudou a entrar em casa, por mais que precisara de andar de joelhos. Estava fraco, como jamais estivera. Havia tumulto na sala principal alguns segundos após eu tê-la adentrado. Como esperava, ou melhor, desejava imensamente, envolveram meu corpo num grosso cobertor, que chegava a ser pesado. Olhei para o televisor.
Em uma entrevista feita com meus companheiros de banda, Pierre apalava encarecidamente que me libertassem. Não imaginei que era capaz de chorar mais, mas só de vê-lo ali, pálido e desorientado, tanto quanto eu, meu coração apertava. Muito do que eu sentia por ele estava abalado dentro de mim, um sentimento de culpa.
Fui educadamente convidado a hospedar-me num dos quartos da casinha. Permitiram que eu usasse o telefone. Disquei o número do celular de Pierre. Como eu tremia, chorava e soluçava, tudo ao mesmo tempo, tive dificuldade de ouvir os sons das chamadas.
-Alô?! – atendeu Pierre, com a voz falhando.
Eu só chorei. Esperei muito tempo, mas Pierre não desligou.
-Dave?... – o sussurrou dele veio de longe, fraquinho, lacrimoso.
- Pierre, onde v-você está-á? – gemi.
- David, pelo amor de Deus, onde você está, Dave? – soluçou meu namorado do outro lado da linha. — Como você está?! Dave...? David, responda!
- Pierre, onde você está? – repeti, firmemente, dentro das possibilidades.
-Estou numa delegacia com o Chuck, viemos saber se acharam você... Dave, calma! – ele tentou acalmar-me quando eu soltei um soluço de histeria. Eu queria muito vê-lo e perdia a razão ao saber que ele estava se empenhando para me encontrar. – Escute: eu te amo e em breve vou estar com você, mas para isso eu preciso que me diga onde está. Está no cativeiro ainda?
- Não. – sussurrei em resposta. – Não sei onde estou, uma família me acolheu. Pier, me ajuda!... eu estou machucado, dolorido... não estou passando bem, preciso de você...
- Se acalme, honey. Estarei aí se puder falar com os donos da casa. – garantiu ele.
- Okay... – demorei na linha e explodi a pergunta que martelava minha cabeça: — Pier, independente do que aconteceu comigo... você vai me amar?
- Óbvio, Dave!- exclamou ele com a voz embriagada de choro. Por que me pergunta isso?, você sabe que eu te amo!
Eu não respondi, passei o telefone para a mulher que me acolhera, chorando mais ainda.
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