Lancaster, 1993

"Olá, em que posso ajudá-la?"

Olhei assustada na direção de onde vinha essa voz doce e receptiva e vi que era de uma moça que estava bem ao meu lado, olhando-me fixamente nos olhos e com um sorriso de bochecha a bochecha. Ela era bonita, muito bonita. Não aparentava ser muito mais velha do que eu, dois anos no máximo. Vestia um uniforme listrado branco e rosa e tinha seus cabelos loiros atados em um rabo de cavalo alto.

Notei que ela havia mudado sua expressão facial, então me dei conta de que eu tinha fitado-a por tempo demais, ou talvez que ela estava esperando alguma resposta minha.

"Oi?" perguntei sem jeito, para que ela repetisse sua possível pergunta

"Posso ajudá-la?"

"Ah, sim, bem... quero qualquer coisa para queimadura" falei, ficando nervosa de repente

"Está tudo bem? Você se queimou?"

Apertei meu braço, sim, era verdade, eu havia me queimado. Mas o meu machucado não era realmente nada comparado com o que eu causara (sem mesmo lembrar como) em minha irmã, e era para ela que eu queria algum remédio.

Eu tinha que dar um jeito de amenizar suas cicatrizes antes que meus pais voltassem de Londres. Afinal, me meter em mais confusão não era uma boa quando estou tentando convencê-los de que e eu era responsável o suficiente para fazer intercambio assim que fizesse dezesseis anos.

"Sim, um pouco só..."

"Oh, deixe-me ver" disse ela parecendo realmente preocupada para uma garota que estava ali apenas com a intenção de me atender e parecer feliz por fazer isso

Ela estendeu sua mão para o braço que eu estava apertando. Me afastei.

"Hm... Eu... Eu..." fiquei extremamente nervosa, sem conseguir falar direito

"Desculpe, tudo bem se não quer que eu veja... Que indecência a minha, desculpa mesmo"

"Não, tudo bem... É só que preciso rápido do remédio e ir para casa..."

"Certo já volto com o remédio, qualquer coisa grita, me chamo Naomi"

"Obrigada"

Naomi se afastou, entrou em uma sala atrás de um balcão e logo a perdi de vista. Resolvi me sentar, era normal eu estar cansada, hoje é sábado e estou em uma farmácia às oito da manhã. Apertei firmemente meu braço contra meu corpo. Notei que eu estava tremendo.

Minutos depois, quando eu já estava mais calma, pude ver a imagem de Naomi vindo em minha direção, com uma caixinha branca em suas mãos. Assim que ela se aproximou levantei-me e me pus de pé, esperando por ela, que parou bem na minha frente e estendeu-me aquela caixinha retangular.

"Aqui está, srtª..."

"Sarah" completei

"Ok, Sarah, aqui está seu remédio. Melhoras, viu?" disse Naomi, parecendo um pouco encabulada

Afastei minha mão, já segurando o remédio, e me dirigi ao balcão do caixa.

"Bom dia" a mulher me recebeu

"Oi, só isso" entreguei-lhe o remédio, ao ver que ela perguntaria alguma coisa me antecipei "Sarah Harvey, sim, já sou cadastrada na loja"

Ela digitou algumas coisas no computador e falou-me o preço. Assim que paguei e peguei a sacola, dirigi-me para a saída da loja.

"Tchau, Sarah" disse Naomi, que estava na porta

"Tchau..." tentei sorrir, mesmo achando que não tive muito sucesso

Finalmente saí porta a fora.

Assim que cheguei em casa fui correndo para o quarto da minha irmã. Vi sua cama arrumada, sua câmera fotográfica acima dela, a janela aberta, uns ursos de pelúcia espalhados, seus desenhos na parede, ou seja, tudo normal, menos o que eu queria: minha irmã, Helena.

Fui para a cozinha, sala, quarto dos nossos pais, em cada canto da casa e nada da minha irmã, nada de ninguém. Fora eu, a casa estava aparentemente vazia. Mas não pode ser, não pode. Minha irmã não sai assim, quer dizer, ela simplesmente não sai.

Ouvi um barulho, passos, e logo em seguida uma porta rangendo. Eu não estava sozinha. Resolvi gritar, perguntando por Helena, porém desisti ao lembrar-me que ela não ouviria de qualquer modo. Os passos estavam cada vez mais próximos, quero dizer, cada vez mais acima de mim. Já que eles vinham do segundo andar, onde ficavam os quartos, e eu estava na sala de estar, primeiro andar.

Os passos cessaram repentinamente. Ouvia-se apenas uma respiração ofegante. A minha. Eu estava com medo. Sempre tive isso, sabe? Medo...

Sem fazer muito barulho resolvi subir as escadas, afinal quem quer que esteja ali, poderia estar com a minha irmã e isso eu não permitiria. De jeito nenhum.

Logo quando cheguei no segundo andar ouvi um cantarolar desajeitado, uma tentativa desajeitada de melodia. Helena. Eu tinha certeza de que era ela. Corri para seu quarto, de onde vinha o som que ela estava emitindo.

Chegando na porta, a vi. Minha irmã, minha Helena, sentada em sua cama, mexendo em sua máquina fotográfica, normalmente. Corri para abraçá-la e quando o fiz todo o medo desapareceu. Tudo aquele medo que eu inventara, que minha mente pusera em mim.

"Eu te amo" falei devagar, para que ela pudesse ler meus lábios, já que eu não me dava nada bem com libras

Ela sorriu, deduzi então que ela conseguira entender o que eu havia dito, o que me deixou feliz. Logo em seguida ela levantou sua mão direita fez um sinal parecido com o sinal que roqueiros fazem em shows de rock, porém com o dedão aberto também. Certo. Esse era o sinal que significava "eu te amo", e ela estava me lembrando disso. Eu ri, mostrando a língua para ela. E ela me retribuiu.

Quem a vê, fora pelas cicatrizes expostas no pescoço, não julga que ela estava machucada. As vezes, acho até que minha irmã não sente dores. Pois é difícil ver ela aparentando estar com dor ou algo assim.

Mostrei-a o remédio, a pomada que eu havia comprada para amenizar seja lá o que ela estava sentindo, ou não sentindo. Abaixei a manga esquerda de sua blusa, deixando aparecer toda a área onde ela havia se machucado. Onde eu havia a machucado, de alguma forma, que possivelmente eu nunca descobriria.

Peguei a pomada e abri-a, assim que passei um pouco onde estavam as cicatrizes, ela fez uma cara como de quem não gosta do que esta sentindo, talvez por estar encostando nas cicatrizes.

Quando terminei de passar, ela sorriu e me abraçou. Mesmo sem saber o motivo do abraço inesperado, o retribuí.

Coloquei Helena pra dormir, pois algo me dizia que ela não dormira nada essa noite, nem eu.

Sabe, eu tenho que parar com isso de não lembrar onde eu estava, ou o que eu fiz, sempre que algo sério acontece. Afinal, agora eu estava em uma cidade nova, tudo novo, casa, escola, amigos... Eu tinha que deixar o passado para trás, me afastar de todas as tragédias que sempre me perseguiram.

Depois que tive certeza de que minha irmã havia dormido resolvi descer e fazer alguma coisa, para poder parar de pensar, já tinha me cansado de fazer isso, e realmente não tem me ajudado em nada. Ao chegar na cozinha, notei o estado daquela peça, estava toda bagunçada, inundada. Como eu não havia notado?

Foi então que notei: fogo. Ou melhor, alguém tentando apagá-lo. Mas antes disso, alguém colocando fogo na casa, deixando cicatrizes em minha irmã. Não, não estávamos à salvo. E algo queria nos ferir.

Fui até a despensa e peguei alguns panos que encontrei por lá, não tinha grandes coisas, já que havíamos nos mudado não fazia nem um mês para aquela casa. Voltei para dentro de casa e me dirigi para a cozinha. Ao ver como estava tudo fiquei boquiaberta. Não podia ser, aquilo não era verdade. Ouvi passos na despensa, bem de onde eu tinha estado a pouco tempo. Tinha alguém na casa ainda. E esse alguém fez questão de limpar a bagunça que causara.

Novamente ouvi passos. E meu coração bater acelerado. Passos. Meu coração. Passos. De repente um vulto. Eu havia visto. Eu sabia que era a pessoa que entrara na casa, só podia ser. E agora se encontrava em algum lugar do pátio, ou já fora embora. Mais passos. E meu coração mais acelerado do que nunca. Aqueles passos estavam perto. Do lado de fora da casa, porém perto. Uma respiração pesada. Como assim? A pessoa não estava tão perto assim para que eu pudesse ouvir o seu respirar. Tinha outra pessoa, bem mais perto de mim, dentro de casa. Atrás de mim.

Virei-me rapidamente e vi. Novamente o medo estúpido me pregara uma peça. Era Helena quem estava ali parada próxima a mim. Minha irmã. Só minha irmã. Isso me deixou aliviada. Mas ao lembrar que lá fora tinha alguém, tornei-me a ficar nervosa. Aqui dentro estávamos eu e minha irmã. No pátio de casa... Nem eu, nem ela sabíamos quem estava.

Corri na direção de Helena e beijei-a na testa.

“Oi amor, você me assustou, achei que estava dormindo” falei mesmo sabendo que ela não poderia ouvir

Subimos em direção de seu quarto a fim de fazê-la dormir e voltar para baixo para descobrir quem era o tal intruso. Deitei-a em sua cama e sentei ao seu lado, fazendo cafuné em seus cabelos dourados, até ter certeza de que ela havia dormido.

Assim que pude levantei-me, cuidando para não fazer a cama balançar, para não acordá-la. Dirigi-me à janela para ver se tinha alguém em volta da casa. Dito e feito. Lá estava ele, eu tinha certeza de que era o mesmo homem. Vestido de preto, todo de preto, talvez um uniforme. Mas o que ele fazia ali? Que idiota invadiria uma casa e ficaria parado na frente dela esperando ser visto?

Não faz sentido, não ser que o idiota em questão queira ser visto.

Desci correndo as escadas, tomada por uma coragem que parecia não me pertencer. Eu queria descobrir quem era aquele cara. O que ele queria ali. Porque havia posto fogo na minha casa. Principalmente, porque pôs a minha vida e a da minha irmã em perigo.

Saí de casa e nada mais estava lá. Quero dizer, a casas, os vizinhos, tudo estava ali. Menos o que eu queria encontrar. Nenhum homem suspeito. Nenhum homem vestido somente com preto. Nenhuma pista de onde ele poderia ter ido.

Voltei rapidamente para dentro e fechei todas as portas. Que ótimo isso, mal chegamos na cidade e já sinto que algo quer nos ferir. Ou, quem sabe, até matar.


Notas finais
Comentem :c
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.